Natureza e Consequência

Natureza e Consequência

Jorge Pinheiro 4

 

Dr. Jorge Pinheiro

Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão Deus.
Bem-aventurados os pacificadores porque eles serão chamados filhos de Deus.

(Mateus 5:7-9)
Esta é uma porção das Beatitudes ou Bem-aventuranças, que dão início ao que é considerado o primeiro grande sermão de Jesus – o Sermão no Monte. Mais concretamente, por sua ordem de enunciação, a quinta, a sexta e a sétima.

As Bem-aventuranças são em número de oito (ou nove, se subdividirmos a última em duas) e apresentam todas a mesma estrutura:

• Declaração de bem-aventurança (bem-aventurados).
• Caracterização ou natureza da bem-aventurança (os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores).
• Justificação e consequência dessa bem-aventurança (porque alcançarão misericórdia, porque verão Deus, porque serão chamados filhos de Deus).

Concluímos assim que, usando a primeira destas bem-aventuranças como exemplo, a consequência de sermos misericordiosos é alcançarmos misericórdia. Este mesmo raciocínio pode ser aplicado a todas as bem-aventuranças e as conclusões seguirão o mesmo padrão.

Também poderíamos enunciar a bem-aventurança em sentido inverso e, assim, teríamos:

• só alcança misericórdia quem for misericordioso;
• só verá Deus o que for limpo de coração;
• só poderá ser chamado filho de Deus o que for pacificador.

De uma maneira ou de outra, podemos sempre concluir que a característica ou natureza da bem-aventurança (os misericordiosos, os limpos de coração, os pacificadores) e a consequência (alcançar misericórdia, ver Deus, ser chamado filho de Deus) estão interligadas e interdependentes – uma não existe sem a outra.

Ou seja:

• só podemos alcançar misericórdia se formos misericordiosos;
• só podemos ver Deus se formos limpos de coração;
• só podemos ser chamados filhos de Deus se formos pacificadores.

Há, então, um apelo a adquirimos essa característica, essa natureza para podermos alcançar a sua consequência.

Convenhamos que é agradável gozarmos as consequências prometidas e garantidas mas que nem sempre é fácil obter e permanecer nessa característica. Ou seja, se não formos limpos de coração, só poderemos ver Deus se houver uma mudança da nossa natureza. Se isso não se verificar, se não nos esforçarmos por adquirir uma nova natureza, nunca poderemos alcançar o alvo desejado.

Tenhamos sempre presente: uma (a natureza) não pode passar sem a outra (a consequência) – elas estão interligadas, elas são interdependentes.

Podemos também concluir que, mais do que uma promessa, o resultado, a consequência é uma garantia que nos é dada.

Ou seja: podemos ter a certeza de que veremos Deus se formos limpos de coração, de que alcançaremos misericórdia se formos misericordiosos, de que seremos chamados filhos de Deus se formos pacificadores.

Um segundo aspecto que gostaria de abordar é o contexto maior destas bem-aventuranças. Elas inserem-se na grande mensagem que foi o tema central do ensino de Jesus – o Reino de Deus (ou dos céus).

Logo na primeira bem-aventurança, o Reino dos céus está presente – Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus. A mesma expressão surge na última bem-aventurança: Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.

Ou seja: as bem-aventuranças começam e acabam com uma referência ao reino.

Mas se avançarmos, verificamos que todo o restante Sermão no Monte está repleto de referências ao Reino dos Céus que é nele todo caracterizado.

Na própria oração do Pai-nosso, a oração mais conhecida da cristandade, do cristianismo e do mundo em geral, encontramos a referência ao Reino. Ela também começa e termina com referência ao Reino: Venha o Teu reino e: Porque Teu é o reino, o poder e a glória.

E ao longo do restante ministério de Jesus, nas Suas parábolas e nos Seus outros sermões, a referência ao reino é uma constante.

E tal como as Bem-aventuranças e o Pai-nosso começam e acabam com uma referência ao reino, assim também a vida de Jesus. Ela começa com a pregação do arrependimento porque é chegado o Reino, e termina com a Sua entronização na cruz de vergonha e dor. Sobre ela, a declaração: Jesus Nazareno, rei dos Judeus (João 19:19).

Todo o reino (ou país) tem uma constituição que é um documento legal dos direitos, deveres, liberdades e garantias dos cidadão pertencentes a esse reino. De igual modo, podemos dizer que o Reino de Deus se rege por uma constituição. Não nos custa admitir que o Sermão no Monte se ergue como essa constituição e que as Bem-aventuranças são o seu preâmbulo.

Ao descermos ao pormenor e à natureza das Bem-aventuranças, fácil é concluir que o cidadão do Reino de Deus se caracteriza:

• não por aquilo que tem mas por aquilo que é;
• não pelo contingente mas pelo que é permanente;
• não pela aparência, mas pela essência;
• não pelo conjuntural mas pelo estrutural;
• não pelo transitório mas pelo permanente;
• não pela forma mas pelo conteúdo;
• não pelo provisório mas pelo consistente.

Bem-aventurados os misericordiosos, os que têm um coração inclinado à miséria, os que não viram as costas à miséria, mas elevam ao nível do coração os que vivem na miséria;

Bem-aventurados os limpos de coração, aqueles que no mais profundo do seu ser e não apenas à superfície, são limpos, sem mancha, sem sujidade;

Bem-aventurados os pacificadores, os que não apenas ficam e vivem em paz no meio das maiores tormentas, mas os que promovem a paz, levando a paz, o bem-estar a um ambiente desestruturado e alienado.

Porque se queremos ser bem-aventurados, tenhamos então um coração aberto à miséria alheia, vivamos uma vida íntegra e pura, guiada por valores perenes, sejamos promotores da paz, porque assim alcançaremos misericórdia, veremos Deus, seremos chamados filhos de Deus.

Ele será chamado pelo nome de EMANUEL

Ele será chamado pelo nome de EMANUEL

2018julho21 Casamento Ana

 

Samuel R. Pinheiro

É assim que no primeiro evangelho assinado por Mateus, logo na sua introdução, este nome é atribuído ao Filho de Deus, que nasceria pela ação do Espírito Santo no ventre da virgem Maria. Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito pelo profeta: A virgem ficará grávida e dará à luz um filho que se há-de chamar Emanuel. Emanuel quer dizer: Deus está connosco.” (Mateus 1:22,23 – BPT)
Toda a Bíblia mostra que Deus nunca virou as costas ao homem e à mulher, criados à Sua imagem e semelhança. O homem preferiu fazer o contrário do que Deus lhe tinha dito para fazer, ao comer da árvore da ciência do bem e do mal. Nada diferente do que todos nós continuamos a fazer. A partir da primeira desobediência no jardim do Éden o comportamento do homem e da mulher, precipitou-se afastando-se cada vez mais da vontade divina. O problema do homem não consiste em não saber como deve viver. Tem uma consciência que lhe serve de bússola, tem os dez mandamentos e a revelação bíblica das consequências tipificadas na vida de homens e de mulheres em vários momentos e contextos.
A questão é mais profunda. Está dentro da sua natureza espiritual, no que o homem é. E isso não se muda pela parte de fora. Não basta a educação e a instrução, a doutrinação ou os constrangimentos socioculturais.
No plano divino a solução passava pela presença de Deus entre os homens, pelo Emanuel – Deus connosco! Jesus apareceu entre nós. Nasceu como todos os homens. Comeu à nossa mesa. Multiplicou e partiu o nosso pão. Bebeu do nosso vinho. Sentou-se à mesa com religiosos e pecadores. E, finalmente, usou o pão e o vinho como símbolos do Seu corpo e do Seu sangue, na Sua morte. Sim, experimentou a nossa morte. Não tinha de morrer, como não tinha de nascer como homem. Não tinha de ser rejeitado e ofendido. Não tinha que usar uma coroa de espinhos. Não tinha que ser julgado por um tribunal injusto. Não tinha que enfrentar políticos corruptos. Não tinha que responder às insinuações preconceituosas e hipócritas dos aparentemente poderosos. Não tinha que chorar as nossas lágrimas. Não tinha que ser acusado de fazer o que fazia pelo poder dos demónios. Não tinha que ser pendurado numa cruz. Não tinha que ser depositado num túmulo.
Mas veio. Não se poupou a nada. Sofreu tudo o que de pior poderia ter experimentado, às mãos das Suas criaturas. Com uma só palavra, um só gesto, um só pestanejar poderia reduzir a pós os Seus detratores. Mas como o profeta Isaías escreveu cerca de séculos antes da crucificação de Jesus: “O seu aspecto não tinha qualquer atractivo. Era desprezado e abandonado pelos homens, como alguém está cheio de dores e habituado ao sofrimento, e para o qual se evita olhar. Era desprezado e tratado sem nenhuma consideração. Na verdade ele suportava os nossos sofrimentos e carregava as dores, que nos eram devidas. Mas ele foi trespassado por causa das nossas faltas, aniquilado por causa das nossas culpas. O castigo que nos devia redimir caiu sobre ele; ele recebeu os golpes e nós fomos poupados. Todos nós vagueávamos como rebanho perdido, cada qual seguindo o seu caminho; mas o SENHOR carregou sobre ele as consequências de todas as nossas faltas. Foi vexado e humilhado, mas a sua boca não se abriu para protestar; como um cordeiro que é levado ao matadouro ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador, a sua boca não se abriu para protestar. Levaram-nos à força e sem resistência nem defesa; quem é que se preocupou com a sua sorte?”. (Isaías 53:3-8 – BPT).
Toda a crueldade, toda a injustiça, toda a maldade da raça humana está espelhada no modo como nós tratámos e nós ainda hoje tratamos a pessoa de Deus entre nós – Jesus Cristo, o Filho de Deus. De igual formam, do modo como O tratamos depende a nossa vida aqui e na eternidade. Se O aceitarmos e nos comprometermos com Ele temos a vida eterna. É aqui precisamente que o NATAL acontece. Jesus veio para mudar-nos por dentro, e levar-nos a uma nova vida. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Essa imagem e semelhança estão espelhadas de forma única em Jesus Cristo. É Nele e por Ele que essa imagem e semelhança são restauradas. Nascemos para sermos filhos de Deus e termos em Deus o nosso Pai.

Samuel R. Pinheiro

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CONHECER DEUS

CONHECER DEUS
2018julho21 Casamento Ana

“Oh! Que possamos conhecer o SENHOR! Apressemo-nos a conhecê-lo! Responder-nos-á tão seguramente como o aparecimento da alva todas as manhãs ou como a chuva da primavera que rega a terra.” (Oséias 6:3)

Deus é pessoal – 3 pessoas numa unidade absolutamente perfeita. Não é simplesmente uma rubrica do conhecimento filosófico ou teológico. Não é um assunto, um silogismo, um somatório de ideias feitas, um dogma, uma teoria. DEUS É DEUS. Todo o conhecimento cognitivo que podemos ter Dele tem o seu lugar, mas CONHECER DEUS é muitíssimo mais do que isso.
Deus é espírito, luz, amor e santo que podemos conhecer pessoal e individualmente, porque somos imagem Dele – imago dei, porque a nossa mente foi criada de tal modo que O podemos entender e o nosso coração (alma e espírito, emoções, consciência e vontade) foram criadas de modo que nos podemos relacionar e percebê-lO. TENHAMOS TANTO DESEJO EM CONHECER A DEUS COMO ELE TEM EM SE DAR A CONHECER!
Não conhecemos a Deus pela genialidade da nossa inteligência, mas na sinceridade da nossa disponibilidade. “Encontrar-me-ão quando me buscarem de todo o vosso coração, com toda a diligência.” (Jeremias 29:13 – O Livro).
Todos O podemos conhecer com mansidão e humildade. Foi Jesus quem disse: “Aprendam de mim, porque sou brando e humilde”. (Mateus 11:29 – O Livro)
Dentro de cada homem e mulher há uma aspiração para conhecer Deus. Todos nos interrogamos acerca de quem somos, do nosso propósito e desígnio, de onde viemos e para onde vamos, o que é que estamos aqui a fazer. A humanidade pode apresentar várias alternativas, mas a resposta não se encontra dentro dos nossos limites. Nós não somos a razão de nós mesmos. Não nos criámos. Foi Agostinho de Hipona que declarou que fomos criados para Deus e só nos satisfazemos e realizamos Nele. “Tudo tem o seu tempo próprio e ainda que Deus tenha posto no coração do ser humano a ideia da eternidade, mesmo assim o homem não consegue atingir inteiramente o propósito das obras de Deus, desde o princípio até ao fim.” (Eclesiastes 3:11 – O Livro). Não, não fomos criados para a morte, nem fomos criados para a solidão cósmica. Não fomos criados apenas para nós próprios porque não nos bastamos. Deus não é um tapa-buracos, Deus é para a inteireza de todo o nosso ser: espírito, mente, coração, sentimentos, emoções, consciência e vontade, e para o nosso corpo. Deus é para a totalidade da nossa vida individual, familiar, eclesial, profissional, cultural e de lazer.
Tudo à nossa volta nos fala acerca de Deus. Do mesmo modo como uma pintura fala do pintor ou a escultura fala do escultor. Algumas vezes parece que perdemos o sentido de nos deslumbrarmos diante da natureza, da imensidão do mar, de um nascer ou de um pôr-do-sol, de um botão de uma flor. O conhecimento acerca do que nos envolve não substitui o Criador de todas as coisas, do mesmo modo como a explicação de como funciona um relógio não nega a existência do relojoeiro.
“Os céus expressam a glória de Deus
e o firmamento demonstra a obra das suas mãos.
Cada dia transmite mensagem ao dia seguinte
e cada noite compartilha conhecimento a outra noite.
Não pronunciam discursos, nem palavras,
nem fazem ouvir a sua voz.
Contudo a sua mensagem vai por toda a Terra, até às suas extremidades;
o Sol mora nos céus, que Deus fez como uma tenda para ele.
Atravessa o firmamento, levantando-se,
radiante como um noivo para o casamento,
jubiloso como um atleta, preparando-se para competição.
Atravessa o céu de ponta a ponta
e nada se pode furtar ao seu calor.” (Salmo 19:1-6 – O Livro)

“Desde a criação do mundo que os homens entendem e claramente veem, através de tudo o que Deus fez, as suas qualidades invisíveis: o seu eterno poder e a sua natureza divina. Não terão, portanto, desculpa de não conhecer a Deus.” (Romanos 1:20 – O Livro)

Dentro de nós a mesma voz se ouve. A natureza teria sido muito cruel se nos tivesse outorgado uma inteligência para chegarmos à conclusão de que tudo é um absurdo, sem sentido, propósito e desígnio. Temos uma inteligência com um maior ou menor coeficiente e temos uma inteligência emocional e espiritual suficiente para sabermos acerca de Deus. Como disse Pascal. “o coração tem razões que a razão desconhece”.
Mesmo o mal, o sofrimento e a dor nos falam de Deus por muito estranho que isso nos soe. Falamos de Quem sabe o que é padecer. Não à distância. Nunca como espetador. Ele visitou-nos no mundo real infestado pela maldade, pelo poder corrupto, inveja, homicídio, guerra, doença, discriminação, racismo, xenofobia e em que a própria ideia de santidade estava conspurcada pelo legalismo e pela hipocrisia. Os representantes de Deus não O conheceram entre nós e mataram-nO. Pensamos que nós faríamos tudo de modo diferente, mas como reagiríamos a quem denunciasse com a Sua vida os nossos segredos, motivações e intenções que escondemos de nós próprios e dos outros. Ele seria considerado hoje como está na ordem do dia, um hacker não informático, mas do nosso mais profundo íntimo. Tornaríamos tudo legal. Criaríamos as leis suficientes para que fosse condenado. Em defesa do nosso sistema e temendo a sua rutura, eliminaríamos a VERDADE em carne e osso. E voltaríamos a tentar prendê-lO à morte e ao túmulo. A história não se repetirá mas paulatinamente caminha para o seu clímax. JESUS VOLTARÁ EM GLÓRIA. A História que Deus delineou desde a eternidade cumprir-se-á e Deus viverá com o Seu povo como o último livro da Bíblia nos apresenta e alimenta a nossa esperança e expetativa. Ninguém, nenhum “dono disto tudo”, nenhuma potestade, nenhuma força, nenhuma arma nuclear ou química, O impedirá.
“Então vi um novo céu e uma nova Terra, porque o velho céu e a velha Terra tinham desaparecido, e o mar também já não existe. E depois vi, eu próprio, a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, de junto de Deus, esplendidamente bela, como uma noiva no dia do casamento.
E ouvi uma voz muito forte, que vinha do trono, dizendo: “Eis que a morada de Deus é agora entre o seu povo! Ele habitará com eles e eles serão o seu povo. Deus mesmo estará com eles. Limpará de seu olhos toda a lágrima e não haverá mais morte; nem haverá tristeza, nem choro nem dor. Tudo isto pertence, para sempre, ao passado.”
E o que estava sentado sobre o trono disse: “Estou a fazer tudo de novo!” E dirigindo-se a mim acrescentou: “Escreve o que te vou dizer, porque são palavras verdadeiras e dignas de toda a confiança.” E depois disse: “Está tudo cumprido! Eu sou o Alfa e o Ómega, a origem e o fim.” (Apocalipse 21:1-6 – O Livro).
Deus fala-nos na nossa língua, usando a nossa linguagem pela Sua palavra – o maior best-seller de todos os tempos e cuja influência em todos os domínios é impossível de medir. Da mesma forma que a nossa inteligência foi plasmada pela inteligência divina e assim podemos entender Deus, também a capacidade de comunicação nos foi dada para ouvirmos e percebermos o que Deus diz. Se queremos ouvir Deus basta abrirmos a Bíblia e escutarmos o que ela nos diz. Não basta ter a Bíblia na biblioteca, é essencial lê-la e vivê-la. Tudo o que precisamos saber está lá e não nos percamos em especulações interpretativas. Agradecemos a Deus por todos os que foram usados por Ele para meditar e comentar o texto bíblico. Mas verdade seja dita que não há nenhuma interpretação ou intérprete que possa substituir o texto da Bíblia. Pela Palavra inspirada, nesse cânone sagrado, recebemos fé para caminharmos com Deus, é-nos apresentado como fomos criados e o desastre provocado pela desobediência no exercício de uma liberdade que transformámos em prisão. Podemos argumentar que isso não é legítimo, que não está bem estarmos confinados a uma condição pela decisão de outros, mas a realidade é que todos nós decidimos do mesmo modo todos os dias, e podemos fazer o contrário e participar de uma nova realidade que num dia destes se tornará definitiva e plena. A Palavra de Deus é o nosso alimento espiritual e emocional: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” (Mateus 4:4 – O Livro). Ouvimos Deus pela Palavra e falamos com Ele em oração, intercessão, adoração, louvor e ação de graças.
“Porque toda a Escritura é inspirada por Deus e é útil para nos ensinar, para nos repreender, para nos corrigir, para nos instruir no caminho da justiça. Para que todo aquele que pertence a Deus seja reto e perfeitamente habilitado a executar o que é bom.” (2 Timóteo 3:16,17 – O Livro).
Deus nos fala presencialmente na História demolindo todas as barreiras e tomando a forma humana no ventre da virgem Maria. JESUS É A PESSOA CENTRAL DE TODA A BÍBLIA, toda a narrativa desagua Nele e o exalta. Chegamos aqui ao expoente de toda a revelação pessoal de Deus. É o tema por excelência e é a Grande História que a Bíblia nos apresenta. A divisão da nossa história, porque é também a linha de divisão entre o antes e depois de Jesus em nós. Esta a mensagem que distingue o Cristianismo. Deus tornou-se visível e palpável. Um mistério que não conseguimos decifrar. Mas que acolhemos na perspetiva de que somos muito maiores do que pensamos, porque somos geração de Deus e em Jesus somos feitos Seus filhos. Se queremos saber quem Deus é olhemos atentamente para Jesus Cristo. Só há um caminho para chegarmos ao Pai. Foi o próprio Jesus que o disse: “Ninguém pode chegar ao Pai sem ser por mim.” (João 14:6). Não há nenhum triunfalismo da nossa parte. Mas também só podemos viver a vida cristã no gozo desta verdade. Alegramo-nos e regozijamo-nos nesta certeza. A vida de Jesus foi atestada pelo sobrenatural e pelo miraculoso, e ainda hoje o Seu poder se manifesta segundo a Sua soberania. “Os discípulos de Jesus viram-no realizar muitos outros sinais além dos registados neste livro. Estes vêm aqui descritos para que creiam que ele é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo nele, tenhais vida em seu nome.” (João 20:30,31 – O Livro). Não há vida cristã sem o sobrenatural, ela começa de forma sobrenatural e se desenvolve assim. Jesus apresentou-se como EU SOU (o pão da vida; a luz do mundo; a porta das ovelhas; o bom pastor; a ressurreição e a vida; o caminho, a verdade e a vida; a videira verdadeira). Perdoou os pecados e aceitação adoração, curou os enfermos, multiplicou pão e peixe, saciou os famintos, tocou os intocáveis, ressuscitou os mortos. Foi acusado de ser amigo de publicanos e pecadores. “Vim eu, o Filho do Homem, e porque aceito ir a uma festa e beber o vinho que me é oferecido, logo se queixam de que sou comilão e beberrão e de que sou amigo de cobradores de impostos e pecadores!” (Mateus 11:19 – O Livro).
7 EU SOU

“EU SOU o pão da vida” disse Jesus em João 6:34.
“EU SOU a luz do mundo” disse Jesus em João 8:12.
“EU SOU a porta das ovelhas” disse Jesus em João 10:9.
“EU SOU o Bom Pastor” disse Jesus em João 10:11.
“EU SOU a ressurreição e a vida” disse Jesus em João 11:25.
“EU SOU o caminho, a verdade e a vida” disse Jesus em João 14:6.
“EU SOU a videira verdadeira” disse Jesus em João 15:1.
“Nunca ninguém viu a Deus, mas o seu Filho único, que vive na intimidade do Pai, esse revelou.” (João 1:18 – O Livro).
“Anteriormente Deus falou aos nossos antepassados de muitas maneiras por intermédio dos profetas. Agora, nos tempos que vivemos, falou-nos através do seu Filho, a quem deu todas as coisas e por meio de quem criou tudo o que existe. Este reflete a glória de seu Pai e é a imagem perfeita da sua pessoa. Ele mantém todo o universo pela autoridade da sua palavra. Tendo morrido para nos purificar da culpa dos nossos pecados, sentou-se à direita do Deus glorioso, nos lugares celestiais.” (Hebreus 1:1-3 – O Livro).
Por natureza e condição não gostamos do que Deus nos tem a dizer sobre nós próprios e a Sua presença nos mostrou e evidenciou. Somos pecadores. Pecamos. O pecado gera a morte e leva-nos ao inferno. O pior que pode acontecer a um homem é Deus entrega-lo a si mesmo e fazer a Sua vontade. A humanidade divide-se em dois grupos apenas: os que dizem a Deus seja feita a Tua vontade, e aqueles a quem Deus diz, seja feita a vossa vontade (Philip Yancey).
Mas o tratamento para a verdade que Deus nos apresenta custou a Ele o que nós não conseguimos atingir, e que é simultaneamente a dimensão do nosso problema. Deus assumiu o que de modo algum podíamos fazer por nós próprios. Jesus morreu a nossa morte, e Nele somos devolvidos à vida quando nos arrependemos (mudamos de perspetiva e de mente), e nos convertemos a Ele.
Só nos conhecemos a nós próprios quando conhecemos o nosso Criador e Redentor.
Só podemos voltar a ser o que fomos criados para ser quando conhecemos Deus em Jesus Cristo e O aceitamos como Salvador e Senhor.
O que Jesus nos veio proporcionar não é um código ético e moral, antes de tudo o mais e em primeiro lugar. A humanidade já tinha lei moral suficiente para perceber que não consegue viver à altura desses requisitos. Por isso o que nós precisamos é de um Salvador e Redentor. Para essa salvação e redenção Jesus morreu e ressuscitou. Quando O recebemos somos mudados interiormente. A isso Jesus chamou de novo nascimento numa conversa com um líder religioso, escrupuloso em todos os requisitos da lei. “É realmente como te digo: quem não nascer de novo não pode ver o reino de Deus:” (João 3:3 – O Livro). E o apóstolo Paulo que foi um religioso militante e radical escreveu: “Se alguém está ligado a Cristo transforma-se numa nova criatura; as coisas antigas passaram; tudo nele se fez novo!” (2 Coríntios 5:17 – O Livro).
Aqui reside a intransponível diferença entre a religião qualquer que ela seja e a pessoa de Jesus Cristo. A religião é o esforço do homem para alcançar a Deus, e Jesus Cristo é Deus tomando a iniciativa para se dar a conhecer pessoalmente. A religião diz faça, e Jesus Cristo diz-nos está feito. A religião considera que alcançamos a bem-aventurança futura através das boas obras, e em Jesus Cristo somos salvos por meio da GRAÇA. Graça é o conceito que distingue o evangelho como boa notícia. “Porque pela sua graça é que somos salvos, por meio da fé que temos em Cristo. Portanto, a salvação não é algo que se possa adquirir pelos nossos próprios meios: é uma dádiva de Deus. Não é uma recompensa pelas nossas boas obras. Ninguém pode reclamar mérito algum nisso. Somos a obra-prima de Deus. Ele criou-nos de novo em Cristo Jesus, para que possamos realizar todas as boas obras que planeou para nós.” (Efésios2:8-10 – O Livro). Deus propício em relação à humanidade mediante a cruz. A partir dessa experiência salvífica em que somos feitos uma nova criação, há uma nova vida a ser vivida. Aqui a ética e a moral são vistas de um modo diferente. A vida cristã resulta do novo homem refeito em Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo. O modelo e o padrão são de uma inexcedível exigência: “Vocês, porém, devem ser perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus”. (Mateus 5:48 – O Livro), sobre o mandamento de amar os próprios inimigos. Só assim estamos qualificados para resistirmos à pressão da sociedade, da velha natureza e dos poderes do mal.
“Por isso, quero avisar-vos, em nome do Senhor, que não andem mais como os gentios que deambulam em pensamento ilusórios. Os seus entendimentos estão obscurecidos; a sua ignorância das coisas espirituais e a sua insensibilidade à voz divina afastou-os da vida de Deus. Tendo feito calar a voz das suas consciências entregaram-se a tudo o que é imoralidade, procurando com avidez satisfazer os seus desejos corruptos.
Mas esse não é o caminho que Cristo vos ensinou! Se prestaram ouvidos à sua voz, sabem bem como em Jesus está a verdade, e foi nela que foram instruídos. Vocês foram ensinados, relativamente à forma de vida que levavam anteriormente que se devem desfazer dessa velha natureza que vai apodrecendo na sua própria imoralidade, nas suas ilusões. E que o vosso entendimento se deve renovar nas atitudes a tomar na vida. Devem revestir-se do novo homem que é criado por Deus e que se manifesta na verdadeira justiça e santidade.
Por isso, deixem a mentira e falem a verdade com os outros, porque somos membros de um só corpo. Não pequem, deixando que a ira vos domine. Antes que o dia acabe, coloquem um fim à vossa irritação. Não deem ocasião para que o Diabo encontre meio de vos fazer cair. Aquele que roubava ou que explorava fraudulentamente pare com isso de uma vez. Trabalhe e ganhe a vida pelos seus próprios meios, honestamente, de forma até poder ajudar outros menos favorecidos.
Não saia da vossa boca nenhuma palavra suja; que tudo o que for dito sirva de ajuda e encorajamento para aqueles que vos ouvem. Não entristeçam o Espírito Santo de Deus, o qual vos marcou com um selo, como garantia da vossa redenção. Façam desaparecer do vosso meio todo o mau humor, assim como a cólera, a ira, as discussões, tal como as injúrias e as revoltas rancorosas. Em vez disso, sejam amáveis e compassivos uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Cristo também vos perdoou. (Efésios 4:17-32 – O Livro).
A experiência do amor de Deus em Jesus Cristo é ainda mais saliente quando nos é apresentada através do apóstolo que foi um dos maiores perseguidores religiosos da Igreja nascente. Porventura alguém que não conhecia esta realidade ou para quem essa realidade estava envolta e distorcida pelas lentes da letra que mata e não do Espírito que vivifica. Ao escrever aos Efésios a sua oração ressoa de um modo que não nos deixa indiferentes e nos estimula a caminharmos nessa relação pessoal que nos leva às alturas e às profundidades desse amor único e singular. Como seria o nosso mundo se essa fosse a oração vivida de cada um dos cidadãos. Assim deve ser a Igreja de Jesus Cristo. O conhecimento de Deus só acontece nesta dimensão. Não podemos fazer nada para que Deus nos ame mais, nem nada para que nos ame menos (Philip Yancey).
“E o pedido que lhe faço é que, segundo os seus recursos gloriosos, vos fortaleça poderosamente no vosso interior pelo Espírito; e que Cristo, devido à vossa fé nele, habite cada vez mais nos vossos corações. E então, bem estabelecidos e enraizados no amor de Deus, poderão, em comunhão com todos os crentes, compreender com clareza o significado do amor de Cristo para convosco, em toda a sua dimensão: extensão, profundidade, vastidão e altura. Que possam experimentar esse amor, ainda que ultrapasse toda a compreensão. E assim ficarão cheios de toda a plenitude da presença de Deus.
Àquele que, pelo poder que atua em nós, é capaz de tudo realizar muito para além do que pedimos e pensamos, a ele seja dada glória na igreja, e em Cristo Jesus, através de todas as gerações, para todo o sempre! Amém! (Efésios 3:16-21 – O Livro).
Depois da Sua partida Jesus nos deixou o Espírito Santo para habitar em cada um dos Seus seguidores como Consolador e Ajudador, e esse Pentecostes em que as maravilhas de Deus foram faladas em cada uma das línguas presentes em Jerusalém, continua. “Todos ouvimos estes homens contar nas nossas diversas línguas os poderosos milagres de Deus!” (Atos 2:11 – O Livro). A nossa vida não foi trazida à existência para a vivermos sozinhos. Ela foi criada para ser vivida com o seu Criador. No dia 30 de agosto no Jornal Público, a jornalista Bárbara Wong escrevia: A solidão é o nosso maior medo. Qual é o nosso maior medo? A morte (a nossa ou a dos que amamos), a doença, a pobreza, a desumanidade… As respostas ao Questionário de Proust têm passado muito por aqui e Maria do Céu Antunes, a ministra da Agricultura, acrescenta outra, sinónimo de todas estas: “A solidão.” Com Deus nunca estamos sozinhos porque passamos a ser o templo móvel da Sua presença, mas também somos parte da Sua família a que Jesus chamou de Igreja. É impressionante pensar que Deus nos criou para sermos Sua habitação, e para vivermos com Ele eternamente. “Há muitas moradas onde vive o meu Pai e vou aprontá-las para a vossa chegada. Quando tudo estiver pronto, então virei para vos levar, para que possam estar sempre comigo onde eu estiver.” (João 14:2 – O Livro).
Em Jesus temos uma dupla revelação de Deus e de nós como humanidade. Fomos criados para ser como Ele e vivermos a qualidade de vida espiritual e emocional que Ele viveu, a ética e moral que Ele viveu de forma espontânea e (sobre)natural. Em Jesus temos o contraste entre o que fomos criados para ser e no que nos tornámos, mas também no que viremos a ser Nele agora e na eternidade. Se Ele conseguiu viver assim nós também o conseguiremos. Nele temos a garantia de uma nova vida ressurecta e glorificada.
Este é um conhecimento que nunca nos deixará iguais. Não é uma filosofia de vida. É a própria vida. Jesus é a REALIDADE a que somos convidados e convocados.
COMO COMPARTILHAR O CONHECIMENTO DE DEUS, numa nota final e essencial, porque o conhecimento de Deus não é para mantermos em segredo, não é para uma pequena elite de eleitos nem para um clube fechado de iluminados. Poderemos mesmo dizer que não é possível que assim aconteça. De qualquer jeito, através de todos os meios DEUS SE FAZ CONHECER E SE TORNA CONHECIDO. Mesmo nos regimes mais fechados, quando alguns ditadores julgam que O podem fechar às 7 chaves, ou quando religiosos de qualquer matriz querem colocar Deus numa jaula ou numa caixa enfeitada, Deus irrompe e vai para onde sempre pretende estar – na praça pública. Não há templo de pedra e vitrais que O possa conter. É nosso privilégio dar a conhecer Deus e o modo que melhor condiz com a Sua natureza e modo de agir, é através da nossa vida, e na expressão do amor de uns para com os outros. A VIDA COMO UM TODO, na sua inteireza e sem fragmentações, libera o conhecimento de Deus.
“Assim, dou-vos agora um novo mandamento: que se amem uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim devem amar-se uns aos outros. O vosso amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos.” (João 13:34, 35 – O Livro).
FOI ASSIM QUE A IGREJA SE AFIRMOU NA PRÁTICA DO BEM COM A PROCLAMAÇÃO DE JESUS CRISTO, NO ARREPENDIMENTO E CONVERSÃO. “Recomendando-nos, em todo o caso, que nos lembrássemos dos mais desfavorecidos, o que sempre procurei fazer com toda a dedicação.” (Gálatas 2:10 – O Livro). “Não nos cansemos então de fazer o bem, porque a seu tempo viremos a recolher muitas bênçãos, se formos perseverantes. E assim, sempre que tenhamos oportunidade, pratiquemos o bem para com todos, mas primeiramente para com os que têm a mesma fé que nós.” (Gálatas 6:10 – O Livro). “Como sabem, os líderes entre os gentios dominam entre eles e os grandes tratam-nos autoritariamente. No vosso meio, porém, não será assim. Quem quiser ser grande no vosso meio será vosso servo. E quem quiser ser o primeiro no vosso meio será como vosso escravo. A vossa maneira de proceder deve ser a mesmo do Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgate de muitos.” (Mateus 20:25-28 – O Livro). Mateus 25:31-46.
NÃO HÁ VOCAÇÃO MAIOR DO QUE CONHECER E DAR A CONHECER O DEUS TRINO – PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO, em tudo o que somos e em tudo o que fazemos.
“Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR: como a alva a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Oseias 6:3 – JFA)
Samuel R. Pinheiro

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OS TALENTOS

OS TALENTOS

Jorge Pinheiro

Dr. Jorge Pinheiro

Porque isto é também como um homem que, partindo para fora da terra, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. E a um deu cinco talentos e a outro dois e a outro um, a cada segundo a sua capacidade e ausentou-se logo para longe. E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com eles e granjeou outros cinco talentos. Da mesma sorte, o que recebera dois granjeou também outros dois. Mas o que recebeu um foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor. E muito tempo depois, veio o senhor daqueles servos e fez contas com eles. Então aproximou-se o que recebera cinco talentos e trouxe-lhe outros cinco talentos, dizendo: ”Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles.” E o seu senhor lhe disse: “Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” E, chegando também o que tinha recebido dois talentos disse: “Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros dois talentos.” Disse-lhe o seu senhor: “Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” Mas chegando também o que recebera um talento, disse: “Senhor, eu conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste. E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.” Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: “Mau e negligente servo; sabes que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei. Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu viesse, receberia o meu com os juros.” (Mateus 25:14-27)
Jesus ensina através de três métodos:

Milagres; ensino directo em privado ou em público; parábolas. Ao utilizar qualquer destes métodos, Jesus transmite sempre algum ensino.

Em todo o Seu ensino, o tema central foi o reino dos céus ou reino de Deus. O primeiro destes dois termos é utilizado preferencialmente por Mateus, enquanto o segundo pelos restantes evangelistas sendo ambos sinónimos. Vamos encontrar esta ênfase na proclamação do reino de Deus:

1. na Sua primeira proclamação: Arrependei-vos porque é chegado o reino dos céus (Mateus 4:17), repetindo, de resto, a mesma proclamação de João Baptista (Mateus 3:2).

2. nas Beatitudes: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus (Mateus 5:3).

3. na oração do Pai Nosso: Venha o Teu reino, no versículo 10, em Mateus 6:9-13.

4. nos milagres, quando Lhe chamavam filho de David, reconhecendo implicitamente a Sua realeza (Mateus 20:30)

5. no julgamento perante Pilatos, que Lhe perguntou: És rei dos Judeus? (Mateus 27:11).

6. na crucifixão. Sobre a cruz estava a Sua acusação Este é Jesus rei dos Judeus, a célebre abreviatura INRI (Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum – João 19:19).

7. nas parábolas. Todas elas estão relacionadas com o reino. Muitas delas começam com a frase O reino dos céus é semelhante a um tesouro, uma rede, uma pérola, um grão de mostarda, etc. (Mateus 13:44-47)

O texto que lemos é, então, uma parábola e, como tal, fala de alguma característica ou aspecto do reino dos céus. Ou seja, só a podemos interpretar no quadro do reino dos céus.

Há uma parábola semelhante a esta em Lucas 19:11-27 que apresenta algumas diferenças:

Mateus                                                          Lucas
talentos                                                         minas
última parábola                                             penúltima parábola
senhor dos servos                                        homem nobre, um rei
não há referência a inimigos                        manda matar os inimigos
Embora com algumas diferenças formais, podemos dizer que ambas abordam o mesmo tema e em ambas podemos extrair a mesma lição.

As parábolas eram muito comuns na cultura oriental do tempo de Jesus e consistem em histórias ficcionadas, embora com elementos da vida real, que procuram explicar ou realçar uma verdade complexa, apontando para uma aplicação prática. Ou seja, elas retratam um determinado universo com as suas leis e normas e realçam uma verdade central que constitui a lição a extrair dessa história.

Assim, nesta, o universo em que ela decorre é o reino de Deus ou dos céus, segundo a expressão de Mateus e a lição a extrair é a da mordomia dos seus súbditos face aos bens desse reino que lhes são confiados.

Embora não se possa ou não se deva fazer doutrina baseados apenas numa parábola ou nos seus pormenores, podemos extrair delas lições e verdades práticas. E todas as conclusões que delas extraímos têm de se encaixar plenamente no ensino geral de Jesus.

Posto isto, que nos ensina esta parábola? Muitos interpretam-na no sentido de os súbditos do reino dos céus utilizarem os seus talentos ao serviço do reino. Provavelmente são induzidos em erro pela utilização do termo “talento” que interpretam como significando as nossas capacidades humanas, tanto físicas, como espirituais ou culturais. Com todo o respeito pelos que assim pensam, essa é uma interpretação muito pobre e, pior, desvirtuadora da lição central da parábola. É verdade que Deus nos equipou com determinadas capacidades pessoais, a que chamamos talentos, e que devemos colocar ao Seu serviço, mas esta parábola não se refere a esses talentos.

Os talentos da parábola referem-se a uma unidade monetária que equivalia a 6000 denários ou dinheiros. No tempo de Jesus, um denário equivalia ao salário de um dia de trabalho (Mateus 20:9). Isso significa que um talento corresponderia a cerca de 20 anos de salários. Pensemos no que cada um de nós ganha por mês e teremos uma ideia do valor em causa. Ora, o senhor dos servos entrega a um 5, a outro 2 e a um terceiro 1 talento que, traduzidos em anos de trabalho, correspondem respectivamente a 100, 40 e 20 anos de trabalho. Não estamos a falar de uma quantia pequena mas de um autêntico tesouro.

Mas mais. Antes de prosseguirmos, substituamo-nos aos servos porque se somos súbditos do reino dos céus, então os servos desta parábola somos nós e o que ela diz e ensina aplica-se-nos. Não é, pois, por acaso que tratamos Jesus por Senhor porque, de facto, Ele é o senhor deste reino dos céus a que pertencemos. Assim, o que o Senhor coloca nas nossas mãos é algo que Lhe pertence e não a nós. Estamos então a falar não de algo que seja nosso (os nossos talentos pessoais) mas de algo que não nos pertence e de que fomos feitos mordomos.

É verdade que não foi dado mesmo valor a todos. E porquê? A parábola não nos diz a razão mas podemos admitir sem muita margem de erro que cada um recebeu de acordo com a sua capacidade de lidar com os valores recebidos. É o que inferimos do versículo 15: “(e entregou) a cada segundo a sua capacidade.” Mas apesar dessa diferença no valor, todos receberam o que se pode considerar um verdadeiro tesouro, algo de excelso valor. De igual modo, nós recebemos da parte do Senhor um valor consoante a nossa capacidade de lidar com ele.

Vemos também que dois deles fizeram render o tesouro recebido que entregaram ao seu senhor quando este regressou. Em termos comparativos, percentuais, ambos entregaram o mesmo valor, uma vez que duplicaram o tesouro recebido. Ou seja, em ambos os casos, o lucro do senhor foi de cem por cento. Uma vez mais, embora cada um de nós receba segundo a sua capacidade de lidar com o que lhe é entregue, temos a obrigação de o fazer prosperar na sua plenitude. E tudo o que for lucro, por assim dizer, não é nosso mas do Senhor que nos fez mordomos dos Seus bens. O que significa que no reino toda a glória tem de ir para aquele que é o verdadeiro dono dos bens do reino. E o dono dos bens do reino não somos nós mas o Senhor. No reino de Deus não há lugar para bandeiras pessoais ou individuais porque toda a glória tem de ser entregue integralmente ao único que merece toda a glória. De resto é o que Deus diz no Antigo Testamento, A minha glória não a darei a ninguém (Isaías 42:8) e o que Jesus ensina na oração do Pai Nosso: Porque Teu é o reino, o poder e a glória. (Mateus 6:13).

Compreendem agora por que razão, não está correcto interpretar os talentos da parábola como referindo-se aos nossos talentos pessoais. É que, em última análise, estaremos a roubar a glória que pertence a Deus. É que nesta parábola, os talentos referem-se a um tesouro que é do Senhor e não às nossas capacidades individuais, embora estas estejam ao serviço dos bens recebidos. A ênfase é dada ao tesouro que cada servo recebeu.

Os servos que fizeram render os talentos não tinham que se preocupar com galardões, primeiro porque, como servos, a sua função é servir dedicada e abnegadamente o seu senhor e, segundo, porque sabendo que o seu senhor era justo, certamente os iria recompensar quando assim o entendesse. De igual modo connosco. Se somos súbditos do reino dos céus, a nossa função é servir aquele de quem dizemos ser o nosso Senhor, sem preocupações de galardão. O nosso galardão já nos está garantido – é o simples facto de sermos achados dignos de servir este Senhor.

Mas em contraste com os outros dois servos, o terceiro assume uma atitude completamente diferente. Em vez de fazer render o tesouro, em vez de o aplicar, em vez de o pôr em acção, porque o tesouro do senhor tinha em si a capacidade de prosperar, torna-o inactivo, escondendo-o na terra. E fá-lo porquê? Por medo. Porque, conforme ele próprio confessou, porque receava o seu senhor. Ou seja, deixou de servir o senhor dos talentos e colocou-se ao serviço de outro senhor – o medo. Foi como se dissesse que o tesouro que recebera não tinha capacidade para se reproduzir, para influenciar outros. E fá-lo na convicção de que, apesar de tudo continua a considerar como seu senhor o senhor dos talentos quando na realidade não está por se ter deixado vencer pelo medo.

De igual modo, muitos de nós, mesmo tendo recebido (porque recebemos) um valor do Senhor do reino, servimo-Lo (ou melhor, des-servimo-Lo) dominados pelo medo. Ao agir assim, estamos a reconhecer que o medo é mais forte que o próprio Senhor. Quantos de nós não acabam por servir o Senhor não por amor mas por medo? Talvez porque o evangelho que nos foi pregado foi o evangelho do terror, do medo. Repare-se que em 1 João 4:18, lemos: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor.” O que faz todo o sentido, porque se Deus é amor, então a marca da Sua acção e a característica do reino de Deus é precisamente o amor. No reino de Deus, por trás e na base de toda a nossa acção, deve estar não o medo, o terror, mas o amor. Ao anunciar o evangelho, nunca o anuncie como algo de tenebroso, levando as pessoas a aproximar-se de Deus não porque O amam, mas porque têm medo d’Ele. Porque evangelho significa boas notícias. Como podemos dizer que anunciamos boas notícias quando o que criamos nos nossos ouvintes é o medo de Deus? O medo é arma de domínio e o único Senhor a quem devemos vassalagem não é o medo, mas o Salvador que nos remiu e nos fez entrar no reino de Deus.

Há, então duas atitudes que podemos assumir: ou agimos com amor ou agimos com medo. Ao agir com amor, estamos a servir o Senhor e o Seu reino. Ao agir com medo, estamos a servir ao medo e a excluir-nos da nossa cidadania plena do reino dos céus.

Chegados a este ponto, podemos perguntar com justeza: que tesouro é este que foi entregue aos servos? Que tesouro é este que nos é entregue a nós, servos do reino dos céus? Nunca é de mais realçar que o tesouro não é nosso mas do Senhor. Somos apenas mordomos, servidores desse tesouro que devemos aplicar, pôr em prática, pôr a render, cuidando dele com todas as nossas capacidades individuais.

Que tesouro é este que nos foi entregue? Esta é uma pergunta de fácil resposta. Basta ir aos evangelistas para o descobrir. E embora com uma articulação diversa, podemos dizer que todos afirmam o mesmo, que esse tesouro que nos é entregue é o evangelho de Jesus Cristo. Mateus 28:19 diz: “Ide, ensinai todas as nações … ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado”. Em Marcos 16:15, lemos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho. Em Actos 1:8, encontramos: “recebereis o poder do Espírito Santo … e ser-me-eis testemunhas … até aos confins da terra”. Ensinai, pregai, testemunhai.

A nossa acção está dependente da palavra, da comunicação daquilo que comummente designamos por evangelho. Mas para conseguir levar a bom termo a tarefa que nos foi confiada, temos de perceber em que consiste este evangelho de que falamos e que temos de ensinar, de pregar, de testemunhar. Mas mais do que perceber, temos de o conhecer, que é o grau mais elevado do saber.

Se analisarmos com cuidado e não temos tempo nesta meditação para entrar em mais pormenor e em mais profundidade nessa análise, verificaremos que em primeiro lugar, o evangelho que Jesus anunciou eram de facto boas notícias e que elas se destinavam a todas as áreas do existir humano.

Jesus não se limitou apenas às preocupações religiosas e teológicas, como foi no caso de Nicodemos (João 3), mas:
teve uma palavra para os problemas sociais, como foi o caso da mulher samaritana (João 4),
apresentou uma solução para os problemas físicos e de saúde como foram os casos dos diversos milagres de cura,
deu uma solução às angústias psicológicas como é o caso dos milagres de ressurreição de Lázaro (João 15) e do filho da viúva de Naim (Lucas 7:11-17).
Jesus esteve também atento às questões sociais como foi o caso do servo do centurião (Lucas 7:1-10),
aos problemas do fisco como mostra o episódio do pagamento do tributo a César (Mateus 17:24-27),
calou os preconceitos raciais como foi o caso da mulher siro-fenícia (Mateus 15:21-28),
estendeu o seu amor aos perseguidos pela sua condição de género, como foi no caso da mulher com o fluxo de sangue (Mateus 9:19-22).

E poderíamos continuar, multiplicando os exemplos, para concluir que Jesus se interessou por todas as áreas da existência humana, o que significa que o evangelho tem uma resposta para cada uma dessas áreas porque todas elas lhe interessam, porque em todas elas o evangelho deve estar presente. O que significa que não devemos limitar o evangelho apenas ao que consideramos a vida religiosa. Se a nossa capacidade não vai mais além, sejamos fiéis nesse pouco. Mas se a nossa capacidade vai mais além, então sejamos fiéis nesse que o Senhor também considera o pouco porque tudo quanto fizermos para Deus será sempre pouco tal a Sua grandeza e tal a necessidade da humanidade caída.

O que significa que, estando no mundo, não podemos fechar os nossos olhos ao que se passa à nossa volta nas mais diversas áreas da existência dos nossos conterrâneos e contemporâneos. Por isso, se vemos alguma injustiça na área social, laboral, moral, judicial ou até governativa, como cristãos temos a obrigação de fazer ouvir a nossa voz, ensinando, pregando, testemunhando não dos nossos talentos pessoais, mas deste tesouro vindo dos céus que é o evangelho de Cristo Jesus. E façamo-lo não por ou com medo, mas com amor, na certeza de que o evangelho é completo e não se limita a prometer um lugar em alguma morada celestial.

Se alguém disser que para chegar a Deus, precisamos de algum intercessor de uma vasta panóplia de intercessores, não nos podemos calar, porque “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo” (1 Timóteo 2:5).

Mas também não nos podemos calar quando alguém é discriminado e não é socorrido por ser estrangeiro porque à pergunta “quando te vimos estrangeiro e não te hospedámos?”, o Rei declara que “tudo o que tivermos feito ao estrangeiro a Ele o fizemos” (Mateus 25:35-40)

Se nos disserem que as nossas boas obras nos ganham o perdão de Deus, não nos podemos calar, porque “pela graça sois salvos, mediante a fé e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2:8).

Mas também não nos podemos calar quando as crianças são maltratadas e abusadas, porque o Rei diz: “Deixai vir a mim os meninos e não os estorveis porque deles é o reino dos céus” (Mateus 19:14).

Se nos disserem que não podemos ter a certeza da salvação e da comunhão directa com Deus, não nos podemos calar, porque “Agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Romanos 8:1).

Mas também não nos podemos calar quando o pobre é oprimido e explorado, porque o Rei diz que “o que oprime o pobre insulta aquele que o criou” (Provérbios 14:31).

Como não nos podemos calar quando alguém é prejudicado por causa do seu género e da sua etnia, porque o Rei diz que “em Cristo não há judeu nem não-judeu, não há servo nem livre, não há homem nem mulher porque todos somos um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28).

Como não nos podemos calar quando a corrupção ataca a nossa sociedade porque o Rei diz “balança enganosa é abominação para o Senhor” (Provérbios 11:1)

Como não nos podemos calar quando a justiça usa de duplo critério conforme as clientelas, porque o Rei diz que “duas espécies de peso e duas espécies de medida são abominação para o Senhor” (Provérbios 20:10).

Como não nos podemos calar quando o politicamente correcto se sobrepõe tanto ao bom senso quanto ao que é agradável aos olhos de Deus porque se temos de escolher um lado, só podemos escolher o lado do Senhor, porque os que não esconderam os talentos na terra nos deixaram o exemplo: “Mais importa obedecer a Deus que aos homens” (Actos 5:29).

Que cada um de nós que se confessa servo do rei do reino dos céus não esconda na terra os talentos recebidos mas os faça frutificar para que no final possa ouvir: “Bem está, servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor” (Mateus 25:21).

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

Manuel Alexandre Junior

NATAL! Palavra mágica que misteriosamente transforma as pessoas,
enfeita as cidades, enche de colorido as casas, provoca até uma
pausa nas guerras.

O que é o Natal? Recebo e dou a cada passo as Boas Festas. Espanta-
-me o movimento. As pessoas atropelam-se nas lojas e nos passeios.
São prendas, muitas prendas, para contemplar os filhos, os
pais, os avós, e os amigos. Até os presos nas suas celas, os doentes
nos hospitais, os marinheiros no coração dos mares. Mesmo os
criminosos nos seus antros de crime e as prostitutas no seu despudor
celebram o Natal. Nem sequer o materialista e o agnóstico
deixam de o celebrar.

Mas que Natal? Decerto, uma festa banal, semelhante à de todos os
anos. Uma simples festa de amizade ou de família rendilhada de
encanto e prazer. Mas o Natal é mais, infinitamente mais. Tudo isso
lhe veio por acréscimo por força de alguma inspiração pagã. Embora
importante em contexto de relações humanas e altamente cativante
para os mais pequenos, esta maneira de ver e celebrar o Natal não
pode de nenhuma maneira ofuscar o sentido último do verdadeiro
Natal.

Ainda que o Natal perdesse toda a roupagem da imaginação
humana, tudo o que de tradicional e mítico hoje o molda e enforma,
ficar-nos-iam e de forma mais vincada, os traços da sua verdadeira
essência. No fundo, a mensagem do Natal é simples, prática, redentora
e comovente. É o mistério de Deus que se desvenda. É o plano
da sua grande salvação que se concretiza. É a mensagem profética
que se cumpre. É, numa palavra, a celebração do Deus eterno que
rompeu as fronteiras da história e nos visitou aqui, neste mundo de
pecado, de Jesus Cristo que nasceu e se identificou connosco, do
Evangelho que se anunciou nas alturas desde o púlpito do Universo,
e depois desceu para se dar por nós no Calvário.

O Deus pré-existente desce, irmana-se, humilha-se, e o milagre
acontece. Maria, uma santa e piedosa mulher da nossa raça decaída,
tem um filho na sua virgindade. Ela, que até ao momento não
conhecera varão, foi visitada pelo Altíssimo e usada para trazer ao
mundo o Salvador, perfeitamente Deus e perfeitamente homem.
Alguns têm asseverado que o nascimento milagroso de Jesus foi
uma história inventada pelos cristãos primitivos, a fim de dramatizarem
as origens do seu Senhor. A esses perguntamos: como é que
a história de um bebé nascido numa estrebaria e colocado numa
manjedoura, na presença de um carpinteiro e de alguns pastores
socialmente insignificantes, terá conseguido sobreviver ante a competição
com a história da deusa Atena, divindade pagã de tão nobre
estirpe que, segundo a lenda, nasceu sem mãe, brotando espontaneamente
da cabeça de Zeus, já na sua forma adulta? Como foi
também que o nascimento virginal de Jesus se sobrepôs ao mito do
grande imperador César Augusto que, segundo se dizia, nasceu da
união da sua mãe com uma serpente, no templo de Apolo?
Passaram os mitos da grande deusa e do nobre imperador romano.
Mas o histórico nascimento virginal de Jesus permanece. Espanta-
-nos porquê? Com certeza que não, pois trata-se realmente de uma
intervenção sobrenatural e nós cremos no sobrenatural. É que no
grande filtro da história humana o que é mito passa e o que é facto
impõe-se pela sua veracidade e permanece. Passaram as fabricações
dos homens, permanece a verdade eterna do Evangelho.

Para alguns, o principal problema do nascimento virginal está na
violação dos processos naturais. Mas, se nos disserem que nunca
um ser humano nasceu sem um pai e uma mãe humanos, chamamos-
lhe a atenção para a criação do primeiro casal, Adão e Eva. O
que foi mais difícil para Deus? Qual dos dois milagres foi maior? A
criação ou o nascimento virginal de Cristo?

Claro que a Bíblia não está alheia e esta objeção generalizada, e
arma a sua solução no poder de Deus. Gabriel, ao responder a
Maria quanto ao modo do nascimento do seu filho, visto que não
conhecera varão, sentiu a sua perplexidade e respondeu: “porque
para Deus nada é impossível”. Deus tem poder para fazer aquilo que
parece impossível aos homens, aquilo que parece contrariar os processos
naturais. Mas Deus é sobrenatural.

Com efeito, o milagre biológico não é o único na vida do nosso
Salvador. Basta atentarmos para o seu milagre moral: uma vida sem
pecado, totalmente isenta do mal, vivida na pureza, na inocência,
na perfeição.

A Escritura não nos deixa dúvidas. Quando José tomou consciência
do estado de Maria, intentou deixá-la secretamente. Grave luta se
travou no seu coração. Mas durante essa histórica noite mal dormida
em que ele ponderava friamente a sua decisão, o anjo do Senhor
lhe apareceu e o tranquilizou, dizendo: “José não temas receber a
Maria tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo”
(Mateus 1:20).

Foi perante esta tomada de consciência que José caiu em si, interpretando
biblicamente o evento como consumação da mensagem
profética, e observou religiosamente a orientação recebida. Ao dar
ao primeiro fruto do ventre de Maria o nome de Jesus, ele declarou-
-se a primeira testemunha do milagre da grande salvação de Deus
na nova aliança. “José, filho de David”, disse-lhe o anjo do Senhor,
“não temas receber Maria por tua mulher, porque o que nela foi
gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o
nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”
(Mateus 1:20-21). Jesus, significa na língua hebraica: Jeová salva. O
nome em si, era uma mensagem. Sempre que José e Maria diziam o
seu nome, o evangelho era proclamado. Jesus (Joshua) era o segundo
Josué que introduziria Israel na prometida terra da salvação, no
reino de Deus.

O Messias veio realizar um ministério de redenção pessoal e espiritual.
Não como libertador político, como tantos o mal-entendiam. O
problema de base do povo de Israel não era essencialmente o da
prepotente dominação romana. Era sim, o do seu pecado. E este é o
problema de cada geração. A causa profunda do mal-estar atual no
mundo não é o antissemitismo dos árabes, o capitalismo ou o
comunismo, nos seus vários estádios de crise; é sim, o pecado no
coração dos homens. Por conseguinte, a maior necessidade dos
nossos dias é também a da grande salvação de Deus, a libertação de
Deus, a libertação da força tremenda do mal, a transformação do
homem a partir do seu íntimo, do seu interior. Foi para isso que
Jesus veio. É por isso que celebramos o Natal.

Jesus é o Emanuel, o enviado do Pai, o próprio Deus feito carne. É
‘Deus connosco’ pelo mistério do nascimento virginal. Estes dois
nomes de Cristo, aqui sublimemente anotados pelo evangelista Mateus, têm sido muitas vezes contrastados: O primeiro – Jesus –
assinala o seu ofício: Ele salva, veio buscar e salvar o que se havia
perdido. Não veio para destruir as almas dos homens, mas para
salvá-las. O segundo – Emanuel – arma a sua natureza, a sua
essência: Ele é Deus, essencial e substancialmente Deus, em forma
visível, humana, palpável, inenarrável e aceitável.

O nascimento de Cristo está intimamente ligado à sua cruz. Como
dizia Helmut Thielike: Manjedoura e cruz, ambas são feitas da
mesma madeira. Por outras palavras: Se Jesus possuísse a natureza
de José seu pai adotivo, ele carregaria também entranhadamente o
seu pecado. E se ele entranhasse o seu pecado não poderia ser o
nosso Salvador pelo sangue do Calvário. Cristo, porém, é Deus connosco
tanto na manjedoura como no Calvário; Deus a favor de nós
e ao nosso lado, dando-se na cruz como nosso Salvador pessoal e
Senhor eterno da nossa vida.

Natal como o entendo, é isto na sua essência. Conhecemo-lo pela
palavra divina, e sabemo-lo pela experiência vivida no novo nascimento.
Mais importante que celebrarmos o Natal em benefício de
nós mesmos, é celebrarmo-lo para o louvor e glória de Deus em
Cristo. Pois este é, não o nosso, mas o Seu Natal. E que interesse
teria recordarmos que Ele nasceu há dois mil anos em Belém da
Judeia, se não houvesse lugar para Ele no coração dos homens? No
meu, no teu, no nosso coração? Também no Natal demonstramos o
nosso cristo-centrismo e damos testemunho do milagre do nosso
novo nascimento espiritual. Glória, pois, a Deus na pessoa do Emanuel!

Manuel Alexandre Júnior

 

Reflexão recebida da ASPEC – Associação de Profissionais e Empresários Cristãos, com a permissão da sua divulgação e que agradecemos

 

“Na casa de meu Pai há muitos lugares”

“Na casa de meu Pai há muitos lugares”

SamuelPinheiro 2016out

Um dia vamos partir. Não temos residência permanente aqui. Estamos de passagem. Somos forasteiros e peregrinos. A nossa hora chegará impreterivelmente. Não há como contornar ou escapar. Apenas escaparemos à morte se Jesus vier antes. Este é o último inimigo a ser defrontado, mas é já um inimigo vencido porque Jesus morreu e ressuscitou. Isso significa que a morte já não tem poder sobre nós. O apóstolo Paulo exulta de modo apoteótico no capítulo quinze da primeira carta que o Espírito Santo inspirou para ser remetida em primeiro lugar à igreja na cidade de Corinto: “Ó morte, onde está agora a tua vitória? Onde está o teu poder de matar? O poder da morte é o pecado e o que dá poder ao pecado é a lei. Graças a Deus que nos deu a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo!” (versículos 55 e 56 – BPT).
A declaração que nos serve de título foi proferida por Jesus Cristo. Na realidade só Ele a podia fazer considerando a Sua identidade como o Filho de Deus, o próprio Deus entre nós como o Homem. A morte não faz parte dos planos futuros de Deus, nem dos Seus planos criativos. Ela é a antítese de Deus. Deus é vida. A desobediência, o pecado, é que introduziram a morte na raça humana. O homem não foi criado para morrer, mas para viver a vida de Deus para sempre. Jesus veio porque nenhum homem  podia destruir o poder da morte. Só Ele estava em condições de a destruir e foi isso que Ele fez. Mas ela não podia ser destruída por decreto, tinha que ser destruída passando por ela, experimentando-a. Deus não pode estar sujeito à morte. Não sendo gerado em pecado e não tendo nunca cometido pecado, a morte não tinha domínio sobre Jesus e Ele não podia ser morto. Só Ele se podia sujeitar de vontade própria à morte, e ainda assim, segundo a determinação divina, suportando sobre Si todo o nosso pecado. Por isso desde esse momento, o pecado e a morte foram destruídos. O perdão está ao nosso alcance, é-nos oferecido e com ele a libertação da pena de morte.
Na morte estaremos sozinhos, ninguém estará lá para nos acompanhar, a não ser que entreguemos antecipadamente a nossa vida nas mãos de Jesus nosso Criador e Redentor, Salvador e Libertador. Por isso David, o Salmista, no Salmo vinte e três, inspirado pelo Espírito Santo e ainda antes da vinda de Jesus á terra na Sua missão salvadora, pode declarar em fé: “Ainda que eu atravesse o vale da sombra da morte, não terei receio de nada, porque tu, Senhor, estás comigo. O teu bordão e o teu cajado dão-me segurança.” (verso 4 – BPT)
Não gosto da morte. A morte é uma afronta, um “ente” estranho, um intruso. A partida dos meus próximos, dos meus entes queridos e amigos perturba-me, é um momento doloroso a separação. A Bíblia não esconde a dor causada pela morte de várias personagens, não esconde inclusivamente o facto de que Jesus chorou diante do sepulcro do seu amigo Lázaro, que logo haveria de trazer de volta à vida. Só o Criador para sentir como nenhum outro a perturbação causada na Sua obra pelo pecado. O Novo Testamento não cala a dor e as lágrimas em um ou outro momento da morte de alguns dos seguidores de Jesus. Mas essa dor perfeitamente compreensível é acompanhada de uma gloriosa esperança. No episódio da ressurreição de Lázaro Jesus declarou a Marta, uma das irmãs do defunto: “Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, mesmo que morra, há-de viver. E todo aquele que está vivo e crê em mim, nunca mais há-de morrer. Crês tu nisto?” (João 11:25,26 – BPT)
Quando Jesus proferiu as palavras que usamos como título neste editorial, Jesus começa por sossegar o coração dos Seus discípulos e trazer-lhes ânimo e conforto, fé e esperança: “Não estejam preocupados. Uma vez que têm fé em Deus, tenham também fé em mim! Na casa de meu Pai há muitos lugares; se assim não fosse, ter-vos-ia dito que vou preparar-vos um lugar? Eu vou à vossa frente para vos preparar lugar. E depois de vos ir preparar um lugar, hei-de voltar para vos levar para junto de mim, de modo que estejam onde eu estiver.” (João 14:1-3 – BPT) A razão das razões pra crermos em Jesus é a vida e não a morte. Crer em Jesus significa vida e ainda mais vida, para usar a expressão que Eugene H. Peterson, usa na paráfrase A MENSAGEM (Filipenses 1:21). Como escreveu o apóstolo Paulo acerca de si mesmo, nós também em Jesus, podemos dizer o mesmo: “De facto, para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho” (Filipenses 1:21). Só em Jesus o além deixa de ser manipulado pelas trevas, para ser iluminado pela Sua vida e pelas Suas palavras.
Samuel R. Pinheiro
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