O “CONSOLADOR” NA VIAGEM DO PEREGRINO

O “CONSOLADOR” NA VIAGEM DO PEREGRINO

JTP22

© João Tomaz Parreira

Uma grande obra viva da imaginação, é assim que pode ser tratada a alegoria «O Peregrino» de João Bunyan, justamente considerado o maior ficcionista inglês do século XVII e que utilizou para a sua prosa um único modelo – a Bíblia, por isso lhe chamaram mais «Bispo Bunyan» que romancista.
Com tradição literária desde os poetas latinos a Dante, por exemplo, a alegoria tomou nesta obra-prima da literatura cristã do século XVII um lugar especial, de realismo quase moderno- como alguém escreveu-, o da realidade moral e espiritual da vida progressiva do cristão, do seu trajecto para a Cidade de Deus.
Estudos feitos sobre essa obra, no âmbito da história da literatura inglesa, dão conta de que se trata, com efeito, de «uma história realista, contemporânea e autêntica», não obstante a sua vasta formulação espiritual.
É nesse desenvolvimento do seu conteúdo espiritual que as principais personagens simbólicas de «O Peregrino» ganham o significado teológico que a Bíblia Sagrada lhes confere. Uma dessas personagens, por assim dizer, do romance alegórico de Bunyan, com o seu significado simbólico e a sua realidade bíblica, é, sem dúvida, o Intérprete. (Págs. 37-47, Edições NA, 1977)
Foi este tratado ao longo dos últimos três séculos por diversas entidades académicas e personalidades evangélicas como uma das figuras tipológicas mais influenciadoras do sucesso da viagem do Cristão, constituindo uma das etapas fundamentais da sua viagem sonhada, quando cheio de ânimo deveria parar na «residência do Intérprete» e ali «ouvir coisas muito úteis e excelentes». Por aproximação que deixa entrever através dos véus literários da sugestão, do mistério, da alegoria, e das citações bíblicas, a sua condição de guia, é tratado também como sendo a figura do Consolador.
Separando o simbólico do teológico, não é difícil entender qual é o papel neotestamentário do Espírito Santo na vida dos crentes.
Os detalhes existem no decorrer do diálogo entre o Intérprete e o Cristão. O trajecto cristão é feito de lutas mas de poder para vencer as mesmas. E esse poder só pode ser o poder do Pentecostes, do Consolador, do Guia que é, também na acepção do livro de Bunyan, a Terceira Pessoa da Trindade. Jesus Cristo ensinou que uma das funções do Espírito Santo é ser o intérprete e guia a toda a verdade, «porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão-de vir.» (1)
O pormenor de uma das falas do Intérprete, dirigindo-se ao Cristão, que flutua entre a esperança e o temor, é um bálsamo desta alegoria sobre a presença indispensável do Espírito Santo na nossa vida: «Parte, pois, e que te acompanhe o Consolador, sendo sempre teu guia até à cidade (celestial) » (pág. 47)
São importantes também para a pedagogia que Bunyan coloca objectivamente neste capítulo, os actos simbólicos encenados para ilustrar realidades espirituais.
A renovação pentecostal do crente («o azeite deitado no fogo por Cristo», pág.42), o perigo mortal da blasfémia contra o Espírito Santo, o não causar tristeza a essa Divina Pessoa, o Dia do Juízo Final ou uma referência ao novo filho pródigo, que é aquele que quer apenas os bens terrenos, actuais, e não se preocupa com as coisas mais excelentes, os bens futuros, celestiais. Indubitavelmente um retrato antecipado do homem «materialista religioso» pós-moderno.
Finalmente, nesse romance que o próprio autor certamente não chamaria assim, existe a honestidade de afirmar várias vezes que se trata de «um sonho».
«Em breve adormeci e tive um sonho». No início da obra, o escritor introduz o leitor num ambiente que, apesar de tudo, tem pouco de onírico e bastante realista.
A intenção de Bunyan não foi fazer uma nova doutrina sobre a carreira cristã, mas ao mesmo tempo que pregava, no seu livro, o Evangelho, foi estabelecendo com as vicissitudes pelas quais passou a personagem principal, passo a passo a caminhada da vitória. É com um sentimento de honestidade que a meio do livro (pág.97) reafirma- «Vi, então, no meu sonho ».
No fim do mesmo, torna a escrever «E nisto… acordei, e vi que tudo fora um sonho».
Com efeito, é uma meditação religiosa e ao mesmo tempo a narratividade da história realista do cristão, e hoje como há três séculos, o leitor avisado e crente sincero despe as alegorias da fantasia natural para as vestir com os trajes da realidade do quotidiano.
O cristão, filho de Deus, nascido de novo, na sua vivência diária, já não vive hoje na figuração da realidade através de alegorias, mas na realidade ela mesma de que foi chamado pelo Pai para «a comunhão de seu Filho Jesus Cristo», sabendo que se lhe aplica uma benção trinitária: a graça de Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo, com qual sempre terminamos nossas reuniões religiosas.
Embora não exista nenhuma igreja denominacional explícita em «O Peregrino», há, sim, um compromisso, para além de tudo o mais, do cristão que avança, vitorioso, mesmo confrontado com situações-limite até à cidade celestial. O cristão que, simultaneamente personagem e pessoa real, nesta história «conhecia e praticava a difícil arte de ser paciente na tribulação e de transformar os obstáculos em trampolim para o sucesso».(2)
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(1)-João 16, 13
(2)- João Bunyan, Ensaio Biogáfico, de Carlos Dubois, Juerp, 1968

“Bem-aventurada aquela que te concebeu e os seios que te amamentaram!”

“Bem-aventurada aquela que te concebeu e os seios que te amamentaram!”

SamuelPinheiro 2017abril11

Palavras de uma mulher dirigidas a Jesus, a respeito da sua mãe Maria.
Jesus de uma forma surpreendente, mas sem deixar de ser cortês e amável, alargou esta declaração e bem-aventurança a todos os que ouvem a palavra de Deus e a guardam: “Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11:27,28 – JFA).
Numa outra ocasião alguém avisa Jesus que Sua mãe e Seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. Jesus responde com uma pergunta e com uma declaração com o mesmo sentido: “Quem é minha mãe e meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Mateus 12:46-50 – JFA).
Numa das suas últimas conversas com os discípulos Jesus diz-lhes e a nós também: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando.” (João 15:14 – JFA). E o que é que Ele manda: “O meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.” (Mateus 15:12 – JFA). “Isto vos mando, que vos ameis uns aos outros.” (João 15:17 – JFA).
O mandamento síntese de toda a lei, e a essência da natureza divina na qual fomos formados à Sua imagem e semelhança e da qual nos apartámos em rebeldia que ainda hoje permanece e entra pelos olhos dentro, é o amor.
Não é o amor que nos salva. Mas é Deus que é amor, em Jesus Cristo – Deus entre nós também como Homem, que nos salva mediante a expressão suprema desse amor que é a Sua morte em nosso lugar na cruz. Nenhum outro morreu por nós ou podia sequer morrer. A nossa morte não poderia ser redentora porque todos, sem exceção, pecamos. Só Aquele que nunca pecou e em que o amor é uma constante absoluta e santa, sem qualquer contaminação, nos podia salvar e nos salvou. Em Jesus somos salvos para amar.
Um intérprete da lei interpelou Jesus acerca de qual é o grande mandamento da lei. A esta pertinente questão Jesus respondeu: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Diante desta resposta o teólogo que sabia muitíssimo menos do que Jesus, mas sabia o suficiente da lei para perceber que o Mestre estava certo, assumiu: “Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele; e que amar a Deus de todo o coração, de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo, excede a todos os holocaustos e sacrifícios.” Na narrativa deste evangelho a conversa acaba de um modo muito significativo mas não totalmente satisfatório. Jesus declara ao religioso: “Não estás longe do reino de Deus.” (Marcos 12:28-34 – JFA). Estava perto, mas não fazia parte. Conhecia a letra da lei, mas não conhecia o coração de Deus. O que faltava era determinante: o amor de Deus manifesto a Seu favor quando Jesus morresse na cruz também a Seu favor. Só Jesus nos pode salvar. Jesus na cruz é o holocausto e o sacrifício perfeitos e definitivos. Somos amados para poder amar de verdade e em verdade! Nada mais é preciso!
Se amamos a Deus desta forma cumpriremos os primeiros três mandamentos da lei: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura (…). Não as adorarás, nem lhes darás culto (…). Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão (…).” (Êxodo 20:1-7 – JFA). Se amamos o próximo como a nós mesmos cumpriremos os restantes sete mandamentos: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar (…). Honra a teu e a tua mãe (…). Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás (…).” (Êxodo 20:8-17 – JFA). Amando a Deus só a Ele adoraremos e louvaremos. Só a Ele teremos como Senhor e como Salvador. E esta é a parte decisiva para entrarmos no Seu reino: recebermos da Sua parte o perdão de todos os nossos pecados, porque todos ficamos aquém da Sua vontade e não temos como em nós próprios de regressar à condição com que fomos criados, e mais do que isso a sermos filhos de Deus. Tudo isso só é possível em e por JESUS CRISTO! Tudo isto para vivermos em amor como o nosso Criador e Pai.

Samuel R. Pinheiro
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NO EVANGELHO DE LUCAS, 24, 5-6 – POESIA E MEMÓRIA

NO EVANGELHO DE LUCAS, 24, 5-6 – POESIA E MEMÓRIA

JTP21
© João Tomaz Parreira

 

Why seek ye the living among the dead?
He is not here, but is risen – Estrutura de linguagem poética

Remember how he spake unto you when he was yet in Galilee, Saying, The Son of man must be delivered into the hands of sinful men, and be crucified, and the third day rise again. - Memória
(Versão King James):
Poesia e memória, seguindo os estudos  linguísticos de  Saussure e Hjelmslev no que concerne à poética,  é o que encontramos nesta afirmação cheia de significantes e de conteúdo da linguagem dos anjos,  tornada humana na sua discursividade. Porque segundo o Evangelho, o significado já não estava no sepulcro e assim só nos sobram as palavras.

Poesia e memória, isto é, uma estrutura poética na forma de se expressarem os seres angelicais no sepulcro vazio; e um avivar da memória das mulheres que foram, no domingo de manhã, ao túmulo onde puseram Jesus Cristo.
O modo expressivo como os “dois homens em traje resplandecente” falaram às mulheres, grafado sobretudo na estrutura linguística da versão inglesa da Bíblia King James, exibe uma linguagem poética com ritmo, com ideias, com acento poético, diríamos poesia pura. Sabemos desde o século XVIII, pelo menos, que o verso branco, falta de rima,  não significa que não é poema.

Why seek ye
The living among the dead
He is not here,
But is risen

Não há nestes “versos” nenhum esquema rimático, mas existe uma melopeia. Há uma métrica subliminar, também explícita, em que planam as palavras. Estão aqui, num tempo em que não havia fotos, toda a verdade, a história e o retrato completo da Ressurreição de Jesus Cristo.

A versão em português de A Bíblia para Todos (BPT), exara assim as palavras dos “dois homens, vestidos com roupas brilhantes”:

“ Por que procuram entre os mortos
aquele que está vivo?”

Dois versos de uma musicalidade de redondilha maior (no primeiro), secundado com a afirmação da história do Cristianismo no que concerne à Ressurreição.

“Não está aqui porque ressuscitou”, quase um decassílabo.

A memória, para além da poesia, insere-se na memorabilia que os anjos usaram para recordar às mulheres, que foram ao tumulo, as próprias palavras de Cristo.

“Não se lembram do que ele vos disse, quando ainda estava na Galileia, que é preciso que o Filho do Homem seja entregue ao poder dos maus, que seja pregado numa cruz e que ao terceiro dia ressuscite? Elas então lembraram-se daquelas palavras.” ©

A MARSELHESA DO PROTESTANTISMO

A MARSELHESA DO PROTESTANTISMO

© João Tomaz Parreira

JTP20Martinho Lutero, provavelmente antes de 1529, usou um processo linguístico a que chamaríamos linguagem figurada, no seu poema/hino “Castelo Forte” para designar Deus e a Sua actividade em relação aos crentes cristãos e fê-lo inserir na lírica religiosa do seu tempo. Com certeza compondo-o no seu saltério. Não se esperaria menos do doutor que renovou catecismos, cantos eclesiásticos, livros devocionais para falarem a língua do povo.
Podemos achar na leitura de “Castelo Forte” que existem hipérboles em demasia, mas a hyperbolê (no grego, “transporte para cima”), relacionando-a com a Divindade, não é um exagero.
“O Castelo Forte” é, se quisermos, um monólogo interior, cantável obviamente, hino congregacional, no qual tomamos consciência de nós próprios, de quão frágeis somos, e em que a alma humana se posiciona resguardada no Criador e louvando-O como fortaleza segura, ciente de que a sua força humana é débil sem Deus.
Há também, ao estilo da imagem medieval, o Cristo como guerreiro invencível, numa espécie de teomaquia (theomakhia, luta de deuses) alegórica para o ensino dos cristãos.
Existem no poema de Lutero várias combinações de signos, conforme com a actual semiologia, que, entrecruzando-se vão do temporal ao eterno, do humano ao divino. Longe de haver, de todo, uma materialização do divino (um castelo), digamos assim, entendemos melhor a fortaleza de Deus na qual o crente habita.  No alemão de Lutero é assim:
“Eine feste burg ist unser Gott,
Eine gute wehr und waffen”
“Castelo forte”, Deus como um refúgio inexpugnável, um lugar de tranquilidade onde se repousa porque há Quem lute por nós, daí a “espada e o bom escudo? Todavia estes versos apresentam também um referencial que nos incita a lutar, a não sermos passivos, escondidos em Deus mas de peito aberto na luta contra o Mal e o diabo.  Na versão em português:
“Se nos quisessem devorar Demónios não contados,
Não nos podiam assustar, nem somos derrotados”
Desde logo, a mais simples associação que o Reformador faz entre um castelo forte e o nosso Deus e a nossa luta sob o comando do Cristo Invencível, na linguagem alegórica medieval.
A motivação de Martinho foi a Fé, mas também a razão da História, da sua história de vida, em bom rigor, Lutero não descreve o Castelo, que poderia ser a imagem do castelo de Wartburg onde traduziu a Bíblia, ele exprime o Castelo, sobretudo Quem é e o que representa. É que na Poética a expressão é mais importante que a descrição, isto seguindo o ensino de Roland Barthes e Ferdinand Saussure.
Começando a leitura do texto poético “Castelo Forte”, podemos perceber que se trata também, e sobretudo, de um intertexto que parte de um Salmo. A intertextualidade com o salmo 46, de que se desconhece o autor, sabendo nós apenas que é um cântico dos Filhos de Coré, é evidente.  O poema luterano supõe outro poema, o salmo referido, e assim por diante poderia e pode ser objecto de estudo linguístico.
“Deus é o nosso refúgio e a nossa força;
é a nossa ajuda nos momentos de angústia.
Por isso, não temos medo,
Mesmo que a terra se ponha a tremer”
(Salmo 46, O Livro dos Salmos, tradução em português moderno)
Como poema pertence à lírica religiosa do Século XVI. Este e outros trabalhos de Martinho Lutero, escritos polémicos, colecções de poesia religiosa e, sobretudo, a tradução da Bíblia entre 1522 e 1534, são factores decisivos para a unidade da língua alemã, no plano cultural, social, literário e político. No plano religioso, o mais importante porque fundacional, foi a sua obra teológica que lutou e luta ainda contra a autoridade de Roma.  É o exemplo mais célebre da hínica religiosa luterana. Diz-se que depois se transformou na “Marselhesa do Protestantismo ou da Reforma”.
Com alguma reserva por causa da incerteza das datas, o poeta germânico Heinrich Heine (1797-1856), um autor devotado à Reforma, cristão luterano convertido do judaísmo, escreveu que o hino terá sido cantado por Lutero e seus companheiros quando entraram para a Dieta de Worms, em 1521.
Com certeza porque Lutero fora convocado para a Dieta de Worms pelo imperador Carlos V que havia ordenado a destruição dos escritos do reformador e pairava no ar a ameaça da fogueira para o “herege”. Ao édito do imperador, Lutero responde “visa atemorizar-me; mas Cristo está vivo, e eu irei a Worms, não obstante todas as portas do inferno”. Mesmo que se apoderassem da sua pessoa, como afirmou, “deixemos a cousa entregue a Deus. (…) Não fugirei, ainda menos revogarei, porque não poderei fazer uma cousa nem outra sem pôr em perigo a salvação de muitas almas”.
Como na letra do poema/hino “Castelo Forte”, Lutero escreveria “Ainda que fizessem uma fogueira que subisse até ao céu entre Wittemberga e Worms, eu iria lá… e confessaria Jesus Cristo” (“Lutero- Ensaio Biográfico”, Sinodal, 1969- 98-99).
De certo modo, por esta e outras razões históricas, este hino poderia ser facilmente transformado em passado, isto é, em história, se ao longo destes cinco séculos milhões e milhões de crentes cristãos evangélicos o não tivessem entoado, congregacionalmente, com fé e coragem. Deram-lhe outra dimensão, saiu da cronologia para viver na temporalidade, dentro do culto ao Eterno Deus, o “Castelo Forte” na criatividade inspirada de Martinho Lutero. ©

A PRIMEIRA DÚVIDA DA MULHER SAMARITANA

A PRIMEIRA DÚVIDA DA MULHER SAMARITANA

JTP19

A leitura superficial que fizermos, sem olhar a circunstâncias senão as da própria diegese (narrativa pura e simples), diz-nos que a primeira pergunta da mulher de Samaria junto ao poço de Jacob, foi por uma questão de espanto por uma linha divisória quebrada.
Contudo, com uma simples petição (dá-me de beber), Jesus  declarou que a separação entre os povos em geral, e judeus e samaritanos em particular, tinha os dias contados. A pergunta da Samaritana reflectiu inconscientemente o espanto desse sucesso, isto é, que uma parede estava derrubada onde o evangelho se faz presente (cf. Gl 3.28; Ef 2.14).
Todavia, a primeira dúvida da mulher, reveste-se de uma forma que carece uma análise hermenêutica mais profunda, teologicamente, mas também literária, do ponto de vista do que esconde a linguística, com o estilo da pergunta, com ironia e lógica, desconhecimento e espanto.
“Disse-lhe a mulher: “Nem sequer tens um balde (ἄντλημα) e o poço é fundo! Donde é que tiras a água viva?” ( Edição Comum BPT, 2015-555)
A SEMIÓTICA DA ÁGUA
O manancial arquetípico da água perpassa pela narrativa joanina, desde o princípio do capítulo 4 do Evangelho. Inicia-se com a tipologia e a semiótica para além do simples acto do baptismo (águas): “Jesus soube que os fariseus tinham ouvido dizer que ele(…) baptizava mais discípulos do que João”.
A água do poço de Jacob, acima do seu referencial histórico, era água de manancial, de acordo com o comentário da conhecida Bíblia de Jerusalém ( Desclee de Brouwer, NT, 1976-128), simbolizava a vida dada por Deus, de grande importância no Oriente.
Quando na literatura ocidental, o poeta T.S.Eliot (1888-1965) deixa escrita uma das grandes poéticas das primeiras décadas do século XX,  a obra “A Terra sem Vida”, como uma profecia da Europa que será um  “amontoado de pedras” nas décadas de 30 e 40, deixa o grito da necessidade da “água nascente”, “se houvesse água parávamos e bebíamos”, “se houvesse água e não rocha”, mas numa explícita referência  a Jeremias, 2,13, afirma que há “cisternas vazias” e “poços sem água”.

A DÚVIDA DA SAMARITANA RECOMPENSADA
Cristo revela a sua identidade, não apenas a uma mulher, mas a alguém samaritano.  A mulher, entre os judeus, não era senão um objeto pertencente ao marido, pertencia ao lote do seus imóveis, dos seus servos, numa posse legal que o Evangelho e as Cartas paulinas vieram abolir.
O pedido de Jesus, defendem exegetas e sociólogos da educação,  foi no sentido não apenas da sua necessidade fisiológica, mas tendo em vista o seu método para mover os ouvintes para revelarem atitudes e acções. Diz-se que usou métodos andragógicos (método de ensino para os adultos) em seu ministério de ensino e pregação: lições práticas (e referem João 4.1-42)  Aqui, Jesus Cristo utilizou a simbologia da “água” para ajudar a mulher a perceber o que é a “água viva”, teologicamente.
Na continuação da sua lição e auto-testemunho sobre a água, para além do seu sentido “líquido”, isto é, volúvel, transitório, efémero, Jesus indica usando uma alocução kerygmática ( como se pregasse): “Se tu conhecesses o que Deus tem para te dar, e quem é aquele que está a pedir água, tu lhe pedirias e ele dava-te água viva” (BPT).
A esta afirmação, a mulher samaritana responde com a lógica do que apenas vê,  dos limites da realidade, o que está diante dos seus olhos, existe mesmo ainda que velada, uma tentativa de ironizar, “nem sequer tens um balde” ou “donde é que tiras a água viva” (NT A Boa Nova Para Toda a Gente, Sociedade Bíblica, 1979)
A POÉTICA DA NARRATIVA
Rosanna Eleanor Leprohon, que foi poeta e novelista canadiana, escreveu um extenso poema nos finais do século XIX, que as águas de que Jesus falou continuam “puras e brilhantes”, “águas vivas que fluem”.  E referiu-se à samaritana como “Filha de Samaria” cujo testemunho perdura pelos séculos fora. Que devemos esquecer “pensamentos de orgulho terreno e vãs esperanças na ganancia do mundo, / Basta-nos beber uma vez dessa água, nunca tornaremos a ter sede”

© João Tomaz Parreira

O SILÊNCIO de Martin Scorsese

O SILÊNCIO

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                O silêncio de Deus só acontece até que abramos a nossa Bíblia. Quando abrimos a Bíblia o silêncio de Deus é interrompido. Deus fala-nos sempre que O ouvimos e Ele sempre nos fala pela Palavra que nos deixou. O filme “O SILÊNCIO” não é o silêncio de Deus mas da mordaça que o autor pretende colocar-Lhe tentando encontrar um ponto de apoio na narrativa do Getsémani quando o próprio Filho de Deus levanta a Sua voz diante do Pai e nenhuma resposta parece ouvir-se. Mas o silêncio é apenas aparente. Jesus esteve sempre com o Pai. Ele conhece como mais ninguém a Palavra que o Espírito Santo inspirou. Muitas vezes Ele a citou e explicou, muitas vezes identificou a Sua concretização na Sua própria pessoa. Jesus mesmo é chamado de a Palavra, o Logos divino, o Verbo. Jesus falou da Palavra como sendo a verdade. Jesus declarou aos religiosos que eles se equivocavam por desconheciam o poder e a Palavra de Deus, que buscavam estudar a Palavra e era ela que dava testemunho a Seu respeito.  Jesus declarou que os céus e a terra passariam mas as suas palavras não, atribuindo-lhes essência divina – palavra de Deus! Foi no seio da Trindade que o plano de resgate da humanidade foi determinado e decretado. A vontade do Pai e do Espírito Santo também era a Sua. O texto não mostra qualquer relutância, mas o reforço no momento decisivo que não havia outra opção para que fôssemos salvos. Falta-nos a perceção real da condição em que nos encontramos e o que Jesus tornou possível. Entre o céu e o inferno, o amor e o perdão, a santidade e a justiça, a misericórdia e a liberdade de uma natureza totalmente entretecida pela natureza divina em imagem e semelhança e como Seus filhos; e o inferno de ódio e rebeldia, onde não cabe um pingo de amor.

                A pergunta de Jesus no Getsémani há muito que tinha uma resposta. A pergunta é colocada mais por causa de nós, do que por Sua causa. Jesus sabe que não há um plano B. Mas nós não sabemos e temos muitas dúvidas. O nosso principal pecado, ou o pecado genético reside em julgarmos que a nossa situação não é assim tão grave que tenha exigido a morte expiatória do próprio Filho Deus. Embora não tenhamos sido nós que a exigimos nem o príncipe das potestades do mal – o próprio Diabo. É Deus quem requer que assim seja. A situação só podia ser resolvida daquela forma, precisamente no ponto absoluto e radicalmente oposto que gerou a nossa rebelião e morte. O Filho de Deus em amor absoluto e radical dá a Sua vida em obediência. A vida de Deus pelas vidas de todos os homens, para que os homens tenham de volta a vida de Deus.

                O autor impõe ao cristianismo retratado um silêncio profundo da palavra do próprio Cristo. Não se ouve a citação dos evangelhos, os ensinos de Jesus, as Suas palavras são silenciadas. A Reforma ainda não tinha trazido ao Japão a Palavra de Deus e os jesuítas haveriam de ser o braço da Contra-Reforma com os seus próprios inquisidores, tendo levado muitos ao martírio. O que encontramos no filme é um cristianismo em que sobressaem as práticas do batismo, da eucaristia e de alguns símbolos muito rudimentares. A abjuração da fé é demonstrada por pisar um baixo-relevo de pequenas dimensões com uma figura tosca crucificada que é colocado no chão, e numa outra ocasião por cuspir num crucifixo.

                Recuso qualquer leitura crítica ou qualquer juízo sobre a fé dos que morrem ou dos que renegam a fé. Só Deus conhece e sabe tudo a respeito do coração. Não sei sequer se o filme merece credibilidade do ponto de vista histórico do modo como a fé era vivida naquele tempo. Partindo do princípio que sim, a única coisa que posso adiantar é que a fé evangélica não é o que ali se apresenta na sua verdadeira essência. E não posso deixar de notar a ausência da Bíblia como a Palavra de Deus.

                O filme narra a viagem de dois padres portugueses, Rodrigues e Garrpe, ao Japão convictos de que não podia ser verdade que o seu professor e confessor tivesse renegado a fé como constava. Depois de um contacto com comunidades que viviam a sua fé de forma clandestina acabam às mãos dos homens do inquisidor. Este estrategicamente conduz a perseguição usando todos os meios para que os padres abandonem a fé, e alcança êxito fazendo-os assistir ao martírio dos que mesmo tendo já renunciado, só serão poupados se eles fizerem o mesmo. O padre Garrpe atirasse à água para morrer juntamente com um grupo que é morto por afogamento. E é Rodrigues que resistindo a todas as investidas é finalmente colocado diante do padre Ferreira, seu mentor. Aí este tenta convencer o seu discípulo a desistir com vários argumentos que hoje encaixam que nem uma luva na cultura pós-moderna. Afinal de contas cada um tem a sua forma de compreender e entender a Deus, o Cristo pelo qual morrem os cristãos é outro Cristo, até por Francisco Xavier levou-os a entender o Filho de Deus como o Sol que nasce todos os dias, ao contrário de Cristo que ressuscitou passado três. O inquisidor-mor também não lhe fica atrás defendendo que existe uma árvore para cada solo e outras subtilezas que põem em causa a existência da VERDADE e da grande comissão que Jesus deixou à Sua Igreja. A parte final adensasse num debate subtil e por vezes irónico, em que o relativismo e o pluralismo são dirimidos sob as sombras da intolerância, do terror, da tortura mais cruel. Não é muito notório um argumento que tem um certo peso e que consiste na ideia de que o que movia a chamada “evangelização” era mais um colonialismo cultural e económico, embora me parece que ele aparece de uma forma disfarçada e diluída na referência a Espanha, Portugal e Holanda, em que a Europa procura dominar aquelas paragens e daí retirar os seus lucros.

Como não poderia deixar de ser não podia faltar a esta tentativa de persuasão que acaba por parecer lograr êxito, a ideia de que Deus é o mesmo em todas as confissões religiosas, até mesmo quando uns defendem que Deus é a coisa criada e se confunde com a natureza (panteísmo) e os que afirmam com a Bíblia que Deus é uma pessoa em que a criação e o Criador nãos e confundem e do que Jesus é o expoente máximo e inultrapassável de evidência. Na verdade não é possível colocar tudo dentro do mesmo saco. Há uma diferença intransponível entre as conceções humanas de Deus e a revelação divina na pessoa de Jesus Cristo, e que está de forma sublime apresentada na Bíblia e o Espírito Santo torna real e vivida perante a nossa mente, coração e em nosso espírito.

Aparece igualmente ao longo do filme uma personagem que constantemente volta para se confessar, atormentado pelas seus constantes recuos quando os outros sofrem o martírio e a morte por crucificação dentro de água, até que com o subir da maré acabam por morrer afogados, os que são afogados amarrados numa esteira, os que são queimados vivos e, talvez o mais infame de todos os martírios os que são colocados de cabeça para baixo, pendurados pelos pés e com a cabeça dentro de um esgoto e aos quais fizeram um pequeno lenho na cabeça para que gota a gota de sangue se vão esvaindo. Já vi algumas exposições de meios de tortura, mesmo as que a inquisição perpetrada pela igreja dominante infligiu aos chamados apóstatas, à revelia do ensino bíblico; e sempre fico estupefacto pela crueldade da natureza humana mesmo quando advoga que o faz em nome de Deus, o que é de todas a maior blasfémia. No entanto ateus e agnósticos, não foram em muitos momentos da história menos sanguinários e sádicos.

Jesus de um modo muito claro sempre se opôs a esta inclinação malévola do uso da força, mesmo quando Ele, o Filho de Deus, o Criador na forma da criatura, estava em causa e sofreu como nenhum outro, porque o Seu sofrimento não foi apenas físico, mas espiritual ao tomar sobre Si a iniquidade de todos nós. Lembremos o ensino de Jesus no evangelho de Lucas: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem a expulsar espíritos maus em teu nome e proibimo-lo, porque não é dos nossos.” Mas Jesus corrigiu-os: ‘Não proíbam isso, porque quem não é contra nós é um dos nossos.’ Como já estava a chegar à altura em que havia de ser levado deste mundo, Jesus tomou a decisão de ir a Jerusalém. Mandou à frente alguns mensageiros e eles foram a uma aldeia dos samaritanos para prepararem a chegada de Jesus. Mas como os da aldeia perceberam que ele ia para Jerusalém, não o receberam. Então os discípulos Tiago e João, ao verem aquilo, disseram: ‘Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os destruir?’ Mas Jesus voltou-se para eles e repreendeu-os. E foram para outra aldeia.” (Lucas 9:49-56 – BPT). E como não podia deixar de ser o ensino de Jesus no chamado Sermão do Monte e que é de uma clareza total: “Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo e desprezarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos. Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.” (Mateus 5:43-48 – BPT).

Para quem conhece a Bíblia não é novidade que os seus nomes venham a ser mudados e sejam dados como maridos de mulheres cujos esposos morreram, adotando igualmente os seus filhos. Quando Rodrigues morre fica-se com a impressão de que terá sido a sua “companheira” que, sem verter uma lágrima, terá colocado um dos toscos crucifixos entre as suas mãos escondido, sendo que o corpo há-de ser queimado e as suas cinzas lançadas às aguas, para que nenhum dos seus membros venha a tornar-se uma relíquia e a ser venerado.

                Não tenho a certeza mas julgo que o mentor apóstata chega a afirmar que o próprio Cristo recuaria na Sua morte se soubesse que ela implicaria a morte dos Seus seguidores. Quanta ignorância a respeito das palavras de Jesus no próprio evangelho falando aos Seus discípulos acerca do que os esperava.

                Não concordamos com quem defende que “O filme de Scorsese dava um tratado teológico” (revista VISÃO, 19 janeiro 2017, p. 122) porque o filme desenvolve-se de costas voltadas para o texto de onde a teologia deve brotar. Esquecer a Bíblia é negar o cristianismo. Só existe fé cristã no solo sagrado da Escritura. É isto precisamente que a Reforma vem reivindicar a partir do próprio texto. É isto que a Contra-Reforma católica romana vem por meios igualmente violentos, colocar em causa. No ano de 2017 celebram-se os 500 anos da reforma protestante. Não é por acaso certamente que este filme agora surge. Mas a história é o que é. E a Bíblia hoje está traduzida amplamente e está disponível para que cada um possa ler e crer de forma consciente e não ignorante. Quem conhece o texto bíblico consegue rapidamente encontrar as diferenças entre a igreja neotestamentária, a igreja primitiva, a igreja dos primeiros anos, os que foram martirizados e o que encontramos em o SILÊNCIO.

                O filme é profundamente atual, porque hoje, por meios ainda mais subtis pretende-se diluir a fé cristã. Muitos dos que se apresentam enquanto tal manifestam uma profunda ignorância das palavras e dos ensinos de Jesus. Existem igrejas que se apresentam como evangélicas e, portanto, herdeiras do movimento da reforma e que superaram em muito a superstição, as tradições pagãs, o comércio das almas, o negócio da religião, o fausto dos líderes num escândalo grotesco, que suscitaram o movimento reformador. O magico-sacramentalismo chega a atingir foros verdadeiramente absurdos, chocantes e ridículos.

                500 anos depois da reforma precisamos levar a sério um dos seus lemas que consiste numa igreja reformada sempre em reforma, sempre vigilante para se pautar pelo ensino da Bíblia Sagrada. Hoje necessitamos de vincar as várias “solas” que a reforma enunciou de acordo com o texto bíblico – sola scriptura, sola gracia, sola fide, solo Cristo, Soli Deo Glória.

                Nos dias que correm de comodismo, apatia, indiferença, e sem chama e compromisso, é escandaloso que alguém esteja disposto a morrer pela sua fé, muito menos que morra por causa de crer em Deus, de reconhecer Jesus como único SENHOR e SALVADOR. Hoje é intolerável que se assuma que Jesus Cristo é único, singular e supremo. Mas na verdade é o próprio Jesus que o diz acerca de Si mesmo e outra coisa não pode ser se é efetivamente quem Ele diz que é – o EU SOU entre nós. Com tudo isto vai na enxurrada a condição humana decaída, o pecado e a corrução geral de toda a humanidade, a necessidade da morte de Jesus para expiação, redenção, justificação, resgate e reconciliação de todos os homens com Deus mediante o arrependimento e a conversão, para um nova vida. Só por Jesus a morte vale a pena, porque ela é vida e glória eternas. Não se procura o martírio, não se pode usar de linguagem desabrida ou de actos provocatórios, porque não foi assim que aprendemos de Jesus a fé. Hoje, como no passados, milhares de cristãos expõem as suas vidas por causa de Cristo única e exclusivamente. Não têm fitos políticos, nem de domínio cultural, muito menos de proveitos económicos. Apenas querem viver a sua fé na relação pessoal com JESUS, e terem a liberdade de O partilharem. Porque na verdade em Jesus temos vida eterna, relação pessoal com Deus, amor que se recebe e dá, e sem sombra de dúvida, este JESUS eu desperta em nós esta fé, conduz-nos a uma sociedade melhor. Aqui poderão existir momentos de perseguição, mas a glória porvir não é para comparar com os sofrimentos presentes. Oremos pelos são perseguidos, e saibamos nós aproveitar a liberdade não deixando que ela descaracterize ou dilua a nossa fé e compromisso com Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida – JESUS CRISTO!

 

                Fiquemos com algumas das palavras de Jesus no evangelho de Mateus:

                “Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem, por serem meus discípulos! Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederam.” (Mateus 5:10-12 – BPT).

 

                “Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, pois não serão vocês a falar, mas sim o espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.

                Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprio filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.

                Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.

“Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo acima do seu senhor. Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes hão-de chamar aos outros membros da família!”

                Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a lama no inferno. Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. Até os cabelos da vossa cabeça estão contados! Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.”

                “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.”

                “Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria família”.

                Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.”

(Mateus 10:16-39 – BPT)

 

                “Ai de vós, doutores da lei e fariseus fingidos! Constroem os túmulos dos profetas e fazem belos monumentos aos mártires, e declaram: ‘Se tivéssemos vivido nos tempos dos nossos antepassados, não os teríamos juntado a eles para matar os profetas!’ Desse modo confessam que são descendentes daqueles que assassinaram os profetas. Acabem então o que os vossos antepassados começaram!

                Serpentes! Raças de víboras! Como é que hão-de escapar à condenação do interno? Por isso eu vos mandarei profetas, sábios e mestres; mas vocês hão-de matar alguns e crucificar outros, espancar alguns nas sinagogas, perseguindo-os de cidade em cidade. Portanto,, é sobre vocês que há-de cair o castigo pela morte de todos os inocentes, desde Abel, o justo, até Zacarias, filho de Baraquias, que vocês assassinaram entre o tempo e o altar. Fiquem sabendo que é sobre esta geração que vai cair o castigo por tudo isto!”

                Jesus continuou: ‘Oh, Jerusalém, Jerusalém! Matas os profetas e apedrejas os mensageiros que Deus te envia! Quantas vezes eu quis juntar os teus habitantes como a galinha junta os pintainhos debaixo das asas! Mas tu não quiseste. Agora, a tua casa vai ficar abandonada! E digo-vos que não voltarão a ver-me até à altura em que disserem: ‘Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!’” (Mateus 23:29-38 – BPT) 

 

Samuel R. Pinheiro

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“Devoção mariana e (re)construção do feminino no Cristianismo”

“Devoção mariana e (re)construção do feminino no Cristianismo”

SamuelPinheiro _ 2016out23 7

O Instituto de Cristianismo Contemporâneo (ICC), que integra o centro de investigação da Área de Ciência das Religiões (Lusófona (CICMER) organizou a sua Linha de Investigação em sete Unidades de Investigação do qual uma delas é a que nos serve de título e que, sendo uma pessoa que se habituou a assumir posição pública sobre as suas convicções, não lhe posso passar ao lado, porque me provocou uma reflexão.
É com profundo reconhecimento pela sua influência na formação de gerações nas últimas décadas que lembro o saudoso teólogo evangélico John Stott e o Instituto de Cristianismo Contemporâneo que fundou em Inglaterra. Instituto que tinha por base não o subjetivismo opinativo de quem quer que seja, mas uma busca permanente e contínua no texto bíblico face às realidades do nosso quotidiano contemporâneo e que o texto inspirado trata de forma inultrapassável. John Stott foi um eximiu pensador e escritor e tenho um profundo apreço pela obra que nos deixou e que para mim tem sido de grande ajuda na carreira cristã. É que na verdade não há cristianismo fora das balizas da revelação escrita que é a Palavra de Deus, o resto pode ter o título que tiver mas andará por fora da essência do que é ser cristão. O cristianismo articulado em Jesus Cristo não pode prescindir ou secundarizar a Sua Palavra. O Cristianismo não é resultado do que eu queira criar, mas do que Ele é, da Sua vida e do Seu ensino. Isto mesmo ficou muito bem traduzido num dos seus muitos livro “Ouça o Espírito, Ouça o Mundo”. Ouvir a realidade que nos circunda é essencial para quem está comprometido com Cristo, mas sempre para responder a essas interpelações com a revelação do Espírito constante da Bíblia enquanto Palavra de Deus. Não reconheço outra forma de estabelecer um Instituto de Cristianismo Contemporâneo, e por muito que isso pareça retrógrado ou conservador, não consigo falar de cristianismos contemporâneos. Cristianismo só há um e tema ver com a pessoa de Jesus Cristo, por Ele próprio, nas narrativas dos que lidaram de perto com Ele desde o início e foram testemunhas da Sua ressurreição.
Considero logo à partida que o tema está eivado de uma inconciliável contradição, ou falamos de cristianismo ou falamos de marianismo. Os dois não podem existir em simultâneo. Cristo não está dividido. A devoção a Maria, ou melhor dizendo, a adoração de Maria, porque é disso que se trata, não pode coexistir biblicamente com Jesus Cristo. Isso é bem visível na nos evangelhos e em toda a restante literatura inspirada do Novo Testamento. Custa-me mesmo a acreditar como é que com honestidade se pode sugerir semelhante proposta face ao que encontramos no texto bíblico.
O marianismo é uma construção herética do catolicismo romano sem uma ponta de suporte no ensino e prática da igreja neotestamentária. Eu sei que isto pode parecer ofensivo e pouco tolerante para o pluralismo e relativismo religioso que impera. Mas a questão é qual o fundamento que temos para estabelecer o que é e o que não é a fé cristã. Nem tudo pode caber na fé cristã só porque queremos ser simpáticos. Isto não é uma questão de simpatia. Maria foi uma pessoa muito especial na graça divina para ser a mãe do Salvador. Mas daí a ser catapultada para o que o marianismo tem realizado vai uma distância que o evangelho não respalda, que o evangelho contraria e que, no meu entender, fere os próprios evangelhos na sua centralidade em Jesus Cristo.
Defendo que devido à influência negativa do catolicismo no sul da europa, não temos apreciado nem dado o devido relevo à pessoa de Maria como mulher piedosa, temente a Deus, disponível para que nela se realizassem os propósitos e desígnios divinos. Nesse aspeto e em outros ela é para nós um estímulo à nossa própria dependência de Deus. Agora isso é totalmente distinto do marianismo nem é compaginável com ele. Não se trata de um marianismo moderado face a um mais amplo. Não há qualquer laivo de marianismo no texto bíblico e isso deveria ser suficiente para quem aborda a questão.
Associar o marianismo ao feminino construído ou reconstruído é despropositado do nosso ponto de vista. O evangelho sempre valorizou a mulher. A escolha de Maria é um dos exemplos, mas não é o único. As mulheres apoiarem o ministério público de Jesus. Jesus ministrou às mulheres como aos homens. Foram as mulheres as primeiras a terem um encontro com Ele depois de ressuscitado, e as primeiras que se tornaram porta-vozes da Sua ressurreição. Na história da igreja relatada no livro de Atos, e a história ao longo de todos os tempos, as mulheres têm um papel que não pode ser subalternizado ou minimizado. Não negamos que existiu e continua a existir uma força de oposição a um papel mais destacado e interveniente das mulheres na liderança eclesial. Começo por considerar que a questão colocada em termos de títulos perde a sua pertinência face ao evangelho. Para Jesus o que importa é que todos sejamos servos e servas! A ideia de hierarquia com a figura do papa no topo, não corresponde ao que a Bíblia nos apresenta. Por isso a prescrição de cotas na organização eclesial é despropositada, porque para a nomenclatura bíblica, a igreja não é uma organização mas um organismo e como todos bem sabemos num corpo todos os órgãos são igualmente importantes independentemente do valor que lhe possamos atribuir.
Voltando à origem da nossa reflexão o marianismo não serve nem nunca serviu a (re)construção do feminino no cristianismo, mas a uma heresia que nega e se opõe ao verdadeiro cristianismo. A idolatria que subjaz ao marianismo é por si só suficiente para evidenciar a sua oposição à verdadeira fé cristã. Mas as doutrinas que lhe estão ligadas são uma afronta ao ensino bíblico: virgindade perpétua, maternidade divina, imaculada conceição, coredentora, intercessora e medianeira, assunção ao céu, rainha do céu.
O facto é que o catolicismo romano que está na origem do marianismo e da mariolatria, e de todas as doutrinas que lhe estão subjacentes, tem sido quem mais se tem oposto a uma participação e intervenção das mulheres de um modo mais pleno, ao contrário de um número muito significativo de igrejas reformadas, protestantes e evangélicas.
O feminino no cristianismo não vive em função de heresias, mas da sua natureza em Cristo que é tudo e em todos.

“Foram renovados de acordo com a imagem do próprio Deus e criados por ele para o conhecerem. Assim, não se voltará a pôr mais a questão de ser ou não ser judeu, de estar circuncidado ou não, de ser ou não civilizado, estrangeiro, escravo ou livre, pois Cristo é tudo e está em todos.” (Colossenses 3:10,11 – BPT)
“Pois pela fé que vos une a Jesus Cristo são todos filhos de Deus. Com efeito, todos os que foram baptizados em Cristo revestiram- se das qualidades de Cristo. Não há diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homem e mulher. Agora constituem um todo em união com Cristo Jesus. E se são descendência de Abraão e herdeiros de acordo com a promessa.” (Gálatas 3:26-29 – BTP)

 
Samuel R. Pinheiro
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EU CREIO QUE DEUS EXISTE

EU CREIO QUE DEUS EXISTE

Para mim não há como não crer em Deus diante de Jesus Cristo!

 SamuelPinheiro 6

                Poderia dizer que não posso deixar de acreditar que Deus existe diante do Universo, do sistema solar, do planeta Terra em que vivo; diante de um nascer ou pôr-do-sol, de um grão de areia ou de um átomo. Não posso deixar de crer em Deus diante de mim mesmo e dos meus semelhantes, de cada célula do meu corpo, do meu cérebro, do meu coração, dos meus olhos – de todo o meu corpo, da minha capacidade de pensar, de sentir, de escolher, de decidir. Podia e posso dizer que não posso deixar de crer que Deus existe perante o Livro dos livros – a Bíblia Sagrada!

                Mas tudo isso é pouco diante da pessoa incomparável, única, singular, exclusiva que é Jesus Cristo, e cuja História eu leio no Livro de Deus. Ele é o Verbo divino, o Logos, o Verbo encarnado, o Criador que tomou a forma humana.

                - O Seu nascimento é único no ventre de uma virgem por obra e graça do Espírito Santo, que aceita o veredito divino tendo certamente alguma consciência do que isso causar à sua reputação e do seu noivo. Jesus nasce num estábulo porque os pais não encontraram para ele lugar numa estalagem, embora estivessem preparados para encontrar o melhor lugar para o bebé que iria nascer. Magos vieram do Oriente porque viram a Sua estrela, quando os religiosos e a classe política em Jerusalém ignoravam o assunto. Pastores no campo foram alertados para o acontecimento e vieram adorá-lo.

                - A sua vida é absolutamente singular sempre voltada para abençoar todos os que Dele se aproximavam, provocando a mente e o coração dos que O interpelavam, desafiando cada um dos que a ele se dirigiam para uma nova vida de amor a Deus e ao próximo. Fazendo milagres mesmo quando não fora interpelado para tanto. A sua vida foi vivida na dimensão do poder de Deus e manifestando a Sua glória. Nada do que a desobediência, o pecado, as circunstâncias e as situações, tenham gerado, paralisava o Seu amor e o Seu poder. Tudo servia para que Deus fosse glorificado pela manifestação da Sua graça.

                - A Sua morte substitutiva, em que Deus na dimensão humana, assume sobre Si próprio toda a maldade, e nos alcança um perdão pleno. Difícil, senão mesmo impossível de entender pelas nossas mentes tacanhas e limitadas. Para nós o pecado é um simples e leve desvio de uma rota pouco definida. Mas para a Trindade é a negação da essência da natureza divina com que todas as coisas vieram a existir. Não havia plano B para Deus. O pecado só podia ser revertido, não com uma absolvição ou indulto que manteria tudo na mesma, mas por uma intervenção radical (nas raízes, no âmago do próprio problema). Deus estabelece que essa solução passa pela vinda do Seu Filho em carne pela Sua morte a nosso favor. Nós O matámos na nossa cegueira desobediente e rebelde, e tendo morrido de livre e espontânea vontade, mata a morte pela Sua morte ressuscitando de entre os mortos.

                - A Sua ressurreição que nos dá a certeza de uma vida eterna, de uma nova realidade, num corpo glorificado e sem mais lágrimas, morte, dor ou sofrimento. A vitória é-nos concedida para não vivermos mais à mercê do pecado. Já não temos que viver na agonia de tentar resolver a nossa condição por nós mesmos. A nossa riqueza ou a nossa pobreza não o podem almejar. É o próprio Deus que o realiza. Repugna-nos? Ofende-nos? Choca-nos? Deslumbra-nos? Ofusca-nos? Tudo pode acontecer! Mas está realizado e assumido, reivindicado e tacitamente determinado. Jesus morreu e ressuscitou. Nele recebemos a vida de Deus que permanece eternamente.

                - A Sua ascensão com a garantia de um novo paracleto, o Espírito Santo que estaria connosco e em nós. Voltou para o Pai de onde veio, mas enviou o Espírito Santo para viver dentro de nós. Agora podemos ser templo de Deus. Não é em santuários de pedra que Deus almeja fazer morada, mas em homens e mulheres de carne e osso. Pequenos, frágeis, vulneráveis, impotentes, sujeitos ao desgaste dos anos; ainda assim é nesses vasos de barro que Deus quer fazer a sua residência permanente.

                - A Sua promessa de segunda vinda e de uma nova era que incendeia a nossa esperança e não nos atola nas nossas incapacidades, impotências e não nos exclui de um envolvimento determinado, sem depender de nós em última instância.

                - A Sua influência na História como nenhum outro, ela não seria o que foi apesar de tudo o que carrega de violência, morte e destruição.

                - A perseguição voltada para Ele ainda hoje na pessoa dos Seus seguidores, e da Sua Igreja.

                - Os erros e as falhas, os crimes cometidos em Seu nome, mas que apenas ressaltam a Verdade da Sua Pessoa.

                - Dos Seus ensinos de uma forma de vida de acordo com a natureza do Criador, e demonstrada na Sua própria existência entre nós. Dando também a perceber que tudo isso só pode acontecer a partir de uma transformação de fundo, um novo nascimento, uma mudança que vai gradualmente expressando-se dando lugar ao Espírito e não à velha natureza, às estruturas do mal e às forças espirituais da maldade.

                - Da Sua vida inigualável, sempre em consonância com a vontade do Pai e do Espírito Santo.

                - Dos Seus relacionamentos acolhendo os que eram rejeitados, marginalizados, excluídos. Amando os que os religiosos consideravam que Deus nunca poderia amar e aceitar, muito menos conviver com eles. Por isso no momento da sua morte, quando expirava na cruz, o véu do templo que separava o lugar santo do lugar santíssimo, onde só o sumo-sacerdote uma vez por ano poderia entrar. Agora com ousadia podemos entrar na presença de Deus onde quer que nos encontremos, adorando-O em espírito e em verdade. O maior de todos os crimes que representa na essência o que o pecado é – o homem matando Deus feito Homem, o Justo, perfeito, completo, sem falhas… recebe da parte da Vítima inocente um pedido de perdão: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Neste perdão todos estamos incluídos. O pecado foi perdoado, os crimes foram perdoados. Só não somos perdoados se rejeitarmos o perdão. A nossa condenação não está na ausência de perdão, mas na nossa não aceitação. Porque a todos quanto O recebem, deu dá-lhes o poder de serem filhos de Deus aos que creem no Seu nome.

                - Da Sua absoluta e perfeita dependência do Pai no mover do Espírito Santo – confiança incondicional, e que é patenteado na Sua plena tranquilidade, paz e segurança.

                - Da Sua amizade com os marginais, samaritanos, pecadores e publicanos –a escória, os que eram tidos como o lixo da sociedade, os mal comportados.

                - Da Sua frontalidade perante os religiosos na sua hipocrisia e arrogância.

                - Do modo como lidou com toda a oposição, ofensa, maus tratos, provocação.

                - Das declarações estonteantes que fez a Seu próprio respeito e que em outro qualquer seria motivo de doença mental.

                - Dos milagres que preencheram a Sua vida mostrando que para Deus não existem impossibilidades, acalentando a fé na Sua pessoa na certeza de que ainda hoje acontecem, e como antecipação de um novo futuro em que o milagre estará sempre presente, porque os efeitos da maldade desaparecerão.

                - Da Sua excelência e perfeição ética e moral sem arrogância, sem em nada diminuir a Sua graça, misericórdia e amor incondicional.

                - Dos convites que nos dirigiu para o novo homem, uma nova vida, um novo nascimento, um novo começo, mudança e transformação.

                Não posso deixar de crer na existência de Deus e de crer nesse Deus que se deu a conhecer em Jesus Cristo, porque Nele e por Ele somos reconciliados com a natureza excelsa e gloriosa Dele mesmo e na qual fomos plasmados no início, quando o homem e a mulher foram criados.

                Se queremos saber que Deus existe escrutinemos a Sua vida.

Se queremos saber quem Deus é mantenhamos um relacionamento próximo com Ele na narrativa da Sua vida pelos evangelhos e no Espírito Santo que os inspirou.

Se queremos saber como Deus olha a dor e o sofrimento acompanhemos a Sua vida entre nós.

Se queremos saber como Deus age em relação a todos nós como pecadores que continuamente erramos o alvo da nossa vida, prestemos atenção à Sua relação e proximidade com o Pai, na plenitude do Espírito Santo.

Se queremos saber como podemos e devemos viver, mantenhamos a Sua vida continuamente diante de nós. Deus na forma humana viveu nas nossas condições a vontade expressa e definida pela Sua natureza, sem transigir, mas sem qualquer laivo de arrogância.

 

“Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (João 1:18 – BPT).

“Porque Deus está totalmente presente em Cristo, de forma corporal, e ele tornou-vos completos naquele que é a cabeça de todos os poderes e autoridades.” (Colossenses 2:9 – BPT).

“Até á vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, guarda sem defeito nem mancha o que te foi mandado. Na devida altura ele há-de aparecer pelo poder daquele que é bendito, o único soberano, o Senhor dos senhores. É ele o único que não morre. Ele vive rodeado de uma luz que ninguém consegue penetrar. Ninguém o viu nem poderá ver. A ele seja dada honra e poder para sempre. Ámen.” (I Timóteo 6:14-16 – BPT).

“Sem fé ninguém pode agradar a Deus. Quem se aproxima de Deus deve acreditar que ele existe e recompensa os que o procuram.” (Hebreus 11:6 – BPT).

 

 

Samuel R. Pinheiro

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a.C. – d.C.

a.C. – d.C.

SamuelPinheiro 5

 A História divide-se entre antes e depois de Cristo. Biblicamente podemos dizer que Cristo é a chave da História tanto no antes como no depois. O antes e o depois é definido pela presença em carne e osso, na forma humana, de Deus entre nós. Pode até acontecer que um dia um qualquer anticristo imponha que o tempo se conte de modo diferente. Nesta corrente de acontecimentos em que tudo o que afirme Jesus Cristo é considerado uma afronta para o relativismo e pluralismo religioso tudo pode acontecer, por mais louco e absurdo que possa parecer. Mas na eternidade, antes de todas as coisas existirem Jesus é a chave da História. Ou seja em Jesus temos Deus e o Homem na terra – 100% Deus e 100% Homem. Um mistério certamente, mas na natureza e na essência é isso que sucede. Não temos duas pessoas ou duas personalidades, mas uma só Pessoa e uma só Personalidade. Essa Pessoa e essa Personalidade é Deus connosco.
A realidade é que esta verdade no tempo é apenas o reflexo da verdade eterna. Tudo o que tem a ver com o plano divino e com o Seu mover na História, existe desde sempre na eternidade. Antes da fundação do mundo o Cordeiro de Deus – Jesus Cristo, foi destinado para morrer a nosso favor conforme nos informa o Espírito Santo pelo apóstolo Pedro na sua primeira carta: “Saibam que foram resgatados daquela vida inútil que tinham herdado dos antepassados. E não foi pelo preço de coisas que desaparecem, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como o de um cordeiro sem mancha nem defeito. Ele tinha sido destinado para isso, ainda antes da criação do mundo, e manifestou-se nestes últimos tempos para vosso bem. Por meio dele crêem em Deus, que o ressuscitou dos mortos, e o glorificou. E assim a vossa fé e esperança estão postas em Deus.” (1 Pedro 1:17-21 – BPT).
Na mesma linha de revelação o apóstolo Paulo fala a respeito de todos os que crêem em Jesus, e que segundo o eterno propósito divino foram escolhidos para uma nova vida segundo a Sua natureza de santidade e amor. “Pois, antes de o mundo existir, ele escolheu-nos para juntamente com Cristo sermos santos e irrepreensíveis e vivermos diante dele em amor. Ele destinou-nos para sermos seus filhos por meio de Cristo, conforme era seu desejo e vontade, para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.” (Efésios 1:4-6 – BPT).
O amor das três pessoas da Trindade será contemplado e usufruído na sua plenitude pela nova humanidade recriada em Jesus. Esse amor preenche de modo absoluto a eternidade no absoluto divino, e nós estamos vocacionados a contemplá-lo e a vivenciá-lo: “Pai! Que todos aqueles que me deste estejam onde eu estiver, para que possam contemplar a glória que me deste, porque tu amaste-me antes que o mundo fosse mundo.” (João 17:24 – BPT).
O nascimento de Jesus a que se refere o Natal, é o acontecimento na História do que desde antes da criação de todas as coisas Deus tinha determinado que haveria de ser. Deus não foi surpreendido pela decisão do homem de romper com uma vida e natureza em conformidade com a Sua natureza e essência. O homem preferiu a ciência do bem e do mal e ainda hoje se debate com toda a sorte de frutos amargos, envenenados e podres que daí decorrem. O homem foi criado para viver no amor divino, e não na dialética do bem e do mal.
Um dia destes o tempo como o conhecemos atualmente, marcado pela morte, sofrimento, dor, miséria, fome, guerras, violência, iniquidade, corrução e imoralidade, desaparecerá por completo, e um novo tempo cheio do que a eternidade divina representa será instaurado. Deus habitará com os homens e até os instrumentos de guerra serão transformados em utensílios de lavoura, a ovelha pastará com o leão e a criança brincará com a áspide. Nesse dia céu e terra serão uma mesma realidade.
O plano divino consiste em reunir tudo em submissão a Jesus Cristo. “Deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha determinado realizar por meio de Cristo. Esse plano consiste em levar o Universo à sua realização total, reunindo todas as coisas em submissão a Cristo, tanto nos Céus como na Terra. Foi também em Cristo que fomos escolhidos para sermos herdeiros do seu reino, destinados de acordo com o plano daquele que tudo opera conforme o propósito da sua vontade. Louvemos, portanto, a glória de Deus, nós que previamente já pusemos a nossa esperança em Cristo.” (Efésios 1:9-14 – BPT). Natal é Deus tornando-se parte da humanidade para a redimir e resgatar, trazendo-a de volta ao Seu amor. O amor triunfa radicalmente na vida e morte de Jesus, bem como na Sua segunda vinda para estabelecer novos céus e nova terra. Celebrar o Natal é celebrar esta vitória na nossa vida e na História!
Samuel R. Pinheiro
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O PRINCÍPIO DA NOITE DA TRAIÇÃO – PERSPECTIVAS

O PRINCÍPIO DA NOITE DA TRAIÇÃO – PERSPECTIVAS

JTP18
© João Tomaz Parreira

Da nomeação à representação icónica do traidor e da aceitação por parte deste de trair Cristo, os Evangelistas são comedidos em revelar explicitamente o nome de Judas. Só o Evangelho de Mateus, em discurso directo, nos informa que Jesus disse ao próprio que era ele, Judas, que o trairia, porque este lhe perguntou. “Porventura sou eu, Rabi?”, “ Tu o disseste.” – respondeu Jesus Cristo.
E cremos por todos os contextos dos sinópticos e do impar Evangelho joanino, que nenhum dos outros onze discípulos soube clara e explicitamente quem seria o traidor. É, todavia, João quem revela o mistério a João.
Visto de longe, isto é, perspectivando este acto dito fundacional que levou Jesus Cristo historicamente ao Calvário, baseando-nos nos quatro Evangelhos, permitimo-nos pensar o que estava a ocorrer naquele momento, psicológica e fisicamente, com palavras e olhares. Uma comoção, diríamos uma perturbação da alma colectiva que entristeceu o Cenáculo como uma preparação para a Morte.
Jesus Cristo quis muito aquela última Ceia com os discípulos. “ Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” – confidenciou-lhes o Mestre. A hora em si mesma já estava trespassada de tristeza. Comer sozinho seria experimentar ou sofrer uma solidão peculiar. A partilha de comida e bebida, por outro lado, chegava até ao mais íntimo da condição sócio-cultural daqueles dias.
O filósofo e crítico literário George Steiner (Paris, 1929-), a este propósito escreveu um célebre ensaio denominado “As duas Ceias” (Two Suppers), no qual compara a Última Ceia dos Evangelhos e “O Banquete” de Platão” sob a égide do Amor Ágape, que, segundo ele, está no conteúdo de ambas.
Aquele filósofo parece privilegiar na Última Ceia o que poderia ter sido Alegria e foi Tristeza, do ponto de vista humano, e não foi só por causa do anúncio do Mestre sobre “alguém” dos doze que o iria trair. Foi também pela Sua solidão, não obstante estar acompanhado. Na obra “O Leitor” narra uma parábola: numa remota vila da Polónia havia uma pequena sinagoga. Uma certa noite enquanto fazia a sua ronda, o Rabi entrou e viu Deus sentado a um canto escuro. Caiu por terra e gritou: “Senhor Deus o que fazes aqui?” O Senhor respondeu-lhe não com voz de trovão, nem num turbilhão de vento, mas com uma voz suave: “Estou cansado, Rabi, estou cansado até à morte”.
Do mesmo modo, aquela Última Ceia antecipava já a tristeza até à morte de Jesus no Getsémani.
“Um de vós me há-de trair”
Há uma questão simples que carece de respostas há dois milénios, para podermos entender o ambiente do Cenáculo.
Na arte pictórica interpretativa do momento do anúncio da traição, Leonardo da Vinci pôs ao nosso dispor a surpresa e a tristeza dos apóstolos, no mural “A Última Ceia”, sobretudo o choque que o rosto de Judas reflecte. Mas isso foi na Arte, na realidade andou por estes caminhos do espanto?
Partindo da chamada “harmonia dos Evangelhos”, da JFA revista e corrigida, percebemos que sim, mas pergunta-se:
1.Jesus falou em voz alta?
2. Só os que estavam perto de Jesus ouviram?
3. Ouviram o nome ou discerniram quem era o traidor?
4. Viram todos a quem Jesus deu o bocado de pão ensopado?
5. Todos tomaram atenção à saída de Judas depois disso?
Ficam as questões.
As respostas estão obviamente nos quatro Evangelhos, mas o mistério também. Mas é o chamado Evangelho Teológico, como era conhecido o de João logo nos inícios da era cristã, que reproduz toda a factualidade e o cerne psicológico da particularidade da ocasião.
Mateus e João desenvolvem na sua diegese o conflito interior pelo qual passaram os Doze. Ao descreverem esse conflito fazem com que o leitor o sinta, mesmo sem o auxílio, por exemplo, do melhor retrato já referido que é, sem dúvida, a tela de Leonardo da Vinci. Acerca desta pintura escreveu alguém que a mesma “não é tanto uma excelsa obra de arte. É igualmente uma minuciosa representação da resposta dos Doze às palavras de Jesus: “Um de vós me há-de trair”.
À luz da historiografia bíblica de hoje, dir-se-ia, com um pouco de exagero, que o acontecimento poderá levar-nos à política religiosa judaica de então e, assim, à religião, estando ambas em conflito. A traição e a necessidade de que assim começasse a acontecer profeticamente para a nossa Salvação.
“ E se alguém lhe disser: Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos.” (Zac XIII, 6)
E não só os cravos perfuraram as mãos do Filho de Deus, mas também a traição do amigo que lhe feriu a alma. Nunca se é traído senão pelos seus, costuma-se dizer. Quem sabe se não foi pela traição no Hamlet de Shakespeare que o dito se generalizou.  ©