É CASTIGO DE DEUS

É CASTIGO DE DEUS
2018julho21 Casamento Ana
RTP1 – reportagem de um canal suíço em Bérgamo, Itália (2020março30 – Jornal da tarde)
Declaração na ponta da língua de uma cidadã de Bérgamo para um canal de televisão suíço. Quem sabe? O Deus que vejo em Jesus não anda por aí a distribuir pandemias.
A minha análise destas catástrofes bem como de outras situações em que a manifestação do mal e do sofrimento estão presentes balizam-se pela cosmovisão cristã que entre vários autores cristãos são expressos nos seguintes termos:
- NEM SEMPRE FOI ASSIM.
- NÃO SERÁ ASSIM PARA SEMPRE.
- VIVEMOS ENTRE O JÁ E O AINDA NÃO.
- EM JESUS AGORA TEMOS REDENÇÃO E A CERTEZA DE QUE ESTARÁ CONNOSCO PARA LIVRAR-NOS DA ADVERSIDADE OU FICAR AO NOSSO LADO NA ADVERSIDADE.
Mas existem textos explícitos na bíblica em que o próprio Deus diz que enviou calamidades. Tudo o que acontece, acontece com a permissão divina. O propósito será sempre a oportunidade para mudarmos de rumo, para nos arrependermos e nos convertermos dos nossos maus caminhos. A escolha é do homem e da mulher. A escolha é nossa. Temos livre-arbítrio e temos uma razão, uma consciência e uma vontade. Temos igualmente ao nosso dispor, hoje mais do que nunca, a revelação divina que nos alerta e nos indica. Temos nessa revelação a pessoa de Jesus Cristo que invadiu a nossa História e nos mostrou Deus em carne e osso, de modo visível. O invisível tornou-se visível. O transcendente tornou imanente. Temos, acima de tudo, Deus que realiza o plano de Salvação por Ele traçado e em que Ele é o Redentor, o que morre e dá a Sua vida. No entanto as Escrituras não escondem o papel da multidão, do sinédrio, das autoridades romanas, e de toda a humanidade em todos os tempos e eras.
A minha perspetiva pessoal é que Deus nunca se exime ao Seu papel no planeta Terra. Deus é Deus. Nada nem ninguém O suplanta. Deus deu à humanidade livre-arbítrio. Podemos ler as narrativas como ação divina, e como intervenção dos agentes naturais e da humanidade. Quando Deus diz que é Ele, é porque é Ele. Mas no meu entender, não significa que aí não esteja implicada a responsabilidade humana e dos agentes naturais.
O que se pode dizer acerca do COVID19? Não temos autoridade para dizer que é castigo de Deus. É resultado de um mundo que sofre as consequências de uma humanidade em rota de colisão com a natureza divina, e o que acontece de mau é sempre uma oportunidade para o volte face humano, para nos convertermos, para mudarmos de rumo, para sermos solidários. Nunca por nunca ser nos tornarmos sobranceiros aos outros, nem sequer orgulhosos da nossa espiritualidade. Não há nenhuma razão para isso. Antes bem pelo contrário. Fomos salvos como toda a gente necessita ser salva. Vamos orar e agir. E neste caso particular o ficar em casinha já é uma contribuição decisiva. Depois temos a oração em favor de todos os homens e de todos os líderes das nações, pelos profissionais de saúde, segurança pública, a assistência social, as equipas de rua, os que asseguram serviços essenciais e todos os que trabalham em casa e fora dela. A todos, o nosso reconhecimento, principalmente a quem tem de assumir decisões difíceis para minimizar ao máximo as consequências da pandemia, e poupar o maior número possível de vidas.
Vivamos aqui e agora na certeza de em Jesus termos a vida eterna. Confessemos os nossos pecados, abandonando-os e passando a viver uma nova vida.
Samuel R. Pinheiro

https://samuelpinheiro3.wixsite.com/omelhordetudo

Deus e deuses

Deus e deuses

Paulo Branco

 

Pastor Paulo Branco

Mestre em Ciência das Religiões pela Universidade Lusófona

 
Indiscutivelmente o Homem tem criado ao longo dos séculos os seus próprios deuses, de acordo com os seus pensamentos, conceitos e imaginações. No seu pensamento, o Homem julga que domina tudo, que é poderoso, que é competente, que nada nem ninguém o pode impedir de fazer qualquer coisa, talvez como compensação da sua finitude, das suas incapacidades e limitações.
Por isso, desde sempre teve a necessidade de criar deuses pessoais, locais, regionais e nacionais; deuses de ocasião ou momento, deuses de conveniência, deuses que se deixam comprar, que são manipuláveis, que se podem ver e tocar. Deuses que se vendem, deuses que trocam favores, deuses que são hoje, mas não são amanhã, deuses para cada gosto, capricho ou ideia. Deuses que encaixam nas suas preferências ou cosmovisão.
Esse conceito, na realidade, pode ser verificado através de toda a história da Humanidade, através da lista indeterminável de deuses imaginados, criados ou adotados nos diferentes momentos da existência humana, nas mais diversas civilizações e regiões da terra. Encontramo-la desde o princípio da civilização com a construção da Torre de Babel (Génesis 11:1-9), e dos zigurates, ou seja, construções religiosas, que procuravam funcionar como portas para a vinda dos deuses à terra, e no intuito do homem alcançar o céu e mostrar o seu poderio.
Também na Suméria vemos os adeptos de uma religião politeísta, caracterizada por deuses e deusas antropomórficos, representando forças ou presenças no mundo. Está também presente nos deuses do Egipto, representados com cabeças de animal sobre corpos humanos, que dominavam todos os aspetos da vida no Egito, quer seja da realeza quer das pessoas comuns. A cultura do antigo Egito baseava-se na crença de um panteão dessas criaturas que eram adoradas pelo povo. As mais de 1500 divindades explicavam a criação do mundo, representavam as formas da natureza e outros aspetos da vida. O panteão grego e romano com a sua grande galeria de deus, adaptado e modificado através de uma enorme lista de divindades que se comportavam como criaturas humanas. Ou seja, eram cheias de ciúme, inveja, vingança, ódio e amor.
Daqui podemos passar para a adoção de um conceito semelhante, com outro nome – os denominados “santos” da igreja católica romana, para cada preferência e momento, que são como semideuses e supostos intercessores. Não esquecendo também o culto a Maria, em tantos santuários espalhados pelo mundo. O facto de uma mulher, humilde, virtuosa, simples e pecadora, como ela a si mesmo se intitula, ao orar e a chamar a Cristo Seu Salvador,(Lucas 1:46) se torna pela mão dos homens numa deusa mãe, tal como acontece nos cultos do Mediterrâneo, por ser colocada em certa medida a par de Cristo, como “co-redentora” (Actos 4:12), quando na pratica dizem: “Maria rogai por nós….e a maioria das orações vão para ela- Não esquecendo o deus deste século Lúcifer (2 Corintios 4:4), que também é adorado e reivindicado por muita gente, abertamente e no oculto.
Mas há outro deus que impera, Mamom – o deus do dinheiro. Infelizmente, muitos se deixam dominar por este e outros deuses equiparáveis. Alguns até tendo responsabilidades na liderança religiosa, de vários domínios, até do meio denominado evangélico ou cristão. Deixam-se seduzir pelo deus do dinheiro, o deus da fama, do autoritarismo, da vaidade, das maldições que proferem contra quem não aceita as suas doutrinas. O deus da “prosperidade à custa dos outros”, e que está presente no culto de muitos. Não quero esquecer ainda o deus vingativo de algumas religiões, que só os ama a eles, e manda matar, violar e destruir os demais. Ainda temos os deuses que dividem o povo em classes sociais ou castas, onde só uns quantos têm direitos e privilégios – vivem “da” miséria enquanto outros vivem “na” miséria.
Recentemente também vimos entronizar-se mais uma vez o deus do economicismo, cujos seguidores advogam que os velhos e doentes não devem viver, porque são um grande peso económico para a sociedade. Os seguidores desse deus, acham-se na autoridade e capacidade de colocarem fim à sua existência. Já para não falar do deus de alguns, que dizem que os fetos não são seres humanos, mas eles podem definir o que querem e como querem. Acham-se no direito de os despedaçar e matar. Ainda temos o deus do materialismo, o deus do ateísmo, que vendo e comprovando as evidências não acredita em nada, e terminando no desporto, especialmente na nossa realidade o futebol e os clubes que são os deuses de muita gente e que em nome dessa religião chegam a insultar, prejudicar, odiar e até matar, quem não segue esse deus.
Finalmente, o deus dos que pregam e ensinam que o Coronavírus foi enviado por Deus como vingança. Quero dizer que não me revejo nem neste nem nos demais deuses. O Deus da Bíblia, em quem acredito, criou o Homem e, por sua vez, o homem criou os seus deuses, e assim estragou tudo levando pessoas a não acreditar em Deus por causa das suas atitudes e obras.
A Bíblia através dos seus livros revela esta triste realidade. Mas o mais importante é que ela fala de uma solução divina. Vejamos:
“Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus”
(1 Timóteo 2:3-5)
“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigénito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16)
“Se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo.” (Romanos 10:8)
“ Mas Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda agora que todos os homens em todo lugar se arrependam”. Actos 17:30
Soli Deo Gloria!
Paulo Branco, 14 de Abril de 2020

O DIA EM QUE A MORTE MORREU

O DIA EM QUE A MORTE MORREU
2018julho21 Casamento Ana
Samuel R. Pinheiro
Foi o nosso poeta Luís Vaz de Camões que cantou os que da lei da morte se vão libertando. Esta é uma imortalidade que depende dos feitos realizados, tidos em consideração e perpetuados por um povo e por uma cultura que formam a identidade de uma nação. Depende da memória das pessoas. As opiniões podem de um momento para o outro alterarem-se. De heróis podem passar com uma rapidez vertiginosa a vilões. Para o comum dos cidadãos o rasto não ultrapassa uma geração. Os netos terão uma vaga ideia dos seus avós e nenhuma dos bisavós, se é que alguma vez os conheceram.
O ser humano desde a sua origem que mostra evidências de sobejo que na sua alma radica a sede da imortalidade, porque na verdade, segundo o relato da Bíblia, ele não foi criado para a morte mas para a vida. É nisto que radica a consequência do que ela designa de PECADO! A consequência do pecado é a morte! Morremos porque herdamos uma natureza corrompida, avariada, distorcida. Não correspondemos à criação original. Temos saudades dela, apesar de não a termos conhecido. Interiormente sabemos que não fomos criados para isto! Para esta condição em que nos encontramos!
As cerimónias fúnebres acompanham-nos desde que somos homens, e nisto até a ideia da evolução e o que considera serem as marcas do homem, apelam para os vestígios dessas exéquias. Nesta corrida por uma imoralidade mortal, passe a contradição, chegam-nos vestígios imponentes, como é o caso das pirâmides no Egito, que investia somas milionárias e o esforço do trabalho escravo de milhares na construção de espaços para a vida futura. Esforços inúteis! Cada civilização tem as suas marcas desta natureza.
A morte é o grande inimigo! A ciência debate-se em afastá-la o mais possível! Mas as estatísticas continuam empatadas: todos os que nascem, morrem! Há apenas uma exceção segundo a Bíblia – JESUS CRISTO, esse personagem único e singular que divide a nossa história. O foco central do Novo Testamento que nos narra a presença do Filho de Deus entre nós e o arranque da Igreja, é a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Leia-se o livro histórico dos Atos e verificaremos isso mesmo. Uma morte injusta do lado da humanidade e uma morte justificadora do lado de Deus para com essa mesma humanidade. No Justo somos feitos justos. Naquele que morreu pelos nossos pecados, morremos para esse mesmo pecado. Naquele que venceu a morte ressuscitando, temos a nossa ressurreição para uma nova vida em santidade, perfeitos no desígnio do Criador para nós. Naquele que ressuscitou temos a garantia da ressurreição de todos os que Nele confiam, dependem e obedecem.
No dia em que Jesus morreu a morte foi vencida porque o pecado que lhe dá origem e suporte foi banido. Não mais a morte espiritual eterna de separação de Deus – o inferno! Deus estende-nos pela Sua graça a vida eterna que começa desde logo aqui e continua para sempre – o céu! Esse foi o dia em que a morte morreu, e a ressurreição de Jesus é a evidência por excelência desse facto insuperável da história dos homens. Não foi a ida à lua ou outra qualquer proeza humana realizada ou ainda a realizar, que é ou será o ponto culminante da história. Esse facto decisivo da história de cada ser humano é a morte e ressurreição de Jesus.
O Novo Testamento oferece de bandeja o argumento que destruiria pela base o cristianismo. É o apóstolo Paulo que o aponta: “E se Cristo não ressuscitou então a vossa fé é inútil e vocês ainda estão sob a condenação por causa dos vossos pecados.” (1 Coríntios 15:17 – OL). Como refere um dos mais destacados apologetas da atualidade: Michael Green aborda bem a questão: “O cristianismo não sustenta que a ressurreição seja um dentre vários sistemas de crença. Sem a fé na ressurreição não existiria cristianismo algum. A igreja cristã jamais teria começado a existir; com a execução de Jesus, o movimento daqueles que O seguiam ter-se-ia extinguido tal como uma fogueira alimentada com lenha molhada. O cristianismo permanece em pé ou cai juntamente com a verdade da ressurreição.” (MCDOWELL, Josh; Evidência que Exige um Veredicto; pp. 232). Outro apologeta falecido recentemente acrescenta: “Diferentemente da maioria das outras visões de mundo religiosas, o cristianismo está construído sobre factos históricos e, portanto, pode ser tanto provado quanto negado pela investigação histórica. O problema para os cépticos e os críticos é que toda evidência histórica aponta para a ressurreição de Jesus. As pessoas que viveram em Jerusalém naquela época – algumas das quais adorariam ter encontrado o corpo de Jesus e tê-lo exibido pela cidade – não puderam encontrá-lo e, na verdade, admitiram que seu túmulo estava vazio. Desde então, nada foi encontrado. Se, depois de 2 mil anos de procura, ninguém pôde encontrar os restos mortais de Jesus ou erros reais na Bíblia, não é bastante possível que realmente eles não existam? Quando um caso pode ser encerrado com certeza? Se não for depois de 2 mil anos, então quando?” (Não Tenho Fé Suficiente para Ser Ateu, Norman Geisler & Frank Turek; S. Paulo, Editora Vida, 2006, pp. 385)
Se ainda antes de a Igreja ter nascido no dia de Pentecostes os religiosos judeus tivessem apresentado os restos mortais de Jesus expondo-os publicamente, o cristianismo teria morrido nesse mesmo dia e a Igreja nem sequer teria visto a luz do dia. Porque é que não o fizeram? Porque não tinham o corpo, nem tinham possibilidade de o ter. Os religiosos sabiam do embuste que tinham criado com a escolta romana que tinha sido montada de guarda ao Jesus morto. Coisa estranha essa de tentar guardar um morto. Talvez não tão estranho assim porque os religiosos conheciam a declaração de Jesus de que voltaria à vida, e estavam mias crentes do que os próprios discípulos. Só que os valentes soldados romanos que conheciam todos os segredos estratégicos militares e as consequências de quem falhasse no seu posto, nada podiam contra o poder de Deus! Tanto os religiosos como os políticos e o povo em geral falharam, desconhecendo o poder de Deus! O mesmo Deus que manifestou o Seu poder entre os homens com um destaque especial para a abertura do Mar Vermelho na libertação do povo de Israel no seu êxodo a caminho da Terra Prometida, e passando por algumas ressurreições ao longo da história deste povo, ressuscitou o Seu Filho!
Não existe qualquer objeção à ressurreição de Jesus Cristo para quem acredita na existência de um Deus pessoal. Não existe qualquer objeção à existência de Deus para quem analisa com cuidado e isenção a vida de Jesus Cristo. Como Norman Geisler indica numa das suas obras mais conhecidas: “Não tenho fé suficiente para ser ateu”. Para mim e para uma multidão incontável de crentes é mais fácil acreditar nos milagres que Jesus Cristo realizou do que acreditar que tudo o que existe surgiu do nada pela ação do nada ou pela intervenção única e simplesmente da matéria e da energia! Hoje em dia penso que os próprios cientistas não acreditam em semelhante e inverosímil hipótese e estão mais dispostos a aceitar que a própria matéria e energia tenham incorporada uma inteligência impessoal. Só que nós somos pessoas com consciência de nós mesmos e do que nos rodeia, pessoas que se perguntam e procuram respostas, pessoas que pensam e que descobrem. Essa inteligência é pessoal e entrou na nossa história, e tem um nome – JESUS, porque salvaria o Seu povo dos seus pecados. E foi isso mesmo que Ele fez ao morrer e ressuscitar!
De uma vez apareceu a mais de quinhentos irmãos o que Paulo refere no capítulo 15 da primeira carta aos Coríntios, alguns deles já tinham morrido, mas a maioria ainda vivia. O próprio Paulo que tinha sido o mais acirrado inimigo de Jesus depois da Sua ascensão e da Igreja que explodia em Jerusalém e noutras paragens, experimentou uma conversão espantosa num encontro pessoal com Aquele que odiava e que julgava ser o maior de todos os embustes. “Eu sou Jesus a quem tu persegues”. Depois desse encontro tornou-se o mais influente comunicador do evangelho, plantador de igrejas, defensor da fé e alvo do ódio dos fariseus dos quais tinha feito parte e liderado contra o cristianismo!
Como escreveu o apologeta Paul Little: “Os homens estarão dispostos a morrer por aquilo que crêem ser verdadeiro, ainda que isso possa efectivamente ser falso. Todavia, eles não morrem por aquilo que sabem ser falso.” À exceção de João segundo a tradição, todos os apóstolos foram mortos por causa de Jesus, e a eles se juntam muitos outros que deram a sua vida no berço do cristianismo às mãos dos religiosos e dos agentes políticos, entre os quais o próprio apóstolo Paulo. Ao longo destes dois milénios todos os anos existem milhares de cristãos que são mortos pelo único crime de confessarem Jesus como Deus, Salvador e Senhor! Ainda hoje é assim! Em Jesus há uma vida que a morte não pode tirar! E esta vida também está à sua disposição tornando-se um seguidor de Jesus!
Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com

A BÍBLIA E A HISTÓRIA

Dr. Jorge Pinheiro
(foto de 1977 na comunicação que aqui reproduzimos)
1977 Congresso Évora Jorge Pinheiro
Em 1977, realizava-se em Évora um congresso juvenil das Assembleias de Deus, subordinado ao tema “A Bíblia Hoje”. Um dos subtemas era “A Bíblia e a História”. Fui convidado para o desenvolver e apresentar uma comunicação à magna assistência. E assim nasceu o texto que aqui publico. A década de 70 foi um tanto conturbada em termos de história das Assembleias de Deus, com várias tensões, umas latentes, outras larvares e ainda outras já declaradas. Quem viveu esses tempos, reconhecerá no texto uma referência quase subliminar aos problemas e choques que então dominavam as preocupações daquela que designo de “geração maldita” e que produziu nomes que, gostando ou não, deixaram marca na história das Assembleias de Deus. Mas não foi um texto circunstancial. Mutatis mutandis, a sua análise, com pequenas adaptações, permanece aceitável ainda nos dias de hoje.
A BÍBLIA E A HISTÓRIA
1. Introdução e considerações gerais
2. Definições
- Herança Grega
3. Paralelismos convergentes e divergentes
4. História profana
- Caducidade ou perenidade? (1)
5. História Sagrada
- Inserção bíblica na História (2)
6. Interpenetração de ambas as Histórias
- Convergência divergente ou divergência convergente
7. Conclusão
1. Introdução e considerações gerais
A Bíblia e a História não é um subtema. É um tema! É um subtema relativamente ao tema circunstancial deste Congresso – A Bíblia Hoje. Só neste aspecto se poderá considerar um subtema.
É tema e não subtema porque subtema infere em si um aspecto de subalternidade, sinónimo fácil de assunto de menos valor.
É tema não pela sua vastidão mas pela sua importância intrínseca e pelas suas implicações derivadas de um estar-no-mundo que se reflecte de modo muito premente ao nível do dia a dia da vivência humana.
A Bíblia e a História é um assunto realmente importante, para o qual chamo a vossa atenção e que merece, pela sua grandeza, que nos debrucemos sobre ele.
Bíblia e História. Sublinhemos o e e leia-se o que o tema diz: Bíblia e História e não Bíblia na História.
Copulativa (e) de ligação coordenada de duas grandezas do mesmo nível. Em alguns casos, o “e” poderá não desempenhar a sua função estrutural mas, no caso vertente, a sua aplicabilidade é incontestável. Estamos em face de duas realidades, de duas grandezas que, em si, e nem sempre por si, contêm as coordenadas do existir humano, que não só e apenas de uma práxis existencial.
Assim, vamos tentar analisar estas duas grandezas essencialmente numa visão coordenativa e não apenas – embora o possamos tentar – numa visão de inserção da Bíblia no processo histórico, como decorrente de uma emergência no plano histórico (como algum espírito mais apressado poderia pensar de uma leitura fugidia do tema).
Convém – antes de prosseguirmos – reforçar e salientar a noção da importância e universalidade da História. Ela está presente em cada momento do existir humano porque, em certo sentido, vivemos e movimentamo-nos na História, respiramos História. O que nada tem de estranho por sermos nós os fautores da História. Todos nós fazemos História – quando, por exemplo, nos reunimos nesta sala, estamos a fazer História. E todos fazemos análises históricas – quando, por exemplo, analisamos o Livro de Actos dos Apóstolos, para aplicarmos os princípios nele prescritos, estamos no fundo, a fazer uma análise histórica.
Quanto à Bíblia, queria salientar, nesta introdução que já vai longa, dois pontos que reputo de importantes :
a. - Falar da Bíblia é falar do Cristianismo, é falar Cristianismo. É falar do Cristianismo porque toda a Bíblia, desde Génesis 1:1 a Apocalipse 22:21, passando pelos Profetas e Salmos, fala do Cristianismo. É falar Cristianismo – e talvez estejamos todos ainda no b-a-ba desta língua sublime – porque a língua Cristianismo é universal, como universal é a Bíblia e porque essa é a língua que a Bíblia fala.
Assim, referiremos indistintamente a Bíblia e o Cristianismo, numa identificação de juízos de valor salvaguardando no entanto, e naturalmente, os momentos em que quer o termo Bíblia quer o termo Cristianismo e seus derivados tenham uma significação particular e singular.
b. A Bíblia – e é preciso que isto seja dito aqui e agora e que nos apercebamos desta verdade – formula uma série de Teorias: uma Teoria da Literatura, uma Teoria Social, uma Teoria do Direito, etc. (Por Teoria entendamos os princípios fundamentais de uma arte ou ciência).
É evidente que a Teoria mais importante e que, com toda a Justiça, mérito e necessidade, mais tem sido desenvolvida e estudada pelos Cristãos Pentecostais é – chamemo-la assim, aproveitando a terminologia – a Teoria da Salvação.
As outras Teorias – ainda que pouco ou nada estudadas (e quantas vezes positivamente ignoradas por nós) – não deixam de ser importantes e dignas de nos debruçarmos sobre elas.
Nesta perspectiva, a Bíblia possui também uma Teoria da História, isto é, ela debruça-se sobre a História e emite a palavra final (porque a Bíblia é final) sobre o sentido da História e é importante e urgente que saibamos e conheçamos o seu conteúdo.
Importante porque – como tudo quanto é Bíblia – é uma dádiva de Deus aos homens e tudo quanto Deus nos deu (e nos dá) é importante.
Urgente porque necessitamos, neste tempo de crise espiritual e de viragem, de ter uma Teoria bíblica (e não apenas humana, ainda que de origem eclesiástico-cristã) que nos forneça armas para fazermos frente às Teorias (da História ou não) diabólicas e humanas que buscam as brechas da nossa ignorância e incúria.
2. Definições
- Herança Grega
Assim, tentemos cotejar a Bíblia e a História e dessa análise extrair o melhor para nosso crescimento e edificação.
Mas antes de mais, precisamos de definir os termos com que vamos lidar e que estarão presentes ao longo desta exposição.
Definir significa marcar um fim, indicar um limite. Com efeito, é necessário demarcar um limite ao campo de cada uma das palavras para que elas valham aquilo que são e não aquilo que as pessoas possam entender ou querer que sejam.
Ambos os termos são nossa herança grega e qualquer dicionário daria a seguinte definição :
História – do grego historia – evolução da Humanidade, narração de factos de um ou mais países.
Bíblia – do grego biblion (o livro) – colecção de livros sagrados do Velho Testamento e do Novo Testamento.
A História é uma ciência com método e objecto específicos. Não vamos abordar o problema da Metodologia da História (por nos roubar muito tempo e nos afastar do plano deste trabalho) mas diremos de passagem que, devido às características do facto histórico, que é singular e inobservável pois não se repete nem pode ser observado directamente pelo historiador por já pertencer ao passado, a metodologia histórica é distinta da metodologia das chamadas ciências exactas como, por exemplo, a Matemática. Daí que a História tenha de lançar mão de diversas ciências auxiliares para se poder estudar e compreender o facto histórico na sua complexidade causal. Note-se que muitas das ciências auxiliares da História são as mesmas da Bíblia, como a Hermenêutica, por exemplo.
Mas a História – cujo objecto, no fundo, é o Homem – não é a simples formulação de factos nem a observação de fenómenos. Ela não se detém na enumeração de factos. Ela analisa-os e interpreta-os e sobre ele emite juízos, procurando destrinçar não só as motivações (as causas que estão por trás deles) mas – digamos assim – as leis que os regem. Desse estudo do passado, podemos compreender melhor o estado do presente e avaliar a extensão de um fenómeno específico e determinar as linhas dominantes que o motivam.
A tónica que se coloca sobre a causalidade factual varia de época para época e de escola para escola. É assim que, enquanto para os homens da Idade Média, os factos importantes eram os religiosos, para os do séc. XX, são essencialmente os económicos. Mas não nos esqueçamos que a História não pode nem deve ter uma visão parcelar dos factos (devido à sua causalidade e complexidade).
Quanto à Bíblia, todos sabemos que ela – num paralelismo tremendo com a História – caracteriza-se igualmente pela sua complexidade (que não é sinónimo nem de complicação nem de complexificação), pela sua universalidade, pela sua humanidade, na sua aplicabilidade e pela sua transcendência, na sua origem divina.
Ela não se limita a enumerar ou a enunciar os factos mas a abrir caminho a uma interpretação dos mesmos, levantando idênticas perguntas que a História e a revelar, na sua simplicidade de linguagem, as respostas ansiosamente procuradas e indagadas. Dessas perguntas, tentaremos responder a uma que, pela sua premência, reputo de importante – Porquê? Porquê estudar História, porquê estudar a Bíblia?
3. Paralelismos convergentes e divergentes
Porque tanto uma como a outra (a Bíblia e a História) respondem à maior inquietação humana desde sempre, seja qual for a filosofia que partilhemos – qual a finalidade do Homem, do existir humano? Que fizemos, de onde viemos, para onde vamos? E aqui, as atitudes de as encarar multiplicam-se, num paralelismo magnífico.
Podemos detectar, pelo menos, três atitudes face à Bíblia e à História: informativa, formativa e pragmática.
Atitude informativa – tanto uma como a outra dar-nos-iam informações mais ou menos úteis que nos elucidassem sobre pontos mais ou menos obscuros.
Atitude formativa – vamos extrair ensinamentos úteis para a nossa formação cultural ou espiritual.
Atitude pragmática – o seu conteúdo tem peso e devemos pôr em prática esse conhecimento. O pragmatismo consiste na doutrina que defende a utilidade prática do conhecimento, identificando o verdadeiro com o útil.
Haverá uma quarta atitude, fácil e despreocupada – a indiferença – mas de tão negativa que é, passemo-la de lado.
Mas os paralelismos não se quedam pela atitude nossa perante a Bíblia e a História. Elas manifestam-se em outros campos.
Ambas não se definem pela negativa pois nem a Bíblia nem a História são a ausência de alguma coisa. Elas são alguma coisa de positivo, real e concreto. Esta é uma tentação sofrida por muitos Cristãos (e a que muitos de nós no nosso tempo têm cedido) – uma definição do Cristianismo pela negativa, traduzida pela elaboração de listas legistas ou legalistas de proibições. Tal definição, além de não fazer justiça quer à História quer à Bíblia (ou Cristianismo) é um insulto à natureza de ambas, especialmente do Cristianismo. Grosso modo, podemos dizer que a Bíblia é a expressão divina através do humano e a História a expressão humana através do humano ou, se quisermos ser mais precisos, a Bíblia vai da transcendência à transcendência passando pela imanência, enquanto a História vai da imanência à imanência passando pela transcendência.
Isto aponta-nos um terceiro paralelismo: ambas têm o mesmo interesse comum – o Homem. Mas no momento em que se tocam – oh desdita de Tântalo – aí começam as divergências. E podemos sintetizar esta verdade em poucas palavras: enquanto a História é o estudo do Homem pelo Homem, a Bíblia é o estudo do Homem por Deus.
E aqui está o drama – a Bíblia é singular, apesar da sua pluralidade de escritores, enquanto a História é plural, apesar da singularidade do seu objecto – com todas as implicações daí decorrentes.
Mas na divergência, podemos detectar, no horizonte, um ponto convergente: o futuro e a universalidade.
António Sérgio disse: “É preciso falarmos da História com um olhar no futuro”. E não há contradição porque embora a História se debruce sobre o passado, ela projecta-se no futuro.
Com a Bíblia, passa-se o mesmo. Embora aponte factos do passado, ela deve ser encarada também com um olhar no futuro. O Cristianismo é como o jovem – não tem passado – só tem futuro! E no momento em que, como Cristãos, olharmos para o passado – e não nos referimos ao nosso passado mundano de não salvos – numa atitude de seráfica contemplação das glórias de antanho, estamos plácida e voluntariamente a acomodar-nos na sepultura bonita e magnífica de festas de jubileu mas que não passa de sepultura. A Bíblia não se detém no passado. Ela aponta o futuro que lhe constitui o limite, o horizonte. “Esperamos novos céus e nova terra”, como dizem as páginas sagradas e, poderíamos acrescentar: “num mundo e tempo novos”.
Mas cometeríamos um pecado de omissão se nos detivéssemos apenas nesta parcela do tempo – é facto que ambas as disciplinas apontam o futuro. Mas esse apontar – e isto é tremendamente importante – é sempre em função do presente. Porquê? Pela simples razão de o Homem ser presente. “As coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo (presente)”. Mas não se pense que a Bíblia defende a imobilização da História, como diria Barth. Não! A História prossegue e prosseguirá mesmo nesse futuro celestial que será o presente eterno. Ali também se fará História. Será a única ciência da Terra que se cultivará no Céu.
Um último paralelismo – a Bíblia – e perdoem-me os puristas e os extremistas – é, apesar da sua transcendência, um fenómeno histórico. E graças a Deus que assim é. Isso significa que Deus intervém no mundo dos homens, revela-Se a Si próprio, fala a língua dos homens. Mas ela não é meramente um fenómeno histórico. Dada a sua natureza de transcendência imanente, ela é supra-histórica e até trans-histórica. Está na História mas não é da História. Supera a História, não na finalidade e objecto comuns, mas na essência e destino.
4. História profana
- Caducidade ou perenidade? (1)
A História fala de civilizações. Civilizações de homens. Mas poderíamos também dizer civilizações que são homens. E nesta visão, concluiríamos que todo o drama humano se reflecte no devir da existência que se constitui em drama histórico. Mas haverá realmente um drama da História? O drama da História decorre do facto de o seu interveniente e fautor ser o Homem, com toda a sua fatalidade e contingência, aspectos bem desenvolvidos por Albert Camus, nomeadamente nas suas obras “A Peste” e “O Estrangeiro”. E levanta-se obviamente a questão: como se manifesta esse drama histórico? Há um dito que entrou já na cultura popular que nos fornece uma pista objectiva – a História não se repete. Efectivamente, a História não se repete, devido à própria natureza do fenómeno histórico que, à dissemelhança do fenómeno físico ou químico, só é observável uma única vez – no momento em que ocorre. A mesma água não passa duas vezes sob uma mesma ponte. Mas, sem alterar a essência e a natureza do devir histórico, podemos dizer que a História afinal se repete: a primeira vez como drama e a segunda como tragédia.
E aqui estará o cerne desta marcha evolutiva da Humanidade – na sua dramaticidade, vive-se para se tornar a viver e esta marca da condição humana reflecte-se na obra de que o Homem é autor e espectador – as civilizações.
O Homem cria civilizações. Mas civilizações que levam a sua marca. Marca de caducidade emergente da contingência humana, marca de perenidade porque o Homem tem a eternidade da alma espelhada no coração. E é nesta tensão que se movem as civilizações. E é na percepção desta tensão que a filosofia oriental encara como karma que essa mesma filosofia pugna pela libertação do Homem do seu devir existencial.
Neste quadro, não nos surpreenderá a trajectória em espiral da obra civilizacional do Homem. Mas pergunta-se: essa trajectória não tem fim? Existirá realmente um karma inelutável? Estas são perguntas que vamos deixar em suspenso para daqui a pouco as abordarmos de novo em tentativa de resposta.
Dizia que nos não surpreenderá a trajectória em espiral das civilizações. Como fruto do Homem, vamos encontrar nelas as características inerentes ao Homem. Neste sentido – e apenas neste – a concepção helénica do movimento circular do devir histórico é uma análise definitiva. Esta percepção, de resto, está patente na cultura popular – a Roda da Fortuna – e no pensamento salomónico – nada há de novo à face da Terra.
Assim, nas civilizações, podemos detectar a sua génese, desenvolvimento, colapso e desintegração, num ciclo aparentemente infindável, segundo a análise profunda e exaustiva de Toynbee em que nos basearemos e de quem, neste passo, seguiremos o raciocínio.
Podemos dizer que em todas as civilizações encontramos o mesmo mecanismo de formação, crescimento e decadência e, pela sua análise, acharemos a resposta à pergunta: “serão as civilizações caducas ou perenes?” e acharemos pistas que nos ajudarão no nosso viver de Cristãos.
O Homem cria civilizações essencialmente porque soube responder com êxito a um incitamento exterior, realizando um esforço criador até então sem precedentes. E quando, face a um incitamento, o Homem não tem resposta adequada, prestes está a civilização do seu fim.
Numa sociedade, há assim uma minoria criadora, motor impulsionador que, em contacto com sociedades primitivas, atrai a sua capacidade de mimesis, isto é, a sua capacidade de imitação. Esta mimesis, enquanto se registar a existência da minoria criadora, é provocada pelo encanto que esta exerce sobre aquela. E é na existência desta criatividade (cuja base é a resposta positiva ao incitamento) que consiste o segredo do crescimento e permanência das civilizações. Porque ela atrai, pelo encanto, a mimesis do primitivo que assim se integra no campo da civilização. Enquanto esta situação perdurar, a Sociedade nem se divide nem é atacada.
Quando há incapacidade de resposta, a minoria criadora tende a transformar-se em minoria dominante que tenta reter pela força uma posição que já não merece há muito. A minoria dominante perde o encanto de minoria criadora o que leva a que os primitivos sejam repelidos e que, de discípulos, se convertam numa poderosa força de pressão externa – aquilo que Toynbee classifica de proletariado externo.
No campo interno, o processo é semelhante – a maioria mimética passa também de discípulo a proletariado interno, numa atitude de divórcio da minoria dominante e em rebelião aberta contra ela.
Por proletariado entenda-se não uma classificação na base da pobreza, de riqueza ou de origem de nascimento ou de trabalho mas na consciência de se saber que se está na sociedade mas que não se é da sociedade.
A razão deste colapso da civilização deve-se ao fracasso da faculdade criadora da minoria criadora, com a consequente perda de unidade social.
Que resulta de todo este jogo de forças? Ficamos em presença de três entidades que, uma vez em luta, conduzem à desintegração da civilização. Das cinzas desta desintegração nascerá, qual Fénix renascida, consoante o condicionalismo histórico, uma civilização filha da defunta.
Cada uma destas três entidades, no seu processo evolutivo de luta, vai criar uma instituição característica:
-  a minoria dominante gera um Estado Universal, o penúltimo estágio da desintegração.
-  o proletariado interno, que se separa da minoria dominante, gera uma Igreja Universal.
-  o proletariado externo gera bandos guerreiros bárbaros que, de ordinário, acabam por invadir o espaço geográfico da civilização em decadência.
Tomemos o caso da civilização greco-romana, para especificarmos: a minoria criadora perde o poder de resposta e, uma vez minoria dominante, cria o Estado Universal – o Império. A unidade social está quebrada e manifesta-se o proletariado interno que arrasta consigo uma Igreja Universal – o Cristianismo, enquanto nas fronteiras, pulula todo um proletariado externo que irromperá violentamente no ciclo conhecido por Invasões Bárbaras.
E há aqui toda uma lição a tirar: os Bárbaros irromperam porque quando deixa de avançar a fronteira entre uma sociedade civilizada e uma sociedade primitiva, a balança inclina-se com o correr do tempo a favor da sociedade primitiva. Como Cristãos, não podemos deixar que a fronteira entre o Cristianismo e o mundo por evangelizar estacione. Ela tem de se estender até que não haja mais fronteira. E teremos encontrado a solução para todas as crises que possam assolar o Cristianismo e muito especialmente para a crise actual que todos sentimos latente. Há que manter a unidade social (em termos de História) através da resposta sempre positiva de todo o corpo social a um incitamento externo e manter vivo este impulso de civilizar (leia-se evangelizar) os primitivos (leia-se os perdidos) através do cultivo daquilo que é essencial no Cristianismo e não daquilo que é conjuntural, para que eles possam ser atraídos pelo nosso encanto, a fim de lhes estimularmos a capacidade mimética.
Lembremo-nos que todos os grandes princípios registados na História para o avanço da Humanidade encontram-se na Bíblia: a defesa da mulher, os princípios do liberalismo da Revolução Francesa (liberdade, igualdade, fraternidade), os princípios do Socialismo – todos os homens nascem livres e iguais, etc. A Bíblia contém, em todas as épocas, a resposta para os problemas individuais e colectivos do Homem – problemas humanos e sociais. A questão está em o Homem se dispor a encontrá-la. Ora, uma sociedade cristã pode e deve manter padrões e princípios, isto é, pode manter a sua minoria criadora que, recorde-se, não é uma minoria dominante e que atrai pelo encanto. A resposta a um incitamento não consiste em levantar barreiras – o progresso (e a Bíblia aponta para o progresso) não se ergue levantando barreiras mas destruindo-as. A solução, dizíamos, a resposta ao incitamento não consiste em levantar barreiras, consubstanciadas em atitudes e normas de “não faças, não digas, não aconteças” mas desenvolvendo os princípios em si, os princípios que informam a sociedade cristã. Princípios esses que não são circunstanciais mas perenes. Mas atenção para não nos determos nas conquistas alcançadas (há que evitar a bizantinização e o sebastianismo espirituais). Assim estará resolvido o problema da actualidade, transformado erradamente em problema número um da sociedade pentecostal – o problema da ética, da TV, etc. A solução para tal problema que historicamente é um incitamento, consiste em ir à raiz do mal, buscando uma resposta positiva ao incitamento. Mas onde está essa raiz? Será, por exemplo, na TV em si ou nos princípios? Que importa destruir a TV se os princípios não estão cultivados ou se nem sequer brotaram ainda? É lógico que são os princípios que devem ser cultivados porque eles têm em si a força e a substância suficientes para nos fornecerem uma resposta positiva ao incitamento que enfrentamos. Qualquer solução que não passe pelo cultivo dos princípios que nos informam são uma resposta falhada ao incitamento. E quando isto acontece, perto está a minoria criadora de se transformar em minoria dominante com a criação de um Estado Universal que o mesmo é dizer que tal sociedade está em vias de desintegração. E a História não perdoa.
Mas atenção que a História ensina-nos uma lição dramática: em geral, quando um grupo responde triunfantemente a um incitamento, raras vezes responde com êxito ao segundo. Temos o caso dos Judeus que responderam positivamente aos incitamentos do Velho Testamento mas foram vencidos pelos do Novo Testamento, culminando na rejeição do Messias.
Que nos não iludamos, pois, com as respostas aos incitamentos nem receemos enfrentá-los. A atitude cristã decorrente da Bíblia é positiva e não negativa, é positiva, não alucinogénea.
5. História Sagrada
- Inserção bíblica na História (2)
Este problema leva-nos à questão de sabermos qual o lugar do Cristianismo no mundo, qual a visão histórica da Bíblia.
Em primeiro lugar, relembremos os 3 modos como é encarado o significado da História: linear, cíclico e caótico.
O linear supõe que os factos se sucedem numa determinada direcção.
O cíclico afirma que a História se repete.
O caótico nega qualquer direcção aos factos históricos.
À partida, a Bíblia rejeita a interpretação caótica da História, por ela ser contrária à sua essência e mensagem.
Com efeito, a Bíblia aponta para um Deus criador pessoal e interessado na Sua criação (e tenhamos presente que o Deus da Criação é o mesmo Deus da Salvação). Do ponto de vista histórico, isso implica que a Bíblia relata (e defende) a intervenção de Deus na História. Não é um recurso de solução para explicar miticamente o inexplicável mas a consciência de que não se pode separar o Criador da Sua criação e vice-versa. Daqui, podemos inferir que o princípio histórico imanente à Bíblia revela-se por um não à dialéctica em que, à luta dos contrários, opõe a acção divina que altera o curso circunstancial criando um processo de acção e interacção decorrente dessa mesma intervenção divina.
Nesta atitude, há algo de novo em relação à mentalidade helénica que, como vimos já, concebe o tempo (e por inferência a História) como um movimento circular. Para a Bíblia, o movimento não é cíclico ou circular mas linear. Ao intervir na História da Humanidade, Deus não Se repete – a Criação deu-se uma vez por todas, a chamada de Abraão não tem sucessor factual, a vinda de Cristo é um facto definitivo. A História, além de ter um significado, uma finalidade, aponta e segue um movimento linear. Hoje, poderemos não ter dificuldade em entender esta realidade mas a verdade é que esta posição cristã foi tremenda novidade para a mentalidade helénica.
No entanto, a Bíblia verifica e afirma que a História humana se movimenta por ciclos – tenha-se em mente a profecia de Daniel (Daniel 7) mas nessa mesma profecia, não nos esqueçamos, afirma-se o seu princípio linear – os reinos humanos cíclicos cederão o passo a um reino eterno (Daniel 7:27).
E porquê este choque com a mentalidade helénica? Porque os Gregos admitiam apenas dois tipos de realidades :
- as divinas – sem princípio e sem fim;
- as corruptíveis – com princípio e com fim.
Mas o Cristianismo anuncia uma terceira realidade
- as coisas que começam e não têm fim.
Logo, na visão cristã, o perfeito não é aquilo que sempre existiu como pretendiam os Gregos.
Há assim princípios estabelecidos pela intervenção divina que, pelo seu carácter absoluto, permanecem para sempre adquiridos.
No confronto, porém, com a mentalidade hebraica, o Cristianismo aponta uma segunda verdade ou princípio histórico – se as instituições hebraicas são de origem divina – e são-no – então são boas e perfeitas. Mas a verdade é que, com a introdução do Cristianismo na História, elas são abolidas. Haverá então contradição? Não! E na resposta, encontraremos este segundo princípio de que falamos: é que essas instituições são provisórias. Elas têm um kairos, isto é, um valor temporal que já passou. Assim, com a entrada de Cristo, valor supremo de todas as intervenções divinas, o Judaísmo é declarado anacrónico. E na extensão desta verdade, podemos adiantar o pensamento de que também anacrónico é querer manter qualquer realidade cujo kairos já passou ou está ultrapassado. A mantê-la, estaremos a cometer um pecado de Judaísmo, isto é, um pecado anacrónico.
Paulo elabora uma síntese magnífica desta realidade ao declarar que a Lei serviu de aio para nos conduzir a Cristo.
Mas a Bíblia aponta um terceiro princípio – Cristo, como dissemos atrás, é o acontecimento definitivo da História. Com Ele, atingimos o fim da revelação divina da intervenção de Deus na História. A visão cristã da História é, pois, escatológica pois que o Cristianismo é em si e por si escatológico.
Cristo encerra o ciclo da Revelação mas atenção, repitamo-lo, não encerra nem detém a História. E ao encerrar o ciclo, achamos a resposta para a pergunta da inquietação filosófica oriental quanto ao karma. Há realmente um karma na História mas ele não é inelutável. Com Cristo, chegou o limite desse karma porque n’Ele, com Ele e por Ele, estamos a viver um Reino que não tem fim. Nada mais aguardamos senão o raiar do Oitavo Dia.
Deste modo, segundo a visão bíblica, para podermos situar verdadeiramente a História, ela tem de se centrar em Cristo. E a verdade é que a História não ficou insensível a essa verdade e testemunha-a em si mesma, dividindo o tempo dos homens em antes e depois de Cristo.
Mas viver num tempo escatológico não é sinónimo de vivermos na eternidade. Porquê? Porque Cristo-facto-histórico não é o mesmo que Cristo-fenómeno-histórico. E nisto, a História profana falha porque Cristo não é um facto mas um fenómeno. Devido à sua intemporalidade temporal – Cristo – o eterno Eu Sou – vivemos um tempo presente, qualquer que seja a época em que um Cristão tenha vivido ou viva. Porquê? Porque no tempo dito cristão, vivemos não um facto mas um fenómeno e um fenómeno tal, cuja complexidade se revela e se situa entre duas vindas ou Parousias – o Natal e o Segundo Advento de Cristo.
6. Interpenetração de ambas as Histórias
- Convergência divergente ou divergência convergente
Mas seríamos incompletos se nos não interrogássemos sobre qual o lugar que o Cristianismo ocupa no devir histórico. E esta é uma questão que levanta tremendas e poderosas perguntas. Teremos, para nos guiar, que recorrer ao texto bíblico. E bastar-nos-iam talvez duas ou três palavras que encerram em si toda a grandeza do mistério da História: “Não são do mundo” (João 17:14-16) cujo contexto podemos assim sintetizar: “Estão no mundo mas não são do mundo”. E esta frase lapidar encerra magnificamente em si o drama histórico e revela toda uma Teoria da História.
Estaremos, neste momento, talvez a recordar-nos da definição que Toynbee dá de proletariado: estão em mas não são de e talvez estejamos a identificar o Cristianismo, a Igreja, com o tal proletariado toynbeeano.
Mas seremos, realmente, esse proletariado? Somos e não somos. Somos esse proletariado no mas não somos o proletariado do mundo.
Não somos porque, para o sermos, teríamos de trazer em nós o kairos do mundo e não teríamos assim conseguido a libertação desse karma considerado inelutável. Não somos porque o kairos do mundo, da Humanidade, passa. Este mundo é transitório (“o mundo passa e a sua concupiscência mas a minha Palavra permanece para sempre” e “Sic transit gloria mundi”) mas o nosso kairos permanece para sempre porque com Cristo e em Cristo abolimos o karma histórico.
Mas somos esse proletariado no mundo porque estamos nele. Mas estamos nele participando de uma realidade superior – como cidadãos de um Reino que não tem fim. Um Reino cujo kairos não passa, um Reino que nunca passará pela desintegração.
Somos esse proletariado porque, em termos históricos e sociológicos, estamos aqui para desintegrar as sociedades humanas pois na visão cristã há apenas dois tipos de sociedades: a humana e a divina. A nossa é divina e ela será estabelecida, inserindo-se no devir da Humanidade mas sem se deixar manchar pelas gotas desse fatalismo histórico.
Há, assim, para já, uma certeza: o Cristianismo não é caduco. Mas esta seria uma análise fugidia se lhe não víssemos as implicações e nos não detivéssemos em profundidade.
Teríamos então de voltar à transcendência imanente da Bíblia. E aqui, há que distinguir entre a transcendência da Bíblia (a sua essência) e a historicidade ou imanência de que se reveste – isto é, a sua existência. Este carácter bivalente da Bíblia reflecte-se na sua revelação máxima – o Cristianismo.
Uma cultura bíblica, os aspectos culturais da Igreja em determinado contexto social não se devem confundir com o cerne da doutrina. Por outras palavras, não se deve confundir a essência com a existência. Aquela é una e imutável porque é divina, enquanto esta varia porque está no mundo, corporizada por todos quantos a aceitam.
E porque será isto assim?
Porque embora não sendo do mundo, o Cristianismo está no mundo. E está no mundo, encarnando-se em diversos espaços civilizacionais, em diversas épocas dessas mesmas civilizações. Há assim toda uma complexidade cultural que, da nossa parte, seria perigoso confundir com a essência do Cristianismo.
Há, então, nesta tensão em que se move o Cristianismo, uma interacção da história profana e da história sagrada ou, utilizando a terminologia do esboço deste estudo, uma interpenetração de ambas as histórias.
Podemos afirmar com Jean Danielou de quem, de resto, seguimos o pensamento nesta secção do nosso estudo, que a história do Cristianismo é influenciada na sua periferia pelo desenvolvimento das civilizações. Que significa isto? Significa que a história do Cristianismo, na medida em que este se insere na história da Humanidade, apresenta-se como a história de diversas civilizações ou Cristandades que arrastam consigo as características das civilizações que encarnam, possuindo então um kairos caduco. E não há aqui contradição nem erro – o erro estará em identificarmos o Cristianismo com alguma dessas Cristandades. Há assim um Cristianismo bizantino, palestino, bem como medieval e até burguês, que não deixam por isso de ser Cristianismo.
E há que aceitar cada uma dessas manifestações porque são o fruto da inserção do Cristianismo nos quadros mentais das civilizações que representam.
E, citando de novo Danielou, poderíamos dizer que existe sempre a tentação de reduzir a unidade – uniformidade sob forma de um modo comum de expressão. Ora, a verdadeira unidade é aquela que, dentro da unidade da fé, se exprime através da diversidade de mentalidade das civilizações.
Por outras palavras e de um modo muito simples, diremos que não se pode obrigar um Chinês a pensar e muito menos a agir como um Português ou, se quisermos estar mais perto do contexto civilizacional que nos cerca, não podemos obrigar um Português a agir como um Americano ou vice-versa.
7. Conclusão
Mas se não podemos obrigar um elemento de uma determinada cultura a guiar-se pelas categorias mentais de outra que lhe é distinta e estranha, podemos, no entanto, esperar que o vínculo de união que liga os elementos das culturas mais díspares se manifeste em toda a sua grandeza, realizando a oração de Jesus: “Que todos sejam um, como nos somos um”.
Concluiremos por esta nota de confiança: o futuro pertence-nos! Mas bom seria que não esperássemos pelo futuro para guardar nos nossos corações e nas nossas vidas as lições que a História nos fornece. Daí que não é descabida a sugestão e o anseio de que todo o bom obreiro cristão só teria a ganhar se conhecesse a História. Pela Bíblia, conheceria a mente de Deus; pela História, a mente do Homem e no futuro que é o seu presente, saberia colher o fruto que lhe granjearia o prémio do meigo Nazareno: “Bem está, servo bom e fiel – entra no gozo do teu Senhor!” (Mateus 25:23).
(1) vd. A Study of History, por Arnold Toynbee.
(2) vd. Sobre o Mistério da História, por Jean Danielou.
XIII Congresso Juvenil Pentecostal
Évora, 1977

Anda na Minha Presença

Anda na Minha Presença
Jorge Pinheiro 2Dr. Jorge Pinheiro
(1) Sendo, pois, ABRÃO da idade de noventa anos, apareceu o Senhor a ABRÃO e disse-lhe: “Eu sou o Deus Todo-poderoso; anda em minha presença e sê perfeito; (2) e porei o meu concerto entre mim e ti e te multiplicarei grandissimamente.”
(3) Então caiu ABRÃO sobre o seu rosto e falou Deus com ele, dizendo:
(4) “Quanto a mim, eis o meu concerto contigo é e serás o pai de uma multidão de nações; (5) e não se chamará mais o teu nome ABRÃO, mas ABRAÃO será o teu nome; porque por pai da multidão de nações te tenho posto; (6) e te farei frutificar grandissimamente e de ti farei nações e reis sairão de ti; (7) e estabelecerei o meu concerto entre mim e ti e a tua semente depois de ti em tuas gerações, por concerto perpétuo, para te ser a ti por Deus e à tua semente depois de ti.
(Génesis 17:1-7)
Em Génesis 12, passamos a ter conhecimento da existência de Abraão. Até então era um ilustre desconhecido. Mas a partir do momento em que responde ao chamamento de Deus, não só a sua história se torna conhecida, como toda a sua existência passa a ter significado (e que significado!) não apenas para ele, mas principalmente para toda a humanidade, uma vez que podemos dizer que hoje, todo o mundo gira em torno da forma como cada um recebe a herança de Abraão.
Muito resumidamente, sabemos que Abraão vira as costas a um mundo idólatra, deixa o seu espaço de segurança e protecção e embarca numa autêntica aventura em que a fé na promessa de Deus se torna a sua grande motivação. Embora avançados em idade, ele e a mulher geram um filho, o filho da promessa, já depois de, primeiro, Abrão se ter antecipado aos planos de Deus, gerando Ismael, filho da escrava e, segundo, depois de Deus lhe ter alterado o nome para Abraão, pelo qual passa a ser conhecido e referenciado desde então. Pelo meio uma série de episódios, alguns pouco edificantes, mas que de modo algum modificam a promessa e o pacto iniciais de Deus para com ele e a sua descendência. E é neste período de tempo que, além de reforçar o concerto estabelecido desde o início, Deus lhe deixa uma ordem explícita: “Anda na minha presença e sê perfeito”.
O texto que acabámos de ler, ocorre duas dúzias de anos depois do primeiro encontro do patriarca com a promessa divina e este torna-se um momento-chave da realização do pacto firmado por Deus.
Antes de avançarmos na análise e importância do texto lido, salientemos alguns aspectos do percurso de Abraão.
1. O primeiro passo que dá é um passo de fé, de confiança irrestrita e ilimitada na veracidade e fidelidade da palavra de autoridade divina que acabara de receber, razão pela qual passa a ser conhecido como o pai da fé. De concreto tem apenas a promessa divina de que dele sairia uma grande nação, que ele seria uma bênção para o mundo, que nele todo a humanidade seria abençoada e que iria contemplar a terra que Deus lhe mostraria. Obediente, sai do conforto da sua terra e torna-se peregrino pelas terras de Canaã e do Egipto.
2. Sabemos que edificou quatro altares. O altar fala de obediência, entrega e consagração. Nele, o crente encontra-se face a face com o Altíssimo a cuja vontade se sujeita e d’Ele recebe protecção, graça e bênção. Esses quatro altares foram:
a) em Siquém (Génesis 12:7) que nos fala da sua obediência à revelação recebida. Na revelação, passamos a saber quem Deus é e o que Ele deseja de nós. Mesmo com um conhecimento parcial de quem Deus é, Abraão não se furta a cultuar o Senhor;
b) em Betel, (Génesis 12:8) que nos fala de separação. Abraão deixa para trás Ai, que significa “monte de ruínas” e edifica um altar em Betel que significa “casa de Deus”. O que para trás Abraão deixou passa a ser um monte de ruínas porque à sua frente abre-se a “casa de Deus”, onde ele pode encontrar comunhão com Deus e tudo de que necessita para viver em vitória neste mundo;
c) em Hebrom (Génesis 13:18), que nos fala de comunhão. Hebrom, que significa exactamente comunhão, situava-se na zona de Manre que significa plenitude. A comunhão e a plenitude andam de mãos dadas. E é curioso notar que este altar foi erigido depois de Abraão regressar do Egipto por onde havia decidido peregrinar, numa atitude que nos parece contrariar a ordem de Deus;
d) no monte Moriá (Génesis 22:1-14) que nos fala de entrega e consagração totais, sinónimos de adoração plena. Em Moriá, Abraão aprende que Deus não se satisfaz com sacrifícios humanos mas exige de cada um de nós uma entrega total, mesmo daquilo que mais prezamos e apreciamos, com a certeza e a confiança de que em retorno Deus nos dá muito mais do que pensamos ou sonhamos e que Ele zela pelas promessas que nos garantiu.
É curioso notar que o tempo que separa entre si os três primeiros altares é muito curto, os quais se seguiram quase de imediato à saída de Abraão da sua terra natal. O quarto altar é erigido cerca de quarenta a cinquenta anos após a chamada de Abraão. Isso indica-nos que em Moriá a fé do patriarca e o seu conhecimento e comunhão de Deus eram muito mais consistentes, pelo que podemos arriscar que em Moriá Abraão tinha uma fé já madura que não ia atrás de qualquer vento de doutrina.
3. Até ao momento em que Abraão recebe a ordem de andar na presença de Deus e de ser perfeito, Deus manifesta-se-lhe por três vezes: em Siquém (Génesis 12:7), de novo em Canaã (Génesis 13:15-17) e após o encontro com Melquisedeque (Génesis 15:1-21). Em todas elas, Deus reforça a promessa de lhe dar a terra por onde ele peregrinasse. Curiosamente, não temos registo de Deus lhe ter aparecido enquanto peregrinou no Egipto. Depois do capítulo 17, Deus surge outras três vezes a Abraão: para anunciar a gravidez de Sara (Génesis 18:13); para anunciar a destruição de Sodoma e Gomorra (Génesis 18:17-33), para anunciar o sacrifício de Isaque (Génesis 22:1-2). O que nos indica que em cada fase da vida de Abraão, a presença e a promessa de Deus estiveram presentes. Curiosamente, nas vezes em que até ao capítulo 17 Abraão é visitado por Deus, Abraão vê reforçada a promessa de que a sua descendência seria numerosa. O Capítulo 17 surge então como corolário final e marcante do concerto que Deus estabelece com Abraão. Como se Abraão estivesse por fim já suficientemente maduro para compreender em toda a extensão tudo quanto Deus queria fazer através dele. Como se este fosse o momento de viragem definitiva.
4. Neste novo encontro, para além do reforço, como já vimos, da fixação em definitivo do concerto estabelecido por Deus com Abraão, há dois aspectos de suma importância.
a) Em primeiro lugar a ordem expressa de Deus: “Anda na minha presença e sê perfeito”. E para que não houvesse dúvidas de que esta revelação não provinha dos desejos humanos de Abraão, Deus identifica-se sem deixar margem para dúvidas: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso”. Quando Deus nos fala (e Ele fala) deixa-nos a marca da Sua identificação. E Deus identifica-se não como uma entidade etérea, como uma visão mística, mas como o Deus Todo-poderoso. Essa é a Sua marca – n’Ele está centrado todo o poder, não apenas o poder de que necessitamos mas também aquele de que não necessitamos; não apenas o poder pelo poder, mas a fonte de todo o poder; não um poder limitado e sujeito às contingências de qualquer universo, seja ele físico ou não, mas o poder supremo que é atributo de Deus que, por isso, pode ser designado como o Omnipotente. Deixaremos para mais tarde a análise da importância e do lugar que ocupa no plano de Deus a ordem dada a Abraão de andar na Sua presença e de ser perfeito.
b) Em segundo lugar, Deus muda o nome do patriarca de Abrão (pai exaltado ou elevado) para Abrahão (pai de uma multidão) e o nome da esposa deste de Sarai (que, segundo parece, significa contenciosa) para Sarah (princesa). Isto é, acrescenta ao nome de ambos um som que na nossa língua é traduzido pela letra H que em certas línguas é um som aspirado e que no hebraico aponta para o significado de “janela”, “porta”, o que nos indica que a mesma porta que Deus abriu para Abraão, abriu também para a esposa. Por outro lado, o som aspirado faz lembrar o sopro e essa letra acrescentada encontra-se também no nome pelo qual Deus se revelou, no tetragrama sagrado. Como se Deus tivesse instilado na vida de ambos (na medida em que o nome representa a pessoa) o sopro da vida, não de uma vida qualquer, mas a vida do Deus Todo poderoso. Como se Deus estivesse a declarar que, a partir de agora, Abrahão e Deus comungam de uma forma tão íntima que um elemento de Deus está bem inserido em Abrahão e Sarah. Assim, usando o significado dos nomes, poderíamos ler deste modo o texto: “Não se chamará mais o teu nome Pai-Exaltado, mas Pai-de-uma-multidão porque por pai da multidão (Abraão) de nações te tenho posto” (Génesis 17:5) e: ”À tua mulher não chamarás mais Contenciosa, mas Princesa será o seu nome” (Génesis 17:15). A partir de agora, este homem deixa de estar limitado à sua circunstância e passa a ser um modelo para toda a humanidade.
Ora, se nós somos filhos espirituais de Abraão, somos herdeiros do concerto e das promessas que Deus estabeleceu com ele. O que significa que o que Deus fez com Abraão, faz também connosco. O que significa que a atitude que Deus teve com Abraão, terá também connosco. O que significa que se queremos a herança de Abraão, temos de assumir a mesma atitude que Abraão assumiu. E temos de perceber que, tal como ele, o nosso conhecimento e envolvimento com as promessas de Deus se vão aprimorando na medida em que andarmos com Deus e em que formos edificando os diversos altares. E temos de perceber que, por vezes, saímos do caminho que Deus traçou para nós mas que, apesar disso, Ele continua fiel ao que nos prometeu. Basta que regressemos ao ponto de onde nos desviámos, tal como fez Abraão que, ao voltar do Egipto, regressou ao ponto de onde partira, a Betel, a casa de Deus, porque aí o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre (Salmo 133:3). Porque a seguir a Betel, vem a nossa Hebrom (comunhão). E apenas quando passamos por Betel e Hebrom, podemos experimentar a nossa Moriá.
O que significa que a ordem que Deus deu a Abrão, “Anda na minha presença e sê perfeito” também nos é dada. E para que não digamos que é impossível obedecer-lhe, Deus instila em nós o Seu sopro da vida e nos abre uma porta ou uma janela por onde a luz da revelação tem livre curso para entrar. E para que não digamos que é impossível ou que estamos sozinhos no cumprimento dessa ordem, Deus instila em nós o Seu carácter consubstanciado na presença em nós do Emanuel (Cristo Jesus). Afinal, foi o que o Omnipotente fez quando mudou o nome de Abrão para Abrahão. Deus também quer mudar o nosso nome (Apocalipse 2:17 – Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: ao que vencer, darei eu a comer do maná escondido e dar-lhe-ei uma pedra branca e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.) Temos um nome pelo qual Deus nos conhece e é por ele que somos chamados. Deus não nos vê como nos vemos, mas vê-nos conforme a Sua promessa e a provisão que tem para nós.
Ao longo de todos os encontros que teve com os Seus servos, Deus não mudou uma vírgula aos Seus intentos. Embora façamos a distinção entre os diversos concertos que Deus foi estabelecendo com os Seus (daí falarmos em pacto adâmico, pacto noémico, pacto moisaico e pacto da Nova Aliança), podemos dizer, sem entrar em contradição nem negar a Escritura, que o pacto ou concerto de Deus é um só desde o princípio, vivido pelos homens em diversas fases e que todos eles se resumem a esta verdade central: “Andemos na Sua presença e sejamos perfeitos”. Um pouco à semelhança do que Jesus fez ao resumir a Lei Moisaica à Lei do Amor: «E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos depende toda a lei e os profetas.» (Mateus 22:37-40), repetindo o que Deuteronómio 6:5 e Levítico 19:18 já haviam declarado. Ou seja: em todos os pactos encontramos a mesma exigência.
Então, isso significa que não é pelo facto de vivermos no tempo da Nova Aliança que estamos dispensados de cumprir essa ordem. Pelo contrário – muito mais obrigação e muito mais responsabilidade temos de a cumprir, na medida em que, sendo filhos adoptados de Deus, a nossa porção é a de herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, com a responsabilidade de reflectirmos em nós as virtudes e qualidades do nosso Salvador, que foi fiel até ao fim.
A ordem estipulada e que recebemos via Abrahão é dupla:
1) “Anda na minha presença” – isso indica permanência, isso indica comunhão, isso indica receber e partilhar. Isso significa que no nosso caminhar em qualquer sector da vida e do mundo a presença de Deus tem de ser uma constante no nosso espírito, na nossa alma e no nosso corpo. Que o mesmo é dizer que a presença de Deus deve estar actuante em todas as dimensões em que nos movemos: na dimensão física, na dimensão intelectual, na dimensão emocional, na dimensão psíquica, na dimensão espiritual, em suma, em todas as dimensões em que estivermos envolvidos. Isso significa que em qualquer actividade em que estivermos envolvidos, a presença de Deus deve ser uma constante e que nenhuma delas, desde que cumpra os requisitos ordenados por Deus, é indigna de ser vivida.
O andar indica também movimento. E movimento implica tensão e desequilíbrio. Quando caminhamos, movemo-nos sempre numa tensão entre o equilíbrio e o desequilíbrio. Ao levantarmos um pé para caminhar, assumimos um equilíbrio instável a que se segue um momento de equilíbrio estável que é aquele em que temos os dois pés assentes no chão. Em todo este processo, passamos por uma tensão de equilíbrio e desequilíbrio. Mas é precisamente essa tensão que nos faz mover e avançar. Se queremos experimentar a comunhão com Deus, devemos estar dispostos a viver em tensão entre o que somos e aquilo que Deus preparou para nós, sabendo que a cada passo que damos, ficamos mais perto do alvo final. E mesmo quando parece que Deus não nos fala, Deus mantém a Sua promessa e mantém a Sua presença connosco. Recordemos o tempo em que Abrão esteve no Egipto e em que não temos registo de Deus lhe ter aparecido. Mesmo nessa situação, a promessa do concerto de Deus não se desvaneceu nem se quebrou. Foi necessário Abrão passar pelo seu processo de tensão para que um novo capítulo fosse escrito na sua vida. Quando Deus estabelece um pacto connosco (e Ele já estabeleceu), não nos abandona, mesmo que a nossa carne diga que não O sente. Deus não está dependente das nossas emoções – Deus está preso à Sua promessa. Deus é fiel não ao nosso sentir ou à nossa circunstância, mas à Sua palavra.
O andar implica autonomia e a autonomia exige vontade para que ela seja autêntica, vibrante e produtiva. Indica que cada passo que damos nos faz entrar em novos domínios que até então nos estavam vedados. Deus quer fazer-nos entrar em domínios que nos estão disponíveis, embora ainda não na nossa posse ou controlo. Mas o caminhar implica também abandono – deixamos o nosso conforto, deixamos o que consideramos nosso para nos aventurarmos naquilo que jaz à nossa frente. Mas o caminhar também nos recorda que, embora caminhando, o caminho não é nossa propriedade. Poderíamos dizer com justeza que o caminho é que nos sustenta e, em termos bíblicos, o nosso caminho é Cristo Jesus que de si mesmo afirmou ser “o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6). Caminhemos então, sabendo que o caminho que percorremos é firme, seguro e inabalável, mesmo quando as tormentas e os furacões da vida possam abanar o nosso batel.
2) O segundo elemento da ordem é: “sê perfeito”. Por vezes, temos dificuldade com as palavras e lutamos com elas. E nessa luta, não poucas vezes alteramos o verdadeiro significado das palavras. E nessa fraqueza, acabamos por viver num engano porque nos agarrámos a uma definição incorrecta, levando-nos a perder de vista o essencial e o verdadeiro.
É o que sucede com esta palavra “perfeito”. Quando a ouvimos identificamos com “imaculado”, “sem falhas”, “sem mancha”. Na verdade, não é isso que a palavra significa, a ponto de uma coisa ser perfeita e ter falhas. Por exemplo, podemos dizer que Satanás é a perfeita maldade porque nada lhe falta para ser mau. Nele, a maldade (uma coisa negativa) é total, acabada. Por vezes, quando avaliamos alguém que consideramos nada valer, dizemos que é um “perfeito idiota” ou uma “nulidade perfeita”. É que “perfeito” significa aquilo que está acabado, terminado, concluído, que atingiu o ponto final do seu avanço ou projecto. Então quando Deus diz “sê perfeito”, está a dizer-nos que nos entregou um projecto, uma planta, uma ordenança com todos os requisitos e meios para atingir os fins que Ele propõe e só temos de seguir à risca as Suas instruções. Fazendo-o, estamos a ser perfeitos, isto é, chegámos ao fim. Na fase de perfeição, nada mais há a acrescentar porque o que havia de ser feito já foi feito. Naturalmente, sendo Deus não apenas a Perfeição absoluta mas o Ser Imaculado Absoluto, então tudo quanto vem da Sua mão não apenas é perfeito mas belo, imaculado, sem erro ou falha. Essa talvez a razão de por vezes confundirmos perfeito com imaculado.
A verdade é que Deus começou a boa obra em nós e continuará a aperfeiçoá-la até ao dia de Jesus Cristo, conforme Paulo diz em Filipenses 1:6. Deus está a trabalhar em nós, aperfeiçoando-nos, concluindo-nos para o grande encontro com o Esposo. Se Deus não desiste de ti, não desistas tu de ti próprio. Estás em boas mãos.
Quando ordena que sejamos perfeitos, Deus sabe que a tarefa é difícil. Por isso, em todos os concertos estabelecidos com o homem, Deus deixou um plano guia que o orientasse a atingir o alvo exigido, dando-lhe os meios necessários para atingir os alvos pretendidos. Tal como a tentação em que Deus não nos deixa ser tentados acima das nossas capacidades (1 Coríntios 10:13), também na realização desta Sua ordem, Deus nada exige que Ele não saiba que não possamos levar a cabo. Por isso, pela Sua palavra, sabemos que, por muito difícil que nos seja, é possível sermos perfeitos. Basta seguir o plano traçado por Deus na Sua Palavra. Ele estabeleceu um concerto connosco, plasmado na Nova Aliança de que Cristo Jesus é o alicerce. Sobre ele construímos a Sua igreja que é o conjunto de todos quantos O reconhecem como Salvador. E para que nada falhe nessa construção, Deus tem o Consolador, o Espírito Santo a supervisionar a Sua obra, a corrigir o que for sendo feito deficientemente, colocando tudo no seu lugar, na perfeição.
E se o plano de Deus é perfeito, então não lhe acrescentemos nada mais como que a querer dar uma ajudinha. Deus não está dependente de modas ou de uma linguagem de facilitação ou adaptação do seu plano para o tornar mais atraente aos homens. Como dizia Paulo em Romanos 12:1-2, a vontade (o plano) de Deus é boa, agradável e perfeita. Por isso, todo o acto de culto, em cujo centro não esteja outra coisa senão a Sua Palavra que é o nosso guia para descobrir, viver e apreciar o plano de Deus para nós e para os outros, não é culto, é reunião social. “Anda na minha presença, diz o Senhor, e sê perfeito.”
Soli Deo Gloria!

VERDADE – breves considerações

VERDADE – breves considerações
Rafael da Mota Luz
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ÍNDICE
INTRODUÇÃO 1
I. VERDADE: O QUE É? 2
II. VERDADE ENQUANTO CONCEPÇÃO SECULAR 3
III. VERDADE À LUZ DA BÍBLIA 4
CONCLUSÃO 9
BIBLIOGRAFIA E WEBGRAFIA 10
INTRODUÇÃO
Prende-se este modesto trabalho com a consignação de uma breve compreensão acerca da verdade, sob um ponto de vista conceptual geral e especial, sendo, neste último caso, à luz da Bíblia Sagrada, ainda que em jeito de tentativa.
No âmbito do desenvolvimento da temática abordada, verifica-se uma grande concentração de valor e qualidade significativa sobre as afirmações de conhecimento sobre o conceito acerca do qual nos debruçamos doravante.
Neste sentido, é frequente observar como as questões levantadas acerca do que venha a ser a verdade, têm sido debatidas a diversos níveis, quer seja no âmbito de conversações mais informais, quer seja circunscrita aos meios académicos, político-parlamentos ou religiosos. Também é comum constatar a frequência com que tais conversações desembocam desde debates acalorados, às vias de facto, por conseguinte dividindo, segmentado ou, paradoxalmente, unindo diversas pessoas cuja identificação colectiva reporta às concepções fundamentalistas decorrentes dessas divisões.
No que cinge à religião, especialmente à luz do Cristianismo, tivemos a oportunidade de constatar que as questões relacionadas à verdade ganham maior dimensão, considerando as consequências de sua afirmação, as quais não comportam espaço à relativização.
Disso faz demandar uma pré-compreensão geral de que a verdade se insira no epicentro de uma temática relacionada às mais íntimas e profundas convicções das pessoas, a incorrer num despoletar de reacções viscerais e passionais, individuais ou colectivas.
Para o desenvolvimento da presente monografia, construímos um brevíssimo panorama sobre as definições mais consensuais sobre a verdade, seguindo em direcção a uma construção filosófica para, finalmente, chegarmos àquilo que cinge ao que diz a Bíblia sobre o tema, enquanto base Cristã de sustentação às suas afirmações.
Limitamo-nos à pesquisa bibliográfica diversa, designadamente à utilização de comentários bíblicos, dicionários comuns e bíblicos, enciclopédias, webgrafias e Bíblias com diferentes traduções (citando-se tão-somente uma breve referência à passagem e à sua localização no texto sagrado), cientes, contudo, da impossibilidade de se esgotar toda a temática abordada em tão poucas linhas.
I. VERDADE: O QUE É?
Em termos gramaticais, à luz do vernáculo definido para a Língua Portuguesa, «verdade» é uma expressão originariamente transportada do latim veritas [-tatis], classificada como substantivo feminino, cuja raiz etimológica reporta ao seguinte: (1) conformidade com o real; (2) conformidade da ideia com o objecto, do dito com o feito, do discurso com a realidade. ≠ ERRO, ILUSÃO, MENTIRA; (3) qualidade do que é verdadeiro. = EXACTIDÃO, REALIDADE; (4) Coisa certa e verdadeira. ≠ ILUSÃO, MENTIRA; (5) [Por extensão] Manifestação ou expressão do que se pensa ou do que se sente. = AUTENTICIDADE, BOA-FÉ, SINCERIDADE ≠ MENTIRA; (6) princípio certo. = AXIOMA; (7) [Belas-artes] Expressão fiel da natureza, de um modelo, etc..1
Segundo o saber de AFRÂNIO SILVA JARDIM2, em termos jurídicos, a verdade pode ser entendida amplamente sob duas égides: a da verdade real (processo penal) e a da verdade formal (processo civil). Como está evidente, a expressão «verdade real» acarreta uma grande redundância. Se não é real, não é verdade. Se é verdade, não pode deixar de ser real. Assim, esta expressão vem se opor ao princípio da «verdade formal», que vigora no processo civil, quando colocado em jogo direitos disponíveis, como é o caso do património.
Prossegue por pontuar que no processo civil, o juiz pode reputar como verdadeiros factos não provados, desde que não impugnados pela parte contrária. No processo penal, até mesmo a confissão do réu não dispensa a existência das demais provas. Mesmo os factos incontroversos são objecto de prova no processo penal, uma vez que se está a falar de direitos indisponíveis, como é o caso da liberdade.
Conclui o autor, por ponderar:
Por outro lado, quando o princípio em estudo se refere à verdade, dispara uma enxurrada de críticas de toda a ordem. Seja no plano filosófico, na teoria do conhecimento, seja no plano das chamadas ciências exactas, vários estudos sérios questionam o que seja verdade, questionam a impossibilidade de o ser humano a ela consiga chegar, seja pela razão, seja pelos nossos sentidos.3
Mas, a verdade, o que é afinal?
II. VERDADE ENQUANTO CONCEPÇÃO SECULAR
NICOLA ABBAGNAMO busca uma ideia de separação do pensamento socrático acerca da verdade da concepção religiosa Cristã, devido ao entendimento de que, contrariamente ao que sustenta a religião, baseado essencialmente na revelação divina, um saber que seja ou que pretenda ser, não pode ser revelado pela divindade, posto que, aquilo que a divindade ordena é o empenho da investigação e o esforço aplicado à justiça, ou seja, aquilo que ela garante é que, para o homem honesto, não existe mal nem na vida nem na morte4. Assim, segundo Sócrates, tanto a verdade quanto a virtude são atributos de valor realizável fora da religião, pelo que devem ser objecto de busca e realização pessoal e individual pelo homem5.
Reporta o autor ainda ao entendimento vertido por DESCARTES no que respeita ao processo da descoberta da verdade. Prossegue por percorrer uma via metódica, sistematizada e segura, onde o conjunto de regras certas e fáceis que, por quem quer que sejam exactamente observadas, lhe tornam impossível tomar o falso pelo verdadeiro e, sem nenhum esforço omental inútil, antes aumentando sempre gradualmente a ciência, conduzindo-o ao conhecimento de tudo o que será capaz de conhecer, referindo, ainda, as modalidades ou particularidades da sua aplicação, reduzindo o sucesso do processo à consecução de quatro regras fundamentais6: (1) evidência: “jamais aceitar alguma coisa por verdadeira se não reconhecêssemos evidentemente como tal.” (2) análise: “dividir cada uma das dificuldades a examinar no maior número de partes possíveis e necessárias para melhor as resolver.” (3) síntese: “conduzir os meus pensamentos por ordem, começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de se conhecer, para pouco a pouco me elevar, como por graus, até aos conhecimentos mais complexos.” e (4) enumeração: “fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais que se fique certo de não omitir nenhuma.”.
Segundo a linha desenvolvida por DESCARTES, em seu método mediante a consideração do processo matemático7:
As longas cadeias de raciocínios tão simples e fáceis, de que os geómetras costumam servir-se para chegar às suas mais difíceis demonstrações, proporcionaram-me o ensejo de imaginar de que todas as coisas de que o homem pode ter conhecimento se seguem do mesmo modo e que, desde que se abstenha de aceitar por verdadeira uma coisa que não o seja e que respeite sempre a ordem necessária para deduzir uma coisa da outra, nada haverá tão distante que não se chegue a alcançar por fim nem tão oculto que não se possa descobrir.
COLIN BROWN, por sua vez, refere na sua obra8 o pensamento de KIERKEGAARD, acerca da verdade, como objecto de discussão sob o título de subjectividade, consubstanciando um termo frequentemente empregado para contrastar com a abordagem objectiva. Neste sentido, defende “a dialética de como se tornar um cristão”, passando pela ideia de imortalidade defendida por SÓCRATES, a qual segue, bem como do modo de vida à altura das provas desse ideal, dando importância ao que chama “escolha subjectiva, o salto da fé, o comprometimento com o absurdo”. Conclui por optar não viver com base na verdade cristã baseada e sustentada na fé.
III – VERDADE À LUZ DA BÍBLIA
No desenvolvimento de F. F. BRUCE, o substantivo verdade é coordenado9 no sentido de identificar Jesus como a verdade de Deus, i. é, a corporificação da auto-revelação de Deus, o verdadeiro Deus em quem se deve crer, aquele por meio de quem não se caminha para a vida fora da verdade, enfim, a verdade absoluta.
Com efeito, a questão colocada por Pôncio Pilatos envolvendo a “verdade” é intrigante10.
Refere o autor que o questionamento de Pilatos se insere numa temática que foge à competência da lei e do Direito romano. Disso resulta a compreensão pela qual aquele agente da autoridade romana interrompera de forma abrupta o interrogatório dirigido sobre a pessoa de Jesus aquando da sua prisão e audiência decorrente11.
Prossegue, ao contextualizar-nos àquele insólito episódio, que a questão da eternidade ou da verdade eterna, ali abordada, eram matérias sobre as quais efectivamente fugiam ao domínio de Pilatos. Entretanto, elucida-nos da sua conclusão que qualquer coisa que Jesus tivesse dito ou feito, não seriam suficientes para constituir acusação formal de que consubstanciaria de facto sobre ele alguma ameaça à autoridade imperial.
Conclui deixando-nos a seguinte reflexão:
Pode ser que as palavras de Jesus não tenham provocado grande efeito sobre Pilatos, mas João espera e crê que muitos dos seus leitores as levarão a sério, vindo a conhecer aquele que não é somente “uma testemunha da verdade” mas a verdade em pessoa – a verdade que põe as pessoas em liberdade.
Atendo-nos ao sentido bíblico em questão, verificamos que12: (1) Deus é o Deus da verdade, (2) Cristo é a verdade, (3) Cristo era cheio da verdade, (4) Cristo falou a verdade, (5) o Espírito Santo é Espírito de verdade, (6) o Espírito Santo guia em toda a verdade, (7) a Palavra de Deus é a verdade, (8) Deus a considera, com favor e (9) os julgamentos de Deus são de acordo com ela.
Relativamente às pessoas, em sentido amplo, compreende-se que os que falam a verdade exibem honestidade enquanto qualidade, razão pela qual alegram a Deus e em consequência disso, serão firmados13.
No que se refere a um grupo específico de pessoas distintas entre si, designados “santos”14, “ministros”15 e “ímpios”16, a verdade pode ser compreendida, enquanto aos dois primeiros, sob a perspectiva de um conjunto de exigências ou deveres, enquanto ao último, às implicações da sua não observância e as consequências daí decorrentes. Vejamos:
a) Os santos devem17: (1) adorar a Deus em verdade, (2) servir a Deus em verdade, (3) caminhar diante de Deus em verdade, (4) manter as celebrações religiosas com verdade, (5) considerá-la inestimável, (6) alegrar-se nela, (7) falar uns com os outros em verdade, (8) meditar nela, (9) escrevê-la em seus corações, (10) Deus a deseja nos corações e (11) o fruto do Espírito é verdade.
b) Os ministros devem18: (1) falar a verdade, (2) ensinar a verdade, (3) ser aprovados por ela, (4) os magistrados devem ser homens da verdade, (5) os reis são preservados por ela.
c) Os ímpios19: (1) são destituídos da verdade, (2) não falam a verdade, (3) não confirmam a verdade, (4) não pleiteiam a verdade, (5) não são corajosos pela verdade, (6) são castigados por falta de verdade.
ORLANDO BOYER20 elenca os Oito «Eu Sou» do Evangelho de João, referindo-se aos aspectos identitários de Cristo, afirmados pelo próprio: (1) Eu sou o Pão da vida, 6:35 (2) Eu sou a Luz do mundo, 8:12 (3) Eu sou a Porta, 10:9 (4) Eu sou o bom Pastor, 10:14 (5) Sou Filho de Deus, 10:36 (6) Eu sou a Ressurreição e a Vida, 11:25 (7) Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, 14:6 (8) Eu sou a Videira verdadeira, 15:1.
Dentre os aspectos atrás descritos, encontramos a especificação «a verdade» – e não só: a verdade que liberta, a partir do seu conhecimento. A este propósito refere o autor que a opressão espiritual é pior do que a escravatura nacional e que a libertação do pecado mais importante que a de qualquer cruel ditador21.
Portanto, a verdade, no contexto bíblico, é também apresentada como uma das identidades de Cristo ou de como ele se apresenta e se identifica.
 CONCLUSÃO
Chegamos à altura de fecharmos a nossa pesquisa, embora não exaustiva, estritamente bibliográfica, acerca da «verdade» sob o ponto de vista conceptual geral ao especial, no sentido bíblico, assente em três pontos: um conceito, um desenvolvimento geral e um específico.
A percepção global que tivemos fora de que a definição do que seja ou venha a ser «a verdade» abrange uma enorme carga significativa de conteúdo que, infelizmente, não tivemos a oportunidade de gravar nestas poucas linhas, restringindo-nos tão-somente, a um breve panorama desta relevante ideia.
Contudo, observamos que o conceito em questão, conforme sentido e essência da especialidade ora perseguida – Jesus Cristo, A Verdade -, consiste numa das identidades de Cristo ou de como ele próprio se apresenta e se identifica, ao passo em que a sua assumpção, por parte de todo aquele que nele crê, continua a resultar em influência e em transformação de suas vidas, bem como de governos e nações até os dias de hoje.
NOTAS
  DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO NOVA FRONTEIRA DA LÍNGUA PORTUGUESA / ANTÔNIO GERALDO DA CUNHA; assistentes: CLÁUDIO MELLO SOBRINHO… [et. al.]. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 816; “Verdade”, in DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/verdade [consultado em 17-06-2019].
2 AFRÂNIO SILVA JARDIM, O Princípio Da Verdade Real No Processo Penal: Uma Explicação Necessária. https://emporiododireito.com.br/leitura/o-principio-da-verdade-real-no-processo-penal-uma-explicacao-necessaria [em linha], 24/07/2018 [consultado em 17-06-2019].
3 Ibidem, op. cit..
4 NICOLA ABBAGNAMO, História da Filosofia / tradução: ANTÓNIO BORGES COELHO, FRANCISCO DE SOUSA E MANUEL PATRÍCIO, 3.ª Ed., Vol. I, Editorial Presença, Lisboa: 1992, pp. 105, 106, apud, SÓCRATES.
5 Ibidem, cit., p. 106.
6 NICOLA ABBAGNAMO, História da Filosofia / tradução: ANTÓNIO RAMOS ROSA, 3.ª Ed., Vol. VI, Editorial Presença, Lisboa: 1992, p. 44-46, apud, DESCARTES.
7 Ibidem, cit., p. 43.
8 COLIN BROWN, Filosofia e Fé Cristã. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo: 1983, p. 89, apud, KIERKEGAARD.
9 F. F. BRUCE. João: Introdução e comentário / tradução: HANS UDO FUCHS, 1.ª ed., Série Cultura Bíblica. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. – São Paulo: 1987, pp. 256, 257.
10 Evangelho segundo João 18:38a: “Que é a verdade?” – Destacou-se.
11 F. F. BRUCE. João: Introdução e comentário…, Ibidem, p. 301.
12 ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA / tradução EULÁLIA A. P. KREGNESS. – São Paulo: Shedd Publicações, 2008, p. 385. Referências bíblicas: (1) Dt 32:4; Sl 31:5 (2) Jo 14:6 com Jo 7:18 (3) Jo 1:14 (4) Jo 8:45 (5) Jo 14:17 (6) Jo 16:13 (7) Dn 10:21; Jo 17:17 (8) Jr 5:3 (9) Sl 96:13; Rm 2:2.
13 ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA, Ibidem, cit..
14 “Santo – [Do heb. kadosh; do gr. hagios] Aquele que se separa do mal, e dedica-se ao serviço divino. O Homem torna-se santo quando recebe a Cristo como o seu salvador. De imediato, o pecador, agora redimido, é colocado na posição de justo e santo diante de Deus, como se jamais houvera pecado. O processo de santificação do crente tem como base a Palavra de Deus.” In DICIONÁRIO TEOLÓGICO. CLAUDIONOR CORRÊA DE ANDRADE, 1.ª ed. – Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 1998, p. 260.
15 “Ministro – [Do lat. ministrum] Servidor, servo. A principal característica do ministro do Evangelho é servir a Cristo e a Igreja. Sua função é dupla: 1) Em relação à Igreja, pastorear o rebanho de Deus. 2) Em relação ao mundo, proclamar o Reino de Deus.” In DICIONÁRIO TEOLÓGICO…. Ibidem cit., p. 214.
16 Cf. “Impiedade – [Do lat. impietatem, ausência de piedade] Ausência sistemática dos atributos de Deus no indivíduo, na sociedade ou no Estado. Esta impiedade nasce nas paixões, sistematiza-se em ideologias, e cristaliza-se em sistemas que tudo fazem por banir a ideia de Deus na humanidade. Haja vista o estado totalitário implantado por Adolf Hitler na Alemanha. O que eram simples paixões nos anos 20, ganharam foros de filosofia nos anos 30, e monstruosa impiedade nos anos 40.” In DICIONÁRIO TEOLÓGICO…. Ibidem cit., p. 186.
17 ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA… Ibidem, cit.. Referência bíblicas: (1) Jo 4:24; Sl 145:18 (2) Js 24:14; I Sm 12:24 (3) I Rs 2:4; II Rs 20:3 (4) I Co 5:8 (5) Pv 23:23 (6) I Co 13:6 (7) Zc 8:16; Ef 4:25 (8) Fp 4:8 (9) Pv 3:3 (10) Sl 51:6 (11) Ef 5:9.
18 Ibidem, op. cit.. Referências bíblicas: (1) II Co 12:6, Gl 4:16, (2) I Tm 2:7, (3) II Co 4:2, 6:7-8, 7:14; (4) Êx 18:21, (5) Pv 20:28.
19 Ibidem, op. cit.. Referências bíblicas: (1) Os 4:1, (2) Jr 9:5, (3) Is 59:14-15, (4) Is 59:4, (5) Jr 9:3, (6) Jr 9:5,9, Os 4:1.
20 ORLANDO S. BOYER. João: O Evangelho do Filho de Deus. Para que tenhais vida em seu nome vida em abundância. 2.ª ed. Oficinas da Empr. Gráf. Ouvidor, S.A.. – Rio de Janeiro: 1964, pp. 112, 113.
21 Ibidem, cit., p. 113.
BIBLIOGRAFIA
- COLIN BROWN, Filosofia e Fé Cristã. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo: 1983.
- DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO NOVA FRONTEIRA DA LÍNGUA PORTUGUESA / ANTÔNIO GERALDO DA CUNHA; Assistentes: CLÁUDIO MELLO SOBRINHO… [ET. AL.]. – Rio De Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
- DICIONÁRIO TEOLÓGICO. CLAUDIONOR CORRÊA DE ANDRADE, 1.ª ed. – Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 1998.
- ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA / tradução EULÁLIA A. P. KREGNESS. – São Paulo: Shedd Publicações, 2008.
- F. F. BRUCE. João: Introdução e comentário / tradução: HANS UDO FUCHS, 1.ª ed. Série Cultura Bíblica. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. – São Paulo: 1987.
- NICOLA ABBAGNAMO, História da Filosofia / tradução: ANTÓNIO RAMOS ROSA, 3.ª ed., Vol. VI, Editorial Presença, Lisboa: 1992.
- ORLANDO S. BOYER. João: O Evangelho do Filho de Deus. Para que tenhais vida em seu nome vida em abundância, 2.ª ed. Oficinas da Empr. Gráf. Ouvidor, S.A.. – Rio de Janeiro: 1964.
WEBGRAFIA
- AFRÂNIO SILVA JARDIM, O Princípio Da Verdade Real No Processo Penal: Uma Explicação Necessária. https://emporiododireito.com.br/leitura/o-principio-da-verdade-real-no-processo-penal-uma-explicacao-necessaria [em linha], 24/07/2018 [consultado em 17-06-2019].
- “Verdade”, In DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/verdade [consultado em 17-06-2019].

A Herança de Abraão

A Herança de Abraão

Dr. Jorge Pinheiro

Jorge Pinheiro - 17 - peq
Ao longo da história, vários foram os homens e mulheres que, em diversas épocas, influenciaram negativa ou positivamente as sociedades em particular e a humanidade em geral. Enumerá-los tornar-se-ia fastidioso porque a lista seria extensa. Emparceirando-os, verificaríamos, contudo, que deles apenas meia dúzia se sobressairia de quem se pudesse dizer que a sua influência se tornou extensiva a todo o mundo, deixando uma marca que atravessou séculos e continentes e que perdura ainda hoje. Se pedíssemos a alguém que enumerasse o nome de cinco personalidades que em seu entender mais influenciaram o curso da humanidade não deixaria de indicar o dos fundadores das principais religiões (Sidarta Gautama, Moisés, Zoroastro, Jesus Cristo, Lao Tzé, Muhamad), o de grandes guerreiros ou descobridores (Gengis Cão, Alexandre Magno, Júlio César, Marco Pólo, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo), o de grandes pensadores, cientistas ou artistas (Sócrates, Platão, Einstein, Karl Marx, Mahatma Gandhi, Leonardo da Vinci, Beethoven) ou qualquer um dos muitos políticos que deixaram a sua marca indelével na história da humanidade. Não estaremos, contudo, talvez longe da verdade se arriscarmos afirmar que poucos citariam o nome de Abraão entre esses cinco.
E, no entanto, passados quase cerca de 40 séculos desde que ele empreendeu a sua caminhada histórica, saindo de Ur da Caldeia rumo a um destino que apenas pela fé conseguia vislumbrar e, talvez, deficientemente compreender, ainda hoje continuamos a ser influenciados de forma perene e constante por essa sua decisão, a ponto de podermos afirmar, sem forçar a realidade, que ele condicionou o devir de toda a humanidade. A sua decisão de obedecer à voz divina alterou para sempre o curso da humanidade e ainda hoje continuamos a sentir a sua influência. É verdade que genericamente Abraão é encarado apenas no quadro do universo religioso para isso contribuindo o facto de os seguidores dos três grande monoteísmos actuais o considerarem como pai fundador e alicerce das respectivas fés. É verdade que Abraão, considerado patriarca por todos quantos se lhe sentem devedores, foi movido por uma fé que podemos considerar de base e consistência religiosa. Mas não menos verdade será afirmar que, afinal, todos neste mundo, crentes e não crentes, são de uma forma ou outra seus filhos ou descendentes.
A história de Abraão vamos encontrá-la, com riqueza de pormenor no maior best-seller de toda a humanidade e jóia preciosa do universo sapiencial – a Bíblia Sagrada, mais concretamente no Génesis, entre os capítulos 12 e 25. Esses 14 capítulos retratam quadros de magnífica beleza e profundos ensinamentos cuja densidade está longe de esgotada.
Sabemos que Abraão vivia na opulenta cidade de Ur da Caldeia, cidade que rivalizava em grandeza e importância com a grande Babilónia, sendo considerada na altura (1940 a.C.) a mais importante urbe da região. Aos 75 anos, passa por uma experiência que irá modificar para sempre a sua vida e o curso da humanidade. Pouco sabemos de Abraão até então. Mas sabemos que vivia numa cidade opulenta, numa sociedade politeísta, num mundo em que, para apaziguar os caprichos das divindades, muitas vezes era necessário sacrificar a vida humana. Muito provavelmente viveria sem problemas de subsistência. Talvez uma das poucas tristezas que o afligisse fosse o facto de sua mulher Sarai ser estéril e, por essa razão, o seu nome não seria propagado após a sua morte entrando por isso no oblívio da memória colectiva.
E é nesse ambiente que Deus o chama e lhe faz uma promessa que a partir de então será a sua razão de existir: “Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Obediente, Abraão deixa o conforto, o sossego e a reputação e parte. Deixa a segurança do adquirido e parte rumo ao desconhecido, fundamentado apenas numa promessa cujo único garante é o Deus eterno a quem fica ligado pelos laços da fé que vai crescendo e fortalecendo-se à medida que se entrega à obediência de quem o chamou. Conhecemos o resto da sua autêntica odisseia que resumimos de seguida: após renovar-lhe a chamada e a promessa de um filho, apesar da esterilidade de Sarai e da idade avançada de Abrão, Deus concede-lhe um filho, Isaque, depois de mudar o nome ao casal e de instituir a circuncisão e não sem que antes Abraão tivesse gerado Ismael da sua escrava Agar. Após a morte de Sara, Abraão volta a conceber seis outros filhos da concubina Quetura. Pelo meio, a destruição de Sodoma e Gomorra, o sacrifício não consumado do filho Isaque e o episódio em que, perante Abimeleque, Abraão nega que Sara fosse sua esposa.
Centremo-nos no conteúdo da promessa feita por Deus a Abraão e que ele transmite como herança a todos os seus descendentes. Nela há 3 elementos centrais: terra (Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei), semente (E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção) e bênção (E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra). Esta promessa, que se cumprirá na descendência de Abraão, dá origem a uma nova relação com a divindade, ou com a transcendência, se assim o quisermos, desconhecida da sociedade de então. Para além de ser um Deus único, transcendente e pessoal, o Deus de Abraão é um Deus que se relaciona com a sua criação através de pactos, que Ele honra e aprofunda, na medida da obediência do homem.
A Abraão, por seu lado, é exigido que se entregue à revelação de um Deus que se auto-revela e siga, passo a passo, em obediência comprometida, o caminho que se lhe vai abrindo no cumprimento do respeito mútuo pelo pacto estabelecido entre Deus e o Homem e que influenciará não só o momento presente, mas todas as gerações posteriores que receberem como sua herança a promessa abraâmica.
A terra passa a estar indissoluvelmente ligada à descendência de Abraão. Compulsando os pactos subsequentes que Deus vai estabelecendo com o Seu povo, verificamos que a relação do homem com a terra é a de um mordomo que, em nome do seu senhor, a torna produtiva, zelando e velando por ela, respeitando a sua integridade. A terra continua a ser de Deus, mas o Eterno coloca-a à disposição do Homem para nela este se frutificar e frutificá-la. E de facto, nos pactos posteriores, encontramos toda uma série de disposições que realçam esta tripla inter-relação – terra produtiva e respeitada, mansão do homem e reflexo e reflector da glória de Deus.
A semente ou descendência conhecerá a grandeza e erguer-se-á não como pedinte ou uma massa amorfa sem rumo, mas como sociedade organizada, disciplinada, com um programa bem definido de acção, em que a dignidade humana conhece um novo paradigma e em que a relação com o transcendente faz parte integrante do viver humano. Disso é reflexo o episódio do sacrifício não consumado de Isaque no monte Moriá. Filho prometido, filho da impossibilidade, a vida de Isaque é requerida pelo próprio Deus que permitiu a sua existência. Para além das várias lições que o episódio nos ensina, podemos destacar duas: Deus não se compraz com sacrifícios humanos e Deus exige confiança e obediência sem restrições a quem O aceita como presente na sua vida. Numa sociedade que utilizava o sacrifício humano para satisfazer a divindade, este episódio constitui uma ruptura definitiva do paradigma que encara o homem como descartável em nome do ter em preferência sobre o ser, em nome até de uma divindade supostamente clemente e misericordiosa. Nessa semente (ou descendência) contemplada na promessa abraâmica, o transcendente está também presente de forma visível e palpável e disso são reflexo dois episódios da vida de Abraão – a instituição da circuncisão e a mudança de nome do patriarca e sua esposa. A circuncisão, acto realizado no próprio corpo do crente no ponto fulcral da procriação masculina realça o facto não só de que o nosso corpo deve reflectir ele também a relação com a divindade, como ele próprio Lhe pertence. A mudança do nome é também significativa. Numa cultura em que o nome reflecte a própria pessoa e em que, em última instância, acaba por ser a própria pessoa, este episódio indica que a relação com Deus exige um abandono das nossas referências exclusivamente imanentes, exige uma renovação, uma transformação apenas possível pela acção divina interveniente no nosso viver. Abraão deixa de ser Abrão (pai da altura) para ser Abraão (pai de uma multidão, sendo sintomática esta intercalação de um som aspirado indiciador do sopro do espírito divino na natureza humana) e Sara deixa de ser Sarai e passa a ser Sara (princesa). E de novo, numa sociedade em que a mulher era considerada propriedade do homem e como ser sem alma, esta elevação da sua dignidade é sintomática.
No terceiro elemento da promessa/herança abraâmica, a bênção, temos toda uma teologia e programa de acção. A lei da causa e do efeito presente em todas as relações do homem que se movimenta numa tripla dimensão – consigo próprio, com o seu semelhante e com a divindade. Um apelo não apenas à obediência, mas à responsabilidade individual e colectiva, com uma origem inequívoca e insubstituível. Nos pactos subsequentes que complementam esta promessa divina, sem negar a ligação íntima e intrínseca entre causa e consequência, entre obediência e transgressão, a tónica é colocada indiscutivelmente na bênção resultante da actuação em obediência alicerçada e avalizada pela fidelidade divina. A bênção, o favor, a graça, a misericórdia de Deus tornam-se extensíveis a todos quantos entrarem em contacto com o recipiente da promessa divina. A tónica é colocada na bênção e não na maldição, porque Deus não tem prazer na destruição da sua criação, conforme ecoa o profeta Ezequiel (33:11, “A Bíblia para Todos”) – “Diz-lhes que, tão certo como eu ser o Deus da vida, lhes garanto que não tenho prazer em ver um transgressor morrer. O que eu gostaria era de o ver deixar de pecar e viver.”
Este, num registo extremamente sucinto, o conteúdo da promessa de Deus a Abraão a qual, a partir do momento da sua recepção e aceitação se transforma na herança que o patriarca lega a todos os seus descendentes.
Abraão teve vários filhos de diversas mulheres. Podemos classificá-los em quatro categorias, indicado pela ordem do seu aparecimento:
Os filhos da servidão, representados por Ismael, filho da escrava Agar;
Os filhos da promissão, simbolizados em Isaque, filho da amada esposa de Abraão, Sara;
Os filhos da solidão, consubstanciados nos filhos da concubina Quetura, após a morte de Sara que, sem dúvida, deixou no coração de Abraão um vazio difícil de preencher;
Os filhos da adopção, reflectidos em todos quantos, em todo o lugar, aceitam colocar-se em obediência ao Deus de Abraão, mesmo sabendo não terem qualquer direito de primogenitura, adopção essa que se obtém, segundo as Escrituras, apenas e só através do acto de amor de Cristo Jesus por todos nós quando se entregou no altar do Calvário a uma morte vicária, pela qual, pela pena do apóstolo Paulo, podemos agora aproximar-nos de Deus e chamar-Lhe Pai.
Cada um destes tipos de filhos representa um sector da humanidade com características próprias e todos em conjunto constituem a humanidade na sua totalidade. Todos eles são herdeiros da herança deixada por Abraão à sua posteridade. A herança é a mesma, mas a forma como ela é vivida, transmitida e em alguns casos imposta, depende da condição em que cada filho se insere, condicionando toda a sua cosmovisão, o seu estar-no-mundo, o seu estar-com-o-outro.
Os filhos da promissão assumem o seu estatuto de filhos legítimos e é-lhes tentador considerarem-se os únicos com direitos absolutos à herança, numa atitude e visão legalista da sua condição que os faz considerarem-se os eleitos entre os eleitos, a nata da nata da sapiência e da resistência. Um filho da promessa sabe que é filho e comporta-se como filho com uma atitude de temor reverencial para com o pai.
Os filhos da escravidão não conseguem eximir-se a uma mentalidade de fatalismo que a curto ou longo prazo os reduz a uma posição de subserviência, de inferioridade, de perseguidos pelos que se consideram senhores. Um filho de escrava nunca pode encarar o senhor como pai, mas sempre como senhor, como dominador, cuja vontade final é desconhecida do filho.
Os filhos da solidão não conseguem escapar à angústia do niilismo, ao desespero de quem encara e considera a vida sem sentido. Um filho da solidão considera-se sempre resultado de uma segunda opção em que a razão de viver não é o amor mas a necessidade. Um filho da solidão encara o pai como ausente ou não existente.
Os filhos da adopção sabem que são filhos não por direito de primogenitura, mas em resultado de um acto de amor, de entrega e de dedicação. O filho da adopção sabe que não merece o estatuto de que goza e que lhe foi outorgado por um acto voluntário de entrega a ele estranho. O filho da adopção conhece o sabor da gratidão e encara o pai como aquele que tudo fará para o salvaguardar.
Para além da herança comum, cada um destes grupos de filhos depende da palavra, reduzida a livro, que se torna repositório de toda a sua práxis e ethos. E essa palavra, que reflecte a condição do filho, perpetua não apenas a herança, mas a forma como cada um a encara, a vive e a transmite.
A herança, repetimos, é a mesma, mas a forma como a vivemos, a transmitimos e por ela nos inter-relacionamos depende da interiorização da nossa condição face ao pai de quem somos herdeiros. Essa condição condiciona a nossa cosmovisão, condiciona a forma como vemos o outro, condiciona o nosso modelo de sociedade, condiciona a nossa relação com o transcendente. Cabe a cada um de nós decidir qual o nosso estatuto de filho.

A TEOLOGIA DA CRUZ 2ª Parte

A TEOLOGIA DA CRUZ
2ª Parte
Dr. Jorge Pinheiro
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Temos falado até agora de uma das entidades, Deus, que, mais acima dizíamos ser importante e essencial abordar e analisar para contextualizar e perceber o alcance e profundidade da teologia da cruz. A outra entidade é o Homem, de quem era inevitável indicarmos algumas das suas características ao abordarmos a pessoa de Deus. À semelhança de Deus, o homem é um ser extremamente complexo. Embora com uma identidade e unidade estrutural, tanto física como mentalmente, é grande a sua diversidade tanto em sentido individual como grupal. De facto, podemos dizer que não há dois indivíduos rigorosamente iguais tal como também não há duas sociedades ou culturas idênticas entre si a cem por cento. E, no entanto, tanto a nível individual como grupal, vamos encontrar anseios e preocupações idênticas. Por outro lado, podemos dizer que o homem é tanto fruto do meio como o meio é fruto do homem. Ou seja, o homem não se limita a ser um agente passivo, mas influencia o meio ambiente em que vive, pelo qual também se deixa influenciar. Houve um filósofo que declarou que o homem é ele e a sua circunstância. Por todas essas razões, ao abordar o homem, temos sempre de levar em conta toda essa complexidade e não tentar aplicar a todo e cada um uma mesma fórmula como se de um robot ou uma máquina se tratasse. Vamos encontrar esta característica descrita nas páginas da Bíblia. Tanto os profetas como o próprio Jesus embora com uma mensagem e uma intervenção universalistas, isto é, destinadas a todos os homens sem excepção, abordaram o homem individual segundo a sua especificidade. Poderíamos resumir esta característica pela frase: cada homem é um homem, o que acaba por traduzir o velho lugar-comum da unidade na diversidade.
Apesar dessa complexidade e diferenciação individuais e grupais, o homem, tanto individual como colectivamente, é um indivíduo. Esta palavra – indivíduo – é interessante porque significa aquilo que é uno, não divisível. O facto de uma entidade ser composta por partes, por vezes distintas, não impede que seja considerada indivisível. De certo modo, é essa forçosamente a característica de um ser que se move na dimensão do relativo. E, no entanto, o facto de viver na dimensão do relativo não impede o homem-ser-complexo-relativo de, por assim dizer, ter a dimensão do absoluto despejada no seu íntimo. De facto, a tendência de superação, de procura do mais além, da busca do transcendente é algo que caracteriza o homem. Vemos todo esse trajecto ao longo da história da humanidade. O Génesis descreve de forma magnífica esta realidade, ao afirmar que, na criação do homem, Deus declarou ir criá-lo à Sua imagem, conforme a Sua semelhança (1).
O carácter de ser que se move na dimensão do relativo faz com que o homem, por natureza, seja incompleto e esteja dependente do seu exterior ou de algum outro ser para ser aquilo que é. O homem entra em diálogo com a sua exterioridade e é através desse diálogo que se vai construindo, numa procura incessante de superação. Dessa procura dá conta o salmista em diversas das suas composições em que refere que a sua alma descansa, confia ou espera em Deus (2), expressões que surgem com outro articulado como o refúgio, a habitação, as asas de Deus, de que o Salmo 23 é paradigmático ao declarar que nada lhe faltará no Senhor que o faz deitar (em sossego), o guia e o orienta (3). Esta realidade também não escapa à análise do autor da epístola aos Hebreus quando fala do repouso que o crente encontra em Deus (4). O repouso é também característica que vamos encontrar em Deus, conforme declara o Génesis, dizendo que, depois de ter criado o Universo, Deus repousou (5). E é interessante notar que esta ideia de repouso vai surgir no Budismo, embora com outro articulado, partindo de outros pressupostos e chegando por isso mesmo a um resultado diferente daquele que defende o monoteísmo cristão. Falamos do conceito de nirvana que, no Budismo, é o estado de completo repouso da consciência, em que o homem consegue por fim libertar-se de todo o ciclo do samsara, o fluxo incessante de renascimentos. Sem entrarmos na discussão deste conceito e/ou da sua comparação mais exaustiva com a teologia cristã, podemos salientar que, embora a procura do repouso tenha de partir sempre do homem, no Cristianismo esse repouso vem de cima, ou seja, é potenciado por Deus, enquanto no Budismo, vem de baixo, ou seja, é potenciado pelo homem, na medida em que, no Budismo, Deus está ausente por ser irrelevante. Ou, em termos mais técnicos, a proposta do Cristianismo vai da transcendência para a transcendência passando pela imanência, enquanto no Budismo é da imanência para a transcendência passando pela imanência.
Há, então, no homem algo de divino ou, melhor dizendo, de natureza divi-na, o que explica toda a sua tentativa de superação existencial, motivando-o a elevar-se acima dos limites estreitos do relativo. Dir-se-ia que a natureza absoluta de Deus está aprisionada numa redoma frágil e contingente e dela procura libertar-se. Nos vários diálogos travados entre Jesus e muitos dos Seus interlocutores, verificamos que embora com vivências e estruturas psico-espirituais distintas, todos eles escutaram as propostas que Ele lhes apresentava. O tipo de respostas poderia variar, mas todos quantos respondiam positivamente revelavam esse anseio mais ou menos patente pelo absoluto. Vejam-se os casos de Nicodemos e da samaritana, de Marta e Maria e dos discípulos (6). Até mesmo os que, como o mancebo de qualidade, consideravam excessivas as posições do mestre galileu (7) não se furtaram ao diálogo.
Do ponto de vista da teologia bíblica, a essa característica validada pela Bíblia, junta-se uma outra já referida e que vai balizar todo o relacionamento do homem com o absoluto de Deus – a sua condição de ser imerso no pecado. Há, naturalmente, várias definições de pecado, algumas nada consentâneas com a realidade bíblica e muitas delas em livre curso em muitas igrejas. Isso talvez se deva ao facto de a Bíblia não apresentar uma definição de pecado mas de se limitar a induzir a ideia de ele ser uma transgressão à vontade e aos estatutos de Deus, colocando assim o homem em rota de colisão com a divindade de quem se encontra distante por via desse mesmo pecado. Seja qual for a definição de pecado que as diversas comunidades cristãs possam apresentar, todas elas produzem um efeito comum – a transmissão da noção de culpa do homem pelo seu afastamento da vontade de Deus, que o leva a deixar de ter comunhão directa com a divindade. Por via do pecado, o homem vive um drama espiritual intenso – o seu íntimo, onde tem inscrita uma matriz de origem divina, que anseia pela comunhão com o seu Criador, o que lhe permite trazer descanso e sossego, sente-se cortado dessa mesma comunhão e tudo fará e faz para que essa brecha que se abriu na comunhão entre Deus e o homem seja ultrapassada com sucesso, segurança e certeza.
Este é o drama que vamos encontrar em todos os quadrantes e latitudes, em todos os tempos e locais de habitação do homem. Seja qual for o posicionamento em que o homem se coloque na sua relação com o divino, em todas as expressões de religiosidade encontramos esta necessidade de ultrapassar a ruptura entre o nosso mundo do relativo e o absoluto de Deus. Como atrás mencionámos, o sistema sacrificial do Antigo Testamento aponta o caminho da restauração – a oferta de uma vítima vicária inocente, sem mancha ou defeito, por via da qual o penitente pode finalmente entrar no descanso da divindade.
Ora, é sobre este pano de fundo que se movimenta toda a teologia da cruz. Nela foi oferecido o sacrifício de uma vítima pura, inocente e sem mancha ou defeito. E para reforçar a realidade de se tratar de uma expiação plena do pecado, o altar em que esta vítima foi oferecida foi uma cruz, instrumento de tortura dos mais atrozes e que, na teologia veterotestamentária, tornava maldito tudo quanto nela fosse colocada, conforme a reflexão de Paulo (8) sobre o texto de partida em Deuteronómio que declarava ser maldito todo aquele que fosse exposto no madeiro (9). Na brilhante exposição de Paulo aos Gálatas, epístola que juntamente com a de Hebreus deveria ser de leitura obrigatória para todo o cristão, aprendemos que aquela vítima (Jesus) que era inocente, pura e sem defeito, se fez maldição, entenda-se pecado, por todos quantos aceitarem esse sacrifício. Desse modo, em última instância, em termos teológicos, era o próprio pecado que estava a ser entregue a Deus para que Ele o afastasse e eliminasse do existir humano. Esse é o entendimento de Paulo, ao declarar que Cristo se fez pecado por nós (10), o que indica, como atrás dizemos, que a cruz estava a receber o pecado em toda a sua extensão e em toda a sua latitude. Ou seja, em Cristo, na cruz, o homem está a entregar aquilo que o afasta da comunhão com Deus. A cruz esvazia o pecado do existir humano, da alma humana que, assim, despojada daquilo que a impede de ter comunhão com Deus pode, através deste sacrifício, entrar livremente na presença de Deus, com a certeza de, enquanto permanecer à sombra do Calvário, não estar mais conspurcada pelo pecado. Depois de rememorar a acção, o carácter e a função do sacrificado Jesus, o autor da epístola aos Hebreus grita de triunfo que podemos agora chegar com confiança junto do trono da graça de Deus (11).
Há, assim, uma novidade no Cristianismo em relação ao Judaísmo – sem rejeitar toda a revelação anterior a Cristo, no Cristianismo há um sacrifício em tudo idêntico aos sacrifícios expiatórios veterotestamentários, mas em que o pecado morre com a própria vítima e em que a vítima acaba por ser ao mesmo tempo vítima e sumo sacerdote. Cristo surge então com esta dupla característica ou natureza – vítima sacrificial e sumo sacerdote. No AT o sumo sacerdote entrava uma vez por ano no Santo dos Santos a oferecer um sacrifício por todos os pecados confessados e não confessados, os declarados e os omitidos (12). En passant, é interessante notar que o sumo sacerdote tinha de se banhar num banho ritual para se purificar (13) antes de poder oficiar no Lugar Santíssimo. De igual modo, Jesus, como nosso sumo sacerdote também passou por este banho ritual purificador quando foi baptizado por João Baptista (14). O facto de Cristo ser em simultâneo vítima e sumo sacerdote é, só por isso, tema de um tratado de teologia. Limitemo-nos a apontar uma ideia-força. Agrupando em si essas duas características que teologicamente surgem como tendo natureza e função distintas, para não dizer opostas e até antagónicas, Jesus surge como o verdadeiro elo entre o Deus santo e o homem pecador. Como cordeiro sacrificial, assume não apenas a figura do homem em si, mas de tudo quanto ele tem de negativo, impeditivo de uma comunhão plena com Deus. Como sumo sacerdote, é o primeiro entre todos os sacerdotes, o que lhe confere singularidade. Na sua qualidade de sacerdote, a pessoa pura que surge como representante de Deus no acto sacrificial, Jesus une em si os dois pólos desta relação quebrada no jardim do Éden, garantindo assim ser não UM sacrifício, mas O sacrifício por excelência. E rematando todo este acto com selo de qualidade e garantia, o cordeiro em sacrifício é o cordeiro DE Deus.
Este sacrifício feito uma vez por todos dispensa qualquer acto da parte do penitente e do pecador visando por meio de um qualquer sacrifício de qualquer natureza obter da parte de Deus a graça de lhe ser permitido entrar na Sua presença. A cruz dispensa o pecador de, a cada pecado, apresentar um sacrifício redentor. Essa obrigação foi cumprida uma vez por todas por aquele que, sendo o Cordeiro de Deus, foi enviado por Deus para, por meio do Seu sacrifício, redimir por completo toda a raça humana. Por isso, a epístola aos Hebreus declara triunfalmente e sem sombra para dúvidas que este sacrifício singular é suficiente para, por toda a eternidade, santificar o pecador (15). Isso não significa, porém, que liberto dessa obrigação, o crente possa viver a seu bel-prazer, ignorando todos os estatutos que Deus coloca perante o homem e cujo cumprimento e observação são indispensáveis para que a comunhão com Deus não entre em ruptura. Agora, o cristão vive em novidade de vida (16), o que significa que deve apresentar no seu viver frutos de uma vida transformada e em consonância com o querer de Deus. E para que o cristão não diga que se sente incapaz de o conseguir, Deus, conforme promessa de Jesus, coloca no seu interior o Espírito Santo (17) permitindo-lhe assim produzir fruto agradável a Deus (18).
Por tudo quanto atrás dizemos, concluímos que todo o cristianismo, quer em termos colectivos, quer em termos individuais, tem de girar sempre e inescapavelmente, em torno do sacrifício de Cristo para que, por meio dessa acção, os seus membros possam ser beneficiários de toda a herança de que o sacrifício no Calvário os fez herdeiros. Reunião cristã que esteja arredia dessa verdade não passa de uma socialização de entretenimento. Cristianismo em que essa verdade esteja ausente nem caricatura é de cristianismo, mas a prostituição de todo o plano de Deus para a redenção da humanidade. Cristianismo em que os seus seguidores, sejam líderes, sejam leigos, se arroguem à reivindicação de alguma parcela de glória pela sua acção não passa de associação de malfeitores e ladrões.
A cruz representa, pois, salvação e salvação vinda de Deus sem o contributo humano. Por isso, é uma obra perfeita e absoluta, porque Deus, sendo perfeito e absoluto, coloca a Sua marca em toda a Sua obra. Mas é uma salvação ao mesmo tempo colectiva e universal mas também individual. Universal, na medida em que está acessível a todos sem excepção. Individual, porque cada um tem de assumir sozinho o compromisso de passar a ter comunhão com Deus, na medida em que Deus respeita a individualidade do homem, convidando-o a, face a face, decidir-se pelo caminho da reconciliação agora definitivamente franqueado. O Apocalipse retrata essa realidade de uma forma magistral e sublime (19).
No sacrifício há dor, a dor do animal que é morto. Jesus, como ser senciente, isto é, que sente, experimentou dor e dor atroz porque, como dizemos mais atrás, a cruz era instrumento de tortura dos mais atrozes, dos mais dolorosos. Sendo o Cordeiro de Deus, isso significa que Deus está presente na nossa dor e, através dela, podemos ver, embora nem sempre sentindo (20) que o Deus salvador está em nós (21), guiando-nos por aquilo que consideramos ser o nosso vale da sombra e da morte (22). Como diria Lutero, embora Deus oculto porque Ele é conhecido apenas porque se revelou, isto é, retirou o véu que O ocultava, Deus manifesta-se nas coisas visíveis. Embora sendo o Deus das Alturas, de que o cântico dos anjos aos pastores se faz eco (23), Deus mani-festa-se no mais profundo, como reconhece o salmista (24). Ele manifesta-se no mais profundo da nossa dor, da nossa ignomínia, da nossa insuficiência. E fá-lo através daquele que é Emanuel, a oferta sacrificial perfeita. E embora possamos sofrer em resultado da nossa decisão de seguir Cristo, isso não significa nem que iremos forçosamente sofrer nem que tenhamos de procurar o sofrimento para nos chegarmos a Deus em busca de redenção. Esta está já garantida uma vez por todas e não precisamos de procurar a dor e o sofrimento porque o Salvador levou já sobre si todas as nossas dores (25). Mas se a dor vier em consequência da nossa adesão a Cristo, por muito sofrimento que ela possa causar, só temos de recordar ao nosso coração e à nossa circunstância que do Alto vem o socorro (26), porque o Alto conheceu e experimentou a nossa baixeza.
Mas a cruz revela também o paradoxo do plano salvífico de Deus. Na cruz, aparentemente, não podemos ver Deus, tanto mais que, como referimos já, Jesus exclamou: “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste?” Ou seja, Deus está ausente, oculto da cruz. E, no entanto, é este Deus oculto que está presente em toda a extensão do sacrifício e do sofrimento de Cristo. Podemos avançar, em tentativa de explicação que Deus está, pelo menos aparentemente, ausente porque na cruz está não o Filho Unigénito, mas o pecado negro e hediondo. O que reforça o paradoxo porque, nessa linha de pensamento, o Deus santo passa pelo pecado, atravessa o pecado, mergulha no pecado para se chegar até ao pecador e resgatá-lo à sua condição de filho amado de Deus. O que faz com que Deus deixe de estar oculto DA cruz, para estar oculto NA cruz. Tal como Deus baixou do Alto à nossa profundeza, assim nós também, temos de subir ao alto através da nossa baixeza sabendo que em todo esse processo, em toda essa caminhada, no túnel escuro do pecado estamos resguardados por aquele que abriu um caminho seguro para o nosso ser.
Ainda citando Lutero, “a cruz põe à prova todas as coisas”. Ou seja, face a qualquer teoria ou doutrina de salvação de origem estritamente humana, a cruz manifesta-lhe as fragilidades e surge como o único e seguro caminho porque, como paradoxo de Deus, enfrenta os paradoxos do existir humano. Porque quando seguimos outro caminho que não o da cruz, estamos a dar primazia exclusiva ao intelecto e à vontade humana, remetendo para segundo plano a via segura de conhecer Deus através da revelação em que Ele próprio se empenha e compromete. Quando abraçamos a revelação de Deus, ela valoriza e potencia todas as faculdades humanas, incluindo a vontade e o intelecto. Ou seja, estes só podem pretender atingir o seu esplendor máximo quando andam de mãos dadas com a revelação da cruz, que é a revelação máxima de Deus ao homem e revelação final de Deus no tocante ao plano de salvação.
Por todas as razões atrás apresentadas e por outras que não abordámos, podemos concluir com Paulo, confessando e reconhecendo que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus mais forte do que os homens” (27). A Deus toda a glória.
(1) Génesis 1:26.
(2) Salmo 62:1
(3) Salmo 23.
(4) Hebreus 4:8,9.
(5) Génesis 2:1.
(6) João 3; 8; 11; 6:68.
(7) Marcos 10:17-22.
(8) Gálatas 3:13.
(9) Deuteronómio 21:23.
(10) 2 Coríntios 5:21.
(11) Hebreus 4:14-16.
(12) Levítico 16:29-34.
(13) Levítico 16:4.
(14) Mateus 4:13-17.
(15) Hebreus 10:12, 14.
(16) Romanos 6:4.
(17) João 16:13.
(18) Gálatas 5:22, 23.
(19) Apocalipse 3:20.
(20) Porque Cristo exclama na cruz sentir-se abandonado – Mateus 27:46.
(21) Porque Jesus é Emanuel, Deus connosco – Mateus 1:23.
(22) Salmo 23.
(23) Lucas 2:14.
(24) De profundis clamavi ad te Domine – Salmo 130:1.
(25) Isaías 53:4.
(26) Salmo 121:1.
(27) 1 Coríntios 1:25.

A TEOLOGIA DA CRUZ 1ª Parte

A TEOLOGIA DA CRUZ
1ª Parte
Dr. Jorge Pinheiro
Jorge Pinheiro
Falar da teologia da cruz implica ter de falar necessariamente de duas outras entidades para que este tema seja contextualizado e assim entendida a sua profundidade. Essas duas entidades são Deus e o Homem.
De facto, tendo em conta que, na visão cristã, a teologia da cruz é essencial, sendo o seu suporte e coluna mestre, ela só faz sentido tendo como pano de fundo não apenas essas duas entidades atrás referidas, mas a relação existente entre ambas, na medida em que a Cruz surge como o caminho que cimenta essa relação. Melhor ainda, a Cruz é o próprio cimento dessa relação.
Convenhamos que, em termos humanos, não é fácil falar de Deus. Como seres relatados estamos destinados a conhecer directamente apenas aquilo a que os nossos sentidos têm acesso. Essa, de resto, é a base de todo o conhecimento humano. É assim que se move toda a ciência. Qualquer ciência, seja ela física, humana ou formal, tem como objecto de estudo uma realidade ou ser acessível aos nossos sentidos e sobre o qual se podem realizar experiências, para comprovar a sua realidade e as conclusões a que se chegou do seu estudo. É verdade que cada ciência, de acordo com a sua natureza, segue métodos específicos que, em alguns casos, não permitem a experimentação directa (como é o caso das chamadas ciências humanas), mas todas elas têm como comum a necessidade de um objecto sensível de estudo.
Naturalmente, também, toda a ciência é, por princípio, incompleta, na medida em que não consegue esgotar o conhecimento pleno do seu objecto de estudo por se encontrar em permanente estado de evolução resultante da dialéctica estabelecida com esse objecto. Por isso, a cada momento se elaboram novas teorias baseadas em pressupostos, hipóteses ou descobertas entretanto adquiridos as quais muitas vezes contradizem ou melhoram uma perspectiva anterior. Sem nos aventurarmos na demonstração de que toda a ciência é influenciada pela ideologia do poder político, económico ou social em que se desenvolve, podemos afirmar que a ciência acaba sempre por estar em evolução não podendo por isso arrogar-se à palavra final do conhecimento, dada essa característica transitória. Mas também é verdade que na característica sincrónica do viver humano, as conquistas da ciência e o conhecimento que ela adquire surgem como absolutos porque, a quem vive sincronicamente falta a perspectiva diacrónica. Isto é, enquanto seres humanos só podemos estabelecer comparações factuais com o passado e apenas pressuposições, hipotéticas portanto, em relação ao futuro. Por isso, o momento (relativo) em que se vive tende a surgir para quem viva apenas sincronicamente como absoluto e adquirido. Salomão, ao reflectir sobre a existência humana e a sua contingência, declarava que tudo é vaidade (1), querendo com isso dizer que tudo neste mundo é transitório e não absoluto ou definitivo. Esta mesma ideia acaba por ser elaborada por João ao declarar que “o mundo passa” (2).
Ora, falar de Deus no pressuposto de Ele ser o objecto de estudo de uma ciência experimental é algo que surge como impossível, uma vez que, como Ser Absoluto, não sujeito às contingências e limitações do relativo, Deus não é directamente captável pelos sentidos humanos sob o risco de, sendo-o, deixar de ser Deus por perder a sua natureza absoluta. É que, enquanto o Absoluto pode abarcar o relativo, o relativo apenas pode tentar abarcar o relativo e, do Absoluto, ter somente um vislumbre hipotético.
Assim, toda e qualquer ideia que o homem possa ter de Deus será sempre aproximada porque lhe falta a capacidade de exercer algum tipo de controlo ou domínio sobre o seu objecto de estudo. No entanto, apesar das limitações que cercam a abordagem científica de Deus, há sempre alguns aspectos que se podem tomar como adquiridos. Naturalmente, entendendo Deus como ser absoluto, pode imaginar-se, por exemplo, que todos os Seus atributos sejam também absolutos. A partir daqui, no entanto, pouco mais se pode avançar, como seja o perfeito carácter de Deus e as Suas intenções. Neste aspecto, tudo quanto se possa elaborar a esse respeito terá de ficar pelo campo das hipóteses, uma vez que não há possibilidade de as confirmar ou infirmar. De resto, é a essa conclusão que chega Paulo, ao declarar: “Quem compreendeu o intento do Senhor?” (3), reflectindo a confissão de Job “Bem sei que tudo podes e nenhum dos Teus pensamentos pode ser impedido” (4).
Dada a natureza absoluta de Deus, ao homem, como ser relativo, faltam as qualidades e capacidades para O descrever e aos Seus atributos de forma rigorosa, pelo que toda a descrição ou referência a tudo quanto importa a Deus peca por defeito. Daí recorrer-se a uma abordagem antropomórfica do Ser Absoluto. Disso são reflexo as diversas expressões que o crente utiliza para se referir à protecção ou ao amor de Deus, para citar apenas duas das Suas características. Todos conhecem os cânticos “Segura na mão de Deus” e “Sob Suas asas refúgio eu tenho”. No mesmo andamento, é costume o crente referir-se ao trono ou à habitação de Deus. Sendo Deus absoluto e sendo o espaço e o tempo realidades do relativo, então Deus não está sujeito às limitações do relativo, razão pela qual, em bom rigor, é incorrecto falar-se de lugar em relação a Deus. Essa mesma metodologia antropomórfica vamos encontrar logo em Génesis quando, no seguimento da criação de Adão e Eva, o texto bíblico se refere a Deus a passear no jardim, pela viração do dia (5). Ou, ao referir-se à ira de Deus, encontramos por diversas vezes a expressão “arrependeu-se Deus” como no episódio do dilúvio (6). Os exemplos são inúmeros. É evidente que, em alguns dos exemplos citados, se pode dizer que o texto recorre a metáforas, mas mesmo sendo metáforas, elas surgem com um carácter antropomórfico.
Chegados a este ponto, poderemos, justamente, perguntar: “Então, é impossível conhecer Deus? É impossível saber como Ele de facto é e quais os Seus intentos e propósitos?”
Antes de responder a essa pergunta, é fundamental perceber que Deus, como ser inominável, não pode ser demonstrado. E ainda bem que assim é, porque no momento em que se demonstrasse física e cientificamente a Sua existência, Deus deixaria de ser Deus porque ao ser percebido pelo ser relativo que é o homem, perderia a Sua natureza e essência absolutas. Isto é, Deus passaria a caber e a pertencer ao domínio do relativo. É verdade que há inúmeras tentativas ou teorias de demonstração da existência de Deus e muitos afadigam-se por encontrar a demonstração perfeita e irrefutável. De igual modo, muitos crentes, por vezes de forma angustiosa, são impelidos a basear a sua fé em Deus numa prova científica ou filosófica demonstrativa cabal da Sua existência. Ora, a verdade é que todas as teorias de demonstração da existência de Deus podem ser refutadas o que levaria a uma conclusão – nenhuma teoria pode afirmar ou negar a existência de Deus. E porquê? Porque, rememorando o que atrás se diz, estamos a lidar com o ser absoluto e, como seres relativos, faltam-nos as competências e as ferramentas próprias para afirmar ou negar irrefutavelmente tudo quanto concerne a Deus. Este facto não nega nem impede, porém, que, quem creia em Deus, não possa ou não deva reflectir lógica e racionalmente sobre Deus e os Seus atributos. De resto, toda esta exposição é prova do que acabamos de afirmar.
A resposta à pergunta não é fácil de dar e depende dos pressupostos de que se parte. Dada a impossibilidade de se comprovar experimentalmente toda a declaração feita directamente ou em nome de Deus, como saber que uma dada mensagem considerada proveniente de Deus, veio de facto d’Ele? Seria sempre necessário partir da hipótese (indemonstrável) da Sua existência. É sempre com base nessa hipótese que qualquer reivindicação da origem divina de uma mensagem, de um acontecimento ou de uma realização tem de ser analisada. Essa é a posição do autor da epístola aos Hebreus ao declarar: “É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam” (7). E aqui entra um elemento indispensável, diríamos central e insubstituível, para a resposta à pergunta em apreço. Esse elemento é a fé, no sentido de convicção e confiança. A convicção é o esteio da certeza e esta vai-se alicerçando cada vez mais à medida que o crente se aproxima de toda a mensagem ou intervenção tida como proveniente de Deus, quer directamente quer por algum intermediário.
Esta convicção resulta da escolha em favor da existência quando a pessoa é confrontada com a impossibilidade da afirmação ou negação da existência de Deus. Quem opta pela não existência, embora de forma sincera e em busca das respostas últimas à existência, segue o seu caminho em diálogo constante com a sua contingência, buscando argumentos em favor da sua opção. Em última análise e instância, pode seguir nessa opção até ao final dos seus dias ou chegar à conclusão de que esgotou os argumentos em favor da não existência de Deus, só lhe restando testar a opção oposta e que até então rejeitara. Quem opta pela existência procura ver em cada declaração tida como proveniente de Deus não apenas a confirmação da sua opção mas a identificação com a sua hipótese de partida. Concluímos então que a fé na existência de Deus, fé no sentido de convicção, é fundamental para que o crente receba como fidedigna uma mensagem ou intervenção atribuída a Deus. Não é, pois, por acaso que a Palavra de Deus declara que o justo viverá pela fé (8). Repare-se na parte final deste último versículo (Hebreus 10:38): “se ele [o justo] recuar, a minha alma não tem prazer nele”. Ou seja, se a pessoa não tiver fé na existência de Deus, Deus deixa de existir para ela.
Posto o problema nestes termos, é forçoso olhar ao nosso redor e ver como se apresenta o universo teológico de todos quantos optaram pela hipótese da existência de Deus, sem descurar as objecções ou contra-argumentos de quem defende a não existência de Deus. Ou seja, devemos analisar as diversas propostas desse universo e fazê-las passar pelo crivo fino e exigente da sua congruência.
Nesse esforço, podemos classificar de diversas formas o universo teológico: politeísmo, panteísmo ou monoteísmo, teologias (ou religiões) reveladas ou naturais (não reveladas). Sem entrar em grandes pormenores, podemos centrar a atenção no monoteísmo revelado. Rapidamente as razões dessa preferência em detrimento das outras perspectivas são:
1) No caso do politeísmo está ausente necessariamente a figura de um Deus absoluto. Se os deuses são vários, então não são absolutos. Em última instância, o politeísmo e o naturalismo ou o animismo movem-se nos mesmos pressupostos porque os diversos deuses dos politeísmos acabam por ser a encarnação de forças naturais que os animistas reverenciam. De certo modo, o politeísmo é um animismo de grau elevado.
2) No caso dos panteísmos, esta perspectiva acaba por ser um meio-termo entre um politeísmo e um monoteísmo. Em última instância, o deus (ou deuses) dos panteísmos perde ou compartilha o seu carácter absoluto com quem é do domínio do relativo ou então o outro elemento, por norma a natureza, surge como absoluto. Num caso ou no outro, o deus dos panteísmos surge sempre como não absoluto ou, no mínimo, o que seria o mesmo, como um absoluto truncado ou bipartido.
3) No caso do monoteísmo, se Deus é uma pessoa, então é natural que Ele fale porque o verbo, a fala, a comunicação é o que caracteriza a pessoa. É verdade que nos monoteísmos podemos encontrar a figura de um Deus impessoal para quem o destino da criação é indiferente. É o caso dos diversos deísmos. Ora, parece-nos, salvo melhor opinião, que o deísmo é de grau inferior a qualquer teísmo porque toda a pessoa apresenta uma outra característica, a de criador interessado na sua criação. Sendo uma pessoa, o Deus dos monoteísmos tem necessariamente de ser criador e de estar interessado (e muitas vezes envolvido) na Sua criação.
Note-se que referimos monoteísmos e não apenas monoteísmo. De facto, encontramos vários monoteísmos tanto na actualidade como ao longo da história. Centrando-nos na actualidade, detectamos três monoteísmos, indicados pela sua ordem de aparecimento: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Há quem considere o Siquismo um monoteísmo, mas tendo nós reservas quanto a essa classificação, preferimos não o abordar. Ora, a existência dos três monoteísmos levanta várias interrogações: são variantes de um só monoteísmo ou estaremos na presença de três monoteísmos distintos e, em última análise antagónicos. Subjacente a estas interrogações, a interrogação maior: o deus dos três monoteísmos é o mesmo ou cada um apresenta um deus diferente?
Sem aprofundarmos a questão, podemos salientar que os três monoteísmos apresentam traços comuns tanto na concepção de quem Deus é como se reivindicam de uma herança comum. No entanto, a uma análise mais fina, verificamos que há uma maior proximidade entre Judaísmo e Cristianismo, o que significa que, dos três, o Islamismo é o que mais distinções e diferenciações apresenta. As semelhanças e proximidades entre Judaísmo e Cristianismo são tais que podemos dizer, sem entrar em erro, que o Cristianismo é uma releitura do Judaísmo. Por algum motivo se fala de uma civilização judaico-cristã. De facto, as Escrituras cristãs aceitam como revelação divina todo o Antigo Testamento que é lido e interpretado não apenas no seu contexto histórico mas também como palavra de Deus preparatória de uma revelação que é continuação do que fora revelado até ao aparecimento de Cristo. Jesus Cristo, personagem histórica que, na leitura cristã, surge como clímax de todas as promessas de redenção apresentadas no Antigo Testamento.
No monoteísmo revelado, é natural que se fale em revelação. De facto, sendo Deus um ser absoluto que escapa ao escrutínio de uma análise sensório-objectiva, exigência de qualquer ciência, só O podemos conhecer e ao Seu querer, carácter e planos para a criação, se Ele próprio se revelar. Das revelações tidas como provenientes de Deus, concluímos que a que apresenta Deus com todas as características expectáveis de um ser absoluto é a Bíblia Sagrada. Por isso, podemos afirmar que ela é sem sombra de dúvidas a única fidedigna. Qualquer característica que possamos atribuir merecidamente a Deus, vamos encontrá-la nas páginas da Bíblia. Deus único, omnipotente, pessoal, que é amor, justiça, rectidão, etc., tudo vamos encontrar na Bíblia. Um agnóstico ou um ateu que analise com imparcialidade o texto bíblico terá de confessar que tudo quanto poderia esperar de Deus está na Bíblia. Ou, dizendo de outro modo, que a elaboração judaico-cristã das características de Deus é final e absoluta. Se compararmos a Bíblia com o Alcorão, verificamos que tudo quanto este último possa dizer das características, da personalidade e dos planos de Deus para a Sua criação se encontram já expresso de forma directa ou indirecta, implícita ou explicitamente nas páginas da Bíblia. Nesse sentido, a um monoteísta crente na Bíblia, o Alcorão nada acrescenta às características de Deus que ele já não conheça, aprecie ou tenha experimentado ou descoberto.
Temos, então, uma revelação escrita onde o crente pode ir buscar todas as respostas para as suas inquietações humanas, em qualquer campo do seu envolvimento pessoal: espiritual, social, económico, político, etc. Por isso, é fundamental que o crente, o cristão neste caso, esteja familiarizado com a Bíblia Sagrada e dela faça a sua bússola na sua caminhada terrena.
Falamos de revelação. Ora, revelação implica, como vimos, palavra ou comunicação, característica fundamental de pessoa. Sendo Deus uma pessoa, então é natural que comunique pela palavra. E é curioso porque, como seres relativos que somos, necessitamos sempre de uma forma para perceber e entender a realidade. Damos formas às coisas através de outros objectos ou de símbolos verbais ou não. O homem dá assim uma forma a todos os seres, uma vez que só tem a capacidade de apreender a realidade através desse meio. Por isso, alguém designou o ser humano como o homem simbólico. Sendo Deus um ser, mesmo sendo o ser absoluto, é necessário ao homem dar-Lhe uma forma para O perceber e entender. Por isso, ao longo da história da humanidade, vemos o homem atribuir à divindade as mais diversas formas. Ora, Deus sabe dessa contingência humana e, por isso, tem de se apresentar sob uma forma ao homem para dele ser conhecido ou, melhor dizendo, ser começado a ser conhecido. Verificamos, porém, que tendencialmente o homem acaba por identificar a forma da representação da divindade com a própria divindade. Ao fazê-lo, na prática acaba por atribuir a glória que apenas a Deus pertence à forma que O representa. Ora, a Escritura é muito clara ao declarar “Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura (ou aos ídolos)” ( ). Por essa razão, a Bíblia é muito enfática ao declarar guerra aberta à adoração de ídolos, assumam eles a forma que assumirem. O Decálogo é disso prova exemplar: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( ). No entanto, devido à nossa contingência, continuamos a necessitar de uma forma que nos identifique Deus. O Deus da Bíblia sabendo disso encontra a solução, retratando-se através de uma das Suas características – Deus é um Deus loquans, um Deus que fala. Por isso, o nome de Deus, que é uma forma de O representar, é merecedor de todo o respeito e reverência. Por isso, de novo no Decálogo, vemos a proibição de invocar o nome do Senhor Deus em vão (9). E Deus é um Deus loquans porque a primeira acção que d’Ele temos registada não foi algo que Ele tenha feito. A Sua primeira acção foi a fala: “Disse Deus” (10). Deus é, então, Palavra. Não é por acaso que Jesus, que é a imagem visível do Deus invisível (11), é chamado o Verbo divino (12). Ou seja, tudo quanto queremos conhecer de Deus, vamos encontrar a resposta na mensagem e no ministério de Jesus.
Ainda quanto à forma de representação de Deus, há no Novo Testamento um texto curioso e paradigmático em relação a Jesus, que O declara como sendo em forma de Deus (13). É bom não esquecer que o autor desta afirmação é o estudioso e grande conhecedor das Escrituras hebraicas, o apóstolo Paulo, para quem colocar alguém a par de Deus Yavé era algo de impensável.
Como ser absoluto que é, todas as características de Deus são também absolutas. Seria tarefa quase impossível enumerá-las todas. Por isso, citaremos apenas algumas, tendo sempre em mente que elas também se encontram em Jesus, na medida em que, como vimos atrás, Ele é o verbo divino. Na verdade, todas as características e atributos de Deus podem ser condensadas numa única expressão: Deus é santo. Por isso, Isaías declara enfaticamente: “Santo, santo, santo é o Senhor” (14), expressão essa que é repetida na visão de João em Patmos (15). Tradicionalmente, define-se santo como algo de magnífico, de intocável, de inconspurcável, de transcendente. Sem negar a verdade dessas definições, podemos considerar um outro sinónimo: perfeito. E perfeito no seu sentido etimológico: algo que está completo, a que nada falta. Recordamos certamente a designação de ”capelas imperfeitas” no mosteiro da Batalha. Elas são imperfeitas não porque tenham algum defeito, mas porque simplesmente não foram concluídas. Ora, neste sentido de perfeito, Deus é santo porque n’Ele nada falta para que seja o que é, porque é o Ser Absoluto, logo, perfeito. Foi nessa qualidade que se revelou a Moisés quando este Lhe perguntou o seu nome. “Eu sou o que sou” foi a resposta (16). E repare-se que tal como Deus se revela no Antigo Testamento como aquilo que é (Justiça Nossa, dos Exércitos, Bom Pastor, etc.), Jesus também se identifica por aquilo que Ele é: o caminho, a verdade, a vida, a ressurreição, o bom pastor, a porta, etc. Isto mostra-nos que, como Seu seguidor, o cristão deve habitar no domínio do ser e não do ter. Somos o que somos não por aquilo que temos mas por aquilo que somos. Por isso, en passant, como crentes na acção do Paráclito, podemos dizer que os frutos do Espírito revelam o carácter, o ser, do crente em quem o Espírito Santo habita. Por isso, sem descurar os dons, o crente em Jesus deve estar mais preocupado em ser abundante nos frutos do Espírito Santo.
Sendo perfeito, então Deus é-o em tudo quanto diz respeito à Sua relação com o homem, Sua criação. E como o semelhante se aproxima do semelhante, não nos espanta a exigência feita através de Moisés “Sede santos, porque eu sou santo” (17) e que Pedro repete (18). Ora, sendo o homem pecador, estando por isso cortado da presença de Deus, é necessário que ele seja vivificado para prestar culto a Deus. Em todo o universo religioso, há a noção de que para o adorador ser aceite por Deus tem de se aproximar com uma oferta sacrificial que, por isso mesmo, passa a pertencer à divindade. Ora, o sacrifício máximo, a oferta última e derradeira, é a entrega da própria vida. Mas como ao dar a sua vida, o homem assume uma dupla morte, a espiritual e a física, fica impossibilitado de ter comunhão com o Criador que, através da recepção da sua oferta, se torna o seu Salvador. Por isso, o homem necessita da oferta de uma vida vicária. Nesse sentido, vemos que é em torno desta realidade que se move e se centra todo o sistema sacramental do Antigo Testamento. O sacrifício surge, então, não tanto para agradar a Deus, mas como caminho para a redenção do homem, da sua compra ao pecado que o afasta de Deus e da comunhão que pode e deve ter com o Criador.
No Antigo Testamento há toda uma elaboração do sistema sacrificial, com as suas exigências e consequências que não vamos reproduzir aqui. A compreensão do papel e do alcance de todo esse sistema sacrificial vicário vamos encontrá-la no magnífico estudo da epístola aos Hebreus que, sobre o pano de fundo desse sistema sacrificial, interpreta todo o ministério e acção auto-sacrificial de Jesus. Quem lê esse tratado aos Hebreus não pode ficar insensível não só face à profundidade desse estudo como também das consequências e alcance da obra daquele que João Baptista declara e confessa como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (18). Num judeu, esta expressão “Cordeiro de Deus” e a acção que dele resulta, a “extirpação do pecado do mundo” não são inocentes nem inócuas. O cordeiro era a vítima preferencial dos sacrifícios judaicos. Deveria ser apresentado sem mácula nem mancha (20) para o sacrifício cruento. Mas há aqui, nesta declaração de João Baptista, uma novidade: enquanto no AT o animal a sacrificar era do penitente (leitura objectiva), aqui, com Jesus, a oferta sacrificial é de Deus (leitura subjectiva). É verdade que também se pode interpretar no sentido de o cordeiro ser oferecido a Deus (como o era), sendo portanto “de Deus”, mas a leitura subjectiva está também correcta e, por isso, é perfeitamente aceitável e a mais correcta, como veremos a seguir. Mas a novidade continua porque, enquanto no AT o sacrifício era contínuo pois cada pecado exigia um novo sacrifício, agora com este Cordeiro de Deus, trata-se de uma oferta uma vez por todas, conforme a magnífica elaboração do estudo da epístola aos Hebreus 9 que conclui pela perfeição do sacrifício de Jesus Cristo. Ora, a perfeição é característica de Deus, o que significa que se o Cordeiro é de Deus, então esse Cordeiro é perfeito, é divino. Sendo o Cordeiro de Deus a pessoa de Jesus, a conclusão lógica é pela perfeição de Cristo que assume assim um carácter divino. Sendo o sacrifício do Cordeiro um sacrifício perfeito, isso significa que foi suficiente e bastante, na medida em que, enquanto no AT o sacrifício cobria o pecado, neste o sacrifício apaga o pecado.
A finalidade do sistema sacrificial no AT era conseguir que se restabelecesse a relação entre Deus perfeito e, logo santo, e o homem imperfeito, logo pecador. O Novo Testamento vai mais longe e declara que a finalidade do sacrifício do Cordeiro de Deus não se fica apenas pelo restabelecimento da relação entre Deus e o homem, mas proclama a transformação do homem de pecador perdido e desgarrado em filho de Deus (21). Deste modo, através de uma oferta do próprio Deus que se identifica com o Homem na sua qualidade de ofertante de um sacrifício, a justiça e a santidade de Deus encontram-se, encerrando nesse círculo todos quantos se identificam com esse sacrifício que o próprio Deus ofereceu.
(1) Eclesiastes 1:1
(2) 1 João 2:17
(3) Romanos 11:34; 1 Coríntios 2:16
(4) Job 42:2
(5) Génesis 3:8
(6) Génesis 6:6
(7) Hebreus 11:6
(8) Romanos 1:17; Hebreus 10:38.
(9) Isaías 42:8.
(10) Êxodo 20:3-5.
(11) Êxodo 20:7.
(12) Génesis 1:3.
(13) Colossenses 1:15.
(14) João 1:14.
(15) Filipenses 2:6.
(16) Isaías 6:3.
(17) Apocalipse 4:8.
(18) Êxodo 3:14.
(19) Levítico 11:44
(20) 1 Pedro 1:16
(21) João 1:29, 36.
(22) Levítico 1;3; 22:21.

Há culturas que são superiores a outras?

Há culturas que são superiores a outras?
2018julho21 Casamento Ana
Este é um tema escaldante nos dias de hoje. De forma acertada, no nosso entender, é enaltecida a diversidade cultural, mas, por outro lado, de modo demagógico, ignoram-se algumas práticas culturais que ofendem a dignidade humana e, o mais importante para nós, a ética judaico-cristã. É o caso do casamento imposto a crianças e adolescentes e a excisão genital feminina. Isto para dar dois exemplos dos quais o primeiro é silenciado pelas repercussões políticas e religiosas que implica, e o segundo é denunciado pontualmente porque não tem esses constrangimentos. Independentemente do que se possa responder à pergunta que nos serve de título, faz toda a diferença viver numa cultura antropófaga ou não!
Esta questão entronca também no fenómeno religioso do qual damos dois exemplos: o carma e as castas. Já parámos para pensar quais as consequências sociais e humanitárias de quem acredita que o sofrimento presente é uma forma de penitência para alcançar um estado superior, mais evoluído, na próxima reencarnação? O mesmo se pode dizer quando comparamos líderes religiosos em que uns usaram e subscreveram o uso da violência para imporem as suas ideias e outros que recusaram e se insurgiram contra o seu uso. A ideia prevalecente é que todas as religiões são iguais. Grosso modo estamos de acordo. Em muitos aspetos consideramos que existem diferenças entre as várias religiões que importa não ignorar. Ninguém está a sancionar com isso a guerra das religiões. Mas por que carga de água, dizemos nós, não seremos capazes de forma pacífica e respeitosa confrontar as nossas convicções. Não acreditamos no sincretismo religioso nem num ecumenismo tipo salada de frutas, embora percebamos que possivelmente para lá dos muitos que o defendem, um dia surgirá uma proposta que será aliciante o suficiente para arrastar as multidões e dar suporte a um governo de alcance mundial.
O mesmo se pode dizer sobre as várias concepções que existem de Deus. Existem pessoas que julgo sem a devida ponderação e investigação, afirmam que todas as concepções são iguais. O que estas pessoas pensariam se fossem deslocadas para uma geografia em que da ideia de Deus decorre a lapidação, as chicotadas em praça pública e até a amputação de membros. Dir-se-á que em todas as confissões religiosas se viveram momentos em que tais práticas foram usadas. É verdade! Mas isso não significa que a ideia de Deus no judaísmo, cristianismo e islamismo, para falar apenas no grupo monoteísta, seja igual. A situação torna-se ainda mais flagrante quando se junta o grupo politeísta do hinduísmo e a religião sem deus do budismo. Acreditar num Deus pessoal é totalmente distinto de um deus que não passa de uma energia.
Não existe nenhuma cultura que seja perfeita e isenta de pecado. O Homem é pecador e tudo o que é sua criação sofre da mesma doença. Todas as religiões enfermam igualmente do mesmo mal, porque toda a religião é criação humana.
A situação muda de figura quando nos focamos na pessoa de Jesus. O único sem pecado, o único absolutamente justo e santo, o único perfeito em todos os detalhes e pormenores, em todas as Suas ações, em todo o Seu ensino, em todo o Seu caráter e personalidade, em toda a Sua pessoa.
Eu sou cristão, seguidor de Jesus. Considero-O como Ele Se apresentou, enquanto Senhor e Salvador, e por isso, dirão alguns, estarei a “puxar a brasa à minha sardinha”. Proponho que cada um leia os Evangelhos onde a história de Jesus nos é apresentada. O que dizer dos mandamentos do amor, do perdão e do serviço que Jesus não apenas propôs, mas viveu integralmente? Claro que facilmente se cai para o outro lado dizendo que são utopias que não têm cabimento no mundo em que vivemos. Outros preferirão dizer que Jesus é um mito. Mas Ele está aí na História como O grande “influencier”, como hoje se diz. Jesus não apenas disse, mas viveu. Viveu e morreu por isso. E, como não podia deixar de ser, numa história com sentido, ressuscitou e venceu a morte. Jesus é, por isso, a evidência por excelência de que o Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo), na Sua essência de santidade, amor, graça e misericórdia, é o Deus único e verdadeiro. Deus é Deus, e a Sua Criação está sob o Seu domínio. Ele prevalecerá, e com Ele toda a Sua criação. “Ninguém pode chegar ao Pai sem ser através de mim.” (João 14:6, OL). A escolha é nossa! Eu decidi seguir Jesus!!!

Samuel R. Pinheiro
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