VERDADE ABSOLUTA

VERDADE ABSOLUTA

 2018julho21 Casamento Ana

            A verdade ou é absoluta ou não é verdade. Verdade relativa é um contra censo. A minha verdade tem de ser a verdade de todos ou então não é verdade. Não existe isso da minha verdade e a verdade dos outros. Ou é verdade ou não é verdade.

            A questão da verdade sempre interpelou os homens. Muitos deles infelizmente não se deixam interpelar o suficiente por ela e não esperam ou não se detêm o suficiente para serem informados acerca dela.

            O evangelho dá-nos disso um exemplo na pessoa de Pilatos que diante de Jesus questionou acerca do que é a verdade. Só que retirou-se sem ouvir a resposta. Melhor dizendo retirou-se sem acolher a própria verdade que estava diante dele em carne e osso.

            Em termos de fé a verdade é fundamental. Fé na mentira leva à morte. Só a fé na verdade é genuína e autêntica. Só a fé na verdade é verdadeira.

            Jesus Cristo apresentou-se como a verdade. Ou seja na fé cristã a verdade é uma pessoa, não uma fórmula matemática, física ou química. A verdade não é um axioma filosófico. A verdade não é uma figura de linguagem literária. A verdade é Cristo. Ele mesmo o disse. Ele mesmo o provou. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14.6).

            Jesus Cristo é a origem de toda a realidade. Ele é o Criador e o Sustentador de todas as coisas. Todo o Universo tem o seu fundamento n’Ele. Foi Ele que o trouxe à existência. 

            A verdade que não é vivida não se conhece efectivamente. Só conhecemos por dentro a verdade quando ela é interiorizada e expressa nos actos do quotidiano.

            Quando os absolutos morais e éticos são questionados e colocados em causa, vive-se ao sabor do vento, das conveniências, do prazer imediato. Quando o relativismo invade e assenta arraiais no domínio ético e moral, perde-se o rumo, instala-se a confusão e domina a morte da ausência de sentido e propósito. Quando a verdade absoluta dos valores e dos princípios é descartada não há campanha sobre as consequências dos actos que vingue e dê os resultados esperados. Quando Deus é esquecido, posto em causa, remetido para as rotinas dos rituais religiosos sem qualquer interferência na vida do dia a dia, os absolutos morais e éticos desaparecem e são substituídos por outros absolutos contraditórios como é o caso da tolerância que não mais capaz de se insurgir e denunciar a mentira, e da afirmação que “tudo é relativo”.

            Como cristãos evangélicos seguidores de Jesus Cristo afirmamos que Ele é a verdade absoluta e que pela Sua vida e ensino temos valores e princípios espirituais, morais e éticos absolutos sem os quais a morte se instala eternamente.

            A exigência de Cristo é nada mais, nada menos, do que a perfeição do Pai no amor: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? não fazem os publicanos também o mesmo? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mateus 5.43-48).

            Não é possível a santificação quando a verdade absoluta é descartada. A santidade é ferida no seu âmago quando se nega a possibilidade da verdade. Para Jesus a santificação é possível pela verdade da palavra divina. Foi assim que Ele orou ao Pai: “Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade.” (João 17.17). Quando teólogos, filósofos e outros que tais negam a Bíblia como Palavra de Deus, ao sabor da corrente do pluralismo e do relativismo, atacam o cerne do propósito de sermos à semelhança de Deus: “Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1.16). A santidade é a vida vivida na verdade que é Cristo em amor.

            O evangelho de Jesus casa a verdade com o amor. Essa conjugação é declarada de forma inexcedível e em toda a sua crueza, na cruz em que Cristo morreu. Ali está a verdade da ruína e morte que o pecado produz, a justiça absoluta de Deus e o Seu amor em graça e perdão para connosco. É assim que devemos crescer em tudo como membros da Igreja segundo o dizer de Paulo pelo Espírito Santo: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, (…).” (Efésios 4.15).

            A verdade em amor não é a negação do pecado e dos pecados, mas a sua denúncia segundo a graça, a misericórdia e a justiça do Deus que é santo. Todo o pecado tem perdão segundo o evangelho, menos o pecado de não reconhecer o pecado e de aceitar o perdão que só Jesus nos pode dar porque morreu em nosso lugar, sofrendo sobre si a penalidade do pecado. “Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós. que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1 Pedro 1.17-21).

            É na verdade que Cristo é e que Ele declara, viveu, pela qual morreu e ressuscitou, que encontramos a genuína liberdade. É possível ser verdadeiramente livre na verdade de Jesus. Livres da mentira do pecado, do absurdo, da morte, do vazio, da desesperança, da ausência de sentido e propósito.

            A verdade absoluta existe. A verdade absoluta é Jesus. Neste tempo de pluralismo e relativismo declaramos sem quaisquer reticências essa verdade. Fora dela estamos irremediavelmente perdidos por toda a eternidade. Resistamos como discípulos de Jesus às investidas da cultura pluralista e relativista, seguindo a verdade em amor.

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com

E se Cristo não ressuscitou…

E se Cristo não ressuscitou…
2018julho21 Casamento Ana
 Não estamos a citar uma obra cética, ateia ou agnóstica, nem tão pouco um comentário religioso islâmico que nega a morte de Jesus na cruz, e portanto, a Sua ressurreição.
A Bíblia poupa os céticos ao trabalho de tentar identificar o “calcanhar de Aquiles” do evangelho e do cristianismo. Sem ressurreição não temos evangelho nem cristianismo. O evangelho permanece de pé ou cai face ao facto histórico da ressurreição de Jesus. É o apóstolo Paulo que assim escreve quando se dirigiu pela primeira à igreja em Corinto na sua primeira carta inspirada pelo Espírito Santo, no grande capítulo da ressurreição: “E se Cristo não ressuscitou então a vossa fé é inútil e vocês ainda estão sob condenação por causa dos vossos pecados.” (v. 17 – OL). O apóstolo continua de forma enfática “E se a nossa esperança em Cristo é unicamente pra esta vida nós somos as pessoas mais miseráveis no mundo.” (v. 19,20 – OL). Para logo mais afirmar taxativamente: “Mas o facto é que Cristo ressuscitou mesmo dentre os mortos e se tornou o primeiro entre os milhões que um dia voltarão a viver!” (v. 20 – OL).
Vários tentaram a tarefa de provar que Jesus não ressuscitou dos mortos. Um deles está registado no livro Quem Moveu a Pedra?, escrito por Frank Morrison, um periodista inglês que se dispôs a demonstrar que a história da ressurreição de Cristo era um mito. As suas investigações levaram-no à fé no Cristo ressuscitado. O primeiro capítulo tem o título sugestivo “O livro que se negou a deixar-se escrever”. Muitos outros tentaram esta façanha e esbarraram com as evidências que percorrem todo o Novo Testamento. Aliás, não é possível explicar a Igreja sem a realidade da ressurreição.
A ressurreição, é o principal de todos os sinais da singularidade e exclusividade de Cristo. Todos os grandes vultos da história da humanidade morreram e os seus restos mortais estão aí a comprová-lo. O túmulo de Jesus está vazio!
Teria sido muito fácil, demasiado fácil, acabar de vez com a igreja nascente e o testemunho intrépido dos discípulos, fazendo desfilar o corpo do Nazareno pelas ruas de Jerusalém. Ninguém o fez porque não o podiam fazer. Os religiosos judeus só não o fizeram porque não era possível fazê-lo. Os romanos também alinhariam nessa prova incontestável para limpar a afronta do selo romano quebrado na sepultura porque um anjo removeu a pedra, transportando-a para cima, com um peso calculado em duas toneladas, segundo a obra Evidência que Exige um Veredito (volume 1), de Josh McDowell, e dos guardas que desertaram com a insinuação religiosa de que os discípulos tinham vindo de noite, e roubado o corpo. Que vexame para a bem preparada escolta militar romana. Ao contrário os discípulos estavam dispostos a sofrer o martírio por causa daquilo que sabiam ser a verdade e que em consciência não podiam negar, isto depois da sua debandada após a crucificação do Mestre. Como alguns apologetas cristãos referem, alguém pode estar disposto a morrer por algo que pensa ser verdadeiro quando é algo, mas ninguém se dispõe a morrer por algo que sabe ser mentira.
Maomé também tentou passados sete séculos reescrever a história no seu ponto fulcral, negando que Jesus tivesse morrido, e portanto também não teria ressuscitado. Logicamente decidimos pelo testemunho dos discípulos de Jesus, do que por algum depoimento ou revelação depois de tantos séculos.
Na realidade o mais importante da ressurreição de Jesus é que ela vem acompanhada com milhões de testemunhos de pessoas que foram transformadas pelo mesmo poder que o ressuscitou. Paulo fala disso na sua carta aos Efésios: “E, mais ainda, para se darem conta do ilimitado poder que dispõe a nosso favor, nós os que cremos em resultado da ação dessa força divina que nos transformou. Esse poder grandioso foi também o que ressuscitou a Cristo, levantando-o dentre os mortos e colocando-o à direita de Deus nos domínios celestiais e acima de todo e qualquer chefe e autoridade, acima de todo o poder e governo que possa existir. Deus colocou tudo o que existe no universo sob a autoridade de Cristo, e fez dele a cabeça de todas as coisas, para benefício da igreja, a qual é o seu corpo; é ele que a enche com a sua presença, como também enche todas as coisas em todo o lugar.” (Efésios 1:19-23 – OL).
A ressurreição é a certeza da nossa esperança, o seu fundamento sólido. “Porque Ele vive posso confiar, porque ele vive não temerei” é a letra de uma música evangélica em torno desta verdade. A Sua ressurreição é a nossa certeza de vida eterna, que começa aqui e permanece para todo o sempre nas moradas que nos foi preparar. O capítulo quinze da primeira carta aos Coríntios termina com este brado de júbilo: “Como estamos gratos a Deus por tudo isso! Foi ele que nos tornou vitoriosos por meio de Jesus Cristo nosso Senhor!” (v. 57 – OL).
Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com

“Se Deus é bom…” Um estudo sobre o mal, o sofrimento e a justiça

“Se Deus é bom…”
Um estudo sobre o mal, o sofrimento e a justiça

Raquel Pinheiro 2por Raquel Viegas Pinheiro

Monografia elaborada para a   Disciplina “Apologética” no 3º ano do MEIBAD – Instituto Bíblico Monte Esperança
docente Samuel Pinheiro

FANHÕES
2017-2018

 

 

 

ÍNDICE

INTRODUÇÃO 1
I. PORQUE EXISTE O MAL? 2
1. O que é o mal? 2
2. Quem criou o mal? 2
II. PORQUE EXISTE O SOFRIMENTO? 4
1. Que mal fez eu para merecer isto? 4
2. Qual o propósito do sofrimento? 5
III. PORQUE É QUE DEUS NÃO FAZ JUSTIÇA? 7
1. Porque Deus poderoso não destrói o mal e o sofrimento? 7
2. Se Deus é bom porque não faz justiça? 9
CONCLUSÃO 11
BIBLIOGRAFIA 12

 

INTRODUÇÃO
Este trabalho foi realizado no âmbito da Unidade Curricular “Apologética” lecionada pelo docente Samuel Pinheiro, e tem como objetivo principal exibir um estudo acerca do mal e do sofrimento relacionando com a justiça divina. É pretendido responder a questões dentro desta temática que geralmente são levantadas questionando a fé.
A escolha deste tema teve origem num diálogo com uma senhora durante uma campanha evangelística, esta duvidava da existência de Deus porque que Ele não fez o seu trabalho quando um homem raptou uma criança, no seu ponto vista se Deus existisse teria cortado os braços àquele individuo. Este exemplo tem uma ligação direta tanto com o mal moral, como com o sofrimento e também com a justiça de Deus.
Admito com segurança que o sofrimento e o mal moral têm sido obstáculos à aceitação do evangelho devido ao conceito errado generalizado. A questão das “crianças que morrem à fome em áfrica” é apenas um grão de areia nesta temática, porque a grande dificuldade é quando o sofrimento e o mal atingem pessoalmente. Creio que se mostrarmos o ponto de vista Bíblico, o de Deus, podemos levar as pessoas ao Cristo que sofreu por elas.
A metodologia utilizada para a realização desta monografia inclui quatro etapas: 1) pesquisa e análise de bibliografias (enciclopédias, dicionários, comentários e outros); 2) seleção de informações relevantes para a temática, retiradas da bibliografia; 3) desenvolvimento do conteúdo; 4) Formatação e revisão final.
O trabalho está dividido em três grupos principais:
1. Porque existe o mal?: É indicado o conceito de mal moral e a sua origem.
2. Porque sofremos?: O mal e o sofrimento tem uma relação muito próxima. Sendo que neste ponto será explorado o sofrimento como consequência do mal. É explicado qual é o propósito divino quanto ao sofrimento e a coabitação deste com Deus.
3. Porque é que Deus não faz justiça?: Neste ponto assume-se a existência de Deus, do mal e do sofrimento. É abordado a “inatividade” aparente de Deus quanto a este problema, é questionada a omnipotência e bondade divina.

I. PORQUE EXISTE O MAL?
1. O que é o mal?
Há três formas de relacionar Deus com o mal:
1. O mal existe mas Deus não (ateísmo);
2. Deus existe mas o mal não (panteísmo);
3. Tanto Deus como o mal existem.
Negar o mal é um conceito monista ou panteísta: o mal é apenas algo que parece ser mas não é; é uma ilusão e não uma realidade. Mas se o mal não é real é porque os sentidos são completamente indignos de confiança e não existe qualquer diferença entre a dor ilusória e real, mas esta ideia não parece corresponder à realidade, antes pelo contrário, parece ser meramente algo que homem gostasse que fosse verdadeiro. O mal, é algo quase palpável, é universal e é real.
Se o mal existe, como podemos defini-lo? Norman Gleiser defende que o mal não é em si mesmo uma substância, mas na sua definição está implícita a ausência do bem que deveria estar presente mas por alguma razão não está. Agostinho citado por Gleiser define o mal como algo “corrupto”, mas a corrupção acontece quando algo bom por natureza sofre perda de pureza.   Isto remete-nos ao jardim do Éden onde o Homem era bom por natureza mas ao pecar perdeu essa natureza boa e agora é mau por natureza.
Se não podemos definir o mal como “algo” mas sim como uma ausência não é possível atribuir a criação do mal a Deus.   Mas onde podemos encaixar o mal no meio de Deus e de um plano de criação perfeitos?
2. Quem criou o mal?
Aparentemente o texto de Isaías 45:7 apresenta Deus como criador do mal, mas à luz do contexto da passagem este mal é melhor traduzido como desgraçada ou julgamento e não se aplica no sentido moral. À luz da Bíblia, Deus não é mau (1Jo 1:45) e é moralmente perfeito (Mt 5:48).
A Bíblia é clara ao afirmar que Deus não criou um mundo com sofrimento ou males (Gn 1-2), atualmente o mundo não é igual ao estado original (Gn 3:16-22). “O homem trouxe o mal para si por escolher egoisticamente seu próprio caminho à parte do de Deus.”  O mundo está num estado anormal, o homem tem natureza pecaminosa, o mundo não está como Deus “queria” que estivesse (Rm 5:19; Gn 6:5-6;11-12).
Geisler apresenta que um dos requisitos para sermos criação perfeita era ter a liberdade inserida no pacote. E quem tem liberdade, tem escolhas, e uma dessas escolhas é decidir entre fazer o bem ou não fazer o bem (ou seja, o mal). Enquanto “Ele faz com que o mal seja possível; nós fazemos com que o mal seja efetivo.” Com Satanás aconteceu a mesma situação, ele foi criado com poder de escolha para poder amar Deus livremente (amor forçado não é amor, é estupro ) mas ele tornou-se a primeira causa do pecado através do seu próprio livre-arbítrio.  Podemos afirmar que quem criou o mal foi Satanás, os anjos caídos e nós próprios quando optámos por não escolher o bem que Deus criou.

II. PORQUE EXISTE O SOFRIMENTO?
1. Que mal fez eu para merecer isto?
O sofrimento pode derivar: do julgamento divino, como consequência do pecado de Adão ou de Satanás.
a) Julgamento divino
Será que o sofrimento pessoal está diretamente ligado ao pecado pessoal? Será que Deus castiga sempre que se peca? Em Salmos 103:10-11 e Lamentações 3:22 indica que Deus sempre trata os Seus com misericórdia apesar do pecado . A própria salvação é algo misericordioso porque todos merecíamos a condenação (Rm 3:23), mas agora podemos ser considerados inocentes por meio de Cristo (Rm 1:8).
Hindus defendem que o sofrimento individual é o resultado do mal individual (Karma) no cristianismo esta ideia também pode estar presente. É corrente perguntarem “que mal fez eu para merecer isto?”. Não se pode descartar o conceito de sofrimento como castigo divino  (ex: Miriã, Arão, Ananias e Safira), porque este é real à luz da Bíblia mas em diversos casos não há qualquer ligação, Deus até colocou na Sua Palavra um livro (Jó) que é dedicado ao problema do sofrimento e apresenta que este nem sempre é causa do pecado. Jesus explicou aos seus discípulos esta mesma ideia quando estes questionaram a razão da cegueira de um homem, Jesus foi claro ao afirmar que o pecado pessoal não era o motivo (Jo 9:1-3).
b) Pecado de Adão
“Quando as almas se tornam perversas, elas certamente fazem uso desta possibilidade para se ferirem umas às outras.”
A maioria do sofrimento deriva de más escolhas. Por vezes são consequências naturais dos pecados e erros, se alguém roubar um banco naturalmente que será preso, se alguém comer um iogurte estragado naturalmente irá ter uma indigestão. A prisão e a indigestão são sofrimentos que derivaram de uma má escolha e nem sempre é necessariamente julgamento divino. Outras vezes o sofrimento é infligido por terceiros, por vezes diretamente, se alguém matar propositadamente outro, ou indiretamente por exemplo se o governo tomar más decisões que podem prejudicar outros que lhes são desconhecidos.
“O mal invadiu toda a personalidade humana.”  Por causa do pecado Adão, o mundo ficou contaminado com a dor, a morte, o mal e o sofrimento (cp Rm 5). Mas por causa da obediência de um (Jesus), muitos podem ser justificados perante Deus.
c) Satanás
Satanás é tanto culpado do mal como o Homem e Ele pode causar doenças e sofrimentos mas os filhos de Deus têm imunidade condicionada pela permissão ou não de Deus (Tiago 4:7). Apesar da sua derrota na cruz ele ainda exerce influência sobre o homem, principalmente sobre os não regenerados.
2. Qual o propósito do sofrimento?
A Bíblia é clara quando nos ensina que há coisas que sempre nos serão ocultas mas que Deus sabe todas as coisas, Ele com a Sua soberania escolhe o que deve ser ou não revelado (Dt 29:29). Podemos não compreender no momento a razão do sofrimento mas isso não significa que não haja um bom propósito.
É claro através dos exemplos que Bíblia apresenta que o sofrimento de alguém pode contribuir: 1) para o bem maior como aconteceu com José (Gn 50:20) ou 2) para crescimento espiritual como aconteceu com Jó (Jó 23:10).  Mas em ambos os casos eles só entenderam o propósito muito depois de passarem pelo sofrimento.
Não há dúvida de que o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podendo levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento. Mas ele fornece também a única oportunidade que o perverso pode ter de emendar-se. Ele remove, o véu, planta a bandeira da verdade na fortaleza de uma alma rebelde.
“Todos (…) vivemos num mundo caído, onde o sofrimento (…) faz parte do mesmo de um modo generalizado. Não podemos explicar o sofrimento individual.”  Ser crente não garante vida sem sofrimento, por vezes este ainda sofre mais que o descrente (cp. Sl 73:3-5), mas garante uma esperança que ajuda a passar o sofrimento.
É correto afirmar que este mundo não é o melhor que existe, pois existem guerras, assassinatos, etc. Atrás já foi justificado o motivo do mundo ser assim. Mas é necessário também compreender que a vida neste mundo é temporária. Assim como a “tribulação é uma condição prévia à paciência”  , “o mundo é uma condição prévia da perfeição.”  Hoje, este mundo não é o melhor, porque o pecado degradou-o (não Deus), mas é sem dúvida o caminho que Deus arranjou para chegarmos ao melhor mundo (o céu).
Ao estudar o sofrimento do cristão corre-se risco do apresentar como algo bom mas deve-se ter em mente que este “não é bom em si mesmo. O que é positivo para o sofredor em qualquer experiência penosa é a sua submissão à vontade de Deus e, para os expectadores, a compaixão despertada e os atos de bondade a que esta os leva.”
Deus não é um ser cujo sofrimento é algo incompreensível para Ele, não O podemos culpar por não saber o que é sentir o sofrimento, porque na verdade Deus fez-se Homem e sofreu como Homem para impedir o sofrimento eterno do Homem (Is 53:3; Hb 2:18, Hb 4:15). Ver Deus como totalmente bom pode ser um teste à nossa fé.
O maior sofrimento do homem é o sentimento de culpa por estar longe de Deus, porque o pecado corrói a essência da felicidade, retirando esse sofrimento por meio de Cristo, todos os outros são mais suportáveis.  Deus sempre se preocupou em resolver a suprema dor do Homem que leva à dor eterna.
Em suma, a existência de Deus não impede o sofrimento individual, ainda que este não seja o plano inicial de Deus, Ele pode ter bons propósitos para a permissão do sofrimento: levar o pecador ao arrependimento, para um bem maior, para o crescimento pessoal ou para evitar um mal maior.
III. PORQUE É QUE DEUS NÃO FAZ JUSTIÇA?
A tendência do Homem sempre será culpar a alguém pelo seu sofrimento, mal e desgraça. E no fim do esquema, encontra-se Deus. Mas esse Deus, que tanto é culpado, fez algo que nenhum homem já faria, Jesus que é Deus assumiu a culpa do erro do Homem (2 Co 5:21).
Mas quando as pessoas colocam em causa a justiça de Deus, na sua mente tem uma destas questões: se Deus pode todas as coisas porque não faz justiça? Se Deus é bom porque não faz justiça?
“A liberdade de Deus consiste no fato de que nenhuma outra causa além dEle mesmo produz os seus atos e nenhum obstáculo externo os impede — que a sua própria bondade é a raiz de que todos eles brotam e sua própria onipotência o ar em que todos florescem. “
1. Porque Deus poderoso não destrói o mal e o sofrimento?
Se o mal não foi derrotado e o sofrimento exterminado então é porque o Deus não é todo poderoso.
Em primeiro lugar é necessário rever o termo omnipotência divina. “A sua onipotência significa poder para fazer tudo que é intrinsecamente possível, e não para fazer o que é intrinsecamente impossível.”  É claro que Deus pode fazer tudo (Lc 1:37), mas Ele não é limitado por este atributo, temos de entendê-lo à luz da Sua soberania, do Seu amor, da Sua Justiça e todos os outros atributos.   Ele podia exterminar a humanidade toda nos tempos de Noé mas como Ele é justo e amoroso, Ele poupou os justos. Apesar da Sua omnipotência permitir que Ele o fizesse, Ele escolheu o que queria fazer: poupar Noé e a família (Gn 6:8-9).
Em segundo lugar, há duas formas de destruir o mal:
1) Destruindo o livre-arbítrio: para o mal ser destruído, primeiro a liberdade tinha de ser destruída na totalidade. Será que queremos viver sem liberdade? Sem liberdade vivíamos felizes? Se destruirmos a liberdade para destruir o mal, “essa destruição seria má em si mesma.”
2) Destruindo a humanidade: Para um trabalho completo, Deus ao eliminar o mal, teria que eliminar “as nossas falhas em praticar o bem”, quem de nós iria sobreviver a essa limpeza?
Em terceiro lugar, apesar de não poder ser destruído agora, temos de admitir que um dia Deus irá derrotar o mal, Deus já começou este trabalho quando revelou na sua lei o que era errado (Ex 20); deu discernimento para distinguir o certo do errado (Rm 2:12-15); dotou-nos de capacidade para fazer o certo (Rm 8:2-4); entregou Jesus à morte para derrotar oficialmente mal na cruz (Cl 2:14-16) e um dia Jesus voltará para derrotar efetivamente todo o mal (Ap 19-22).   O mal apesar de real, é temporário, irá haver nova vida onde não haverá choro, ranger de dentes, sofrimento e dor.  Paul Little afirma que é possível resolver o problema do mal a nível pessoal aceitando a obra redentora de Cristo e ser nova criatura (2 Co 2:17).
Se Deus não pode destruir o mal, não pode ao menos criar um mundo melhor, onde cada um manipulasse a “matéria” a seu gosto para não sofrer?
C.S Lewis apresenta um ponto de vista interessante, temos de reconhecer que a matéria que nos rodeia neste mundo pode ser simultaneamente agradável para uns e desagradável para outros. Por exemplo o mesmo monte, para aquele que sobe torna-se desagradável para o desce torna-se agradável.  A chuva para o agricultor em tempos de seca torna-se agradável, a chuva para o construtor de casa torna-se desagradável. Se o Deus todo poderoso torna-se toda essa matéria boa para todos, teria que eliminar a capacidade que o Homem tem de se agradar ou desagradar, basicamente seriamos todos iguais e que incrivelmente ficaríamos contentes com tudo o que Deus definiu que nos dava felicidade. Todos gostávamos de sardinha temperadas com vinagre.
E se Deus todo poderoso impedisse que a matéria fosse mal usada, anulando a possibilidade do sofrimento? Se Deus tornasse o errado impossível, o livre-arbítrio seria eliminado, algo que já foi considerado mau em si mesmo. Deus o faz ocasionalmente, isso é chamado de milagres, mas não é uma regra, porque Deus não quer Homens sem poder de escolha.
Deus é todo poderoso, mas Ele tem vontade e sabe o que é melhor para o Homem.
2. Se Deus é bom porque não faz justiça?
De um lado, se Deus é mais sábio do que nós, o seu julgamento deve diferir do nosso sobre muitas coisas, e não apenas sobre o bem e o mal. O que nos parece bom pode então não ser bom aos olhos dEle, e o que nos parece mau pode não ser mau.
Esta é uma afirmação que é preciso ter em mente antes de estudar a bondade divina.  Talvez o conceito de “bom” seja limitado a “algo que faça feliz”. E se Deus é bom porque não faz a todos felizes? Duas razões:
1) Eliminaria o livre-arbítrio (ideia já explorada)
2) Há uma fenda muito grande entre o que “faz feliz” e o que é “bom”. Os pais para educaram os seus filhos preferem que eles “sofram” com um castigo do que passem por caminhos desprezíveis e desvairados. (cp. Hb 12:7-11)   No fundo optam por um sofrimento a curto prazo para evitar um sofrimento a longo prazo.
Ele é o oleiro e o Homem é o barro (Is 64:8), a relação criador-criatura é algo incomparável. E o “vaso” não tem o direito de questionar o oleiro durante o seu trabalho (Rm 9:20), porque se o oleiro coloca todo o seu amor e dedicação, temos de reconhecer que para uma obra prima perfeita é necessário tempo, esforço e momentos dolorosos.   Quem é o Homem para dizer que não existe um bom propósito por trás do sofrimento?
Deus é Justo. Por isso existe o céu para quem quer viver com este Deus amoroso e o inferno para quem não quer viver com Deus. Deus não força ninguém a coabitar com Ele. Sabemos que o desejo de Deus é que todos se salvem (2 Pe 3:9), mas Ele quer que o façam livremente. Deus não salva pessoas a qualquer custo (forçando as pessoas), e um inferno é “um lugar que não foi absolutamente feito para homens”.
A exigência de que Deus deva perdoar tal homem enquanto permaneça como é, está baseada numa confusão entre tolerar e perdoar. Tolerar o mal é simplesmente ignorá-lo, trata-lo como se fosse bem. Mas o perdão precisa ser tanto aceito como oferecido (…) a pessoa que não admite a culpa não pode aceitar perdão.
A bondade de Deus não pode pôr em causa a Sua justiça, e Ele fará a justiça a seu tempo, na eternidade. Lembrando que um dia Ele irá reinar com vara de ferro (Ap 12:5). E será que o Homem realmente deseja que Deus “faça justiça” imediata cada vez que ele peque? Todos seriam alvos da ira de Deus mas foi“o próprio Deus que, (…) resolveu fazer a propiciação (…) através da pessoa de Jesus Cristo e apaziguar a sua própria ira” . É a Sua bondade que permite o perdão de pecados, que permite um novo começo a todas as criaturas que foi expressa no calvário.
Êxodo 3:7-8 claramente nos mostra um Deus que ouve os clamores do seu povo e tem misericórdia daqueles que estão em sofrimento. Deus é bom e não está apático ao sofrimento da Sua criação.
CONCLUSÃO
O sofrimento e o mal são questões bastante sensíveis porque incluem uma parte muito pessoal e privativa das pessoas. Não é uma temática que eu considere que é possível discutir apenas teoricamente, porque geralmente quando alguém nos questiona sobre isso é porque já sofreu ou é próximo de quem já sofreu algo. As pessoas estão cheias de cicatrizes e feridas abertas e muitas pessoas atribuem a culpa a Deus porque não sabem a quem mais culpar. Claro que estas questões devem sempre ser respondidas apresentando um Deus que não é mau nem tem prazer no sofrimento das suas criaturas.
“A vida de Jesus significa, realmente, que ele é a fotografia de Deus, mandada aos filhos errantes, pecadores, tendo nela escrito: ‘Voltem para casa’.”
Na minha ótica a “cartada final” ou até a única que pode levar alguém a compreender esse Deus amoroso da Bíblia é apresentar o servo sofredor, que “foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados.” (Is 53:5) Esse Deus, que fez-se homem sabe o que é sofrer física e psicologicamente, Ele não está indiferente ao nosso sofrimento, porque Ele “embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tronando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fp 2:6-8).
Deve-se mostrar que o maior sofrimento do Homem é o facto de estar longe de Deus, e que sarando esse sofrimento, os outros são mais fáceis de ultrapassar, porque é nos dado uma esperança de um mundo melhor (Rm 8:18-25). Não este como conhecemos, mas um lugar sem dor e sem sofrimento (Ap 21:1-8). A justiça parece não estar ser feita, mas Deus é justo e um dia Ele irá fazes justiça a todos os que fizerem sofrer a Sua Igreja (2 Ts 1:6-12).
Ao abordar o sofrimento, o mal, e a justiça temos que ter a consciência que não possuímos a resposta para tudo, porque não compreendemos os planos de Deus, e como nos exemplos apresentados, a razão do sofrimento individual por vezes só é entendida anos depois ou na eternidade com Deus.
Oferecendo uma esperança de salvação às pessoas feridas, pode ser um caminho para ultrapassar o sofrimento que ainda fere as suas vidas.
BIBLIOGRAFIA
GEISLER, N., & BROOKS, R. (2015). Respostas aos Céticos. Rio de Janeiro: CPAD.
GEISLER, N., & FEINBERG, P. (1996). Introdução à Filosofia. São Paulo: Vida Nova.
GEISLER, N., & HOWE, T. (1999). Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão.
GITT, W. (2003). Perguntas que sempre são feitas. Bielefeld: CLV.
JONES, S. (s.d.). Cristo e o sofrimento humano. São Paulo: Metodista.
LEWIS, C. (1986). O Problema do Sofrimento. São Paulo: Vida.
LITTLE, P. (1985). Explicando e Expondo a fé. Queluz: Núcleo.
MCDOWELL, J. (1990). Respostas àquelas perguntas. São Paulo: Candeia.
REFERÊNCIAS
i  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 255)
ii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 256)
iii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, pp. 62-63)
iv  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, pp. 62-63)
v  (GEISLER & HOWE, Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia, 1999, p. 279)
vi  (MCDOWELL, 1990, p. 181)
vii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 64)
viii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 261)
ix  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 65)
x  (LITTLE, 1985, p. 141)
xi  (LITTLE, 1985, p. 141)
xii  Quando este acontece, é bastante evidente para quem peca. Ele não castiga sem advertir  (Am 3:7)
xiii (LITTLE, 1985, pp. 138-139)
xiv  (LEWIS, 1986, p. 64)
xv  (LITTLE, 1985, p. 143)
xvi  (JONES, p. 153)
xvii  (LITTLE, 1985, p. 143)
xviii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 68)
xix  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 69)
xx  (LEWIS, 1986, p. 47)
xxi  (GITT, 2003, p. 17)
xxii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 260)
xxiii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 260)
xxiv  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 260)
xxv  (LEWIS, 1986, p. 79)
xxvi  (LITTLE, 1985, p. 142)
xxvii  (JONES, pp. 154-155)
xxviii  (GITT, 2003, p. 17)
xxix  (LEWIS, 1986, p. 18)
xxx  (LEWIS, 1986, p. 13)
xxxi  (LEWIS, 1986, p. 13)
xxxii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 66)
xxxiii  (LITTLE, 1985, p. 137)
xxxiv  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, pp. 66-67)
xxxv  (MCDOWELL, 1990, p. 181)
xxxvi  (LITTLE, 1985, p. 137)
xxxvii  (LEWIS, 1986, p. 16)
xxxviii  (LEWIS, 1986, p. 24)
xxxix  (LEWIS, 1986, p. 18)
vl  (LEWIS, 1986, p. 20)
v  (LEWIS, 1986, p. 21)
vi  (LEWIS, 1986, p. 90)
vii  (LEWIS, 1986, p. 88)
viii  (STOTT, A Cruz de Cristo, p. 155)
viv  (JONES, p. 156)

“O EQUÍVOCO” DE CAMUS E OS ERROS DO MESSIANISMO

“O EQUÍVOCO” DE CAMUS E OS ERROS DO MESSIANISMO

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© João Tomaz Parreira

O entendimento da peça de teatro “O Equívoco” de Albert Camus e do desenlace final da mesma, é capaz de nos fazer pensar em um paralelismo bastante arrojado, reconheço, com os erros do Messianismo dos dias de Jesus Cristo. Em que medida é que se ensaia essa ligação, é o que veremos.
Literatura e teologia podem estar de mãos dadas, como nas obras de C.S.Lewis, ou no “Paraíso Perdido” de John Milton. Se o que estiver a ligá-las, mesmo subliminarmente, for também a historiografia bíblica.

Todavia, “O Equívoco” não tem rigorosamente nada a ver com teologia. Mas confere-nos uma ideia por contiguidade e por metáfora também. O drama, ou melhor, uma tragédia moderna, diria doméstica, foi escrita e representada em 1944. Insere-se no estudo camusiano sobre o Absurdo.
O mal entendido – como se apelida em francês-, representa um erro familiar por atitude de torpe ganância, materializada no roubo de uma fortuna e que leva ao assassinato do próprio filho da casa, que não é reconhecido quando chega.

A preocupação de Camus com este tema, parece ter sido uma evidência que o perseguia, porquanto no célebre romance “O Estrangeiro” -, talvez a obra-prima do autor argelino-francês – tem uma história similar. Na Checoslováquia, um homem partiu para fazer fortuna e regressou depois, passados anos, a casa, à família que sempre o esperou. No regresso a casa, propondo-se alugar um quarto exibe uma grande quantidade de dinheiro, porém não tendo sido reconhecido, a mãe e a irmã matam-no para o roubar.
Camus regressa à tragédia, agora em peça teatral. Uma mãe e uma irmã esperam o filho e irmão que partiu para longe. Esperam que regresse.
- Ele há-de voltar.- diz a Mãe
-Ele disse-lhe que sim? – pergunta a filha
-Disse. -responde a Mãe.
Assim começa a Cena Primeira ( Livros do Brasil, “Calígula seguido de O Equívoco”, s/data, 175).
Quando ele chega, não o reconhecem como filho nem como irmão, não repararam bem nele para o seu crime ser perfeito e não deixar traços trágicos na consciência. O importante, era o visitante ser um homem de fortuna, sozinho, ao que apuraram.
Mãe, é preciso matá-lo.- diz Marta ( a filha)
“Não há dúvida que é preciso matá-lo. – responde a mãe.
“ É mais fácil matar o que não se conhece”- afirmou a Mãe

É aqui que somos levados à aparente ambivalência histórico-bíblica da espera do Messias, por parte do judaísmo, mais do domínio político e social, do que teológico. O Filho do homem sem beleza nem formosura, aparentemente só, para um Reino que vivia apenas do ritual. E assim, foi fácil levá-lo à crucificação porque não o conheciam, quem era aquele que se fazia passar por filho de Deus e rei dos judeus?: De facto, “é mais fácil matar o que não se conhece”.
Israel aguardava um messias para um reino e não um Cristo para a salvação da alma e do corpo. Também, se quisermos ir mais longe no plano evangélico, o autor terá ido à origem da parábola evangélica do filho pródigo, embora esta tenha o desfecho feliz.
Uma boa resposta para isso, encontramo-la nos versículos 10 e 11, do conhecido “No princípio era o Verbo” do prólogo do Evangelho de João. “Estava no mundo(…), e o mundo não o conheceu.” “ Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.”
Mas tal como na peça de Camus, Jesus Nazareno, o Filho e o irmão,  foi morto. De um ponto de vista extra jurídico, como sabemos, pelas irregularidades cometidas pelos judeus, foi humanamente assassinado pela lei mosaica.
Finalmente e sem meias palavras, o próprio apóstolo Pedro, no seu discurso do Pentecostes, afirma-o: “Este Jesus Nazareno (…) tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.” (Actos, 2,23).
Por vezes, como neste caso, a Literatura coloca-se ao serviço da teologia e da historiografia bíblica e retoma da religião a sua visão do mundo. #

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

Manuel Alexandre Junior

NATAL! Palavra mágica que misteriosamente transforma as pessoas,
enfeita as cidades, enche de colorido as casas, provoca até uma
pausa nas guerras.

O que é o Natal? Recebo e dou a cada passo as Boas Festas. Espanta-
-me o movimento. As pessoas atropelam-se nas lojas e nos passeios.
São prendas, muitas prendas, para contemplar os filhos, os
pais, os avós, e os amigos. Até os presos nas suas celas, os doentes
nos hospitais, os marinheiros no coração dos mares. Mesmo os
criminosos nos seus antros de crime e as prostitutas no seu despudor
celebram o Natal. Nem sequer o materialista e o agnóstico
deixam de o celebrar.

Mas que Natal? Decerto, uma festa banal, semelhante à de todos os
anos. Uma simples festa de amizade ou de família rendilhada de
encanto e prazer. Mas o Natal é mais, infinitamente mais. Tudo isso
lhe veio por acréscimo por força de alguma inspiração pagã. Embora
importante em contexto de relações humanas e altamente cativante
para os mais pequenos, esta maneira de ver e celebrar o Natal não
pode de nenhuma maneira ofuscar o sentido último do verdadeiro
Natal.

Ainda que o Natal perdesse toda a roupagem da imaginação
humana, tudo o que de tradicional e mítico hoje o molda e enforma,
ficar-nos-iam e de forma mais vincada, os traços da sua verdadeira
essência. No fundo, a mensagem do Natal é simples, prática, redentora
e comovente. É o mistério de Deus que se desvenda. É o plano
da sua grande salvação que se concretiza. É a mensagem profética
que se cumpre. É, numa palavra, a celebração do Deus eterno que
rompeu as fronteiras da história e nos visitou aqui, neste mundo de
pecado, de Jesus Cristo que nasceu e se identificou connosco, do
Evangelho que se anunciou nas alturas desde o púlpito do Universo,
e depois desceu para se dar por nós no Calvário.

O Deus pré-existente desce, irmana-se, humilha-se, e o milagre
acontece. Maria, uma santa e piedosa mulher da nossa raça decaída,
tem um filho na sua virgindade. Ela, que até ao momento não
conhecera varão, foi visitada pelo Altíssimo e usada para trazer ao
mundo o Salvador, perfeitamente Deus e perfeitamente homem.
Alguns têm asseverado que o nascimento milagroso de Jesus foi
uma história inventada pelos cristãos primitivos, a fim de dramatizarem
as origens do seu Senhor. A esses perguntamos: como é que
a história de um bebé nascido numa estrebaria e colocado numa
manjedoura, na presença de um carpinteiro e de alguns pastores
socialmente insignificantes, terá conseguido sobreviver ante a competição
com a história da deusa Atena, divindade pagã de tão nobre
estirpe que, segundo a lenda, nasceu sem mãe, brotando espontaneamente
da cabeça de Zeus, já na sua forma adulta? Como foi
também que o nascimento virginal de Jesus se sobrepôs ao mito do
grande imperador César Augusto que, segundo se dizia, nasceu da
união da sua mãe com uma serpente, no templo de Apolo?
Passaram os mitos da grande deusa e do nobre imperador romano.
Mas o histórico nascimento virginal de Jesus permanece. Espanta-
-nos porquê? Com certeza que não, pois trata-se realmente de uma
intervenção sobrenatural e nós cremos no sobrenatural. É que no
grande filtro da história humana o que é mito passa e o que é facto
impõe-se pela sua veracidade e permanece. Passaram as fabricações
dos homens, permanece a verdade eterna do Evangelho.

Para alguns, o principal problema do nascimento virginal está na
violação dos processos naturais. Mas, se nos disserem que nunca
um ser humano nasceu sem um pai e uma mãe humanos, chamamos-
lhe a atenção para a criação do primeiro casal, Adão e Eva. O
que foi mais difícil para Deus? Qual dos dois milagres foi maior? A
criação ou o nascimento virginal de Cristo?

Claro que a Bíblia não está alheia e esta objeção generalizada, e
arma a sua solução no poder de Deus. Gabriel, ao responder a
Maria quanto ao modo do nascimento do seu filho, visto que não
conhecera varão, sentiu a sua perplexidade e respondeu: “porque
para Deus nada é impossível”. Deus tem poder para fazer aquilo que
parece impossível aos homens, aquilo que parece contrariar os processos
naturais. Mas Deus é sobrenatural.

Com efeito, o milagre biológico não é o único na vida do nosso
Salvador. Basta atentarmos para o seu milagre moral: uma vida sem
pecado, totalmente isenta do mal, vivida na pureza, na inocência,
na perfeição.

A Escritura não nos deixa dúvidas. Quando José tomou consciência
do estado de Maria, intentou deixá-la secretamente. Grave luta se
travou no seu coração. Mas durante essa histórica noite mal dormida
em que ele ponderava friamente a sua decisão, o anjo do Senhor
lhe apareceu e o tranquilizou, dizendo: “José não temas receber a
Maria tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo”
(Mateus 1:20).

Foi perante esta tomada de consciência que José caiu em si, interpretando
biblicamente o evento como consumação da mensagem
profética, e observou religiosamente a orientação recebida. Ao dar
ao primeiro fruto do ventre de Maria o nome de Jesus, ele declarou-
-se a primeira testemunha do milagre da grande salvação de Deus
na nova aliança. “José, filho de David”, disse-lhe o anjo do Senhor,
“não temas receber Maria por tua mulher, porque o que nela foi
gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o
nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”
(Mateus 1:20-21). Jesus, significa na língua hebraica: Jeová salva. O
nome em si, era uma mensagem. Sempre que José e Maria diziam o
seu nome, o evangelho era proclamado. Jesus (Joshua) era o segundo
Josué que introduziria Israel na prometida terra da salvação, no
reino de Deus.

O Messias veio realizar um ministério de redenção pessoal e espiritual.
Não como libertador político, como tantos o mal-entendiam. O
problema de base do povo de Israel não era essencialmente o da
prepotente dominação romana. Era sim, o do seu pecado. E este é o
problema de cada geração. A causa profunda do mal-estar atual no
mundo não é o antissemitismo dos árabes, o capitalismo ou o
comunismo, nos seus vários estádios de crise; é sim, o pecado no
coração dos homens. Por conseguinte, a maior necessidade dos
nossos dias é também a da grande salvação de Deus, a libertação de
Deus, a libertação da força tremenda do mal, a transformação do
homem a partir do seu íntimo, do seu interior. Foi para isso que
Jesus veio. É por isso que celebramos o Natal.

Jesus é o Emanuel, o enviado do Pai, o próprio Deus feito carne. É
‘Deus connosco’ pelo mistério do nascimento virginal. Estes dois
nomes de Cristo, aqui sublimemente anotados pelo evangelista Mateus, têm sido muitas vezes contrastados: O primeiro – Jesus –
assinala o seu ofício: Ele salva, veio buscar e salvar o que se havia
perdido. Não veio para destruir as almas dos homens, mas para
salvá-las. O segundo – Emanuel – arma a sua natureza, a sua
essência: Ele é Deus, essencial e substancialmente Deus, em forma
visível, humana, palpável, inenarrável e aceitável.

O nascimento de Cristo está intimamente ligado à sua cruz. Como
dizia Helmut Thielike: Manjedoura e cruz, ambas são feitas da
mesma madeira. Por outras palavras: Se Jesus possuísse a natureza
de José seu pai adotivo, ele carregaria também entranhadamente o
seu pecado. E se ele entranhasse o seu pecado não poderia ser o
nosso Salvador pelo sangue do Calvário. Cristo, porém, é Deus connosco
tanto na manjedoura como no Calvário; Deus a favor de nós
e ao nosso lado, dando-se na cruz como nosso Salvador pessoal e
Senhor eterno da nossa vida.

Natal como o entendo, é isto na sua essência. Conhecemo-lo pela
palavra divina, e sabemo-lo pela experiência vivida no novo nascimento.
Mais importante que celebrarmos o Natal em benefício de
nós mesmos, é celebrarmo-lo para o louvor e glória de Deus em
Cristo. Pois este é, não o nosso, mas o Seu Natal. E que interesse
teria recordarmos que Ele nasceu há dois mil anos em Belém da
Judeia, se não houvesse lugar para Ele no coração dos homens? No
meu, no teu, no nosso coração? Também no Natal demonstramos o
nosso cristo-centrismo e damos testemunho do milagre do nosso
novo nascimento espiritual. Glória, pois, a Deus na pessoa do Emanuel!

Manuel Alexandre Júnior

 

Reflexão recebida da ASPEC – Associação de Profissionais e Empresários Cristãos, com a permissão da sua divulgação e que agradecemos

 

“Crer é também pensar”

“Crer é também pensar”

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Desde muito cedo, ainda adolescente, numa fase da vida em que todas as perguntas e dúvidas se agitam dentro de nós, que comecei a assumir que a Bíblia é a Palavra de Deus e que ela não teme as nossas perguntas, e que é possível crer com a nossa razão e também com o nosso coração, de corpo, alma e espírito inteiros. Apesar da fé ir muito para lá da nossa razão, e o coração ter razões que a razão desconhece, nunca admiti que a fé fosse não inteligente ou um salto no escuro, muito menos o cultivo do obscurantismo. Não havia dinheiro para muitos livros embora em casa sempre eles tiverem um lugar privilegiado. Ainda assim socorria-me da biblioteca do liceu, e procurava ler o que lá havia sobre a matéria da fé e da razão. Nas aulas de educação moral e religiosa católica romana a que era por lei obrigado a assistir, tinha “orgulho” em ser considerado um exemplo de uma fé lúcida e instruída. Os meus pais apoiavam-me. A igreja das assembleias de Deus de que era membro em Coimbra, cidade dos estudantes, impulsionava o princípio bíblico de uma fé esclarecida e fundamentada na Bíblia. A Palavra de Deus é ela própria um estímulo à reflexão e ao questionamento. De entre os pastores que me ajudaram destaco os nomes de José Pessoa e António Costa Barata. Tive também o privilégio de pertencer a uma geração de pessoas que pensavam pela sua cabeça observando a Bíblia como regra de fé. Fui para a faculdade e apesar de alguns verem ali um perigo para a minha fé, nunca me passou pela cabeça, que a Bíblia pudesse ser abalada pelos argumentos do ceticismo.

Retirei o título deste texto de um pequeno livro no tamanho, mas grande no conteúdo e nas suas implicações, de John Stott. Paul Little tem um livro que fundamenta as minhas convicções – “Saiba o que Crê & Saiba Porque Crê”. Sonho com uma nova geração em Portugal que seja guiada e impulsionada por estes valores intrinsecamente bíblicos, devidamente preparada para apresentar a razão da esperança que tem, porque Jesus é a razão da nossa esperança que não se confina ao tempo, mas se projeta por toda a eternidade. Como Paulo podemos dizer “sei em quem tenho crido”! Outros autores de referência que não devem perder: C. S. Lewis, Josh McDowell, Norman Geisler, Ravi Zacharias, Lee Strobel, Timothy Keller, Alister McGrath, Augusto Cury, …

Hoje, já feitos os 60 anos, continuo a pensar do mesmo jeito com muitas mais provas da minha própria experiência pessoal. Tenho uma biblioteca muito mais vasta, dezenas de livros de apologética, autores contemporâneos e do passado, mas o livro por excelência é e sempre será a Bíblia. O argumento, a prova viva por excelência é a pessoa de Jesus. Não acredito que a natureza tenha criado uma inteligência do nada, apenas para chegarmos à conclusão de que não existe nenhuma inteligência, sentido, propósito e desígnio na nossa vida. Mas Jesus é a Pessoa absolutamente convincente. Modelo, Senhor e Salvador. Ele chega-me. Se quero saber se Deus existe e quem é, como lida com o sofrimento e o mal, o presente e o futuro eterno, como se relaciona connosco, quem somos e para onde vamos, etc. há um sentido sempre prioritário: JESUS (Ele não tem – é a resposta!).

 

Samuel R. Pinheiro

www.jesus-o-melhor.com

O SILÊNCIO de Martin Scorsese

O SILÊNCIO

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                O silêncio de Deus só acontece até que abramos a nossa Bíblia. Quando abrimos a Bíblia o silêncio de Deus é interrompido. Deus fala-nos sempre que O ouvimos e Ele sempre nos fala pela Palavra que nos deixou. O filme “O SILÊNCIO” não é o silêncio de Deus mas da mordaça que o autor pretende colocar-Lhe tentando encontrar um ponto de apoio na narrativa do Getsémani quando o próprio Filho de Deus levanta a Sua voz diante do Pai e nenhuma resposta parece ouvir-se. Mas o silêncio é apenas aparente. Jesus esteve sempre com o Pai. Ele conhece como mais ninguém a Palavra que o Espírito Santo inspirou. Muitas vezes Ele a citou e explicou, muitas vezes identificou a Sua concretização na Sua própria pessoa. Jesus mesmo é chamado de a Palavra, o Logos divino, o Verbo. Jesus falou da Palavra como sendo a verdade. Jesus declarou aos religiosos que eles se equivocavam por desconheciam o poder e a Palavra de Deus, que buscavam estudar a Palavra e era ela que dava testemunho a Seu respeito.  Jesus declarou que os céus e a terra passariam mas as suas palavras não, atribuindo-lhes essência divina – palavra de Deus! Foi no seio da Trindade que o plano de resgate da humanidade foi determinado e decretado. A vontade do Pai e do Espírito Santo também era a Sua. O texto não mostra qualquer relutância, mas o reforço no momento decisivo que não havia outra opção para que fôssemos salvos. Falta-nos a perceção real da condição em que nos encontramos e o que Jesus tornou possível. Entre o céu e o inferno, o amor e o perdão, a santidade e a justiça, a misericórdia e a liberdade de uma natureza totalmente entretecida pela natureza divina em imagem e semelhança e como Seus filhos; e o inferno de ódio e rebeldia, onde não cabe um pingo de amor.

                A pergunta de Jesus no Getsémani há muito que tinha uma resposta. A pergunta é colocada mais por causa de nós, do que por Sua causa. Jesus sabe que não há um plano B. Mas nós não sabemos e temos muitas dúvidas. O nosso principal pecado, ou o pecado genético reside em julgarmos que a nossa situação não é assim tão grave que tenha exigido a morte expiatória do próprio Filho Deus. Embora não tenhamos sido nós que a exigimos nem o príncipe das potestades do mal – o próprio Diabo. É Deus quem requer que assim seja. A situação só podia ser resolvida daquela forma, precisamente no ponto absoluto e radicalmente oposto que gerou a nossa rebelião e morte. O Filho de Deus em amor absoluto e radical dá a Sua vida em obediência. A vida de Deus pelas vidas de todos os homens, para que os homens tenham de volta a vida de Deus.

                O autor impõe ao cristianismo retratado um silêncio profundo da palavra do próprio Cristo. Não se ouve a citação dos evangelhos, os ensinos de Jesus, as Suas palavras são silenciadas. A Reforma ainda não tinha trazido ao Japão a Palavra de Deus e os jesuítas haveriam de ser o braço da Contra-Reforma com os seus próprios inquisidores, tendo levado muitos ao martírio. O que encontramos no filme é um cristianismo em que sobressaem as práticas do batismo, da eucaristia e de alguns símbolos muito rudimentares. A abjuração da fé é demonstrada por pisar um baixo-relevo de pequenas dimensões com uma figura tosca crucificada que é colocado no chão, e numa outra ocasião por cuspir num crucifixo.

                Recuso qualquer leitura crítica ou qualquer juízo sobre a fé dos que morrem ou dos que renegam a fé. Só Deus conhece e sabe tudo a respeito do coração. Não sei sequer se o filme merece credibilidade do ponto de vista histórico do modo como a fé era vivida naquele tempo. Partindo do princípio que sim, a única coisa que posso adiantar é que a fé evangélica não é o que ali se apresenta na sua verdadeira essência. E não posso deixar de notar a ausência da Bíblia como a Palavra de Deus.

                O filme narra a viagem de dois padres portugueses, Rodrigues e Garrpe, ao Japão convictos de que não podia ser verdade que o seu professor e confessor tivesse renegado a fé como constava. Depois de um contacto com comunidades que viviam a sua fé de forma clandestina acabam às mãos dos homens do inquisidor. Este estrategicamente conduz a perseguição usando todos os meios para que os padres abandonem a fé, e alcança êxito fazendo-os assistir ao martírio dos que mesmo tendo já renunciado, só serão poupados se eles fizerem o mesmo. O padre Garrpe atirasse à água para morrer juntamente com um grupo que é morto por afogamento. E é Rodrigues que resistindo a todas as investidas é finalmente colocado diante do padre Ferreira, seu mentor. Aí este tenta convencer o seu discípulo a desistir com vários argumentos que hoje encaixam que nem uma luva na cultura pós-moderna. Afinal de contas cada um tem a sua forma de compreender e entender a Deus, o Cristo pelo qual morrem os cristãos é outro Cristo, até por Francisco Xavier levou-os a entender o Filho de Deus como o Sol que nasce todos os dias, ao contrário de Cristo que ressuscitou passado três. O inquisidor-mor também não lhe fica atrás defendendo que existe uma árvore para cada solo e outras subtilezas que põem em causa a existência da VERDADE e da grande comissão que Jesus deixou à Sua Igreja. A parte final adensasse num debate subtil e por vezes irónico, em que o relativismo e o pluralismo são dirimidos sob as sombras da intolerância, do terror, da tortura mais cruel. Não é muito notório um argumento que tem um certo peso e que consiste na ideia de que o que movia a chamada “evangelização” era mais um colonialismo cultural e económico, embora me parece que ele aparece de uma forma disfarçada e diluída na referência a Espanha, Portugal e Holanda, em que a Europa procura dominar aquelas paragens e daí retirar os seus lucros.

Como não poderia deixar de ser não podia faltar a esta tentativa de persuasão que acaba por parecer lograr êxito, a ideia de que Deus é o mesmo em todas as confissões religiosas, até mesmo quando uns defendem que Deus é a coisa criada e se confunde com a natureza (panteísmo) e os que afirmam com a Bíblia que Deus é uma pessoa em que a criação e o Criador nãos e confundem e do que Jesus é o expoente máximo e inultrapassável de evidência. Na verdade não é possível colocar tudo dentro do mesmo saco. Há uma diferença intransponível entre as conceções humanas de Deus e a revelação divina na pessoa de Jesus Cristo, e que está de forma sublime apresentada na Bíblia e o Espírito Santo torna real e vivida perante a nossa mente, coração e em nosso espírito.

Aparece igualmente ao longo do filme uma personagem que constantemente volta para se confessar, atormentado pelas seus constantes recuos quando os outros sofrem o martírio e a morte por crucificação dentro de água, até que com o subir da maré acabam por morrer afogados, os que são afogados amarrados numa esteira, os que são queimados vivos e, talvez o mais infame de todos os martírios os que são colocados de cabeça para baixo, pendurados pelos pés e com a cabeça dentro de um esgoto e aos quais fizeram um pequeno lenho na cabeça para que gota a gota de sangue se vão esvaindo. Já vi algumas exposições de meios de tortura, mesmo as que a inquisição perpetrada pela igreja dominante infligiu aos chamados apóstatas, à revelia do ensino bíblico; e sempre fico estupefacto pela crueldade da natureza humana mesmo quando advoga que o faz em nome de Deus, o que é de todas a maior blasfémia. No entanto ateus e agnósticos, não foram em muitos momentos da história menos sanguinários e sádicos.

Jesus de um modo muito claro sempre se opôs a esta inclinação malévola do uso da força, mesmo quando Ele, o Filho de Deus, o Criador na forma da criatura, estava em causa e sofreu como nenhum outro, porque o Seu sofrimento não foi apenas físico, mas espiritual ao tomar sobre Si a iniquidade de todos nós. Lembremos o ensino de Jesus no evangelho de Lucas: “João disse a Jesus: ‘Mestre, vimos um homem a expulsar espíritos maus em teu nome e proibimo-lo, porque não é dos nossos.” Mas Jesus corrigiu-os: ‘Não proíbam isso, porque quem não é contra nós é um dos nossos.’ Como já estava a chegar à altura em que havia de ser levado deste mundo, Jesus tomou a decisão de ir a Jerusalém. Mandou à frente alguns mensageiros e eles foram a uma aldeia dos samaritanos para prepararem a chegada de Jesus. Mas como os da aldeia perceberam que ele ia para Jerusalém, não o receberam. Então os discípulos Tiago e João, ao verem aquilo, disseram: ‘Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os destruir?’ Mas Jesus voltou-se para eles e repreendeu-os. E foram para outra aldeia.” (Lucas 9:49-56 – BPT). E como não podia deixar de ser o ensino de Jesus no chamado Sermão do Monte e que é de uma clareza total: “Ouviram o que foi dito: Amarás o teu próximo e desprezarás o teu inimigo. Mas eu digo-vos: Tenham amor aos vossos inimigos e peçam a Deus por aqueles que vos perseguem. É deste modo que se tornarão filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz brilhar o Sol tanto sobre os bons como sobre os maus, e faz cair a chuva tanto para os justos como para os injustos. Se amarem apenas aqueles que vos amam que recompensa poderão esperar? Não fazem também isso os cobradores de impostos? E se saudarem apenas os vossos amigos, que há nisso de extraordinário? Qualquer pagão faz o mesmo! Portanto, sejam perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito.” (Mateus 5:43-48 – BPT).

Para quem conhece a Bíblia não é novidade que os seus nomes venham a ser mudados e sejam dados como maridos de mulheres cujos esposos morreram, adotando igualmente os seus filhos. Quando Rodrigues morre fica-se com a impressão de que terá sido a sua “companheira” que, sem verter uma lágrima, terá colocado um dos toscos crucifixos entre as suas mãos escondido, sendo que o corpo há-de ser queimado e as suas cinzas lançadas às aguas, para que nenhum dos seus membros venha a tornar-se uma relíquia e a ser venerado.

                Não tenho a certeza mas julgo que o mentor apóstata chega a afirmar que o próprio Cristo recuaria na Sua morte se soubesse que ela implicaria a morte dos Seus seguidores. Quanta ignorância a respeito das palavras de Jesus no próprio evangelho falando aos Seus discípulos acerca do que os esperava.

                Não concordamos com quem defende que “O filme de Scorsese dava um tratado teológico” (revista VISÃO, 19 janeiro 2017, p. 122) porque o filme desenvolve-se de costas voltadas para o texto de onde a teologia deve brotar. Esquecer a Bíblia é negar o cristianismo. Só existe fé cristã no solo sagrado da Escritura. É isto precisamente que a Reforma vem reivindicar a partir do próprio texto. É isto que a Contra-Reforma católica romana vem por meios igualmente violentos, colocar em causa. No ano de 2017 celebram-se os 500 anos da reforma protestante. Não é por acaso certamente que este filme agora surge. Mas a história é o que é. E a Bíblia hoje está traduzida amplamente e está disponível para que cada um possa ler e crer de forma consciente e não ignorante. Quem conhece o texto bíblico consegue rapidamente encontrar as diferenças entre a igreja neotestamentária, a igreja primitiva, a igreja dos primeiros anos, os que foram martirizados e o que encontramos em o SILÊNCIO.

                O filme é profundamente atual, porque hoje, por meios ainda mais subtis pretende-se diluir a fé cristã. Muitos dos que se apresentam enquanto tal manifestam uma profunda ignorância das palavras e dos ensinos de Jesus. Existem igrejas que se apresentam como evangélicas e, portanto, herdeiras do movimento da reforma e que superaram em muito a superstição, as tradições pagãs, o comércio das almas, o negócio da religião, o fausto dos líderes num escândalo grotesco, que suscitaram o movimento reformador. O magico-sacramentalismo chega a atingir foros verdadeiramente absurdos, chocantes e ridículos.

                500 anos depois da reforma precisamos levar a sério um dos seus lemas que consiste numa igreja reformada sempre em reforma, sempre vigilante para se pautar pelo ensino da Bíblia Sagrada. Hoje necessitamos de vincar as várias “solas” que a reforma enunciou de acordo com o texto bíblico – sola scriptura, sola gracia, sola fide, solo Cristo, Soli Deo Glória.

                Nos dias que correm de comodismo, apatia, indiferença, e sem chama e compromisso, é escandaloso que alguém esteja disposto a morrer pela sua fé, muito menos que morra por causa de crer em Deus, de reconhecer Jesus como único SENHOR e SALVADOR. Hoje é intolerável que se assuma que Jesus Cristo é único, singular e supremo. Mas na verdade é o próprio Jesus que o diz acerca de Si mesmo e outra coisa não pode ser se é efetivamente quem Ele diz que é – o EU SOU entre nós. Com tudo isto vai na enxurrada a condição humana decaída, o pecado e a corrução geral de toda a humanidade, a necessidade da morte de Jesus para expiação, redenção, justificação, resgate e reconciliação de todos os homens com Deus mediante o arrependimento e a conversão, para um nova vida. Só por Jesus a morte vale a pena, porque ela é vida e glória eternas. Não se procura o martírio, não se pode usar de linguagem desabrida ou de actos provocatórios, porque não foi assim que aprendemos de Jesus a fé. Hoje, como no passados, milhares de cristãos expõem as suas vidas por causa de Cristo única e exclusivamente. Não têm fitos políticos, nem de domínio cultural, muito menos de proveitos económicos. Apenas querem viver a sua fé na relação pessoal com JESUS, e terem a liberdade de O partilharem. Porque na verdade em Jesus temos vida eterna, relação pessoal com Deus, amor que se recebe e dá, e sem sombra de dúvida, este JESUS eu desperta em nós esta fé, conduz-nos a uma sociedade melhor. Aqui poderão existir momentos de perseguição, mas a glória porvir não é para comparar com os sofrimentos presentes. Oremos pelos são perseguidos, e saibamos nós aproveitar a liberdade não deixando que ela descaracterize ou dilua a nossa fé e compromisso com Aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida – JESUS CRISTO!

 

                Fiquemos com algumas das palavras de Jesus no evangelho de Mateus:

                “Felizes serão quando vos insultarem, perseguirem e caluniarem, por serem meus discípulos! Alegrem-se e encham-se de satisfação porque é grande a recompensa que vos espera no céu. Pois assim também foram tratados os profetas que vos precederam.” (Mateus 5:10-12 – BPT).

 

                “Eu vos envio como ovelhas para o meio dos lobos. Portanto, sejam cautelosos como as serpentes e simples como as pombas. Tenham muito cuidado! Haverá homens que vos levarão aos tribunais e vos hão-de espancar nas suas sinagogas. Vão ter que comparecer diante de governadores e de reis, por minha causa. Aí darão testemunho de mim, a eles e aos pagãos. Quando vos entregarem às autoridades não se preocupem como hão-de falar, nem com o que hão-de dizer. Nessa altura, Deus vos dará as palavras, pois não serão vocês a falar, mas sim o espírito de Deus, vosso Pai, que falará por vosso intermédio.

                Haverá irmãos que hão-de entregar os seus próprios irmãos à morte, e pais que hão-de entregar os próprio filhos. E haverá filhos que se hão-de revoltar contra os pais e os hão-de matar. Serão odiados por toda a gente por minha causa, mas aquele que se mantiver firme até ao fim será salvo.

                Quando vos perseguirem numa cidade, fujam para outra. Garanto-vos que o Filho do Homem há-de vir antes de terem ido a todas as cidades de Israel.

“Nenhum discípulo está acima do seu mestre, nem um servo acima do seu senhor. Basta ao discípulo que venha a ser como o seu mestre e ao servo como o seu senhor. Ora se ao dono da casa já chamaram Belzebu, que nomes hão-de chamar aos outros membros da família!”

                Não tenham medo deles! Não há nada encoberto que não venha a descobrir-se, nem há nada escondido que não venha a saber-se. O que eu vos digo em segredo, digam-no à luz do dia, e aquilo que vos é dito ao ouvido, apregoem-no em cima nos telhados. Também não devem ter medo dos que matam o corpo mas não podem matar a alma. Temam antes a Deus que pode fazer perder tanto o corpo como a lama no inferno. Não se vendem dois pássaros por uma moeda? No entanto, nem um só deles cai ao chão sem o vosso Pai querer. Até os cabelos da vossa cabeça estão contados! Não tenham medo! Vocês valem mais do que muitos pássaros.”

                “Todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu farei o mesmo por ele diante do meu Pai que está nos céus. Mas àquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.”

                “Não pensem que vim trazer a paz à Terra. Não vim trazer a paz, mas a guerra. Vim, de facto, trazer a divisão entre filho e pai, filha e mãe, nora e sogra: os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria família”.

                Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim; e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. Aquele que não pegar na sua cruz e não me seguir, não é digno de mim. Aquele que pensa que tem a sua vida segura, perde-a, mas aquele que perder a sua vida por minha causa é que a tem segura.”

(Mateus 10:16-39 – BPT)

 

                “Ai de vós, doutores da lei e fariseus fingidos! Constroem os túmulos dos profetas e fazem belos monumentos aos mártires, e declaram: ‘Se tivéssemos vivido nos tempos dos nossos antepassados, não os teríamos juntado a eles para matar os profetas!’ Desse modo confessam que são descendentes daqueles que assassinaram os profetas. Acabem então o que os vossos antepassados começaram!

                Serpentes! Raças de víboras! Como é que hão-de escapar à condenação do interno? Por isso eu vos mandarei profetas, sábios e mestres; mas vocês hão-de matar alguns e crucificar outros, espancar alguns nas sinagogas, perseguindo-os de cidade em cidade. Portanto,, é sobre vocês que há-de cair o castigo pela morte de todos os inocentes, desde Abel, o justo, até Zacarias, filho de Baraquias, que vocês assassinaram entre o tempo e o altar. Fiquem sabendo que é sobre esta geração que vai cair o castigo por tudo isto!”

                Jesus continuou: ‘Oh, Jerusalém, Jerusalém! Matas os profetas e apedrejas os mensageiros que Deus te envia! Quantas vezes eu quis juntar os teus habitantes como a galinha junta os pintainhos debaixo das asas! Mas tu não quiseste. Agora, a tua casa vai ficar abandonada! E digo-vos que não voltarão a ver-me até à altura em que disserem: ‘Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!’” (Mateus 23:29-38 – BPT) 

 

Samuel R. Pinheiro

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EU CREIO QUE DEUS EXISTE

EU CREIO QUE DEUS EXISTE

Para mim não há como não crer em Deus diante de Jesus Cristo!

 SamuelPinheiro 6

                Poderia dizer que não posso deixar de acreditar que Deus existe diante do Universo, do sistema solar, do planeta Terra em que vivo; diante de um nascer ou pôr-do-sol, de um grão de areia ou de um átomo. Não posso deixar de crer em Deus diante de mim mesmo e dos meus semelhantes, de cada célula do meu corpo, do meu cérebro, do meu coração, dos meus olhos – de todo o meu corpo, da minha capacidade de pensar, de sentir, de escolher, de decidir. Podia e posso dizer que não posso deixar de crer que Deus existe perante o Livro dos livros – a Bíblia Sagrada!

                Mas tudo isso é pouco diante da pessoa incomparável, única, singular, exclusiva que é Jesus Cristo, e cuja História eu leio no Livro de Deus. Ele é o Verbo divino, o Logos, o Verbo encarnado, o Criador que tomou a forma humana.

                - O Seu nascimento é único no ventre de uma virgem por obra e graça do Espírito Santo, que aceita o veredito divino tendo certamente alguma consciência do que isso causar à sua reputação e do seu noivo. Jesus nasce num estábulo porque os pais não encontraram para ele lugar numa estalagem, embora estivessem preparados para encontrar o melhor lugar para o bebé que iria nascer. Magos vieram do Oriente porque viram a Sua estrela, quando os religiosos e a classe política em Jerusalém ignoravam o assunto. Pastores no campo foram alertados para o acontecimento e vieram adorá-lo.

                - A sua vida é absolutamente singular sempre voltada para abençoar todos os que Dele se aproximavam, provocando a mente e o coração dos que O interpelavam, desafiando cada um dos que a ele se dirigiam para uma nova vida de amor a Deus e ao próximo. Fazendo milagres mesmo quando não fora interpelado para tanto. A sua vida foi vivida na dimensão do poder de Deus e manifestando a Sua glória. Nada do que a desobediência, o pecado, as circunstâncias e as situações, tenham gerado, paralisava o Seu amor e o Seu poder. Tudo servia para que Deus fosse glorificado pela manifestação da Sua graça.

                - A Sua morte substitutiva, em que Deus na dimensão humana, assume sobre Si próprio toda a maldade, e nos alcança um perdão pleno. Difícil, senão mesmo impossível de entender pelas nossas mentes tacanhas e limitadas. Para nós o pecado é um simples e leve desvio de uma rota pouco definida. Mas para a Trindade é a negação da essência da natureza divina com que todas as coisas vieram a existir. Não havia plano B para Deus. O pecado só podia ser revertido, não com uma absolvição ou indulto que manteria tudo na mesma, mas por uma intervenção radical (nas raízes, no âmago do próprio problema). Deus estabelece que essa solução passa pela vinda do Seu Filho em carne pela Sua morte a nosso favor. Nós O matámos na nossa cegueira desobediente e rebelde, e tendo morrido de livre e espontânea vontade, mata a morte pela Sua morte ressuscitando de entre os mortos.

                - A Sua ressurreição que nos dá a certeza de uma vida eterna, de uma nova realidade, num corpo glorificado e sem mais lágrimas, morte, dor ou sofrimento. A vitória é-nos concedida para não vivermos mais à mercê do pecado. Já não temos que viver na agonia de tentar resolver a nossa condição por nós mesmos. A nossa riqueza ou a nossa pobreza não o podem almejar. É o próprio Deus que o realiza. Repugna-nos? Ofende-nos? Choca-nos? Deslumbra-nos? Ofusca-nos? Tudo pode acontecer! Mas está realizado e assumido, reivindicado e tacitamente determinado. Jesus morreu e ressuscitou. Nele recebemos a vida de Deus que permanece eternamente.

                - A Sua ascensão com a garantia de um novo paracleto, o Espírito Santo que estaria connosco e em nós. Voltou para o Pai de onde veio, mas enviou o Espírito Santo para viver dentro de nós. Agora podemos ser templo de Deus. Não é em santuários de pedra que Deus almeja fazer morada, mas em homens e mulheres de carne e osso. Pequenos, frágeis, vulneráveis, impotentes, sujeitos ao desgaste dos anos; ainda assim é nesses vasos de barro que Deus quer fazer a sua residência permanente.

                - A Sua promessa de segunda vinda e de uma nova era que incendeia a nossa esperança e não nos atola nas nossas incapacidades, impotências e não nos exclui de um envolvimento determinado, sem depender de nós em última instância.

                - A Sua influência na História como nenhum outro, ela não seria o que foi apesar de tudo o que carrega de violência, morte e destruição.

                - A perseguição voltada para Ele ainda hoje na pessoa dos Seus seguidores, e da Sua Igreja.

                - Os erros e as falhas, os crimes cometidos em Seu nome, mas que apenas ressaltam a Verdade da Sua Pessoa.

                - Dos Seus ensinos de uma forma de vida de acordo com a natureza do Criador, e demonstrada na Sua própria existência entre nós. Dando também a perceber que tudo isso só pode acontecer a partir de uma transformação de fundo, um novo nascimento, uma mudança que vai gradualmente expressando-se dando lugar ao Espírito e não à velha natureza, às estruturas do mal e às forças espirituais da maldade.

                - Da Sua vida inigualável, sempre em consonância com a vontade do Pai e do Espírito Santo.

                - Dos Seus relacionamentos acolhendo os que eram rejeitados, marginalizados, excluídos. Amando os que os religiosos consideravam que Deus nunca poderia amar e aceitar, muito menos conviver com eles. Por isso no momento da sua morte, quando expirava na cruz, o véu do templo que separava o lugar santo do lugar santíssimo, onde só o sumo-sacerdote uma vez por ano poderia entrar. Agora com ousadia podemos entrar na presença de Deus onde quer que nos encontremos, adorando-O em espírito e em verdade. O maior de todos os crimes que representa na essência o que o pecado é – o homem matando Deus feito Homem, o Justo, perfeito, completo, sem falhas… recebe da parte da Vítima inocente um pedido de perdão: “Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Neste perdão todos estamos incluídos. O pecado foi perdoado, os crimes foram perdoados. Só não somos perdoados se rejeitarmos o perdão. A nossa condenação não está na ausência de perdão, mas na nossa não aceitação. Porque a todos quanto O recebem, deu dá-lhes o poder de serem filhos de Deus aos que creem no Seu nome.

                - Da Sua absoluta e perfeita dependência do Pai no mover do Espírito Santo – confiança incondicional, e que é patenteado na Sua plena tranquilidade, paz e segurança.

                - Da Sua amizade com os marginais, samaritanos, pecadores e publicanos –a escória, os que eram tidos como o lixo da sociedade, os mal comportados.

                - Da Sua frontalidade perante os religiosos na sua hipocrisia e arrogância.

                - Do modo como lidou com toda a oposição, ofensa, maus tratos, provocação.

                - Das declarações estonteantes que fez a Seu próprio respeito e que em outro qualquer seria motivo de doença mental.

                - Dos milagres que preencheram a Sua vida mostrando que para Deus não existem impossibilidades, acalentando a fé na Sua pessoa na certeza de que ainda hoje acontecem, e como antecipação de um novo futuro em que o milagre estará sempre presente, porque os efeitos da maldade desaparecerão.

                - Da Sua excelência e perfeição ética e moral sem arrogância, sem em nada diminuir a Sua graça, misericórdia e amor incondicional.

                - Dos convites que nos dirigiu para o novo homem, uma nova vida, um novo nascimento, um novo começo, mudança e transformação.

                Não posso deixar de crer na existência de Deus e de crer nesse Deus que se deu a conhecer em Jesus Cristo, porque Nele e por Ele somos reconciliados com a natureza excelsa e gloriosa Dele mesmo e na qual fomos plasmados no início, quando o homem e a mulher foram criados.

                Se queremos saber que Deus existe escrutinemos a Sua vida.

Se queremos saber quem Deus é mantenhamos um relacionamento próximo com Ele na narrativa da Sua vida pelos evangelhos e no Espírito Santo que os inspirou.

Se queremos saber como Deus olha a dor e o sofrimento acompanhemos a Sua vida entre nós.

Se queremos saber como Deus age em relação a todos nós como pecadores que continuamente erramos o alvo da nossa vida, prestemos atenção à Sua relação e proximidade com o Pai, na plenitude do Espírito Santo.

Se queremos saber como podemos e devemos viver, mantenhamos a Sua vida continuamente diante de nós. Deus na forma humana viveu nas nossas condições a vontade expressa e definida pela Sua natureza, sem transigir, mas sem qualquer laivo de arrogância.

 

“Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (João 1:18 – BPT).

“Porque Deus está totalmente presente em Cristo, de forma corporal, e ele tornou-vos completos naquele que é a cabeça de todos os poderes e autoridades.” (Colossenses 2:9 – BPT).

“Até á vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, guarda sem defeito nem mancha o que te foi mandado. Na devida altura ele há-de aparecer pelo poder daquele que é bendito, o único soberano, o Senhor dos senhores. É ele o único que não morre. Ele vive rodeado de uma luz que ninguém consegue penetrar. Ninguém o viu nem poderá ver. A ele seja dada honra e poder para sempre. Ámen.” (I Timóteo 6:14-16 – BPT).

“Sem fé ninguém pode agradar a Deus. Quem se aproxima de Deus deve acreditar que ele existe e recompensa os que o procuram.” (Hebreus 11:6 – BPT).

 

 

Samuel R. Pinheiro

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PORQUÊ SE DEIXARAM MORRER?

PORQUÊ SE DEIXARAM MORRER?

JTP17

Ler ou ouvir o poema cantado “The End” da mítica banda norte-americana The Doors, apesar da sua estrutura metafórica e da sua semiótica, deixa-nos uma simples e triste mensagem: a morte é a nossa única amiga.
Parece uma canção desesperada, mas é aceite como natural na voz neutra, sem emoções, de Jim Morrison (1943-1971), jovem mito sepultado no cemitério Père Lachaise, em Paris.
“Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que resta, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim”
Fica-nos a questão para reflectir, por que razão jovens idolatrados pela juventude se deixaram morrer, ou pelo suicídio ou pela adição às drogas? Perde-se no meio do cântico, que é mesmo em estilo de rock psicadélico ou progressivo, conforme os especialistas, um apelo que passa despercebido no caudal do poema escrito por Morrison: “
“Desesperadamente a precisar da mão de algum estranho
Em uma terra de desespero”

Jim Morrison, que usou nos seus versos referências edipianas ( do mito Édipo, de Sófocles), divindade do rock introspectivo dos anos 60/70,  acaba por morrer de ataque cardíaco derivado do abuso das drogas ácidas, LSD, heroína, etc., a morte psicadélica e caleidoscópica dentro do cérebro.

Em 1969, o músico afirmava: “Toda a vez que escuto “The End”, ela significa algo mais para mim. Começa como uma simples canção de despedida provavelmente para uma namorada, mas eu a vejo como uma despedida para um tipo de infância. Eu sinceramente não sei.”

Jim transpunha para as suas músicas toda uma tendência freudiana para analisar os seus traumas de infância e, sobretudo, de juventude. Los Angeles não era um lugar fácil.

Antes dele e trilhando o mesmo caminho, do “único amigo, o fim”, outro ícone da minha juventude: a cantora Janis Joplin (1943-1970), a maior interprete de blues e da soul music, dos anos 60, também se deixara morrer, isto é, foi morrendo aos poucos.
Corre na web, ligado a uma das suas interpretações mais célebres (“Me & Bobby McGee”) um cartaz sobre a cantora que diz:

“Janis Joplin (1943-1970) Drugs took her at 27. Please make a different choise” (“As drogas levaram-na aos 27 anos. Por favor, faça uma escolha diferente”)

Tal não escolha ou escolha errada integrava alguns dos seus cânticos em forma de Blues mais celebrizados e que ainda hoje, com 70 anos, ouço com um nó no coração, não apenas pela sua voz, mas porque se sabe que, na sua adolescência fez parte de um coro de igreja.
A sua vida desde aí não foi um chão de flores, embora se vivesse nos anos 60 a era das “flores no cabelo” dos hippies californianos.
A revista da especialidade “Rolling Stone”, de Agosto de 1970, escrevia que a cantora se desgastara embora animadamente, como quem “dança à chuva”.

Um ou dois exemplos. A letra/ poema “Cry Baby” não é só um poema de amor, mas é um texto que, na voz da cantora, reflecte a dor de uma separação com um pedido premente:

“Querido, bem-vindo de volta a casa / Venha e chore, chore, querido” É uma canção em que a estrada termina, significando isso o que significar na vida, sobretudo quando a dada altura se ouve/lê:
“Querido, venha para a sua mãe agora / Se você quer ter o amor de uma mulher ”.(“I want you to come on, come on to your mama now / And if you ever want a little love of a woman”)
Há uma outra letra/poema de amor desesperado em que o coração de mulher, mulher-companheira, mulher-mãe, se vai desfazendo. “Piece of My Heart” na voz de Janis fala da tristeza que contradizia a exuberância da moda hippie das vestes da cantora.  Começa a conhecer-se um coração destroçado.
“Leve outro pedacinho do meu coração agora, querido! / Oh, oh, quebre-o!
Quebre outro pedacinho do meu coração agora, querido, sim, sim”
Ela trocaria todos os seus amanhãs por um único ontem. Aos 27 anos não pode mais, a sua vida desbotada como as suas jeans. Apesar da liberdade não ser mais do que uma palavra que não se podia perder, Joplin suicidar-se-ia em 1970, ou antes, seria vítima de overdose de heroína.
As drogas continuariam a fazer as suas vítimas. Poderia ter escrito sobre tantos outros, como Kurt Cobain, saudado como “ porta-voz de uma geração”, da banda “Nirvana”, que aos 27 anos também se suicidou com um tiro de espingarda.
Relembro aqui, finalmente, Amy Winehouse, a qual se despedaçou – é o termo que me ocorre – da sua beleza e da sua grande voz, para uma morte igualmente aos 27 anos, engolida pelas drogas e o abuso do álcool, foi encontrada morta na sua casa de Londres, em 2011.
No livro bíblico Eclesiastes, que, de um modo especial em relação a toda a Bíblia Sagrada, é de per se um roteiro de boa vivência e de boa vizinhança com Deus, somos ajudados há milénios a entender-nos ontologicamente e o que podemos obter da vida, do ponto de vista da praticidade do nosso quotidiano, porque não se está na vida por acaso, embora o poeta Álvaro de Campos desse a entender que sim.
O Pregador, sem uma Teologia explícita, abre-nos, por exemplo, todo um conjunto de aplicações do tempo no Tempo e toda uma regra básica de sobrevivência, ligada aos valores com Deus. Leia-se o Eclesiastes, onde o bem da juventude é primacial. “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias”

© João Tomaz Parreira

“Na casa de meu Pai há muitos lugares”

“Na casa de meu Pai há muitos lugares”

SamuelPinheiro 2016out

Um dia vamos partir. Não temos residência permanente aqui. Estamos de passagem. Somos forasteiros e peregrinos. A nossa hora chegará impreterivelmente. Não há como contornar ou escapar. Apenas escaparemos à morte se Jesus vier antes. Este é o último inimigo a ser defrontado, mas é já um inimigo vencido porque Jesus morreu e ressuscitou. Isso significa que a morte já não tem poder sobre nós. O apóstolo Paulo exulta de modo apoteótico no capítulo quinze da primeira carta que o Espírito Santo inspirou para ser remetida em primeiro lugar à igreja na cidade de Corinto: “Ó morte, onde está agora a tua vitória? Onde está o teu poder de matar? O poder da morte é o pecado e o que dá poder ao pecado é a lei. Graças a Deus que nos deu a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo!” (versículos 55 e 56 – BPT).
A declaração que nos serve de título foi proferida por Jesus Cristo. Na realidade só Ele a podia fazer considerando a Sua identidade como o Filho de Deus, o próprio Deus entre nós como o Homem. A morte não faz parte dos planos futuros de Deus, nem dos Seus planos criativos. Ela é a antítese de Deus. Deus é vida. A desobediência, o pecado, é que introduziram a morte na raça humana. O homem não foi criado para morrer, mas para viver a vida de Deus para sempre. Jesus veio porque nenhum homem  podia destruir o poder da morte. Só Ele estava em condições de a destruir e foi isso que Ele fez. Mas ela não podia ser destruída por decreto, tinha que ser destruída passando por ela, experimentando-a. Deus não pode estar sujeito à morte. Não sendo gerado em pecado e não tendo nunca cometido pecado, a morte não tinha domínio sobre Jesus e Ele não podia ser morto. Só Ele se podia sujeitar de vontade própria à morte, e ainda assim, segundo a determinação divina, suportando sobre Si todo o nosso pecado. Por isso desde esse momento, o pecado e a morte foram destruídos. O perdão está ao nosso alcance, é-nos oferecido e com ele a libertação da pena de morte.
Na morte estaremos sozinhos, ninguém estará lá para nos acompanhar, a não ser que entreguemos antecipadamente a nossa vida nas mãos de Jesus nosso Criador e Redentor, Salvador e Libertador. Por isso David, o Salmista, no Salmo vinte e três, inspirado pelo Espírito Santo e ainda antes da vinda de Jesus á terra na Sua missão salvadora, pode declarar em fé: “Ainda que eu atravesse o vale da sombra da morte, não terei receio de nada, porque tu, Senhor, estás comigo. O teu bordão e o teu cajado dão-me segurança.” (verso 4 – BPT)
Não gosto da morte. A morte é uma afronta, um “ente” estranho, um intruso. A partida dos meus próximos, dos meus entes queridos e amigos perturba-me, é um momento doloroso a separação. A Bíblia não esconde a dor causada pela morte de várias personagens, não esconde inclusivamente o facto de que Jesus chorou diante do sepulcro do seu amigo Lázaro, que logo haveria de trazer de volta à vida. Só o Criador para sentir como nenhum outro a perturbação causada na Sua obra pelo pecado. O Novo Testamento não cala a dor e as lágrimas em um ou outro momento da morte de alguns dos seguidores de Jesus. Mas essa dor perfeitamente compreensível é acompanhada de uma gloriosa esperança. No episódio da ressurreição de Lázaro Jesus declarou a Marta, uma das irmãs do defunto: “Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, mesmo que morra, há-de viver. E todo aquele que está vivo e crê em mim, nunca mais há-de morrer. Crês tu nisto?” (João 11:25,26 – BPT)
Quando Jesus proferiu as palavras que usamos como título neste editorial, Jesus começa por sossegar o coração dos Seus discípulos e trazer-lhes ânimo e conforto, fé e esperança: “Não estejam preocupados. Uma vez que têm fé em Deus, tenham também fé em mim! Na casa de meu Pai há muitos lugares; se assim não fosse, ter-vos-ia dito que vou preparar-vos um lugar? Eu vou à vossa frente para vos preparar lugar. E depois de vos ir preparar um lugar, hei-de voltar para vos levar para junto de mim, de modo que estejam onde eu estiver.” (João 14:1-3 – BPT) A razão das razões pra crermos em Jesus é a vida e não a morte. Crer em Jesus significa vida e ainda mais vida, para usar a expressão que Eugene H. Peterson, usa na paráfrase A MENSAGEM (Filipenses 1:21). Como escreveu o apóstolo Paulo acerca de si mesmo, nós também em Jesus, podemos dizer o mesmo: “De facto, para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho” (Filipenses 1:21). Só em Jesus o além deixa de ser manipulado pelas trevas, para ser iluminado pela Sua vida e pelas Suas palavras.
Samuel R. Pinheiro
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