VERDADE – breves considerações

VERDADE – breves considerações
Rafael da Mota Luz
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ÍNDICE
INTRODUÇÃO 1
I. VERDADE: O QUE É? 2
II. VERDADE ENQUANTO CONCEPÇÃO SECULAR 3
III. VERDADE À LUZ DA BÍBLIA 4
CONCLUSÃO 9
BIBLIOGRAFIA E WEBGRAFIA 10
INTRODUÇÃO
Prende-se este modesto trabalho com a consignação de uma breve compreensão acerca da verdade, sob um ponto de vista conceptual geral e especial, sendo, neste último caso, à luz da Bíblia Sagrada, ainda que em jeito de tentativa.
No âmbito do desenvolvimento da temática abordada, verifica-se uma grande concentração de valor e qualidade significativa sobre as afirmações de conhecimento sobre o conceito acerca do qual nos debruçamos doravante.
Neste sentido, é frequente observar como as questões levantadas acerca do que venha a ser a verdade, têm sido debatidas a diversos níveis, quer seja no âmbito de conversações mais informais, quer seja circunscrita aos meios académicos, político-parlamentos ou religiosos. Também é comum constatar a frequência com que tais conversações desembocam desde debates acalorados, às vias de facto, por conseguinte dividindo, segmentado ou, paradoxalmente, unindo diversas pessoas cuja identificação colectiva reporta às concepções fundamentalistas decorrentes dessas divisões.
No que cinge à religião, especialmente à luz do Cristianismo, tivemos a oportunidade de constatar que as questões relacionadas à verdade ganham maior dimensão, considerando as consequências de sua afirmação, as quais não comportam espaço à relativização.
Disso faz demandar uma pré-compreensão geral de que a verdade se insira no epicentro de uma temática relacionada às mais íntimas e profundas convicções das pessoas, a incorrer num despoletar de reacções viscerais e passionais, individuais ou colectivas.
Para o desenvolvimento da presente monografia, construímos um brevíssimo panorama sobre as definições mais consensuais sobre a verdade, seguindo em direcção a uma construção filosófica para, finalmente, chegarmos àquilo que cinge ao que diz a Bíblia sobre o tema, enquanto base Cristã de sustentação às suas afirmações.
Limitamo-nos à pesquisa bibliográfica diversa, designadamente à utilização de comentários bíblicos, dicionários comuns e bíblicos, enciclopédias, webgrafias e Bíblias com diferentes traduções (citando-se tão-somente uma breve referência à passagem e à sua localização no texto sagrado), cientes, contudo, da impossibilidade de se esgotar toda a temática abordada em tão poucas linhas.
I. VERDADE: O QUE É?
Em termos gramaticais, à luz do vernáculo definido para a Língua Portuguesa, «verdade» é uma expressão originariamente transportada do latim veritas [-tatis], classificada como substantivo feminino, cuja raiz etimológica reporta ao seguinte: (1) conformidade com o real; (2) conformidade da ideia com o objecto, do dito com o feito, do discurso com a realidade. ≠ ERRO, ILUSÃO, MENTIRA; (3) qualidade do que é verdadeiro. = EXACTIDÃO, REALIDADE; (4) Coisa certa e verdadeira. ≠ ILUSÃO, MENTIRA; (5) [Por extensão] Manifestação ou expressão do que se pensa ou do que se sente. = AUTENTICIDADE, BOA-FÉ, SINCERIDADE ≠ MENTIRA; (6) princípio certo. = AXIOMA; (7) [Belas-artes] Expressão fiel da natureza, de um modelo, etc..1
Segundo o saber de AFRÂNIO SILVA JARDIM2, em termos jurídicos, a verdade pode ser entendida amplamente sob duas égides: a da verdade real (processo penal) e a da verdade formal (processo civil). Como está evidente, a expressão «verdade real» acarreta uma grande redundância. Se não é real, não é verdade. Se é verdade, não pode deixar de ser real. Assim, esta expressão vem se opor ao princípio da «verdade formal», que vigora no processo civil, quando colocado em jogo direitos disponíveis, como é o caso do património.
Prossegue por pontuar que no processo civil, o juiz pode reputar como verdadeiros factos não provados, desde que não impugnados pela parte contrária. No processo penal, até mesmo a confissão do réu não dispensa a existência das demais provas. Mesmo os factos incontroversos são objecto de prova no processo penal, uma vez que se está a falar de direitos indisponíveis, como é o caso da liberdade.
Conclui o autor, por ponderar:
Por outro lado, quando o princípio em estudo se refere à verdade, dispara uma enxurrada de críticas de toda a ordem. Seja no plano filosófico, na teoria do conhecimento, seja no plano das chamadas ciências exactas, vários estudos sérios questionam o que seja verdade, questionam a impossibilidade de o ser humano a ela consiga chegar, seja pela razão, seja pelos nossos sentidos.3
Mas, a verdade, o que é afinal?
II. VERDADE ENQUANTO CONCEPÇÃO SECULAR
NICOLA ABBAGNAMO busca uma ideia de separação do pensamento socrático acerca da verdade da concepção religiosa Cristã, devido ao entendimento de que, contrariamente ao que sustenta a religião, baseado essencialmente na revelação divina, um saber que seja ou que pretenda ser, não pode ser revelado pela divindade, posto que, aquilo que a divindade ordena é o empenho da investigação e o esforço aplicado à justiça, ou seja, aquilo que ela garante é que, para o homem honesto, não existe mal nem na vida nem na morte4. Assim, segundo Sócrates, tanto a verdade quanto a virtude são atributos de valor realizável fora da religião, pelo que devem ser objecto de busca e realização pessoal e individual pelo homem5.
Reporta o autor ainda ao entendimento vertido por DESCARTES no que respeita ao processo da descoberta da verdade. Prossegue por percorrer uma via metódica, sistematizada e segura, onde o conjunto de regras certas e fáceis que, por quem quer que sejam exactamente observadas, lhe tornam impossível tomar o falso pelo verdadeiro e, sem nenhum esforço omental inútil, antes aumentando sempre gradualmente a ciência, conduzindo-o ao conhecimento de tudo o que será capaz de conhecer, referindo, ainda, as modalidades ou particularidades da sua aplicação, reduzindo o sucesso do processo à consecução de quatro regras fundamentais6: (1) evidência: “jamais aceitar alguma coisa por verdadeira se não reconhecêssemos evidentemente como tal.” (2) análise: “dividir cada uma das dificuldades a examinar no maior número de partes possíveis e necessárias para melhor as resolver.” (3) síntese: “conduzir os meus pensamentos por ordem, começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de se conhecer, para pouco a pouco me elevar, como por graus, até aos conhecimentos mais complexos.” e (4) enumeração: “fazer sempre enumerações tão completas e revisões tão gerais que se fique certo de não omitir nenhuma.”.
Segundo a linha desenvolvida por DESCARTES, em seu método mediante a consideração do processo matemático7:
As longas cadeias de raciocínios tão simples e fáceis, de que os geómetras costumam servir-se para chegar às suas mais difíceis demonstrações, proporcionaram-me o ensejo de imaginar de que todas as coisas de que o homem pode ter conhecimento se seguem do mesmo modo e que, desde que se abstenha de aceitar por verdadeira uma coisa que não o seja e que respeite sempre a ordem necessária para deduzir uma coisa da outra, nada haverá tão distante que não se chegue a alcançar por fim nem tão oculto que não se possa descobrir.
COLIN BROWN, por sua vez, refere na sua obra8 o pensamento de KIERKEGAARD, acerca da verdade, como objecto de discussão sob o título de subjectividade, consubstanciando um termo frequentemente empregado para contrastar com a abordagem objectiva. Neste sentido, defende “a dialética de como se tornar um cristão”, passando pela ideia de imortalidade defendida por SÓCRATES, a qual segue, bem como do modo de vida à altura das provas desse ideal, dando importância ao que chama “escolha subjectiva, o salto da fé, o comprometimento com o absurdo”. Conclui por optar não viver com base na verdade cristã baseada e sustentada na fé.
III – VERDADE À LUZ DA BÍBLIA
No desenvolvimento de F. F. BRUCE, o substantivo verdade é coordenado9 no sentido de identificar Jesus como a verdade de Deus, i. é, a corporificação da auto-revelação de Deus, o verdadeiro Deus em quem se deve crer, aquele por meio de quem não se caminha para a vida fora da verdade, enfim, a verdade absoluta.
Com efeito, a questão colocada por Pôncio Pilatos envolvendo a “verdade” é intrigante10.
Refere o autor que o questionamento de Pilatos se insere numa temática que foge à competência da lei e do Direito romano. Disso resulta a compreensão pela qual aquele agente da autoridade romana interrompera de forma abrupta o interrogatório dirigido sobre a pessoa de Jesus aquando da sua prisão e audiência decorrente11.
Prossegue, ao contextualizar-nos àquele insólito episódio, que a questão da eternidade ou da verdade eterna, ali abordada, eram matérias sobre as quais efectivamente fugiam ao domínio de Pilatos. Entretanto, elucida-nos da sua conclusão que qualquer coisa que Jesus tivesse dito ou feito, não seriam suficientes para constituir acusação formal de que consubstanciaria de facto sobre ele alguma ameaça à autoridade imperial.
Conclui deixando-nos a seguinte reflexão:
Pode ser que as palavras de Jesus não tenham provocado grande efeito sobre Pilatos, mas João espera e crê que muitos dos seus leitores as levarão a sério, vindo a conhecer aquele que não é somente “uma testemunha da verdade” mas a verdade em pessoa – a verdade que põe as pessoas em liberdade.
Atendo-nos ao sentido bíblico em questão, verificamos que12: (1) Deus é o Deus da verdade, (2) Cristo é a verdade, (3) Cristo era cheio da verdade, (4) Cristo falou a verdade, (5) o Espírito Santo é Espírito de verdade, (6) o Espírito Santo guia em toda a verdade, (7) a Palavra de Deus é a verdade, (8) Deus a considera, com favor e (9) os julgamentos de Deus são de acordo com ela.
Relativamente às pessoas, em sentido amplo, compreende-se que os que falam a verdade exibem honestidade enquanto qualidade, razão pela qual alegram a Deus e em consequência disso, serão firmados13.
No que se refere a um grupo específico de pessoas distintas entre si, designados “santos”14, “ministros”15 e “ímpios”16, a verdade pode ser compreendida, enquanto aos dois primeiros, sob a perspectiva de um conjunto de exigências ou deveres, enquanto ao último, às implicações da sua não observância e as consequências daí decorrentes. Vejamos:
a) Os santos devem17: (1) adorar a Deus em verdade, (2) servir a Deus em verdade, (3) caminhar diante de Deus em verdade, (4) manter as celebrações religiosas com verdade, (5) considerá-la inestimável, (6) alegrar-se nela, (7) falar uns com os outros em verdade, (8) meditar nela, (9) escrevê-la em seus corações, (10) Deus a deseja nos corações e (11) o fruto do Espírito é verdade.
b) Os ministros devem18: (1) falar a verdade, (2) ensinar a verdade, (3) ser aprovados por ela, (4) os magistrados devem ser homens da verdade, (5) os reis são preservados por ela.
c) Os ímpios19: (1) são destituídos da verdade, (2) não falam a verdade, (3) não confirmam a verdade, (4) não pleiteiam a verdade, (5) não são corajosos pela verdade, (6) são castigados por falta de verdade.
ORLANDO BOYER20 elenca os Oito «Eu Sou» do Evangelho de João, referindo-se aos aspectos identitários de Cristo, afirmados pelo próprio: (1) Eu sou o Pão da vida, 6:35 (2) Eu sou a Luz do mundo, 8:12 (3) Eu sou a Porta, 10:9 (4) Eu sou o bom Pastor, 10:14 (5) Sou Filho de Deus, 10:36 (6) Eu sou a Ressurreição e a Vida, 11:25 (7) Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, 14:6 (8) Eu sou a Videira verdadeira, 15:1.
Dentre os aspectos atrás descritos, encontramos a especificação «a verdade» – e não só: a verdade que liberta, a partir do seu conhecimento. A este propósito refere o autor que a opressão espiritual é pior do que a escravatura nacional e que a libertação do pecado mais importante que a de qualquer cruel ditador21.
Portanto, a verdade, no contexto bíblico, é também apresentada como uma das identidades de Cristo ou de como ele se apresenta e se identifica.
 CONCLUSÃO
Chegamos à altura de fecharmos a nossa pesquisa, embora não exaustiva, estritamente bibliográfica, acerca da «verdade» sob o ponto de vista conceptual geral ao especial, no sentido bíblico, assente em três pontos: um conceito, um desenvolvimento geral e um específico.
A percepção global que tivemos fora de que a definição do que seja ou venha a ser «a verdade» abrange uma enorme carga significativa de conteúdo que, infelizmente, não tivemos a oportunidade de gravar nestas poucas linhas, restringindo-nos tão-somente, a um breve panorama desta relevante ideia.
Contudo, observamos que o conceito em questão, conforme sentido e essência da especialidade ora perseguida – Jesus Cristo, A Verdade -, consiste numa das identidades de Cristo ou de como ele próprio se apresenta e se identifica, ao passo em que a sua assumpção, por parte de todo aquele que nele crê, continua a resultar em influência e em transformação de suas vidas, bem como de governos e nações até os dias de hoje.
NOTAS
  DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO NOVA FRONTEIRA DA LÍNGUA PORTUGUESA / ANTÔNIO GERALDO DA CUNHA; assistentes: CLÁUDIO MELLO SOBRINHO… [et. al.]. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, p. 816; “Verdade”, in DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/verdade [consultado em 17-06-2019].
2 AFRÂNIO SILVA JARDIM, O Princípio Da Verdade Real No Processo Penal: Uma Explicação Necessária. https://emporiododireito.com.br/leitura/o-principio-da-verdade-real-no-processo-penal-uma-explicacao-necessaria [em linha], 24/07/2018 [consultado em 17-06-2019].
3 Ibidem, op. cit..
4 NICOLA ABBAGNAMO, História da Filosofia / tradução: ANTÓNIO BORGES COELHO, FRANCISCO DE SOUSA E MANUEL PATRÍCIO, 3.ª Ed., Vol. I, Editorial Presença, Lisboa: 1992, pp. 105, 106, apud, SÓCRATES.
5 Ibidem, cit., p. 106.
6 NICOLA ABBAGNAMO, História da Filosofia / tradução: ANTÓNIO RAMOS ROSA, 3.ª Ed., Vol. VI, Editorial Presença, Lisboa: 1992, p. 44-46, apud, DESCARTES.
7 Ibidem, cit., p. 43.
8 COLIN BROWN, Filosofia e Fé Cristã. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo: 1983, p. 89, apud, KIERKEGAARD.
9 F. F. BRUCE. João: Introdução e comentário / tradução: HANS UDO FUCHS, 1.ª ed., Série Cultura Bíblica. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. – São Paulo: 1987, pp. 256, 257.
10 Evangelho segundo João 18:38a: “Que é a verdade?” – Destacou-se.
11 F. F. BRUCE. João: Introdução e comentário…, Ibidem, p. 301.
12 ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA / tradução EULÁLIA A. P. KREGNESS. – São Paulo: Shedd Publicações, 2008, p. 385. Referências bíblicas: (1) Dt 32:4; Sl 31:5 (2) Jo 14:6 com Jo 7:18 (3) Jo 1:14 (4) Jo 8:45 (5) Jo 14:17 (6) Jo 16:13 (7) Dn 10:21; Jo 17:17 (8) Jr 5:3 (9) Sl 96:13; Rm 2:2.
13 ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA, Ibidem, cit..
14 “Santo – [Do heb. kadosh; do gr. hagios] Aquele que se separa do mal, e dedica-se ao serviço divino. O Homem torna-se santo quando recebe a Cristo como o seu salvador. De imediato, o pecador, agora redimido, é colocado na posição de justo e santo diante de Deus, como se jamais houvera pecado. O processo de santificação do crente tem como base a Palavra de Deus.” In DICIONÁRIO TEOLÓGICO. CLAUDIONOR CORRÊA DE ANDRADE, 1.ª ed. – Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 1998, p. 260.
15 “Ministro – [Do lat. ministrum] Servidor, servo. A principal característica do ministro do Evangelho é servir a Cristo e a Igreja. Sua função é dupla: 1) Em relação à Igreja, pastorear o rebanho de Deus. 2) Em relação ao mundo, proclamar o Reino de Deus.” In DICIONÁRIO TEOLÓGICO…. Ibidem cit., p. 214.
16 Cf. “Impiedade – [Do lat. impietatem, ausência de piedade] Ausência sistemática dos atributos de Deus no indivíduo, na sociedade ou no Estado. Esta impiedade nasce nas paixões, sistematiza-se em ideologias, e cristaliza-se em sistemas que tudo fazem por banir a ideia de Deus na humanidade. Haja vista o estado totalitário implantado por Adolf Hitler na Alemanha. O que eram simples paixões nos anos 20, ganharam foros de filosofia nos anos 30, e monstruosa impiedade nos anos 40.” In DICIONÁRIO TEOLÓGICO…. Ibidem cit., p. 186.
17 ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA… Ibidem, cit.. Referência bíblicas: (1) Jo 4:24; Sl 145:18 (2) Js 24:14; I Sm 12:24 (3) I Rs 2:4; II Rs 20:3 (4) I Co 5:8 (5) Pv 23:23 (6) I Co 13:6 (7) Zc 8:16; Ef 4:25 (8) Fp 4:8 (9) Pv 3:3 (10) Sl 51:6 (11) Ef 5:9.
18 Ibidem, op. cit.. Referências bíblicas: (1) II Co 12:6, Gl 4:16, (2) I Tm 2:7, (3) II Co 4:2, 6:7-8, 7:14; (4) Êx 18:21, (5) Pv 20:28.
19 Ibidem, op. cit.. Referências bíblicas: (1) Os 4:1, (2) Jr 9:5, (3) Is 59:14-15, (4) Is 59:4, (5) Jr 9:3, (6) Jr 9:5,9, Os 4:1.
20 ORLANDO S. BOYER. João: O Evangelho do Filho de Deus. Para que tenhais vida em seu nome vida em abundância. 2.ª ed. Oficinas da Empr. Gráf. Ouvidor, S.A.. – Rio de Janeiro: 1964, pp. 112, 113.
21 Ibidem, cit., p. 113.
BIBLIOGRAFIA
- COLIN BROWN, Filosofia e Fé Cristã. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo: 1983.
- DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO NOVA FRONTEIRA DA LÍNGUA PORTUGUESA / ANTÔNIO GERALDO DA CUNHA; Assistentes: CLÁUDIO MELLO SOBRINHO… [ET. AL.]. – Rio De Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
- DICIONÁRIO TEOLÓGICO. CLAUDIONOR CORRÊA DE ANDRADE, 1.ª ed. – Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 1998.
- ENCICLOPÉDIA TEMÁTICA DA BÍBLIA / tradução EULÁLIA A. P. KREGNESS. – São Paulo: Shedd Publicações, 2008.
- F. F. BRUCE. João: Introdução e comentário / tradução: HANS UDO FUCHS, 1.ª ed. Série Cultura Bíblica. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova. – São Paulo: 1987.
- NICOLA ABBAGNAMO, História da Filosofia / tradução: ANTÓNIO RAMOS ROSA, 3.ª ed., Vol. VI, Editorial Presença, Lisboa: 1992.
- ORLANDO S. BOYER. João: O Evangelho do Filho de Deus. Para que tenhais vida em seu nome vida em abundância, 2.ª ed. Oficinas da Empr. Gráf. Ouvidor, S.A.. – Rio de Janeiro: 1964.
WEBGRAFIA
- AFRÂNIO SILVA JARDIM, O Princípio Da Verdade Real No Processo Penal: Uma Explicação Necessária. https://emporiododireito.com.br/leitura/o-principio-da-verdade-real-no-processo-penal-uma-explicacao-necessaria [em linha], 24/07/2018 [consultado em 17-06-2019].
- “Verdade”, In DICIONÁRIO PRIBERAM DA LÍNGUA PORTUGUESA [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/verdade [consultado em 17-06-2019].

A Herança de Abraão

A Herança de Abraão

Dr. Jorge Pinheiro

Jorge Pinheiro - 17 - peq
Ao longo da história, vários foram os homens e mulheres que, em diversas épocas, influenciaram negativa ou positivamente as sociedades em particular e a humanidade em geral. Enumerá-los tornar-se-ia fastidioso porque a lista seria extensa. Emparceirando-os, verificaríamos, contudo, que deles apenas meia dúzia se sobressairia de quem se pudesse dizer que a sua influência se tornou extensiva a todo o mundo, deixando uma marca que atravessou séculos e continentes e que perdura ainda hoje. Se pedíssemos a alguém que enumerasse o nome de cinco personalidades que em seu entender mais influenciaram o curso da humanidade não deixaria de indicar o dos fundadores das principais religiões (Sidarta Gautama, Moisés, Zoroastro, Jesus Cristo, Lao Tzé, Muhamad), o de grandes guerreiros ou descobridores (Gengis Cão, Alexandre Magno, Júlio César, Marco Pólo, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo), o de grandes pensadores, cientistas ou artistas (Sócrates, Platão, Einstein, Karl Marx, Mahatma Gandhi, Leonardo da Vinci, Beethoven) ou qualquer um dos muitos políticos que deixaram a sua marca indelével na história da humanidade. Não estaremos, contudo, talvez longe da verdade se arriscarmos afirmar que poucos citariam o nome de Abraão entre esses cinco.
E, no entanto, passados quase cerca de 40 séculos desde que ele empreendeu a sua caminhada histórica, saindo de Ur da Caldeia rumo a um destino que apenas pela fé conseguia vislumbrar e, talvez, deficientemente compreender, ainda hoje continuamos a ser influenciados de forma perene e constante por essa sua decisão, a ponto de podermos afirmar, sem forçar a realidade, que ele condicionou o devir de toda a humanidade. A sua decisão de obedecer à voz divina alterou para sempre o curso da humanidade e ainda hoje continuamos a sentir a sua influência. É verdade que genericamente Abraão é encarado apenas no quadro do universo religioso para isso contribuindo o facto de os seguidores dos três grande monoteísmos actuais o considerarem como pai fundador e alicerce das respectivas fés. É verdade que Abraão, considerado patriarca por todos quantos se lhe sentem devedores, foi movido por uma fé que podemos considerar de base e consistência religiosa. Mas não menos verdade será afirmar que, afinal, todos neste mundo, crentes e não crentes, são de uma forma ou outra seus filhos ou descendentes.
A história de Abraão vamos encontrá-la, com riqueza de pormenor no maior best-seller de toda a humanidade e jóia preciosa do universo sapiencial – a Bíblia Sagrada, mais concretamente no Génesis, entre os capítulos 12 e 25. Esses 14 capítulos retratam quadros de magnífica beleza e profundos ensinamentos cuja densidade está longe de esgotada.
Sabemos que Abraão vivia na opulenta cidade de Ur da Caldeia, cidade que rivalizava em grandeza e importância com a grande Babilónia, sendo considerada na altura (1940 a.C.) a mais importante urbe da região. Aos 75 anos, passa por uma experiência que irá modificar para sempre a sua vida e o curso da humanidade. Pouco sabemos de Abraão até então. Mas sabemos que vivia numa cidade opulenta, numa sociedade politeísta, num mundo em que, para apaziguar os caprichos das divindades, muitas vezes era necessário sacrificar a vida humana. Muito provavelmente viveria sem problemas de subsistência. Talvez uma das poucas tristezas que o afligisse fosse o facto de sua mulher Sarai ser estéril e, por essa razão, o seu nome não seria propagado após a sua morte entrando por isso no oblívio da memória colectiva.
E é nesse ambiente que Deus o chama e lhe faz uma promessa que a partir de então será a sua razão de existir: “Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Obediente, Abraão deixa o conforto, o sossego e a reputação e parte. Deixa a segurança do adquirido e parte rumo ao desconhecido, fundamentado apenas numa promessa cujo único garante é o Deus eterno a quem fica ligado pelos laços da fé que vai crescendo e fortalecendo-se à medida que se entrega à obediência de quem o chamou. Conhecemos o resto da sua autêntica odisseia que resumimos de seguida: após renovar-lhe a chamada e a promessa de um filho, apesar da esterilidade de Sarai e da idade avançada de Abrão, Deus concede-lhe um filho, Isaque, depois de mudar o nome ao casal e de instituir a circuncisão e não sem que antes Abraão tivesse gerado Ismael da sua escrava Agar. Após a morte de Sara, Abraão volta a conceber seis outros filhos da concubina Quetura. Pelo meio, a destruição de Sodoma e Gomorra, o sacrifício não consumado do filho Isaque e o episódio em que, perante Abimeleque, Abraão nega que Sara fosse sua esposa.
Centremo-nos no conteúdo da promessa feita por Deus a Abraão e que ele transmite como herança a todos os seus descendentes. Nela há 3 elementos centrais: terra (Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei), semente (E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção) e bênção (E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra). Esta promessa, que se cumprirá na descendência de Abraão, dá origem a uma nova relação com a divindade, ou com a transcendência, se assim o quisermos, desconhecida da sociedade de então. Para além de ser um Deus único, transcendente e pessoal, o Deus de Abraão é um Deus que se relaciona com a sua criação através de pactos, que Ele honra e aprofunda, na medida da obediência do homem.
A Abraão, por seu lado, é exigido que se entregue à revelação de um Deus que se auto-revela e siga, passo a passo, em obediência comprometida, o caminho que se lhe vai abrindo no cumprimento do respeito mútuo pelo pacto estabelecido entre Deus e o Homem e que influenciará não só o momento presente, mas todas as gerações posteriores que receberem como sua herança a promessa abraâmica.
A terra passa a estar indissoluvelmente ligada à descendência de Abraão. Compulsando os pactos subsequentes que Deus vai estabelecendo com o Seu povo, verificamos que a relação do homem com a terra é a de um mordomo que, em nome do seu senhor, a torna produtiva, zelando e velando por ela, respeitando a sua integridade. A terra continua a ser de Deus, mas o Eterno coloca-a à disposição do Homem para nela este se frutificar e frutificá-la. E de facto, nos pactos posteriores, encontramos toda uma série de disposições que realçam esta tripla inter-relação – terra produtiva e respeitada, mansão do homem e reflexo e reflector da glória de Deus.
A semente ou descendência conhecerá a grandeza e erguer-se-á não como pedinte ou uma massa amorfa sem rumo, mas como sociedade organizada, disciplinada, com um programa bem definido de acção, em que a dignidade humana conhece um novo paradigma e em que a relação com o transcendente faz parte integrante do viver humano. Disso é reflexo o episódio do sacrifício não consumado de Isaque no monte Moriá. Filho prometido, filho da impossibilidade, a vida de Isaque é requerida pelo próprio Deus que permitiu a sua existência. Para além das várias lições que o episódio nos ensina, podemos destacar duas: Deus não se compraz com sacrifícios humanos e Deus exige confiança e obediência sem restrições a quem O aceita como presente na sua vida. Numa sociedade que utilizava o sacrifício humano para satisfazer a divindade, este episódio constitui uma ruptura definitiva do paradigma que encara o homem como descartável em nome do ter em preferência sobre o ser, em nome até de uma divindade supostamente clemente e misericordiosa. Nessa semente (ou descendência) contemplada na promessa abraâmica, o transcendente está também presente de forma visível e palpável e disso são reflexo dois episódios da vida de Abraão – a instituição da circuncisão e a mudança de nome do patriarca e sua esposa. A circuncisão, acto realizado no próprio corpo do crente no ponto fulcral da procriação masculina realça o facto não só de que o nosso corpo deve reflectir ele também a relação com a divindade, como ele próprio Lhe pertence. A mudança do nome é também significativa. Numa cultura em que o nome reflecte a própria pessoa e em que, em última instância, acaba por ser a própria pessoa, este episódio indica que a relação com Deus exige um abandono das nossas referências exclusivamente imanentes, exige uma renovação, uma transformação apenas possível pela acção divina interveniente no nosso viver. Abraão deixa de ser Abrão (pai da altura) para ser Abraão (pai de uma multidão, sendo sintomática esta intercalação de um som aspirado indiciador do sopro do espírito divino na natureza humana) e Sara deixa de ser Sarai e passa a ser Sara (princesa). E de novo, numa sociedade em que a mulher era considerada propriedade do homem e como ser sem alma, esta elevação da sua dignidade é sintomática.
No terceiro elemento da promessa/herança abraâmica, a bênção, temos toda uma teologia e programa de acção. A lei da causa e do efeito presente em todas as relações do homem que se movimenta numa tripla dimensão – consigo próprio, com o seu semelhante e com a divindade. Um apelo não apenas à obediência, mas à responsabilidade individual e colectiva, com uma origem inequívoca e insubstituível. Nos pactos subsequentes que complementam esta promessa divina, sem negar a ligação íntima e intrínseca entre causa e consequência, entre obediência e transgressão, a tónica é colocada indiscutivelmente na bênção resultante da actuação em obediência alicerçada e avalizada pela fidelidade divina. A bênção, o favor, a graça, a misericórdia de Deus tornam-se extensíveis a todos quantos entrarem em contacto com o recipiente da promessa divina. A tónica é colocada na bênção e não na maldição, porque Deus não tem prazer na destruição da sua criação, conforme ecoa o profeta Ezequiel (33:11, “A Bíblia para Todos”) – “Diz-lhes que, tão certo como eu ser o Deus da vida, lhes garanto que não tenho prazer em ver um transgressor morrer. O que eu gostaria era de o ver deixar de pecar e viver.”
Este, num registo extremamente sucinto, o conteúdo da promessa de Deus a Abraão a qual, a partir do momento da sua recepção e aceitação se transforma na herança que o patriarca lega a todos os seus descendentes.
Abraão teve vários filhos de diversas mulheres. Podemos classificá-los em quatro categorias, indicado pela ordem do seu aparecimento:
Os filhos da servidão, representados por Ismael, filho da escrava Agar;
Os filhos da promissão, simbolizados em Isaque, filho da amada esposa de Abraão, Sara;
Os filhos da solidão, consubstanciados nos filhos da concubina Quetura, após a morte de Sara que, sem dúvida, deixou no coração de Abraão um vazio difícil de preencher;
Os filhos da adopção, reflectidos em todos quantos, em todo o lugar, aceitam colocar-se em obediência ao Deus de Abraão, mesmo sabendo não terem qualquer direito de primogenitura, adopção essa que se obtém, segundo as Escrituras, apenas e só através do acto de amor de Cristo Jesus por todos nós quando se entregou no altar do Calvário a uma morte vicária, pela qual, pela pena do apóstolo Paulo, podemos agora aproximar-nos de Deus e chamar-Lhe Pai.
Cada um destes tipos de filhos representa um sector da humanidade com características próprias e todos em conjunto constituem a humanidade na sua totalidade. Todos eles são herdeiros da herança deixada por Abraão à sua posteridade. A herança é a mesma, mas a forma como ela é vivida, transmitida e em alguns casos imposta, depende da condição em que cada filho se insere, condicionando toda a sua cosmovisão, o seu estar-no-mundo, o seu estar-com-o-outro.
Os filhos da promissão assumem o seu estatuto de filhos legítimos e é-lhes tentador considerarem-se os únicos com direitos absolutos à herança, numa atitude e visão legalista da sua condição que os faz considerarem-se os eleitos entre os eleitos, a nata da nata da sapiência e da resistência. Um filho da promessa sabe que é filho e comporta-se como filho com uma atitude de temor reverencial para com o pai.
Os filhos da escravidão não conseguem eximir-se a uma mentalidade de fatalismo que a curto ou longo prazo os reduz a uma posição de subserviência, de inferioridade, de perseguidos pelos que se consideram senhores. Um filho de escrava nunca pode encarar o senhor como pai, mas sempre como senhor, como dominador, cuja vontade final é desconhecida do filho.
Os filhos da solidão não conseguem escapar à angústia do niilismo, ao desespero de quem encara e considera a vida sem sentido. Um filho da solidão considera-se sempre resultado de uma segunda opção em que a razão de viver não é o amor mas a necessidade. Um filho da solidão encara o pai como ausente ou não existente.
Os filhos da adopção sabem que são filhos não por direito de primogenitura, mas em resultado de um acto de amor, de entrega e de dedicação. O filho da adopção sabe que não merece o estatuto de que goza e que lhe foi outorgado por um acto voluntário de entrega a ele estranho. O filho da adopção conhece o sabor da gratidão e encara o pai como aquele que tudo fará para o salvaguardar.
Para além da herança comum, cada um destes grupos de filhos depende da palavra, reduzida a livro, que se torna repositório de toda a sua práxis e ethos. E essa palavra, que reflecte a condição do filho, perpetua não apenas a herança, mas a forma como cada um a encara, a vive e a transmite.
A herança, repetimos, é a mesma, mas a forma como a vivemos, a transmitimos e por ela nos inter-relacionamos depende da interiorização da nossa condição face ao pai de quem somos herdeiros. Essa condição condiciona a nossa cosmovisão, condiciona a forma como vemos o outro, condiciona o nosso modelo de sociedade, condiciona a nossa relação com o transcendente. Cabe a cada um de nós decidir qual o nosso estatuto de filho.

A TEOLOGIA DA CRUZ 2ª Parte

A TEOLOGIA DA CRUZ
2ª Parte
Dr. Jorge Pinheiro
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Temos falado até agora de uma das entidades, Deus, que, mais acima dizíamos ser importante e essencial abordar e analisar para contextualizar e perceber o alcance e profundidade da teologia da cruz. A outra entidade é o Homem, de quem era inevitável indicarmos algumas das suas características ao abordarmos a pessoa de Deus. À semelhança de Deus, o homem é um ser extremamente complexo. Embora com uma identidade e unidade estrutural, tanto física como mentalmente, é grande a sua diversidade tanto em sentido individual como grupal. De facto, podemos dizer que não há dois indivíduos rigorosamente iguais tal como também não há duas sociedades ou culturas idênticas entre si a cem por cento. E, no entanto, tanto a nível individual como grupal, vamos encontrar anseios e preocupações idênticas. Por outro lado, podemos dizer que o homem é tanto fruto do meio como o meio é fruto do homem. Ou seja, o homem não se limita a ser um agente passivo, mas influencia o meio ambiente em que vive, pelo qual também se deixa influenciar. Houve um filósofo que declarou que o homem é ele e a sua circunstância. Por todas essas razões, ao abordar o homem, temos sempre de levar em conta toda essa complexidade e não tentar aplicar a todo e cada um uma mesma fórmula como se de um robot ou uma máquina se tratasse. Vamos encontrar esta característica descrita nas páginas da Bíblia. Tanto os profetas como o próprio Jesus embora com uma mensagem e uma intervenção universalistas, isto é, destinadas a todos os homens sem excepção, abordaram o homem individual segundo a sua especificidade. Poderíamos resumir esta característica pela frase: cada homem é um homem, o que acaba por traduzir o velho lugar-comum da unidade na diversidade.
Apesar dessa complexidade e diferenciação individuais e grupais, o homem, tanto individual como colectivamente, é um indivíduo. Esta palavra – indivíduo – é interessante porque significa aquilo que é uno, não divisível. O facto de uma entidade ser composta por partes, por vezes distintas, não impede que seja considerada indivisível. De certo modo, é essa forçosamente a característica de um ser que se move na dimensão do relativo. E, no entanto, o facto de viver na dimensão do relativo não impede o homem-ser-complexo-relativo de, por assim dizer, ter a dimensão do absoluto despejada no seu íntimo. De facto, a tendência de superação, de procura do mais além, da busca do transcendente é algo que caracteriza o homem. Vemos todo esse trajecto ao longo da história da humanidade. O Génesis descreve de forma magnífica esta realidade, ao afirmar que, na criação do homem, Deus declarou ir criá-lo à Sua imagem, conforme a Sua semelhança (1).
O carácter de ser que se move na dimensão do relativo faz com que o homem, por natureza, seja incompleto e esteja dependente do seu exterior ou de algum outro ser para ser aquilo que é. O homem entra em diálogo com a sua exterioridade e é através desse diálogo que se vai construindo, numa procura incessante de superação. Dessa procura dá conta o salmista em diversas das suas composições em que refere que a sua alma descansa, confia ou espera em Deus (2), expressões que surgem com outro articulado como o refúgio, a habitação, as asas de Deus, de que o Salmo 23 é paradigmático ao declarar que nada lhe faltará no Senhor que o faz deitar (em sossego), o guia e o orienta (3). Esta realidade também não escapa à análise do autor da epístola aos Hebreus quando fala do repouso que o crente encontra em Deus (4). O repouso é também característica que vamos encontrar em Deus, conforme declara o Génesis, dizendo que, depois de ter criado o Universo, Deus repousou (5). E é interessante notar que esta ideia de repouso vai surgir no Budismo, embora com outro articulado, partindo de outros pressupostos e chegando por isso mesmo a um resultado diferente daquele que defende o monoteísmo cristão. Falamos do conceito de nirvana que, no Budismo, é o estado de completo repouso da consciência, em que o homem consegue por fim libertar-se de todo o ciclo do samsara, o fluxo incessante de renascimentos. Sem entrarmos na discussão deste conceito e/ou da sua comparação mais exaustiva com a teologia cristã, podemos salientar que, embora a procura do repouso tenha de partir sempre do homem, no Cristianismo esse repouso vem de cima, ou seja, é potenciado por Deus, enquanto no Budismo, vem de baixo, ou seja, é potenciado pelo homem, na medida em que, no Budismo, Deus está ausente por ser irrelevante. Ou, em termos mais técnicos, a proposta do Cristianismo vai da transcendência para a transcendência passando pela imanência, enquanto no Budismo é da imanência para a transcendência passando pela imanência.
Há, então, no homem algo de divino ou, melhor dizendo, de natureza divi-na, o que explica toda a sua tentativa de superação existencial, motivando-o a elevar-se acima dos limites estreitos do relativo. Dir-se-ia que a natureza absoluta de Deus está aprisionada numa redoma frágil e contingente e dela procura libertar-se. Nos vários diálogos travados entre Jesus e muitos dos Seus interlocutores, verificamos que embora com vivências e estruturas psico-espirituais distintas, todos eles escutaram as propostas que Ele lhes apresentava. O tipo de respostas poderia variar, mas todos quantos respondiam positivamente revelavam esse anseio mais ou menos patente pelo absoluto. Vejam-se os casos de Nicodemos e da samaritana, de Marta e Maria e dos discípulos (6). Até mesmo os que, como o mancebo de qualidade, consideravam excessivas as posições do mestre galileu (7) não se furtaram ao diálogo.
Do ponto de vista da teologia bíblica, a essa característica validada pela Bíblia, junta-se uma outra já referida e que vai balizar todo o relacionamento do homem com o absoluto de Deus – a sua condição de ser imerso no pecado. Há, naturalmente, várias definições de pecado, algumas nada consentâneas com a realidade bíblica e muitas delas em livre curso em muitas igrejas. Isso talvez se deva ao facto de a Bíblia não apresentar uma definição de pecado mas de se limitar a induzir a ideia de ele ser uma transgressão à vontade e aos estatutos de Deus, colocando assim o homem em rota de colisão com a divindade de quem se encontra distante por via desse mesmo pecado. Seja qual for a definição de pecado que as diversas comunidades cristãs possam apresentar, todas elas produzem um efeito comum – a transmissão da noção de culpa do homem pelo seu afastamento da vontade de Deus, que o leva a deixar de ter comunhão directa com a divindade. Por via do pecado, o homem vive um drama espiritual intenso – o seu íntimo, onde tem inscrita uma matriz de origem divina, que anseia pela comunhão com o seu Criador, o que lhe permite trazer descanso e sossego, sente-se cortado dessa mesma comunhão e tudo fará e faz para que essa brecha que se abriu na comunhão entre Deus e o homem seja ultrapassada com sucesso, segurança e certeza.
Este é o drama que vamos encontrar em todos os quadrantes e latitudes, em todos os tempos e locais de habitação do homem. Seja qual for o posicionamento em que o homem se coloque na sua relação com o divino, em todas as expressões de religiosidade encontramos esta necessidade de ultrapassar a ruptura entre o nosso mundo do relativo e o absoluto de Deus. Como atrás mencionámos, o sistema sacrificial do Antigo Testamento aponta o caminho da restauração – a oferta de uma vítima vicária inocente, sem mancha ou defeito, por via da qual o penitente pode finalmente entrar no descanso da divindade.
Ora, é sobre este pano de fundo que se movimenta toda a teologia da cruz. Nela foi oferecido o sacrifício de uma vítima pura, inocente e sem mancha ou defeito. E para reforçar a realidade de se tratar de uma expiação plena do pecado, o altar em que esta vítima foi oferecida foi uma cruz, instrumento de tortura dos mais atrozes e que, na teologia veterotestamentária, tornava maldito tudo quanto nela fosse colocada, conforme a reflexão de Paulo (8) sobre o texto de partida em Deuteronómio que declarava ser maldito todo aquele que fosse exposto no madeiro (9). Na brilhante exposição de Paulo aos Gálatas, epístola que juntamente com a de Hebreus deveria ser de leitura obrigatória para todo o cristão, aprendemos que aquela vítima (Jesus) que era inocente, pura e sem defeito, se fez maldição, entenda-se pecado, por todos quantos aceitarem esse sacrifício. Desse modo, em última instância, em termos teológicos, era o próprio pecado que estava a ser entregue a Deus para que Ele o afastasse e eliminasse do existir humano. Esse é o entendimento de Paulo, ao declarar que Cristo se fez pecado por nós (10), o que indica, como atrás dizemos, que a cruz estava a receber o pecado em toda a sua extensão e em toda a sua latitude. Ou seja, em Cristo, na cruz, o homem está a entregar aquilo que o afasta da comunhão com Deus. A cruz esvazia o pecado do existir humano, da alma humana que, assim, despojada daquilo que a impede de ter comunhão com Deus pode, através deste sacrifício, entrar livremente na presença de Deus, com a certeza de, enquanto permanecer à sombra do Calvário, não estar mais conspurcada pelo pecado. Depois de rememorar a acção, o carácter e a função do sacrificado Jesus, o autor da epístola aos Hebreus grita de triunfo que podemos agora chegar com confiança junto do trono da graça de Deus (11).
Há, assim, uma novidade no Cristianismo em relação ao Judaísmo – sem rejeitar toda a revelação anterior a Cristo, no Cristianismo há um sacrifício em tudo idêntico aos sacrifícios expiatórios veterotestamentários, mas em que o pecado morre com a própria vítima e em que a vítima acaba por ser ao mesmo tempo vítima e sumo sacerdote. Cristo surge então com esta dupla característica ou natureza – vítima sacrificial e sumo sacerdote. No AT o sumo sacerdote entrava uma vez por ano no Santo dos Santos a oferecer um sacrifício por todos os pecados confessados e não confessados, os declarados e os omitidos (12). En passant, é interessante notar que o sumo sacerdote tinha de se banhar num banho ritual para se purificar (13) antes de poder oficiar no Lugar Santíssimo. De igual modo, Jesus, como nosso sumo sacerdote também passou por este banho ritual purificador quando foi baptizado por João Baptista (14). O facto de Cristo ser em simultâneo vítima e sumo sacerdote é, só por isso, tema de um tratado de teologia. Limitemo-nos a apontar uma ideia-força. Agrupando em si essas duas características que teologicamente surgem como tendo natureza e função distintas, para não dizer opostas e até antagónicas, Jesus surge como o verdadeiro elo entre o Deus santo e o homem pecador. Como cordeiro sacrificial, assume não apenas a figura do homem em si, mas de tudo quanto ele tem de negativo, impeditivo de uma comunhão plena com Deus. Como sumo sacerdote, é o primeiro entre todos os sacerdotes, o que lhe confere singularidade. Na sua qualidade de sacerdote, a pessoa pura que surge como representante de Deus no acto sacrificial, Jesus une em si os dois pólos desta relação quebrada no jardim do Éden, garantindo assim ser não UM sacrifício, mas O sacrifício por excelência. E rematando todo este acto com selo de qualidade e garantia, o cordeiro em sacrifício é o cordeiro DE Deus.
Este sacrifício feito uma vez por todos dispensa qualquer acto da parte do penitente e do pecador visando por meio de um qualquer sacrifício de qualquer natureza obter da parte de Deus a graça de lhe ser permitido entrar na Sua presença. A cruz dispensa o pecador de, a cada pecado, apresentar um sacrifício redentor. Essa obrigação foi cumprida uma vez por todas por aquele que, sendo o Cordeiro de Deus, foi enviado por Deus para, por meio do Seu sacrifício, redimir por completo toda a raça humana. Por isso, a epístola aos Hebreus declara triunfalmente e sem sombra para dúvidas que este sacrifício singular é suficiente para, por toda a eternidade, santificar o pecador (15). Isso não significa, porém, que liberto dessa obrigação, o crente possa viver a seu bel-prazer, ignorando todos os estatutos que Deus coloca perante o homem e cujo cumprimento e observação são indispensáveis para que a comunhão com Deus não entre em ruptura. Agora, o cristão vive em novidade de vida (16), o que significa que deve apresentar no seu viver frutos de uma vida transformada e em consonância com o querer de Deus. E para que o cristão não diga que se sente incapaz de o conseguir, Deus, conforme promessa de Jesus, coloca no seu interior o Espírito Santo (17) permitindo-lhe assim produzir fruto agradável a Deus (18).
Por tudo quanto atrás dizemos, concluímos que todo o cristianismo, quer em termos colectivos, quer em termos individuais, tem de girar sempre e inescapavelmente, em torno do sacrifício de Cristo para que, por meio dessa acção, os seus membros possam ser beneficiários de toda a herança de que o sacrifício no Calvário os fez herdeiros. Reunião cristã que esteja arredia dessa verdade não passa de uma socialização de entretenimento. Cristianismo em que essa verdade esteja ausente nem caricatura é de cristianismo, mas a prostituição de todo o plano de Deus para a redenção da humanidade. Cristianismo em que os seus seguidores, sejam líderes, sejam leigos, se arroguem à reivindicação de alguma parcela de glória pela sua acção não passa de associação de malfeitores e ladrões.
A cruz representa, pois, salvação e salvação vinda de Deus sem o contributo humano. Por isso, é uma obra perfeita e absoluta, porque Deus, sendo perfeito e absoluto, coloca a Sua marca em toda a Sua obra. Mas é uma salvação ao mesmo tempo colectiva e universal mas também individual. Universal, na medida em que está acessível a todos sem excepção. Individual, porque cada um tem de assumir sozinho o compromisso de passar a ter comunhão com Deus, na medida em que Deus respeita a individualidade do homem, convidando-o a, face a face, decidir-se pelo caminho da reconciliação agora definitivamente franqueado. O Apocalipse retrata essa realidade de uma forma magistral e sublime (19).
No sacrifício há dor, a dor do animal que é morto. Jesus, como ser senciente, isto é, que sente, experimentou dor e dor atroz porque, como dizemos mais atrás, a cruz era instrumento de tortura dos mais atrozes, dos mais dolorosos. Sendo o Cordeiro de Deus, isso significa que Deus está presente na nossa dor e, através dela, podemos ver, embora nem sempre sentindo (20) que o Deus salvador está em nós (21), guiando-nos por aquilo que consideramos ser o nosso vale da sombra e da morte (22). Como diria Lutero, embora Deus oculto porque Ele é conhecido apenas porque se revelou, isto é, retirou o véu que O ocultava, Deus manifesta-se nas coisas visíveis. Embora sendo o Deus das Alturas, de que o cântico dos anjos aos pastores se faz eco (23), Deus mani-festa-se no mais profundo, como reconhece o salmista (24). Ele manifesta-se no mais profundo da nossa dor, da nossa ignomínia, da nossa insuficiência. E fá-lo através daquele que é Emanuel, a oferta sacrificial perfeita. E embora possamos sofrer em resultado da nossa decisão de seguir Cristo, isso não significa nem que iremos forçosamente sofrer nem que tenhamos de procurar o sofrimento para nos chegarmos a Deus em busca de redenção. Esta está já garantida uma vez por todas e não precisamos de procurar a dor e o sofrimento porque o Salvador levou já sobre si todas as nossas dores (25). Mas se a dor vier em consequência da nossa adesão a Cristo, por muito sofrimento que ela possa causar, só temos de recordar ao nosso coração e à nossa circunstância que do Alto vem o socorro (26), porque o Alto conheceu e experimentou a nossa baixeza.
Mas a cruz revela também o paradoxo do plano salvífico de Deus. Na cruz, aparentemente, não podemos ver Deus, tanto mais que, como referimos já, Jesus exclamou: “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste?” Ou seja, Deus está ausente, oculto da cruz. E, no entanto, é este Deus oculto que está presente em toda a extensão do sacrifício e do sofrimento de Cristo. Podemos avançar, em tentativa de explicação que Deus está, pelo menos aparentemente, ausente porque na cruz está não o Filho Unigénito, mas o pecado negro e hediondo. O que reforça o paradoxo porque, nessa linha de pensamento, o Deus santo passa pelo pecado, atravessa o pecado, mergulha no pecado para se chegar até ao pecador e resgatá-lo à sua condição de filho amado de Deus. O que faz com que Deus deixe de estar oculto DA cruz, para estar oculto NA cruz. Tal como Deus baixou do Alto à nossa profundeza, assim nós também, temos de subir ao alto através da nossa baixeza sabendo que em todo esse processo, em toda essa caminhada, no túnel escuro do pecado estamos resguardados por aquele que abriu um caminho seguro para o nosso ser.
Ainda citando Lutero, “a cruz põe à prova todas as coisas”. Ou seja, face a qualquer teoria ou doutrina de salvação de origem estritamente humana, a cruz manifesta-lhe as fragilidades e surge como o único e seguro caminho porque, como paradoxo de Deus, enfrenta os paradoxos do existir humano. Porque quando seguimos outro caminho que não o da cruz, estamos a dar primazia exclusiva ao intelecto e à vontade humana, remetendo para segundo plano a via segura de conhecer Deus através da revelação em que Ele próprio se empenha e compromete. Quando abraçamos a revelação de Deus, ela valoriza e potencia todas as faculdades humanas, incluindo a vontade e o intelecto. Ou seja, estes só podem pretender atingir o seu esplendor máximo quando andam de mãos dadas com a revelação da cruz, que é a revelação máxima de Deus ao homem e revelação final de Deus no tocante ao plano de salvação.
Por todas as razões atrás apresentadas e por outras que não abordámos, podemos concluir com Paulo, confessando e reconhecendo que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus mais forte do que os homens” (27). A Deus toda a glória.
(1) Génesis 1:26.
(2) Salmo 62:1
(3) Salmo 23.
(4) Hebreus 4:8,9.
(5) Génesis 2:1.
(6) João 3; 8; 11; 6:68.
(7) Marcos 10:17-22.
(8) Gálatas 3:13.
(9) Deuteronómio 21:23.
(10) 2 Coríntios 5:21.
(11) Hebreus 4:14-16.
(12) Levítico 16:29-34.
(13) Levítico 16:4.
(14) Mateus 4:13-17.
(15) Hebreus 10:12, 14.
(16) Romanos 6:4.
(17) João 16:13.
(18) Gálatas 5:22, 23.
(19) Apocalipse 3:20.
(20) Porque Cristo exclama na cruz sentir-se abandonado – Mateus 27:46.
(21) Porque Jesus é Emanuel, Deus connosco – Mateus 1:23.
(22) Salmo 23.
(23) Lucas 2:14.
(24) De profundis clamavi ad te Domine – Salmo 130:1.
(25) Isaías 53:4.
(26) Salmo 121:1.
(27) 1 Coríntios 1:25.

A TEOLOGIA DA CRUZ 1ª Parte

A TEOLOGIA DA CRUZ
1ª Parte
Dr. Jorge Pinheiro
Jorge Pinheiro
Falar da teologia da cruz implica ter de falar necessariamente de duas outras entidades para que este tema seja contextualizado e assim entendida a sua profundidade. Essas duas entidades são Deus e o Homem.
De facto, tendo em conta que, na visão cristã, a teologia da cruz é essencial, sendo o seu suporte e coluna mestre, ela só faz sentido tendo como pano de fundo não apenas essas duas entidades atrás referidas, mas a relação existente entre ambas, na medida em que a Cruz surge como o caminho que cimenta essa relação. Melhor ainda, a Cruz é o próprio cimento dessa relação.
Convenhamos que, em termos humanos, não é fácil falar de Deus. Como seres relatados estamos destinados a conhecer directamente apenas aquilo a que os nossos sentidos têm acesso. Essa, de resto, é a base de todo o conhecimento humano. É assim que se move toda a ciência. Qualquer ciência, seja ela física, humana ou formal, tem como objecto de estudo uma realidade ou ser acessível aos nossos sentidos e sobre o qual se podem realizar experiências, para comprovar a sua realidade e as conclusões a que se chegou do seu estudo. É verdade que cada ciência, de acordo com a sua natureza, segue métodos específicos que, em alguns casos, não permitem a experimentação directa (como é o caso das chamadas ciências humanas), mas todas elas têm como comum a necessidade de um objecto sensível de estudo.
Naturalmente, também, toda a ciência é, por princípio, incompleta, na medida em que não consegue esgotar o conhecimento pleno do seu objecto de estudo por se encontrar em permanente estado de evolução resultante da dialéctica estabelecida com esse objecto. Por isso, a cada momento se elaboram novas teorias baseadas em pressupostos, hipóteses ou descobertas entretanto adquiridos as quais muitas vezes contradizem ou melhoram uma perspectiva anterior. Sem nos aventurarmos na demonstração de que toda a ciência é influenciada pela ideologia do poder político, económico ou social em que se desenvolve, podemos afirmar que a ciência acaba sempre por estar em evolução não podendo por isso arrogar-se à palavra final do conhecimento, dada essa característica transitória. Mas também é verdade que na característica sincrónica do viver humano, as conquistas da ciência e o conhecimento que ela adquire surgem como absolutos porque, a quem vive sincronicamente falta a perspectiva diacrónica. Isto é, enquanto seres humanos só podemos estabelecer comparações factuais com o passado e apenas pressuposições, hipotéticas portanto, em relação ao futuro. Por isso, o momento (relativo) em que se vive tende a surgir para quem viva apenas sincronicamente como absoluto e adquirido. Salomão, ao reflectir sobre a existência humana e a sua contingência, declarava que tudo é vaidade (1), querendo com isso dizer que tudo neste mundo é transitório e não absoluto ou definitivo. Esta mesma ideia acaba por ser elaborada por João ao declarar que “o mundo passa” (2).
Ora, falar de Deus no pressuposto de Ele ser o objecto de estudo de uma ciência experimental é algo que surge como impossível, uma vez que, como Ser Absoluto, não sujeito às contingências e limitações do relativo, Deus não é directamente captável pelos sentidos humanos sob o risco de, sendo-o, deixar de ser Deus por perder a sua natureza absoluta. É que, enquanto o Absoluto pode abarcar o relativo, o relativo apenas pode tentar abarcar o relativo e, do Absoluto, ter somente um vislumbre hipotético.
Assim, toda e qualquer ideia que o homem possa ter de Deus será sempre aproximada porque lhe falta a capacidade de exercer algum tipo de controlo ou domínio sobre o seu objecto de estudo. No entanto, apesar das limitações que cercam a abordagem científica de Deus, há sempre alguns aspectos que se podem tomar como adquiridos. Naturalmente, entendendo Deus como ser absoluto, pode imaginar-se, por exemplo, que todos os Seus atributos sejam também absolutos. A partir daqui, no entanto, pouco mais se pode avançar, como seja o perfeito carácter de Deus e as Suas intenções. Neste aspecto, tudo quanto se possa elaborar a esse respeito terá de ficar pelo campo das hipóteses, uma vez que não há possibilidade de as confirmar ou infirmar. De resto, é a essa conclusão que chega Paulo, ao declarar: “Quem compreendeu o intento do Senhor?” (3), reflectindo a confissão de Job “Bem sei que tudo podes e nenhum dos Teus pensamentos pode ser impedido” (4).
Dada a natureza absoluta de Deus, ao homem, como ser relativo, faltam as qualidades e capacidades para O descrever e aos Seus atributos de forma rigorosa, pelo que toda a descrição ou referência a tudo quanto importa a Deus peca por defeito. Daí recorrer-se a uma abordagem antropomórfica do Ser Absoluto. Disso são reflexo as diversas expressões que o crente utiliza para se referir à protecção ou ao amor de Deus, para citar apenas duas das Suas características. Todos conhecem os cânticos “Segura na mão de Deus” e “Sob Suas asas refúgio eu tenho”. No mesmo andamento, é costume o crente referir-se ao trono ou à habitação de Deus. Sendo Deus absoluto e sendo o espaço e o tempo realidades do relativo, então Deus não está sujeito às limitações do relativo, razão pela qual, em bom rigor, é incorrecto falar-se de lugar em relação a Deus. Essa mesma metodologia antropomórfica vamos encontrar logo em Génesis quando, no seguimento da criação de Adão e Eva, o texto bíblico se refere a Deus a passear no jardim, pela viração do dia (5). Ou, ao referir-se à ira de Deus, encontramos por diversas vezes a expressão “arrependeu-se Deus” como no episódio do dilúvio (6). Os exemplos são inúmeros. É evidente que, em alguns dos exemplos citados, se pode dizer que o texto recorre a metáforas, mas mesmo sendo metáforas, elas surgem com um carácter antropomórfico.
Chegados a este ponto, poderemos, justamente, perguntar: “Então, é impossível conhecer Deus? É impossível saber como Ele de facto é e quais os Seus intentos e propósitos?”
Antes de responder a essa pergunta, é fundamental perceber que Deus, como ser inominável, não pode ser demonstrado. E ainda bem que assim é, porque no momento em que se demonstrasse física e cientificamente a Sua existência, Deus deixaria de ser Deus porque ao ser percebido pelo ser relativo que é o homem, perderia a Sua natureza e essência absolutas. Isto é, Deus passaria a caber e a pertencer ao domínio do relativo. É verdade que há inúmeras tentativas ou teorias de demonstração da existência de Deus e muitos afadigam-se por encontrar a demonstração perfeita e irrefutável. De igual modo, muitos crentes, por vezes de forma angustiosa, são impelidos a basear a sua fé em Deus numa prova científica ou filosófica demonstrativa cabal da Sua existência. Ora, a verdade é que todas as teorias de demonstração da existência de Deus podem ser refutadas o que levaria a uma conclusão – nenhuma teoria pode afirmar ou negar a existência de Deus. E porquê? Porque, rememorando o que atrás se diz, estamos a lidar com o ser absoluto e, como seres relativos, faltam-nos as competências e as ferramentas próprias para afirmar ou negar irrefutavelmente tudo quanto concerne a Deus. Este facto não nega nem impede, porém, que, quem creia em Deus, não possa ou não deva reflectir lógica e racionalmente sobre Deus e os Seus atributos. De resto, toda esta exposição é prova do que acabamos de afirmar.
A resposta à pergunta não é fácil de dar e depende dos pressupostos de que se parte. Dada a impossibilidade de se comprovar experimentalmente toda a declaração feita directamente ou em nome de Deus, como saber que uma dada mensagem considerada proveniente de Deus, veio de facto d’Ele? Seria sempre necessário partir da hipótese (indemonstrável) da Sua existência. É sempre com base nessa hipótese que qualquer reivindicação da origem divina de uma mensagem, de um acontecimento ou de uma realização tem de ser analisada. Essa é a posição do autor da epístola aos Hebreus ao declarar: “É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam” (7). E aqui entra um elemento indispensável, diríamos central e insubstituível, para a resposta à pergunta em apreço. Esse elemento é a fé, no sentido de convicção e confiança. A convicção é o esteio da certeza e esta vai-se alicerçando cada vez mais à medida que o crente se aproxima de toda a mensagem ou intervenção tida como proveniente de Deus, quer directamente quer por algum intermediário.
Esta convicção resulta da escolha em favor da existência quando a pessoa é confrontada com a impossibilidade da afirmação ou negação da existência de Deus. Quem opta pela não existência, embora de forma sincera e em busca das respostas últimas à existência, segue o seu caminho em diálogo constante com a sua contingência, buscando argumentos em favor da sua opção. Em última análise e instância, pode seguir nessa opção até ao final dos seus dias ou chegar à conclusão de que esgotou os argumentos em favor da não existência de Deus, só lhe restando testar a opção oposta e que até então rejeitara. Quem opta pela existência procura ver em cada declaração tida como proveniente de Deus não apenas a confirmação da sua opção mas a identificação com a sua hipótese de partida. Concluímos então que a fé na existência de Deus, fé no sentido de convicção, é fundamental para que o crente receba como fidedigna uma mensagem ou intervenção atribuída a Deus. Não é, pois, por acaso que a Palavra de Deus declara que o justo viverá pela fé (8). Repare-se na parte final deste último versículo (Hebreus 10:38): “se ele [o justo] recuar, a minha alma não tem prazer nele”. Ou seja, se a pessoa não tiver fé na existência de Deus, Deus deixa de existir para ela.
Posto o problema nestes termos, é forçoso olhar ao nosso redor e ver como se apresenta o universo teológico de todos quantos optaram pela hipótese da existência de Deus, sem descurar as objecções ou contra-argumentos de quem defende a não existência de Deus. Ou seja, devemos analisar as diversas propostas desse universo e fazê-las passar pelo crivo fino e exigente da sua congruência.
Nesse esforço, podemos classificar de diversas formas o universo teológico: politeísmo, panteísmo ou monoteísmo, teologias (ou religiões) reveladas ou naturais (não reveladas). Sem entrar em grandes pormenores, podemos centrar a atenção no monoteísmo revelado. Rapidamente as razões dessa preferência em detrimento das outras perspectivas são:
1) No caso do politeísmo está ausente necessariamente a figura de um Deus absoluto. Se os deuses são vários, então não são absolutos. Em última instância, o politeísmo e o naturalismo ou o animismo movem-se nos mesmos pressupostos porque os diversos deuses dos politeísmos acabam por ser a encarnação de forças naturais que os animistas reverenciam. De certo modo, o politeísmo é um animismo de grau elevado.
2) No caso dos panteísmos, esta perspectiva acaba por ser um meio-termo entre um politeísmo e um monoteísmo. Em última instância, o deus (ou deuses) dos panteísmos perde ou compartilha o seu carácter absoluto com quem é do domínio do relativo ou então o outro elemento, por norma a natureza, surge como absoluto. Num caso ou no outro, o deus dos panteísmos surge sempre como não absoluto ou, no mínimo, o que seria o mesmo, como um absoluto truncado ou bipartido.
3) No caso do monoteísmo, se Deus é uma pessoa, então é natural que Ele fale porque o verbo, a fala, a comunicação é o que caracteriza a pessoa. É verdade que nos monoteísmos podemos encontrar a figura de um Deus impessoal para quem o destino da criação é indiferente. É o caso dos diversos deísmos. Ora, parece-nos, salvo melhor opinião, que o deísmo é de grau inferior a qualquer teísmo porque toda a pessoa apresenta uma outra característica, a de criador interessado na sua criação. Sendo uma pessoa, o Deus dos monoteísmos tem necessariamente de ser criador e de estar interessado (e muitas vezes envolvido) na Sua criação.
Note-se que referimos monoteísmos e não apenas monoteísmo. De facto, encontramos vários monoteísmos tanto na actualidade como ao longo da história. Centrando-nos na actualidade, detectamos três monoteísmos, indicados pela sua ordem de aparecimento: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Há quem considere o Siquismo um monoteísmo, mas tendo nós reservas quanto a essa classificação, preferimos não o abordar. Ora, a existência dos três monoteísmos levanta várias interrogações: são variantes de um só monoteísmo ou estaremos na presença de três monoteísmos distintos e, em última análise antagónicos. Subjacente a estas interrogações, a interrogação maior: o deus dos três monoteísmos é o mesmo ou cada um apresenta um deus diferente?
Sem aprofundarmos a questão, podemos salientar que os três monoteísmos apresentam traços comuns tanto na concepção de quem Deus é como se reivindicam de uma herança comum. No entanto, a uma análise mais fina, verificamos que há uma maior proximidade entre Judaísmo e Cristianismo, o que significa que, dos três, o Islamismo é o que mais distinções e diferenciações apresenta. As semelhanças e proximidades entre Judaísmo e Cristianismo são tais que podemos dizer, sem entrar em erro, que o Cristianismo é uma releitura do Judaísmo. Por algum motivo se fala de uma civilização judaico-cristã. De facto, as Escrituras cristãs aceitam como revelação divina todo o Antigo Testamento que é lido e interpretado não apenas no seu contexto histórico mas também como palavra de Deus preparatória de uma revelação que é continuação do que fora revelado até ao aparecimento de Cristo. Jesus Cristo, personagem histórica que, na leitura cristã, surge como clímax de todas as promessas de redenção apresentadas no Antigo Testamento.
No monoteísmo revelado, é natural que se fale em revelação. De facto, sendo Deus um ser absoluto que escapa ao escrutínio de uma análise sensório-objectiva, exigência de qualquer ciência, só O podemos conhecer e ao Seu querer, carácter e planos para a criação, se Ele próprio se revelar. Das revelações tidas como provenientes de Deus, concluímos que a que apresenta Deus com todas as características expectáveis de um ser absoluto é a Bíblia Sagrada. Por isso, podemos afirmar que ela é sem sombra de dúvidas a única fidedigna. Qualquer característica que possamos atribuir merecidamente a Deus, vamos encontrá-la nas páginas da Bíblia. Deus único, omnipotente, pessoal, que é amor, justiça, rectidão, etc., tudo vamos encontrar na Bíblia. Um agnóstico ou um ateu que analise com imparcialidade o texto bíblico terá de confessar que tudo quanto poderia esperar de Deus está na Bíblia. Ou, dizendo de outro modo, que a elaboração judaico-cristã das características de Deus é final e absoluta. Se compararmos a Bíblia com o Alcorão, verificamos que tudo quanto este último possa dizer das características, da personalidade e dos planos de Deus para a Sua criação se encontram já expresso de forma directa ou indirecta, implícita ou explicitamente nas páginas da Bíblia. Nesse sentido, a um monoteísta crente na Bíblia, o Alcorão nada acrescenta às características de Deus que ele já não conheça, aprecie ou tenha experimentado ou descoberto.
Temos, então, uma revelação escrita onde o crente pode ir buscar todas as respostas para as suas inquietações humanas, em qualquer campo do seu envolvimento pessoal: espiritual, social, económico, político, etc. Por isso, é fundamental que o crente, o cristão neste caso, esteja familiarizado com a Bíblia Sagrada e dela faça a sua bússola na sua caminhada terrena.
Falamos de revelação. Ora, revelação implica, como vimos, palavra ou comunicação, característica fundamental de pessoa. Sendo Deus uma pessoa, então é natural que comunique pela palavra. E é curioso porque, como seres relativos que somos, necessitamos sempre de uma forma para perceber e entender a realidade. Damos formas às coisas através de outros objectos ou de símbolos verbais ou não. O homem dá assim uma forma a todos os seres, uma vez que só tem a capacidade de apreender a realidade através desse meio. Por isso, alguém designou o ser humano como o homem simbólico. Sendo Deus um ser, mesmo sendo o ser absoluto, é necessário ao homem dar-Lhe uma forma para O perceber e entender. Por isso, ao longo da história da humanidade, vemos o homem atribuir à divindade as mais diversas formas. Ora, Deus sabe dessa contingência humana e, por isso, tem de se apresentar sob uma forma ao homem para dele ser conhecido ou, melhor dizendo, ser começado a ser conhecido. Verificamos, porém, que tendencialmente o homem acaba por identificar a forma da representação da divindade com a própria divindade. Ao fazê-lo, na prática acaba por atribuir a glória que apenas a Deus pertence à forma que O representa. Ora, a Escritura é muito clara ao declarar “Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura (ou aos ídolos)” ( ). Por essa razão, a Bíblia é muito enfática ao declarar guerra aberta à adoração de ídolos, assumam eles a forma que assumirem. O Decálogo é disso prova exemplar: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( ). No entanto, devido à nossa contingência, continuamos a necessitar de uma forma que nos identifique Deus. O Deus da Bíblia sabendo disso encontra a solução, retratando-se através de uma das Suas características – Deus é um Deus loquans, um Deus que fala. Por isso, o nome de Deus, que é uma forma de O representar, é merecedor de todo o respeito e reverência. Por isso, de novo no Decálogo, vemos a proibição de invocar o nome do Senhor Deus em vão (9). E Deus é um Deus loquans porque a primeira acção que d’Ele temos registada não foi algo que Ele tenha feito. A Sua primeira acção foi a fala: “Disse Deus” (10). Deus é, então, Palavra. Não é por acaso que Jesus, que é a imagem visível do Deus invisível (11), é chamado o Verbo divino (12). Ou seja, tudo quanto queremos conhecer de Deus, vamos encontrar a resposta na mensagem e no ministério de Jesus.
Ainda quanto à forma de representação de Deus, há no Novo Testamento um texto curioso e paradigmático em relação a Jesus, que O declara como sendo em forma de Deus (13). É bom não esquecer que o autor desta afirmação é o estudioso e grande conhecedor das Escrituras hebraicas, o apóstolo Paulo, para quem colocar alguém a par de Deus Yavé era algo de impensável.
Como ser absoluto que é, todas as características de Deus são também absolutas. Seria tarefa quase impossível enumerá-las todas. Por isso, citaremos apenas algumas, tendo sempre em mente que elas também se encontram em Jesus, na medida em que, como vimos atrás, Ele é o verbo divino. Na verdade, todas as características e atributos de Deus podem ser condensadas numa única expressão: Deus é santo. Por isso, Isaías declara enfaticamente: “Santo, santo, santo é o Senhor” (14), expressão essa que é repetida na visão de João em Patmos (15). Tradicionalmente, define-se santo como algo de magnífico, de intocável, de inconspurcável, de transcendente. Sem negar a verdade dessas definições, podemos considerar um outro sinónimo: perfeito. E perfeito no seu sentido etimológico: algo que está completo, a que nada falta. Recordamos certamente a designação de ”capelas imperfeitas” no mosteiro da Batalha. Elas são imperfeitas não porque tenham algum defeito, mas porque simplesmente não foram concluídas. Ora, neste sentido de perfeito, Deus é santo porque n’Ele nada falta para que seja o que é, porque é o Ser Absoluto, logo, perfeito. Foi nessa qualidade que se revelou a Moisés quando este Lhe perguntou o seu nome. “Eu sou o que sou” foi a resposta (16). E repare-se que tal como Deus se revela no Antigo Testamento como aquilo que é (Justiça Nossa, dos Exércitos, Bom Pastor, etc.), Jesus também se identifica por aquilo que Ele é: o caminho, a verdade, a vida, a ressurreição, o bom pastor, a porta, etc. Isto mostra-nos que, como Seu seguidor, o cristão deve habitar no domínio do ser e não do ter. Somos o que somos não por aquilo que temos mas por aquilo que somos. Por isso, en passant, como crentes na acção do Paráclito, podemos dizer que os frutos do Espírito revelam o carácter, o ser, do crente em quem o Espírito Santo habita. Por isso, sem descurar os dons, o crente em Jesus deve estar mais preocupado em ser abundante nos frutos do Espírito Santo.
Sendo perfeito, então Deus é-o em tudo quanto diz respeito à Sua relação com o homem, Sua criação. E como o semelhante se aproxima do semelhante, não nos espanta a exigência feita através de Moisés “Sede santos, porque eu sou santo” (17) e que Pedro repete (18). Ora, sendo o homem pecador, estando por isso cortado da presença de Deus, é necessário que ele seja vivificado para prestar culto a Deus. Em todo o universo religioso, há a noção de que para o adorador ser aceite por Deus tem de se aproximar com uma oferta sacrificial que, por isso mesmo, passa a pertencer à divindade. Ora, o sacrifício máximo, a oferta última e derradeira, é a entrega da própria vida. Mas como ao dar a sua vida, o homem assume uma dupla morte, a espiritual e a física, fica impossibilitado de ter comunhão com o Criador que, através da recepção da sua oferta, se torna o seu Salvador. Por isso, o homem necessita da oferta de uma vida vicária. Nesse sentido, vemos que é em torno desta realidade que se move e se centra todo o sistema sacramental do Antigo Testamento. O sacrifício surge, então, não tanto para agradar a Deus, mas como caminho para a redenção do homem, da sua compra ao pecado que o afasta de Deus e da comunhão que pode e deve ter com o Criador.
No Antigo Testamento há toda uma elaboração do sistema sacrificial, com as suas exigências e consequências que não vamos reproduzir aqui. A compreensão do papel e do alcance de todo esse sistema sacrificial vicário vamos encontrá-la no magnífico estudo da epístola aos Hebreus que, sobre o pano de fundo desse sistema sacrificial, interpreta todo o ministério e acção auto-sacrificial de Jesus. Quem lê esse tratado aos Hebreus não pode ficar insensível não só face à profundidade desse estudo como também das consequências e alcance da obra daquele que João Baptista declara e confessa como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (18). Num judeu, esta expressão “Cordeiro de Deus” e a acção que dele resulta, a “extirpação do pecado do mundo” não são inocentes nem inócuas. O cordeiro era a vítima preferencial dos sacrifícios judaicos. Deveria ser apresentado sem mácula nem mancha (20) para o sacrifício cruento. Mas há aqui, nesta declaração de João Baptista, uma novidade: enquanto no AT o animal a sacrificar era do penitente (leitura objectiva), aqui, com Jesus, a oferta sacrificial é de Deus (leitura subjectiva). É verdade que também se pode interpretar no sentido de o cordeiro ser oferecido a Deus (como o era), sendo portanto “de Deus”, mas a leitura subjectiva está também correcta e, por isso, é perfeitamente aceitável e a mais correcta, como veremos a seguir. Mas a novidade continua porque, enquanto no AT o sacrifício era contínuo pois cada pecado exigia um novo sacrifício, agora com este Cordeiro de Deus, trata-se de uma oferta uma vez por todas, conforme a magnífica elaboração do estudo da epístola aos Hebreus 9 que conclui pela perfeição do sacrifício de Jesus Cristo. Ora, a perfeição é característica de Deus, o que significa que se o Cordeiro é de Deus, então esse Cordeiro é perfeito, é divino. Sendo o Cordeiro de Deus a pessoa de Jesus, a conclusão lógica é pela perfeição de Cristo que assume assim um carácter divino. Sendo o sacrifício do Cordeiro um sacrifício perfeito, isso significa que foi suficiente e bastante, na medida em que, enquanto no AT o sacrifício cobria o pecado, neste o sacrifício apaga o pecado.
A finalidade do sistema sacrificial no AT era conseguir que se restabelecesse a relação entre Deus perfeito e, logo santo, e o homem imperfeito, logo pecador. O Novo Testamento vai mais longe e declara que a finalidade do sacrifício do Cordeiro de Deus não se fica apenas pelo restabelecimento da relação entre Deus e o homem, mas proclama a transformação do homem de pecador perdido e desgarrado em filho de Deus (21). Deste modo, através de uma oferta do próprio Deus que se identifica com o Homem na sua qualidade de ofertante de um sacrifício, a justiça e a santidade de Deus encontram-se, encerrando nesse círculo todos quantos se identificam com esse sacrifício que o próprio Deus ofereceu.
(1) Eclesiastes 1:1
(2) 1 João 2:17
(3) Romanos 11:34; 1 Coríntios 2:16
(4) Job 42:2
(5) Génesis 3:8
(6) Génesis 6:6
(7) Hebreus 11:6
(8) Romanos 1:17; Hebreus 10:38.
(9) Isaías 42:8.
(10) Êxodo 20:3-5.
(11) Êxodo 20:7.
(12) Génesis 1:3.
(13) Colossenses 1:15.
(14) João 1:14.
(15) Filipenses 2:6.
(16) Isaías 6:3.
(17) Apocalipse 4:8.
(18) Êxodo 3:14.
(19) Levítico 11:44
(20) 1 Pedro 1:16
(21) João 1:29, 36.
(22) Levítico 1;3; 22:21.

Há culturas que são superiores a outras?

Há culturas que são superiores a outras?
2018julho21 Casamento Ana
Este é um tema escaldante nos dias de hoje. De forma acertada, no nosso entender, é enaltecida a diversidade cultural, mas, por outro lado, de modo demagógico, ignoram-se algumas práticas culturais que ofendem a dignidade humana e, o mais importante para nós, a ética judaico-cristã. É o caso do casamento imposto a crianças e adolescentes e a excisão genital feminina. Isto para dar dois exemplos dos quais o primeiro é silenciado pelas repercussões políticas e religiosas que implica, e o segundo é denunciado pontualmente porque não tem esses constrangimentos. Independentemente do que se possa responder à pergunta que nos serve de título, faz toda a diferença viver numa cultura antropófaga ou não!
Esta questão entronca também no fenómeno religioso do qual damos dois exemplos: o carma e as castas. Já parámos para pensar quais as consequências sociais e humanitárias de quem acredita que o sofrimento presente é uma forma de penitência para alcançar um estado superior, mais evoluído, na próxima reencarnação? O mesmo se pode dizer quando comparamos líderes religiosos em que uns usaram e subscreveram o uso da violência para imporem as suas ideias e outros que recusaram e se insurgiram contra o seu uso. A ideia prevalecente é que todas as religiões são iguais. Grosso modo estamos de acordo. Em muitos aspetos consideramos que existem diferenças entre as várias religiões que importa não ignorar. Ninguém está a sancionar com isso a guerra das religiões. Mas por que carga de água, dizemos nós, não seremos capazes de forma pacífica e respeitosa confrontar as nossas convicções. Não acreditamos no sincretismo religioso nem num ecumenismo tipo salada de frutas, embora percebamos que possivelmente para lá dos muitos que o defendem, um dia surgirá uma proposta que será aliciante o suficiente para arrastar as multidões e dar suporte a um governo de alcance mundial.
O mesmo se pode dizer sobre as várias concepções que existem de Deus. Existem pessoas que julgo sem a devida ponderação e investigação, afirmam que todas as concepções são iguais. O que estas pessoas pensariam se fossem deslocadas para uma geografia em que da ideia de Deus decorre a lapidação, as chicotadas em praça pública e até a amputação de membros. Dir-se-á que em todas as confissões religiosas se viveram momentos em que tais práticas foram usadas. É verdade! Mas isso não significa que a ideia de Deus no judaísmo, cristianismo e islamismo, para falar apenas no grupo monoteísta, seja igual. A situação torna-se ainda mais flagrante quando se junta o grupo politeísta do hinduísmo e a religião sem deus do budismo. Acreditar num Deus pessoal é totalmente distinto de um deus que não passa de uma energia.
Não existe nenhuma cultura que seja perfeita e isenta de pecado. O Homem é pecador e tudo o que é sua criação sofre da mesma doença. Todas as religiões enfermam igualmente do mesmo mal, porque toda a religião é criação humana.
A situação muda de figura quando nos focamos na pessoa de Jesus. O único sem pecado, o único absolutamente justo e santo, o único perfeito em todos os detalhes e pormenores, em todas as Suas ações, em todo o Seu ensino, em todo o Seu caráter e personalidade, em toda a Sua pessoa.
Eu sou cristão, seguidor de Jesus. Considero-O como Ele Se apresentou, enquanto Senhor e Salvador, e por isso, dirão alguns, estarei a “puxar a brasa à minha sardinha”. Proponho que cada um leia os Evangelhos onde a história de Jesus nos é apresentada. O que dizer dos mandamentos do amor, do perdão e do serviço que Jesus não apenas propôs, mas viveu integralmente? Claro que facilmente se cai para o outro lado dizendo que são utopias que não têm cabimento no mundo em que vivemos. Outros preferirão dizer que Jesus é um mito. Mas Ele está aí na História como O grande “influencier”, como hoje se diz. Jesus não apenas disse, mas viveu. Viveu e morreu por isso. E, como não podia deixar de ser, numa história com sentido, ressuscitou e venceu a morte. Jesus é, por isso, a evidência por excelência de que o Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo), na Sua essência de santidade, amor, graça e misericórdia, é o Deus único e verdadeiro. Deus é Deus, e a Sua Criação está sob o Seu domínio. Ele prevalecerá, e com Ele toda a Sua criação. “Ninguém pode chegar ao Pai sem ser através de mim.” (João 14:6, OL). A escolha é nossa! Eu decidi seguir Jesus!!!

Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com 

VERDADE ABSOLUTA

VERDADE ABSOLUTA

 2018julho21 Casamento Ana

            A verdade ou é absoluta ou não é verdade. Verdade relativa é um contra censo. A minha verdade tem de ser a verdade de todos ou então não é verdade. Não existe isso da minha verdade e a verdade dos outros. Ou é verdade ou não é verdade.

            A questão da verdade sempre interpelou os homens. Muitos deles infelizmente não se deixam interpelar o suficiente por ela e não esperam ou não se detêm o suficiente para serem informados acerca dela.

            O evangelho dá-nos disso um exemplo na pessoa de Pilatos que diante de Jesus questionou acerca do que é a verdade. Só que retirou-se sem ouvir a resposta. Melhor dizendo retirou-se sem acolher a própria verdade que estava diante dele em carne e osso.

            Em termos de fé a verdade é fundamental. Fé na mentira leva à morte. Só a fé na verdade é genuína e autêntica. Só a fé na verdade é verdadeira.

            Jesus Cristo apresentou-se como a verdade. Ou seja na fé cristã a verdade é uma pessoa, não uma fórmula matemática, física ou química. A verdade não é um axioma filosófico. A verdade não é uma figura de linguagem literária. A verdade é Cristo. Ele mesmo o disse. Ele mesmo o provou. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14.6).

            Jesus Cristo é a origem de toda a realidade. Ele é o Criador e o Sustentador de todas as coisas. Todo o Universo tem o seu fundamento n’Ele. Foi Ele que o trouxe à existência. 

            A verdade que não é vivida não se conhece efectivamente. Só conhecemos por dentro a verdade quando ela é interiorizada e expressa nos actos do quotidiano.

            Quando os absolutos morais e éticos são questionados e colocados em causa, vive-se ao sabor do vento, das conveniências, do prazer imediato. Quando o relativismo invade e assenta arraiais no domínio ético e moral, perde-se o rumo, instala-se a confusão e domina a morte da ausência de sentido e propósito. Quando a verdade absoluta dos valores e dos princípios é descartada não há campanha sobre as consequências dos actos que vingue e dê os resultados esperados. Quando Deus é esquecido, posto em causa, remetido para as rotinas dos rituais religiosos sem qualquer interferência na vida do dia a dia, os absolutos morais e éticos desaparecem e são substituídos por outros absolutos contraditórios como é o caso da tolerância que não mais capaz de se insurgir e denunciar a mentira, e da afirmação que “tudo é relativo”.

            Como cristãos evangélicos seguidores de Jesus Cristo afirmamos que Ele é a verdade absoluta e que pela Sua vida e ensino temos valores e princípios espirituais, morais e éticos absolutos sem os quais a morte se instala eternamente.

            A exigência de Cristo é nada mais, nada menos, do que a perfeição do Pai no amor: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? não fazem os publicanos também o mesmo? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mateus 5.43-48).

            Não é possível a santificação quando a verdade absoluta é descartada. A santidade é ferida no seu âmago quando se nega a possibilidade da verdade. Para Jesus a santificação é possível pela verdade da palavra divina. Foi assim que Ele orou ao Pai: “Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade.” (João 17.17). Quando teólogos, filósofos e outros que tais negam a Bíblia como Palavra de Deus, ao sabor da corrente do pluralismo e do relativismo, atacam o cerne do propósito de sermos à semelhança de Deus: “Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1.16). A santidade é a vida vivida na verdade que é Cristo em amor.

            O evangelho de Jesus casa a verdade com o amor. Essa conjugação é declarada de forma inexcedível e em toda a sua crueza, na cruz em que Cristo morreu. Ali está a verdade da ruína e morte que o pecado produz, a justiça absoluta de Deus e o Seu amor em graça e perdão para connosco. É assim que devemos crescer em tudo como membros da Igreja segundo o dizer de Paulo pelo Espírito Santo: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, (…).” (Efésios 4.15).

            A verdade em amor não é a negação do pecado e dos pecados, mas a sua denúncia segundo a graça, a misericórdia e a justiça do Deus que é santo. Todo o pecado tem perdão segundo o evangelho, menos o pecado de não reconhecer o pecado e de aceitar o perdão que só Jesus nos pode dar porque morreu em nosso lugar, sofrendo sobre si a penalidade do pecado. “Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós. que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1 Pedro 1.17-21).

            É na verdade que Cristo é e que Ele declara, viveu, pela qual morreu e ressuscitou, que encontramos a genuína liberdade. É possível ser verdadeiramente livre na verdade de Jesus. Livres da mentira do pecado, do absurdo, da morte, do vazio, da desesperança, da ausência de sentido e propósito.

            A verdade absoluta existe. A verdade absoluta é Jesus. Neste tempo de pluralismo e relativismo declaramos sem quaisquer reticências essa verdade. Fora dela estamos irremediavelmente perdidos por toda a eternidade. Resistamos como discípulos de Jesus às investidas da cultura pluralista e relativista, seguindo a verdade em amor.

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com

E se Cristo não ressuscitou…

E se Cristo não ressuscitou…
2018julho21 Casamento Ana
 Não estamos a citar uma obra cética, ateia ou agnóstica, nem tão pouco um comentário religioso islâmico que nega a morte de Jesus na cruz, e portanto, a Sua ressurreição.
A Bíblia poupa os céticos ao trabalho de tentar identificar o “calcanhar de Aquiles” do evangelho e do cristianismo. Sem ressurreição não temos evangelho nem cristianismo. O evangelho permanece de pé ou cai face ao facto histórico da ressurreição de Jesus. É o apóstolo Paulo que assim escreve quando se dirigiu pela primeira à igreja em Corinto na sua primeira carta inspirada pelo Espírito Santo, no grande capítulo da ressurreição: “E se Cristo não ressuscitou então a vossa fé é inútil e vocês ainda estão sob condenação por causa dos vossos pecados.” (v. 17 – OL). O apóstolo continua de forma enfática “E se a nossa esperança em Cristo é unicamente pra esta vida nós somos as pessoas mais miseráveis no mundo.” (v. 19,20 – OL). Para logo mais afirmar taxativamente: “Mas o facto é que Cristo ressuscitou mesmo dentre os mortos e se tornou o primeiro entre os milhões que um dia voltarão a viver!” (v. 20 – OL).
Vários tentaram a tarefa de provar que Jesus não ressuscitou dos mortos. Um deles está registado no livro Quem Moveu a Pedra?, escrito por Frank Morrison, um periodista inglês que se dispôs a demonstrar que a história da ressurreição de Cristo era um mito. As suas investigações levaram-no à fé no Cristo ressuscitado. O primeiro capítulo tem o título sugestivo “O livro que se negou a deixar-se escrever”. Muitos outros tentaram esta façanha e esbarraram com as evidências que percorrem todo o Novo Testamento. Aliás, não é possível explicar a Igreja sem a realidade da ressurreição.
A ressurreição, é o principal de todos os sinais da singularidade e exclusividade de Cristo. Todos os grandes vultos da história da humanidade morreram e os seus restos mortais estão aí a comprová-lo. O túmulo de Jesus está vazio!
Teria sido muito fácil, demasiado fácil, acabar de vez com a igreja nascente e o testemunho intrépido dos discípulos, fazendo desfilar o corpo do Nazareno pelas ruas de Jerusalém. Ninguém o fez porque não o podiam fazer. Os religiosos judeus só não o fizeram porque não era possível fazê-lo. Os romanos também alinhariam nessa prova incontestável para limpar a afronta do selo romano quebrado na sepultura porque um anjo removeu a pedra, transportando-a para cima, com um peso calculado em duas toneladas, segundo a obra Evidência que Exige um Veredito (volume 1), de Josh McDowell, e dos guardas que desertaram com a insinuação religiosa de que os discípulos tinham vindo de noite, e roubado o corpo. Que vexame para a bem preparada escolta militar romana. Ao contrário os discípulos estavam dispostos a sofrer o martírio por causa daquilo que sabiam ser a verdade e que em consciência não podiam negar, isto depois da sua debandada após a crucificação do Mestre. Como alguns apologetas cristãos referem, alguém pode estar disposto a morrer por algo que pensa ser verdadeiro quando é algo, mas ninguém se dispõe a morrer por algo que sabe ser mentira.
Maomé também tentou passados sete séculos reescrever a história no seu ponto fulcral, negando que Jesus tivesse morrido, e portanto também não teria ressuscitado. Logicamente decidimos pelo testemunho dos discípulos de Jesus, do que por algum depoimento ou revelação depois de tantos séculos.
Na realidade o mais importante da ressurreição de Jesus é que ela vem acompanhada com milhões de testemunhos de pessoas que foram transformadas pelo mesmo poder que o ressuscitou. Paulo fala disso na sua carta aos Efésios: “E, mais ainda, para se darem conta do ilimitado poder que dispõe a nosso favor, nós os que cremos em resultado da ação dessa força divina que nos transformou. Esse poder grandioso foi também o que ressuscitou a Cristo, levantando-o dentre os mortos e colocando-o à direita de Deus nos domínios celestiais e acima de todo e qualquer chefe e autoridade, acima de todo o poder e governo que possa existir. Deus colocou tudo o que existe no universo sob a autoridade de Cristo, e fez dele a cabeça de todas as coisas, para benefício da igreja, a qual é o seu corpo; é ele que a enche com a sua presença, como também enche todas as coisas em todo o lugar.” (Efésios 1:19-23 – OL).
A ressurreição é a certeza da nossa esperança, o seu fundamento sólido. “Porque Ele vive posso confiar, porque ele vive não temerei” é a letra de uma música evangélica em torno desta verdade. A Sua ressurreição é a nossa certeza de vida eterna, que começa aqui e permanece para todo o sempre nas moradas que nos foi preparar. O capítulo quinze da primeira carta aos Coríntios termina com este brado de júbilo: “Como estamos gratos a Deus por tudo isso! Foi ele que nos tornou vitoriosos por meio de Jesus Cristo nosso Senhor!” (v. 57 – OL).
Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com

A SIMPLICIDADE DO EVANGELHO

A SIMPLICIDADE DO EVANGELHO
2018julho21 Casamento Ana
Samuel R. Pinheiro
O evangelho é simples. De algum modo não precisamos de nenhuma versão de um evangelho para “totós”. Muito menos aquela expressão “explica-me como se eu fosse muito burro”. É suficiente ler o evangelho com uma mente e um coração abertos. Ele é fácil de entender e de acolher no coração e na vontade.
Na sua simplicidade o evangelho encerra os maiores mistérios que alguma vez poderíamos imaginar.
Em primeiro o mistério de um Deus trino que se dá a conhecer pessoalmente, em carne e osso, pele Filho. Deus que se mostra de um modo visível aos olhos humanos, não era uma novidade em relação à história que antecede a chegada de Jesus Cristo, no que é chamado de teofanias. Existe, no entanto, uma diferença radical no que concerne a Jesus entre nós, como o Filho de Deus. Pela ação do Espírito Santo Jesus é concebido no ventre da virgem Maria. Deus toma a forma humana, veste-se de carne. O Criador surge na história na condição de criatura sem deixar de ser divino.
Em segundo lugar o mistério da vida de Jesus, Deus e Homem, numa única identidade. É aqui que reside a grande tensão de todo o evangelho no contexto da sociedade e da cultura judaica. Podemos dizer que este era o contexto mais difícil para a divindade de Jesus ser assumida e demonstrada. Por exemplo o evangelho escrito pelo apóstolo João tem como objetivo nas palavras do próprio: “Jesus fez ainda diante dos seus discípulos muitos outros sinais que não vêm escritos neste livro. Estes foram contados para que creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida no seu nome.” (João 20:30,31 – BPT). Tudo o que Jesus fez, todos os Seus inúmeros milagres, toda a Sua vida nesta terra, têm um objetivo primordial, são por isso “sinais”, apontando para a identidade de Jesus. Quem Jesus é, é decisivo. Ao percebermos que Ele é muito mais do que um homem, sendo o Homem, é Deus. Ao longo de todo o evangelho de João, Jesus é apresentado como o EU SOU: “Eu sou o pão que dá vida” (6:35,48); “Eu sou a luz do mundo” (8:12); “Eu sou a porta” (10:7,9); “Eu sou o bom pastor” (10:11,14); “Eu sou a ressurreição e a vida” (11:25); “Eu sou o caminho, e verdade, e a vida” (14:6). Na introdução ao evangelho de João a edição A Bíblia Para Todos, acrescenta: “Com sentido absoluto, isto é, sem nenhum predicativo ou complemento, aparece em 6:20 (´Sou eu, não tenham medo!’) e, sobretudo, em 18:5,6, onde os soldados caem por terra diante da santidade, majestade e divindade do EU SOU, paralelo ao nome divino (Êxodo 3:14).” Um dos pontos mais sensíveis acontece quando Jesus cura um paralítico para vindicar o fato de que tem autoridade para perdoar os pecados, e isso os religiosos judaicos sabiam só Deus pode fazer!
Em terceiro lugar Jesus Cristo cumpre o Seu propósito de morrer. Deus conhece a morte com um corpo de homem. A Sua morte incorpora a morte de todos os seres humanos. Uma morte que começa por ser espiritual na separação de Deus e da Sua vontade, e acontece no corpo. “Está determinado que os homens morram uma só vez…” (Hebreus 9:28ª – BPT).
Em quarto lugar o mistério da ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição não é mais do que o ponto mais sublime e supremo da história da humanidade e da revelação divina. A morte é enfrentada nos olhos e é vencida. A partir daí não existe mais qualquer reticência. A morte foi derrotada. Há uma nova vida a viver para lá desta, ou como prolongamento desta mas com uma condição totalmente distinta. É Deus quem concretiza. Só Ele o poderia fazer. Nenhum homem ou mulher, nenhum líder religioso, filosófico, cultural ou político o fez ou pode fazer.
Nenhum destes mistérios é um entrave para uma mente aberta diante da evidência que nos leva a crer que Jesus é Deus entre nós, e a partir daí tudo se resolve, tudo se torna fácil tanto para a mente como para o coração. O que é necessário de seguida é agir em conformidade. Colocar em Jesus a nossa confiança e aceitá-lO como Ele é – o Senhor que nos salva da situação em que nascemos, prisioneiros da morte, reféns do que nos aprisiona dentro dos limites estreitos do nosso egoísmo, da nossa incapacidade de chegarmos por nós a Deus. Um vez crendo as evidências multiplicam-se, como alguém disse “crer para compreender”.
Antes do que cremos e da razão por que cremos, está em Quem cremos. No evangelho isso é essencial. A pessoa de Jesus dá-nos um novo referencial de vida, do tempo, da história, do passado ao futuro e à eternidade. Em Jesus e por Jesus o céu é estabelecido com algumas nuances aqui, e em toda a sua plenitude na eternidade. A terra fará parte do céu, e todos em Jesus viverão eternamente com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A decisão é feita aqui e agora! “A todos quantos o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” (João 1:12- BPT).
Samuel R. Pinheiro
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UM PLANETA SEDENTO DE GRAÇA

UM PLANETA SEDENTO DE GRAÇA

 2018julho21 Casamento Ana

                A meritocracia da finança e da economia infiltrou-se nos relacionamentos e dentro do coração do homem. Porventura é daí mesmo que ela brotou. A ditadura do mérito está presente na escola, na empresa, na família e nas religiões. Talvez nem sequer tenhamos já a capacidade de conceber um mundo diferente. Mas o que se verifica nas várias dimensões da vida humana, está também agarrado à pele do homem.

                Eu mereço ou eu não mereci a isto, faz parte de uma mesma realidade como uma moeda de duas faces, mas cuja essência é a mesma.  

                A essência do evangelho que Jesus nos veio trazer, está resumida na palavra GRAÇA. A graça significa que eu não tenho que merecer, nem sequer alguma vez vou conseguir merecer. Não é por aí que eu tenho de ir. Preciso fazer uma inversão de marcha, mudar de rumo, seguir na direção oposta. Encontrar em Deus o meu suporte e a minha segurança. O texto da Bíblia é bem explícito. Esta é uma diferença radical entre todas as religiões e o evangelho. As religiões dizem “faça” e o evangelho diz “feito”. E o que a religião manda fazer nunca é suficiente o bastante para dar ao homem a segurança da vida eterna, e de ser aceite já nesta terra.

                O evangelho dá-nos a conhecer o plano incrível de Deus de vir ao nosso encontro para fazer por nós o que nós nunca poderíamos fazer por nós próprios. Por isso o homem estava irremediavelmente perdido.

                Se repararmos a vida que recebemos é um ato da graça. Existimos não porque merecemos, mas porque fomos desejados por Deus. A nossa vida pode não ser o que desejávamos por inúmeros fatores, mas a realidade é que viemos à existência pela graça. E Deus nos convida a continuarmos a viver no desenvolvimento dessa graça que tem o seu clímax em Jesus Cristo. Se existimos pela graça, só podíamos ser reconciliados com o plano de Deus que é vida plena e abundante, pela graça.  

                O problema do homem não reside na realidade de existir, mas de ter rompido com os desígnios e a vontade de Deus. Deus nos criou para vivermos num jardim e vivermos a cada dia desfrutando da Sua amável presença. O problema também não está apenas na decisão dos nossos primeiros pais que desobedeceram ao mandamento divino de não comer da árvore da ciência do bem e do mal. O problema consiste no que cada um de nós hoje faz diante do amor de Deus expresso na pessoa de Jesus. Deus fez tudo para que sejamos salvos.

                O Deus da Bíblia, o Deus que se nos deu a conhecer em Jesus Cristo, não negoceia connosco seja o que for. A religião pode virar, e geralmente vira negócio. Mas o evangelho não! Nada podemos pagar pela nossa vida, e nada podemos pagar pela nossa salvação.

                O estranho, ou talvez não, é que a meritocracia, está de tal modo arreigada no coração do homem, que este lida mal com a generosidade divina. Muitas pessoas ao ouvirem falar da graça de Deus, consideram que isso é mais do que podemos esperar. E em certa medida têm razão. Mas o que não esperávamos, e o que não podíamos exigir, foi o que Deus fez, porque Deus é mesmo assim. Nós somos diferentes porque a nossa natureza e condição originais foram corrompidos. Deus foi muito para lá da nossa imaginação. Ele surpreendeu-nos. O Seu amor é imenso.

                Muitas pessoas quando ouvem falar de Deus pensam imediatamente em mandamentos, em regras, em ética e moral. Mas se formos honestos connosco mesmo temos de reconhecer que estamos moralmente falidos. Mesmo que vivamos segundo os ditames da mais exigente ética, isso não é suficiente.

                Jesus encontrou-se com um religioso que seguia com todo o rigor os padrões éticos do judaísmo. Jesus de rompante disse-lhe que ele precisava nascer de novo e que só dessa maneira ele podia ver o reino de Deus. O homem ficou estupefacto e apesar de toda a sua cultura religiosa, não conseguia atingir como tal poderia ser possível. Talvez a sua religião fosse precisamente a razão pela qual ele não conseguia descortinar como tal podia ser possível, apesar de ter declarado que Jesus não podia fazer o que fazia se Deus não fosse com Ele. Na realidade Deus é o Deus do impossível. Ele pode mudar o ser humano por dentro, fazer-nos nascer de Deus, e sermos feitos Seus filhos. É aí que recuperamos a nossa imagem e semelhança perdidas. (João 3:1-21)

                O mesmo aconteceu com o apóstolo Paulo criado na mais estrita e rígida observância religiosa. Depois do seu encontro com Jesus e por revelação divina escreveu aos cristãos em Éfeso e a todos nós o que é a base sólida do plano divino:

                “Porque pela sua graça é que somos salvos, por meio da fé que temos em Cristo. Portanto, a salvação não é algo que se possa adquirir pelos nossos próprios meios: é uma dádiva de Deus. Não é uma recompensa pelas nossas boas obras. Ninguém pode reclamar mérito algum nisso. Somos a obra-prima de Deus. Ele criou-nos de novo em Cristo Jesus, para que possamos realizar todas as boas obras que planeou para nós.” (Efésios 2:8-10 – O Livro)

                O amor de Deus é incondicional. Todos somos amados porque Deus é amor. O que é que vamos fazer com esse amor? Do que fizermos depende o nosso presente e o nosso futuro eterno.

                No amor divino concretizado por Jesus na cruz encontramos uma nova identidade como filhos de Deus, um novo sentido e propósito na glória divina, perdão e completa libertação da culpa. É a vida eterna que recebemos, uma vida que permanece para sempre!

 

Samuel R. Pinheiro

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O POETA CHEGOU À PATRIA PROMETIDA

O POETA CHEGOU À PATRIA PROMETIDA

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“O meu exílio está entre a terra que voluntariamente se perde e a esperança de uma Pátria prometida” (João Tomaz Parreira, Este Rosto do exílio, edição do Departamento de Literatura da Assembleia de Deus de Aveiro, p. 5)
 Pode considerar-se este texto como uma homenagem póstuma, embora eu lhes tenha aversão. Prefiro as homenagens em vida e sei que o querido amigo João Tomaz, como ele também me tratava nos emails que íamos trocando, os recebeu sem que isso beliscasse a sua humildade. No último enviou-me precisamente o texto “Lutero: ‘Que o Senhor te despoje do homem que eras’” e faz parte do repositório de muitos outros que nos remeteu e que enriqueceram este projeto digital. Para lá de outras considerações referia que o enviaria para a revista Novas de Alegria, “se Deus quiser”. Deus quinda assim quis e aí será publicado.
Publico esta minha homenagem neste site, porque foi um colaborador desde a primeira hora. O João Tomaz Parreira era assim, sempre disponível para apoiar e colaborar em projetos que visavam a promoção da cultura bíblica. Muitas vezes lhe disse “obrigado”. Sei que alguns deles foram escritos em momentos menos fáceis ou mais difíceis. Mas sempre com o mesmo rigor e excelência literária, com uma profundidade rara no meio evangélicos, diga-se.
Tive hoje, quarta-feira, dia dezassete, o privilégio de fazer uma leitura bíblica acompanhada de uma breve reflexão no tempo de capela do MEIBAD – Monte Esperança Instituo Bíblico. Durante a véspera e ainda na manhã do próprio dia lutei com a escolha do texto. O meu coração e a minha mente detiveram-se no capítulo 15 da primeira carta de Paulo aos Coríntios, o incomparável capítulo da ressurreição, a esperança da ressurreição de cada filho de Deus em Jesus Cristo. A morte foi vencida, o último inimigo foi derrotado, em Jesus Cristo temos a certeza da vida eterna. A Sua ressurreição é a garantia da nossa ressurreição. Esta é a maior de todas as declarações, o ponto culminante da nossa fé.
Poucos minutos antes do tempo de capela o meu telemóvel tocou e do outro lado, com voz embargada deram-me a notícia inesperada de que o meu querido amigo e irmão na fé, João Tomaz Parreira, tinha sido recolhido para as moradas que Jesus foi preparar para que onde Ele está nós possamos estar. Percebi então a forma particular como antecipadamente Deus lidou com a tristeza que me invadiu. Foi com sentida emoção que iniciei a apresentação do tema. O João Tomaz Parreira é um amigo do coração.
Não escondo que estou triste. Sei que não fomos criados para a morte, e esta sempre me arranha por dentro. A separação dói-me. Mas a esperança ilumina o nosso horizonte. Em breve encontrar-nos-emos. O João pertencia ao céu como todos os que em Jesus recebem essa cidadania. O João nunca se calou. A sua poesia e os seus artigos continuarão a falar da sua fé e da sua esperança. O seu verbo inspirado colocou-o ao serviço do seu Senhor.
Conheci pessoalmente o João Tomaz Parreira nos preparativos para o congresso Juvenil no Porto, fazendo parte do grupo de jovens a nível nacional que apresentaram uma proposta de renovação e restruturação destes encontros da juventude assembleiana.
Foi pela mão do João que fiz parte da Antologia da Nova Poesia Evangélica, e sempre encontrei da sua parte uma total disponibilidade para participar em diversas conferências, e colaborar com artigos em várias revistas das quais destaco o Novas de Alegria do qual era colaborador permanente tendo começado a colaborar na década de 60 (número de fevereiro de 1964, na seção Jovem, com um artigo com o título “A Tela do Calvário”), no Portal Evangélico do qual guardo uma saudosa memória e, mais recentemente, no site de Apologética. Participou ainda com a sua escrita na obra Línguas de Fogo – História da Assembleia de Deus em Lisboa, 1999.
A ASPEC lançou durante alguns anos um ciclo de conferências sob a designação Aqui e Agora século XXI. Numa dessas conferências no auditório do Padrão dos Descobrimento o João Tomaz Parreira abordou o tema da vida e obra de Vergílio Ferreira. Entre os presentes estava uma especialista no tema e que no tempo de perguntas ao conferencista registou a sua admiração pela elevação da reflexão apresentada. O João Tomaz era assim, profundo, rigoroso, exigente, perseguindo com denodo a excelência. O seu trabalho poético e os textos que ficam connosco exalam esse perfume. Vou sentir falta dos seus poemas que enriqueciam as redes sociais, muitos deles partilhei-os na minha página. Alguns últimos deixaram-me a impressão de que via para além do imediato e pressentia o tempo da partida, cantava as moradas eternas.
UM ANTI-REQUIEM NO HOSPITAL
Deitado num convés de lençóis ondulados
Os barcos ao lado ostentam o próximo
Remanso dos adormecidos
A certa altura o tecto é uma ilusão de óptica
Torna-se um limite que os olhos perfuram
A certa altura de uma certa altura
Apagam-nos a claridade, é a hora
De atravessar as águas da noite
Como um bálsamo de Gileade
No silêncio hospitalar.
06/10/2018
© João Tomaz Parreira
RESPOSTA QUE O POETA ENCONTROU ÀS SUAS QUESTÕES
Quando eu estiver mais cansado e a doença
Me der a tristeza das coisas belas, quando tiver
Apenas palavras para enxugar
Nos meus olhos as lágrimas, lerei
Os meus Salmos favoritos e os montes
Serão lagos de água clara no azul
Todas as montanhas são para subir
Lerei o trecho favorito
Da oração sacerdotal de Jesus Cristo
Onde deixou uma ponte entre nós e o Pai
E sentirei nos glóbulos doentes o valor
Da Graça bastante do meu Deus.
02/10/2018
© João Tomaz Parreira
UM DIA QUE NÃO PODE ESTAR MUITO LONGE
Um dia que não pode estar muito longe
Escaparemos por essa janela azul
Não somos Alice no país das maravilhas, mas
esse espelho é transparente e de lá Alguém
Nos vê e espera com toda a música
Que existe no silencioso corpo dos seus anjos
Um dia, quando começar a haver meia-noite
Como disse o Poeta, um dia que já ontem
Começou único no calendário de Deus.
14/06/2018
© João Tomaz Parreira
O João Tomaz Parreira é um nome maior das letras evangélicas. Guardo com carinho os livros de poesia Este Rosto do Exílio (1973), Pedra Debruçada no Céu (1975), Pássaros – aprendendo sempre e outros poemas (1993), e o ensaio teológico O Quarto Evangelho – Aproximação ao Prólogo (1988). Como poeta publicou ainda Contagem de Estrelas, 1996; Os Sapatos de Auschwitz, 2008; Encomenda a Stavinsky, 2011, e Esperar que a Voz Seja Suave, 2014. Atrevo-me a dizer que nascido em outro ambiente em que a cultura fosse mais considerada e valorizada, o JTP teria tido uma outra projeção. A sua poesia abria-nos os horizontes, levava-nos mais longe, despertava a nossa sensibilidade para outras paragens e outros sentidos. De verso para verso era como o dobrar de uma esquina em que os nossos sentidos eram surpreendidos e arrebatados.
Numa nota biográfica do primeiro a que faço referência pode ler-se: “Nasceu a 4 de abril de 1947, na cidade de Lisboa. Aluno da Escola Dominical da Assembleia de Deus, naquela cidade, desde 1954, mudou o rumo de sua vida adolescente, entregando-se a Cristo, nas Campanhas do Dr. Doctoryan em 1963. Nessa data foi residir em Aveiro, onde fixou a sua vida, sendo actualmente membro da Igreja Assembleia de Deus local.”
Penso que seria uma contribuição inestimável para os leitores de poesia e dos artigos sobre temas bíblicos e da cultura, que alguém reunisse num volume a poesia do João Tomaz Parreira, e noutro os vários textos em que a grande maioria terá sido publicada pela revista Novas de Alegria. É apenas um desejo em forma de sugestão!
A homenagem dei-a em vida, muitas e muitas vezes. Pessoalmente a maior parte delas. Foram muitas as vezes que lhe agradeci pela dádiva generosa do dom generoso com que Deus o havia agraciado. O João Tomaz Parreira cumpriu o seu desígnio com que Paulo termina esse capítulo 15 da primeira epístola aos Coríntios: “Façam sempre com entusiasmo aquilo que o Senhor quer, porque o esforço que fazem por ele nunca será inútil.”
Samuel R. Pinheiro