A Mulher Samaritana – I

A Mulher Samaritana – I

João 4:3-8

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Deixou [Jesus] a Judeia e foi outra vez para a Galileia e era-lhe necessário passar por Samaria. Foi, pois, a uma cidade de Samaria chamada Sicar, junto da herdade que Jacob tinha dado a seu filho José. E estava ali a fonte de Jacob. Jesus, pois, cansado do caminho, assentou-se assim junto da fonte. E era isto quase à hora sexta. Veio uma mulher de Samaria tirar água; disse-lhe Jesus: “Dá-me de beber.” Porque os seus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. (João 4:3-8)

Esta é uma narrativa muito conhecida dos cristãos e acaba por ser muito citada pelos ensinamentos que encerra. Podemos classificar as narrativas literárias em três categorias:

Mitológicas, em que o que importa na narrativa não é a historicidade dos factos mas as lições que a história contada nos transmite. Um bom exemplo é a história de Adamastor que se encontra em Os Lusíadas.

Heróicas, em que a história gira em torno de um herói alçado à categoria de um portento. Em muitos dos casos, os factos em que ele intervém ou são exagerados ou envolvidos em muita ficção. É o caso das histórias de Robin dos Bosques.

Histórias, em que se procura ser o mais fiel à realidade histórica, ainda que o narrador lhe transmita um cunho literário ou seleccione os factos que mais lhe interessam. Como exemplo, temos as histórias das grandes navegações, explorações ou descobertas de algum tipo.

Embora podendo haver numa dada narrativa características de uma outra categoria, toda a narrativa insere-se num destes grupos e é classificada consoante os traços mais marcantes da respectiva categorização.

Estes três tipos surgem em qualquer literatura, na bíblica inclusive. Esta história do encontro entre Jesus e a samaritana apresenta todas as características de narrativa histórica porque tudo quanto ela descreve é passível de ser verosímil. Nada há, portanto, nela que nos permita afirmar que não possa ter acontecido.

Como encaramos uma narrativa? Só pelo prazer da história contada? Por causa das lições que encerra? Porque nos interessam os seus aspectos simbólicos ou estilísticos? A verdade é que todo o autor de qualquer narrativa tem sempre uma finalidade em vista. Muitas vezes percebemos essa intenção e finalidade pelas opções que tomou em relação à descrição dos factos. Ora, o evangelista João revela a finalidade com que escreveu o seu evangelho em que esta narrativa se insere. Em João 20:21, declarou: Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo e para que crendo tenhais vida em Seu nome. Nesta sua declaração, detectamos duas intenções: 1) para creiais que Jesus é o Cristo; 2) para que tenhais vida em Seu nome.

Estando esta história integrada no evangelho de João, então é de esperar que nela encontremos os elementos que nos conduzem à finalidade pretendida pelo autor, o que nos indica que esta história pretende levar o leitor a crer que Jesus é o Messias e, crendo n’Ele, tenha a vida eterna. Podemos encontrar esses elementos na narrativa em si, nos discursos e nos acontecimentos ou em algum carácter simbólico ou com carga simbólica declarada ou implícita. De facto, a uma análise mais apurada, encontramos tudo isso nesta narrativa.

Conhecer a história é bom, como é positivo saber reconstituí-la ou reformulá-la, mas ficar por aí é ficar apenas no primeiro degrau, é ficar apenas à porta da entrada deste magnífico monumento literário e doutrinário.

Comecemos por estabelecer alguns paralelismos com a história de Nicodemos que encontramos em João capítulo 3.

 

Nicodemos

Samaritana

Homem Mulher
Designado pelo nome – Nicodemos, que significa “povo vitorioso” Desconhecemos o seu nome
Instruído Simples
Religioso Leiga
Judeu Samaritana
Pertencente à classe dominante Plebeia
Cumpridor da Lei Moisaica Praticante de um culto sincrético
Pensamento complexo Pensamento simples, pouco elaborado
Duvidoso Vencida pela convicção
Procurou Jesus Procurada por Jesus
Encontro à noite Encontro à tarde

 

Ambos mostram interesse no que Jesus declara, ambos dialogam com Jesus, ambos suscitam de Jesus afirmações poderosas e de extrema importância.

Esta narrativa principia de uma forma interessante. No versículo 4, lemos que “era necessário que Jesus passasse por Samaria”. O Seu destino final era a Galileia mais a norte e Jesus, que partia da Judeia, poderia ter escolhido um outro caminho, mais longo é certo, mas que não atravessasse Samaria. No entanto, foi por aí que Ele se dirigiu. Há então implícita uma intenção da Sua parte, podendo nós concluir que Ele tinha interesse em cruzar território samaritano.

O versículo 9 explica que Judeus e Samaritanos não se comunicavam por causa da grande rivalidade e inimizade existentes entre ambos. Todos sabiam desses atritos, mesmo que alguns já nem soubessem justificar a sua origem. Na medida do possível, um Judeu evitava o contacto com um Samaritano e vice-versa. Essa situação explica o assombro da mulher que ao pedido de Jesus Lhe responde como é que Ele, sendo judeu, se atreve a dirigir-lhe a palavra, pedindo de beber? A sua primeira reacção foi, natural e justificadamente marcada pela animosidade mútua existente, não apenas de estupefacção mas de agressividade, sem dúvida, numa atitude defensiva porque no seu imaginário “de um Judeu não se sabe o que esperar”.

Mas é curioso notar que à medida que o diálogo se vai travando e o gelo inicial se vai quebrando, a atitude da mulher vai-se alterando e isso verifica-se nos designativos como vai tratando Jesus. Sem embarcar no mesmo tom agressivo, mas mantendo uma postura pedagógica e gentil com o seu pedido de ela Lhe dar água, Jesus desperta-lhe a curiosidade ao afirmar (v. 10) que se ela conhecesse o dom de Deus, Ele lhe daria uma água que é viva. Ante essa afirmação, a samaritana reconhece-O como maior do que o patriarca Jacob (v. 12) porque como pode Ele dar tal água se não O vê com instrumentos capazes de a fornecer? Sem mudar de tom, Jesus desperta-lhe o desejo, anunciando (v. 13) que se ela bebesse da água que lhe disponibiliza, ela não teria necessidade de ir de contínuo ao poço. Detectamos isso no versículo 15 em que a mulher expressa o desejo de receber essa água para nunca mais ter sede nem ter de se deslocar ao poço, o que revela a sua ambição de uma vida melhor.

Numa aparente alteração inusitada do tema da conversa, no seguimento do pedido de que fosse chamar o marido, a samaritana é confrontada com a declaração de Jesus de que não só ela tivera cinco maridos como o homem com quem vivia no momento não era seu marido. Não a conhecendo e sem ela Lhe ter revelado qualquer pormenor da sua vida íntima e do seu estado civil, eis que aquele homem maior que o patriarca Jacob lhe desvenda todo o seu passado. E a conclusão surge-lhe imperiosa: este só pode ser profeta (v. 19).

Talvez para se escusar a dar mais pormenores sobre a sua vida, a mulher toma a iniciativa de iniciar um outro tema de carácter teológico que de certeza, pela sua natureza, interessaria a um profeta e que talvez também a atormentasse, querendo obter uma resposta de um homem de Deus que ela tomaria como definitiva quanto à validade das suas práticas religiosas. “Em qual destes montes devemos adorar? Onde se encontra a verdade: em Gerizim ou em Jerusalém?” Sem se deixar envolver numa discussão que se tornaria árida e certamente aumentaria as barreiras então existentes entre os dois povos, a resposta de Jesus deixa claro que independentemente do local onde o adorador se encontra, Deus quer ser adorado por quem O procura e por quem se deixa buscar por Ele. Ante esta afirmação, talvez a medo, no espírito da mulher surge a hipótese de aquele homem ser talvez o Messias porque apenas o Messias tem a capacidade de conhecer todas as respostas (v. 25) e a resposta que aquele judeu lhe dá tem todas as características de uma resposta vinda do Messias.

A resposta de Jesus a esta afirmação da samaritana surge no versículo 26: “Eu o sou, eu que falo contigo.” Jesus assume sem rodeios e de forma clara, explícita e inequívoca ser o Messias, essa figura profética anunciada desde o jardim do Éden. Sendo a primeira vez, em mais lado nenhum dos relatos evangélicos volta a assumir de uma forma tão clara e indubitável que é o Messias.

A reacção da samaritana a esta confissão reflecte a sua convicção que a leva a abandonar o cântaro (abandono esse com uma carga profundamente simbólica) e corre a dar a notícia aos seus patrícios, esquecida de qualquer animosidade que estes pudessem ter para com ela devido ao seu estado civil. O seu anúncio, no versículo 29, induz por seu turno uma resposta dos outros aldeãos que, duvidosos ou não, acodem a ouvir o que Jesus tinha para lhes dizer e perante as afirmações do Nazareno concluem que a convicção da mulher face àquele judeu estava certa – agora podiam crer que Ele era o Messias, em resultado de um encontro pessoal e não apenas baseados num testemunho (v. 42).

Vemos então que neste diálogo tanto com a samaritana como com os outros aldeãos há um movimento em crescendo de conhecimento, de convicção, de aceitação e de compromisso.

Entre os diversos comentadores bíblicos, há uma tendência para considerar a samaritana como uma mulher promíscua e isso com base no facto de ter tido cinco maridos e de viver à época com alguém com quem não contraíra laços de matrimónio. Mas mesmo que o fosse, esta história mostra que ninguém está longe ou impedido de chegar ao conhecimento e ao desfrute da verdade. E mais: que por intermédio da sua interacção dialogal com Jesus, grandes verdades foram comunicadas não somente a ela mas a todas as gerações posteriores. Basta reparar nas grandes verdades com que entramos em contacto nesta história e que descortinamos em resultado da análise das respostas que ela vai recebendo da parte de Jesus.

E porque é ela considerada promíscua por alguns? Por duas razões:

1. Por causa da hora do calor a que fora buscar água. O texto diz-nos (v. 6) que era quase à hora sexta, isto é, ao meio-dia, hora de intenso calor.

2. Porque tivera cinco maridos e o homem com quem vivia não era seu marido (vv. 17,18)

Note-se que, sem concordar com a situação civil da mulher, não há uma palavra de condenação da parte de Jesus que em toda a cena rompe e quebra todos os tabus culturais e religiosos de então.

A verdade é que não sabemos a razão de ela ter tido cinco maridos. Terão morrido? Foram eles que tomaram a iniciativa de se divorciar dela? E aquele com quem vivia, quem era? Seu remidor, à semelhança da história de Rute? Ou tratava-se de uma “amizade colorida”? Não sabemos e qualquer juízo de valor não passa de especulação porque o texto é completamente omisso às razões da sua situação. É evidente que também se pode especular em sentido contrário. Para ter tido tantos maridos, seria bonita ou mulher de posses para tantos homens quererem viver com ela. E promíscua porquê? Afinal, se os cinco haviam sido seus maridos, foram-no todos num quadro legal. É evidente que também não se pode negar a hipótese de ela não ser um exemplo de integridade moral mas para sermos honestos na interpretação teremos sempre de declarar que essa é uma hipótese. O que sabemos com rigor é que ela viveu vários matrimónios e no momento do encontro com Jesus não se encontrava casada.

O que sabemos também é que de repente, no meio da conversa do “dá-me de beber”, “não tens com que a tirar”, “o poço é fundo”, “és maior que Jacob?”, “dá-me dessa água”, Jesus faz um pedido que aparentemente nada tem que ver com o assunto “da água do poço” e do seu correlativo “água que nos faz saltar para a vida eterna”: “Vai, chama o teu marido e vem cá” (v. 16). Que podemos concluir deste pedido que quase nos atrevemos a considerar uma ordem?

Jesus queria que ela se apresentasse com uma confissão de compromisso com o seu marido, com o seu senhor: “Vai, chama e vem.” Ao regressar com o suposto marido, ela estaria a reconhecer o seu compromisso com o homem com quem vivia.

Aqui, temos de perceber quem eram os Samaritanos e como funcionavam eles em termos religiosos. Se formos a Oseias e a 2 Reis 17:24-31, encontramos algumas pistas não só para esta questão mas para a razão de ser do pedido de Jesus.

Recordemos que Oseias recebe de Deus a ordem de se consorciar com uma adúltera (Oseias 3:1), que funciona como a situação então existente entre Deus e o Seu povo, que trocara o Senhor por outros deuses. Ou seja, Deus está atento aos desvios do Seu povo, mas isso não O impede de querer estar desposado com ele. Não que queira prostituir-se com ele mas porque quer arrancar o Seu povo ao domínio da idolatria e elevá-lo ao patamar da comunhão plena e satisfatória com quem é triplamente santo. Essa foi sempre e continuará a ser a atitude do nosso Deus, que deve ser proclamado como um Deus santo mas que ama de forma intensa até aqueles que Lhe viraram as costas ou que misturam no seu altar fogo estranho.

Em 2 Reis 17:24-41, vemos o início da formação do povo samaritano. O rei da Assíria enviou para Samaria cinco grupos de povos, cada um com os seus deuses e práticas religiosas e aí instalaram-se, misturando-se com o povo da terra. Dessa mistura surgem os Samaritanos que, embora mantendo as tradições e os estatutos da Lei de Moisés, as misturavam com os novos cultos.

Veja-se o versículo 33: “Assim que ao Senhor temiam e também aos seus deuses, segundo o costume das nações, de entre as quais tinham sido transportados”, ou seja, os grupos que o rei da Assíria enviara para Samaria. Para se distinguirem dos Judeus e evitarem a ida ao templo de Jerusalém, os Samaritanos erigiram o seu próprio templo no monte Gerizim, aquele a que a samaritana se referiu em João 4:20, exactamente no seguimento do pedido de Jesus de ela ir buscar o seu marido.

Ora, se lermos com atenção 2 Reis 17:30-31, verificamos que além do templo de Gerizim, os Samaritanos tinham outros cinco santuários dedicados a deuses estranhos. E repare-se também (v. 32) que os sacerdotes em Gerizim eram escolhidos entre os mais baixos, ou seja, eram escolhidos os que tinham fraca preparação teológica.

Podemos ver aqui um paralelismo entre a samaritana e a situação espiritual do seu povo, como se Jesus estivesse a dizer que a situação dela em nada diferia do seu povo – eles tinham 5 deuses, ela tivera 5 maridos; apesar de terem um templo em Gerizim, não tinham um compromisso firme com Deus Iavé. Tal como o seu povo, a samaritana não tinha também um compromisso firme com o homem com quem vivia. Daí a conclusão plausível de que Jesus queria levar a samaritana a ver concretizada em si a afirmação de Oseias 2:16: “E acontecerá naquele dia que me chamarás meu marido e não me chamarás mais meu Baal.”

Repare-se que Jesus começa o diálogo pedindo água para beber. Pede como homem, pois está cansado do caminho e com sede. Ao fazê-lo, identifica-se como qualquer um de nós. Ele compreende os nossos problemas, ansiedades e necessidades. Mas vai mais longe e desfaz as barreiras existentes entre os homens, sejam elas religiosas, étnicas, morais ou sociais. Ele não está aqui para perpetuar as nossas diferenças mas para unir o que estava separado e dividido. Disso é exemplo o grafismo da cruz que estabelece uma ponte entre o céu e a terra e também entre o ocidente e o oriente. Sem exagero, podemos afirmar que na cruz Ele é a ponte de toda a nossa geografia humana, individual ou colectiva.

No versículo 10, vemos que, partindo de uma necessidade física, Jesus leva a mulher à descoberta de uma realidade espiritual. E o que Ele oferece é algo de vivo e permanente e que, ao contrário da água física, não se esgota mas torna-se disponível a todos através de quem a bebe. Ou seja, primeiro pediu mas agora oferece. E o que oferece supera a oferta que a mulher Lhe entregasse. Assim é também connosco: pede uma vida destroçada e oferece uma vida com sentido, pede um ladrão e transforma-o numa pessoa honesta, pede um pecador e dá em troca um santo.

Aparentemente, a mulher não entende o alcance desta oferta porque insiste nos aspectos físicos: “Onde tens essa água?”, “O poço é fundo”, “Não tens balde para a tirar.” E continua agarrada às tradições herdadas dos antepassados.

O versículo 12 dá conta da sua estupefacção e incompreensão: “És tu maior que o nosso pai Jacob?” E repare-se na continuação da sua argumentação: “[nosso pai Jacob] que nos deu o poço e ele, os seus filhos e o seu gado beberam dele.” Que é como quem diz: “Esta água (e entenda-se a água tanto em sentido físico como metafórico) serviu plenamente os antepassados, serve também para nós.” Como é difícil a quem está tão agarrado à tradição aceitar a oferta nova de Deus!

Repare-se que a água que Jesus oferece é uma água viva, especial, dom de Deus. Não vem do poço, não vem da tradição, mas vem do dom de Deus. E esse dom é a pessoa de Jesus. Como nos deveriam ecoar sempre as palavras de Maria: “Fazei tudo quanto Ele ordenar.”

E curiosamente, aquando da Sua morte, como prova de que facto morreu, do lado de Jesus sai água e sangue – o ciclo encerrara-se e agora pelo sangue e pela água temos entrada na comunhão plena com Deus. Esse é o caminho – arrependimento e expiação do pecado pelo sacrifício oferecido pelo próprio Salvador, a água que sacia inteiramente a nossa alma.

Soli Deo gloria!

C. Ourique, 3.Maio.2022

O Prólogo Joanino – II

O Prólogo Joanino – II

João 1:1-18

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 Dr. Jorge Pinheiro

 

Como vimos na última exposição, João utiliza o conceito grego de Logos para se referir à Palavra de Deus. Como judeu que era, João conhecia Génesis 1:1 e sabia que no princípio Deus criara os céus e a terra. Também sabia que a primeira coisa que Deus fizera foi falar, foi usar a palavra. João sabia que a Palavra de Deus era criadora e poderosa e representava o próprio Deus Iavé, porque era através dela que todo o universo podia conhecer a vontade de Deus e por meio dela conhecer o próprio Deus.

Esta ideia de resto está presente em todo o Prólogo que termina identificando a Palavra de Deus com a pessoa de Cristo. Daí afirmar que “o Verbo se fez carne” (v. 14) e que: “o Filho Unigénito [Jesus] que está no seio do Pai tornou Deus conhecido.” (v. 18).

Por esse motivo, não está descabido afirmar que Jesus é a Palavra, ou melhor dizendo, é a Palavra de Deus tornada ser humano.

O Prólogo fala assim da origem de Jesus e é interessante notarmos a forma como cada um dos quatro evangelistas se refere às origens de Jesus e relacionar com a intenção de cada um.

 

Mateus apresenta-O como o Rei Messias. Por isso, regista a sua genealogia, entroncando-a em David. Todo o pretendente ao trono tinha de demonstrar a sua ascendência real.

Marcos apresenta-O como servo. Naquele tempo um servo não tinha direitos por ser considerado uma mercadoria descartável. Ora, Marcos não regista qualquer genealogia.

Lucas apresenta-O como um verdadeiro Homem, experimentado nos condicionalismos humanos e a genealogia que Lucas indica entronca no primeiro homem, Adão.

João apresenta-O como Filho de Deus, sem início e sem fim e por isso não tendo Ele genealogia, João não indica nenhuma.

 

Devido a essa característica do evangelho de João, é justo afirmar que a preocupação do evangelista não é tanto a descrição histórica mas uma interpretação teológica da acção, principalmente da pessoa de Jesus, como já havíamos dito.

É por causa deste carácter teológico que não podemos considerar este “No princípio” como uma categoria cronológica, temporal ou histórica. João remete-nos para um momento em que não havia tempo, ou seja, para a Eternidade. De facto, é na eternidade, que não está sujeita ao presente, ao passado ou ao futuro, que vamos encontrar tudo quanto a Ele diz respeito. Como João se refere a esse princípio que era antes de tudo quanto de físico existia, portanto antes de nós mesmos, faz todo o sentido dizer que “no princípio era o Verbo” e não que “no princípio foi o Verbo.” E temos de dizer “era” porque se tivéssemos a capacidade de retroceder no tempo (passado), em qualquer momento em que estivéssemos, encontraríamos sempre o Logos, o Verbo, enquanto se disséssemos “foi o Verbo”, estaríamos a afirmar que num dado momento dessa nossa vagem imaginária o Verbo passou a existir o que equivale a dizer que num momento existia, mas no momento imediatamente anterior, era inexistente.

Se nos ficarmos por uma análise estritamente literária, verificamos que este Prólogo assume um carácter poético que segue o modelo da poesia hebraica. De facto, há uma série de unidades de pensamento que se espalham por subunidades ligadas entre si pela copulativa “e”, em que cada frase acrescenta algo de novo à frase anterior. Vejamos alguns exemplos:

 

No princípio era o Verbo

e o Verbo estava com Deus

e o Verbo era Deus. (1:1)

 

Temos aqui uma unidade de pensamento cujo centro é o Verbo e ela começa com uma afirmação (no princípio era o Verbo) e cada linha acrescenta algo novo à anterior, concluindo com a frase: “ele estava no princípio com Deus.

Temos um segundo exemplo, no versículo 3:

 

Todas as coisas foram feitas por ele

e sem ele nada do que foi feito se fez.

 

A afirmação de o Verbo ser o Criador é reforçada pela frase seguinte.

Num terceiro exemplo, detectamos:

 

Nele estava a vida

e a vida era a luz dos homens

e a luz resplandece nas trevas

e as trevas não a compreenderam.

 

Poderíamos continuar e chegaríamos não só à mesma conclusão como também a que cada unidade de pensamento acrescenta algo de novo à anterior.

Se nos ficarmos apenas por estes três exemplos, teríamos os seguintes elementos que neles surgem:

 

- o Verbo (v. 1,2)

- o acto criador do Verbo

- o Verbo traz a vida

- o Verbo era a luz.

 

Se continuássemos, chegaríamos à manifestação da verdade (v. 17) e à revelação máxima de Deus traduzida em comunhão (v. 18).

Em conclusão, embora poético, o Prólogo não se limita à forma poética mas leva o leitor numa progressão de conteúdo. Podemos dizer que é uma poesia que não preferencia o lirismo, ou seja, os estados de alma, mas apresenta-se profundamente apologética. Nela, há um crescendo interligado de acção e caracterização do Verbo, da Memrah, do Logos, da Palavra de Deus, que culmina na Encarnação (v. 14) e na Comunhão (v. 18).

Numa análise mais apologética, podemos encontrar seis secções neste Prólogo:

 

1. O Verbo e a Deidade (v.1)

O primeiro predicado do Verbo é a sua identificação com Deus Iavé. Por isso, podemos dizer que entre os designativos “divindade do Verbo” e “deidade do Verbo”, é preferível esta última expressão porque é ela que está no pensamento joanino. É que enquanto “divindade” se reporta ao qualificativo divino, já “deidade” assinala não a qualidade de ser divino mas a de ser idêntico a Deus. Assim, deste primeiro versículo, podemos concluir que aquilo que Deus é, o Verbo também o é. Se Deus é eterno, criador e pessoal, então o Verbo também é eterno, criador e pessoal, pelo que João nos diz que o Verbo é co-igual de Deus.

 

2. O Verbo é criador (vv. 2,3)

Naturalmente sendo co-igual de Deus e sendo Deus criador, então o Verbo também o é. Daqui uma conclusão se impõe: no evangelho de Cristo não há lugar para o panteísmo! Embora tendo a marca do dedo de Deus, a Natureza não é Deus porque foi criada por Ele. Logo, não é sua co-igual.

João não está sozinho na afirmação de que o Verbo é Criador. Paulo já o afirmara em Colossenses 1:15- 17: O qual [Jesus] é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação, porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam principados, sejam potestades, tudo foi criado por ele e para ele e ele é antes de todas as coisas e todas as coisas subsistem por ele.

 

3. O Verbo é a fonte da vida, sendo por via disso a luz dos homens (vv. 4,5,9)

Estas são afirmações de grande importância. De si próprio, Jesus disse ser a vida e a luz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará em trevas mas terá a luz da vida” (João 8:12). Note-se esta expressão “luz da vida”, em que os dois conceitos estão inseparáveis. Não há vida sem luz, não há luz sem vida.

Recordemos também que o primeiro elemento que surge na criação é a luz: “E disse Deus: Haja luz. E houve luz” (Génesis 1:3). No mundo físico, a luz é indispensável, é essencial. Sem luz, a vida física torna-se impossível e todos sabemos que os seres vivos são atraídos para a luz, o chamado fototropismo. De igual modo, no mundo espiritual, sem luz não é possível haver vida espiritual que no Evangelho é designada por “vida eterna.” Quem não tem, quem não recebe esta luz espiritual permanece em trevas, que o mesmo é dizer que está morto espiritualmente.

Nestes versículos, João vai mais longe e declara (v. 5) que há um antagonismo entre trevas e luz, que as duas não podem coexistir harmonicamente.

 

4. O Verbo manifestou-se ao mundo e aos homens (vv. 10-11)

O termo “mundo” é usado na Bíblia com diversos significados. Pode referir-se a este planeta (João 17:5); ao conjunto dos seres humanos (João 3:16) ou ao sistema ideológico oposto a Deus (João 15:18; 1 João 2:15).

O versículo menciona esse termo por três vezes. Nas duas primeiras, indica o mundo físico, enquanto na terceira, identifica o conjunto dos seres humanos. No versículo 11, João especifica que aqueles entre os quais viveu (“os seus”) não receberam Jesus na sua qualidade de Verbo. Este “os seus” tanto se pode referir à humanidade em geral como mais especificamente ao povo no qual o Verbo nasceu, os Judeus.

 

 

5. O Verbo humanou-se, fez-se carne, fez-se um com os que o aceitam (vv. 12-14)

Nesta secção, temos o momento alto, o clímax da manifestação do Verbo – a sua encarnação. Ao humanar-se, o Verbo não perdeu a sua natureza divina mas reuniu em si as duas naturezas, a divina e a humana, juntando em si aquilo que estava separado pela ocorrência do pecado A Encarnação revela que Deus e o Homem podem estar em sintonia mas que tal só é possível na pessoa de Jesus, o Verbo, e apenas através d’Ele.

O versículo 12 deixa bem claro que a bênção trazida pela encarnação está disponível pela recepção e aceitação da luz e da vida que se encontram no Verbo e que o meio para que tal aconteça é a fé, ou seja, a aceitação incondicional da oferta do Verbo: “Eis que estou à porta e bato”.

 

6. O Verbo reúne em si a Graça e a Verdade (vv. 16-18)

João aponta a manifestação do Verbo entre os homens como o ponto-charneira de encontro entre a graça e a verdade.

Refere a Lei dada por Moisés e contrapõe-na à Graça e à Verdade trazidas por Jesus Cristo.

Qualquer análise honesta da natureza da Lei de Moisés conclui que ela contém a verdade. Tendo Moisés recebido de Deus a Lei, esta conterá necessariamente a verdade, porque Deus é verdade. No entanto, devido ao seu carácter punitivo, podemos dizer sem exagero que a Lei sobrepõe a Verdade à Graça, que fica assim abafada. E embora possa parecer contraditório, a Graça não está totalmente ausente da Lei. E porquê? Porque a Graça define-se como o favor imerecido que recebemos de Deus. E Deus, ao dar a Lei, estava a mostrar que é um Deus gracioso ou misericordioso porque não deixa os Seus sem uma orientação, não deixa os Seus sem o conhecimento da verdade da Sua vontade.

Então, qual é a novidade trazida pela encarnação de Jesus? É que n’Ele, a Graça e a Verdade estão de mãos dada sem sobreposição de uma sobre a outra. Se conhecemos a Verdade, então necessitamos de apreciar e de viver sob e com a Graça de Deus. E se conhecemos e experimentamos a Graça, precisamos de conhecer em pleno a Verdade de Deus. Não podemos viver com uma sem a outra.

É que, como disse alguém, a Verdade sem a Graça é condenatória, enquanto a Graça sem a Verdade é enganadora.

Ora, o único que está em condições de mostrar que as duas, a Graça e a Verdade, são irmãs gémeas e não rivais, é o Logos, a Memrah, a Palavra de Deus encarnada, em suma, a pessoa de Jesus que é a Verdade divina personificada na Graça eterna de Deus.

 

SAC, 22.Março.2022

O Prólogo Joanino – I

O Prólogo Joanino – I

João 1:1-18

 Jorge Pinheiro 7

 

No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o verbo era Deus.

In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et Deus erat verbum.

En archê en ó logos, kai ó logos en pros ton theon, kai theos en ó logos. (João 1:1)

 

 

Ao analisar o evangelho de João e em especial o Prologo, é preciso ter em atenção dois aspectos:

 

a. É um texto escrito por um judeu;

b. É um texto escrito para uma sociedade do séc. I profundamente helenizada.

 

Sendo assim, temos de perceber que este é um texto com uma mensagem marcada pelo pensamento hebraico destinada a uma população fortemente influenciada pelas categorias culturais helénicas.

Isso significa que, para captar o que o autor pretende transmitir, temos de ter um conhecimento mínimo da mensagem hebraica e da mentalidade helénica, tanto mais que o texto está escrito em grego.

Chama-se Prólogo ao texto que inicia o evangelho de João e é constituído pelos 18 primeiros versículos do Capítulo 1.

Para o entender melhor, temos de agrupar de um lado os versículos que lidam com o Logos, o Verbo, e do outro os que se referem a João Baptista. Seguindo esta recomendação, o texto seria lido assim:

 

Primeiro, os versículos referentes ao Logos:

1. No princípio era o Verbo [Logos] e o Verbo  [Logos] estava com Deus e o Verbo  [Logos] era Deus.

2. Ele [o Logos] estava no princípio com Deus.

3. Todas as coisas foram feitas por ele [Logos] e sem ele nada do que foi feito se fez.

4. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens.

5. E a luz resplandeceu nas trevas e as trevas não a compreenderam.

9. Ali estava a luz verdadeira que alumia todo o homem que vem ao mundo.

10. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele e o mundo não o conheceu.

11. Veio para o que era seu e os seus não o receberam.

12. Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome,

13. os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.

14. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória como a glória do Unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade.

16. E todos nós recebemos também da sua plenitude e graça por graça.

17. Porque a Lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.

18. Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, esse O fez conhecer.

 

De seguida, os versículos referentes a João Baptista:

6. Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João.

7. Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele.

8. Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz.

15. João testificou dele e clamou, dizendo: “Este era aquele de quem eu dizia: ‘O que vem depois de mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu.’.”

 

Quem está minimamente familiarizado com as Escrituras, não tarda em encontrar um paralelo entre João 1:1 e Génesis 1:1.

Com efeito, ambos os textos começam da mesma maneira: “No princípio” e ambos estão relacionados com algum tipo de criação – o Génesis fala da criação física, enquanto o Prólogo de João refere o início do que podemos designar por uma criação espiritual. Ambos mencionam um início: “No princípio.” Como texto hebraico que é, o Génesis introduz de imediato a presença de Deus, identificando-O como o Criador: No princípio, criou Deus os céus e a terra. Por seu lado, João começa por identificar uma característica da natureza divina: No princípio era o Verbo … e o Verbo era Deus. Ou seja, João não se limita ao aspecto criador de Deus (um Judeu sabia isso) mas refere que Deus é um Deus de relação, de comunhão, que comunica. Podemos também acrescentar que João salienta e reforça a ideia de que Deus é uma pessoa inteligível, uma vez que identifica Deus com o Verbo, com a Palavra. Como sabemos, a palavra é uma das características de quem é pessoa.

Há pelo menos mais dois paralelos entre o Génesis e o Prólogo joanino. Em Génesis, a primeira obra da criação é a manifestação da luz: ”E disse Deus: Haja luz! E houve luz.” (Génesis 1:3). Em João 1:5, lemos. “A luz resplandeceu nas trevas e as trevas não a compreenderam.” Repare-se que Génesis começa por afirmar que “havia trevas sobre a face do abismo.” (Génesis 1:2). Na criação física de Génesis, a luz impõe-se às trevas. João centra-se no aspecto espiritual e não no físico e reconhece o antagonismo entre a luz que o Verbo introduz no mundo e as trevas que imperavam sobre os seus semelhantes: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam.” (João 1:11).

O terceiro paralelismo encontramos na criação do Homem: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” (Génesis 1:26). Por seu lado, João refere que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (João 1:14), indicando assim que tal como Adão veio de Deus para ter papel de domínio sobre a criação, assim também nesta nova criação descrita por João, há um que veio de Deus para reinar e que, ao contrário de Adão que falhou embora tendo em si a centelha divina, este novo Adão não pode falhar porque, conforme diz Paulo, sendo espírito vivificante (1 Coríntios 15:45) é do céu porque é a encarnação de Deus.

Dissemos no início que há uma mensagem de origem hebraica que é comunicada por João a um público helenizado, pelo que teve de se socorrer de conceitos gregos para melhor comunicar o que pretende.

Estamos assim perante um processo de tradução. No original grego, João utiliza o termo “Logos” que em Português é traduzido indistintamente como “Verbo” ou “Palavra”. Possivelmente por influência da tradução da Vulgata Latina, “in principio erat verbum”, o termo preferido dos crentes é ”Verbo”. A verdade é que o nosso termo português “palavra” não traduz com rigor o grande conceito grego de “Logos.” Mesmo em Português, o outro termo “Verbo” faz recordar o conceito gramatical de verbo que procura traduzir a ideia de acção, podendo assim levar-nos a pensar na capacidade de argumentação, como sucede na expressão: “Fulano tem um verbo inflamado”, querendo com isso dizer que “Fulano é muito eloquente ou persuasivo.” Ora, o termo “Verbo” enquanto equivalente de “palavra” remete para a capacidade de transmitir e comunicar conceitos ou coisas.

Quanto ao conceito “Logos”, em termos de significado sabemos que evoluiu ao longo do tempo e tornou-se o conceito-chave da filosofia grega. Houve um filósofo helénico que lhe enumerou 17 significados diferentes, entre eles o de “expressão do pensamento pela palavra” e “a capacidade racional de o homem pensar e se exprimir. Aliás, é nesse sentido que no séc. VI a. C., Heraclito usava o termo em oposição ao discurso mitológico que procurava explicar uma série de fenómenos através do mito, recorrendo à intervenção de deuses ou figuras portentosas. Heraclito opôs-lhe o pensamento lógico, baseado naturalmente no Logos, defendendo que há uma razão para a existência das coisas.

Com o passar dos tempos, principalmente entre os Estóicos, o Logos passou a ser considerado como tendo uma essência divina, sendo o princípio criador que se sobrepunha aos próprios deuses (theoi) que mais não seriam que os resquícios do pensamento mitológico.

Ora, João pretende falar de Deus Iavé. Por isso, não pode usar o termo theos (deus) porque a mentalidade helénica iria identificar Deus Iavé como um theos, da mesma qualidade e natureza que todos os outros theoi gregos como theo Zeus ou theo Ares. Isso seria inaceitável para João, porque Iavé, sendo único, está acima de todos os que se intitulam ou são intitulados deuses. Ora, o conceito helénico que mais se aproxima da natureza de Iavé é o de Logos. Por isso João recorre a ele, escrevendo: “en archê en ó Logos – no princípio era o Logos.”

Mas voltando ao facto de que João é judeu e tem em mente os conceitos hebraicos, terá certamente pensado no conceito hebraico de memrah, que se identificava com a palavra emanada de Deus Iavé e que por via disso acabava por na prática se identificar com o próprio Deus.

Como é que um Judeu comunicava com Deus, ou melhor, como é que Deus Iavé se comunicava com o Seu povo em geral e com o judeu individual? Pela palavra. Vemos isso logo em Génesis. Na Criação, qual a primeira coisa que Deus fez? Não foi criar fosse o que fosse, mas foi falar. Com efeito, Génesis 1:3 declara: “E disse Deus…” Repare-se que em todos os outros actos criadores está escrito que “Deus disse…” (Génesis 1:6, 9, 14, 20, 24, 26).

Repare-se também que é essa a fórmula que os profetas utilizam ao anunciar a vontade de Deus: “E veio a mim a Palavra de Deus” ou outra fórmula equivalente (Jeremias 25:1; 46:1; Oseias 3:1; Joel 1:1). A Palavra de Deus ou Memrah acaba por ser para o judeu a própria manifestação de Deus. Assim:

 

ouvir a Palavra é ouvir Deus;

ler a Palavra é ler Deus;

sentir a Palavra é sentir Deus;

respeitar a Palavra é respeitar Deus;

estar na presença da Palavra é estar na presença de Deus;

amar a Palavra é amar Deus.

 

Por isso, também podemos afirmar:

 

A Palavra cria.

A Palavra conforta.

A Palavra cura.

A Palavra consola.

A Palavra converte.

A Palavra salva e transforma.

 

E a conclusão é lógica:

 

Queres ser curado? Lê a Palavra!

Queres ser abençoado? Lê a Palavra!

Queres ser salvo? Lê a Palavra!

Queres viver em vitória? Lê a Palavra!

 

Então, talvez a melhor tradução de João 1:1 fosse:

 

No princípio era a Palavra de Deus [a Memrah] e a Palavra de Deus estava com Deus e a Palavra de Deus era Deus.

 

Em João 1, o Logos a que o evangelista se refere não é a mera palavra que se fala nem a simples capacidade comunicacional, mas a poderosa Palavra de Deus que se fez carne na pessoa de Cristo.

Por isso, quando o centurião disse a Jesus: “Dize uma só palavra e o meu criado sarará” (Mateus 8:8), estava a pedir uma intervenção de Deus ao próprio Deus. De igual modo, quando meditamos na Palavra de Deus, estamos na presença de Deus.

 

 

 

SAC, 15.Março.2022

 

 

CRISTIANISMO – CRISTÃOS – SEGUIDORES-SERVOS DE JESUS O CRISTO

CRISTIANISMO – CRISTÃOS – SEGUIDORES-SERVOS DE JESUS O CRISTO

“E foi ali em Antioquia que os discípulos foram chamados cristãos pela primeira vez.” (Atos 11:26 – O Livro)

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Cristãos ou pequenos cristos segundo alguns comentadores, foi a designação que receberam os seguidores de JESUS pela primeira vez em Antioquia. O foco está colocado em JESUS, O CRISTO.

 

Nos dias que correm muitos dos que são designados por cristãos não têm nada a ver com JESUS – O CRISTO, mas pela cultura dita cristã, ou pela religião cristã ou cristianismo, o que vulgarmente se chama de cristão nominais.

 

Acredito numa cultura influenciada e até redimida, mas para tanto é imperiosa a experiência do novo nascimento e um compromisso sério com a pessoa de JESUS, a Sua vida e o Seu ensino em obediência aos princípios que viveu e ensinou, plasmados na Sua pessoa. O EU SOU viveu em absoluta harmonia com a Sua essência e natureza, e foi isso que Ele ensinou.

 

O que aconteceu com JESUS é o que Ele “propõe” à humanidade, pessoas transformadas pelo amor de Deus, pela graça por meio da fé. E isso só é possível porque ao morrer e ao ressuscitar o pecado foi radicalmente resolvido, atingido nas suas raízes de desobediência e hostilidade a Deus.

 

O que é o que o cristianismo fez de JESUS O CRISTO? A história é pródiga em disparates, crimes, disputas, divisões, contendas, perseguições, violências, guerras, alianças com o poder político-económico, ostentação, corrupção, imoralidade, abusos, e o muito mais que pode ser acrescentado e para o qual os evangelhos, o livro histórico dos Atos, as cartas apostólicas, o livro profético do Apocalipse e todos os livros da Bíblia preveniram e corrigiram desde os primórdios da Igreja. Os ramos do cristianismo: católico romano, ortodoxo (russo, ucraniano, grego…), reformado (magisterial e radical), anglicano, protestante, evangélico, carismático, pentecostal e neo-pentecostal… a lista bem que podia ser acrescentada em muitos ismos… tudo cabe no que se chama vulgarmente de cristianismo!

 

O que é que levou os habitantes de Antioquia a chamarem os seguidores de Jesus o Cristo, de cristãos? No meu entender não foi o cristianismo, mas JESUS O CRISTO!

 

O que temos nós para apresentar aos homens e mulheres de hoje no ateísmo, agnosticismo, ceticismo, existencialismo, marxismo, materialismo, naturalismo, judaísmo, cristianismo, islamismo, budismo, confucionismo, hinduísmo, panteísmo, panenteísmo, espiritismo, … por certo não é o cristianismo entre todos os ismos considerado como superior ou melhor! MAS ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE JESUS como nos é apresentado em toda a Bíblia, porque toda ela é Palavra de Deus, confirmada pela PALAVRA ENCARNADA – O LOGOS DIVINO.

 

A narrativa (como hoje se diz), que faz a diferença é JESUS O CRISTO! Só Ele viveu o que ensinou e ensinou o que viveu! Só Ele se apresenta como o “protótipo”… Ele é Deus entre nós como divino, e como Homem a imagem e semelhança de Deus que no princípio Deus criou! Os adereços, os rituais, as formalidades, o géneros musicais, os estilos e as formas de adoração e louvor de nada interessam. O que importa, como o próprio disse é que adoremos o Pai em espírito e em verdade!

“Acredita em mim, mulher. Vem o momento em que já não teremos de nos preocupar se o Pai deve ser adorado aqui ou em Jerusalém. Vocês adoram o que desconhecem, ao passo que nós conhecemos, pois é através dos judeus que a salvação vem ao mundo. Mas chega a hora, e é agora mesmo, em que os que verdadeiramente o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade. É assim que o Pai quer que o adoremos. Deus é espírito e os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade!” A mulher disse: “Eu sei que há de vir o Messias, chamado Cristo, e que quando vier nos explicará tudo.” Então Jesus disse-lhe: “Sou eu o Cristo!” (João 4:21-26 – O Livro).

 

Importa que como seguidores-servos de JESUS nos chamemos a todos para ouvir o que JESUS nos tem a dizer em toda a Bíblia à luz do Novo Testamento e da Sua pessoa. Todos, sem exceção! Judeus, cristãos, islâmicos, budistas, hindus, espíritas, céticos, agnósticos, ateus, materialistas LEIAM A BÍBLIA a começar pelo cumprimento das profecias e de toda a história da salvação e do proto-evangelho logo no primeiro livro da Bíblia, e que o último livro sintetiza de forma admirável e inexcedível:

 

“João, às sete igrejas da província da Ásia. Que vos sejam concedidas a graça e a paz daquele que é, que era e que há de vir, e também dos sete espíritos que se acham diante do seu trono, assim como da parte de Jesus Cristo, a testemunha fiel, o primeiro dos ressuscitados, o soberano dos reis da Terra. A esse que nos ama e nos lavou dos nossos pecados pelo seu sangue, nos reuniu no seu reino e nos fez sacerdotes de Deus, seu Pai, seja dada toda a honra e reconhecido o seu poder para sempre. Que assim seja! Eis que ele vem rodeado de nuvens, e toda a gente o verá, até mesmo aqueles que o trespassaram. E as nações se lamentarão por causa dele. Sim, isso é que há de acontecer! “Eu sou o Alfa e o Ómega”, diz o Senhor Deus, Todo-Poderoso, que é, que era, e que virá!” (Apocalipse 1:4-8 – O Livro).

 

Samuel R. Pinheiro

https://samuelpinheiro3.wixsite.com/omelhordetudo

A “HISTÓRIA” DE DEUS e O DEUS DA HISTÓRIA NA HISTÓRIA DO HOMEM

A “HISTÓRIA” DE DEUS e O DEUS DA HISTÓRIA

NA HISTÓRIA DO HOMEM

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            É nossa convicção que o homem por si nunca poderá alcançar Deus e conhecê-lO através da sua mente, pela sua intuição, pelo seu pensamento e imaginação, pela sua filosofia ou pela sua ciência. Tudo o que o homem por si próprio possa dizer acerca de Deus não é digno de confiança. O homem não tem como saber acerca de Deus se este não se revelar a Si mesmo.

Foi isto que Deus fez através das coisas criadas, através da Palavra inspirada, pelo Seu Filho unigénito entre nós, e pelo Espírito Santo que se move na história dos homens e habita em todos os que confessam a Jesus Cristo como Salvador e Senhor.

Pela história de todas as religiões o máximo que nós podemos ter é o anseio do ser humano em todos os tempos e em todas as latitudes e longitudes, em todas as culturas, pelo transcendente, pelo divino, pelo sobrenatural, pela espiritualidade. Ao mesmo tempo temos aí muita da rebeldia do homem em não querer aceitar as evidências da existência do Deus pessoal substituindo-o pelas coisas criadas, pelas forças e energias cósmicas, pela natureza, pelos objectos, pelos ídolos fabricados pela imaginação e engenho humano, pelas ideais e conceitos religiosos e filosóficos, enfim tantas vezes até pelo próprio homem mesmo quando nega Deus (ateísmo) ou dúvida de que seja possível saber alguma coisa acerca Dele (agnosticismo).

Consideramos que apesar de podermos encontrar em todas as culturas sinais que possivelmente Deus permitiu ao homem discernir ou que o próprio Deus aí inseminou, quem é que poderia ou poderá distinguir e articular o que são os factores divinos, os lampejos da verdade e o que é ilusão e falsidade resultado das limitações e insuficiências humanas?

Como já dissemos anteriormente estamos convictos de que Deus falou e continua a falar-nos através das coisas criadas, da Bíblia Sagrada, de Jesus Cristo e do Espírito Santo. Essa revelação é suficiente embora não seja absoluta. Não sabemos tudo acerca de Deus, mas sabemos o suficiente.

Especialmente em Jesus Cristo nós temos Deus entre nós na dimensão que nós podemos captar, entender, tocar, contemplar, conhecer, acompanhar, seguir. Diante de Jesus Cristo não temos qualquer dúvida acerca da existência de Deus.

Convém abrir aqui um parêntesis para confessarmos que se a ciência não pode provar nem negar que Deus existe porque Ele não se confunde nem está confinado, aprisionado, limitado, contido pela matéria e pela natureza, não é de admirar que racionalistas, intimistas, materialistas e naturalistas não o divisem. Deus não se prova, não se demonstra, não se explica. Deus é Deus – pessoal, triuno, Criador, Sustentador, Redentor, Restaurador e Consumador. Para nós Ele é auto-evidente. Por isso nem a Bíblia nem Jesus Cristo gastam tempo a provar o que está aí diante do nosso nariz e dos nossos olhos. Para quem é crente Deus é visível em tudo o que existe como obra das Suas mãos, a nossa existência não faz sentido sem a Sua existência.

Ele não existe porque nós existimos, mas nós existindo sabemos que Ele existe (de outra forma não o saberíamos). Da mesma forma que não precisamos que ninguém nos prove que existimos, também não necessitamos de nenhuma prova de que Ele existe e, no entanto, existindo temos todas as provas.

Esperamos pelo momento em que aqueles que O negam ou duvidam, estejam finalmente diante Dele para então sabermos o que Lhe dirão face a face, ou o que Dele ouvirão se é que será necessário dizer o que quer que seja. Ou seja será que diante Dele, não tendo como não aceitar a Sua existência ou duvidar dela, continuarão a não crer porque crer é muito mais do que admitir a existência, é confiar, é depender, é abandonar-se, é aceitar, é confessar, é adorar, é louvar, é gratidão… crer! Eu creio!!! O resto é pecado – errar o alvo da vida, querer ser deus sem Deus e contra Deus, acima de Deus – loucura.

Alguns perguntarão pelos que tendo apenas a criação e não tendo conhecimento da Bíblia como Palavra de Deus e de Jesus Cristo como Deus entre nós. Não temos qualquer dúvida que Deus sabe como lidar com cada um desses casos em conformidade absoluta com a sua natureza santa, amorosa, graciosa e justa. Não nos preocupa tanto os que não sabem mas o que sabendo rejeitam esse conhecimento, evitam com mil e uma desculpas e justificações a sua incredulidade. Cabe-nos como crentes a suprema tarefa de vivermos de tal forma que através de nós o conhecimento de Deus, do Seu amor, da Sua graça, da Sua santidade, da Sua perfeição, da Sua justiça chegue ao maior número possível de pessoas através de todos os meios porque só em Deus o homem verdadeira se encontra e é verdadeiramente humano.

Na Bíblia temos a “História” de Deus na história dos homens, temos o Deus da História na Sua soberania e na liberdade do ser humano. Nela não se confunde a palavra do homem com a Palavra de Deus, toda ela é Palavra de Deus porque toda ela foi escrita pela inspiração do Espírito Santo, pelo querer de Deus, ela mesmo distingue o que é palavra de homens, de loucos, até de demónios e as declarações do Altíssimo. Por isso a Bíblia não contém a Palavra de Deus misturada com as palavras humanas, mas é a Palavra de Deus. A palavra divina usando as palavras dos homens para que saibamos o quanto Ele nos ama e que só Nele encontramos o sentido, o desígnio, o propósito, a essência, a verdade.

A nossa história só ganha sentido e plenitude na História de Deus. Fomos criados por Ele e para Ele, só nos encontramos n’Ele. Ele é o Deus da História e da nossa história individual.

 

Samuel R.Pinheiro

www.samuelpinheiro.com

A INVASÃO DA UCRÂNIA Os sinais da segunda vinda de Jesus – O Apocalipse – E o consolo e ânimo dos filhos de Deus

A INVASÃO DA UCRÂNIA

Os sinais da segunda vinda de Jesus

O Apocalipse

E o consolo e ânimo dos filhos de Deus

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Fico incomodado quando observo a agitação que provoca a referência à segunda vinda de Jesus e ao livro do Apocalipse, quando está em causa uma situação como a da invasão da Ucrânia pela Rússia. Esta guerra bárbara que não poupa zonas residenciais nem hospitais e maternidades, igrejas e centrais nucleares, à mistura com ameaças que gritam insanidade. Estas atrocidades levam-nos a um olhar distante, mas mais próximo, do que tem sido a história humana desde que Caim matou Abel, descartando-se do seu ato e acusando Deus por não ter acolhido a sua dádiva à sua maneira. Deus deixou como acontece ao longo de toda a narrativa bíblica a responsabilidade de Caim para com o pecado à porta do seu coração, e a indicação de que agisse da maneira acertada também seria aceite como o seu irmão. Deus não mudou o Seu plano, porque nesse plano estava incluído o Filho de Deus, segunda pessoa da trindade, e que a seu tempo haveria de morrer na cruz em expiação e redenção. Algo que vai além do que alguma vez um homem pensou sobre o Criador. Não foi o pecado que obrigou à morte de Jesus, mas o Seu amor e justiça. Jesus poderia não ter morrido. A multidão desafiou-o a que saísse da cruz e assim creria Nele. Jesus permaneceu porque tinha em vista a nossa reconciliação com Deus, a destruição do plano maquiavélico engendrado no coração de Lúcifer e a possibilidade de novos céus e nova terra, e, entretanto, da própria presença do Seu Espírito em todos os que recebem a Jesus como Senhor e Salvador, mesmo em meio a dor e sofrimento, guerras e rumores de guerras, bombas, estilhaços de roquetes, de máquinas de destruição, de corpos mutilados.

Quantos milhões foram trucidados por homens possessos do mal. Dos impérios geopolíticos, dos oligarcas de todos os tempos, autocratas, déspotas e do religioso. O pior que pode acontecer ao ser humano é Deus entrega-lo a si mesmo. É o pior juízo. Toda a humanidade sofre: bebés no ventre das mães, crianças, velhos, mulheres, adolescentes, jovens, homens. Será bom dar uma vista de olhos pelo primeiro capítulo da carta aos Romanos escrita pelo apóstolo Paulo, que conheceu como poucos a perseguição depois de ter sido um perseguidor, e é uma demonstração do milagre do amor de Deus a transformar o coração humano. Mas também exemplo de um consolo que passava a outros quando desesperava da própria vida, leia-se também o primeiro capítulo da segunda carta aos Coríntios. No capítulo vinte e quatro do evangelho de Mateus, Jesus fala de eventos futuros em que sofrimentos terríveis se abateriam sobre o Seu povo, em parte acontecidos nos anos 70 quando Jerusalém foi arrasada e os judeus foram expulsos da sua terra. Nesse contexto apontam-se outros tempos que ainda estão à nossa frente e cujas dores já sentimos, neste momento os nossos irmãos ucranianos e toda a população.

Quando chegamos ao último livro da Bíblia que lições podemos retirar do escrito inspirado pelo Espírito Santo em visões dadas ao apóstolo João, que no seu corpo sabia o que era o martírio, numa ilha inóspita. Que quadro nos é apresentado? Leio o Apocalipse com olhos diferentes da minha meninice e adolescência. Se é um livro de castigos divinos, é acima de tudo, um livro de consolo porque Jesus reina vitorioso e o fim da era da violência e da morte é-nos apresentado, porque isso não depende da Igreja nem dos líderes humanos, mas do próprio Deus. É um livro de misericórdia porque à luz do que hoje sabemos e em conformidade com a promessa divina depois do dilúvio a terra não será pulverizada, o que hoje é diabólica e humanamente possível. Leio à luz de uma afirmação difícil de Erwin Lutzer no livro Mais Perto de Deus: O que Deus permite, Deus determina! Deus é soberano, Deus criou-nos não para sermos assim, mas o roteiro passou pela queda por causa da desobediência humano que continua hoje a repetir-se. Jesus veio na demonstração absoluta e suprema, inexcedível, do amor divino. Deus morrendo a nosso favor na cruz. Ensinou-nos pela Sua vida e ensino a amar a Deus sobe todas as coisas, ao próximo como a nós mesmos, e a amar os nossos próprios inimigos.

O livro do Apocalipse desenvolve-se em torno da questão premente das perseguições sobre os seguidores enviados como ovelhas para o meio de lobos: “Até quando…?”, “Até que…” “Chegou o dia…” (6:10, 11, 17 – O Livro). “Então, a cada um deles foi dada uma vestidura branca, e lhes disseram que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram”. (6:10,11 – ARA). Mais adiante um anjo “jura por aquele vive pelos séculos dos séculos, o mesmo que criou o céu, a terra e o mar e tudo quanto neles existe: Já não haverá demora.” (10:6 – ARA). E finalmente: “E aquele que está sentado no trono disse: Eis que faço novas todas as coisas.” (21:6 – ARA). E a Bíblia encerra com esta promessa e bênção: “Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente venho sem demora. Amém. Vem, Senhor Jesus. A graça do Senhor Jesus seja com todos.” (22:20,21 – ARA).

O QUE DIZER aos que sofrem, expostos à morte na sua fé em Jesus senão o que Deus diz de Génesis a Apocalipse? O QUE FAZER aos que sofrem, expostos à morte na sua fé em Jesus senão o bem que Ele nos ensinou a fazer? ORAÇÃO e AÇÃO!

Isto não vai durar para sempre… MARANATA!

 

 

Samuel R. Pinheiro

https://samuelpinheiro3.wixsite.com/omelhordetudo

SÍNTESE

SÍNTESE

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Revelação natural (Salmo 19), escrita (2 Timóteo 3.16), e pessoal (João 1:1-18; Hebreus 1:1,2; 1 João 1:1-4) de um Deus pessoal, distinto da natureza, omnipotente, omnisciente, omnipresente, santo, soberano, amoroso, justo, misericordioso, gracioso (Génesis 1:1). Não dependemos da nossa opinião, do nosso ponto de vista, do nosso relativismo, da nossa imaginação, dos nossos critérios, dos nossos achismos no que diz respeito à essência da nossa existência, da nossa conduta, das nossas origens e da nossa finalidade. Deus não é um ser sozinho. Deus é um ser trino. A “família” divina aponta-nos para um relacionamento de amor absoluto e eterno. A paternidade divina com um amor que excede em muito o amor de mãe é muito significativa à luz da experiência humana, mas muito mais como orientadora dessa mesma vivência (Isaías 49:15,16). Em Jesus Cristo, pelo Espírito Santo, podemos chamá-Lo de “Abba Pai” – paizinho (Gálatas 4:6). Deus é um Deus relacional. Ser pessoa só é verdadeiramente possível diante da pessoalidade divina. Não é da matéria ou da energia que retiramos essa compreensão.

 

Sentido, razão de ser, propósito e desígnio para a vida. Não somos resultado do acidente, do acaso, do nada e do absurdo. A vida é um mistério com sentido quando vivida a partir de Deus (Efésios 1). Só em Deus temos sentido e propósito. Não somos nós que podemos inventar o nosso desígnio. Não fomos nós que nos criámos e fizemos, e em última instância não somos sequer nós mesmos que nos sustentamos. Existimos e continuamos a existir em Deus (Actos 17.28). Como geração de Deus não O podemos confundir com a matéria ou a energia em bruto ou manipulados pela arte e imaginação do homem, em forma de ídolo (Actos 17.29).

 

Dignidade, identidade, auto-estima como criação à imagem e semelhança de Deus (Génesis 1:27). Nós prestamos apesar das consequências históricas e globais causadas pelo uso errado do livre-arbítrio (Génesis 2:9). Nós não somos o Criador e Sustentador nem de nós mesmos nem do planeta e do universo em que vivemos, não somos nós que podemos estabelecer ou alterar os princípios que a eles presidem e que se inserem na natureza do próprio Deus. Fomos criados para Ele e nada há melhor do que isso. Não podemos viver sem Ele e a vida só vale a pena mergulhados, dominados, absorvidos, encharcados do Seu amor e da Sua graça em santidade e justiça. Por e em Jesus sabemos isso perfeitamente. Deus não se impõe, apesar de não podermos existir sem Ele. Fomos criados podendo rejeitá-Lo, embora não possamos dar um passo sem ser pelo Seu sopro. (Actos 17:16-34)

 

Explicação da actual condição humana relativa à presença do mal, da maldade, da dor, do sofrimento, da doença, das catástrofes, da violência, da guerra, do egoísmo, da vingança e da morte, bem como do bem, da solidariedade, da bondade e da vida à luz da liberdade e da responsabilidade humana. O egocentrismo, o orgulho, a soberba, a arrogância e a pseudo-auto-suficiência do homem é a raiz do pecado, de onde brotam todos os pecados, toda a injustiça, toda a violência, todos os crimes, toda a imoralidade, toda a ofensa, toda a ruína, toda a destruição. Não é possível viver inconsequentemente contra a vontade e a natureza santa de Deus. O salário do pecado é a morte, separação de Deus e do Seu plano e propósito. Deus é o Criador e o sustentador, o Legislador e o Juiz, o Senhor e o Salvador, o Redentor e o Consumador. (Romanos 1:18-32)

 

O modelo perfeito de amor, graça, justiça, santidade em Jesus Cristo, Deus feito homem (100% Deus e 100% homem). Deus não é um ser distante, ausente, insensível, alheado da Sua criação. Deus fez-se à nossa imagem, sendo nós à Sua imagem, degradada pelo pecado. O que é um testemunho poderoso e elucidativo de quem Ele é e de quem nós somos, da Sua magnanimidade e do nosso valor n’Ele. Deus não desistiu de nós. Deus entrou na nossa história. Deus fez-se um de nós. Deus provou a nossa condição, menos no pecado. Deus assumiu sobre Si as consequências eternas do nosso pecado. Deus sabe que sofremos e provou o nosso sofrimento. O nosso Deus sabe por experiência própria o que são as consequências da nossa condição pecaminosa. (João 1:1-18; 1 João 1:1-4)

 

Um meio pessoal de acesso directo a Deus por Jesus Cristo, na certeza absoluta de perdão e reconciliação, em que o homem pode ser feito nova criação, filho de Deus pela graça e mediante a fé, que não depende em nada dos méritos ou virtudes humanas (Efésios 2.8-10; 1 Timóteo 2.5). Em Jesus Cristo Deus veio ao nosso encontro e através d’Ele nós vamos ao encontro de Deus. O Seu absoluto e incondicional amor bem como a Sua justiça ficaram bem explícitas na cruz em que Jesus morreu em nosso lugar. A Sua morte substitutiva, redentora, expiatória, vicária e justificadora é o ponto central da História e da eternidade. Toda a singularidade do Evangelho radica na revelação de que o próprio Deus, o Criador e Sustentador de todas as coisas, o Legislador e o Juiz supremo morreu no lugar do réu. Nada de maior pode ser inventado pelo homem. O mistério da cruz, guardado no coração divino desde antes da fundação do mundo, é a nossa salvação. Mas o Filho de Deus não ficou prisioneiro da morte, Ele venceu. Cristo ressuscitou. A vida eterna está ao nosso alcance. O maior de todos os pecados é rejeitar o perdão divino. A condenação eterna do homem não ficará a dever-se aos seus pecados, mas à recusa do perdão gracioso que Deus nos estende em Cristo. (João 3; João 14:1-15; 2 Coríntios 5:17-21)

 

Uma mensagem regeneradora, libertadora e portadora de saúde, que gera fé em Jesus Cristo, o autor e consumador dessa fé que é confiança, submissão e dependência incondicionais. Espírito, alma e corpo; mente, afectos, emoções e vontade abrangidos pela acção salvadora de Cristo. Deus é um Deus de milagres. Desde o milagre da vida ao milagre do novo nascimento, passando pelos milagres de conservação da criação, da cura do corpo e da mente, dos afectos e das emoções, da vontade e dos relacionamentos. (Marcos 16:14-18)

 

Declaração Universal de valores de santidade, amor, perdão e serviço inscritos milenarmente nos textos da Bíblia dos quais se destacam os Dez Mandamentos (Êxodo 20:1-17) e o Sermão da Montanha (Mateus 5-7). Tanto um como outro, bem como todo o relato bíblico, brotam do inexcedível amor de Deus (1º Coríntios 13).

 

Um ideal com valor eterno de construção do reino de Deus em que o amor é a lei e reúne todos os que aceitam Jesus Cristo como Salvador e Senhor e que é a Igreja.

 

Um compromisso de amor incondicional, sacrifício abnegado, renúncia, tolerância e verdade em amor na construção do Reino de Deus. (Mateus 10:34-39; Mateus 11:28-30)

 

A presença constante do Espírito Santo para uma vida de crescimento contínuo segundo o carácter de Cristo, habilitando-nos com todos os recursos necessários ao projecto do Reino. (1 Coríntios 12:1-11; Gálatas 5:16-26)

 

Esperança relativa ao futuro, de “novos céus e nova terra em que habitará a justiça eternamente” e que depende única e exclusivamente do Criador, Sustentador, Redentor e Consumador de todas as coisas. (2 Pedro 3:13; Apocalipse 21:1)

 

Samuel R. Pinheiro

BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO VIRAM MAS CRERAM

BEM-AVENTURADOS OS QUE NÃO VIRAM MAS CRERAM

Esta afirmação de Jesus surge no contexto da Sua ressurreição quando apareceu aos discípulos na ausência de Tomé. Ficou proverbial relativamente a este discípulo a 2022fev14 ADbenfica fotosCatarinaSousa - 3expressão “ver para crer”. Entretanto Jesus correspondeu à dúvida honesta e sincera do apóstolo Tomé. Entrou no espaço em que eles se encontravam, sem bater à porta, e sem necessidade que Lhe abrissem a porta. Apresentou ao discípulo incréu as evidências que Ele reivindicava e logo que o fez surge a confissão “Senhor meu e Deus meu”. Jesus mostrou-lhe as marcas da Sua morte que O identificavam como sendo Ele mesmo. E acrescentou: “Porque viste, creste? Bem-aventurados os que não viram mas creram” que nos serve de título.

Em primeiro lugar Jesus não nega as evidências necessárias a quem honestamente apresenta as suas dúvidas e hoje essa circunstância serve-nos de base para esclarecer interrogações que são legítimas. Sabemos que Jesus ressuscitou e o registo que nos foi deixado é suficientemente esclarecedor. É interessante verificar que na primeira visita que Jesus realizou aos Seus amigos mais chegados no primeiro dia da semana, estando as portas da casa trancadas com medo dos judeus “mostrou-lhes as mãos e o lado”, depois da saudação: “Paz, seja convosco”. A exigência de Tomé vem em linha com o que Jesus já tinha feito espontaneamente! A diferença é que Tomé não apenas queria ver, mas queria tocar: “Se eu não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, e ali não puser o meu dedo, e não puser a minha mão no seu lado, de modo algum acreditarei.” (João 20:25, ARA)

Em segundo lugar há o livre-trânsito de Jesus junto dos discípulos. Comparece porque está antecipando o momento em que será assumpto ao céu e conforme a Sua promessa estará na presença de dois ou três que se reúnam no Seu nome (Mateus 18:20). A dimensão relacional a que somos chamados por Ele. Entra sem necessitar de bater à porta e de que a porta Lhe seja aberta. Dois aspetos singulares de que na vivência dos Seus seguidores Jesus não precisa de pedir licença para entrar como acontece com os nossos amigos mais íntimos. Ele entra. Não existem datas especiais, não é apenas ao domingo ou dias feriados. Não existem dias santos no calendário religioso, não são precisas liturgias ou cerimoniais para que Ele se manifeste, não é necessário um lugar ornado de peças de valor incalculável, basta o nosso aposento. Não existem obstáculos que possam impedir a Sua presença. Na cela de uma prisão, na cama de um hospital, no cadafalso das perseguições movidas pelos poderes das trevas do obscurantismo, nas profundezas do mar ou dentro de uma nave espacial – Ele está presente na vida de todos os que O receberam. Não há muros que Lhe possam barrar a presença e a ação. Ei-Lo junto dos discípulos que se vão habituando a essas passagens inesperadas e esse trânsito do transcendente e do imanente, entre o espiritual e o físico.

Em terceiro lugar temos a presença de Tomé o ausente, agora presente. Jesus não depende de presenças e de ausências. Ele aparece pura e simplesmente. O discípulo já não precisa das marcas, mas ainda assim elas são apresentadas. A fisionomia de Jesus era suficiente ou a fé que desponta pelo aparecimento inusitado cresceu. Mas Tomé vai mais longe e faz uma declaração central no Evangelho sobre a identidade de Jesus: “Senhor meu e Deus meu”.

Em quarto lugar Jesus aproveita a ocasião para fazer a ponte em relação ao futuro próximo: “Bem-aventurados os que não viram mas creram”. Hoje como ontem nós fazemos parte dessa multidão incontável de crentes que não viram mas creem. Não cremos no vazio, não cremos por crer, não cremos de forma ignorante ou crédula. Cremos porque os factos foram registados, cremos porque ao crer a manifestação divina aconteceu em nós, cremos porque não podemos deixar de crer. Mas, no caso dos Apóstolos, o que eles viram com os seus próprios olhos levou-os a estarem dispostos a morrer na expectativa das moradas que Jesus prometeu iria preparar. Não podiam negar o que era evidente. As suas vidas foram transformadas e tocadas pelo poder do Altíssimo. Eles sabiam de facto que Jesus ressuscitou e isso muda tudo! Foi assim que um meu aluno confessou quando coloquei o cenário da ressurreição face ao hipotético vazio da vida, ao sem sentido e ao absurdo que a obra de Virgílio Ferreira Aparição elabora. ISSO MUDA TUDO!

Hoje Jesus está à porta da vida de cada um que ainda não O recebeu ou dos que já O receberam, mas entretanto O “despejaram”: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo.” (Apocalipse 3:20).

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Samuel R. Pinheiro
Diretor de Publicações

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A LOUCURA DE DEUS

“Eu sei bem como parece loucura, para os que estão perdidos, dizer que Jesus morreu 2020junho28 ADbenfica - 2peqna cruz para os salvar.” (1 Coríntios 1:18 – O Livro). Palavras do primeiro século, no berço da Igreja cristã, face à cultura grega. A própria necessidade de salvação é ofensiva para uma mentalidade humanista em que o homem ocupa o centro de todas as coisas. Hoje em dia carrega consigo a filosofia evolucionista, ou seja tudo o que existe é resultados das forças cegas da natureza, em que tudo surgiu do nada, a vida da não vida, o orgânico do inorgânico, a inteligência da não inteligência, do mesmo modo a linguagem, a consciência, a ética e a moral. Habilitado de um cérebro que continua a ser para todos nós um mistério, com um esforço titânico para se descobrir, conclui que a inteligência apenas nos tem a dizer que tudo é sem sentido. Na realidade se o homem é resultado das energias aleatórias da matéria a ideia de salvação é patética. Levando até às últimas consequências o raciocínio ficam justificados o holocausto, os gulags, os genocídios, os infanticídios; o que vale é o interesse particular dos mais fortes. A situação ainda fica mais disparatada para o homem natural quando essa salvação é resultado da morte de Jesus.

“Contudo, para nós que estamos salvos, isso é a expressão do poder de Deus”. (18 – O Livro). A diferença do raciocínio do homem e a sabedoria de Deus, tem o tamanho do pecado humano. Tudo muda de figura quando Deus entra em cena. Em vez de uma evolução temos a queda em que o homem ficou desfigurado, corrompido, por causa da sua desobediência. Mas Deus veio em nosso socorro. Não foram os pregos que prenderam Jesus à cruz, mas o Seu amor pela humanidade. O poder desse amor nos liberta para uma nova vida segundo Deus.

“O que dizer então desses sábios, desses especialistas na Lei, desses comentadores das grandes questões mundiais? Deus tornou a sua sabedoria em loucura. Porque Deus, na sua sabedoria, determinou que o homem não o encontraria por meio da sua inteligência, mas que haveria de salvar todos os que cressem nele mediante a loucura da pregação.” (20,21 – O Livro). É preciso ser muito inteligente para entender as teorias humanas, as filosofias, a ciência e a tecnologia. Se Deus tivesse determinado que assim fosse no plano da salvação, só os que nascem com um coeficiente de inteligência superior, é que entenderiam o plano da salvação. Teríamos que ser Deus para captar toda a sabedoria, toda inteligência, todo o conhecimento divino. Somos criação inteligente e o que nos é requerido é que humildemente, no reconhecimento das nossas limitações, acolhamos o Seu plano de salvação. O problema não está do lado de Deus, mas do nosso. Estamos espiritualmente falidos diante do Criador. Toda a inteligência do homem pode levá-lo à Lua, mas não chega para levá-lo a Deus. Até uma criança entende isso quando segura a mão do pai, ou quando pede à mãe para fazer o que ela não consegue. Foi isso que Deus fez. Na Sua passagem por esta terra Jesus exclamou: “Naquele momento, Jesus, cheio da alegria do Espírito Santo, disse: ‘Pai, Senhor do céu e da Terra, graças te dou por teres escondido estas coisas aos instruídos e aos sábios e as revelares às criancinhas. Sim, obrigado, Pai, pois foi assim que quiseste!’” (Lucas 10:21 – O Livro). Não se trata de um elogio à ignorância e estultícia, mas precisamente o contrário. É a exaltação da sabedoria divina que só se alcança com um coração humilde e singelo. A este propósito Jesus nos apela: “Aprendam de mim, porque sou brando e humilde, e acharão descanso para as vossas almas.” (Mateus 11:29 – O Livro). E o apóstolo Paulo por seu turno quando dirige uma carta aos Romanos exclama em adoração: “Como é imensa a riqueza de Deus e a sua sabedoria e ciência! Quem poderá explicar os seus planos e compreender os seus caminhos! Bem diz a Escritura: Quem é que conheceu os pensamentos do Senhor? Ou quem lhe serviu de conselheiro? Quem antes deu algo a Deus para que isso lhe seja retribuído? É que tudo veio de Deus e tudo existe por ele e para ele. A Deus seja dado louvor para todo o sempre. Ámen.” (11:33-36 – BPT). Sejamos sábios na sabedoria de Deus.

“Os judeus pedem sinais milagrosos e os gentios procuram sabedoria. Mas, quanto a nós, pregamos que Cristo foi crucificado, os judeus escandalizam-se e os gentios dizem que é loucura.” (22, 23 – O Livro). O escândalo e a loucura de religiosos e filósofos, são estultos, porque a o problema espiritual é nosso, e só Deus tem o poder de o resolver segundo a Sua natureza de amor e justiça. O amor de Jesus sem medida, satisfez a justiça divina, e reconciliou com Deus todos os que tomam estas coordenadas como base da sua vida. Em Jesus somos salvos! Bendita loucura e escândalo!

Samuel R. Pinheiro

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OS SOFRIMENTOS DO TEMPO PRESENTE

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Ainda bem que dói! Pode parecer estranho… mas não é masoquismo nem sadismo. Quando dói significa que algo não está bem e é preciso atender aos sinais para tratar do que está a provocar dor, e ainda bem. Quem não sente dor o organismo não reage e o problema vai-se agravando até ao ponto de ser tarde demais. O médico Paul Brand que escreveu com Philip Yancey, e que era especializado no tratamento da lepra, aspirava por devolver aos seus pacientes o dom da dor. Podemos dizer que nas emoções quando dói, por exemplo quando um ente parte, doer significa que há um relacionamento de intimidade, memórias e sentimentos que foram tão significativos que chegam ao ponto de parecer que não se consegue viver sem essa pessoa. Ainda bem que dói! Em termos espirituais também é possível sentir dores relacionadas ao sentido, desígnio de propósito da vida, e à ausência de Deus, porque só Ele nos preenche e só Jesus Cristo nos reconcilia em todas essas dimensões. Ainda bem que dói!

 

A questão do pecado é muito grave, acima de tudo porque ao provocar a morte espiritual, torna o homem insensível à sua situação no que é mais significativo e essencial. Precisamos do Espírito Santo para nos apercebermos da nossa situação espiritual. É isso que Jesus diz quando promete o Consolador: “Agora, volto para aquele que me enviou, mas nenhum de vocês me pergunta para onde vou. Em vez disso, sentem apenas tristeza. Na verdade, é melhor que eu vá, porque se eu não for não virá o Consolador. Se eu for, ele virá, pois vou enviá-lo. E quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, de que têm de contar com a justiça de Deus e de que haverá um juízo. O pecado do mundo é não crer em mim. Haverá justiça porque eu vou para o Pai e vocês não me verão mais. O juízo virá porque o chefe deste mundo já foi julgado.” (João 16:5-11 – O Livro). É por isso que todos os que são vivificados são mais sensíveis à condição espiritual da humanidade.  Ainda bem que dói!

 

A redenção, o sermos filhos de Deus em Jesus Cristo, a presença do Espírito Santo em nós, o abraço do Pai, são fatores determinantes para tratar das nossas dores, quaisquer que elas sejam. Mas a esperança que o evangelho nos incute é marcante. É do texto bíblico, na escrita do apóstolo Paulo, que retiramos o nosso título: Com efeito, considero que aquilo que somos chamados a sofrer agora nada é comparado com a glória que ele nos dará mais tarde.” (Romanos 8:18 – O Livro). O que foi no Jardim do Éden, não é o que vivemos atualmente. O que vivemos em Jesus Cristo é uma antecipação das moradas eternas, é apenas um cheirinho, um perfume – é muito bom. Mas a plenitude virá no futuro que nos está reservado ao confiarmos e obedecermos ao Deus trino – Pai, Filho e Espírito Santo.

 

“As aflições deste tempo presente não se podem comparar com a glória que em nós há de ser revelada.” (JFA). Só é possível compreender os espirituais negros nesta gloriosa esperança. Cantar como Paulo e Silas na prisão (Atos 16:25). Como Paulo que chegou a desesperar da própria vida, mas o consolo com que foi consolado por Deus, era a razão de ser do consolo que ministrava aos coríntios (2 Coríntios 1:8-11). Os heróis da fé dos quais o mundo não era digno: “Houve mulheres que receberam os seus entes queridos ressuscitados. Outros foram torturados, preferindo morrer a ficarem livres, porque esperavam, pela ressurreição, alcançar uma vida melhor. Outros foram ridicularizados, açoitados, acorrentados em prisões. Alguns morreram apedrejados, serrados ao meio; outros foram tentados a renegar a sua fé, acabando por ser mortos à espada. Houve os que andaram vagueando pelos desertos e pelas montanhas, vestidos de peles de ovelha e de cabra, escondendo-se em covas e em cavernas, sem amparo, perseguidos e maltratados. O mundo não era digno deles.” (Hebreus 11:35-38 – O Livro). Falemos dos mártires como Estêvão (Atos 7), os apóstolos, e os milhares que foram mortos e os que ainda hoje enfrentam a morte única e exclusivamente por confessarem Jesus como Senhor e Salvador. Esta esperança ainda hoje está disponível para cada um de nós no plano eterno de Deus. O próprio Jesus Cristo, o Justo que nos justificou, morreu tendo em vista o resultado futuro do seu sacrífico: “E quando vir que tudo isso foi realizado através da angústia da sua alma, verá a luz e ficará satisfeito. Por causa de tudo por que passou, o meu Servo justo fará com que muitos sejam considerados justos perante Deus, visto que levará todos os seus pecados. Por isso, lhe darei as honras de quem é grande e poderoso, pois derramou a sua alma, indo até à morte. Ele foi contado entre os transgressores, carregou os pecados de muitos e intercedeu junto de Deus pelos pecadores.” (Isaías 53:11,12 – O Livro).

 

O tempo presente não encerra toda a nossa existência. Existe em Jesus Cristo à nossa disposição uma dimensão eterna de glória. Vivamos intensamente esta bendita esperança.

 

Samuel R. Pinheiro

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