A Mulher Samaritana – I

A Mulher Samaritana – I

João 4:3-8

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Deixou [Jesus] a Judeia e foi outra vez para a Galileia e era-lhe necessário passar por Samaria. Foi, pois, a uma cidade de Samaria chamada Sicar, junto da herdade que Jacob tinha dado a seu filho José. E estava ali a fonte de Jacob. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. E era isto quase à hora sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água; disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber.” Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. (João 4:3-8)

Esta é uma narrativa muito conhecida dos cristãos e acaba por ser muito citada pelos ensinamentos que encerra. Podemos classificar as narrativas literárias em três categorias:

Mitológicas, em que o que importa na narrativa não é a historicidade dos factos mas as lições que a história contada nos transmite. Um bom exemplo é a história de Adamastor que se encontra em Os Lusíadas.

Heróicas, em que a história gira em torno de um herói alçado à categoria de um portento. Em muitos dos casos, os factos em que ele intervém ou são exagerados ou envolvidos em muita ficção. É o caso das histórias de Robin dos Bosques.

Histórias, em que se procura ser o mais fiel à realidade histórica, ainda que o narrador lhe transmita um cunho literário ou seleccione os factos que mais lhe interessam. Como exemplo, temos as histórias das grandes navegações, explorações ou descobertas de algum tipo.

Embora podendo haver numa dada narrativa características de uma outra categoria, toda a narrativa insere-se num destes grupos e é classificada consoante os traços mais marcantes da respectiva categorização.

Estes três tipos surgem em qualquer literatura, na bíblica inclusive. Esta história do encontro entre Jesus e a samaritana apresenta todas as características de narrativa histórica porque tudo quanto ela descreve é passível de ser verosímil. Nada há, portanto, nela que nos permita afirmar que não possa ter acontecido.

Como encaramos uma narrativa? Só pelo prazer da história contada? Por causa das lições que encerra? Porque nos interessam os seus aspectos simbólicos ou estilísticos? A verdade é que todo o autor de qualquer narrativa tem sempre uma finalidade em vista. Muitas vezes percebemos essa intenção e finalidade pelas opções que tomou em relação à descrição dos factos. Ora, o evangelista João revela a finalidade com que escreveu o seu evangelho em que esta narrativa se insere. Em João 20:21, declarou: Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo e para que crendo tenhais vida em Seu nome. Nesta sua declaração, detectamos duas intenções: 1) para creiais que Jesus é o Cristo; 2) para que tenhais vida em Seu nome.

Estando esta história integrada no evangelho de João, então é de esperar que nela encontremos os elementos que nos conduzem à finalidade pretendida pelo autor, o que nos indica que esta história pretende levar o leitor a crer que Jesus é o Messias e, crendo n’Ele, tenha a vida eterna. Podemos encontrar esses elementos na narrativa em si, nos discursos e nos acontecimentos ou em algum carácter simbólico ou com carga simbólica declarada ou implícita. De facto, a uma análise mais apurada, encontramos tudo isso nesta narrativa.

Conhecer a história é bom, como é positivo saber reconstituí-la ou reformulá-la, mas ficar por aí é ficar apenas no primeiro degrau, é ficar apenas à porta da entrada deste magnífico monumento literário e doutrinário.

Comecemos por estabelecer alguns paralelismos com a história de Nicodemos que encontramos em João capítulo 3.

 

Nicodemos

Samaritana

Homem Mulher
Designado pelo nome – Nicodemos, que significa “povo vitorioso” Desconhecemos o seu nome
Instruído Simples
Religioso Leiga
Judeu Samaritana
Pertencente à classe dominante Plebeia
Cumpridor da Lei Moisaica Praticante de um culto sincrético
Pensamento complexo Pensamento simples, pouco elaborado
Duvidoso Vencida pela convicção
Procurou Jesus Procurada por Jesus
Encontro à noite Encontro à tarde

 

Ambos mostram interesse no que Jesus declara, ambos dialogam com Jesus, ambos suscitam de Jesus afirmações poderosas e de extrema importância.

Esta narrativa principia de uma forma interessante. No versículo 4, lemos que “era necessário que Jesus passasse por Samaria”. O Seu destino final era a Galileia mais a norte e Jesus, que partia da Judeia, poderia ter escolhido um outro caminho, mais longo é certo, mas que não atravessasse Samaria. No entanto, foi por aí que Ele se dirigiu. Há então implícita uma intenção da Sua parte, podendo nós concluir que Ele tinha interesse em cruzar território samaritano.

O versículo 9 explica que Judeus e Samaritanos não se comunicavam por causa da grande rivalidade e inimizade existentes entre ambos. Todos sabiam desses atritos, mesmo que alguns já nem soubessem justificar a sua origem. Na medida do possível, um Judeu evitava o contacto com um Samaritano e vice-versa. Essa situação explica o assombro da mulher que ao pedido de Jesus Lhe responde como é que Ele, sendo judeu, se atreve a dirigir-lhe a palavra, pedindo de beber? A sua primeira reacção foi, natural e justificadamente marcada pela animosidade mútua existente, não apenas de estupefacção mas de agressividade, sem dúvida, numa atitude defensiva porque no seu imaginário “de um Judeu não se sabe o que esperar”.

Mas é curioso notar que à medida que o diálogo se vai travando e o gelo inicial se vai quebrando, a atitude da mulher vai-se alterando e isso verifica-se nos designativos como vai tratando Jesus. Sem embarcar no mesmo tom agressivo, mas mantendo uma postura pedagógica e gentil com o seu pedido de ela Lhe dar água, Jesus desperta-lhe a curiosidade ao afirmar (v. 10) que se ela conhecesse o dom de Deus, Ele lhe daria uma água que é viva. Ante essa afirmação, a samaritana reconhece-O como maior do que o patriarca Jacob (v. 12) porque como pode Ele dar tal água se não O vê com instrumentos capazes de a fornecer? Sem mudar de tom, Jesus desperta-lhe o desejo, anunciando (v. 13) que se ela bebesse da água que lhe disponibiliza, ela não teria necessidade de ir de contínuo ao poço. Detectamos isso no versículo 15 em que a mulher expressa o desejo de receber essa água para nunca mais ter sede nem ter de se deslocar ao poço, o que revela a sua ambição de uma vida melhor.

Numa aparente alteração inusitada do tema da conversa, no seguimento do pedido de que fosse chamar o marido, a samaritana é confrontada com a declaração de Jesus de que não só ela tivera cinco maridos como o homem com quem vivia no momento não era seu marido. Não a conhecendo e sem ela Lhe ter revelado qualquer pormenor da sua vida íntima e do seu estado civil, eis que aquele homem maior que o patriarca Jacob lhe desvenda todo o seu passado. E a conclusão surge-lhe imperiosa: este só pode ser profeta (v. 19).

Talvez para se escusar a dar mais pormenores sobre a sua vida, a mulher toma a iniciativa de iniciar um outro tema de carácter teológico que de certeza, pela sua natureza, interessaria a um profeta e que talvez também a atormentasse, querendo obter uma resposta de um homem de Deus que ela tomaria como definitiva quanto à validade das suas práticas religiosas. “Em qual destes montes devemos adorar? Onde se encontra a verdade: em Gerizim ou em Jerusalém?” Sem se deixar envolver numa discussão que se tornaria árida e certamente aumentaria as barreiras então existentes entre os dois povos, a resposta de Jesus deixa claro que independentemente do local onde o adorador se encontra, Deus quer ser adorado por quem O procura e por quem se deixa buscar por Ele. Ante esta afirmação, talvez a medo, no espírito da mulher surge a hipótese de aquele homem ser talvez o Messias porque apenas o Messias tem a capacidade de conhecer todas as respostas (v. 25) e a resposta que aquele judeu lhe dá tem todas as características de uma resposta vinda do Messias.

A resposta de Jesus a esta afirmação da samaritana surge no versículo 26: “Eu o sou, eu que falo contigo.” Jesus assume sem rodeios e de forma clara, explícita e inequívoca ser o Messias, essa figura profética anunciada desde o jardim do Éden. Sendo a primeira vez, em mais lado nenhum dos relatos evangélicos volta a assumir de uma forma tão clara e indubitável que é o Messias.

A reacção da samaritana a esta confissão reflecte a sua convicção que a leva a abandonar o cântaro (abandono esse com uma carga profundamente simbólica) e corre a dar a notícia aos seus patrícios, esquecida de qualquer animosidade que estes pudessem ter para com ela devido ao seu estado civil. O seu anúncio, no versículo 29, induz por seu turno uma resposta dos outros aldeãos que, duvidosos ou não, acodem a ouvir o que Jesus tinha para lhes dizer e perante as afirmações do Nazareno concluem que a convicção da mulher face àquele judeu estava certa – agora podiam crer que Ele era o Messias, em resultado de um encontro pessoal e não apenas baseados num testemunho (v. 42).

Vemos então que neste diálogo tanto com a samaritana como com os outros aldeãos há um movimento em crescendo de conhecimento, de convicção, de aceitação e de compromisso.

Entre os diversos comentadores bíblicos, há uma tendência para considerar a samaritana como uma mulher promíscua e isso com base no facto de ter tido cinco maridos e de viver à época com alguém com quem não contraíra laços de matrimónio. Mas mesmo que o fosse, esta história mostra que ninguém está longe ou impedido de chegar ao conhecimento e ao desfrute da verdade. E mais: que por intermédio da sua interacção dialogal com Jesus, grandes verdades foram comunicadas não somente a ela mas a todas as gerações posteriores. Basta reparar nas grandes verdades com que entramos em contacto nesta história e que descortinamos em resultado da análise das respostas que ela vai recebendo da parte de Jesus.

E porque é ela considerada promíscua por alguns? Por duas razões:

1. Por causa da hora do calor a que fora buscar água. O texto diz-nos (v. 6) que era quase à hora sexta, isto é, ao meio-dia, hora de intenso calor.

2. Porque tivera cinco maridos e o homem com quem vivia não era seu marido (vv. 17,18)

Note-se que, sem concordar com a situação civil da mulher, não há uma palavra de condenação da parte de Jesus que em toda a cena rompe e quebra todos os tabus culturais e religiosos de então.

A verdade é que não sabemos a razão de ela ter tido cinco maridos. Terão morrido? Foram eles que tomaram a iniciativa de se divorciar dela? E aquele com quem vivia, quem era? Seu remidor, à semelhança da história de Rute? Ou tratava-se de uma “amizade colorida”? Não sabemos e qualquer juízo de valor não passa de especulação porque o texto é completamente omisso às razões da sua situação. É evidente que também se pode especular em sentido contrário. Para ter tido tantos maridos, seria bonita ou mulher de posses para tantos homens quererem viver com ela. E promíscua porquê? Afinal, se os cinco haviam sido seus maridos, foram-no todos num quadro legal. É evidente que também não se pode negar a hipótese de ela não ser um exemplo de integridade moral mas para sermos honestos na interpretação teremos sempre de declarar que essa é uma hipótese. O que sabemos com rigor é que ela viveu vários matrimónios e no momento do encontro com Jesus não se encontrava casada.

O que sabemos também é que de repente, no meio da conversa do “dá-me de beber”, “não tens com que a tirar”, “o poço é fundo”, “és maior que Jacob?”, “dá-me dessa água”, Jesus faz um pedido que aparentemente nada tem que ver com o assunto “da água do poço” e do seu correlativo “água que nos faz saltar para a vida eterna”: “Vai, chama o teu marido e vem cá” (v. 16). Que podemos concluir deste pedido que quase nos atrevemos a considerar uma ordem?

Jesus queria que ela se apresentasse com uma confissão de compromisso com o seu marido, com o seu senhor: “Vai, chama e vem.” Ao regressar com o suposto marido, ela estaria a reconhecer o seu compromisso com o homem com quem vivia.

Aqui, temos de perceber quem eram os Samaritanos e como funcionavam eles em termos religiosos. Se formos a Oseias e a 2 Reis 17:24-31, encontramos algumas pistas não só para esta questão mas para a razão de ser do pedido de Jesus.

Recordemos que Oseias recebe de Deus a ordem de se consorciar com uma adúltera (Oseias 3:1), que funciona como a situação então existente entre Deus e o Seu povo, que trocara o Senhor por outros deuses. Ou seja, Deus está atento aos desvios do Seu povo, mas isso não O impede de querer estar desposado com ele. Não que queira prostituir-se com ele mas porque quer arrancar o Seu povo ao domínio da idolatria e elevá-lo ao patamar da comunhão plena e satisfatória com quem é triplamente santo. Essa foi sempre e continuará a ser a atitude do nosso Deus, que deve ser proclamado como um Deus santo mas que ama de forma intensa até aqueles que Lhe viraram as costas ou que misturam no seu altar fogo estranho.

Em 2 Reis 17:24-41, vemos o início da formação do povo samaritano. O rei da Assíria enviou para Samaria cinco grupos de povos, cada um com os seus deuses e práticas religiosas e aí instalaram-se, misturando-se com o povo da terra. Dessa mistura surgem os Samaritanos que, embora mantendo as tradições e os estatutos da Lei de Moisés, as misturavam com os novos cultos.

Veja-se o versículo 33: “Assim que ao Senhor temiam e também aos seus deuses, segundo o costume das nações, de entre as quais tinham sido transportados”, ou seja, os grupos que o rei da Assíria enviara para Samaria. Para se distinguirem dos Judeus e evitarem a ida ao templo de Jerusalém, os Samaritanos erigiram o seu próprio templo no monte Gerizim, aquele a que a samaritana se referiu em João 4:20, exactamente no seguimento do pedido de Jesus de ela ir buscar o seu marido.

Ora, se lermos com atenção 2 Reis 17:30-31, verificamos que além do templo de Gerizim, os Samaritanos tinham outros cinco santuários dedicados a deuses estranhos. E repare-se também (v. 32) que os sacerdotes em Gerizim eram escolhidos entre os mais baixos, ou seja, eram escolhidos os que tinham fraca preparação teológica.

Podemos ver aqui um paralelismo entre a samaritana e a situação espiritual do seu povo, como se Jesus estivesse a dizer que a situação dela em nada diferia do seu povo – eles tinham 5 deuses, ela tivera 5 maridos; apesar de terem um templo em Gerizim, não tinham um compromisso firme com Deus Iavé. Tal como o seu povo, a samaritana não tinha também um compromisso firme com o homem com quem vivia. Daí a conclusão plausível de que Jesus queria levar a samaritana a ver concretizada em si a afirmação de Oseias 2:16: “E acontecerá naquele dia que me chamarás meu marido e não me chamarás mais meu Baal.”

Repare-se que Jesus começa o diálogo pedindo água para beber. Pede como homem, pois está cansado do caminho e com sede. Ao fazê-lo, identifica-se como qualquer um de nós. Ele compreende os nossos problemas, ansiedades e necessidades. Mas vai mais longe e desfaz as barreiras existentes entre os homens, sejam elas religiosas, étnicas, morais ou sociais. Ele não está aqui para perpetuar as nossas diferenças mas para unir o que estava separado e dividido. Disso é exemplo o grafismo da cruz que estabelece uma ponte entre o céu e a terra e também entre o ocidente e o oriente. Sem exagero, podemos afirmar que na cruz Ele é a ponte de toda a nossa geografia humana, individual ou colectiva.

No versículo 10, vemos que, partindo de uma necessidade física, Jesus leva a mulher à descoberta de uma realidade espiritual. E o que Ele oferece é algo de vivo e permanente e que, ao contrário da água física, não se esgota mas torna-se disponível a todos através de quem a bebe. Ou seja, primeiro pediu mas agora oferece. E o que oferece supera a oferta que a mulher Lhe entregasse. Assim é também connosco: pede uma vida destroçada e oferece uma vida com sentido, pede um ladrão e transforma-o numa pessoa honesta, pede um pecador e dá em troca um santo.

Aparentemente, a mulher não entende o alcance desta oferta porque insiste nos aspectos físicos: “Onde tens essa água?”, “O poço é fundo”, “Não tens balde para a tirar.” E continua agarrada às tradições herdadas dos antepassados.

O versículo 12 dá conta da sua estupefacção e incompreensão: “És tu maior que o nosso pai Jacob?” E repare-se na continuação da sua argumentação: “[nosso pai Jacob] que nos deu o poço e ele, os seus filhos e o seu gado beberam dele.” Que é como quem diz: “Esta água (e entenda-se a água tanto em sentido físico como metafórico) serviu plenamente os antepassados, serve também para nós.” Como é difícil a quem está tão agarrado à tradição aceitar a oferta nova de Deus!

Repare-se que a água que Jesus oferece é uma água viva, especial, dom de Deus. Não vem do poço, não vem da tradição, mas vem do dom de Deus. E esse dom é a pessoa de Jesus. Como nos deveriam ecoar sempre as palavras de Maria: “Fazei tudo quanto Ele ordenar.”

E curiosamente, aquando da Sua morte, como prova de que facto morreu, do lado de Jesus sai água e sangue – o ciclo encerrara-se e agora pelo sangue e pela água temos entrada na comunhão plena com Deus. Esse é o caminho – arrependimento e expiação do pecado pelo sacrifício oferecido pelo próprio Salvador, a água que sacia inteiramente a nossa alma.

Soli Deo gloria!

C. Ourique, 3.Maio.2022

O Prólogo Joanino – II

O Prólogo Joanino – II

João 1:1-18

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 Dr. Jorge Pinheiro

 

Como vimos na última exposição, João utiliza o conceito grego de Logos para se referir à Palavra de Deus. Como judeu que era, João conhecia Génesis 1:1 e sabia que no princípio Deus criara os céus e a terra. Também sabia que a primeira coisa que Deus fizera foi falar, foi usar a palavra. João sabia que a Palavra de Deus era criadora e poderosa e representava o próprio Deus Iavé, porque era através dela que todo o universo podia conhecer a vontade de Deus e por meio dela conhecer o próprio Deus.

Esta ideia de resto está presente em todo o Prólogo que termina identificando a Palavra de Deus com a pessoa de Cristo. Daí afirmar que “o Verbo se fez carne” (v. 14) e que: “o Filho Unigénito [Jesus] que está no seio do Pai tornou Deus conhecido.” (v. 18).

Por esse motivo, não está descabido afirmar que Jesus é a Palavra, ou melhor dizendo, é a Palavra de Deus tornada ser humano.

O Prólogo fala assim da origem de Jesus e é interessante notarmos a forma como cada um dos quatro evangelistas se refere às origens de Jesus e relacionar com a intenção de cada um.

 

Mateus apresenta-O como o Rei Messias. Por isso, regista a sua genealogia, entroncando-a em David. Todo o pretendente ao trono tinha de demonstrar a sua ascendência real.

Marcos apresenta-O como servo. Naquele tempo um servo não tinha direitos por ser considerado uma mercadoria descartável. Ora, Marcos não regista qualquer genealogia.

Lucas apresenta-O como um verdadeiro Homem, experimentado nos condicionalismos humanos e a genealogia que Lucas indica entronca no primeiro homem, Adão.

João apresenta-O como Filho de Deus, sem início e sem fim e por isso não tendo Ele genealogia, João não indica nenhuma.

 

Devido a essa característica do evangelho de João, é justo afirmar que a preocupação do evangelista não é tanto a descrição histórica mas uma interpretação teológica da acção, principalmente da pessoa de Jesus, como já havíamos dito.

É por causa deste carácter teológico que não podemos considerar este “No princípio” como uma categoria cronológica, temporal ou histórica. João remete-nos para um momento em que não havia tempo, ou seja, para a Eternidade. De facto, é na eternidade, que não está sujeita ao presente, ao passado ou ao futuro, que vamos encontrar tudo quanto a Ele diz respeito. Como João se refere a esse princípio que era antes de tudo quanto de físico existia, portanto antes de nós mesmos, faz todo o sentido dizer que “no princípio era o Verbo” e não que “no princípio foi o Verbo.” E temos de dizer “era” porque se tivéssemos a capacidade de retroceder no tempo (passado), em qualquer momento em que estivéssemos, encontraríamos sempre o Logos, o Verbo, enquanto se disséssemos “foi o Verbo”, estaríamos a afirmar que num dado momento dessa nossa vagem imaginária o Verbo passou a existir o que equivale a dizer que num momento existia, mas no momento imediatamente anterior, era inexistente.

Se nos ficarmos por uma análise estritamente literária, verificamos que este Prólogo assume um carácter poético que segue o modelo da poesia hebraica. De facto, há uma série de unidades de pensamento que se espalham por subunidades ligadas entre si pela copulativa “e”, em que cada frase acrescenta algo de novo à frase anterior. Vejamos alguns exemplos:

 

No princípio era o Verbo

e o Verbo estava com Deus

e o Verbo era Deus. (1:1)

 

Temos aqui uma unidade de pensamento cujo centro é o Verbo e ela começa com uma afirmação (no princípio era o Verbo) e cada linha acrescenta algo novo à anterior, concluindo com a frase: “ele estava no princípio com Deus.

Temos um segundo exemplo, no versículo 3:

 

Todas as coisas foram feitas por ele

e sem ele nada do que foi feito se fez.

 

A afirmação de o Verbo ser o Criador é reforçada pela frase seguinte.

Num terceiro exemplo, detectamos:

 

Nele estava a vida

e a vida era a luz dos homens

e a luz resplandece nas trevas

e as trevas não a compreenderam.

 

Poderíamos continuar e chegaríamos não só à mesma conclusão como também a que cada unidade de pensamento acrescenta algo de novo à anterior.

Se nos ficarmos apenas por estes três exemplos, teríamos os seguintes elementos que neles surgem:

 

- o Verbo (v. 1,2)

- o acto criador do Verbo

- o Verbo traz a vida

- o Verbo era a luz.

 

Se continuássemos, chegaríamos à manifestação da verdade (v. 17) e à revelação máxima de Deus traduzida em comunhão (v. 18).

Em conclusão, embora poético, o Prólogo não se limita à forma poética mas leva o leitor numa progressão de conteúdo. Podemos dizer que é uma poesia que não preferencia o lirismo, ou seja, os estados de alma, mas apresenta-se profundamente apologética. Nela, há um crescendo interligado de acção e caracterização do Verbo, da Memrah, do Logos, da Palavra de Deus, que culmina na Encarnação (v. 14) e na Comunhão (v. 18).

Numa análise mais apologética, podemos encontrar seis secções neste Prólogo:

 

1. O Verbo e a Deidade (v.1)

O primeiro predicado do Verbo é a sua identificação com Deus Iavé. Por isso, podemos dizer que entre os designativos “divindade do Verbo” e “deidade do Verbo”, é preferível esta última expressão porque é ela que está no pensamento joanino. É que enquanto “divindade” se reporta ao qualificativo divino, já “deidade” assinala não a qualidade de ser divino mas a de ser idêntico a Deus. Assim, deste primeiro versículo, podemos concluir que aquilo que Deus é, o Verbo também o é. Se Deus é eterno, criador e pessoal, então o Verbo também é eterno, criador e pessoal, pelo que João nos diz que o Verbo é co-igual de Deus.

 

2. O Verbo é criador (vv. 2,3)

Naturalmente sendo co-igual de Deus e sendo Deus criador, então o Verbo também o é. Daqui uma conclusão se impõe: no evangelho de Cristo não há lugar para o panteísmo! Embora tendo a marca do dedo de Deus, a Natureza não é Deus porque foi criada por Ele. Logo, não é sua co-igual.

João não está sozinho na afirmação de que o Verbo é Criador. Paulo já o afirmara em Colossenses 1:15- 17: O qual [Jesus] é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação, porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam principados, sejam potestades, tudo foi criado por ele e para ele e ele é antes de todas as coisas e todas as coisas subsistem por ele.

 

3. O Verbo é a fonte da vida, sendo por via disso a luz dos homens (vv. 4,5,9)

Estas são afirmações de grande importância. De si próprio, Jesus disse ser a vida e a luz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará em trevas mas terá a luz da vida” (João 8:12). Note-se esta expressão “luz da vida”, em que os dois conceitos estão inseparáveis. Não há vida sem luz, não há luz sem vida.

Recordemos também que o primeiro elemento que surge na criação é a luz: “E disse Deus: Haja luz. E houve luz” (Génesis 1:3). No mundo físico, a luz é indispensável, é essencial. Sem luz, a vida física torna-se impossível e todos sabemos que os seres vivos são atraídos para a luz, o chamado fototropismo. De igual modo, no mundo espiritual, sem luz não é possível haver vida espiritual que no Evangelho é designada por “vida eterna.” Quem não tem, quem não recebe esta luz espiritual permanece em trevas, que o mesmo é dizer que está morto espiritualmente.

Nestes versículos, João vai mais longe e declara (v. 5) que há um antagonismo entre trevas e luz, que as duas não podem coexistir harmonicamente.

 

4. O Verbo manifestou-se ao mundo e aos homens (vv. 10-11)

O termo “mundo” é usado na Bíblia com diversos significados. Pode referir-se a este planeta (João 17:5); ao conjunto dos seres humanos (João 3:16) ou ao sistema ideológico oposto a Deus (João 15:18; 1 João 2:15).

O versículo menciona esse termo por três vezes. Nas duas primeiras, indica o mundo físico, enquanto na terceira, identifica o conjunto dos seres humanos. No versículo 11, João especifica que aqueles entre os quais viveu (“os seus”) não receberam Jesus na sua qualidade de Verbo. Este “os seus” tanto se pode referir à humanidade em geral como mais especificamente ao povo no qual o Verbo nasceu, os Judeus.

 

 

5. O Verbo humanou-se, fez-se carne, fez-se um com os que o aceitam (vv. 12-14)

Nesta secção, temos o momento alto, o clímax da manifestação do Verbo – a sua encarnação. Ao humanar-se, o Verbo não perdeu a sua natureza divina mas reuniu em si as duas naturezas, a divina e a humana, juntando em si aquilo que estava separado pela ocorrência do pecado A Encarnação revela que Deus e o Homem podem estar em sintonia mas que tal só é possível na pessoa de Jesus, o Verbo, e apenas através d’Ele.

O versículo 12 deixa bem claro que a bênção trazida pela encarnação está disponível pela recepção e aceitação da luz e da vida que se encontram no Verbo e que o meio para que tal aconteça é a fé, ou seja, a aceitação incondicional da oferta do Verbo: “Eis que estou à porta e bato”.

 

6. O Verbo reúne em si a Graça e a Verdade (vv. 16-18)

João aponta a manifestação do Verbo entre os homens como o ponto-charneira de encontro entre a graça e a verdade.

Refere a Lei dada por Moisés e contrapõe-na à Graça e à Verdade trazidas por Jesus Cristo.

Qualquer análise honesta da natureza da Lei de Moisés conclui que ela contém a verdade. Tendo Moisés recebido de Deus a Lei, esta conterá necessariamente a verdade, porque Deus é verdade. No entanto, devido ao seu carácter punitivo, podemos dizer sem exagero que a Lei sobrepõe a Verdade à Graça, que fica assim abafada. E embora possa parecer contraditório, a Graça não está totalmente ausente da Lei. E porquê? Porque a Graça define-se como o favor imerecido que recebemos de Deus. E Deus, ao dar a Lei, estava a mostrar que é um Deus gracioso ou misericordioso porque não deixa os Seus sem uma orientação, não deixa os Seus sem o conhecimento da verdade da Sua vontade.

Então, qual é a novidade trazida pela encarnação de Jesus? É que n’Ele, a Graça e a Verdade estão de mãos dada sem sobreposição de uma sobre a outra. Se conhecemos a Verdade, então necessitamos de apreciar e de viver sob e com a Graça de Deus. E se conhecemos e experimentamos a Graça, precisamos de conhecer em pleno a Verdade de Deus. Não podemos viver com uma sem a outra.

É que, como disse alguém, a Verdade sem a Graça é condenatória, enquanto a Graça sem a Verdade é enganadora.

Ora, o único que está em condições de mostrar que as duas, a Graça e a Verdade, são irmãs gémeas e não rivais, é o Logos, a Memrah, a Palavra de Deus encarnada, em suma, a pessoa de Jesus que é a Verdade divina personificada na Graça eterna de Deus.

 

SAC, 22.Março.2022

O Prólogo Joanino – I

O Prólogo Joanino – I

João 1:1-18

 Jorge Pinheiro 7

 

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o verbo era Deus.

In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et Deus erat verbum.

En archê en ó logos, kai ó logos en pros ton theon, kai theos en ó logos. (João 1:1)

 

 

Ao analisar o evangelho de João e em especial o Prologo, é preciso ter em atenção dois aspectos:

 

a. É um texto escrito por um judeu;

b. É um texto escrito para uma sociedade do séc. I profundamente helenizada.

 

Sendo assim, temos de perceber que este é um texto com uma mensagem marcada pelo pensamento hebraico destinada a uma população fortemente influenciada pelas categorias culturais helénicas.

Isso significa que, para captar o que o autor pretende transmitir, temos de ter um conhecimento mínimo da mensagem hebraica e da mentalidade helénica, tanto mais que o texto está escrito em grego.

Chama-se Prólogo ao texto que inicia o evangelho de João e é constituído pelos 18 primeiros versículos do Capítulo 1.

Para o entender melhor, temos de agrupar de um lado os versículos que lidam com o Logos, o Verbo, e do outro os que se referem a João Baptista. Seguindo esta recomendação, o texto seria lido assim:

 

Primeiro, os versículos referentes ao Logos:

1. No princípio era o Verbo [Logos] e o Verbo  [Logos] estava com Deus e o Verbo  [Logos] era Deus.

2. Ele [o Logos] estava no princípio com Deus.

3. Todas as coisas foram feitas por ele [Logos] e sem ele nada do que foi feito se fez.

4. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens.

5. E a luz resplandeceu nas trevas e as trevas não a compreenderam.

9. Ali estava a luz verdadeira que alumia todo o homem que vem ao mundo.

10. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele e o mundo não o conheceu.

11. Veio para o que era seu e os seus não o receberam.

12. Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome,

13. os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.

14. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória como a glória do Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.

16. E todos nós recebemos também da sua plenitude e graça por graça.

17. Porque a Lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.

18. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, esse O fez conhecer.

 

De seguida, os versículos referentes a João Baptista:

6. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele.

8. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz.

15. João testificou dele e clamou, dizendo: “Este era aquele de quem eu dizia: ‘O que vem depois de mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.’.”

 

Quem está minimamente familiarizado com as Escrituras, não tarda em encontrar um paralelo entre João 1:1 e Génesis 1:1.

Com efeito, ambos os textos começam da mesma maneira: “No princípio” e ambos estão relacionados com algum tipo de criação – o Génesis fala da criação física, enquanto o Prólogo de João refere o início do que podemos designar por uma criação espiritual. Ambos mencionam um início: “No princípio.” Como texto hebraico que é, o Génesis introduz de imediato a presença de Deus, identificando-O como o Criador: No princípio, criou Deus os céus e a terra. Por seu lado, João começa por identificar uma característica da natureza divina: No princípio era o Verbo … e o Verbo era Deus. Ou seja, João não se limita ao aspecto criador de Deus (um Judeu sabia isso) mas refere que Deus é um Deus de relação, de comunhão, que comunica. Podemos também acrescentar que João salienta e reforça a ideia de que Deus é uma pessoa inteligível, uma vez que identifica Deus com o Verbo, com a Palavra. Como sabemos, a palavra é uma das características de quem é pessoa.

Há pelo menos mais dois paralelos entre o Génesis e o Prólogo joanino. Em Génesis, a primeira obra da criação é a manifestação da luz: ”E disse Deus: Haja luz! E houve luz.” (Génesis 1:3). Em João 1:5, lemos. “A luz resplandeceu nas trevas e as trevas não a compreenderam.” Repare-se que Génesis começa por afirmar que “havia trevas sobre a face do abismo.” (Génesis 1:2). Na criação física de Génesis, a luz impõe-se às trevas. João centra-se no aspecto espiritual e não no físico e reconhece o antagonismo entre a luz que o Verbo introduz no mundo e as trevas que imperavam sobre os seus semelhantes: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam.” (João 1:11).

O terceiro paralelismo encontramos na criação do Homem: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” (Génesis 1:26). Por seu lado, João refere que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1:14), indicando assim que tal como Adão veio de Deus para ter papel de domínio sobre a criação, assim também nesta nova criação descrita por João, há um que veio de Deus para reinar e que, ao contrário de Adão que falhou embora tendo em si a centelha divina, este novo Adão não pode falhar porque, conforme diz Paulo, sendo espírito vivificante (1 Coríntios 15:45) é do céu porque é a encarnação de Deus.

Dissemos no início que há uma mensagem de origem hebraica que é comunicada por João a um público helenizado, pelo que teve de se socorrer de conceitos gregos para melhor comunicar o que pretende.

Estamos assim perante um processo de tradução. No original grego, João utiliza o termo “Logos” que em Português é traduzido indistintamente como “Verbo” ou “Palavra”. Possivelmente por influência da tradução da Vulgata Latina, “in principio erat verbum”, o termo preferido dos crentes é ”Verbo”. A verdade é que o nosso termo português “palavra” não traduz com rigor o grande conceito grego de “Logos.” Mesmo em Português, o outro termo “Verbo” faz recordar o conceito gramatical de verbo que procura traduzir a ideia de acção, podendo assim levar-nos a pensar na capacidade de argumentação, como sucede na expressão: “Fulano tem um verbo inflamado”, querendo com isso dizer que “Fulano é muito eloquente ou persuasivo.” Ora, o termo “Verbo” enquanto equivalente de “palavra” remete para a capacidade de transmitir e comunicar conceitos ou coisas.

Quanto ao conceito “Logos”, em termos de significado sabemos que evoluiu ao longo do tempo e tornou-se o conceito-chave da filosofia grega. Houve um filósofo helénico que lhe enumerou 17 significados diferentes, entre eles o de “expressão do pensamento pela palavra” e “a capacidade racional de o homem pensar e se exprimir. Aliás, é nesse sentido que no séc. VI a. C., Heraclito usava o termo em oposição ao discurso mitológico que procurava explicar uma série de fenómenos através do mito, recorrendo à intervenção de deuses ou figuras portentosas. Heraclito opôs-lhe o pensamento lógico, baseado naturalmente no Logos, defendendo que há uma razão para a existência das coisas.

Com o passar dos tempos, principalmente entre os Estóicos, o Logos passou a ser considerado como tendo uma essência divina, sendo o princípio criador que se sobrepunha aos próprios deuses (theoi) que mais não seriam que os resquícios do pensamento mitológico.

Ora, João pretende falar de Deus Iavé. Por isso, não pode usar o termo theos (deus) porque a mentalidade helénica iria identificar Deus Iavé como um theos, da mesma qualidade e natureza que todos os outros theoi gregos como theo Zeus ou theo Ares. Isso seria inaceitável para João, porque Iavé, sendo único, está acima de todos os que se intitulam ou são intitulados deuses. Ora, o conceito helénico que mais se aproxima da natureza de Iavé é o de Logos. Por isso João recorre a ele, escrevendo: “en archê en ó Logos – no princípio era o Logos.”

Mas voltando ao facto de que João é judeu e tem em mente os conceitos hebraicos, terá certamente pensado no conceito hebraico de memrah, que se identificava com a palavra emanada de Deus Iavé e que por via disso acabava por na prática se identificar com o próprio Deus.

Como é que um Judeu comunicava com Deus, ou melhor, como é que Deus Iavé se comunicava com o Seu povo em geral e com o judeu individual? Pela palavra. Vemos isso logo em Génesis. Na Criação, qual a primeira coisa que Deus fez? Não foi criar fosse o que fosse, mas foi falar. Com efeito, Génesis 1:3 declara: “E disse Deus…” Repare-se que em todos os outros actos criadores está escrito que “Deus disse…” (Génesis 1:6, 9, 14, 20, 24, 26).

Repare-se também que é essa a fórmula que os profetas utilizam ao anunciar a vontade de Deus: “E veio a mim a Palavra de Deus” ou outra fórmula equivalente (Jeremias 25:1; 46:1; Oseias 3:1; Joel 1:1). A Palavra de Deus ou Memrah acaba por ser para o judeu a própria manifestação de Deus. Assim:

 

ouvir a Palavra é ouvir Deus;

ler a Palavra é ler Deus;

sentir a Palavra é sentir Deus;

respeitar a Palavra é respeitar Deus;

estar na presença da Palavra é estar na presença de Deus;

amar a Palavra é amar Deus.

 

Por isso, também podemos afirmar:

 

A Palavra cria.

A Palavra conforta.

A Palavra cura.

A Palavra consola.

A Palavra converte.

A Palavra salva e transforma.

 

E a conclusão é lógica:

 

Queres ser curado? Lê a Palavra!

Queres ser abençoado? Lê a Palavra!

Queres ser salvo? Lê a Palavra!

Queres viver em vitória? Lê a Palavra!

 

Então, talvez a melhor tradução de João 1:1 fosse:

 

No princípio era a Palavra de Deus [a Memrah] e a Palavra de Deus estava com Deus e a Palavra de Deus era Deus.

 

Em João 1, o Logos a que o evangelista se refere não é a mera palavra que se fala nem a simples capacidade comunicacional, mas a poderosa Palavra de Deus que se fez carne na pessoa de Cristo.

Por isso, quando o centurião disse a Jesus: “Dize uma só palavra e o meu criado sarará” (Mateus 8:8), estava a pedir uma intervenção de Deus ao próprio Deus. De igual modo, quando meditamos na Palavra de Deus, estamos na presença de Deus.

 

 

 

SAC, 15.Março.2022

 

 

A PROBABILIDADE DE SER POEMA

A PROBABILIDADE DE SER POEMA

JTP23© João Tomaz Parreira

1Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.”

Após séculos de discussão sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze.
A era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider
( 1776-1848) no que concerne a autoria de Evangelho. Bretschneider questionou na sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral (in “Probabilia”).
Um paradoxo para chamar a atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina. Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.
Tais discussões sobre a autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um poema inicial o Prólogo joanino.
É dado como historicamente certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus Filosofias gnósticas do Século I.
Estruturalmente,  ele surge como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos na fonética e no ritmo, estão lá.
No início do comentário ao Evangelho Segundo João, o tradutor de “Bíblia – Novo Testamento” e dos “Quatro Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um poema”.
De facto, a poesia em língua grega do Século I era, entre outros requisitos da poética,  reconhecida pelas unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na nossa própria língua, há um ritmo inegável.
No que diz respeito ao texto grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος)  Esta última linha completa a primeira, à qual regressa.
“No princípio era o Lógos / (…) / E era Deus o Lógos”.  Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso designa um movimento de regresso.
Contudo, quer este verso inicial quer todo  o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar, um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto, nem atomisticamente.
Uma quantidade imensa de material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo de João.
A “Encyclopedia Americana resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve, tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise, como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?), antes de ter sido colocado como início do Evangelho”.  A beleza e a estética dos primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a pungência do Tempo.

© João Tomaz Parreira

A PRIMEIRA DÚVIDA DA MULHER SAMARITANA

A PRIMEIRA DÚVIDA DA MULHER SAMARITANA

JTP19

A leitura superficial que fizermos, sem olhar a circunstâncias senão as da própria diegese (narrativa pura e simples), diz-nos que a primeira pergunta da mulher de Samaria junto ao poço de Jacob, foi por uma questão de espanto por uma linha divisória quebrada.
Contudo, com uma simples petição (dá-me de beber), Jesus  declarou que a separação entre os povos em geral, e judeus e samaritanos em particular, tinha os dias contados. A pergunta da Samaritana reflectiu inconscientemente o espanto desse sucesso, isto é, que uma parede estava derrubada onde o evangelho se faz presente (cf. Gl 3.28; Ef 2.14).
Todavia, a primeira dúvida da mulher, reveste-se de uma forma que carece uma análise hermenêutica mais profunda, teologicamente, mas também literária, do ponto de vista do que esconde a linguística, com o estilo da pergunta, com ironia e lógica, desconhecimento e espanto.
“Disse-lhe a mulher: “Nem sequer tens um balde (ἄντλημα) e o poço é fundo! Donde é que tiras a água viva?” ( Edição Comum BPT, 2015-555)
A SEMIÓTICA DA ÁGUA
O manancial arquetípico da água perpassa pela narrativa joanina, desde o princípio do capítulo 4 do Evangelho. Inicia-se com a tipologia e a semiótica para além do simples acto do baptismo (águas): “Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele(…) baptizava mais discípulos do que João”.
A água do poço de Jacob, acima do seu referencial histórico, era água de manancial, de acordo com o comentário da conhecida Bíblia de Jerusalém ( Desclee de Brouwer, NT, 1976-128), simbolizava a vida dada por Deus, de grande importância no Oriente.
Quando na literatura ocidental, o poeta T.S.Eliot (1888-1965) deixa escrita uma das grandes poéticas das primeiras décadas do século XX,  a obra “A Terra sem Vida”, como uma profecia da Europa que será um  “amontoado de pedras” nas décadas de 30 e 40, deixa o grito da necessidade da “água nascente”, “se houvesse água parávamos e bebíamos”, “se houvesse água e não rocha”, mas numa explícita referência  a Jeremias, 2,13, afirma que há “cisternas vazias” e “poços sem água”.

A DÚVIDA DA SAMARITANA RECOMPENSADA
Cristo revela a sua identidade, não apenas a uma mulher, mas a alguém samaritano.  A mulher, entre os judeus, não era senão um objeto pertencente ao marido, pertencia ao lote do seus imóveis, dos seus servos, numa posse legal que o Evangelho e as Cartas paulinas vieram abolir.
O pedido de Jesus, defendem exegetas e sociólogos da educação,  foi no sentido não apenas da sua necessidade fisiológica, mas tendo em vista o seu método para mover os ouvintes para revelarem atitudes e acções. Diz-se que usou métodos andragógicos (método de ensino para os adultos) em seu ministério de ensino e pregação: lições práticas (e referem João 4.1-42)  Aqui, Jesus Cristo utilizou a simbologia da “água” para ajudar a mulher a perceber o que é a “água viva”, teologicamente.
Na continuação da sua lição e auto-testemunho sobre a água, para além do seu sentido “líquido”, isto é, volúvel, transitório, efémero, Jesus indica usando uma alocução kerygmática ( como se pregasse): “Se tu conhecesses o que Deus tem para te dar, e quem é aquele que está a pedir água, tu lhe pedirias e ele dava-te água viva” (BPT).
A esta afirmação, a mulher samaritana responde com a lógica do que apenas vê,  dos limites da realidade, o que está diante dos seus olhos, existe mesmo ainda que velada, uma tentativa de ironizar, “nem sequer tens um balde” ou “donde é que tiras a água viva” (NT A Boa Nova Para Toda a Gente, Sociedade Bíblica, 1979)
A POÉTICA DA NARRATIVA
Rosanna Eleanor Leprohon, que foi poeta e novelista canadiana, escreveu um extenso poema nos finais do século XIX, que as águas de que Jesus falou continuam “puras e brilhantes”, “águas vivas que fluem”.  E referiu-se à samaritana como “Filha de Samaria” cujo testemunho perdura pelos séculos fora. Que devemos esquecer “pensamentos de orgulho terreno e vãs esperanças na ganancia do mundo, / Basta-nos beber uma vez dessa água, nunca tornaremos a ter sede”

© João Tomaz Parreira

a.C. – d.C.

a.C. – d.C.

SamuelPinheiro 5

 A História divide-se entre antes e depois de Cristo. Biblicamente podemos dizer que Cristo é a chave da História tanto no antes como no depois. O antes e o depois é definido pela presença em carne e osso, na forma humana, de Deus entre nós. Pode até acontecer que um dia um qualquer anticristo imponha que o tempo se conte de modo diferente. Nesta corrente de acontecimentos em que tudo o que afirme Jesus Cristo é considerado uma afronta para o relativismo e pluralismo religioso tudo pode acontecer, por mais louco e absurdo que possa parecer. Mas na eternidade, antes de todas as coisas existirem Jesus é a chave da História. Ou seja em Jesus temos Deus e o Homem na terra – 100% Deus e 100% Homem. Um mistério certamente, mas na natureza e na essência é isso que sucede. Não temos duas pessoas ou duas personalidades, mas uma só Pessoa e uma só Personalidade. Essa Pessoa e essa Personalidade é Deus connosco.
A realidade é que esta verdade no tempo é apenas o reflexo da verdade eterna. Tudo o que tem a ver com o plano divino e com o Seu mover na História, existe desde sempre na eternidade. Antes da fundação do mundo o Cordeiro de Deus – Jesus Cristo, foi destinado para morrer a nosso favor conforme nos informa o Espírito Santo pelo apóstolo Pedro na sua primeira carta: “Saibam que foram resgatados daquela vida inútil que tinham herdado dos antepassados. E não foi pelo preço de coisas que desaparecem, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como o de um cordeiro sem mancha nem defeito. Ele tinha sido destinado para isso, ainda antes da criação do mundo, e manifestou-se nestes últimos tempos para vosso bem. Por meio dele crêem em Deus, que o ressuscitou dos mortos, e o glorificou. E assim a vossa fé e esperança estão postas em Deus.” (1 Pedro 1:17-21 – BPT).
Na mesma linha de revelação o apóstolo Paulo fala a respeito de todos os que crêem em Jesus, e que segundo o eterno propósito divino foram escolhidos para uma nova vida segundo a Sua natureza de santidade e amor. “Pois, antes de o mundo existir, ele escolheu-nos para juntamente com Cristo sermos santos e irrepreensíveis e vivermos diante dele em amor. Ele destinou-nos para sermos seus filhos por meio de Cristo, conforme era seu desejo e vontade, para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.” (Efésios 1:4-6 – BPT).
O amor das três pessoas da Trindade será contemplado e usufruído na sua plenitude pela nova humanidade recriada em Jesus. Esse amor preenche de modo absoluto a eternidade no absoluto divino, e nós estamos vocacionados a contemplá-lo e a vivenciá-lo: “Pai! Que todos aqueles que me deste estejam onde eu estiver, para que possam contemplar a glória que me deste, porque tu amaste-me antes que o mundo fosse mundo.” (João 17:24 – BPT).
O nascimento de Jesus a que se refere o Natal, é o acontecimento na História do que desde antes da criação de todas as coisas Deus tinha determinado que haveria de ser. Deus não foi surpreendido pela decisão do homem de romper com uma vida e natureza em conformidade com a Sua natureza e essência. O homem preferiu a ciência do bem e do mal e ainda hoje se debate com toda a sorte de frutos amargos, envenenados e podres que daí decorrem. O homem foi criado para viver no amor divino, e não na dialética do bem e do mal.
Um dia destes o tempo como o conhecemos atualmente, marcado pela morte, sofrimento, dor, miséria, fome, guerras, violência, iniquidade, corrução e imoralidade, desaparecerá por completo, e um novo tempo cheio do que a eternidade divina representa será instaurado. Deus habitará com os homens e até os instrumentos de guerra serão transformados em utensílios de lavoura, a ovelha pastará com o leão e a criança brincará com a áspide. Nesse dia céu e terra serão uma mesma realidade.
O plano divino consiste em reunir tudo em submissão a Jesus Cristo. “Deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha determinado realizar por meio de Cristo. Esse plano consiste em levar o Universo à sua realização total, reunindo todas as coisas em submissão a Cristo, tanto nos Céus como na Terra. Foi também em Cristo que fomos escolhidos para sermos herdeiros do seu reino, destinados de acordo com o plano daquele que tudo opera conforme o propósito da sua vontade. Louvemos, portanto, a glória de Deus, nós que previamente já pusemos a nossa esperança em Cristo.” (Efésios 1:9-14 – BPT). Natal é Deus tornando-se parte da humanidade para a redimir e resgatar, trazendo-a de volta ao Seu amor. O amor triunfa radicalmente na vida e morte de Jesus, bem como na Sua segunda vinda para estabelecer novos céus e nova terra. Celebrar o Natal é celebrar esta vitória na nossa vida e na História!
Samuel R. Pinheiro
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