O Oficial de Cafarnaum

O Oficial de Cafarnaum
João 4:43-54

Jorge Pinheiro
Segunda vez foi Jesus a Caná da Galileia, onde da água fizera vinho. E havia ali um régulo cujo filho estava enfermo em Cafarnaum. Ouvindo este que Jesus vinha da Judeia para a Galileia, foi ter com ele e rogou-lhe que descesse e curasse o seu filho, porque já estava à morte. (João 4:46-47)

Temos aqui mais uma história com todos os ingredientes de uma boa história. Nela encontramos dor, sofrimento, angústia, expectativa e um final feliz.
Este texto fala de um homem que se dirige a Jesus, que se encontrava em Caná da Galileia, a quem roga que vá com ele até Cafarnaum e aí lhe cure o filho que estava doente às portas da morte. Jesus atende apenas a metade do pedido do homem: não se desloca a Cafarnaum mas garante-lhe que quando regressar a casa encontrará o filho completamente restabelecido. E assim acontece de facto. Ainda antes de chegar a casa, recebe a notícia de que a febre que atormentava o filho desaparecera e se encontrava agora curado.
Como sucede com todas as histórias, temos de perguntar: que ensinamentos extraímos desta? E em que medida ela se encaixa na intenção declarada de João quando escreveu este evangelho?
Se a lermos com atenção, descobrimos uma série de informações que, complementadas com outros dados, nomeadamente geográficos, nos permitem chegar a algumas conclusões e lições interessantes.
Este episódio vem no seguimento do encontro de Jesus com a samaritana. O versículo 43 diz que Jesus permaneceu em Sicar durante dois dias, findos os quais parte para a Galileia, onde é bem recebido pelos Galileus, conhecedores do que Ele fizera em Jerusalém durante a Páscoa, nomeadamente o derrube das mesas dos cambistas no átrio do templo, os sinais ali realizados (2:13-25) e presumivelmente as suas argumentações no templo e a entrevista com Nicodemos (3:1-15).
Ficamos também a saber que na Galileia este episódio vai encontrar Jesus em Caná. Não sabemos a razão da Sua presença ali, se era passageira ou se ali fixara a Sua residência, mesmo que temporária. Podemos especular que os Seus familiares residiriam ali, nomeadamente sua mãe, uma vez que por ocasião do milagre de Caná, ela se encontrava presente. Também, pela referência que o versículo 43 faz do que acontecera em Caná, podemos presumir que o milagre ainda era recordado pelo impacte que provocara.
O que sabemos é que em Caná Jesus é procurado por um homem vindo de Cafarnaum (v. 46). A nossa versão trata-o por régulo, que traduz a ideia de ser alguém de sangue real ou um rei, uma vez que palavra “régulo” significa “pequeno rei.” No entanto, no original o termo usado transmite mais a ideia de ser um cortesão, um funcionário do rei ou, como diríamos em linguagem actual, um oficial administrativo ou governativo. Seja como for, tratava-se de alguém ligado à área do poder, provido de alguma autoridade civil e política.
Em relação a estas duas localidades, elas distavam entre si cerca de 30 a 40 kms e enquanto Cafarnaum se situava num vale, nas margens do mar da Galileia, Caná era uma cidade montanhosa, sendo assim sinuoso e acidentado o percurso entre ambas. Naquele tempo era uma distância e um percurso consideráveis.
Ora, foi esta distância que o homem percorreu na sua busca de cura para o filho que jazia às portas da morte (v. 47). Podemos imaginar a dor e a angústia desesperante deste homem que procura Jesus na qualidade de pai, pois é assim que ele se apresenta. Nos momentos de maior angústia, que abrem a porta ao desespero, o ser humano procura em todo o lado alívio para a sua dor e assume-se mais na sua qualidade intrínseca de ser humano porque sabe que, mesmo detentor das mais altas honrarias, continua a ser uma pessoa humana limitada e impotente perante aquilo que ultrapassa o seu poder de agente de autoridade.
É interessante notar que o versículo 47 utiliza a expressão “rogou-lhe que descesse.” É verdade que é uma referência ao carácter orográfico entre as duas povoações, mas podemos ver aqui um simbolismo e uma realidade espirituais. O funcionário foi do vale à montanha em busca de ajuda e de facto, em termos espirituais, nós que vivemos no vale temos de subir ao alto em busca de socorro, porque é ali que o encontraremos, conforme nos recorda o salmista:
“Elevo os olhos para os montes. De onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez os céus e a terra” (Salmo 121:1-2). E também o profeta Isaías (57:15) que diz que o Senhor Deus habita num alto e sublime lugar. Deus ainda está na Sua alta e sublime habitação e a Ele recorreremos sempre em tempos de angústia e em tempos de bonança porque o Seu refrigério é permanente e constante.
A resposta de Jesus talvez tenha surpreendido o funcionário, porque começa por afirmar “se não virdes sinais e milagres não crereis.” Há aqui dois pontos interessantes. Primeiro, a referência a e milagres e não a sinais ou milagres, o que nos indica que embora movendo-se no mesmo universo apontarão para duas atitudes distintas. Já vimos que João utiliza a palavra “sinais,” querendo com isso dizer-nos que a nossa atenção deve estar mais focada não no portento da coisa extraordinária, mas no seu significado e no autor de quem a originou. Já quando falamos mais em milagre e menos em sinal, o nosso foco de interesse está mais virado para o acontecido, levando-nos a esquecer que o seu autor é que merece todo o louvor e atenção. Que sempre que buscarmos a intervenção miraculosa de Deus, o nosso coração esteja de olhos fixos n’Ele, louvando-O e engrandecendo-O.
O segundo ponto é que os verbos estão no plural: “se não virdes” e “não crereis”. Jesus não estaria a dirigir-se explicitamente ao homem mas sim aos que O rodeavam e nesse grupo podemos incluir-nos e aceitar essa Sua afirmação como uma advertência para nos fixarmos no que é importante.
O que é certo é que Jesus acede ao pedido do homem de lhe curar o filho, mas não cede ao seu desejo de descer com ele até Cafarnaum.
A verdade é que o menino enfermo ficou sarado, conforme disso dá testemunho o versículo 51. Estamos então na presença de um milagre e de um sinal, o segundo no relato que João faz do ministério de Jesus. Enquanto o primeiro – a transformação da água em vinho – revela o poder de Jesus em termos de transformar a qualidade e a natureza íntima das coisas, este segundo mostra que para Ele, a distância não é impedimento à manifestação do Seu poder. Por isso, ainda hoje, mesmo sentado à direita da majestade divina, podemos recorrer a Ele porque a distância física entre Ele e nós não Lhe tolhe o poder. E porquê? Porque estando Ele na dimensão do Absoluto, as limitações do nosso universo relativo nada são para Ele.
De acordo com o versículo 50, o funcionário não se deixou vencer pela dúvida que a distância lhe poderia suscitar, mas creu no conteúdo da afirmação de Jesus, aceitando-a como uma manifestação factual e não como uma declaração de intenções. Será que quando, a pedido de alguém, oramos por um milagre na vida dessa pessoa e declaramos que ele ocorreu, fazemo-lo como manifestação factual ou como uma declaração de intenções?
A fé do homem não foi abalada nem pela distância nem pelo tempo que levaria a percorrê-la e a testemunhar presencialmente o milagre anunciado. De facto, só no dia seguinte chegou ele a Cafarnaum. Foi uma espera no mínimo de 24 horas. O versículo 52 dá conta disso, quando os seus empregados o informam de que o menino ficara curado na véspera. Não sabemos se ele partiu no dia do milagre, em cujo caso teria iniciado a viagem a partir das 14h00 ou se, pelo contrário, teria partido no dia seguinte, o que lhe permitiria chegar ao seu destino ainda com luz do dia, evitando assim os imprevistos que numa viagem realizada com pouca luz sempre se produzem.
E esta não deixa de ser uma lição para nós. Estamos nós decididos a esperar o tempo necessário e a percorrer a distância exigível para testemunhar um milagre em que anteriormente cremos sem o termos visto? Com a agravante de embora o pedido do milagre ter sido formulado por nós e de nos termos sujeitado às canseiras de ir em busca da solução não termos sido os primeiros a testemunhar a sua concretização.
Em toda esta história há naturalmente uma pergunta pertinente que se nos impõe: por que razão Jesus não atendeu ao pedido de se deslocar a Cafarnaum? Muitas serão as respostas e todas elas não deixam de ser aceitáveis. Muito provavelmente, a razão será o somatório de todas essas respostas. Vejamos algumas:

1. Jesus estaria cansado ou teria reservado aquele período para alguma outra acção do Seu ministério. Embora pouco provável, porque Jesus nunca colocou os Seus interesses acima do serviço aos outros, não deixa de ser plausível porque uma deslocação a Cafarnaum e o regresso a Caná Lhe roubariam tempo que Ele tivesse destinado a outras acções.
2. Quis demonstrar que a distância não era impeditiva para Ele.
3. Quis mostrar, principalmente aos que O seguiriam após a Sua morte e ascensão, que não é necessária a Sua presença física para o milagre ocorrer, porque Ele está sempre presente em espírito entre os Seus.
4. Quis mostrar que para Deus não há distâncias, porque Deus é um Deus de perto mas também um Deus de longe (Jeremias 23:23).
5. Quis provar a fé do solicitante, o que é uma lição também para nós: quando Lhe rogamos alguma coisa, estamos dispostos a crer contra toda a expectativa, angústia ou outra circunstância física ou temporal?
6. Quis mostrar ao funcionário que uma palavra de autoridade ou a palavra de um agente de autoridade tem poder em si e por si mesma e não necessita da presença física do seu autor. Afinal, o funcionário era um agente de autoridade e as ordens que dele emanavam tinham poder em si e por si e nem sempre ou quase nunca exigiam a sua presença. Essa verdade foi compreendida pelo centurião que rogou pelo seu servo doente: “Dá-me uma ordem, Jesus, que eu também sou homem de autoridade e uma ordem minha é cumprida.” (Lucas 7:1-10). Estaremos nós dispostos a aceitar que o poder que nos foi delegado tem poder em si e por si e que em toda a sua aplicação tem de redundar não em benefício próprio mas em bênção do outro e glória de Deus?
7. Jesus quis deixar claro que “A Deus o que é de Deus e a César o que é de César.” Ao não aceder ao pedido de se deslocar a Cafarnaum, Jesus estaria a dizer-lhe que o Reino de Deus não pode, não tem de estar sujeito aos interesses do reino de César. O Reino de Deus abençoa também o senhorio de César mas não lhe está nem pode estar sujeito.

Repare-se também que o funcionário roga a Jesus que desça e lhe cure o filho (v. 47). No entanto, curiosamente, o evangelista regista que a resposta de Jesus não foi “Vai, o teu filho está curado”, mas “Vai, o teu filho vive” (v. 50). Poder-se-ia dizer que é a mesma coisa, que as duas expressões são sinónimas. Mas será assim? Não podemos aceitar que há uma intenção clara na utilização do termo “viver” e não “curar”? Se analisarmos as descrições das curas físicas efectuadas por Jesus, verificamos que na maioria dos casos o verbo utilizado está relacionado com o acto de curar, como na cura do paralítico de Betesda (João 5:6), “Queres ficar são?”, como no caso da cura do leproso em Mateus 8:3: “Sê limpo” ou como no caso da cura da mulher hemorrágica (Marcos 5:34) em que Jesus declara taxativamente: “Sê curada.” E isso para não falar da pergunta que faz aos fariseus: “É lícito curar os enfermos?” (Mateus 12:10) ou a ordem dada aos discípulos: “Curai os enfermos” (Mateus 8:3).
Mas nesta cura do filho do funcionário, Jesus diz: “Vai, o teu filho vive” e não “vai, o teu filho está curado.” Ou seja, a palavra de Jesus, o qual tem poder para curar, não fala aqui de cura mas de vida! Como que a querer dizer-nos que Ele nos veio dar vida e que a vida que Ele dá supera todas as nossas circunstâncias e limitações. Como que a querer dizer que o que Ele nos comunica não é uma mera restituição da saúde, que não é só e apenas uma simples resposta a um problema circunstancial na nossa existência, mas a outorga de uma vida de qualidade alicerçada na fé activa na Sua palavra que dá vida.

Estabelecendo um paralelo entre estes três grandes encontros dos primeiros quatro capítulos de João, podemos chegar a algumas conclusões interessantes e importantes:

• Nicodemos era da Judeia, a mulher de Samaria, o funcionário da Galileia, o que nos indica toda a nação de Israel.
• Nicodemos era um religioso, a samaritana uma plebeia e o funcionário um membro da classe político-governativa, o que nos indica todos os estratos do tecido social.
• Com Nicodemos, a conversa é de carácter teológico, logo é ideológica, enquanto com a samaritana e com o funcionário estamos na presença de milagres (um de transformação, o outro de cura), o que aponta para uma acção prática. O que nos indica que o evangelho tem de ser prático mas com uma boa base doutrinal e tem de ser doutrinário com uma manifestação prática, quer tanto pode atingir directamente o visado como reflectir-se indirectamente em quem tem uma relação com o visado.

Estes três episódios revelam-nos um evangelho integral que está ao alcance de todo o tipo de pessoas, acima das barreiras artificiais que tendemos a levantar face ao nosso semelhante.
Soli Deo gloria!

C. Ourique, 24.Maio.2022

O DISCURSO INCÓMODO

O Discurso Incómodo

João 5:10-47

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E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também. (João 5:17)

Na meditação anterior, falámos de um homem paralítico há 38 anos, a quem Jesus curara. Agora, vamos ver as consequências dessa cura e as reacções que provocou em quem presenciou e experimentou o acto miraculoso e nos representantes do sistema religioso que ordenava toda a sociedade de então. Nesta secção do evangelho de João, vemos o confronto entre a doutrina anunciada por Jesus e as normas religiosas impostas ao povo. Também aqui temos o início da oposição declarada entre Jesus e o sistema religioso centrado no templo de Jerusalém e o primeiro grande discurso público de Jesus.

Tudo começa com o rescaldo da cura do paralítico. Embora no início do episódio nada se diga do dia em que ele ocorreu, apenas informando que se deu num período festivo, sabemos pelos versículos 9 e 10 que era um sábado.

Havia duas instituições que caracterizavam o ser Judeu e que a nação respeitava profundamente: a circuncisão e a guarda do sábado. É verdade que havia outras de igual importância, como a Lei moisaica e o templo com os seus sacrifícios, mas aquelas duas estavam coladas à alma judaica, com uma delas – a circuncisão – marcada no próprio corpo do homem judeu.

Ora, sucede que o paralítico, agora curado, é confrontado e repreendido por transportar a sua cama num dia de sábado, com isso infringindo a proibição de trabalhar nesse dia. Em termos práticos e aos ouvidos dos acusadores, o homem está a confessar que encontrou alguém com autoridade acima da instituição do sábado. Ao submeter-se a essa ordem, o ex-paralítico acaba por se tornar cúmplice do suposto infractor e por essa causa merecedor de repreensão. Quanto aos acusadores, estão mais preocupados com o cumprimento dos preceitos religiosos do que com o facto de o homem estar curado ao fim de tantos anos enfermo.

Ficamos na dúvida quanto à intenção da pergunta sobre a identidade de quem lhe ordenara que transportasse a cama (v. 12), mas não é difícil imaginar que não seria mera curiosidade mas visava criticar e condenar a suposta transgressão da não observância do sábado. Disso é reflexo não só o discurso posterior de Jesus como a própria declaração do autor do evangelho: “Por essa causa, os Judeus perseguiram Jesus e procuravam matá-Lo.” (v. 16).

É interessante o conteúdo do versículo 13: “O que fora curado não sabia quem era [o que o curara] porque Jesus se havia retirado, em razão de naquele lugar haver grande multidão.” Notemos aqui dois pontos de extremo interesse e importância. “Jesus havia-se retirado”. Ou seja, Jesus não faz alarde do acto miraculoso que realizou. Ele actua de forma discreta, deixando que as Suas palavras produzam efeito por si mesmas não se comportando como um vendilhão de mezinhas miraculosas, à espera de ser aclamado. Note-se também e saliente-se a expressão “naquele lugar.” Esse lugar é a piscina e nele a multidão era grande e composta por toda a casta de necessitados. Atendendo a que biblicamente as águas representam as nações (Apocalipse 17:15), podemos assumir “aquele lugar” como simbolizando os povos. Ora, foi no meio do povo necessitado que o poder de Deus se manifestou e não no templo, transformado em centro comercial, em casa de venda, explorador das necessidades dos necessitados. Como se o texto nos estivesse a dizer que Deus não se manifesta em edifícios de marca humana que, embora de aspecto divino, acabam por perder a sua sacralidade, mas junto das multidões que, quais ovelhas entrando pela porta da ovelhas, se aglomeram sem esperança, corroídas pelos males que a sua vida de pecado lhes vai deixando na existência.

Na sequência deste episódio de cura, temos o primeiro grande discurso de Jesus, cheio de uma novidade vivificadora e que entra em choque directo com a mentalidade rígida e castradora de um sistema religioso que impõe aos seus seguidores o espartilho do formalismo institucional. A isso, Jesus tem para oferecer uma mensagem de relação e comunhão com Deus, encarado como pai e não como juiz, como restaurador pleno da vida, convidando os mortos a deixarem o seu estado de decomposição e a aceitarem a nova vida que lhes é oferecida.

É interessante a forma como Jesus inicia este Seu importante discurso: “Meu Pai trabalha até agora e eu trabalho também.” (v. 17). Começa com duas expressões estranhas. Trata Deus não como Senhor e dono, não como juiz e distante, mas como Pai, o que indica uma proximidade de intimidade. Depois, declara que ”Deus trabalha até agora”, numa aparente oposição à afirmação de Génesis 2:3, “e abençoou Deus o dia sétimo e o santificou porque nele descansou de toda a Sua obra que Deus criara e fizera.” Era com base neste texto que toda a Lei se apoiava para justificar a sacralidade do sétimo dia, o sábado. Ora, as palavras de Jesus não deixam de surpreender a um ouvido formatado pelas imposições formalistas e rígidas do pensamento religioso, consideradas imutáveis e intocáveis e, por isso, essas palavras foram categorizadas como heréticas

De facto, Jesus nunca nos deixa de surpreender, a tal ponto que, quando consideramos ter a resposta para todos os problemas, Ele chega e baralha-nos a ordem e o conteúdo das perguntas. E habituados que estamos a ter resposta pronta, decorada sem uma reflexão cuidada e baseada no espírito da vida e não na letra formal e fria da lei institucional, sentimo-nos sem chão, dispostos a rejeitar tudo quanto vá contra as nossas certezas.

É o que Jesus faz aqui nesta Sua intervenção: baralha a ordem das perguntas, faz uma releitura da verdade-base e diz sem rodeios: “A revelação tem de ser lida na bênção e na certeza de uma relação com Deus na Sua qualidade de Pai preocupado connosco e interessado no acabamento desta obra-prima que é a vida humana, a quem Ele considera Seu filho.” No Génesis, Deus descansou da obra que fizera e criara, porque tudo estava perfeito, pois em Génesis 1:31, lemos que era tudo muito bom. Mas agora, neste mundo que Ele criou, há criaturas Suas que saíram das Suas mãos, destinadas a uma comunhão íntima com Ele, que estão manchadas, imperfeitas num caos sem retorno. E enquanto nesse caos não houver ordem, beleza e perfeição, Deus não descansa. Ele trabalha até agora porque está interessado em cada um e de cada um de nós aproxima-se não como legislador, não como juiz mas como Pai. E para que O possamos reconhecer e à Sua obra e intenção, enviou-nos Seu Filho Jesus que se nos apresenta idêntico a nós, mas perfeito, dizendo com isso que tal como Jesus é, assim podemos nós também ser.

Ora, todo este discurso surge como blasfemo pelos guardiões do templo erigido por mãos humanas, pelos defensores do formalismo religioso institucionalizado, pelos carrascos da liberdade que querem perpetuar a menoridade do ser humano, impedindo-o de caminhar na nova liberdade que lhe é oferecida.

De facto, é como blasfémia que os Judeus recebem este discurso, porque o versículo 18 revela que a razão de O quererem matar baseava-se no facto de não só quebrar o sábado, como de se assumir como idêntico a Deus.

Há comentadores que afirmam que Jesus não se declara igual a Deus e que essa afirmação resulta de uma interpretação equivocada que os Seus interlocutores fizeram das Suas palavras no versículo 17 e que nós repetimos sem uma devida contextualização. No entanto, se lermos com atenção toda a argumentação subsequente de Jesus, verificamos que a interpretação dos Judeus não está divorciada da verdade. Essa argumentação tem início no versículo 19, onde Jesus começa com uma atitude didáctico-pedagógica, seguindo o método que sempre seguiu: parte do conhecido para o desconhecido, parte de uma realidade física e detectável para uma verdade espiritual e transcendente.

No versículo 19, habitualmente as nossas Bíblias grafam “filho” e “pai” com maiúscula, querendo assim indicar que essas palavras se referem de forma directa, respectivamente a Jesus e a Deus, o que significaria que é logo aqui que Jesus começa a Sua argumentação de se afirmar igual a Deus. Propomos, no entanto, uma outra leitura que se torna mais clara se lermos essas duas palavras com minúscula. Assim, o que Jesus estaria a dizer era que tal como numa relação humana um filho está dependente do pai, de quem tudo aprende, assim é a relação entre Jesus e Deus. E de facto, faz sentido esta releitura; um pai projecta-se no filho, ensina-o, revela-lhe o segredo das coisas e envia-o ao grande mundo onde revelará a todos aquilo que aprendeu com o pai a quem viu fazer tudo quanto agora faz. Esta é uma realidade física que todos conhecemos e que era também do conhecimento dos adversários de Jesus que, a partir deste ponto consensual, avança para a grande verdade espiritual: de igual modo, se Deus Pai ressuscita os mortos e os vivifica, se Deus Pai cura os doentes, então o Filho de Deus limita-se a fazer o mesmo que Deus Pai. E se Jesus cura, vivifica e ressuscita os mortos, então que conclusão podemos extrair?

Todo o discurso de Jesus, desde o versículo 21 até ao 47 segue esta linha de pensamento, pelo que chegando ao fim, podemos afirmar que em tempo algum Jesus desmente a conclusão a que os seus opositores chegaram: Jesus está a declarar-se igual a Deus.

E para dar força às Suas reivindicações, Jesus declara que a Sua confissão se baseia no cumprimento das Escrituras que testificam d’Ele. No versículo 37, lemos: “O Pai que me enviou, Ele mesmo testificou de mim” e no versículo 39 encontramos: “Examinais as Escrituras… que de mim testificam.” E no seguimento, uma conclusão poderosíssima: “E não quereis vir a mim para terdes vida.” (v. 40). N’Ele há vida e por isso podia proclamar: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” (João 14:6)

Soli Deo gloria!

SAC, 7.Junho.2022

A Mulher Samaritana – II

A Mulher Samaritana – II

João 4:19-30

 Jorge Pinheiro 7

Disse-lhe Jesus: “Mulher, crê-me que a hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos, porque a salvação vem dos Judeus. Mas a hora vem e agora é em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim O adorem. (João 4:21-23)

 

Na meditação anterior, detectámos um paralelismo entre o estado civil da samaritana e a situação espiritual do seu povo. Relembremos que a revelação de que ela tivera cinco maridos e de que o homem com quem então vivia surge no seguimento do pedido de água por parte de Jesus, que afirma ter uma água que supera a água do poço, pois sacia eternamente a sede de quem a bebe. É neste contexto que surge a ordem de Jesus de ela ir buscar o seu marido e de se apresentarem os dois perante Ele. Nesta ordem, há um apelo a que a mulher assuma um compromisso com quem mantém uma relação de intimidade.

Não será forçar o texto afirmar que a recepção desta água viva que Jesus oferece implica um compromisso de uma relação íntima com a aceitação dessa mesma água. De facto, do Cristão exige-se um compromisso com as verdades que recebemos de Deus e com a dádiva de Jesus que em nós produz o abandono de uma água caduca que não sacia perpetuamente e que, pelo contrário, exige de nos uma recorrência constante aos mesmos rituais, muitas vezes realizados quando o calor das aflições mais aperta, simbolizada pela hora sexta a que a mulher se dirigia ao poço.

Não deixa de ser curioso que a hora a que a mulher se dirigia ao poço era a sexta. Não era apenas o momento de intenso calor, mas também indicava a metade do dia. De resto, a hora sexta corresponde às doze horas do nosso sistema cronológico que é a hora que separa as duas metades do dia. Acrescente-se também que na numerologia bíblica, seis é o número do homem e que foi nessa hora que Jesus começou a dialogar com a mulher, trazendo-lhe a novidade da oferta de uma comunhão íntima com Deus, com quem exige um compromisso firme.

Que lições podemos extrair destes simbolismos? Na hora do homem, a sexta, surge a revelação de Jesus que nos convida a encerrar um ciclo que mais nada tem para dar e iniciar um novo ciclo em que a vida é inesgotável, permanente e vivificadora.

Falando em água, é curioso que além dela Jesus menciona nos seus discursos o sal e o ar. Estes são três elementos carregados de um profundo significado e valor espiritual. O ar ou vento aponta para Deus, que é espírito. Em grego, espírito é designado por pneuma, que também significa vento. Deus, ao criar o homem, soprou-lhe nas narinas e o homem foi feito alma vivente (Génesis 2:7). Jesus soprou sobre os discípulos, dizendo: ”Recebei o Espírito Santo (João 20:22). No dia de Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos como um vento impetuoso (Actos 2:2). Quanto à água, ela está relacionada com o arrependimento, com a purificação e com a salvação, enquanto o sal surge ligado à transformação, à cura, ao testemunho, à santificação.

Estes três elementos são indispensáveis ao ser humano que não pode viver sem eles. Privado deles, o homem pouco tempo tem de vida. Mas eles têm uma característica comum: nenhum tem carbono na sua composição química. Ora, o homem, para além de viver num planeta carregado de carbono, é todo ele formado com carbono e depende do carbono. Todos os alimentos da roda dos alimentos têm carbono na sua composição. A maioria do vestuário e dos abrigos do homem tem carbono e até a sua pedra mais preciosa, o diamante, é carbono puro. O homem pode abdicar de muitas coisas com carbono, da alimentação ao vestuário, que não morre com a sua ausência. Mas privado destes três elementos sem carbono – ar, água, sal – perto está do seu fim. O que nos diz que em termos espirituais o homem não pode viver sem esses elementos de origem divina – o espírito, a salvação, a santificação!

Mas voltando à samaritana, tal como há um paralelismo entre a sua situação civil e a situação espiritual do seu povo, também há um paralelismo entre os Samaritanos e a nossa geração. É que tal como os Samaritanos tinham cinco santuários a deuses estranhos, a nossa geração divide-se e oscila entre cinco grandes correntes do Cristianismo (são elas a Igreja Copta, a Igreja Católica Romana, a Igreja Ortodoxa, a Igreja Anglicana e as Igrejas Reformadas), cujos aderentes consideram a sua matriz como a única verdadeira, imitando os Samaritanos que adoravam no monte Gerizim em oposição ao templo de Jerusalém. E quantos no mundo cristão não se agarram ao seu monte, declarando que é apenas nele que Deus se manifesta e pode ser adorado? À semelhança da samaritana, esta geração precisa que Jesus lhe venha dizer “Homens, crede-me que a hora vem em que nem neste monte nem em Jerusalém, adorareis o Pai!” À semelhança da samaritana, esta geração precisa que Jesus lhe diga: ”Homens, adorais o que não sabeis, porque a salvação vem da revelação que vos trago, porque eu vos revelo o Pai!” E todos nós, crentes e descrentes, precisamos de saber que “a hora vem e agora é em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. Porque o Pai procura esses que assim O adorem.”

Ele convida-nos a sermos  verdadeiros adoradores em espírito e em verdade. Queremos sê-lo? Estamos dispostos a reconhecer e a aceitar as exigências que Ele nos propõe? Estamos dispostos a deixar de adorar nos nossos montes caducos, ultrapassados e muitos deles falsos e deixarmo-nos encontrar pelo Pai que nos busca?

Repare-se que Jesus repete por duas vezes esta expressão “adorar o Pai em espírito e em verdade” (4:23, 24).

Note-se que em resposta à argumentação da mulher relativamente ao local de adoração (v. 30), Jesus é muito claro e taxativo: “Vós adorais o que não sabeis… a salvação vem dos Judeus.” Apesar de toda a novidade apresentada por Jesus e que abala todo o edifício teológico da samaritana, Jesus não tem para com ela uma palavra de condenação ou de danação. Ele apenas afirma a verdade. À semelhança da samaritana, precisamos de saber e de aceitar que a verdade vem da revelação de Deus aos patriarcas, aos profetas e aos apóstolos, revelação essa concentrada em pleno em Jesus, o dom de Deus para a humanidade.

Num segundo ponto, Jesus declara que Deus é Pai, o que indica que a relação entre nós e Deus tem de ser de intimidade porque recebemos d’Ele a Sua natureza. Não somos um corpo exógeno ou estranho para Deus. Entre Ele e nós não há anticorpos porque, como Seus filhos, partilhamos com Deus a Sua natureza. E se anticorpos surgirem, o sangue de Cristo elimina-os porque pelas Suas pisaduras fomos sarados.

Uma terceira verdade é que o momento em que podemos e devemos adorar a Deus conforme a revelação de Jesus, já chegou. “Mas a hora vem e agora é.” (v. 23). Jesus abriu o caminho para essa comunhão, iniciou esta nova era, introduzindo-nos num tempo novo quando por ocasião da Sua morte o véu do templo se rasgou.

Uma quarta verdade é que Deus não está dependente de um lugar, não está preso nem aprisionado num santuário feito pela mão de homem algum. Diz o apóstolo Paulo que nós somos o templo do Espírito Santo, o que faz todo o sentido porque se temos a natureza de Deus e se o Espírito de Cristo habita em nós, então nada mais natural que o semelhante procure o semelhante.

O que nos leva a uma quinta verdade: o Pai procura esses que assim O adorem. Deus procura-nos e como podemos escapar Àquele que tudo vê e a cujos olhos nada escapa? Se o Pai busca é porque tem interesse em nós. Para Ele somos preciosos. E que coisa maravilhosa essa quando, olhando para nós mesmos e nos achando tão falhos e tão indignos, ouvimos que Deus nos busca! Como não reagir gozosos, dispostos a tudo fazer, agradecidos porque o Seu amor nos constrange, a Sua benignidade dura para sempre e n’Ele estamos protegidos, escondidos na Sua potente mão? Por isso, a nossa resposta não pode ser outra senão actos de agradecimentos e de amor.

O nosso culto antigo exigia o recurso a bens exteriores – o sacrifício – a que renunciávamos e que quantas vezes não apresentavam a nossa impressão digital e ofertados não poucas vezes como o fruto do medo! Agora, neste culto a que Jesus nos convida a participar, entramos confiantes com uma oferta que provém não do exterior mas do íntimo de nós mesmos, sabendo que ela será aceite pelo nosso Pai que se compraz em chamar-nos Seus filhos.

Recorde-se que a mulher, percebendo o alcance das palavras de Jesus, deixa o cântaro para trás (v. 28), liberta do seu peso, e corre a anunciar esta boa nova. A palavra cântaro é a mesma do episódio de Caná. Ambas estavam ligadas ao culto antigo que exigia todo um cerimonial externo para uma aproximação  a Deus. Que à semelhança da samaritana estejamos dispostos a largar o nosso cântaro que nos prendia a tradições, a legalismos, a um culto ritualista que se erguia como uma barreira à entrada directa na comunhão com Deus.

Finalmente, a grande verdade desta revelação de Jesus – Ele diz que é possível e assim deve ser o nosso culto a Deus: “em espírito e em verdade.”

O nosso culto deve ser verdadeiro em dois sentidos: 1) não ser falso, mas ser real e 2) basear-se na verdade que é Cristo, que o mesmo é dizer que todo o nosso culto tem de estar em sintonia com os ensinamentos de Cristo.

Mas o que significa a expressão “adorar em espírito”?

Antes de tentarmos responder, recordemos que os Judeus utilizavam como sinónimo de adorar uma palavra que se referia a “servir.” Ora, servir implica dar sem esperar nada em troca. Assim, quando adoramos, estamos a ofertar um serviço. Já o Novo Testamento utiliza dois termos para “adorar.” Um conserva o significado de “servir”, enquanto o outro transmite a ideia de “prostrar-se.” Por isso, na adoração o crente tem a tendência a prostrar-se, a inclinar-se perante Deus.

Notemos que a expressão “adorar em espírito” vem no seguimento da declaração de que “Deus é espírito” e é antecedida pelo verbo “importa”, ou seja, “é necessário”, “é imperioso”, “é indispensável.” Há aqui uma relação de causa e efeito; como Deus é espírito, Ele tem de ser adorado em espírito! Ou seja, a nossa adoração, o nosso serviço a Ele tem de ter em si características que façam parte da natureza de um espírito e, neste caso, do espírito de Deus.

Então, se a única adoração agradável a Deus tem de ser “em espírito”, temos não só de conhecer as características do espírito de Deus, de conhecer a natureza íntima de Deus, como incorporar na nossa adoração essas mesmas características, porque o semelhante identifica-se com o semelhante.

Vemos então que se quisermos adorar correctamente Deus, temos de O conhecer e de ter presente que  a adoração é um serviço que Lhe prestamos a Ele e não a nós, que na adoração toda a nossa atenção e intenção têm de estar centradas n’Ele pois é Ele a quem servimos.

Se Deus é espírito, então não está dependente nem limitado por tudo quanto esteja relacionado com o mundo físico, com o mundo do relativo. Assim, Deus não está nem pode estar preso ou dependente de um lugar, de um objecto, do tempo, de uma postura especial ou de qualquer coisa cuja natureza e existência estejam dependentes e ligadas ao mundo físico. Por isso, Jesus dizia (v. 21) “que nem neste monte [Gerizim] nem em Jerusalém devemos adorar o Pai.” Não há, pois, lugares que por si só sejam sagrados porque se sagrado é o local onde Deus está, então toda a criação é sagrada porque toda ela saiu das mãos de Deus. Assim, o mais correcto seria afirmar que sagrado é o local onde Deus na Sua busca de nós nos encontrou e aí O servimos.

O que se diz do espaço, diz-se do tempo, dos objectos, de tudo quanto nos identifica como seres finitos e relativos que somos. Assim, embora te devas esforçar por te apresentar neste encontro com Deus de uma forma considerada digna, o importante é que o encontro se faça, o importante é que Deus ao te buscar te encontre. Deixemo-nos, pois, encontrar porque nesse encontro dá-se a junção de dois seres que, embora distintos, partilham algo em comum. E quando esse algo em comum se encontra, então podemos ter a certeza de que em resultado desse encontro o nosso espírito ficou mais enriquecido, ficou mais purificado. Isso é espiritualidade. Por isso, fomos chamados a ser espirituais e não meros religiosos.

Soli Deo gloria!

C. Ourique, 10.Maio.2022