A TEOLOGIA DA CRUZ 2ª Parte

A TEOLOGIA DA CRUZ
2ª Parte
Dr. Jorge Pinheiro
JorgePinheiro_23a_peq
Temos falado até agora de uma das entidades, Deus, que, mais acima dizíamos ser importante e essencial abordar e analisar para contextualizar e perceber o alcance e profundidade da teologia da cruz. A outra entidade é o Homem, de quem era inevitável indicarmos algumas das suas características ao abordarmos a pessoa de Deus. À semelhança de Deus, o homem é um ser extremamente complexo. Embora com uma identidade e unidade estrutural, tanto física como mentalmente, é grande a sua diversidade tanto em sentido individual como grupal. De facto, podemos dizer que não há dois indivíduos rigorosamente iguais tal como também não há duas sociedades ou culturas idênticas entre si a cem por cento. E, no entanto, tanto a nível individual como grupal, vamos encontrar anseios e preocupações idênticas. Por outro lado, podemos dizer que o homem é tanto fruto do meio como o meio é fruto do homem. Ou seja, o homem não se limita a ser um agente passivo, mas influencia o meio ambiente em que vive, pelo qual também se deixa influenciar. Houve um filósofo que declarou que o homem é ele e a sua circunstância. Por todas essas razões, ao abordar o homem, temos sempre de levar em conta toda essa complexidade e não tentar aplicar a todo e cada um uma mesma fórmula como se de um robot ou uma máquina se tratasse. Vamos encontrar esta característica descrita nas páginas da Bíblia. Tanto os profetas como o próprio Jesus embora com uma mensagem e uma intervenção universalistas, isto é, destinadas a todos os homens sem excepção, abordaram o homem individual segundo a sua especificidade. Poderíamos resumir esta característica pela frase: cada homem é um homem, o que acaba por traduzir o velho lugar-comum da unidade na diversidade.
Apesar dessa complexidade e diferenciação individuais e grupais, o homem, tanto individual como colectivamente, é um indivíduo. Esta palavra – indivíduo – é interessante porque significa aquilo que é uno, não divisível. O facto de uma entidade ser composta por partes, por vezes distintas, não impede que seja considerada indivisível. De certo modo, é essa forçosamente a característica de um ser que se move na dimensão do relativo. E, no entanto, o facto de viver na dimensão do relativo não impede o homem-ser-complexo-relativo de, por assim dizer, ter a dimensão do absoluto despejada no seu íntimo. De facto, a tendência de superação, de procura do mais além, da busca do transcendente é algo que caracteriza o homem. Vemos todo esse trajecto ao longo da história da humanidade. O Génesis descreve de forma magnífica esta realidade, ao afirmar que, na criação do homem, Deus declarou ir criá-lo à Sua imagem, conforme a Sua semelhança (1).
O carácter de ser que se move na dimensão do relativo faz com que o homem, por natureza, seja incompleto e esteja dependente do seu exterior ou de algum outro ser para ser aquilo que é. O homem entra em diálogo com a sua exterioridade e é através desse diálogo que se vai construindo, numa procura incessante de superação. Dessa procura dá conta o salmista em diversas das suas composições em que refere que a sua alma descansa, confia ou espera em Deus (2), expressões que surgem com outro articulado como o refúgio, a habitação, as asas de Deus, de que o Salmo 23 é paradigmático ao declarar que nada lhe faltará no Senhor que o faz deitar (em sossego), o guia e o orienta (3). Esta realidade também não escapa à análise do autor da epístola aos Hebreus quando fala do repouso que o crente encontra em Deus (4). O repouso é também característica que vamos encontrar em Deus, conforme declara o Génesis, dizendo que, depois de ter criado o Universo, Deus repousou (5). E é interessante notar que esta ideia de repouso vai surgir no Budismo, embora com outro articulado, partindo de outros pressupostos e chegando por isso mesmo a um resultado diferente daquele que defende o monoteísmo cristão. Falamos do conceito de nirvana que, no Budismo, é o estado de completo repouso da consciência, em que o homem consegue por fim libertar-se de todo o ciclo do samsara, o fluxo incessante de renascimentos. Sem entrarmos na discussão deste conceito e/ou da sua comparação mais exaustiva com a teologia cristã, podemos salientar que, embora a procura do repouso tenha de partir sempre do homem, no Cristianismo esse repouso vem de cima, ou seja, é potenciado por Deus, enquanto no Budismo, vem de baixo, ou seja, é potenciado pelo homem, na medida em que, no Budismo, Deus está ausente por ser irrelevante. Ou, em termos mais técnicos, a proposta do Cristianismo vai da transcendência para a transcendência passando pela imanência, enquanto no Budismo é da imanência para a transcendência passando pela imanência.
Há, então, no homem algo de divino ou, melhor dizendo, de natureza divi-na, o que explica toda a sua tentativa de superação existencial, motivando-o a elevar-se acima dos limites estreitos do relativo. Dir-se-ia que a natureza absoluta de Deus está aprisionada numa redoma frágil e contingente e dela procura libertar-se. Nos vários diálogos travados entre Jesus e muitos dos Seus interlocutores, verificamos que embora com vivências e estruturas psico-espirituais distintas, todos eles escutaram as propostas que Ele lhes apresentava. O tipo de respostas poderia variar, mas todos quantos respondiam positivamente revelavam esse anseio mais ou menos patente pelo absoluto. Vejam-se os casos de Nicodemos e da samaritana, de Marta e Maria e dos discípulos (6). Até mesmo os que, como o mancebo de qualidade, consideravam excessivas as posições do mestre galileu (7) não se furtaram ao diálogo.
Do ponto de vista da teologia bíblica, a essa característica validada pela Bíblia, junta-se uma outra já referida e que vai balizar todo o relacionamento do homem com o absoluto de Deus – a sua condição de ser imerso no pecado. Há, naturalmente, várias definições de pecado, algumas nada consentâneas com a realidade bíblica e muitas delas em livre curso em muitas igrejas. Isso talvez se deva ao facto de a Bíblia não apresentar uma definição de pecado mas de se limitar a induzir a ideia de ele ser uma transgressão à vontade e aos estatutos de Deus, colocando assim o homem em rota de colisão com a divindade de quem se encontra distante por via desse mesmo pecado. Seja qual for a definição de pecado que as diversas comunidades cristãs possam apresentar, todas elas produzem um efeito comum – a transmissão da noção de culpa do homem pelo seu afastamento da vontade de Deus, que o leva a deixar de ter comunhão directa com a divindade. Por via do pecado, o homem vive um drama espiritual intenso – o seu íntimo, onde tem inscrita uma matriz de origem divina, que anseia pela comunhão com o seu Criador, o que lhe permite trazer descanso e sossego, sente-se cortado dessa mesma comunhão e tudo fará e faz para que essa brecha que se abriu na comunhão entre Deus e o homem seja ultrapassada com sucesso, segurança e certeza.
Este é o drama que vamos encontrar em todos os quadrantes e latitudes, em todos os tempos e locais de habitação do homem. Seja qual for o posicionamento em que o homem se coloque na sua relação com o divino, em todas as expressões de religiosidade encontramos esta necessidade de ultrapassar a ruptura entre o nosso mundo do relativo e o absoluto de Deus. Como atrás mencionámos, o sistema sacrificial do Antigo Testamento aponta o caminho da restauração – a oferta de uma vítima vicária inocente, sem mancha ou defeito, por via da qual o penitente pode finalmente entrar no descanso da divindade.
Ora, é sobre este pano de fundo que se movimenta toda a teologia da cruz. Nela foi oferecido o sacrifício de uma vítima pura, inocente e sem mancha ou defeito. E para reforçar a realidade de se tratar de uma expiação plena do pecado, o altar em que esta vítima foi oferecida foi uma cruz, instrumento de tortura dos mais atrozes e que, na teologia veterotestamentária, tornava maldito tudo quanto nela fosse colocada, conforme a reflexão de Paulo (8) sobre o texto de partida em Deuteronómio que declarava ser maldito todo aquele que fosse exposto no madeiro (9). Na brilhante exposição de Paulo aos Gálatas, epístola que juntamente com a de Hebreus deveria ser de leitura obrigatória para todo o cristão, aprendemos que aquela vítima (Jesus) que era inocente, pura e sem defeito, se fez maldição, entenda-se pecado, por todos quantos aceitarem esse sacrifício. Desse modo, em última instância, em termos teológicos, era o próprio pecado que estava a ser entregue a Deus para que Ele o afastasse e eliminasse do existir humano. Esse é o entendimento de Paulo, ao declarar que Cristo se fez pecado por nós (10), o que indica, como atrás dizemos, que a cruz estava a receber o pecado em toda a sua extensão e em toda a sua latitude. Ou seja, em Cristo, na cruz, o homem está a entregar aquilo que o afasta da comunhão com Deus. A cruz esvazia o pecado do existir humano, da alma humana que, assim, despojada daquilo que a impede de ter comunhão com Deus pode, através deste sacrifício, entrar livremente na presença de Deus, com a certeza de, enquanto permanecer à sombra do Calvário, não estar mais conspurcada pelo pecado. Depois de rememorar a acção, o carácter e a função do sacrificado Jesus, o autor da epístola aos Hebreus grita de triunfo que podemos agora chegar com confiança junto do trono da graça de Deus (11).
Há, assim, uma novidade no Cristianismo em relação ao Judaísmo – sem rejeitar toda a revelação anterior a Cristo, no Cristianismo há um sacrifício em tudo idêntico aos sacrifícios expiatórios veterotestamentários, mas em que o pecado morre com a própria vítima e em que a vítima acaba por ser ao mesmo tempo vítima e sumo sacerdote. Cristo surge então com esta dupla característica ou natureza – vítima sacrificial e sumo sacerdote. No AT o sumo sacerdote entrava uma vez por ano no Santo dos Santos a oferecer um sacrifício por todos os pecados confessados e não confessados, os declarados e os omitidos (12). En passant, é interessante notar que o sumo sacerdote tinha de se banhar num banho ritual para se purificar (13) antes de poder oficiar no Lugar Santíssimo. De igual modo, Jesus, como nosso sumo sacerdote também passou por este banho ritual purificador quando foi baptizado por João Baptista (14). O facto de Cristo ser em simultâneo vítima e sumo sacerdote é, só por isso, tema de um tratado de teologia. Limitemo-nos a apontar uma ideia-força. Agrupando em si essas duas características que teologicamente surgem como tendo natureza e função distintas, para não dizer opostas e até antagónicas, Jesus surge como o verdadeiro elo entre o Deus santo e o homem pecador. Como cordeiro sacrificial, assume não apenas a figura do homem em si, mas de tudo quanto ele tem de negativo, impeditivo de uma comunhão plena com Deus. Como sumo sacerdote, é o primeiro entre todos os sacerdotes, o que lhe confere singularidade. Na sua qualidade de sacerdote, a pessoa pura que surge como representante de Deus no acto sacrificial, Jesus une em si os dois pólos desta relação quebrada no jardim do Éden, garantindo assim ser não UM sacrifício, mas O sacrifício por excelência. E rematando todo este acto com selo de qualidade e garantia, o cordeiro em sacrifício é o cordeiro DE Deus.
Este sacrifício feito uma vez por todos dispensa qualquer acto da parte do penitente e do pecador visando por meio de um qualquer sacrifício de qualquer natureza obter da parte de Deus a graça de lhe ser permitido entrar na Sua presença. A cruz dispensa o pecador de, a cada pecado, apresentar um sacrifício redentor. Essa obrigação foi cumprida uma vez por todas por aquele que, sendo o Cordeiro de Deus, foi enviado por Deus para, por meio do Seu sacrifício, redimir por completo toda a raça humana. Por isso, a epístola aos Hebreus declara triunfalmente e sem sombra para dúvidas que este sacrifício singular é suficiente para, por toda a eternidade, santificar o pecador (15). Isso não significa, porém, que liberto dessa obrigação, o crente possa viver a seu bel-prazer, ignorando todos os estatutos que Deus coloca perante o homem e cujo cumprimento e observação são indispensáveis para que a comunhão com Deus não entre em ruptura. Agora, o cristão vive em novidade de vida (16), o que significa que deve apresentar no seu viver frutos de uma vida transformada e em consonância com o querer de Deus. E para que o cristão não diga que se sente incapaz de o conseguir, Deus, conforme promessa de Jesus, coloca no seu interior o Espírito Santo (17) permitindo-lhe assim produzir fruto agradável a Deus (18).
Por tudo quanto atrás dizemos, concluímos que todo o cristianismo, quer em termos colectivos, quer em termos individuais, tem de girar sempre e inescapavelmente, em torno do sacrifício de Cristo para que, por meio dessa acção, os seus membros possam ser beneficiários de toda a herança de que o sacrifício no Calvário os fez herdeiros. Reunião cristã que esteja arredia dessa verdade não passa de uma socialização de entretenimento. Cristianismo em que essa verdade esteja ausente nem caricatura é de cristianismo, mas a prostituição de todo o plano de Deus para a redenção da humanidade. Cristianismo em que os seus seguidores, sejam líderes, sejam leigos, se arroguem à reivindicação de alguma parcela de glória pela sua acção não passa de associação de malfeitores e ladrões.
A cruz representa, pois, salvação e salvação vinda de Deus sem o contributo humano. Por isso, é uma obra perfeita e absoluta, porque Deus, sendo perfeito e absoluto, coloca a Sua marca em toda a Sua obra. Mas é uma salvação ao mesmo tempo colectiva e universal mas também individual. Universal, na medida em que está acessível a todos sem excepção. Individual, porque cada um tem de assumir sozinho o compromisso de passar a ter comunhão com Deus, na medida em que Deus respeita a individualidade do homem, convidando-o a, face a face, decidir-se pelo caminho da reconciliação agora definitivamente franqueado. O Apocalipse retrata essa realidade de uma forma magistral e sublime (19).
No sacrifício há dor, a dor do animal que é morto. Jesus, como ser senciente, isto é, que sente, experimentou dor e dor atroz porque, como dizemos mais atrás, a cruz era instrumento de tortura dos mais atrozes, dos mais dolorosos. Sendo o Cordeiro de Deus, isso significa que Deus está presente na nossa dor e, através dela, podemos ver, embora nem sempre sentindo (20) que o Deus salvador está em nós (21), guiando-nos por aquilo que consideramos ser o nosso vale da sombra e da morte (22). Como diria Lutero, embora Deus oculto porque Ele é conhecido apenas porque se revelou, isto é, retirou o véu que O ocultava, Deus manifesta-se nas coisas visíveis. Embora sendo o Deus das Alturas, de que o cântico dos anjos aos pastores se faz eco (23), Deus mani-festa-se no mais profundo, como reconhece o salmista (24). Ele manifesta-se no mais profundo da nossa dor, da nossa ignomínia, da nossa insuficiência. E fá-lo através daquele que é Emanuel, a oferta sacrificial perfeita. E embora possamos sofrer em resultado da nossa decisão de seguir Cristo, isso não significa nem que iremos forçosamente sofrer nem que tenhamos de procurar o sofrimento para nos chegarmos a Deus em busca de redenção. Esta está já garantida uma vez por todas e não precisamos de procurar a dor e o sofrimento porque o Salvador levou já sobre si todas as nossas dores (25). Mas se a dor vier em consequência da nossa adesão a Cristo, por muito sofrimento que ela possa causar, só temos de recordar ao nosso coração e à nossa circunstância que do Alto vem o socorro (26), porque o Alto conheceu e experimentou a nossa baixeza.
Mas a cruz revela também o paradoxo do plano salvífico de Deus. Na cruz, aparentemente, não podemos ver Deus, tanto mais que, como referimos já, Jesus exclamou: “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste?” Ou seja, Deus está ausente, oculto da cruz. E, no entanto, é este Deus oculto que está presente em toda a extensão do sacrifício e do sofrimento de Cristo. Podemos avançar, em tentativa de explicação que Deus está, pelo menos aparentemente, ausente porque na cruz está não o Filho Unigénito, mas o pecado negro e hediondo. O que reforça o paradoxo porque, nessa linha de pensamento, o Deus santo passa pelo pecado, atravessa o pecado, mergulha no pecado para se chegar até ao pecador e resgatá-lo à sua condição de filho amado de Deus. O que faz com que Deus deixe de estar oculto DA cruz, para estar oculto NA cruz. Tal como Deus baixou do Alto à nossa profundeza, assim nós também, temos de subir ao alto através da nossa baixeza sabendo que em todo esse processo, em toda essa caminhada, no túnel escuro do pecado estamos resguardados por aquele que abriu um caminho seguro para o nosso ser.
Ainda citando Lutero, “a cruz põe à prova todas as coisas”. Ou seja, face a qualquer teoria ou doutrina de salvação de origem estritamente humana, a cruz manifesta-lhe as fragilidades e surge como o único e seguro caminho porque, como paradoxo de Deus, enfrenta os paradoxos do existir humano. Porque quando seguimos outro caminho que não o da cruz, estamos a dar primazia exclusiva ao intelecto e à vontade humana, remetendo para segundo plano a via segura de conhecer Deus através da revelação em que Ele próprio se empenha e compromete. Quando abraçamos a revelação de Deus, ela valoriza e potencia todas as faculdades humanas, incluindo a vontade e o intelecto. Ou seja, estes só podem pretender atingir o seu esplendor máximo quando andam de mãos dadas com a revelação da cruz, que é a revelação máxima de Deus ao homem e revelação final de Deus no tocante ao plano de salvação.
Por todas as razões atrás apresentadas e por outras que não abordámos, podemos concluir com Paulo, confessando e reconhecendo que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus mais forte do que os homens” (27). A Deus toda a glória.
(1) Génesis 1:26.
(2) Salmo 62:1
(3) Salmo 23.
(4) Hebreus 4:8,9.
(5) Génesis 2:1.
(6) João 3; 8; 11; 6:68.
(7) Marcos 10:17-22.
(8) Gálatas 3:13.
(9) Deuteronómio 21:23.
(10) 2 Coríntios 5:21.
(11) Hebreus 4:14-16.
(12) Levítico 16:29-34.
(13) Levítico 16:4.
(14) Mateus 4:13-17.
(15) Hebreus 10:12, 14.
(16) Romanos 6:4.
(17) João 16:13.
(18) Gálatas 5:22, 23.
(19) Apocalipse 3:20.
(20) Porque Cristo exclama na cruz sentir-se abandonado – Mateus 27:46.
(21) Porque Jesus é Emanuel, Deus connosco – Mateus 1:23.
(22) Salmo 23.
(23) Lucas 2:14.
(24) De profundis clamavi ad te Domine – Salmo 130:1.
(25) Isaías 53:4.
(26) Salmo 121:1.
(27) 1 Coríntios 1:25.

A TEOLOGIA DA CRUZ 1ª Parte

A TEOLOGIA DA CRUZ
1ª Parte
Dr. Jorge Pinheiro
Jorge Pinheiro
Falar da teologia da cruz implica ter de falar necessariamente de duas outras entidades para que este tema seja contextualizado e assim entendida a sua profundidade. Essas duas entidades são Deus e o Homem.
De facto, tendo em conta que, na visão cristã, a teologia da cruz é essencial, sendo o seu suporte e coluna mestre, ela só faz sentido tendo como pano de fundo não apenas essas duas entidades atrás referidas, mas a relação existente entre ambas, na medida em que a Cruz surge como o caminho que cimenta essa relação. Melhor ainda, a Cruz é o próprio cimento dessa relação.
Convenhamos que, em termos humanos, não é fácil falar de Deus. Como seres relatados estamos destinados a conhecer directamente apenas aquilo a que os nossos sentidos têm acesso. Essa, de resto, é a base de todo o conhecimento humano. É assim que se move toda a ciência. Qualquer ciência, seja ela física, humana ou formal, tem como objecto de estudo uma realidade ou ser acessível aos nossos sentidos e sobre o qual se podem realizar experiências, para comprovar a sua realidade e as conclusões a que se chegou do seu estudo. É verdade que cada ciência, de acordo com a sua natureza, segue métodos específicos que, em alguns casos, não permitem a experimentação directa (como é o caso das chamadas ciências humanas), mas todas elas têm como comum a necessidade de um objecto sensível de estudo.
Naturalmente, também, toda a ciência é, por princípio, incompleta, na medida em que não consegue esgotar o conhecimento pleno do seu objecto de estudo por se encontrar em permanente estado de evolução resultante da dialéctica estabelecida com esse objecto. Por isso, a cada momento se elaboram novas teorias baseadas em pressupostos, hipóteses ou descobertas entretanto adquiridos as quais muitas vezes contradizem ou melhoram uma perspectiva anterior. Sem nos aventurarmos na demonstração de que toda a ciência é influenciada pela ideologia do poder político, económico ou social em que se desenvolve, podemos afirmar que a ciência acaba sempre por estar em evolução não podendo por isso arrogar-se à palavra final do conhecimento, dada essa característica transitória. Mas também é verdade que na característica sincrónica do viver humano, as conquistas da ciência e o conhecimento que ela adquire surgem como absolutos porque, a quem vive sincronicamente falta a perspectiva diacrónica. Isto é, enquanto seres humanos só podemos estabelecer comparações factuais com o passado e apenas pressuposições, hipotéticas portanto, em relação ao futuro. Por isso, o momento (relativo) em que se vive tende a surgir para quem viva apenas sincronicamente como absoluto e adquirido. Salomão, ao reflectir sobre a existência humana e a sua contingência, declarava que tudo é vaidade (1), querendo com isso dizer que tudo neste mundo é transitório e não absoluto ou definitivo. Esta mesma ideia acaba por ser elaborada por João ao declarar que “o mundo passa” (2).
Ora, falar de Deus no pressuposto de Ele ser o objecto de estudo de uma ciência experimental é algo que surge como impossível, uma vez que, como Ser Absoluto, não sujeito às contingências e limitações do relativo, Deus não é directamente captável pelos sentidos humanos sob o risco de, sendo-o, deixar de ser Deus por perder a sua natureza absoluta. É que, enquanto o Absoluto pode abarcar o relativo, o relativo apenas pode tentar abarcar o relativo e, do Absoluto, ter somente um vislumbre hipotético.
Assim, toda e qualquer ideia que o homem possa ter de Deus será sempre aproximada porque lhe falta a capacidade de exercer algum tipo de controlo ou domínio sobre o seu objecto de estudo. No entanto, apesar das limitações que cercam a abordagem científica de Deus, há sempre alguns aspectos que se podem tomar como adquiridos. Naturalmente, entendendo Deus como ser absoluto, pode imaginar-se, por exemplo, que todos os Seus atributos sejam também absolutos. A partir daqui, no entanto, pouco mais se pode avançar, como seja o perfeito carácter de Deus e as Suas intenções. Neste aspecto, tudo quanto se possa elaborar a esse respeito terá de ficar pelo campo das hipóteses, uma vez que não há possibilidade de as confirmar ou infirmar. De resto, é a essa conclusão que chega Paulo, ao declarar: “Quem compreendeu o intento do Senhor?” (3), reflectindo a confissão de Job “Bem sei que tudo podes e nenhum dos Teus pensamentos pode ser impedido” (4).
Dada a natureza absoluta de Deus, ao homem, como ser relativo, faltam as qualidades e capacidades para O descrever e aos Seus atributos de forma rigorosa, pelo que toda a descrição ou referência a tudo quanto importa a Deus peca por defeito. Daí recorrer-se a uma abordagem antropomórfica do Ser Absoluto. Disso são reflexo as diversas expressões que o crente utiliza para se referir à protecção ou ao amor de Deus, para citar apenas duas das Suas características. Todos conhecem os cânticos “Segura na mão de Deus” e “Sob Suas asas refúgio eu tenho”. No mesmo andamento, é costume o crente referir-se ao trono ou à habitação de Deus. Sendo Deus absoluto e sendo o espaço e o tempo realidades do relativo, então Deus não está sujeito às limitações do relativo, razão pela qual, em bom rigor, é incorrecto falar-se de lugar em relação a Deus. Essa mesma metodologia antropomórfica vamos encontrar logo em Génesis quando, no seguimento da criação de Adão e Eva, o texto bíblico se refere a Deus a passear no jardim, pela viração do dia (5). Ou, ao referir-se à ira de Deus, encontramos por diversas vezes a expressão “arrependeu-se Deus” como no episódio do dilúvio (6). Os exemplos são inúmeros. É evidente que, em alguns dos exemplos citados, se pode dizer que o texto recorre a metáforas, mas mesmo sendo metáforas, elas surgem com um carácter antropomórfico.
Chegados a este ponto, poderemos, justamente, perguntar: “Então, é impossível conhecer Deus? É impossível saber como Ele de facto é e quais os Seus intentos e propósitos?”
Antes de responder a essa pergunta, é fundamental perceber que Deus, como ser inominável, não pode ser demonstrado. E ainda bem que assim é, porque no momento em que se demonstrasse física e cientificamente a Sua existência, Deus deixaria de ser Deus porque ao ser percebido pelo ser relativo que é o homem, perderia a Sua natureza e essência absolutas. Isto é, Deus passaria a caber e a pertencer ao domínio do relativo. É verdade que há inúmeras tentativas ou teorias de demonstração da existência de Deus e muitos afadigam-se por encontrar a demonstração perfeita e irrefutável. De igual modo, muitos crentes, por vezes de forma angustiosa, são impelidos a basear a sua fé em Deus numa prova científica ou filosófica demonstrativa cabal da Sua existência. Ora, a verdade é que todas as teorias de demonstração da existência de Deus podem ser refutadas o que levaria a uma conclusão – nenhuma teoria pode afirmar ou negar a existência de Deus. E porquê? Porque, rememorando o que atrás se diz, estamos a lidar com o ser absoluto e, como seres relativos, faltam-nos as competências e as ferramentas próprias para afirmar ou negar irrefutavelmente tudo quanto concerne a Deus. Este facto não nega nem impede, porém, que, quem creia em Deus, não possa ou não deva reflectir lógica e racionalmente sobre Deus e os Seus atributos. De resto, toda esta exposição é prova do que acabamos de afirmar.
A resposta à pergunta não é fácil de dar e depende dos pressupostos de que se parte. Dada a impossibilidade de se comprovar experimentalmente toda a declaração feita directamente ou em nome de Deus, como saber que uma dada mensagem considerada proveniente de Deus, veio de facto d’Ele? Seria sempre necessário partir da hipótese (indemonstrável) da Sua existência. É sempre com base nessa hipótese que qualquer reivindicação da origem divina de uma mensagem, de um acontecimento ou de uma realização tem de ser analisada. Essa é a posição do autor da epístola aos Hebreus ao declarar: “É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam” (7). E aqui entra um elemento indispensável, diríamos central e insubstituível, para a resposta à pergunta em apreço. Esse elemento é a fé, no sentido de convicção e confiança. A convicção é o esteio da certeza e esta vai-se alicerçando cada vez mais à medida que o crente se aproxima de toda a mensagem ou intervenção tida como proveniente de Deus, quer directamente quer por algum intermediário.
Esta convicção resulta da escolha em favor da existência quando a pessoa é confrontada com a impossibilidade da afirmação ou negação da existência de Deus. Quem opta pela não existência, embora de forma sincera e em busca das respostas últimas à existência, segue o seu caminho em diálogo constante com a sua contingência, buscando argumentos em favor da sua opção. Em última análise e instância, pode seguir nessa opção até ao final dos seus dias ou chegar à conclusão de que esgotou os argumentos em favor da não existência de Deus, só lhe restando testar a opção oposta e que até então rejeitara. Quem opta pela existência procura ver em cada declaração tida como proveniente de Deus não apenas a confirmação da sua opção mas a identificação com a sua hipótese de partida. Concluímos então que a fé na existência de Deus, fé no sentido de convicção, é fundamental para que o crente receba como fidedigna uma mensagem ou intervenção atribuída a Deus. Não é, pois, por acaso que a Palavra de Deus declara que o justo viverá pela fé (8). Repare-se na parte final deste último versículo (Hebreus 10:38): “se ele [o justo] recuar, a minha alma não tem prazer nele”. Ou seja, se a pessoa não tiver fé na existência de Deus, Deus deixa de existir para ela.
Posto o problema nestes termos, é forçoso olhar ao nosso redor e ver como se apresenta o universo teológico de todos quantos optaram pela hipótese da existência de Deus, sem descurar as objecções ou contra-argumentos de quem defende a não existência de Deus. Ou seja, devemos analisar as diversas propostas desse universo e fazê-las passar pelo crivo fino e exigente da sua congruência.
Nesse esforço, podemos classificar de diversas formas o universo teológico: politeísmo, panteísmo ou monoteísmo, teologias (ou religiões) reveladas ou naturais (não reveladas). Sem entrar em grandes pormenores, podemos centrar a atenção no monoteísmo revelado. Rapidamente as razões dessa preferência em detrimento das outras perspectivas são:
1) No caso do politeísmo está ausente necessariamente a figura de um Deus absoluto. Se os deuses são vários, então não são absolutos. Em última instância, o politeísmo e o naturalismo ou o animismo movem-se nos mesmos pressupostos porque os diversos deuses dos politeísmos acabam por ser a encarnação de forças naturais que os animistas reverenciam. De certo modo, o politeísmo é um animismo de grau elevado.
2) No caso dos panteísmos, esta perspectiva acaba por ser um meio-termo entre um politeísmo e um monoteísmo. Em última instância, o deus (ou deuses) dos panteísmos perde ou compartilha o seu carácter absoluto com quem é do domínio do relativo ou então o outro elemento, por norma a natureza, surge como absoluto. Num caso ou no outro, o deus dos panteísmos surge sempre como não absoluto ou, no mínimo, o que seria o mesmo, como um absoluto truncado ou bipartido.
3) No caso do monoteísmo, se Deus é uma pessoa, então é natural que Ele fale porque o verbo, a fala, a comunicação é o que caracteriza a pessoa. É verdade que nos monoteísmos podemos encontrar a figura de um Deus impessoal para quem o destino da criação é indiferente. É o caso dos diversos deísmos. Ora, parece-nos, salvo melhor opinião, que o deísmo é de grau inferior a qualquer teísmo porque toda a pessoa apresenta uma outra característica, a de criador interessado na sua criação. Sendo uma pessoa, o Deus dos monoteísmos tem necessariamente de ser criador e de estar interessado (e muitas vezes envolvido) na Sua criação.
Note-se que referimos monoteísmos e não apenas monoteísmo. De facto, encontramos vários monoteísmos tanto na actualidade como ao longo da história. Centrando-nos na actualidade, detectamos três monoteísmos, indicados pela sua ordem de aparecimento: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Há quem considere o Siquismo um monoteísmo, mas tendo nós reservas quanto a essa classificação, preferimos não o abordar. Ora, a existência dos três monoteísmos levanta várias interrogações: são variantes de um só monoteísmo ou estaremos na presença de três monoteísmos distintos e, em última análise antagónicos. Subjacente a estas interrogações, a interrogação maior: o deus dos três monoteísmos é o mesmo ou cada um apresenta um deus diferente?
Sem aprofundarmos a questão, podemos salientar que os três monoteísmos apresentam traços comuns tanto na concepção de quem Deus é como se reivindicam de uma herança comum. No entanto, a uma análise mais fina, verificamos que há uma maior proximidade entre Judaísmo e Cristianismo, o que significa que, dos três, o Islamismo é o que mais distinções e diferenciações apresenta. As semelhanças e proximidades entre Judaísmo e Cristianismo são tais que podemos dizer, sem entrar em erro, que o Cristianismo é uma releitura do Judaísmo. Por algum motivo se fala de uma civilização judaico-cristã. De facto, as Escrituras cristãs aceitam como revelação divina todo o Antigo Testamento que é lido e interpretado não apenas no seu contexto histórico mas também como palavra de Deus preparatória de uma revelação que é continuação do que fora revelado até ao aparecimento de Cristo. Jesus Cristo, personagem histórica que, na leitura cristã, surge como clímax de todas as promessas de redenção apresentadas no Antigo Testamento.
No monoteísmo revelado, é natural que se fale em revelação. De facto, sendo Deus um ser absoluto que escapa ao escrutínio de uma análise sensório-objectiva, exigência de qualquer ciência, só O podemos conhecer e ao Seu querer, carácter e planos para a criação, se Ele próprio se revelar. Das revelações tidas como provenientes de Deus, concluímos que a que apresenta Deus com todas as características expectáveis de um ser absoluto é a Bíblia Sagrada. Por isso, podemos afirmar que ela é sem sombra de dúvidas a única fidedigna. Qualquer característica que possamos atribuir merecidamente a Deus, vamos encontrá-la nas páginas da Bíblia. Deus único, omnipotente, pessoal, que é amor, justiça, rectidão, etc., tudo vamos encontrar na Bíblia. Um agnóstico ou um ateu que analise com imparcialidade o texto bíblico terá de confessar que tudo quanto poderia esperar de Deus está na Bíblia. Ou, dizendo de outro modo, que a elaboração judaico-cristã das características de Deus é final e absoluta. Se compararmos a Bíblia com o Alcorão, verificamos que tudo quanto este último possa dizer das características, da personalidade e dos planos de Deus para a Sua criação se encontram já expresso de forma directa ou indirecta, implícita ou explicitamente nas páginas da Bíblia. Nesse sentido, a um monoteísta crente na Bíblia, o Alcorão nada acrescenta às características de Deus que ele já não conheça, aprecie ou tenha experimentado ou descoberto.
Temos, então, uma revelação escrita onde o crente pode ir buscar todas as respostas para as suas inquietações humanas, em qualquer campo do seu envolvimento pessoal: espiritual, social, económico, político, etc. Por isso, é fundamental que o crente, o cristão neste caso, esteja familiarizado com a Bíblia Sagrada e dela faça a sua bússola na sua caminhada terrena.
Falamos de revelação. Ora, revelação implica, como vimos, palavra ou comunicação, característica fundamental de pessoa. Sendo Deus uma pessoa, então é natural que comunique pela palavra. E é curioso porque, como seres relativos que somos, necessitamos sempre de uma forma para perceber e entender a realidade. Damos formas às coisas através de outros objectos ou de símbolos verbais ou não. O homem dá assim uma forma a todos os seres, uma vez que só tem a capacidade de apreender a realidade através desse meio. Por isso, alguém designou o ser humano como o homem simbólico. Sendo Deus um ser, mesmo sendo o ser absoluto, é necessário ao homem dar-Lhe uma forma para O perceber e entender. Por isso, ao longo da história da humanidade, vemos o homem atribuir à divindade as mais diversas formas. Ora, Deus sabe dessa contingência humana e, por isso, tem de se apresentar sob uma forma ao homem para dele ser conhecido ou, melhor dizendo, ser começado a ser conhecido. Verificamos, porém, que tendencialmente o homem acaba por identificar a forma da representação da divindade com a própria divindade. Ao fazê-lo, na prática acaba por atribuir a glória que apenas a Deus pertence à forma que O representa. Ora, a Escritura é muito clara ao declarar “Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura (ou aos ídolos)” ( ). Por essa razão, a Bíblia é muito enfática ao declarar guerra aberta à adoração de ídolos, assumam eles a forma que assumirem. O Decálogo é disso prova exemplar: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( ). No entanto, devido à nossa contingência, continuamos a necessitar de uma forma que nos identifique Deus. O Deus da Bíblia sabendo disso encontra a solução, retratando-se através de uma das Suas características – Deus é um Deus loquans, um Deus que fala. Por isso, o nome de Deus, que é uma forma de O representar, é merecedor de todo o respeito e reverência. Por isso, de novo no Decálogo, vemos a proibição de invocar o nome do Senhor Deus em vão (9). E Deus é um Deus loquans porque a primeira acção que d’Ele temos registada não foi algo que Ele tenha feito. A Sua primeira acção foi a fala: “Disse Deus” (10). Deus é, então, Palavra. Não é por acaso que Jesus, que é a imagem visível do Deus invisível (11), é chamado o Verbo divino (12). Ou seja, tudo quanto queremos conhecer de Deus, vamos encontrar a resposta na mensagem e no ministério de Jesus.
Ainda quanto à forma de representação de Deus, há no Novo Testamento um texto curioso e paradigmático em relação a Jesus, que O declara como sendo em forma de Deus (13). É bom não esquecer que o autor desta afirmação é o estudioso e grande conhecedor das Escrituras hebraicas, o apóstolo Paulo, para quem colocar alguém a par de Deus Yavé era algo de impensável.
Como ser absoluto que é, todas as características de Deus são também absolutas. Seria tarefa quase impossível enumerá-las todas. Por isso, citaremos apenas algumas, tendo sempre em mente que elas também se encontram em Jesus, na medida em que, como vimos atrás, Ele é o verbo divino. Na verdade, todas as características e atributos de Deus podem ser condensadas numa única expressão: Deus é santo. Por isso, Isaías declara enfaticamente: “Santo, santo, santo é o Senhor” (14), expressão essa que é repetida na visão de João em Patmos (15). Tradicionalmente, define-se santo como algo de magnífico, de intocável, de inconspurcável, de transcendente. Sem negar a verdade dessas definições, podemos considerar um outro sinónimo: perfeito. E perfeito no seu sentido etimológico: algo que está completo, a que nada falta. Recordamos certamente a designação de ”capelas imperfeitas” no mosteiro da Batalha. Elas são imperfeitas não porque tenham algum defeito, mas porque simplesmente não foram concluídas. Ora, neste sentido de perfeito, Deus é santo porque n’Ele nada falta para que seja o que é, porque é o Ser Absoluto, logo, perfeito. Foi nessa qualidade que se revelou a Moisés quando este Lhe perguntou o seu nome. “Eu sou o que sou” foi a resposta (16). E repare-se que tal como Deus se revela no Antigo Testamento como aquilo que é (Justiça Nossa, dos Exércitos, Bom Pastor, etc.), Jesus também se identifica por aquilo que Ele é: o caminho, a verdade, a vida, a ressurreição, o bom pastor, a porta, etc. Isto mostra-nos que, como Seu seguidor, o cristão deve habitar no domínio do ser e não do ter. Somos o que somos não por aquilo que temos mas por aquilo que somos. Por isso, en passant, como crentes na acção do Paráclito, podemos dizer que os frutos do Espírito revelam o carácter, o ser, do crente em quem o Espírito Santo habita. Por isso, sem descurar os dons, o crente em Jesus deve estar mais preocupado em ser abundante nos frutos do Espírito Santo.
Sendo perfeito, então Deus é-o em tudo quanto diz respeito à Sua relação com o homem, Sua criação. E como o semelhante se aproxima do semelhante, não nos espanta a exigência feita através de Moisés “Sede santos, porque eu sou santo” (17) e que Pedro repete (18). Ora, sendo o homem pecador, estando por isso cortado da presença de Deus, é necessário que ele seja vivificado para prestar culto a Deus. Em todo o universo religioso, há a noção de que para o adorador ser aceite por Deus tem de se aproximar com uma oferta sacrificial que, por isso mesmo, passa a pertencer à divindade. Ora, o sacrifício máximo, a oferta última e derradeira, é a entrega da própria vida. Mas como ao dar a sua vida, o homem assume uma dupla morte, a espiritual e a física, fica impossibilitado de ter comunhão com o Criador que, através da recepção da sua oferta, se torna o seu Salvador. Por isso, o homem necessita da oferta de uma vida vicária. Nesse sentido, vemos que é em torno desta realidade que se move e se centra todo o sistema sacramental do Antigo Testamento. O sacrifício surge, então, não tanto para agradar a Deus, mas como caminho para a redenção do homem, da sua compra ao pecado que o afasta de Deus e da comunhão que pode e deve ter com o Criador.
No Antigo Testamento há toda uma elaboração do sistema sacrificial, com as suas exigências e consequências que não vamos reproduzir aqui. A compreensão do papel e do alcance de todo esse sistema sacrificial vicário vamos encontrá-la no magnífico estudo da epístola aos Hebreus que, sobre o pano de fundo desse sistema sacrificial, interpreta todo o ministério e acção auto-sacrificial de Jesus. Quem lê esse tratado aos Hebreus não pode ficar insensível não só face à profundidade desse estudo como também das consequências e alcance da obra daquele que João Baptista declara e confessa como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (18). Num judeu, esta expressão “Cordeiro de Deus” e a acção que dele resulta, a “extirpação do pecado do mundo” não são inocentes nem inócuas. O cordeiro era a vítima preferencial dos sacrifícios judaicos. Deveria ser apresentado sem mácula nem mancha (20) para o sacrifício cruento. Mas há aqui, nesta declaração de João Baptista, uma novidade: enquanto no AT o animal a sacrificar era do penitente (leitura objectiva), aqui, com Jesus, a oferta sacrificial é de Deus (leitura subjectiva). É verdade que também se pode interpretar no sentido de o cordeiro ser oferecido a Deus (como o era), sendo portanto “de Deus”, mas a leitura subjectiva está também correcta e, por isso, é perfeitamente aceitável e a mais correcta, como veremos a seguir. Mas a novidade continua porque, enquanto no AT o sacrifício era contínuo pois cada pecado exigia um novo sacrifício, agora com este Cordeiro de Deus, trata-se de uma oferta uma vez por todas, conforme a magnífica elaboração do estudo da epístola aos Hebreus 9 que conclui pela perfeição do sacrifício de Jesus Cristo. Ora, a perfeição é característica de Deus, o que significa que se o Cordeiro é de Deus, então esse Cordeiro é perfeito, é divino. Sendo o Cordeiro de Deus a pessoa de Jesus, a conclusão lógica é pela perfeição de Cristo que assume assim um carácter divino. Sendo o sacrifício do Cordeiro um sacrifício perfeito, isso significa que foi suficiente e bastante, na medida em que, enquanto no AT o sacrifício cobria o pecado, neste o sacrifício apaga o pecado.
A finalidade do sistema sacrificial no AT era conseguir que se restabelecesse a relação entre Deus perfeito e, logo santo, e o homem imperfeito, logo pecador. O Novo Testamento vai mais longe e declara que a finalidade do sacrifício do Cordeiro de Deus não se fica apenas pelo restabelecimento da relação entre Deus e o homem, mas proclama a transformação do homem de pecador perdido e desgarrado em filho de Deus (21). Deste modo, através de uma oferta do próprio Deus que se identifica com o Homem na sua qualidade de ofertante de um sacrifício, a justiça e a santidade de Deus encontram-se, encerrando nesse círculo todos quantos se identificam com esse sacrifício que o próprio Deus ofereceu.
(1) Eclesiastes 1:1
(2) 1 João 2:17
(3) Romanos 11:34; 1 Coríntios 2:16
(4) Job 42:2
(5) Génesis 3:8
(6) Génesis 6:6
(7) Hebreus 11:6
(8) Romanos 1:17; Hebreus 10:38.
(9) Isaías 42:8.
(10) Êxodo 20:3-5.
(11) Êxodo 20:7.
(12) Génesis 1:3.
(13) Colossenses 1:15.
(14) João 1:14.
(15) Filipenses 2:6.
(16) Isaías 6:3.
(17) Apocalipse 4:8.
(18) Êxodo 3:14.
(19) Levítico 11:44
(20) 1 Pedro 1:16
(21) João 1:29, 36.
(22) Levítico 1;3; 22:21.

Há culturas que são superiores a outras?

Há culturas que são superiores a outras?
2018julho21 Casamento Ana
Este é um tema escaldante nos dias de hoje. De forma acertada, no nosso entender, é enaltecida a diversidade cultural, mas, por outro lado, de modo demagógico, ignoram-se algumas práticas culturais que ofendem a dignidade humana e, o mais importante para nós, a ética judaico-cristã. É o caso do casamento imposto a crianças e adolescentes e a excisão genital feminina. Isto para dar dois exemplos dos quais o primeiro é silenciado pelas repercussões políticas e religiosas que implica, e o segundo é denunciado pontualmente porque não tem esses constrangimentos. Independentemente do que se possa responder à pergunta que nos serve de título, faz toda a diferença viver numa cultura antropófaga ou não!
Esta questão entronca também no fenómeno religioso do qual damos dois exemplos: o carma e as castas. Já parámos para pensar quais as consequências sociais e humanitárias de quem acredita que o sofrimento presente é uma forma de penitência para alcançar um estado superior, mais evoluído, na próxima reencarnação? O mesmo se pode dizer quando comparamos líderes religiosos em que uns usaram e subscreveram o uso da violência para imporem as suas ideias e outros que recusaram e se insurgiram contra o seu uso. A ideia prevalecente é que todas as religiões são iguais. Grosso modo estamos de acordo. Em muitos aspetos consideramos que existem diferenças entre as várias religiões que importa não ignorar. Ninguém está a sancionar com isso a guerra das religiões. Mas por que carga de água, dizemos nós, não seremos capazes de forma pacífica e respeitosa confrontar as nossas convicções. Não acreditamos no sincretismo religioso nem num ecumenismo tipo salada de frutas, embora percebamos que possivelmente para lá dos muitos que o defendem, um dia surgirá uma proposta que será aliciante o suficiente para arrastar as multidões e dar suporte a um governo de alcance mundial.
O mesmo se pode dizer sobre as várias concepções que existem de Deus. Existem pessoas que julgo sem a devida ponderação e investigação, afirmam que todas as concepções são iguais. O que estas pessoas pensariam se fossem deslocadas para uma geografia em que da ideia de Deus decorre a lapidação, as chicotadas em praça pública e até a amputação de membros. Dir-se-á que em todas as confissões religiosas se viveram momentos em que tais práticas foram usadas. É verdade! Mas isso não significa que a ideia de Deus no judaísmo, cristianismo e islamismo, para falar apenas no grupo monoteísta, seja igual. A situação torna-se ainda mais flagrante quando se junta o grupo politeísta do hinduísmo e a religião sem deus do budismo. Acreditar num Deus pessoal é totalmente distinto de um deus que não passa de uma energia.
Não existe nenhuma cultura que seja perfeita e isenta de pecado. O Homem é pecador e tudo o que é sua criação sofre da mesma doença. Todas as religiões enfermam igualmente do mesmo mal, porque toda a religião é criação humana.
A situação muda de figura quando nos focamos na pessoa de Jesus. O único sem pecado, o único absolutamente justo e santo, o único perfeito em todos os detalhes e pormenores, em todas as Suas ações, em todo o Seu ensino, em todo o Seu caráter e personalidade, em toda a Sua pessoa.
Eu sou cristão, seguidor de Jesus. Considero-O como Ele Se apresentou, enquanto Senhor e Salvador, e por isso, dirão alguns, estarei a “puxar a brasa à minha sardinha”. Proponho que cada um leia os Evangelhos onde a história de Jesus nos é apresentada. O que dizer dos mandamentos do amor, do perdão e do serviço que Jesus não apenas propôs, mas viveu integralmente? Claro que facilmente se cai para o outro lado dizendo que são utopias que não têm cabimento no mundo em que vivemos. Outros preferirão dizer que Jesus é um mito. Mas Ele está aí na História como O grande “influencier”, como hoje se diz. Jesus não apenas disse, mas viveu. Viveu e morreu por isso. E, como não podia deixar de ser, numa história com sentido, ressuscitou e venceu a morte. Jesus é, por isso, a evidência por excelência de que o Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo), na Sua essência de santidade, amor, graça e misericórdia, é o Deus único e verdadeiro. Deus é Deus, e a Sua Criação está sob o Seu domínio. Ele prevalecerá, e com Ele toda a Sua criação. “Ninguém pode chegar ao Pai sem ser através de mim.” (João 14:6, OL). A escolha é nossa! Eu decidi seguir Jesus!!!

Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com 

VERDADE ABSOLUTA

VERDADE ABSOLUTA

 2018julho21 Casamento Ana

            A verdade ou é absoluta ou não é verdade. Verdade relativa é um contra censo. A minha verdade tem de ser a verdade de todos ou então não é verdade. Não existe isso da minha verdade e a verdade dos outros. Ou é verdade ou não é verdade.

            A questão da verdade sempre interpelou os homens. Muitos deles infelizmente não se deixam interpelar o suficiente por ela e não esperam ou não se detêm o suficiente para serem informados acerca dela.

            O evangelho dá-nos disso um exemplo na pessoa de Pilatos que diante de Jesus questionou acerca do que é a verdade. Só que retirou-se sem ouvir a resposta. Melhor dizendo retirou-se sem acolher a própria verdade que estava diante dele em carne e osso.

            Em termos de fé a verdade é fundamental. Fé na mentira leva à morte. Só a fé na verdade é genuína e autêntica. Só a fé na verdade é verdadeira.

            Jesus Cristo apresentou-se como a verdade. Ou seja na fé cristã a verdade é uma pessoa, não uma fórmula matemática, física ou química. A verdade não é um axioma filosófico. A verdade não é uma figura de linguagem literária. A verdade é Cristo. Ele mesmo o disse. Ele mesmo o provou. “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João 14.6).

            Jesus Cristo é a origem de toda a realidade. Ele é o Criador e o Sustentador de todas as coisas. Todo o Universo tem o seu fundamento n’Ele. Foi Ele que o trouxe à existência. 

            A verdade que não é vivida não se conhece efectivamente. Só conhecemos por dentro a verdade quando ela é interiorizada e expressa nos actos do quotidiano.

            Quando os absolutos morais e éticos são questionados e colocados em causa, vive-se ao sabor do vento, das conveniências, do prazer imediato. Quando o relativismo invade e assenta arraiais no domínio ético e moral, perde-se o rumo, instala-se a confusão e domina a morte da ausência de sentido e propósito. Quando a verdade absoluta dos valores e dos princípios é descartada não há campanha sobre as consequências dos actos que vingue e dê os resultados esperados. Quando Deus é esquecido, posto em causa, remetido para as rotinas dos rituais religiosos sem qualquer interferência na vida do dia a dia, os absolutos morais e éticos desaparecem e são substituídos por outros absolutos contraditórios como é o caso da tolerância que não mais capaz de se insurgir e denunciar a mentira, e da afirmação que “tudo é relativo”.

            Como cristãos evangélicos seguidores de Jesus Cristo afirmamos que Ele é a verdade absoluta e que pela Sua vida e ensino temos valores e princípios espirituais, morais e éticos absolutos sem os quais a morte se instala eternamente.

            A exigência de Cristo é nada mais, nada menos, do que a perfeição do Pai no amor: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? não fazem os publicanos também o mesmo? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mateus 5.43-48).

            Não é possível a santificação quando a verdade absoluta é descartada. A santidade é ferida no seu âmago quando se nega a possibilidade da verdade. Para Jesus a santificação é possível pela verdade da palavra divina. Foi assim que Ele orou ao Pai: “Santifica-os na verdade: a tua palavra é a verdade.” (João 17.17). Quando teólogos, filósofos e outros que tais negam a Bíblia como Palavra de Deus, ao sabor da corrente do pluralismo e do relativismo, atacam o cerne do propósito de sermos à semelhança de Deus: “Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1.16). A santidade é a vida vivida na verdade que é Cristo em amor.

            O evangelho de Jesus casa a verdade com o amor. Essa conjugação é declarada de forma inexcedível e em toda a sua crueza, na cruz em que Cristo morreu. Ali está a verdade da ruína e morte que o pecado produz, a justiça absoluta de Deus e o Seu amor em graça e perdão para connosco. É assim que devemos crescer em tudo como membros da Igreja segundo o dizer de Paulo pelo Espírito Santo: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é o cabeça, Cristo, (…).” (Efésios 4.15).

            A verdade em amor não é a negação do pecado e dos pecados, mas a sua denúncia segundo a graça, a misericórdia e a justiça do Deus que é santo. Todo o pecado tem perdão segundo o evangelho, menos o pecado de não reconhecer o pecado e de aceitar o perdão que só Jesus nos pode dar porque morreu em nosso lugar, sofrendo sobre si a penalidade do pecado. “Ora, se invocais como Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação, sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos, por amor de vós. que, por meio dele, tendes fé em Deus, o qual o ressuscitou dentre os mortos e lhe deu glória, de sorte que a vossa fé e esperança estejam em Deus.” (1 Pedro 1.17-21).

            É na verdade que Cristo é e que Ele declara, viveu, pela qual morreu e ressuscitou, que encontramos a genuína liberdade. É possível ser verdadeiramente livre na verdade de Jesus. Livres da mentira do pecado, do absurdo, da morte, do vazio, da desesperança, da ausência de sentido e propósito.

            A verdade absoluta existe. A verdade absoluta é Jesus. Neste tempo de pluralismo e relativismo declaramos sem quaisquer reticências essa verdade. Fora dela estamos irremediavelmente perdidos por toda a eternidade. Resistamos como discípulos de Jesus às investidas da cultura pluralista e relativista, seguindo a verdade em amor.

 

Samuel R. Pinheiro

www.samuelpinheiro.com

E se Cristo não ressuscitou…

E se Cristo não ressuscitou…
2018julho21 Casamento Ana
 Não estamos a citar uma obra cética, ateia ou agnóstica, nem tão pouco um comentário religioso islâmico que nega a morte de Jesus na cruz, e portanto, a Sua ressurreição.
A Bíblia poupa os céticos ao trabalho de tentar identificar o “calcanhar de Aquiles” do evangelho e do cristianismo. Sem ressurreição não temos evangelho nem cristianismo. O evangelho permanece de pé ou cai face ao facto histórico da ressurreição de Jesus. É o apóstolo Paulo que assim escreve quando se dirigiu pela primeira à igreja em Corinto na sua primeira carta inspirada pelo Espírito Santo, no grande capítulo da ressurreição: “E se Cristo não ressuscitou então a vossa fé é inútil e vocês ainda estão sob condenação por causa dos vossos pecados.” (v. 17 – OL). O apóstolo continua de forma enfática “E se a nossa esperança em Cristo é unicamente pra esta vida nós somos as pessoas mais miseráveis no mundo.” (v. 19,20 – OL). Para logo mais afirmar taxativamente: “Mas o facto é que Cristo ressuscitou mesmo dentre os mortos e se tornou o primeiro entre os milhões que um dia voltarão a viver!” (v. 20 – OL).
Vários tentaram a tarefa de provar que Jesus não ressuscitou dos mortos. Um deles está registado no livro Quem Moveu a Pedra?, escrito por Frank Morrison, um periodista inglês que se dispôs a demonstrar que a história da ressurreição de Cristo era um mito. As suas investigações levaram-no à fé no Cristo ressuscitado. O primeiro capítulo tem o título sugestivo “O livro que se negou a deixar-se escrever”. Muitos outros tentaram esta façanha e esbarraram com as evidências que percorrem todo o Novo Testamento. Aliás, não é possível explicar a Igreja sem a realidade da ressurreição.
A ressurreição, é o principal de todos os sinais da singularidade e exclusividade de Cristo. Todos os grandes vultos da história da humanidade morreram e os seus restos mortais estão aí a comprová-lo. O túmulo de Jesus está vazio!
Teria sido muito fácil, demasiado fácil, acabar de vez com a igreja nascente e o testemunho intrépido dos discípulos, fazendo desfilar o corpo do Nazareno pelas ruas de Jerusalém. Ninguém o fez porque não o podiam fazer. Os religiosos judeus só não o fizeram porque não era possível fazê-lo. Os romanos também alinhariam nessa prova incontestável para limpar a afronta do selo romano quebrado na sepultura porque um anjo removeu a pedra, transportando-a para cima, com um peso calculado em duas toneladas, segundo a obra Evidência que Exige um Veredito (volume 1), de Josh McDowell, e dos guardas que desertaram com a insinuação religiosa de que os discípulos tinham vindo de noite, e roubado o corpo. Que vexame para a bem preparada escolta militar romana. Ao contrário os discípulos estavam dispostos a sofrer o martírio por causa daquilo que sabiam ser a verdade e que em consciência não podiam negar, isto depois da sua debandada após a crucificação do Mestre. Como alguns apologetas cristãos referem, alguém pode estar disposto a morrer por algo que pensa ser verdadeiro quando é algo, mas ninguém se dispõe a morrer por algo que sabe ser mentira.
Maomé também tentou passados sete séculos reescrever a história no seu ponto fulcral, negando que Jesus tivesse morrido, e portanto também não teria ressuscitado. Logicamente decidimos pelo testemunho dos discípulos de Jesus, do que por algum depoimento ou revelação depois de tantos séculos.
Na realidade o mais importante da ressurreição de Jesus é que ela vem acompanhada com milhões de testemunhos de pessoas que foram transformadas pelo mesmo poder que o ressuscitou. Paulo fala disso na sua carta aos Efésios: “E, mais ainda, para se darem conta do ilimitado poder que dispõe a nosso favor, nós os que cremos em resultado da ação dessa força divina que nos transformou. Esse poder grandioso foi também o que ressuscitou a Cristo, levantando-o dentre os mortos e colocando-o à direita de Deus nos domínios celestiais e acima de todo e qualquer chefe e autoridade, acima de todo o poder e governo que possa existir. Deus colocou tudo o que existe no universo sob a autoridade de Cristo, e fez dele a cabeça de todas as coisas, para benefício da igreja, a qual é o seu corpo; é ele que a enche com a sua presença, como também enche todas as coisas em todo o lugar.” (Efésios 1:19-23 – OL).
A ressurreição é a certeza da nossa esperança, o seu fundamento sólido. “Porque Ele vive posso confiar, porque ele vive não temerei” é a letra de uma música evangélica em torno desta verdade. A Sua ressurreição é a nossa certeza de vida eterna, que começa aqui e permanece para todo o sempre nas moradas que nos foi preparar. O capítulo quinze da primeira carta aos Coríntios termina com este brado de júbilo: “Como estamos gratos a Deus por tudo isso! Foi ele que nos tornou vitoriosos por meio de Jesus Cristo nosso Senhor!” (v. 57 – OL).
Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com

A SIMPLICIDADE DO EVANGELHO

A SIMPLICIDADE DO EVANGELHO
2018julho21 Casamento Ana
Samuel R. Pinheiro
O evangelho é simples. De algum modo não precisamos de nenhuma versão de um evangelho para “totós”. Muito menos aquela expressão “explica-me como se eu fosse muito burro”. É suficiente ler o evangelho com uma mente e um coração abertos. Ele é fácil de entender e de acolher no coração e na vontade.
Na sua simplicidade o evangelho encerra os maiores mistérios que alguma vez poderíamos imaginar.
Em primeiro o mistério de um Deus trino que se dá a conhecer pessoalmente, em carne e osso, pele Filho. Deus que se mostra de um modo visível aos olhos humanos, não era uma novidade em relação à história que antecede a chegada de Jesus Cristo, no que é chamado de teofanias. Existe, no entanto, uma diferença radical no que concerne a Jesus entre nós, como o Filho de Deus. Pela ação do Espírito Santo Jesus é concebido no ventre da virgem Maria. Deus toma a forma humana, veste-se de carne. O Criador surge na história na condição de criatura sem deixar de ser divino.
Em segundo lugar o mistério da vida de Jesus, Deus e Homem, numa única identidade. É aqui que reside a grande tensão de todo o evangelho no contexto da sociedade e da cultura judaica. Podemos dizer que este era o contexto mais difícil para a divindade de Jesus ser assumida e demonstrada. Por exemplo o evangelho escrito pelo apóstolo João tem como objetivo nas palavras do próprio: “Jesus fez ainda diante dos seus discípulos muitos outros sinais que não vêm escritos neste livro. Estes foram contados para que creiam que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenham vida no seu nome.” (João 20:30,31 – BPT). Tudo o que Jesus fez, todos os Seus inúmeros milagres, toda a Sua vida nesta terra, têm um objetivo primordial, são por isso “sinais”, apontando para a identidade de Jesus. Quem Jesus é, é decisivo. Ao percebermos que Ele é muito mais do que um homem, sendo o Homem, é Deus. Ao longo de todo o evangelho de João, Jesus é apresentado como o EU SOU: “Eu sou o pão que dá vida” (6:35,48); “Eu sou a luz do mundo” (8:12); “Eu sou a porta” (10:7,9); “Eu sou o bom pastor” (10:11,14); “Eu sou a ressurreição e a vida” (11:25); “Eu sou o caminho, e verdade, e a vida” (14:6). Na introdução ao evangelho de João a edição A Bíblia Para Todos, acrescenta: “Com sentido absoluto, isto é, sem nenhum predicativo ou complemento, aparece em 6:20 (´Sou eu, não tenham medo!’) e, sobretudo, em 18:5,6, onde os soldados caem por terra diante da santidade, majestade e divindade do EU SOU, paralelo ao nome divino (Êxodo 3:14).” Um dos pontos mais sensíveis acontece quando Jesus cura um paralítico para vindicar o fato de que tem autoridade para perdoar os pecados, e isso os religiosos judaicos sabiam só Deus pode fazer!
Em terceiro lugar Jesus Cristo cumpre o Seu propósito de morrer. Deus conhece a morte com um corpo de homem. A Sua morte incorpora a morte de todos os seres humanos. Uma morte que começa por ser espiritual na separação de Deus e da Sua vontade, e acontece no corpo. “Está determinado que os homens morram uma só vez…” (Hebreus 9:28ª – BPT).
Em quarto lugar o mistério da ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição não é mais do que o ponto mais sublime e supremo da história da humanidade e da revelação divina. A morte é enfrentada nos olhos e é vencida. A partir daí não existe mais qualquer reticência. A morte foi derrotada. Há uma nova vida a viver para lá desta, ou como prolongamento desta mas com uma condição totalmente distinta. É Deus quem concretiza. Só Ele o poderia fazer. Nenhum homem ou mulher, nenhum líder religioso, filosófico, cultural ou político o fez ou pode fazer.
Nenhum destes mistérios é um entrave para uma mente aberta diante da evidência que nos leva a crer que Jesus é Deus entre nós, e a partir daí tudo se resolve, tudo se torna fácil tanto para a mente como para o coração. O que é necessário de seguida é agir em conformidade. Colocar em Jesus a nossa confiança e aceitá-lO como Ele é – o Senhor que nos salva da situação em que nascemos, prisioneiros da morte, reféns do que nos aprisiona dentro dos limites estreitos do nosso egoísmo, da nossa incapacidade de chegarmos por nós a Deus. Um vez crendo as evidências multiplicam-se, como alguém disse “crer para compreender”.
Antes do que cremos e da razão por que cremos, está em Quem cremos. No evangelho isso é essencial. A pessoa de Jesus dá-nos um novo referencial de vida, do tempo, da história, do passado ao futuro e à eternidade. Em Jesus e por Jesus o céu é estabelecido com algumas nuances aqui, e em toda a sua plenitude na eternidade. A terra fará parte do céu, e todos em Jesus viverão eternamente com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A decisão é feita aqui e agora! “A todos quantos o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.” (João 1:12- BPT).
Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com

UM PLANETA SEDENTO DE GRAÇA

UM PLANETA SEDENTO DE GRAÇA

 2018julho21 Casamento Ana

                A meritocracia da finança e da economia infiltrou-se nos relacionamentos e dentro do coração do homem. Porventura é daí mesmo que ela brotou. A ditadura do mérito está presente na escola, na empresa, na família e nas religiões. Talvez nem sequer tenhamos já a capacidade de conceber um mundo diferente. Mas o que se verifica nas várias dimensões da vida humana, está também agarrado à pele do homem.

                Eu mereço ou eu não mereci a isto, faz parte de uma mesma realidade como uma moeda de duas faces, mas cuja essência é a mesma.  

                A essência do evangelho que Jesus nos veio trazer, está resumida na palavra GRAÇA. A graça significa que eu não tenho que merecer, nem sequer alguma vez vou conseguir merecer. Não é por aí que eu tenho de ir. Preciso fazer uma inversão de marcha, mudar de rumo, seguir na direção oposta. Encontrar em Deus o meu suporte e a minha segurança. O texto da Bíblia é bem explícito. Esta é uma diferença radical entre todas as religiões e o evangelho. As religiões dizem “faça” e o evangelho diz “feito”. E o que a religião manda fazer nunca é suficiente o bastante para dar ao homem a segurança da vida eterna, e de ser aceite já nesta terra.

                O evangelho dá-nos a conhecer o plano incrível de Deus de vir ao nosso encontro para fazer por nós o que nós nunca poderíamos fazer por nós próprios. Por isso o homem estava irremediavelmente perdido.

                Se repararmos a vida que recebemos é um ato da graça. Existimos não porque merecemos, mas porque fomos desejados por Deus. A nossa vida pode não ser o que desejávamos por inúmeros fatores, mas a realidade é que viemos à existência pela graça. E Deus nos convida a continuarmos a viver no desenvolvimento dessa graça que tem o seu clímax em Jesus Cristo. Se existimos pela graça, só podíamos ser reconciliados com o plano de Deus que é vida plena e abundante, pela graça.  

                O problema do homem não reside na realidade de existir, mas de ter rompido com os desígnios e a vontade de Deus. Deus nos criou para vivermos num jardim e vivermos a cada dia desfrutando da Sua amável presença. O problema também não está apenas na decisão dos nossos primeiros pais que desobedeceram ao mandamento divino de não comer da árvore da ciência do bem e do mal. O problema consiste no que cada um de nós hoje faz diante do amor de Deus expresso na pessoa de Jesus. Deus fez tudo para que sejamos salvos.

                O Deus da Bíblia, o Deus que se nos deu a conhecer em Jesus Cristo, não negoceia connosco seja o que for. A religião pode virar, e geralmente vira negócio. Mas o evangelho não! Nada podemos pagar pela nossa vida, e nada podemos pagar pela nossa salvação.

                O estranho, ou talvez não, é que a meritocracia, está de tal modo arreigada no coração do homem, que este lida mal com a generosidade divina. Muitas pessoas ao ouvirem falar da graça de Deus, consideram que isso é mais do que podemos esperar. E em certa medida têm razão. Mas o que não esperávamos, e o que não podíamos exigir, foi o que Deus fez, porque Deus é mesmo assim. Nós somos diferentes porque a nossa natureza e condição originais foram corrompidos. Deus foi muito para lá da nossa imaginação. Ele surpreendeu-nos. O Seu amor é imenso.

                Muitas pessoas quando ouvem falar de Deus pensam imediatamente em mandamentos, em regras, em ética e moral. Mas se formos honestos connosco mesmo temos de reconhecer que estamos moralmente falidos. Mesmo que vivamos segundo os ditames da mais exigente ética, isso não é suficiente.

                Jesus encontrou-se com um religioso que seguia com todo o rigor os padrões éticos do judaísmo. Jesus de rompante disse-lhe que ele precisava nascer de novo e que só dessa maneira ele podia ver o reino de Deus. O homem ficou estupefacto e apesar de toda a sua cultura religiosa, não conseguia atingir como tal poderia ser possível. Talvez a sua religião fosse precisamente a razão pela qual ele não conseguia descortinar como tal podia ser possível, apesar de ter declarado que Jesus não podia fazer o que fazia se Deus não fosse com Ele. Na realidade Deus é o Deus do impossível. Ele pode mudar o ser humano por dentro, fazer-nos nascer de Deus, e sermos feitos Seus filhos. É aí que recuperamos a nossa imagem e semelhança perdidas. (João 3:1-21)

                O mesmo aconteceu com o apóstolo Paulo criado na mais estrita e rígida observância religiosa. Depois do seu encontro com Jesus e por revelação divina escreveu aos cristãos em Éfeso e a todos nós o que é a base sólida do plano divino:

                “Porque pela sua graça é que somos salvos, por meio da fé que temos em Cristo. Portanto, a salvação não é algo que se possa adquirir pelos nossos próprios meios: é uma dádiva de Deus. Não é uma recompensa pelas nossas boas obras. Ninguém pode reclamar mérito algum nisso. Somos a obra-prima de Deus. Ele criou-nos de novo em Cristo Jesus, para que possamos realizar todas as boas obras que planeou para nós.” (Efésios 2:8-10 – O Livro)

                O amor de Deus é incondicional. Todos somos amados porque Deus é amor. O que é que vamos fazer com esse amor? Do que fizermos depende o nosso presente e o nosso futuro eterno.

                No amor divino concretizado por Jesus na cruz encontramos uma nova identidade como filhos de Deus, um novo sentido e propósito na glória divina, perdão e completa libertação da culpa. É a vida eterna que recebemos, uma vida que permanece para sempre!

 

Samuel R. Pinheiro

www.jesus-o-melhor.com

O POETA CHEGOU À PATRIA PROMETIDA

O POETA CHEGOU À PATRIA PROMETIDA

JTP30
“O meu exílio está entre a terra que voluntariamente se perde e a esperança de uma Pátria prometida” (João Tomaz Parreira, Este Rosto do exílio, edição do Departamento de Literatura da Assembleia de Deus de Aveiro, p. 5)
 Pode considerar-se este texto como uma homenagem póstuma, embora eu lhes tenha aversão. Prefiro as homenagens em vida e sei que o querido amigo João Tomaz, como ele também me tratava nos emails que íamos trocando, os recebeu sem que isso beliscasse a sua humildade. No último enviou-me precisamente o texto “Lutero: ‘Que o Senhor te despoje do homem que eras’” e faz parte do repositório de muitos outros que nos remeteu e que enriqueceram este projeto digital. Para lá de outras considerações referia que o enviaria para a revista Novas de Alegria, “se Deus quiser”. Deus quinda assim quis e aí será publicado.
Publico esta minha homenagem neste site, porque foi um colaborador desde a primeira hora. O João Tomaz Parreira era assim, sempre disponível para apoiar e colaborar em projetos que visavam a promoção da cultura bíblica. Muitas vezes lhe disse “obrigado”. Sei que alguns deles foram escritos em momentos menos fáceis ou mais difíceis. Mas sempre com o mesmo rigor e excelência literária, com uma profundidade rara no meio evangélicos, diga-se.
Tive hoje, quarta-feira, dia dezassete, o privilégio de fazer uma leitura bíblica acompanhada de uma breve reflexão no tempo de capela do MEIBAD – Monte Esperança Instituo Bíblico. Durante a véspera e ainda na manhã do próprio dia lutei com a escolha do texto. O meu coração e a minha mente detiveram-se no capítulo 15 da primeira carta de Paulo aos Coríntios, o incomparável capítulo da ressurreição, a esperança da ressurreição de cada filho de Deus em Jesus Cristo. A morte foi vencida, o último inimigo foi derrotado, em Jesus Cristo temos a certeza da vida eterna. A Sua ressurreição é a garantia da nossa ressurreição. Esta é a maior de todas as declarações, o ponto culminante da nossa fé.
Poucos minutos antes do tempo de capela o meu telemóvel tocou e do outro lado, com voz embargada deram-me a notícia inesperada de que o meu querido amigo e irmão na fé, João Tomaz Parreira, tinha sido recolhido para as moradas que Jesus foi preparar para que onde Ele está nós possamos estar. Percebi então a forma particular como antecipadamente Deus lidou com a tristeza que me invadiu. Foi com sentida emoção que iniciei a apresentação do tema. O João Tomaz Parreira é um amigo do coração.
Não escondo que estou triste. Sei que não fomos criados para a morte, e esta sempre me arranha por dentro. A separação dói-me. Mas a esperança ilumina o nosso horizonte. Em breve encontrar-nos-emos. O João pertencia ao céu como todos os que em Jesus recebem essa cidadania. O João nunca se calou. A sua poesia e os seus artigos continuarão a falar da sua fé e da sua esperança. O seu verbo inspirado colocou-o ao serviço do seu Senhor.
Conheci pessoalmente o João Tomaz Parreira nos preparativos para o congresso Juvenil no Porto, fazendo parte do grupo de jovens a nível nacional que apresentaram uma proposta de renovação e restruturação destes encontros da juventude assembleiana.
Foi pela mão do João que fiz parte da Antologia da Nova Poesia Evangélica, e sempre encontrei da sua parte uma total disponibilidade para participar em diversas conferências, e colaborar com artigos em várias revistas das quais destaco o Novas de Alegria do qual era colaborador permanente tendo começado a colaborar na década de 60 (número de fevereiro de 1964, na seção Jovem, com um artigo com o título “A Tela do Calvário”), no Portal Evangélico do qual guardo uma saudosa memória e, mais recentemente, no site de Apologética. Participou ainda com a sua escrita na obra Línguas de Fogo – História da Assembleia de Deus em Lisboa, 1999.
A ASPEC lançou durante alguns anos um ciclo de conferências sob a designação Aqui e Agora século XXI. Numa dessas conferências no auditório do Padrão dos Descobrimento o João Tomaz Parreira abordou o tema da vida e obra de Vergílio Ferreira. Entre os presentes estava uma especialista no tema e que no tempo de perguntas ao conferencista registou a sua admiração pela elevação da reflexão apresentada. O João Tomaz era assim, profundo, rigoroso, exigente, perseguindo com denodo a excelência. O seu trabalho poético e os textos que ficam connosco exalam esse perfume. Vou sentir falta dos seus poemas que enriqueciam as redes sociais, muitos deles partilhei-os na minha página. Alguns últimos deixaram-me a impressão de que via para além do imediato e pressentia o tempo da partida, cantava as moradas eternas.
UM ANTI-REQUIEM NO HOSPITAL
Deitado num convés de lençóis ondulados
Os barcos ao lado ostentam o próximo
Remanso dos adormecidos
A certa altura o tecto é uma ilusão de óptica
Torna-se um limite que os olhos perfuram
A certa altura de uma certa altura
Apagam-nos a claridade, é a hora
De atravessar as águas da noite
Como um bálsamo de Gileade
No silêncio hospitalar.
06/10/2018
© João Tomaz Parreira
RESPOSTA QUE O POETA ENCONTROU ÀS SUAS QUESTÕES
Quando eu estiver mais cansado e a doença
Me der a tristeza das coisas belas, quando tiver
Apenas palavras para enxugar
Nos meus olhos as lágrimas, lerei
Os meus Salmos favoritos e os montes
Serão lagos de água clara no azul
Todas as montanhas são para subir
Lerei o trecho favorito
Da oração sacerdotal de Jesus Cristo
Onde deixou uma ponte entre nós e o Pai
E sentirei nos glóbulos doentes o valor
Da Graça bastante do meu Deus.
02/10/2018
© João Tomaz Parreira
UM DIA QUE NÃO PODE ESTAR MUITO LONGE
Um dia que não pode estar muito longe
Escaparemos por essa janela azul
Não somos Alice no país das maravilhas, mas
esse espelho é transparente e de lá Alguém
Nos vê e espera com toda a música
Que existe no silencioso corpo dos seus anjos
Um dia, quando começar a haver meia-noite
Como disse o Poeta, um dia que já ontem
Começou único no calendário de Deus.
14/06/2018
© João Tomaz Parreira
O João Tomaz Parreira é um nome maior das letras evangélicas. Guardo com carinho os livros de poesia Este Rosto do Exílio (1973), Pedra Debruçada no Céu (1975), Pássaros – aprendendo sempre e outros poemas (1993), e o ensaio teológico O Quarto Evangelho – Aproximação ao Prólogo (1988). Como poeta publicou ainda Contagem de Estrelas, 1996; Os Sapatos de Auschwitz, 2008; Encomenda a Stavinsky, 2011, e Esperar que a Voz Seja Suave, 2014. Atrevo-me a dizer que nascido em outro ambiente em que a cultura fosse mais considerada e valorizada, o JTP teria tido uma outra projeção. A sua poesia abria-nos os horizontes, levava-nos mais longe, despertava a nossa sensibilidade para outras paragens e outros sentidos. De verso para verso era como o dobrar de uma esquina em que os nossos sentidos eram surpreendidos e arrebatados.
Numa nota biográfica do primeiro a que faço referência pode ler-se: “Nasceu a 4 de abril de 1947, na cidade de Lisboa. Aluno da Escola Dominical da Assembleia de Deus, naquela cidade, desde 1954, mudou o rumo de sua vida adolescente, entregando-se a Cristo, nas Campanhas do Dr. Doctoryan em 1963. Nessa data foi residir em Aveiro, onde fixou a sua vida, sendo actualmente membro da Igreja Assembleia de Deus local.”
Penso que seria uma contribuição inestimável para os leitores de poesia e dos artigos sobre temas bíblicos e da cultura, que alguém reunisse num volume a poesia do João Tomaz Parreira, e noutro os vários textos em que a grande maioria terá sido publicada pela revista Novas de Alegria. É apenas um desejo em forma de sugestão!
A homenagem dei-a em vida, muitas e muitas vezes. Pessoalmente a maior parte delas. Foram muitas as vezes que lhe agradeci pela dádiva generosa do dom generoso com que Deus o havia agraciado. O João Tomaz Parreira cumpriu o seu desígnio com que Paulo termina esse capítulo 15 da primeira epístola aos Coríntios: “Façam sempre com entusiasmo aquilo que o Senhor quer, porque o esforço que fazem por ele nunca será inútil.”
Samuel R. Pinheiro

LUTERO: “QUE O SENHOR TE DESPOJE DO HOMEM QUE ERAS”

LUTERO: “QUE O SENHOR TE DESPOJE DO HOMEM QUE ERAS”
Comparativo entre Teatro e História
JTP29
© João Tomaz Parreira
John Osborne (1929-1994), um dos mais importantes dramaturgos britânicos do século XX, escreveu em 1961 uma peça de grande fôlego, quer de encenação e representação quer de texto, intitulada “Lutero”. Com um conteúdo religioso, com referências bíblicas nas falas das personagens ( “nunca os olhos viram nem os ouvidos escutaram tão maravilhosas cousas como as que Deus preparou para os que O amam” ), por exemplo, Martinho diz “Sou um verme e não um homem”, referência ao Salmo 22; com uma contextualização histórico temporal no século XVI. Contudo, não deixa de ser uma peça de teatro que se insere na escola do realismo social.
Osborne constrói um Lutero impetuoso e excessivo, cheio de dúvidas iniciais, consciente de que era um pecador à procura da Graça divina. Está caracterizado também pelo estilo dramatúrgico que fez escola no teatro inglês do anos 50, a personagem como herói egocêntrico, os diálogos e os monólogos extensos. Este aspecto é relevante na peça, porque recupera para o século XX um dos principais aspectos da vida de Lutero, como um pregador.
O teatro de Osborne, não trunca a vida de Lutero, nem o que o monge agostinho representou para a Reforma protestante. Recorrendo ao que os comparatistas fazem, compaginando as relações literárias entre obras, a biografia de Lutero dá inteiro suporte à peça que referimos.
“Lutero” abre a cena do primeiro Acto com o pronunciamento dos votos definitivos do futuro Reformador quando entrou na vida monástica, em 1506, em Erfurt:
“O Prior (para o jovem Martinho): Senhor, àquele que foi vosso desígnio revestir do hábito desta Ordem, investi-o também da vida eterna”
Despe o casaco de Martinho
“O Prior: Que o Senhor te despoje do homem que eras e das suas obras. Que o Senhor de ti faça um novo homem.”
“Martinho: Eu, irmão Martinho, professo e prometo obediência a Deus todo poderoso, à sagrada Virgem e a vós, meu irmão Prior deste convento”
O Prior abençoa-o enquanto Martinho se prosterna no chão, com os braços  abertos em cruz.( Osborne, John, “Lutero e duas Peças Inglesas”, Portugália Editora, 1969)
É necessário colocar esta informação da dramaturgia sob o óculo da história da Reforma, que é no fundo a história da vida de Lutero. O veredicto comparatista dessa história, que, por exemplo, podemos ler com mais ou menos pormenores em Lucien Febvre (“Martinho Lutero Um Destino”), Owen Chadwick, Richard Stauffer ou Albert Greiner (teólogo, 1918-2013) (“Lutero-Um ensaio biográfico”).
Este último autor escreveu na obra referida, que “Lutero teve de submeter-se às etapas habituais da iniciação monástica. A toma solene do hábito comportava uma breve oração litúrgica que expressava bem o voto de Lutero: “Que o Senhor te revista do homem novo, criado segundo Deus  em justiça e santidade que produz a verdade”- disse o prior” (Greiner, Albert, “Lutero”, Editora Sinodal, 1969,  pág.26)
É ainda mais rara a apreciação, que acaba por ser uma análise espiritual do que levou Lutero ao convento, aquela sob o olhar do influente historiador francês Lucien Febvre (1878-1956):” A 17 de Julho de 1505, pela manhã, um jovem laico transpunha a porta do Convento dos Agostinhos de  Erfurt. Vinha procurar no claustro um refúgio contra os males e perigos do século. (…) O hábito que este jovem inquieto e atormentado pedia para vestir, o hábito de lã áspera dos eremitas agostinhos, um dia dele se devia despojar e trocá-lo pela toga forrada de professor.” Lucien Febvre diz que a “clausura de Lutero não é uma farsa”.  O ter querido ser monge e tê-lo sido com paixão durante anos.
Lutero entrou no convento para encontrar paz, a certeza feliz da salvação. No entanto, Lucien Febvre escreve que “ no convento, de 1505 a 1510” Lutero pode medir a “decadência do ensino cristão” e experimentou “até ao âmago da sua alma sensível a pobreza desoladora da doutrina das obras”.
Dentre os livros que serviram de comparação para respaldar o dramaturgo inglês no que diz respeito ao drama íntimo de Lutero, sublinho o calvinista helvético Richard Stauffer(1921-1984), que em “A Reforma 1517-1564”, diz o seguinte: “Ora, apesar da sua fidelidade à regra, Lutero não encontrava a paz a que aspirava. “Sob a capa da santidade e da confiança na minha própria justiça” – escrevia mais tarde Lutero.
Tudo se iria tornar mais evangélico e, se quisermos, mais límpida e profundamente paulino na vida e acção, ensino e estudos de Lutero entre 1513 e 1518, quando a regra da Sola Fide e a convicção de que o justo viveria pela Fé tomaram conta do coração, do espírito e da mente do autor das 95 Teses.
Um dos mais proeminentes e eficazes historiadores da Igreja e da Reforma, o britânico Owen Chadwick ( 1916-2015), escreve que durante aqueles anos “ a sua compreensão paulina estava a crescer em precisão, clareza e maturidade.”
Com os historiadores que citei, comparativamente, fica-nos a certeza de que o dramaturgo John Osborne não só seguiu a história, como também lhe acrescentou uma pitada de realismo social e religioso que desmitologiza Lutero.
A peça coloca-nos mesmo no ambiente da época e perante algumas das personagens que mais desejavam impedir o trabalho reformador de Martinho, sobretudo a partir de 1516, caracterizado bem por um ditado da época, segundo o qual “Erasmo pôs o ovo e Lutero chocou-o”.
Refiro as duas sombras negras ao dominicano João Tetzel e ao cardeal Cajetan. Algumas das falas destas personagens, mostram como eram hostis a Lutero pela oposição deste às Indulgências e ao poder papal.
Tetzel, pregador das Indulgências, proclama: “as indulgências são a mais preciosa e a mais nobre dádiva de Deus aos homens”. Era o homem que acusava Martinho de que a sua “heresia nem sequer é original. Não difere da de Wyclif ou de Hus.”
Noutro passo da peça, à pergunta de Martinho a Cajetan, “Posso ver as instruções do Papa?” O cardeal responde “Não, meu querido filho, não podeis. O que vos pedimos é que confesseis os vossos erros. Que mantenhais severa vigilância sobre as vossas palavras”.  Martinho Lutero, na peça, ingenuamente,  ainda responde “baseio a minha defesa inteiramente nas Sagradas Escrituras”, e Cajetan responde: “ Só o Papa tem poder e autoridade quanto a todas essas matérias”. As matérias apologéticas, finalmente, seriam que as indulgências eram inválidas e que o homem “deve ter fé na Graça que lhe é concedida.”  ©

A Igreja do Deus Vivo

A Igreja do Deus Vivo

“a coluna e baluarte da verdade” I Timóteo 3:15

 

por David Miranda

David Miranda

Monografia elaborada para a

Disciplina de Metodologia do Trabalho Científico

do docente Ev. Samuel Pinheiro

 

FANHÕES

20 de Junho de 2018

 

A Igreja do Deus Vivo David Miranda

 

 

ÍNDICE

INTRODUÇÃO ……………………………………………………………………………………………………… 1

I. CONCEITO DE IGREJA ……………………………………………………………………………………… 2

1. Conceito neotestamentário de Igreja ………………………………………………………………. 3

2. Transfiguração do conceito de Igreja ……………………………………………………………… 5

II. FUNDAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E GOVERNO DA IGREJA NEOTESTAMENTÁRIA.. 6

1. A fundação da Igreja …………………………………………………………………………………… 6

2. Organização e governo da Igreja Neotestamentária …………………………………………… 8

III. A IGREJA VISÍVEL E INVISÍVEL …………………………………………………………………… 11

1. Conceito de Igreja visível …………………………………………………………………………… 11

2. Conceito de Igreja invisível ………………………………………………………………………… 13

CONCLUSÃO ……………………………………………………………………………………………………… 14

BIBLIOGRAFIA ………………………………………………………………………………………………….. 15

 

 

INTRODUÇÃO

Este é um trabalho que se propõe a abordar o Conceito de Igreja, em especial no contexto bíblico, no âmbito da disciplina de Metodologia do Trabalho Científico do 1º ano. Desenvolver este conceito em particular não é tarefa fácil, pois o seu significado, significância e abrangência, e as implicações vindas dos mesmos, é assunto de discussão de pródigas mentes teológicas desde há séculos, em muitos tópicos sem consensos. Se tal não fosse bastante ainda temos de abalizar o termo no seu significado neotestamentário, no seu significado atual ou no seu significado num qualquer ponto da história e/ou geografia.

Esta definição do significado será um dos primeiros pontos deste trabalho. No entanto o nosso ponto de partida será um versículo específico da Bíblia que é basilar para entendermos o que é a Igreja, I Timóteo 3:15.

Também nos propomos, depois de definirmos Igreja no seu contexto original, a analisar os diversos momentos defendidos para a sua data de fundação, tentando chegar a uma conclusão.

Nesta conjuntura também é pertinente examinarmos a organização e governo da Igreja nascente, pois tal é importante para entendermos o conceito neotestamentário dela. Por fim tentaremos definir as duas grandes partições do conceito Igreja, a Igreja visível (ou local) e a Igreja invisível (ou universal). Buscaremos refletir sobre as diferenças e sobreposições das duas conceções, a sua pertinência e a sua relevância. Todas as citações bíblicas desta monografia encontram-se na tradução Almeida Revista e

Atualizada (ARA).

 

I. CONCEITO DE IGREJA

Um verso chave para desenvolvermos o conceito de igreja chega-nos da pena de Paulo, ao escrever uma carta ao seu discípulo e filho espiritual Timóteo:

“Escrevo-te estas coisas, esperando ir ver-te em breve; para que, se eu tardar, fiques ciente de como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade” I Timóteo 3:14-15

O verso acima citado é de supra importância para tecermos algumas considerações sobre o significado espiritual de Igreja: “Paulo emprega três expressões para descrever a igreja, cada uma das quais ilustra um aspecto diferente dela, a saber: a casa ou a família de Deus, a igreja do Deus vivo e a coluna e o fundamento da verdade”1.

A primeira expressão é ‘casa de Deus’. Casa, no grego οικος (oikos), pode ser interpretado literalmente como casa ou, alternativamente, como família. Os exegetas bíblicos dividem-se sobre qual dos significados Paulo queria empregar neste caso. Gordon Fee realça neste verso a significância familiar pois “esta metáfora da ‘casa’ (família) (…) flui naturalmente do reconhecimento de Deus como Pai, os crentes como irmãos e irmãs, e os apóstolos como

‘mordomos’”2, também Kelly concorda que a expressão casa se aplique a família e não a um edifício, “é semelhante família ou casa, transformada numa unidade pela Cabeça divina, que cada congregação, ou igreja do Deus vivo forma”3. Já Hendriksen discorda ao afirmar que “‘Casa’ aqui, é a tradução correta (no sentido de habitação), e não ‘família’ (ou ‘casa’ no sentido de família) (…) os crentes são a casa de Deus ou o seu santuário”4.

A segunda expressão de Paulo é ‘igreja do Deus vivo’. John Stott afirma que é “um deliberado contraste com relação aos ídolos dos pagãos”5, Champlin segue a mesma linha: “O adjetivo

«…vivo…» é aqui usado para fazer contraste entre o verdadeiro Deus e os «ídolos mortos»”6.

Por fim Paulo também descreve a igreja como ‘coluna e baluarte’, “an evocative building metaphor in booming first-century Ephesus”7:

O hedraiôma de um prédio é o seu suporte principal. Pode referir-se tanto ao seu fundamento como a um suporte ou baluarte que o sustém. Seja como for, o

hedraiôma é o que dá estabilidade ao edifício. (…) A palavra stylos, entretanto, tem o sentido de ‘coluna’ ou ‘pilar’. A finalidade das colunas não é apenas manter firme o telhado, mas elevá-lo a uma certa altura, de forma que o edifício possa ser visto facilmente, mesmo à distância.8

Assim Stott elucida-nos em relação às expressões arquitetónicas que Paulo associa à igreja. Quanto à sua aplicação Champlin afirma que “o sentido geral da expressão é evidente, isto é, a igreja é aquele alicerce e estrutura que contém, defende e sustenta a verdade (que é a fé cristã)”9.

João Calvino dá muita importância a esta expressão: “Ao ser denominada coluna e fundamento da verdade, tal dignidade atribuída à Igreja não é algo ordinário”10. Sobre a questão da expressão ‘verdade’ Carson esclarece que “the church is the functional basis for the reception and spread of the saving gospel message and all the other wisdom and riches of insight God has revealed”11.

Deste verso então depreendemos algumas verdades acerca de igreja, ela é família e habitação de Deus, um Deus vivo e não um ídolo. Também a Igreja tem a responsabilidade de ser portadora da verdade, que é o evangelho que devemos preservar e espalhar até aos confins da Terra.

Assim o verso leva-nos por um percurso que nos demanda que definamos o termo Igreja, no contexto em que foi escrito, e como ela evoluiu até hoje, a sua génese e organização e finalmente entendermos as duas realidades de Igreja, uma orgânica e outra organizacional.

1. Conceito neotestamentário de Igreja

A expressão traduzida para o português como igreja é, no grego koiné, εκκλησία (ekklesía). O termo no seu significado coloquial grego do primeiro século significava simplesmente “uma assembleia popular ou outra qualquer composta de pessoas legalmente convocadas”12, basicamente um significado do espectro político e associativo, não do religioso.

“O termo ekklesia também foi usado entre os judeus (na LXX) para significar a ‘congregação de Israel’, que foi constituída no Sinai e se reunia na presença do Senhor por ocasião das festividades anuais nas pessoas de seus representantes masculinos”13, assim como uma normal reunião do “povo em ocasiões solenes ou para o culto na sinagoga”14. Então para a comunidade judaica o sentido do termo não diferia muito do sentido dado pelos helénicos, apesar da maior conotação religiosa para os hebreus, podendo ser empregue com facilidade pelos missionários ao longo da metade oriental do Império Romano, quer para pregar às comunidades judaicas quer às helénicas. No entanto não se sabe exatamente de qual das comunidades provém a derivação original deste termo para o espectro do vocabulário cristão.

Assim já no contexto cristão, “Segundo Mateus, o único evangelho que emprega a palavra “igreja”, sua origem remonta ao próprio Jesus (Mt 16.18)”15:

 “Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” Mateus 16:18

Discutiremos mais adiante algumas outras implicações históricas deste verso, por agora foquemo-nos apenas no termo igreja usado por Jesus. Parece que este vocábulo não foi algo criado pelos apóstolos ou líderes cristãos posteriores, mas sim pelo próprio Jesus. Naturalmente Jesus usou, presumivelmente, um termo aramaico ou hebraico e não o termo grego ekklesía, “não há como determinar quais palavras hebraicas ou aramaicas Jesus poderia ter usado, pois ekklesia poderia ser usada para traduzir pelo menos três palavras semitas diferentes”16. No entanto Jesus provavelmente usou o termo ק הל (qãhhl), o vocábulo que referimos que a Septuaginta traduziu na maioria das vezes por ekklesía, no entanto ele também “being translated

(…) by sunagoge 35 times”17. Assim é fácil compreender a ligação das duas palavras entre idiomas e o porquê de Mateus a escrever em grego, ou alguém a traduzir este evangelho a partir do aramaico, ter escolhido o termo ekklesía para a palavra usada por Jesus.

Então no contexto cristão ekklesía “designa a igreja cristã, tanto local (e.g., Mt 18.17; At 15.41;

Rm 16.16; 1 Co 4.17; 7.17; 14.33; Cl 4.15) quanto universal (e.g., Mt 16.18; At 20.28; 1 Co 12.28; 15.9; Ef 1.22)”18. No entanto J. D. Douglas discorda com a aplicação do termo ao conjunto da igreja, “localidade era essencial ao seu caráter. A ekklesia local não era reputada como parte de alguma ekklesia de âmbito mundial, o que teria sido uma contradição de termos”19. No entanto é realmente difícil conciliar versos como I Coríntios 15:9 ou Efésios

1:22-23 sem aplicar o termo ekklesia à igreja universal.

Um outro significado de ekklesia é ‘chamados para fora’ “A palavra ekklesia deriva de duas palavras grega, ek, ‘de dentro de’, e kaleõ, ‘chamar’. A igreja, portanto, é composta do povo ‘chamado’”20.

Algo importante a reter é que no Novo Testamento igreja “nunca se refere a um lugar de adoração”21, veremos no próximo ponto que existiu tal evolução da palavra nesse sentido, no entanto nunca devemos ler o Novo Testamento com tal compreensão do termo.

Em sumula a  conclusão que devemos tirar é que “no Novo Testamento, ekklesia veio a significar uma assembleia de crentes, especificamente seguidores de Jesus”22, no entanto temos de ter em mente a origem completamente secular do termo.

2. Transfiguração do conceito de Igreja

Obviamente o conceito de Igreja não ficou fiel ao seu original significado dado por Jesus e pelos apóstolos. Assim hoje a Porto Editora define igreja nos seguintes moldes:

igreja [e] s.f. 1 edifício destinado ao culto de uma religião, especialmente cristã; 2 comunidade dos fiéis de determinada religião; 3 autoridade religiosa; ~ matriz igreja principal de uma freguesia (Do gr. Ekklesía, «assembleia», pelo lat. Ecclesia-, «assembleia do povo; igreja»)

Igreja s.f. 1 conjunto do clero e fiéis católicos; 2 conjunto das autoridades religiosas que formam a hierarquia católica 3 cada um dos vários grupos cristãos e respectivas organizações (Do gr. Ekklesía, «assembleia», pelo lat. Ecclesia-, «assembleia do povo; igreja»)23

Só da simples organização de um dicionário de referência em Portugal depreendemos algumas coisas sobre como é vista hoje a palavra igreja.

A primeira coisa que salta à vista é o facto de o dicionário ter duas entradas para a palavra, uma com início em minúscula e outra em maiúscula. A segunda parece referir-se com prioridade à liderança da igreja católica e em segundo plano ao conjunto de grupos cristãos e às suas denominações. Assim parece definir que Igreja (com maiúscula) se refere à igreja enquanto organização e à sua liderança. É bem visível a alteração de significado relativo ao Novo

Testamento, que nunca significou nada que se parecesse com liderança.

A definição de igreja (com minúscula) já se aproxima do conceito neotestamentário na sua segunda definição dada pelo dicionário. Já a primeira definição (de edifício) não se enquadra com o significado original da palavra:

Um dos significados de “igreja” é um edifício chamado a casa de Deus. No entanto,

ekklesia no NT não tem esse significado. Nos quatro casos oikos (οικος) “casa” refere-se à igreja (1 Tm 3:15, Hb 3:2, 1Pedro 2:5; 4:17), o uso é metafórico e meio família de Deus.24

Por fim a terceira definição da entrada igreja no dicionário, também não se encaixa no conceito primordial da palavra, leva-nos para a questão da liderança e autoridade, realidade que mais uma vez não é assim aplicável no Novo Testamento.

Podemos assim concluir que de facto o conceito foi transfigurado nestes dois milénios. Embora ainda consigamos ver alguma da significância original da palavra, a maioria das suas definições afastou-se do propósito inicial que Jesus e os primeiros líderes da igreja tinham ao aplica-la.

Prova de tal é que, provavelmente, a primeira imagem que nos vem à mente quando ouvimos a palavra igreja é um edifício, e não um grupo de pessoas.

 

 

II. FUNDAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E GOVERNO DA

IGREJA NEOTESTAMENTÁRIA

Ao estudarmos o conceito de Igreja temos também de refletir nela enquanto organismo prático e terreno. Assim ela teve um ponto inicial na história e uma liderança nos seus primórdios.

Refletiremos agora sobre a sua fundação e base, e sobre a sua liderança no seu período nascente. Também é importante ressalvar que estes tópicos são alvo de franca discussão entre teólogos e historiadores. Como tal devemos ter em mente que qualquer posição defendida por qualquer autor não é um dogma absoluto, mas sim uma interpretação exegética da Bíblia ou uma análise histórico-arqueológica, ambas passivas de revisão, discussão e eventual refutação.

1. A fundação da Igreja

Quando foi fundada a igreja? Parece uma pergunta simples, no entanto existem várias correntes de opinião sobre o assunto. E isto não apenas em relação ao momento do Novo Testamento, pois “alguns [teólogos] têm adotado uma abordagem bastante ampla, e sugerem que a Igreja existe desde o início da raça humana”25. Por esta frase de Stanley Horton entendemos a disparidade das opiniões em relação a esta data. No entanto tendo em conta o propósito e termos desta monografia apenas trataremos as grandes hipóteses de origem neotestamentárias.

Abordando cronologicamente, quanto ao ponto de origem que defendem, a primeira hipótese é encontrada no início do ministério de Jesus “alguns (…) acreditam que a igreja foi fundada quando Cristo começou publicamente seu ministério e chamou os 12 discípulos”26.

Outra opinião remete a origem da igreja para o final do ministério de Jesus pois “entendem ser João 20.21-23 a inauguração da Igreja, como incorporação à nova aliança (cf. João 20.29, que demonstra já serem crentes os discípulos – já estavam dentro da Igreja antes de serem revestidos de poder pelo batismo no Espírito Santo)”27.

No entanto de todas as propostas neotestamentárias a data mais consensual entre teólogos e historiadores é o dia de Pentecostes, após a ascensão de Jesus:

(…) inúmeras linhas de evidência (…) sustentam que a igreja de Cristo teve início no

dia de Pentecostes, diversas semanas depois que Cristo morreu e ressuscitou, e não

no Antigo Testamento, com Adão, Abraão, Moisés, nem mesmo durante a vida

terrena de Jesus.28

De facto, parece o mais lógico de todos os pontos de vista, pois há uma enorme diferença entre a comunidade dos seguidores de Jesus antes e depois do dia de Pentecostes, relatado em Atos

2. Um dos fatores básicos para a ser Igreja é a morada Espírito Santo nos seus membros. Diz Rodman Williams que “a igreja também é descrita no Novo Testamento como a comunidade do Espírito Santo”29.

Um outro argumento forte serão as palavras do apóstolo Pedro:

“Quando, porém, comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio.” Atos 11:15

O versículo aponta que a descida do Espírito Santo foi o ‘princípio’, deduzimos que Pedro se referia ao princípio da igreja. Então podemos afirmar que esse é o dia nascente da Igreja, pelo menos para a igreja judaica, pois os gentios apenas entram na Igreja a partir da missão de Pedro, comissionada pelo Espírito Santo, à cidade de Cesareia Marítima, na casa de Cornélio, que bencontramos descrita em Atos 10.

Uma outra questão pertinente acerca da fundação da Igreja é sobre de quem é a pessoa, ou afirmação para alguns, que está na sua base, a sua ‘pedra’. Esta questão advém do já citado texto do evangelho segundo Mateus:

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” Mateus 16:18

A quem Jesus se está a referir ao falar em pedra? A si próprio, ao apóstolo Pedro ou à afirmação anterior de Pedro no verso 16, “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”?

A posição tradicional católica é que Jesus se refere a Pedro, no entanto a igreja católica exagera na sua interpretação do texto ao usá-lo como base da sucessão apostólica papal e, por extensão,

da supra autoridade do papa, vinda esta diretamente de Jesus. Devido a isto tradicionalmente os protestantes têm rejeitado Pedro como sendo a ‘pedra’ a que Jesus se refere.

Para Robertson, Jesus está a falar da afirmação de Pedro: “Jesus edificará sobre o mesmo tipo de fé que Pedro confessou”30, seguindo assim a mais tradicional linha protestante. Por fim, outra linha é que Jesus se refere a si próprio, “they point out that Jesus likens the person who hears

his words and builds on them to a man building on rock (7:24-25)”31. Esta linha defende que Jesus, ao dizer estas palavras, estava, literalmente, a apontar para si próprio.

D.A. Carson estabelece uma posição equilibrada, de forma perentória, ao afirmar que este não é um assunto para dúvidas hermenêuticas, ao afirmar que “se não fosse pela reação protestante contra os extremos de interpretação do catolicismo romano, seria duvidoso que muitos considerassem que ‘pedra’ fosse alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro”32. Assim A Igreja do Deus Vivo David Miranda para o teólogo canadiano esta discussão deve-se a problemas históricos e denominacionais, e não a um texto bíblico de difícil interpretação.

Concluímos então que, provavelmente, a pedra é Pedro. De facto, o livro de Atos revela-nos a importância de Pedro como sendo esta pedra nos primórdios da Igreja. Foi Pedro o primeiro grande líder pós ascensão de Jesus. Foi Pedro que deu a cara no dia de Pentecostes e pregou naquele dia (Atos 2:14-36). Foram Pedro e João que realizaram o primeiro milagre apostólico

(Atos 3:1-10). Foi Pedro que diversas vezes foi o porta-voz da igreja perante as autoridades

(Atos 4:5-22, 5:29-32). Foram Pedro e João que ficaram encarregados de ‘levar’ o batismo com o Espírito Santo aos samaritanos (Atos 8:14-17). Foi Pedro que ‘levou’ o evangelho e o Espírito

Santo aos primeiros gentios a recebe-lo (Atos 10:1-48).

No entanto Pedro, apesar da sua importância, não era o líder máximo da Igreja. Prova disso é o

Concílio de Jerusalém (Atos 15:1-20), a deliberação final desta assembleia veio do conjunto dos apóstolos e presbíteros, não do trono de Pedro. Este grande homem também não era infalível, como vemos na carta de Paulo aos cristãos da Galácia:

“Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe face a face, porque se tornara repreensível.” Gálatas 2:11

Assim devemos ter a posição equilibrada de apreciar o grande ministério do apóstolo Pedro, sem cair no extremo exagero dessa posição por parte da igreja católica romana.

2. Organização e governo da Igreja Neotestamentária

O tópico da organização e governo da Igreja Neotestamentária é um assunto complicado, pois carecemos de fontes bíblicas para o abordar com a devida profundidade.

Apesar de que podia haver tantas igrejas quantas eram as cidades ou até mesmo os lares, o NT, contudo, reconhece apenas uma ekklesia sem encontrar necessidade de explicar a relação entre a única e as muitas. A única não era um amálgama ou federação formada pelas muitas.33

Ficamos assim com dificuldades para entender como se organizavam as igrejas neste período.

No entanto existem três cartas bíblicas paulinas que nos auxiliam: “in the Pastorals we find a more institutionalized pattern of Christian leadership than seen elsewhere”34. Assim estas epistolas dão algum terreno para ser trabalhado e assumir que existe uma organização de facto.

“Por esta causa, te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes, bem como, em cada cidade, constituísses presbíteros, conforme te prescrevi”

Tito 1:5

Este é talvez o versículo mais relevante em termos de organização e liderança da Igreja em todo o Novo Testamento. Aqui são visíveis três camadas de liderança hierarquizada. Assim temos Paulo no topo, este nomeia Tito para a ilha de Creta, com o objetivo de Tito nomear presbíteros para as diferentes cidades da ilha. Assim temos Paulo acima de Tito e Tito acima destes presbíteros locais.

Deus pretendia que cada igreja tivesse uma equipe de supervisores, pois Tito recebeu

a orientação de designar ‘presbíteros’ em cada cidade. Isso pode significar a indicação de um presbítero para cada igreja que se reunia numa casa, presumindo que havia diversas igrejas assim constituídas em cada cidade.35

No entanto há quem aponte que tal nível de organização não poderia existir no contexto da igreja primitiva:

Muitos estudiosos acreditam que a noção de vida eclesiástica pressuposta nessas cartas não poderia ter surgido durante a vida de Paulo. Imaginam ver especificamente uma igreja fortemente organizada com um ministério ordenado. (…)

A despeito das inferências feitas por alguns, nas epístolas pastorais não existe realmente nada que exija uma maior organização do que os bispos e diáconos36

De facto, o Novo Testamento aponta a existência de pelo menos seis cargos eclesiásticos. Já falamos de presbíteros. De modo geral todos os autores e teólogos de referência assumem que no contexto bíblico as palavras bispo, presbítero e pastor representam o mesmo cargo, nas palavras do reformador João Calvino, que afirma em relação aos bispos: “esta palavra significa o mesmo que ministro, pastor ou presbítero”37. Este seria um cargo de uma índole mais ministerial, encontramos em I Timóteo 3:1-13 e em Tito 1:6-9 os requisitos espirituais, morais e familiares para um homem poder ocupar este cargo.

Um segundo cargo seria o de diácono, este com um propósito bem mais prático como vemos no contexto em que nasce a função em Atos 6:1-7. Era demasiado para os apóstolos dedicarem-se à palavra e ainda servirem às mesas.

Com a ajuda da comunidade cristã, os doze encontraram uma solução: nomear alguns homens para servirem às mesas. O significado da palavra mesa relaciona-se

à distribuição diária, que indica o repartir alimentos ou a doação de dinheiro designado para a compra de alimentos. Homens qualificados da igreja são capazes de realizar essa tarefa. Portanto os apóstolos propõem que sete homens sejam nomeados para essa responsabilidade.38

Também encontramos os requisitos para ser um presbítero em I Timóteo 3:8-13, que mais uma vez mostra o carácter espiritual que um homem teria de ter para fazer esta tarefa, sendo que já em Atos 6 os apóstolos tinham colocado exigências morais e espirituais aos sete diáconos originais:

 “Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” Atos 6:3

Um outro texto relevante para o tema dos cargos eclesiásticos é encontrado na carta de Paulo à igreja da cidade de Éfeso, que revela bem mais uma vez a preocupação do apóstolo com a organização de cada igreja local.

“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres” Efésios 4:11

Neste verso encontramos cinco dos seis cargos que identificamos no Novo Testamento, faltando apenas os diáconos. Já referimos anteriormente os pastores, e para distinguir os outros quatro cargos necessitaríamos de uma monografia exclusivamente dedicada a tal. No entanto todos estes ministérios tinham o mesmo propósito, como vemos logo nos versículos posteriores: “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para

a edificação do corpo de Cristo até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” Efésios 4:12-13

Como tal, apenas temos de compreender que a igreja primitiva tinha um governo organizado com pessoas que serviam a comunidade de forma prática e através da Palavra. Diz-nos João Calvino “Ele [Jesus] delega a indivíduos a participação de sua administração, e isso coletivamente, para que um só não se exalte acima dos demais”39.

 

 

 

III. A IGREJA VISÍVEL E INVISÍVEL

Por fim existe um último parâmetro do conceito teológico de Igreja a abordar, a distinção de Igreja visível e de Igreja invisível, que tem a sua origem em Clemente de Alexandria e que foi sistematizada mais tarde por Agostinho de Hipona, ganhando novo folgo com os pré reformadores

Peter Waldo, John Wycliff e John Huss. Mas foi com a Reforma que a distinção destas naturezas da Igreja ganhou maior robustez teológica, graças ao trabalho de Martinho

Lutero e, sobretudo, João Calvino40.

Existem diversas nomenclaturas para esta dicotomia para além da sugerida, como por exemplo igreja local e universal, igreja enquanto organização e enquanto organismo, a natureza organizacional e natureza carismática da igreja, ou a igreja temporal e a igreja eterna.

Independentemente da nomenclatura que escolhermos os termos dizem respeito, no geral, aos mesmos sentidos e as mesmas distinções. “As Escrituras (…) estabelecem diferença entre esta igreja invisível ou universal e a individual em que a universal toma a forma local e temporal”41.

Estas duas naturezas da igreja são logo vistas nos evangelhos: “Jesus usou assim a palavra, referindo-se a um grupo local de crentes (Mt 18.17) e ao conjunto de todos os crentes no mundo

(Mt 16.18)”42.

Mas há alguns que discordam com esta distinção, Rod Williams defende: “O problema básico com essa distinção é que ela é estranha às Escrituras. (…) A igreja invisível e a visível são a mesma coisa vista pelo aspecto dual”43. No entanto parece que as razões do teólogo prendem-se mais com questões práticas do que teológicas. Assim a maioria esmagadora dos teólogos concorda com esta bifurcação.

1. Conceito de Igreja visível

Dos dois termos, Igreja visível será aquele que é mais fácil de definir e depreender. Isto é um facto natural pois é para nós fácil processar o que veem os nossos olhos e o que nos é possível medir. “A igreja visível é a igreja como os cristãos a veem na terra. Nesse sentido a igreja visível inclui todos os que professam fé em Cristo e dão provas de tal fé na vida”44.

Então Igreja visível “é justamente a Igreja como a vemos, a família unida dos crentes. Essa distinção evita uma equalização da membresia da Igreja visível com a salvação, assim como uma identificação pública com o povo de Deus”45.

A igreja visível também existe por que há propósito de Deus na sua existência, segundo Norman

Geisler ela tem quatro objetivos:

O propósito de uma igreja local pode ser visto em muitos relacionamentos. Primeiro, em relação a Deus, o objetivo da igreja é glorificá-lo (…) Segundo, em relação à igreja universal, o objetivo da igreja local é ser uma manifestação visível, uma expressão exterior do caráter interior do corpo de Cristo, manifestando o seu reconhecimento da sua liderança e da nossa unidade. (…) Terceiro, em relação aos outros crentes, o objetivo é edificar o corpo de Cristo (…) Quarto, em relação aos incrédulos, o objetivo é a evangelização.46

Naturalmente existe um relacionamento entre a Igreja visível e invisível, pois “A igreja numa cidade ou numa casa é simplesmente a manifestação local da igreja universal”47. É de salientar que nem todos os que pertencem à igreja visível pertencem à invisível: “At. 5.1-11 – Ananias e Safira mostram que a igreja visível abrangia alguns que não eram verdadeiramente crentes”48.

Da mesma forma é possível achar pessoas pertencentes à igreja invisível que nunca pertenceram à igreja visível, portanto nunca se afiliaram a uma igreja local. Esta última afirmação é rejeitada pela igreja católica romana que afirma que apenas na Igreja visível, centralizada debaixo da autoridade papal, é que existe salvação.

Os apóstolos de Cristo estabeleceram igrejas independentes e de governo próprio, igrejas que não tiveram uma autoridade humana de governo dominante, mas, em vez disso, se basearam no ensinamento apostólico, que posteriormente foi substituído, devido à morte dos apóstolos, por escritos apostólicos (o Novo Testamento).49

Por fim é interessante ver a lista de características que uma verdadeira Igreja visível deve demonstrar, sintetizadas por Martinho Lutero: As sete características externas, de Lutero, mediante as quais poderíamos reconhecer uma comunidade de verdadeiros crentes, em uma igreja local e visível:

a. Ali a Palavra de Deus é pregada, acolhida e obedecida.

b. Há um batismo cristão.

c. As chaves são exercidas no governo e na disciplina da igreja local.

d. A Ceia do Senhor é observada.

e. A cruz evidencia-se nas vidas dos membros: aqueles crentes sofrem por amor a

Cristo.

f. Há uma chamada para os ministros trabalharem no evangelho.

g. A adoração e a oração são uma constante nessas igrejas locais.50

A Igreja do Deus Vivo David Miranda

2. Conceito de Igreja invisível

A Igreja invisível ou universal é muito mais complexa, para a nossa compreensão, mas muito mais básica na sua forma de ser. Esta não está presa a inscrições, formulários, lideranças ou métodos. “A Igreja pode ser definida como Deus a vê, ou seja, a chamada ‘Igreja invisível’. É formada por todos os homens e mulheres cujos nomes estão inscritos no Livro da Vida do

Cordeiro (Ap 21.27)”51.

Assim apenas Deus sabe quem são os nomes inscritos no Livro da Vida do Cordeiro, e aqueles que vão sendo ‘acrescentados’, “a igreja universal como tal não é uma organização visível

(como a Igreja Católica Romana); na verdade, é um organismo invisível, um corpo vivo que cresce diariamente”52.

Calvino descreve este conceito da seguinte forma: “a Igreja Universal é a multidão congregada de todas as nações, a qual, espalhada e dispersa pelos lugares mais remotos, entretanto consente na única verdade da doutrina divinal e é congregada pelo vínculo da mesma religião”53. Já

Champlin dá uma descrição mais abrangente, embora similar:

A igreja universal, mística, composta de todos os crentes de todos os tempos e de todos os lugares. os quais aceitam Cristo como cabeça. Essa igreja é considerada como um organismo espiritual que tem Cristo por centro; e a união mística da igreja com Cristo se dá através do seu Espírito, e não devido a alguma organização.

Portanto transcende a denominações evangélicas que defendem determinadas crenças ou governos eclesiásticos54.

Como já vimos Rod Williams defende que devemos evitar este conceito pois, para ele, tal ideia faz-nos assumir a Igreja invisível como pura e a Igreja visível como impura, “o perigo de tal distinção é que ela pode induzir alguém a abandonar a comunidade da igreja visível por se considerar membro da igreja pura, invisível”55. Algo interessante ainda relativo à Igreja invisível são os vários nomes pelos quais ela é chamada ao longo do Novo Testamento: “O Corpo de Cristo (…) A Noiva de Cristo (…) Os Primogénitos de Cristo (…) A Edificação de Cristo (…) Uma Casa Espiritual (…) Um Sacerdócio Santo (…)

Um Sacerdócio Real (…) Um Povo Eleito (…) O Povo de Deus (…) O Rebanho”56, todos estes nomes revelam profundamente uma característica da Igreja e do relacionamento dela com o seu cabeça, Jesus Cristo.

A Igreja do Deus Vivo David Miranda

 

 

 

CONCLUSÃO

Deste trabalho podemos retirar muitas elações sobre a instituição e conceito Igreja.

Em primeiro lugar elucidámos que o conceito de igreja se transformou fortemente. A sua raiz hebraica, qãhhl, é incerta, no entanto temos sempre o conceito de uma congregação reunida numa assembleia com propósitos religiosos. Já a sua congénere grega, ekklesía, tinha originalmente um significado completamente secular. É bastante interessante ver como o facto de os cristãos usarem esta palavra para se denominarem fez com que a palavra perdesse o seu significado secular e passou hoje a ser uma palavra claramente sacra.

O momento em que nasce Igreja de Jesus é alvo de discussão profunda, apesar da grande clivagem para o dia de Pentecostes. Mas na súmula esta é uma discussão oca, pois a data exata não trás qualquer nova luz sobre o Novo Testamento. Também a contenda sobre a pedra de base da igreja, em Mateus 16:18, entre protestantes e católicos é uma discussão mais ideológica que exegética, parecendo a interpretação católica a mais correta à luz do grego, no entanto depois eles extrapolam o seu significado, em relação à autoridade do apóstolo Pedro, para um nível que simplesmente não está lá.

A organização da Igreja primitiva também é fascinante, no sentido em que esta apesar de esta ser parca e dispersa conseguiu manter uma certa homogeneidade nas suas crenças na doutrina dos apóstolos, graças aos diversos papeis de liderança criados e à compreensão da sua importância por parte dos missionários que plantavam as igrejas locais.

Por fim analisamos as duas naturezas da Igreja que são de importantíssima relevância para compreendermos o porquê de ainda haver falhas e erros numa comunidade que se diz salva por Deus, mas que de facto pode não o ser na totalidade dos seus membros. Mas sabemos que a Igreja invisível é, de facto, apenas composta por aqueles que são realmente salvos. No entanto necessitamos da Igreja visível para crescer, para termos apoio e organização. As duas naturezas estão presentes na Bíblia e ambas são indissociáveis do conceito de Igreja.

Muito ainda haveria para explorar sobre a Igreja, como o seu papel e missão, ou a sua história como instituição ao longo dos séculos, com a sua evolução, regressão e as suas divisões, procurando ver a mão de Deus em cada etapa e como os homens responderam a ela.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

CALVINO, João (2002). As Institutas (Vol. 4). São Paulo: Cultura Cristã.

CALVINO, João (1998). Efésios. São Paulo: Edições Paracletos

CALVINO, João (2009). Pastorais. São Paulo: Fiel.

CARSON, D.A. (2015). Zondervan Study Bible. Grand Rapids: Zondervan.

CARSON, D.A. (2010). O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd.

CARSON, D.A; MOO, Douglas; MORRIS, Leon (2007). Introdução ao Novo Testamento. São

Paulo: Vida Nova.

CHAMPLIN, Russel (1995). O Novo Testamento Interpreado Versículo por Versículo (Vol.

5). São Paulo: Candeia.

CHAMPLIN, Russel (2002). Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia (Vol. 3). São Paulo:

Hagnos.

DOUGLAS, J.D. (2006). Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova.

ELWELL, Walter (2009). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida

Nova.

FEE, Gordon (1995). Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – 1 e 2 Timóteo, Tito.

Deerfield: Vida.

FERGUNSON, Sinclair; WRIGHT, David (2011). Novo Dicionário de Teologia. São Paulo:

Hagnos.

GEISLER, Norman (2010). Teologia Sistemática (Vol. 2). Rio de Janeiro: CPAD.

GILES, Kevin (1995). What on earth is the church? – An exploration in New Testament

theology. Downers Grove: InterVarsity.

GRUDEM, Wayne (2010). Teologia Sistemática Atual e Exaustiva. São Paulo: Vida Nova.

HENDRIKSEN, William (2011). Comentário do Novo Testamento – 1 e 2 Timóteo e Tito. São

Paulo: Cultura Cristã.

HORTON, Stanley (1994). Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: CPAD.

KELLY, J.N. (1983). I e II Timóteo e Tito. São Paulo: Mundo Cristão.

A Igreja do Deus Vivo David Miranda

KISTEMAKER, Simon (2006). Comentário do Novo Testamento – Atos (Vol. 1). São Paulo:

Cultura Cristã.

LONGMAN, Tremper; GARLAND, David (2008). The Expositor’s Bible Commentary (Vol.

12). Grand Rapids: Zondervan.

MORRIS, Leon (1992). The Gospel According to Matthew. Leicester: Wm. B. Eerdmans

Publishing Co.

PFEIFFER, Charles; VOS, Howard; REA, John (2007). Dicionário Bíblico Wycliffe. Rio de

Janeiro: CPAD.

Porto Editora. (2002). Dicionário da Língua Portuguesa. Porto: Porto Editora.

ROBERTSON, A.T. (2011). Comentário Mateus & Marcos. Rio de Janeiro: CPAD.

ROBISON, Edward (2012). Léxico Grego do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD.

SMEETON, Donald (2013). A Igreja: do Pentecostes à Reforma. Fanhões: Global University.

STOTT, John (2004). A Mensagem de 1ª Timóteo e Tito. São Paulo: ABU.

STRONG, Augustus (2008). Teologia Sistemática (Vol. 2). São Paulo: Hagnos.

TAYLOR, Richard; GRIDER, Kenneth; TAYLOR, Willard (1984). Dicionário Teológico

Beacon. Kansas City: Casa Nazarena.

WILLIAMS, Rodman (2011). Teologia Sistemática. São Paulo: Vida.

A Igreja do Deus Vivo David Miranda

 

 

 

1 STOTT, John. A Mensagem de 1ª Timóteo e Tito, p.103

2 FEE, Gordon. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – 1 e 2 Timóteo, Tito, pp.102-103

3 KELLY, J. N. D. I e II Timóteo e Tito, p.88

4 HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – 1 e 2 Timóteo e Tito, p.173

5 STOTT, John. A Mensagem de 1ª Timóteo e Tito, p.104

6 CHAMPLIN, Russell. O Novo Testamento Interpreado Versículo por Versículo (Vol. 5), p.315

7 LONGMAN, Tremper; GARLAND, David. The Expositor’s Bible Commentary (Vol. 12), p.531 [tradução pelo

autor: “uma evocativa metáfora de construção na efervescente cidade de Éfeso do primeiro século”]

8 STOTT, John. A Mensagem de 1ª Timóteo e Tito, p.105

9 CHAMPLIN, Russell. O Novo Testamento Interpreado Versículo por Versículo (Vol. 5), p.315

10 CALVINO, João. Pastorais, p.95

11 CARSON, D. A. (Ed). Zondervan Study Bible, p.2664 [tradução pelo autor: “a igreja é a base funcional para a

receção e disseminação da mensagem salvífica do evangelho e das riquezas do discernimento que Deus

revelou”]

12 ROBISON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento, p.286

13 DOUGLAS, J. D. Novo Dicionário da Bíblia, p.607

14 ROBISON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento, p.286

15 ELWELL, Walter. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, p.287

16 PFEIFFER, Charles; VOS, Howard; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe, p.950

17 GILES, Kevin. What on earth is the church?, p.233 [tradução pelo autor: “é traduzido (...) por sunagoge 35

vezes”]

18 ELWELL, Walter. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, p.287

19 DOUGLAS, J. D. Novo Dicionário da Bíblia, pp.607-608

20 WILLIAMS, Rodman. Teologia Sistemática, p.756

21 PFEIFFER, Charles; VOS, Howard; REA, John. Dicionário Bíblico Wycliffe, p.949

22 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.505

23 Porto Editora. Dicionário da Língua Portuguesa, p.905

24 TAYLOR, Richard; GRIDER, Kenneth; TAYLOR, Willard. Dicionário Teológico Beacon, p.407

25 HORTON, Stanley. Teologia Sistemática, p.538

26 Idem, ibidem, p.538

27 Idem, ibidem, p.538

28 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.505

29 RODMAN, Williams. Teologia Sistemática, p.809

30 ROBERTSON, A.T. Comentário Mateus & Marcos, pp.189, 190

31 MORRIS, Leon. The Gospel According to Matthew, p.424 [tradução pelo autor: “eles apontam que Jesus

compara a pessoa que ouve as suas palavras e constrói sobre elas com um homem a construir sobre rocha (7:24-

25)”]

32 CARSON, D.A. O Comentário de Mateus, p.431

33 DOUGLAS, J. D. Novo Dicionário da Bíblia, p.608

34 GILES, Kevin. What on earth is the church?, p.150 [tradução pelo autor: “nas Pastorais encontramos um padrão

de liderança cristã estruturada e institucionalizada mais presente do que em qualquer outro lado”]

35 STOTT, John. A Mensagem de 1ª Timóteo e Tito, p.178

36 CARSON, D.A; MOO, Douglas; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento, p.401

37 CALVINO, João. Pastorais, p.80

38 KISTEMAKER, Simon, Comentário do Novo Testamento – Atos (Vol. 1), pp.296, 297

39 CALVINO, João. Efésios, pp. 123-124

40 GILES, Kevin. What on earth is the church?, p.190, 191

41 STRONG, Augustus. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.1562

42 SEMEETON, Donald. A Igreja: do Pentecostes à Reforma, p.15

43 RODMAN, Williams. Teologia Sistemática, p.762

44 GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática Atual e Exaustiva, p.717

45 FERGUNSON, Sinclair; WRIGHT, David. Novo Dicionário de Teologia, p.531

46 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.572

47 STRONG, Augustus. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.1568

48 Idem, ibidem, p.1573

49 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.578

50 apud CHAMPLIN, Russel. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia (Vol. 3), p.229

51 FERGUNSON, Sinclair; WRIGHT, David. Novo Dicionário de Teologia, p.531

52 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.534

53 CALVINO, João. As Institutas (Vol. 4), p.34

A Igreja do Deus Vivo David Miranda

18

54 CHAMPLIN, Russel. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia (Vol. 3), p.212

55 RODMAN, Williams. Teologia Sistemática, p.762

56 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática (Vol. 2), p.531-533