“A CULPA É DAS ESTRELAS”

A culpa é das estrelas _ apologetica_peqEscolher um filme é muitas vezes uma caixinha de surpresas. Procuro sempre ter algumas razões que justifiquem a escolha, mas algumas vezes fico com um sentido de frustração e outras vezes dou por bem empregue o dinheiro do bilhete. Neste caso não tinha nenhuma indicação prévia. A escolha foi um pouco arbitrária e o título sugeria algo de diferente. Mesmo depois de ter visto o filme ainda fiquei à volta sobre qual teria sido a razão da sua escolha, embora hoje o marketing e a publicidade tenham razões que a razão desconhece. A cultura presente está prenhe de múltiplas superstições, entre as quais a do destino escrito e determinado pelas estrelas. Outra das situações que é muito comum a todos os seres humanos é sempre procurar um culpado por detrás de cada acidente no percurso da vida. Mas voltemos ao filme.
A trama desenvolve-se em torno de dois adolescentes que enfrentam uma situação de cancro em fase mais ou menos terminal e que acabam por encontrar-se num grupo de ajuda que se reúne num templo ligado à Igreja Episcopal. O ambiente do grupo é um pouco “ridículo”, sendo que o “coração de Jesus” resume-se a uma tapeçaria tecida pelo líder do grupo que também enfrenta uma situação oncológica. Um terceiro jovem, Isaac, está no processo de perder a única vista que lhe resta, e perante a iminência a namorada rompe com ele, provocando momentos de revolta que são passados na destruição de alguns dos troféus do amigo Augustus.
Os dois jovens, Hazel e Augustus Water, acabam por apaixonar-se e no processo começam por trocar sugestões de leitura de livros. O livro sugerido pela Hazel é de um escritor que vive em Amesterdão e que ela daria tudo para contactar e visitar com algumas perguntas suscitadas no fim da obra. Acaba por ser o Augustus a conseguir o contacto primeiro por email e depois os meios financeiros para que possam visitá-lo. A visita acaba por ser em parte uma grande deceção, sendo que o célebre autor torna-se bastante rude numa abordagem ateísta evolucionista, declarando numa agressividade repulsiva que eles são apenas uma mutação errada da natureza que é paga pelos impostos de todos os cidadãos. A entrevista acaba abruptamente sendo que a secretária vem ao encontro deles já na rua para pedir-lhes desculpa pela brutalidade do escritor, e sugerindo-lhes, em compensação, uma visita à casa de Anne Frank. A dificuldade da menina em subir toda a escadaria da casa que não tem elevador, à medida em que se vão ouvindo em fundo algumas das frases da obra da jovem que morreu num campo de concentração nazi, termina em apoteose no último andar, depois de uma íngreme escada, num beijo apaixonado de celebração do amor e da vida que prevalece perante o sofrimento e a adversidade. Uma metáfora muito bem conseguida em termos cinematográficos, no meu entender. O argumento não consegue fugir à ditadura cultural de uma relação sexual na cidade conhecida pela devassidão moral.
O filme é rico em imagens e figuras como a do cigarro que o rapaz teima em alguns momentos trazer na boca sem nunca o acender, explicando perante a estupefação e indignação da menina que sofre de doença pulmonar, tratar-se de uma metáfora de ter na boca a morte sem dar-lhe o poder de o matar.
É na cidade de Amesterdão que o Augustus acaba por revelar à Hazel que a doença subitamente se agravou. Já de regresso aos Estados Unidos o jovem combina e marca num templo vazio a simulação de um elogio fúnebre, no desejo de presenciar o seu próprio funeral. No meu entender outra metáfora extremamente sugestiva de que importa não guardar para o dia do funeral dos amigos o que em vida lhes podemos dizer.
A situação de saúde do Augustos vai-se degradando cada vez mais até que acaba por falecer. No cemitério ouve-se o ministro a ler o Salmo 23. Entretanto e subitamente aparece no funeral, junto da Hazel o escritor que da profunda admiração nutrida, passou a detestar profundamente. A jovem é convidada a apresentar algumas palavras e acaba por não ler o discurso que preparara e que antes já tinha lido de viva voz ao falecido, porque, segundo confessa posteriormente, no funeral não se fala para os mortos mas para os vivos. Terminada a cerimónia o escritor tenta uma abordagem e uma conversa com ela num confronto muito agressivo, em que ela acaba por expulsá-lo do carro sem que antes ele lhe entregue um papel. Fica a saber-se que toda a amargura e rudeza do autor são devidas à morte de uma filha aos oito anos. Uma das frases que me ficou deste diálogo aceso foi “a vida vem da vida”.
O Isaac, já cego, acaba por contar à Hazel que foi o próprio Augustos que tentou convencer o escritor a visitá-la e a entregar-lhe o elogio fúnebre que ele mesmo escrevera para ela e não tinha tido oportunidade de lho ler e entregar. E o filme termina com ela a ler deitada sobre a relva com as estrelas a pontilharem o firmamento.
Outro dos aspetos que considero muito sugestivos no filme é a maneira como cada uma das famílias vive a realidade da doença, do sofrimento e da morte. Existem partes muito tocantes de confissões mútuas sendo que numa delas a Hazel acaba por dizer aos pais que espera que eles não morram para a vida com a morte dela, e que a mãe não deixe de o ser só porque ela morreu (uma expressão menos feliz dita num momento de crise em que ela quase morreu).
É um filme que suscita questões a que o evangelho de Jesus Cristo responde. A presença de Deus sente-se, mas é muito ténue. Mesmo assim é um filme que nos coloca perante a fragilidade da vida e perante a presença da morte na vida de pessoas muito jovens. Como fazem falta ali, as palavras de Jesus às irmãs de Lázaro quando este faleceu: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente.” (João 25,26) Na realidade só Jesus pode consolidar em nós a certeza da vida eterna, a começar desde logo aqui no meio de todas as nossas vicissitudes e fragilidades. O apóstolo Paulo explode com toda esta fulgurante certeza no capítulo quinze da primeira epístola aos Coríntios, o grande capítulo da ressurreição: “E quando este corpo corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei. Graças a Deus que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo.” (54-57).
As questões do sentido da vida, da existência de Deus, de quem Deus é, do relacionamento entre as pessoas, do valor da família, do amor, da vida e da morte, do tempo e da eternidade, do corpo e da alma, da dimensão e natureza espiritual do homem, continuam presentes no coração e na mente dos homens, das famílias, entre os jovens e adolescentes, em cada pessoa. Eis a oportunidade de mostrar e evidenciar a diferença que Jesus é e faz. De facto só Ele é capaz de nos mostrar a essência da vida e trazer-nos de volta ao propósito de Deus. A pluralidade religiosa e filosófica em que nos movemos apresenta uma multiplicidade de sugestões alternativas, mas só Jesus nos indica como podemos viver verdadeiramente vivos e morrer na certeza da vida eterna. Jesus morreu e ressuscitou. Jesus lidou com os vivos nas suas múltiplas situações de fragilidade, de dor, de insatisfação e frustração, de incerteza e desorientação. O homem está espiritualmente morto sem Deus. Jesus veio vivificar o homem através da Sua morte e ressurreição. Jesus veio mostrar-nos que a vida é mais do que existir e sobreviver, mas é Deus em nós. Jesus não veio para dar-nos vida… Ele é a própria vida de que carecemos e sem a qual permanecemos mortos. Jesus veio para libertar-nos da culpa, tornando-se culpado em nosso lugar, assumindo a nossa culpa, carregando a nossa desobediência e morte, e para dar-nos o perdão e a liberdade de uma nova vida.

Samuel R. Pinheiro
www.facebook.com/SamuelRPinheiro
www.samuelpinheiro.webnode.com.pt
www.samuelpinheiro.com

JUDEUS, ÁRABES E HITLER (ABOU ALI)

JTP4

© João Tomaz Parreira

A crise – para usar um termo inócuo – entre árabes e judeus, é um problema com origem numa semente apressada, não obstante os oitenta e seis anos de Abrão.
A falha começou no patriarca, ao dar ouvidos a Sarai, e colocaria em dificuldades o futuro povo de Israel. Abrão –antes ainda de ser Abraão- foi investido numa missão divina, mas ele não era a missão e ao confundir a sua humanidade com a plenitude divina,  fez nascer um problema chamado Ismael, o qual, como tudo o filho que nasce, não tem culpa nem do passado nem do presente nem do futuro.
No entanto, a misericórdia de Deus em compor estragos e restaurar vasos quebrados, manifestou-se em Hagar. “Eis que concebeste e terás um filho (…) porquanto o Senhor ouviu a tua aflição” (Gn 16,11)
As mimetizações dos planos divinos nunca se traduzem em melhores sucessos na vida do Homem ou da Igreja. Tentar copiar Deus na sua intervenção sobre a História conduz a maus resultados. “Ismael (…) será homem bravo, e a sua mão será contra todos, e a mão de todos contra ele” (16,12)
No que concerne a Ismael e aos seus descendentes, os ismaelitas ( não confundir com ismaelismo, doutrina religiosa),  a promessa cumpriu-se para desespero de Israel. Causas que não se extinguem, trazem efeitos imorredoiros. É assim a relação entre judeus e árabes, entre o actual Estado de Israel e a sua vizinhança palestiniana e árabe, no sentido geral e, sobretudo, no religioso.
Consultando  a “wikipédia” antes de rebuscarmos a história em papel, lemos sobre os ismaelitas a sinopse da sua postura religiosa, que não anda afastada de todo do Velho Testamento:
“À semelhança dos outros muçulmanos, os ismaelitas acreditam num único deus e no profeta Maomé como mensageiro divino. O pensamento ismaelita apresenta igualmente uma visão cíclica, desenrolando-se a história ao longo de sete eras. Cada uma destas eras é iniciada por um profeta, que traz consigo uma escritura sagrada. Cada profeta é acompanhado por um companheiro silencioso, que revela os aspectos esotéricos da escritura. Os seis primeiros ciclos estiveram associados aos profetas Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé. O companheiro silencioso de Maomé foi Ismael, que regressará no futuro para ser o profeta do sétimo ciclo.”
Mas para desespero da humanidade e dos judeus em particular, outro “profeta” se adiantou e está registado na História Contemporânea como Adolfo Hitler.
O ABU ALI DA HISTÓRIA DO SÉCULO XX
Quando Hitler tomou o poder, apesar de tudo democraticamente, em 1933, telegramas de felicitações foram despachados das capitais árabes. Em 1937, a sinistra figura quase aristocrática da propaganda nazi, Joseph Goebbels, louvava “a racial consciência” dos árabes, fazendo notar de um modo absurdamente poético que “bandeiras nazis ondulavam na Palestina e adornavam as suas casas com a cruz suástica e retratos de Hitler”.
As águas da História, seja do que for, têm a vantagem de mostrar a sujidade das acções, apesar de todas as tentativas de branqueamento  e, não poucas  vezes,  o bebé é deitado fora com a água do banho.
Um exemplo?  A mistura “da cruz suástica  e da cruz cristã”, dos Deutsche Christen, evangélicos, anti-semitas e apoiantes do Partido Nazi, um desses casos das águas sujas do banho que podemos ler na História, e nas obras de Dietrich Bonhoeffer e Karl Barth; este pregando vigorosamente pela “Igreja Confessante”, pela pureza da Igreja Evangélica; aquele, como membro fundador da mesma Igreja “Bekennende Kirch”, é condenado à morte pela forca no Campo de Concentração de Flossenburg em 1945.
A verdade é que Hitler soube aproveitar-se do reposicionamento dos pensamentos cristãos, divididos entre servir a Cristo mesmo sob a pressão nazi e servir o regime para obter benesses. Chegou-se ao absurdo de os Deutsche Christen se apresentarem como os “SA (Tropas de Assalto) de Jesus Cristo na luta pela destruição dos males físicos, sociais e espirituais”, daí à ajuda no extermínio dos judeus e na prisão dos cristãos evangélicos fiéis à Palavra de Deus, foi o passo que se conhece na tragédia do nazismo.
Portanto, Hitler vogava bem em duas águas: a dos favores dos “cristãos alemães” e a da glorificação do mundo árabe; apesar do próprio Hitler considerar os árabes como raça também inferior.
Abu – Pai em árabe-, seguido de Ali,  no contexto histórico, era o sobrenome islamizado atribuído a Hitler, fundamentalmente pela sua liderança que se presumia mundial e pelo seu programa de dizimação dos judeus. Era um endeusamento. Uma canção popular da década de 30, nas ruas de Damasco, dizia: “Não mais Monsieur, não mais Mister. No Céu Allah, na Terra Hitler”.
Abu Ali e a sua obra fundacional, o “Mein Kampf” com as suas teorias do nacionalismo, da ditadura, da raça superior e do anti-semitismo, desde 1930 que impressionaram os estados árabes.   A primeira tentativa para traduzir a obra para o idioma arábico iniciou-se cedo, por volta daquele ano, quando começaram a aparecer excertos do livro nos jornais árabes. A tradução surgiu definitivamente no Cairo em 1937, com a significante aprovação da Alemanha Nazi.
Na Palestina, por outro lado, a literatura hebraica entre 1940 e 1944 trazia a público cerca de vinte mil volumes de poesia, romance, ensaios, que afirmavam em hebreu a existência de um povo,  enquanto na Europa Abu Ali se preparava para concluir a Solução Final, o holocausto de milhões de judeus.
Desse tempo, os anos da II Guerra e do Holocausto, a poesia de Uri Zevi Greenberg (1896-1981), para entendermos a relação ancestral do hebreu com o seu Deus : A minha boca é uma ferida aberta / Por isso, todo nu, disse ao meu Deus: duramente / Tens trabalhado sobre mim / Agora, eis aqui a noite: Tréguas! Repousemos os dois.(Versão minha)