A PRIMEIRA FRASE PERFORMATIVA NA BÍBLIA

A PRIMEIRA FRASE PERFORMATIVA NA BÍBLIA

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© João Tomaz Parreira

Não existia ainda o homem, mas Deus preparou tudo para o receber, a partir da Sua linguagem. É esta, a linguagem, e o pensamento que distinguem o homem, criado por Deus, das outras criaturas animais.

“Então Deus disse: “Que a luz exista!” E a luz começou a existir” (Génesis, BPT).

Experimentar ler esta estrutura sintáctica, ou dito de um modo mais acessível, narrativa breve do início do primeiro capítulo do Génesis, apenas como uma narração simples para uma sequência de acontecimentos, como se de uma “reportagem” se tratasse, é não perceber o alcance teleológico da frase.
É óbvio que os modernos instrumentos da Linguística nos permitem hoje outras análises bíblico-gramaticais.
O ateísmo poderá ver ali uma explosão, um “big bang” que originou os mundos a partir da luz. O crente pode ver um enigma, sim, mas enigma revelado de Deus Criador. Os críticos do Velho Testamento, teologia e ciências da linguagem à parte, ainda assim tomarão a diegese da frase como uma metáfora de uma vontade que é do domínio do Invisível.
Poderíamos resumir, para os que contestam, a uma observação de um filósofo idealista como Wilhelm Dilthey (1833-1911) : “A religião, a mística precede a filosofia”.  E a linguística, também. Deus começou também a gramática da língua. Aquela fala divina é uma frase seminal.
A expressão imperativa do Criador poderia ter ficado apenas retida na actividade mental de Deus, mas o pensar divino teve uma acção correspondente. E toda a Bíblia é a Acção de Deus interveniente na Humanidade e na História do Homem.
Ver uma significação onde outros vão ver apenas um acontecimento, é também a lição da Semiologia sobre aquela primordial afirmação divina.

Foi um filósofo inglês, John Austin (1911-1960) que teorizou sobre o acto da fala, uma função da linguagem que baptizou de “performativa”. Isto é, “quando dizer é fazer”.
A sua obra mais significativa “How to Do Things with Words (Como fazer coisas com palavras), ajuda-nos a perceber aquela sublime linguagem performativa de Deus.
A frase divina não foi uma expressão de constatação, foi afirmativa e criadora. O que disse fez-se. É a característica da frase performativa que, depois, as instituições do homem começaram a utilizar.  Exemplo? No casamento: “Vos declaro marido e mulher”, ou no tribunal: “Condeno a…”
Até àquele momento do princípio do livro do Génesis, momento que desconhecemos, quer no cronos quer no kairós, e nenhuma ciência apenas a teologia pode descortinar, havia trevas. A terra estava sem forma, vazia, sem ordem. “Era um mar profundo coberto de escuridão” (BPT)
A emissão linguística do Criador, expressão das ciências da Linguagem, não se limitou apenas no dizer, pelo contrário, criou. A constatação veio depois do que foi feito. Hoje, e provavelmente muito antes, dir-se-ia que a expressão é mágica e encantatória.
Aliás, todos os momentos originais da Criação, no que concerne ao Universo,  que lemos no Livro do Génesis numa progressão encantatória, surgiram da palavra performativa de Deus.  “Depois Deus disse: “Que exista um firmamento entre as águas, para as separar uma das outras” (vs.6).  Há uma correlação entre o que foi feito e por que meios, a palavra performativa divina deu origem à palavra da constatação: “Deus chamou céu a este firmamento” (vs.8)
Todos (quase todos) os versículos do capítulo 1 do Génesis começam pela expressão, que traduz a acção performativa da linguagem do Senhor, “Depois Deus disse”; “Deus disse então”.
Quando leio este Princípio vem à minha mente a cor, as cores do Cosmos, e penso com o ouvido no pedido do tenor na ópera Tosca, de Puccini: “Dammi colori” e depois “Recondita armonia di bellezze diverse!”
A harmonia de beleza diversa e inaudita que ocorreu depois de cada frase performativa de Deus.

O que se tem vindo a dizer, a partir das ciências da linguagem, é que há certos enunciados que têm a capacidade de realizar, e no que corresponde ao Criador não só expressar uma vontade, mas realizar um acto criador. O próprio facto de enunciar, já em si mesmo produz o enunciado.
Por fim, quando Deus foi dizendo em cada acto criador, do que acabara de fazer que era bom ( “E Deus achou que eram coisas boas” (BPT), a sua frase verificativa expressou uma atitude metafísica de satisfação, de gozo divinal, de alegria por fazer existir coisas que têm e iriam ter sentido, designadamente para o Homem que Deus iria criar adiante.
Eu acredito que Deus teve uma atitude lírica em tudo que criou e a sua palavra criadora foi, acima de tudo, poética. O Belo não se cria a partir da fealdade de um discurso. O arquétipo da criação divina foi a Beleza na voz e no verbo de Deus.

Aveiro, 04/02/2018

“O EQUÍVOCO” DE CAMUS E OS ERROS DO MESSIANISMO

“O EQUÍVOCO” DE CAMUS E OS ERROS DO MESSIANISMO

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© João Tomaz Parreira

O entendimento da peça de teatro “O Equívoco” de Albert Camus e do desenlace final da mesma, é capaz de nos fazer pensar em um paralelismo bastante arrojado, reconheço, com os erros do Messianismo dos dias de Jesus Cristo. Em que medida é que se ensaia essa ligação, é o que veremos.
Literatura e teologia podem estar de mãos dadas, como nas obras de C.S.Lewis, ou no “Paraíso Perdido” de John Milton. Se o que estiver a ligá-las, mesmo subliminarmente, for também a historiografia bíblica.

Todavia, “O Equívoco” não tem rigorosamente nada a ver com teologia. Mas confere-nos uma ideia por contiguidade e por metáfora também. O drama, ou melhor, uma tragédia moderna, diria doméstica, foi escrita e representada em 1944. Insere-se no estudo camusiano sobre o Absurdo.
O mal entendido – como se apelida em francês-, representa um erro familiar por atitude de torpe ganância, materializada no roubo de uma fortuna e que leva ao assassinato do próprio filho da casa, que não é reconhecido quando chega.

A preocupação de Camus com este tema, parece ter sido uma evidência que o perseguia, porquanto no célebre romance “O Estrangeiro” -, talvez a obra-prima do autor argelino-francês – tem uma história similar. Na Checoslováquia, um homem partiu para fazer fortuna e regressou depois, passados anos, a casa, à família que sempre o esperou. No regresso a casa, propondo-se alugar um quarto exibe uma grande quantidade de dinheiro, porém não tendo sido reconhecido, a mãe e a irmã matam-no para o roubar.
Camus regressa à tragédia, agora em peça teatral. Uma mãe e uma irmã esperam o filho e irmão que partiu para longe. Esperam que regresse.
- Ele há-de voltar.- diz a Mãe
-Ele disse-lhe que sim? – pergunta a filha
-Disse. -responde a Mãe.
Assim começa a Cena Primeira ( Livros do Brasil, “Calígula seguido de O Equívoco”, s/data, 175).
Quando ele chega, não o reconhecem como filho nem como irmão, não repararam bem nele para o seu crime ser perfeito e não deixar traços trágicos na consciência. O importante, era o visitante ser um homem de fortuna, sozinho, ao que apuraram.
Mãe, é preciso matá-lo.- diz Marta ( a filha)
“Não há dúvida que é preciso matá-lo. – responde a mãe.
“ É mais fácil matar o que não se conhece”- afirmou a Mãe

É aqui que somos levados à aparente ambivalência histórico-bíblica da espera do Messias, por parte do judaísmo, mais do domínio político e social, do que teológico. O Filho do homem sem beleza nem formosura, aparentemente só, para um Reino que vivia apenas do ritual. E assim, foi fácil levá-lo à crucificação porque não o conheciam, quem era aquele que se fazia passar por filho de Deus e rei dos judeus?: De facto, “é mais fácil matar o que não se conhece”.
Israel aguardava um messias para um reino e não um Cristo para a salvação da alma e do corpo. Também, se quisermos ir mais longe no plano evangélico, o autor terá ido à origem da parábola evangélica do filho pródigo, embora esta tenha o desfecho feliz.
Uma boa resposta para isso, encontramo-la nos versículos 10 e 11, do conhecido “No princípio era o Verbo” do prólogo do Evangelho de João. “Estava no mundo(…), e o mundo não o conheceu.” “ Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.”
Mas tal como na peça de Camus, Jesus Nazareno, o Filho e o irmão,  foi morto. De um ponto de vista extra jurídico, como sabemos, pelas irregularidades cometidas pelos judeus, foi humanamente assassinado pela lei mosaica.
Finalmente e sem meias palavras, o próprio apóstolo Pedro, no seu discurso do Pentecostes, afirma-o: “Este Jesus Nazareno (…) tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.” (Actos, 2,23).
Por vezes, como neste caso, a Literatura coloca-se ao serviço da teologia e da historiografia bíblica e retoma da religião a sua visão do mundo. #

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

Manuel Alexandre Junior

NATAL! Palavra mágica que misteriosamente transforma as pessoas,
enfeita as cidades, enche de colorido as casas, provoca até uma
pausa nas guerras.

O que é o Natal? Recebo e dou a cada passo as Boas Festas. Espanta-
-me o movimento. As pessoas atropelam-se nas lojas e nos passeios.
São prendas, muitas prendas, para contemplar os filhos, os
pais, os avós, e os amigos. Até os presos nas suas celas, os doentes
nos hospitais, os marinheiros no coração dos mares. Mesmo os
criminosos nos seus antros de crime e as prostitutas no seu despudor
celebram o Natal. Nem sequer o materialista e o agnóstico
deixam de o celebrar.

Mas que Natal? Decerto, uma festa banal, semelhante à de todos os
anos. Uma simples festa de amizade ou de família rendilhada de
encanto e prazer. Mas o Natal é mais, infinitamente mais. Tudo isso
lhe veio por acréscimo por força de alguma inspiração pagã. Embora
importante em contexto de relações humanas e altamente cativante
para os mais pequenos, esta maneira de ver e celebrar o Natal não
pode de nenhuma maneira ofuscar o sentido último do verdadeiro
Natal.

Ainda que o Natal perdesse toda a roupagem da imaginação
humana, tudo o que de tradicional e mítico hoje o molda e enforma,
ficar-nos-iam e de forma mais vincada, os traços da sua verdadeira
essência. No fundo, a mensagem do Natal é simples, prática, redentora
e comovente. É o mistério de Deus que se desvenda. É o plano
da sua grande salvação que se concretiza. É a mensagem profética
que se cumpre. É, numa palavra, a celebração do Deus eterno que
rompeu as fronteiras da história e nos visitou aqui, neste mundo de
pecado, de Jesus Cristo que nasceu e se identificou connosco, do
Evangelho que se anunciou nas alturas desde o púlpito do Universo,
e depois desceu para se dar por nós no Calvário.

O Deus pré-existente desce, irmana-se, humilha-se, e o milagre
acontece. Maria, uma santa e piedosa mulher da nossa raça decaída,
tem um filho na sua virgindade. Ela, que até ao momento não
conhecera varão, foi visitada pelo Altíssimo e usada para trazer ao
mundo o Salvador, perfeitamente Deus e perfeitamente homem.
Alguns têm asseverado que o nascimento milagroso de Jesus foi
uma história inventada pelos cristãos primitivos, a fim de dramatizarem
as origens do seu Senhor. A esses perguntamos: como é que
a história de um bebé nascido numa estrebaria e colocado numa
manjedoura, na presença de um carpinteiro e de alguns pastores
socialmente insignificantes, terá conseguido sobreviver ante a competição
com a história da deusa Atena, divindade pagã de tão nobre
estirpe que, segundo a lenda, nasceu sem mãe, brotando espontaneamente
da cabeça de Zeus, já na sua forma adulta? Como foi
também que o nascimento virginal de Jesus se sobrepôs ao mito do
grande imperador César Augusto que, segundo se dizia, nasceu da
união da sua mãe com uma serpente, no templo de Apolo?
Passaram os mitos da grande deusa e do nobre imperador romano.
Mas o histórico nascimento virginal de Jesus permanece. Espanta-
-nos porquê? Com certeza que não, pois trata-se realmente de uma
intervenção sobrenatural e nós cremos no sobrenatural. É que no
grande filtro da história humana o que é mito passa e o que é facto
impõe-se pela sua veracidade e permanece. Passaram as fabricações
dos homens, permanece a verdade eterna do Evangelho.

Para alguns, o principal problema do nascimento virginal está na
violação dos processos naturais. Mas, se nos disserem que nunca
um ser humano nasceu sem um pai e uma mãe humanos, chamamos-
lhe a atenção para a criação do primeiro casal, Adão e Eva. O
que foi mais difícil para Deus? Qual dos dois milagres foi maior? A
criação ou o nascimento virginal de Cristo?

Claro que a Bíblia não está alheia e esta objeção generalizada, e
arma a sua solução no poder de Deus. Gabriel, ao responder a
Maria quanto ao modo do nascimento do seu filho, visto que não
conhecera varão, sentiu a sua perplexidade e respondeu: “porque
para Deus nada é impossível”. Deus tem poder para fazer aquilo que
parece impossível aos homens, aquilo que parece contrariar os processos
naturais. Mas Deus é sobrenatural.

Com efeito, o milagre biológico não é o único na vida do nosso
Salvador. Basta atentarmos para o seu milagre moral: uma vida sem
pecado, totalmente isenta do mal, vivida na pureza, na inocência,
na perfeição.

A Escritura não nos deixa dúvidas. Quando José tomou consciência
do estado de Maria, intentou deixá-la secretamente. Grave luta se
travou no seu coração. Mas durante essa histórica noite mal dormida
em que ele ponderava friamente a sua decisão, o anjo do Senhor
lhe apareceu e o tranquilizou, dizendo: “José não temas receber a
Maria tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo”
(Mateus 1:20).

Foi perante esta tomada de consciência que José caiu em si, interpretando
biblicamente o evento como consumação da mensagem
profética, e observou religiosamente a orientação recebida. Ao dar
ao primeiro fruto do ventre de Maria o nome de Jesus, ele declarou-
-se a primeira testemunha do milagre da grande salvação de Deus
na nova aliança. “José, filho de David”, disse-lhe o anjo do Senhor,
“não temas receber Maria por tua mulher, porque o que nela foi
gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o
nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”
(Mateus 1:20-21). Jesus, significa na língua hebraica: Jeová salva. O
nome em si, era uma mensagem. Sempre que José e Maria diziam o
seu nome, o evangelho era proclamado. Jesus (Joshua) era o segundo
Josué que introduziria Israel na prometida terra da salvação, no
reino de Deus.

O Messias veio realizar um ministério de redenção pessoal e espiritual.
Não como libertador político, como tantos o mal-entendiam. O
problema de base do povo de Israel não era essencialmente o da
prepotente dominação romana. Era sim, o do seu pecado. E este é o
problema de cada geração. A causa profunda do mal-estar atual no
mundo não é o antissemitismo dos árabes, o capitalismo ou o
comunismo, nos seus vários estádios de crise; é sim, o pecado no
coração dos homens. Por conseguinte, a maior necessidade dos
nossos dias é também a da grande salvação de Deus, a libertação de
Deus, a libertação da força tremenda do mal, a transformação do
homem a partir do seu íntimo, do seu interior. Foi para isso que
Jesus veio. É por isso que celebramos o Natal.

Jesus é o Emanuel, o enviado do Pai, o próprio Deus feito carne. É
‘Deus connosco’ pelo mistério do nascimento virginal. Estes dois
nomes de Cristo, aqui sublimemente anotados pelo evangelista Mateus, têm sido muitas vezes contrastados: O primeiro – Jesus –
assinala o seu ofício: Ele salva, veio buscar e salvar o que se havia
perdido. Não veio para destruir as almas dos homens, mas para
salvá-las. O segundo – Emanuel – arma a sua natureza, a sua
essência: Ele é Deus, essencial e substancialmente Deus, em forma
visível, humana, palpável, inenarrável e aceitável.

O nascimento de Cristo está intimamente ligado à sua cruz. Como
dizia Helmut Thielike: Manjedoura e cruz, ambas são feitas da
mesma madeira. Por outras palavras: Se Jesus possuísse a natureza
de José seu pai adotivo, ele carregaria também entranhadamente o
seu pecado. E se ele entranhasse o seu pecado não poderia ser o
nosso Salvador pelo sangue do Calvário. Cristo, porém, é Deus connosco
tanto na manjedoura como no Calvário; Deus a favor de nós
e ao nosso lado, dando-se na cruz como nosso Salvador pessoal e
Senhor eterno da nossa vida.

Natal como o entendo, é isto na sua essência. Conhecemo-lo pela
palavra divina, e sabemo-lo pela experiência vivida no novo nascimento.
Mais importante que celebrarmos o Natal em benefício de
nós mesmos, é celebrarmo-lo para o louvor e glória de Deus em
Cristo. Pois este é, não o nosso, mas o Seu Natal. E que interesse
teria recordarmos que Ele nasceu há dois mil anos em Belém da
Judeia, se não houvesse lugar para Ele no coração dos homens? No
meu, no teu, no nosso coração? Também no Natal demonstramos o
nosso cristo-centrismo e damos testemunho do milagre do nosso
novo nascimento espiritual. Glória, pois, a Deus na pessoa do Emanuel!

Manuel Alexandre Júnior

 

Reflexão recebida da ASPEC – Associação de Profissionais e Empresários Cristãos, com a permissão da sua divulgação e que agradecemos

 

O HOMEM DE VIKTOR FRANKL E DE PRIMO LEVI

O HOMEM DE VIKTOR FRANKL E DE PRIMO LEVI

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© João Tomaz Parreira
O homem que é fundido na massa, que num campo de concentração não deveria dar nas vistas dos guardas SS, não sobressair em nada, tornar-se apenas num incógnito para tentar sobreviver algum tempo, é a temática de dois livros coincidentes.

“Se Isto é Um Homem”, de Primo Levi, e, de Viktor Frankl, “Um psicólogo no campo de concentração”.

Não há grandes mudanças nem novidades nas análises psicológicas dos deportados e encarcerados nos campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau que o psicólogo Victor Frankl e o escritor e poeta Primo Levi fizeram, a partir do mesmo destino nesses campos, porque eram judeus.

O elemento comum que já a filósofa judia Hanna Arendt identificara, é a despersonalização dos indivíduos, o tornar os judeus, sobretudo estes, matéria descartável, abaixo de sub-humanos se cabe aqui o pleonasmo.

Um dos aspectos que Viktor Frankl evidencia no seu livro, no que concerne à despersonalização do individuo, é, por exemplo, o facto da nudez. É a primeira realidade dos prisioneiros que chegavam ao campo e antes de entrarem para um suposto duche nas câmaras de gás, o que significava não apenas “o não ter nada no corpo”, mas também o homem e a mulher intuírem ou terem mesmo a consciência de que “possuíamos apenas a nossa existência literalmente nua”.

Vão no mesmo sentido as palavras de Primo Levi, no que diz respeito à consciência de que perante os carrascos já não se tem nem corpo nem alma, podendo dizer-se o mesmo total vazio dos algozes: “Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?”

Na contundente narrativa de Levi, lemos do completo despojamento de personalidade do prisioneiro judeu nos primeiros momentos entre a aglomeração num gueto, a deportação, a chegada ao destino, o despojamento da individualidade e do pensar: “Soubéramos, com alívio, do nosso destino. Auschwitz: um nome sem qualquer significado, naquela altura e para nós; mas certamente devia corresponder a um lugar desta Terra.”

Do outro lado, da parte dos executores do maléfico plano de Eichmann, a chamada Solução Final que deveria extirpar a judiaria europeia, a própria despersonalização era evidente, já nem seria ideológica, era apenas a prossecução do Mal. Quantos mais “números” de uma raça tido como inferior e sem direito a existir eliminassem, tanto melhor. Nenhum dos guardas dos campos de concentração nazis era um burocrata, era tão só manobrador de uma maquinaria de morte, limitava -se a cumprir ordens, sim, mas tinha com certeza prazer nos sofrimentos que estava a infligir aos prisioneiros judeus e não apenas a estes? Os guardas e os oficiais SS estavam presentes e eram os agentes do Mal, ao contrário da banalidade entrevista na atitude de Adolfo Eichmann, que foi depois julgado em Jerusalém em 1962 e enforcado. Eram apenas monstros.

© João Tomaz Parreira

OS CÂNTICOS DOS DEGRAUS: O CLIMAX DE UMA ESTRUTURA POÉTICA

OS CÂNTICOS DOS DEGRAUS: O CLIMAX DE UMA ESTRUTURA POÉTICA

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© João Tomaz Parreira

Os “Cânticos dos Degraus”, ou Salmos de peregrinação, fazem parte do Saltério como uma das chamadas colectâneas menores. São os salmos das ascensões, das romagens, ou da procissão ao Santuário (120-134).

O código do uso destes salmos, o seu sentido desde o destinador( os autores) para o destinatário, estava na aplicação específica de cada um desses escritos, eram usados como hinos litúrgicos, porções das Escrituras que davam alento e traduziam uma experiência do hebreu, particular ou colectiva, com Yahweh. Foram elaborados a partir do Eu poético, o elemento individual, e do Nós, o elemento comunitário, o poeta enquanto indivíduo e enquanto povo, assumindo as suas dificuldades e as suas acções de graças.

Com as particularidades do discurso poético da poesia hebraica bíblica ( e somente esta era conhecida), desde os versos aos paralelismos e ao não uso da rima, não dispensando porém o ritmo do verso medido, toda a estrutura da linguagem acompanhava, dir-se-ia, o movimento ascensional que os Cânticos dos Degraus definiam e propunham.

Estes salmos perfeitos em sua beleza clássica não precisaram de ser longos, embora as ascensões ou as peregrinações fossem, elas mesmas eventualmente longas e por caminhos imperfeitos e a rasarem os abismos.

A ideia senão mesmo a imagem formal de cada um desses 15 salmos é uma subida, o discurso poético vai subindo de tom até um clímax final, quer fonética quer semanticamente.  Como se cada um partisse de baixo e fosse ascendendo em emocionalidade até um lugar alto.

O termo clímax significa um momento de maior intensidade na acção. Todos os quinze salmos dos Degraus traduzem-se numa acção, não são apenas salmos contemplativos ou de louvor estático. Como poesia, mas, também, como uma oração, os Cânticos de Romagem são uma conversa inteligente com Deus.

De todo o conjunto há três salmos que são paradigmáticos neste aspecto, os salmos 121,122 e 123, embora todos os restantes mostrem o mesmo padrão ascensional, os montes, o templo, a alegria, o olhar colocado em Deus, o escape quando os pés vacilam, o dia e a noite como metonímias poéticas do sol e da lua, e outras comparações metafóricas.

Escolhemo-los pelo seu forte impacto inteligível desde a primeira leitura. Sobre eles nos deteremos, com brevidade, como sistemas significantes (a linguagem poética, a antevisão das dificuldades, o sonho do regozijo ao chegar à presença divina  na Casa do Senhor). Cada palavra como que acompanha a ascensão, marca o ritmo da subida.

Salmo 121
Este salmo não introduz, como outros, um imperativo verbal, introduz antes uma inevitabilidade do salmista, o olhar para fora, para o aparente problema: os montes. E uma pergunta que pode indiciar perplexidade, é, normalmente, da dúvida que partimos para uma certeza. O primeiro verso, onde se averigua a dificuldade, e a questão colocada, não rompem com a Aliança com Jeová, e o poeta que questiona, ele mesmo dá a resposta que vem do seu coração. Ele olha para dentro de si próprio e aí estão todas as respostas: a identidade de onde provem o socorro e as capacidades inefáveis de quem socorre. Desde aqui até ao verso 8 há um claro clímax, uma ascensão, que culmina: “O Senhor guardará a tua entrada / e a tua saída, desde agora e para sempre”. A dúvida inicial transforma-se numa afirmação de certeza. O peregrino sabe agora  o favor divino com que pode contar.

Do ponto de vista da chamada psicologia social ligada à semiologia, este salmo está carregado de sinais ( do grego sémêion), e cada um deles desde os montes, o sol e a lua, os pés que podem resvalar, o subentendido abismo, fornecem todo o pano de fundo para a compreensão do poema como um lenitivo para uma subida que se mostra árdua, mas com final feliz.

Salmo 122

No primeiro verso deste Salmo, parece que o clímax está no início. Reproduz o contentamento espiritual, a emoção palpável de David, que nos diz numa versão comum da Bíblia Para Todos (BPT): “ Que alegria quando me disseram vamos ao templo do Senhor”. É um salmo de peregrinação sobre o Templo. Antevê, no princípio da subida, a majestosa visão da Casa do Senhor, em Jerusalém.
Curiosamente, o salmo 122 introduz no saltério uma percepção de movimento: “Já estamos mesmo a chegar às tuas portas, Jerusalém”.

De acordo com Hermann Gunkel (Alemanha, 1862-1932), o salmo 122 é um dos mais paradigmáticos no que concerne à peregrinação ou à romagem. Esse estudioso das civilizações do Egipto e da Mesopotâmia e das suas ligações com os Salmos, enquanto poesia hebraica, “recapturou o valor dos salmos”, não apenas como literatura, mas sobretudo como parte da Bíblia Sagrada, designadamente a Bíblia Hebraica ou Tanakh, integrando os chamados “Escritos” ou Kethuvim

É um salmo onde de igual modo se prescreve uma obrigação: “É lá que vão as tribos, as tribos do Senhor, para cumprir a obrigação de Israel.”.

Salmo 123

Este é um dos mais pequenos cânticos na sua estrutura formal linguística, nas versões das nossas Bíblias tem apenas 4 versos. Neles se salienta, apesar da sua brevidade, o olhar do peregrino e a sua dependência dos favores divinos.

Não tem propriamente um clímax observável na estrutura fonética nem na sintaxe. Termina mesmo de um modo que dir-se-ia desalentador, do ponto de vista social e religioso, dando a entender que o autor e todos quantos o acompanham na romagem, “estão completamente saturados com as injúrias dos arrogantes”. Aqueles que à margem dos caminhos da subida vão lançando impropérios desencorajadores aos peregrinos? #

SOLI DEO GLORIA

SOLI DEO GLORIA

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Samuel R. Pinheiro

A Reforma Protestante da qual neste ano se comemoram os 500 anos, repôs as verdades fundamentais da revelação bíblica com a clareza resultante da sua própria essência, e que ao longo dos séculos continuam a ser reavivadas e aprofundadas. De entre elas a que nos serve de título e que aqui tocamos levemente.

Tudo o que somos e tudo o que temos, todas as competências que demonstramos e tudo o que fazemos é dádiva divina. Não nos criámos ou fizemos a nós mesmos. Somos criação divina. Isso não significa que Deus nos tenha criado como meras máquinas ou autómatos. Deus criou-nos à Sua imagem e semelhança, e nesse sentido deu-nos o privilégio de criarmos a partir da Sua criação, de nos empenharmos, de nos envolvermos e sermos mordomos do que nos confiou. Não somos donos de coisa nenhuma. A vida é uma dádiva e não uma conquista nossa. Isso não significa e nem implica que cruzemos os braços, antes bem pelo contrário. O maior impulso que temos na nossa vida é precisamente a consciência de que somos uma criação especial do Senhor do Universo.

Moisés, uma das maiores figuras da história bíblica, que viu milagres que todos certamente gostaríamos de ver, à medida que esses milagres ocorriam crescia no seu coração o desejo intenso, o mais atrevido de todos, mas o mais grandioso a que podemos aspirar – ver a Deus! Apesar de tal não ser possível ao homem na condição presente, ainda assim Deus deu-lhe a possibilidade de O ver escondido pela rocha e pelas costas. Quem mesmo assim vê a Deus não permanece o mesmo. É uma visão transformadora. No tempo em que Jesus viveu entre nós encontramos a mesma aspiração no discípulo Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.” Na verdade o que é suficiente é contemplar o Pai. E Jesus responde prontamente: “Filipe, há tanto tempo que vivo convosco e ainda não me conheces? Aquele que me viu, viu também o Pai.” (João 14:8,9 – BPT). Jesus reafirma o que logo no primeiro capítulo do evangelho de João é declarado “Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (João 1:18 – BPT)

Por isso só há uma forma de vivermos: para a Sua exclusiva glória. É isso que o texto bíblico nos ensina em cada momento da história que ali nos é narrada. No primeiro capítulo da carta que o apóstolo Paulo endereça à Igreja em Éfeso e a todas as igrejas em todas as épocas e longitudes, refere por três vezes que existimos para a glória exclusiva de Deus, uma glória que só a Deus pertence, que só Nele encontramos e que só nela nos realizamos. Nos versículos cinco e seis de modo bem expressivo declara: “Ele destinou-nos para sermos seus filhos por meio de Cristo, conforme era seu desejo e vontade, para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.” No versículo doze incita-nos a que “Louvemos, portanto, a glória de Deus, nós que previamente já pusemos a nossa esperança em Cristo.” E, finalmente, no versículo catorze “O Espírito Santo é a garantia da herança que nos está prometida e que consiste na completa libertação dos que pertencem a Deus, para louvor da sua glória.” (Bíblia Para Todos) Neste capítulo que é uma descrição sublime da nossa vocação, a afirmação é que ela reside em exclusivo na glória do Deus trino – Pai, Filho e Espírito Santo, inclui o tempo presente e a eternidade, envolve todo o nosso ser, e ao estar focada plenamente n’Ele tem um impacto radical na nossa essência e existência. Esta é uma vocação inexcedível porque está focada no Deus Criador, Sustentador, Redentor e Restaurador de todas as coisas. Do comentário de John Stott sobre Efésios e no que diz a este capítulo citamos: “A glória de Deus é a revelação de Deus, e a glória da sua graça é a sua auto-revelação como um Deus gracioso. Viver para o louvor da sua graça é não somente adorá-lo com nossas palavras e acções, pelo Deus gracioso que Ele é, como também levar outros a vê-lo e a louvá-lo.” (A Mensagem de Efésios; ABU: 1986; p. 27)

O Breve Catecismo de Westminster, na primeira pergunta que formula: “Qual o fim principal do homem?”, dá como resposta: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.” Com várias referências bíblicas que reproduzimos:

“É que tudo veio de Deus e tudo existe por ele e para ele. A Deus seja dado louvor para todo o sempre. Ámen.” (Romanos 11:36 – BPT)

“Portanto, quer comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, devem fazer tudo para dar glória a Deus.” (1 Coríntios 10:11 – BPT)

“Quem tenho eu no céu, além de ti? Na terra só desejo estar contigo. Ainda que o meu ser se esteja a consumir, Deus é quem dá força ao meu coração; ele é a minha herança para sempre.” (Salmo 73:25,26 – BPT)

“São todos os que têm o meu nome, que eu criei, formei e fiz, para manifestarem a minha glória.” (Isaías 43:7 – BPT)

“Nenhum de nós vive para si mesmo nem morre para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; e se morremos, é para o Senhor que morremos: pois tanto na vida como na morte pertencemos ao Senhor.” (Romanos 14:7,8 – BPT)

“Todos os teus habitantes formarão um povo de justos, e hão-de possuir esta terra para sempre. Serão como uma árvore que eu plantei, a obra das minhas mãos, para manifestarem a minha glória.” (Isaías 60:21 – BPT)

“(…) para colocar na cabeça dos enlutados de Sião uma coroa em vez de cinza, um perfume de felicidade em vez de cara triste, um vestido de festa em vez do rosto abatido. Então serão chamados: ‘Teberintos do Deus Justo, jardim plantado para a glória do SENHOR’.” (Isaías 61:3 – BPT)

A pessoa que nesta terra mais glorificou o Pai e foi por Ele glorificado, foi precisamente a pessoa de Jesus Cristo. Ele mostrou-nos como a nossa vida só é vivida na plenitude apontada à glória de Deus em tudo o que somos e fazemos. “A Palavra fez-se homem e veio habitar no meio de nós, e nós contemplámos a sua glória, como glória do Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14 – BPT). É neste processo que estamos envolvidos pelo Espírito Santo pela experiência da relação pessoal com Deus em Jesus Cristo – “Todos nós, porém, estamos de rosto descoberto e, como um espelho, somos um reflexo da glória do Senhor. Transformamo-nos assim numa imagem dele, com um brilho cada vez maior, porque é o Senhor, isto é, o Espírito, que faz isto.” (2 Coríntios 3:18 – BPT). Fixemos em Deus a nossa atenção, entreguemos-Lhe a nossa vida, vivamos cada dia e cada momento para a Sua glória e a vida será o que deve ser, atingiremos o que de outro modo não conseguiremos, e nós mesmos seremos o que fomos criados para ser – “imagem e semelhança de Deus”. Não troquemos por nada esta essência, porque trocá-la é mergulhar no absurdo, na morte, no nada! Só a Sua glória nos pode satisfazer!

Soli Deo Glória – A Deus toda a glória – Para louvor da Sua glória – Só a Deus a glória!

UMA IGREJA REFORMADA SEMPRE EM REFORMA

UMA IGREJA REFORMADA SEMPRE EM REFORMA

2017out14 SRP Nazaré

O desvio da são doutrina espreita desde sempre o seguidor de Jesus e a Sua Igreja. É uma ameaça permanente que requer da parte do discípulo de Cristo uma atenção constante ao ensino que a Bíblia encerra.

Os perigos surgem pela parte de fora e por dentro, tanto da influência que o meio envolvente e as suas ideologias procura infiltrar, como pela apetência humana para os absorver e do descuido em considerar as palavras que o Espírito Santo revelou.

Já no próprio percurso de Jesus entre nós verificamos essa condição que está patente na ocasião em que Pedro declara a identidade do Mestre e, logo de seguida, contraria a Sua disposição de avançar para a cruz (Mateus 16:13-23).

Nas cartas apostólicas inspiradas pelo Espírito Santo encontramos alertas e denúncias das tentativas, umas frustradas e outras mais ou menos conseguidas, de contaminar e corroer o Evangelho de Jesus Cristo. A carta escrita aos Gálatas, por exemplo, tem como objetivo chamar a atenção dos cristãos da Galácia para o abandono da fé e da graça, e do retorno à lei. O apóstolo Paulo enquanto escritor da mesma logo na abertura chega ao ponto de declarar: “Admiro-me muito que estejam a abandonar tão depressa aquele que vos chamou pela graça de Cristo e que estejam a seguir um evangelho diferente. Não é que exista outro evangelho, mas a verdade é que há umas certas pessoas que vos causam confusão e que querem modificar o evangelho de Cristo. Que seja maldito quem vos ensinar um evangelho diferente daquele que vos anunciámos. Ainda que fôssemos nós próprios ou mesmo um anjo do Céu! Repito o que acabo de dizer: se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que receberam seja maldito!” (Gálatas 1:6-9, BPT). Quando Judas se dispõe a escrever a sua carta refere: “Queridos amigos, tenho sentido grande desejo de vos escrever acerca da salvação de todos nós, mas agora achei que era mais necessário fazê-lo para vos pedir que lutem pela fé confiada aos santos de uma vez para sempre. Com efeito, algumas pessoas sem fé intrometeram-se entre os nossos e andam a mudar a mensagem de amor do nosso Deus, transformando-a em libertinagem; e renegam Jesus Cristo, que é nosso Mestre e Senhor. De há muito que a Sagrada Escritura condena este seu crime.” (Judas 3,4, BPT). E depois passa a referir casos semelhantes do Antigo Testamento numa demonstração de que esta situação já então se verificava.

No tempo da igreja primitiva as pressões decorriam tanto do lado dos judaizantes, como dos gnósticos, os primeiros procurando implantar o cumprimento da lei como meio de salvação e os segundos apelando ao misticismo e ao liberalismo moral. Com o constantinismo, o fim da perseguição da igreja e desta como religião de estado, o processo de afastamento das verdades bíblicas foi incrementado. A tradição, as ideologias vigentes na cultura e até as práticas religiosas pagãs, fizeram tantos estragos que a igreja tornou-se irreconhecível face ao ensino bíblico. Sempre em cada momento se manifestaram vozes que denunciavam a situação e clamavam por um retorno à mensagem do Evangelho, até que a reforma protestante eclodiu com as 95 teses afixadas por Martinho Lutero em Witemberg, há precisamente 500 anos e cuja efeméride queremos recordar ao longo das próximas edições. Sempre estas demandas foram impulsionadas pelo conhecimento e divulgação da Bíblia, daí que a marca por excelência da reforma e dos reformadores é a Bíblia na língua e nas mãos do povo.

Esta situação acaba por ter lugar na própria dinâmica da reforma entre o que se veio a designar por reforma magisterial e a radical, sendo que a primeira manteve por exemplo a igreja depende do estado e a prática do batismo infantil, e a segunda defendendo a separação da igreja do estado, e o batismo em consciência como testemunho público da adesão à fé, em arrependimento e conversão, e compromisso com Cristo na salvação pela graça por meio da fé. O confronto e a perseguição aconteceram no seio do protestantismo e muitos anabatistas foram afogados tanto por protestantes como por católicos romanos. No início do século XX, depois de um processo contínuo de reconhecimento e vivência do ensino das Escrituras, surge o movimento pentecostal assumindo a contemporaneidade do Pentecostes e do falar em línguas como evidência do batismo no Espírito Santo.

Na realidade a igreja é chamada a um permanente acerto com a Palavra de Deus, numa renovação permanente da mente para que conheça cada vez mais e melhor a boa, perfeita e agradável vontade de Deus: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2, ARA).
Samuel R. Pinheiro
www.deus-e-amor01.webnode.pt

CONTRA A USURA: A BÍBLIA, A POESIA E “O CAPITAL”

CONTRA A USURA: A BÍBLIA, A POESIA E “O CAPITAL”

JTP24
©  João Tomaz Parreira

A usura nada cria, no dizer do poeta americano Ezra Pound (1885-1972), mas é um modo de produção exploratório, escrevia Karl Marx em “O Capital”.
Por seu lado, antes de todas as afirmações reprobatórias, a lei de Moisés contida no Pentateuco, no livro bíblico de Deuteronómio, determinava que “se emprestarem alguma coisa a outra pessoa, não poderão entrar-lhe na casa para se apoderarem de um penhor ou reaverem o que emprestaram (…) se o homem for pobre e não puder dar-vos mais do que o próprio cobertor com que se cobre, vocês não podem dormir sob ele.”(O Livro- A Bíblia para Hoje)
No que possa concernir à usura, nem sequer pensar. A usura não podia jamais estar ao serviço da grande caridade, no Velho Testamento, muito menos no serviço cristão. O uso da usura acaba por ser um pecado contra a Moral bíblica e filosófica. E contra a Virtude.
Já no século passado o filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961) escrevia que  a filosofia é um esforço para reaprender como ver o mundo, mas no que concerne à usura o mundo não aprendeu nada nem com a filosofia e nem infelizmente com as leis divinas.
De facto, o próprio Aristóteles, escreveu no decorrer do ano 300 a.C, em um dos seus oito livros sobre a Política ( Πολιτικά ), estas sábias palavras:  “O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva? Ela foi inventada para facilitar as trocas; a usura, pelo contrario, faz com que o dinheiro sirva para aumentar-se a si mesmo”

A LEI MOSAICA (A BÍBLIA)
Qual a razão subjectiva que levou ao que significa o vocábulo “usura”
( nawshak) no hebraico, isto é, “mordida”, por extensão simbólica, uma boca de serpente venenosa que morde?
“Se emprestarem dinheiro a um vosso irmão hebreu necessitado, não o farão com interesse usurário” (Êx,22:25, O Livro).
“A teu irmão não emprestarás à usura; nem à usura de dinheiro, nem  à usura de comida, nem à usura de qualquer cousa que se empreste à usura.” (Deuteronômio 23: 19-20).
O povo hebreu, no contexto da sua saída do Egipto e peregrinação para a Terra Prometida, e no futuro como Pátria da Bíblia, não poderia dar o seu dinheiro a juros, nem fazer caridade com seus víveres para obter lucro – dizia o livro de Levítico.
E, no entanto, na Idade Média, os judeus cobravam por empréstimo uma taxa ao ano de 20%.
Podemos agora legitimamente intuir, que, no século XVIII, o próprio Karl Marx leu estes parágrafos legais da Torah. A sua obra clássica, “Das Kapital”, tão detestada como incompreendida sustenta uma luta também contra a usura, a rondar a terminologia bíblica.

O CAPITAL
Do ponto de vista económico, Marx é peremptório e indesmentível: “A usura explora um dado modo de produção: não o cria”, isto é, cria riqueza sem trabalho e apenas em um sentido, o do próprio emprestador. Marx continua: “A usura atingiu nesta época uma tal amplidão, que já não quer ser vício, nem pecado, nem vergonha, mas quer fazer-se passar por grande virtude e bela honra, como se fizesse grande caridade às pessoas” (O Capital – Marx, Karl;  Delfos, 1975-529 )

A POESIA
Na poesia bíblica, designadamente no Livro dos Salmos, há uma composição considerada didática, o Salmo 15, que introduz uma pergunta inicial à consciência daquele que procura temer a Deus e viver em santidade. Todo o contexto deste Salmo, seja qual for a sua versão, vai no sentido dos que temem ao Senhor e desejam encontrar refúgio na Sua casa ( “Senhor, quem pode achar refúgio na tua casa, / e ficar contigo no teu santo monte? – O Livro).
“Aquele que / não empresta seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim conduz sua vida caminhará seguro e em paz.” (Bíblia King James Actualizada)
Na poesia não religiosa, ou dita secular, a usura é invectivada duramente,  ainda que em discurso poético por um poeta que tinha uma ideia sui generis sobre a economia, Ezra Pound. A sua demonização da usura exprime vergonha por uma realidade social. O seu código verbal não deixa margem para quaisquer dúvidas.
Trata-se de um dos cantos do poeta americano, um libelo em forma de ode, que faz parte da obra-prima “Os Cantos” que ocupam lugar fundamental da Literatura Universal do século XX.  Numa auto visão da obra, que o próprio poeta considerou épica, Pound ao condenar a Usura, reuniu história e economia, e disse: “ Não há história, sobretudo na nossa época, sem economia.” É o tema principal dos Cantos 31 a 51, entre os quais está o 45, repetindo o poeta a mesma ideia no 51:   Escreve o poeta estado-uninense em ambos os Cantos: “ Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra / (…) Com usura / nenhum homem tem um paraíso / pintado na parede de sua igreja / ou onde a virgem receba a mensagem / Com usura / a lã não chega ao mercado / a ovelha não dá lucro com a usura / A usura é uma praga / Usura mata a criança no ventre” (Os Cantos, Antologia Poética, Tradução de Augusto de Campos, Editora Ulisseia, 196? e  Os Cantos, Tradução de José Lino Grünewald, Editora Nova Fronteira,1986)
Afirmações que não são nem gerais nem abstractas, que seguem, de resto, a lição de Ezra Pound quanto ao não uso de linguagem supérflua: “o adjectivo quando não dá vida, mata” – disse ele.  #

“Crer é também pensar”

“Crer é também pensar”

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Desde muito cedo, ainda adolescente, numa fase da vida em que todas as perguntas e dúvidas se agitam dentro de nós, que comecei a assumir que a Bíblia é a Palavra de Deus e que ela não teme as nossas perguntas, e que é possível crer com a nossa razão e também com o nosso coração, de corpo, alma e espírito inteiros. Apesar da fé ir muito para lá da nossa razão, e o coração ter razões que a razão desconhece, nunca admiti que a fé fosse não inteligente ou um salto no escuro, muito menos o cultivo do obscurantismo. Não havia dinheiro para muitos livros embora em casa sempre eles tiverem um lugar privilegiado. Ainda assim socorria-me da biblioteca do liceu, e procurava ler o que lá havia sobre a matéria da fé e da razão. Nas aulas de educação moral e religiosa católica romana a que era por lei obrigado a assistir, tinha “orgulho” em ser considerado um exemplo de uma fé lúcida e instruída. Os meus pais apoiavam-me. A igreja das assembleias de Deus de que era membro em Coimbra, cidade dos estudantes, impulsionava o princípio bíblico de uma fé esclarecida e fundamentada na Bíblia. A Palavra de Deus é ela própria um estímulo à reflexão e ao questionamento. De entre os pastores que me ajudaram destaco os nomes de José Pessoa e António Costa Barata. Tive também o privilégio de pertencer a uma geração de pessoas que pensavam pela sua cabeça observando a Bíblia como regra de fé. Fui para a faculdade e apesar de alguns verem ali um perigo para a minha fé, nunca me passou pela cabeça, que a Bíblia pudesse ser abalada pelos argumentos do ceticismo.

Retirei o título deste texto de um pequeno livro no tamanho, mas grande no conteúdo e nas suas implicações, de John Stott. Paul Little tem um livro que fundamenta as minhas convicções – “Saiba o que Crê & Saiba Porque Crê”. Sonho com uma nova geração em Portugal que seja guiada e impulsionada por estes valores intrinsecamente bíblicos, devidamente preparada para apresentar a razão da esperança que tem, porque Jesus é a razão da nossa esperança que não se confina ao tempo, mas se projeta por toda a eternidade. Como Paulo podemos dizer “sei em quem tenho crido”! Outros autores de referência que não devem perder: C. S. Lewis, Josh McDowell, Norman Geisler, Ravi Zacharias, Lee Strobel, Timothy Keller, Alister McGrath, Augusto Cury, …

Hoje, já feitos os 60 anos, continuo a pensar do mesmo jeito com muitas mais provas da minha própria experiência pessoal. Tenho uma biblioteca muito mais vasta, dezenas de livros de apologética, autores contemporâneos e do passado, mas o livro por excelência é e sempre será a Bíblia. O argumento, a prova viva por excelência é a pessoa de Jesus. Não acredito que a natureza tenha criado uma inteligência do nada, apenas para chegarmos à conclusão de que não existe nenhuma inteligência, sentido, propósito e desígnio na nossa vida. Mas Jesus é a Pessoa absolutamente convincente. Modelo, Senhor e Salvador. Ele chega-me. Se quero saber se Deus existe e quem é, como lida com o sofrimento e o mal, o presente e o futuro eterno, como se relaciona connosco, quem somos e para onde vamos, etc. há um sentido sempre prioritário: JESUS (Ele não tem – é a resposta!).

 

Samuel R. Pinheiro

www.jesus-o-melhor.com

A PROBABILIDADE DE SER POEMA

A PROBABILIDADE DE SER POEMA

JTP23© João Tomaz Parreira

1Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.”

Após séculos de discussão sobre o chamado problema da autoria do Quarto Evangelho, era moda na Alta Crítica dizer que o Jesus de João era o produto de um processo teológico oriundo da própria Igreja Primitiva, querendo negar assim a autenticidade histórica do autor João e do seu acompanhamento do Mestre, como um dos Doze.
A era da crítica acadêmica foi aberta com os trabalhos de K.G. Bretschneider
( 1776-1848) no que concerne a autoria de Evangelho. Bretschneider questionou na sua obra sobre o Evangelho de João a probabilidade autoral (in “Probabilia”).
Um paradoxo para chamar a atenção da própria a autoria apóstólica desse Evangelho, argumentando, pelo menos, sobre a topografia do autor que ele não poderia ter vindo da Palestina. Seguindo Hegel, houve também quem no século XVIII considerasse o Quarto Evangelho como um trabalho de síntese, isto é, do género de tese e antítese. O Evangelho de João foi chamado de “Evangelho Espiritual”, mas nunca um evangelho filosófico, ainda que iniciando-se de um modo que agradaria aos gregos.
Tais discussões sobre a autenticidade autoral estão agora mais serenas. Ainda bem porque podem abrir outros caminhos mais interessantes, deslocando-se para o que parece ser um poema inicial o Prólogo joanino.
É dado como historicamente certo que o Prólogo tenha sido uma necessidade para dar resposta às grandes questões do espírito no que concerne ao Cristianismo versus Filosofias gnósticas do Século I.
Estruturalmente,  ele surge como um prefácio, mas as raízes de um certo lirismo, senão na forma pelo menos na fonética e no ritmo, estão lá.
No início do comentário ao Evangelho Segundo João, o tradutor de “Bíblia – Novo Testamento” e dos “Quatro Evangelhos”, Frederico Lourenço afirma que “o texto grego (o Prólogo) não é um poema”.
De facto, a poesia em língua grega do Século I era, entre outros requisitos da poética,  reconhecida pelas unidades rítmicas, o que não é o caso do 1º verso, mas o nosso ouvido – também afirma FL- reconhece uma certa musicalidade, um certo ritmo pela combinação de algumas palavras. Lido o versículo em causa, quer na língua grega, quer na nossa própria língua, há um ritmo inegável.
No que diz respeito ao texto grego, aprecie-se o primeiro grupo (Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος) que é combinatório com a última expressão (καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος)  Esta última linha completa a primeira, à qual regressa.
“No princípio era o Lógos / (…) / E era Deus o Lógos”.  Expressão nossa para não fugir à melopeia e à quase poética pelo ritmo. Existe aqui uma unidade rítmica e melódica, uma linha de poema. No fundo o verso (versu, vertere), na sua concepção milenar, acaba por ser uma tautologia, algo que começa e retorna ao ponto inicial, porque verso designa um movimento de regresso.
Contudo, quer este verso inicial quer todo  o conjunto do Prólogo joanino não é, como se chegou a pensar, um poema para agradar ao Gnosticismo. Nem visto apenas à superfície do texto, nem atomisticamente.
Uma quantidade imensa de material riquíssimo é o que encontramos nos primeiros 18 versículos do Prólogo de João.
A “Encyclopedia Americana resume, no que concerne ao Prólogo, várias páginas de douta e vasta bibliografia sobre o tema, e afirma a influência grega que o Evangelista teve, tornando-se evidente que “os primeiros versos são obviamente um poema à maneira dos Estóicos”. É, contudo, uma conclusão que, do ponto de vista da Poética seja ela de Aristóteles ou, posteriormente, de Horácio, não resiste a uma análise, como vimos, dos constituintes do poema. Mais certo será afirmar que o Prólogo se apresenta sob a forma de “um hino cantado na comunidade joanina (em Éfeso?), antes de ter sido colocado como início do Evangelho”.  A beleza e a estética dos primeiros cinco versos (1-5 inclusivé), estão lá, porque abrem as portas da Eternidade para dar passagem ao Verbo ou Lógos que vem até ao Homem, até a pungência do Tempo.

© João Tomaz Parreira