A RESPIGADORA, UMA FIGURA FUNDACIONAL DO VELHO TESTAMENTO

JTP15Ao contrário do que escreve o poeta John Keats (1795-1821), na célebre Ode a
um Rouxinol sobre Rute, atribuindo-lhe um coração triste “quando recordava o
seu lar e chorava diante das searas dum país estrangeiro”,  a verdade é que
esse pathos nostálgico da saudade se transformou em ânimo para aceitar a
vida nova em terra estranha e um trabalho humilde que, aparentemente, a
secundarizava.

No livro bíblico de Rute, canonicamente colocado entre Juízes e os I e II livros
de Samuel, o profeta que poderia ter sido rei numa teocracia, a diegese é um
relato que tem a força da emocionalidade e do profético, da beleza dos
sentimentos à necessidade da afirmação messiânica no meio de um povo
israelita,   governado por Deus através de juízes, que o próprio Senhor suscitou ( Juízes, 2,16)
Em síntese, escreve um comentarista da Bíblia Sagrada JFA, da Editora Vida
Nova, “O livro de Rute descreve a direcção providencial de Deus na vida de
uma família israelita.”

Tal narrativa de vida não deixa de ter a poética – no sentido aristotélico que
determina que sentimos deleite perante o que lemos – a valorizar os
acontecimentos e a conferir-lhe uma estética que é o Belo na vida de Rute e o
que esta representa na genealogia do rei teocrático David, cuja linhagem vai
até Jesus.

OS VERSOS DA ODE DE JOHN KEATS

A celebrada Ode tão cheia de melancolia do canto do rouxinol, que o poeta
romântico inglês escreveu em 1820,  traduz uma visão da vida humana
transitória não isenta de sofrimento e de amargura, em contraste com o alegre
e despreocupado canto do rouxinol.
Esse  canto “pleno e calmo” da ave de Keats, no espaço textual da ode,
aparece com uma equiparação, que o embeleza pelo oposto,  entre a tristeza
do poeta perante a velhice, a mortalidade, o desejo de voar para fora do mundo e a imaginada tristeza que o poeta inglês pensa ver no semblante e na alma de Rute. Ele supõe que esta mulher da Bíblia, ao encontrar-se perante uma gente e uma terra estranhas, sofre da melancolia da saudade.

Os versos, repetindo-os, são os seguintes: “O espírito triste de Ruth, quando
recordava o seu lar / e chorava diante das searas dum país estrangeiro.”
(“Poesia Romântica Inglesa (Byron,Shelley,Keats)”, Inova, 1977, pág.88)
A expressão da natural tristeza e saudade que acompanha quem sai da sua
terra para outra estranha, no caso de Rute, não é contudo mostrada como tal
nas Belas-Artes do Clássico e do Barroco. Por exemplo nas telas a óleo de
Nicolas Poussin (1664) e de Barent Fabricius (1660), ambas revelando o
encontro feliz entre Boaz e Rute.

O DEVASTADOR CAPÍTULO 1 DO LIVRO

O que se iniciou como  tragédia, não era senão o começo do Plano divino.
A partir de um simples e pequeno núcleo familiar,  sem importância social aos
olhos humanos, Deus iria agir universalmente na História.
É, literariamente, uma saga familiar cuja narrativa se exprime num estilo
poético, dolorosamente poético, apontando de igual modo para uma história de
idealidade e de nobreza de carácter.
“Não me instes para que te deixe, e me afaste de ao pé de ti; porque aonde
quer que tu fores irei eu”( 1,16).
A dialogia (a estrutura de diálogo) que se percebe  nesta resposta de Rute à
sua sogra Noemi, desenvolve-se com qualidade visivelmente de poesia:  “ e
onde quer que pousares à noite ali pousarei eu”; como a própria menção do
estado converso de Rute ao Deus de Israel, é feita numa frase lapidar,
metacultural, metahistórica, numa expressividade idiomática antiga: “o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus”.

A narrativa descritiva da chegada de Noemi e Rute a Belém é em si mesma um
quadro em que a fraternidade, a alegria do reencontro fraterno resolve o
problema da saudade que estaria nos olhos interiores dos familiares e vizinhos, que agora eclodia em alegria comovida: “ entrando elas em Belém, toda a cidade se comoveu por causa delas, e diziam: Não é esta Noemi?”, (1,19)
Noemi, que é ainda a figura central da diegese, ciente do drama que vivera,
usa uma metáfora entre a imaginação e a realidade, ao declarar: “Não me
chameis Noemi (i.é. agradável); chamai-me Mara; porque grande amargura me  tem dado o Todo-poderoso”, (1,20)

A CENTRALIDADE DE UMA PERSONAGEM REAL

O facto de se considerar um livro canónico, integrando as Sagradas Escrituras
veterotestamentárias, de ser mesmo um livro da liturgia judaica durante a festa
do Pentecostes, tal não invalida que possa ser tratado como uma das mais
belas peças literárias da Bíblia Sagrada.
Assim, Rute é uma heroína em consequência da tragédia inicial que reverte em beleza e bênção.
Rute diante do que parece ser uma adversidade, adopta, pragmaticamente,
um modo de sobrevivência que só pode ser o sentimento e o bálsamo de Deus
a trabalhar no seu espírito.
No nosso século, com os instrumentos de análise do texto literário, lemos as
expressões do pensamento do puro amor -.ágape-,  sem sexismo ou
machismo prevalecente, uma antecipação  do romantismo, como um valor
imortal  no remotíssimo século XIII a.C.
“ Deixa-me colher espigas” disse Rute a Boaz. Este responde: ”Não ouves filha
minha? Não vás colher a outro campo, nem tão pouco passes daqui.(…)Os
teus olhos estarão atentos no campo que segarem(…), não dei ordem aos
moços, que te não toquem? Tendo tu sede, vai aos vasos, e bebe do que os
moços tirarem” ( 2, 8-9)
“Então ela caiu sobre o seu rosto, e se inclinou à terra” (2,10). Baixou os olhos,
por certo ruborizada. É poesia porque tem estrutura de verso e é simbólico de
uma atitude de respeito bem oriental. “Por que achei graça aos teus olhos”.
É um expressivo exemplo de lirismo que embeleza a humildade, não
a subserviência.  Um dos grandes poetas evangélicos clássicos brasileiros,
Jonathas Braga, escreve em “O Milagre do Amor” (poema longo sobre o livro
de Rute, de 1969): “Quem é essa criatura angelical que cisma / e a luz do seu
olhar sobre outro olhar abisma?”
Assim é o Livro bíblico de Rute: um quadro luminoso da gratidão, do apego aos
mais velhos e do amor com A maiúsculo.

© João Tomaz Parreira

FALAR COM DEUS EM CASTELHANO

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Esta expressão “ falar com Deus em castelhano”, que nada tem de estranha, é de uns versos de Miguel Torga (1907-1995), dedicados num poema a Miguel de Unamuno (1864-1936), no livro “Poemas Ibéricos”.
Torga diz de Unamuno,  poeta e filósofo espanhol em honra do qual tomou o nome Miguel no pseudónimo, que “ falava com Deus em castelhano/ Contava-lhe a patética agonia / Dum espírito católico, romano, / Dentro de um corpo quente de heresia”. Mas todos nós, de resto, falamos com Deus na nossa língua pátria.
Foi assim que o viu e sentiu os seus escritos, mas Miguel de Unamuno não foi “um corpo quente de heresia”, não foi de todo um herético, antes foi, por exemplo, um dos maiores leitores do Apóstolo Paulo, ainda que sob o prisma do sentimento trágico do Mundo.

E não foi assim que o apóstolo sentiu essa tragicidade, por exemplo, ao chegar a Atenas?

Também quando vislumbrou a tragédia espiritual que se podia estar a abater sobre os crentes cristãos da Galácia, conduzidos ao espartilho dos judaizantes?  Da rejeição e troca do Evangelho da Graça de Cristo por “outro evangelho”?

O mesmo sentimento de quase desânimo quando se dirigiu à comunidade cristã de Corinto, considerando os crentes ainda “meninos”, carnais, e submetidos a uma disputa de “lideranças”?

Outrossim quando, com a sua transparência e honestidade, profundamente ética e cristã, reconheceu que miserável homem que era (Ro 7:24), que não fazia o bem que queria, mas o mal que não queria esse fazia, não é com certeza o retrato da tragédia do ser humano, do seu sentimento de incapacidade própria perante o Bem e o Mal por causa do Pecado e da Queda?

Paulo sentiu como poucos esse sentimento trágico da vida, por isso se propôs anunciar o Evangelho da Graça de Deus como algo vital, necessário, imprescindível, o poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crer.
Do sentimento trágico da Vida
A obra mais notável deste humanista – daí com certeza Torga falar de heresia- que foi Unamuno, é esse Del sentimiento trágico de la vida,  publicado em 1913, e na sua profundidade teológico-filosófica está repleto do corpus e do pensamento do autor das Cartas aos Romanos, aos Gálatas, etc.

Neste livro, trata o autor de El Cristo de Velásquez (poesia) acerca da vida dos homens e dos povos, designadamente o espanhol em período de convulsões e prestes a iniciar-se a hecatombe da Europa,  traça-lhes o destino da tragédia, com o ímpeto agónico (de agonia, no sentido de luta) de um religioso preocupado com o Homem e da necessidade deste de Deus. “ A este Dios cordial o vivo se llega, y se vuelve” ou “ Crêr en Dios es, en primera instancia al menos, querer que le haya, anhelar la existência de Dios”. – escreve o autor basco.    Neste sentido também vai outra obra de 1924, A Agonia do Cristianismo.
Ao passarmos pelo índice da obra “Del sentimiento…” a dimensão das temáticas tratadas dá-nos desde logo a grandeza desse tratado, diria de Teologia, são 12 capítulos repletos de Deus e do Homem, do Apóstolo Paulo e da Fé.

Depois de ler o Apóstolo Paulo, a Carta aos Hebreus e Miguel de Unamuno, só posso concluir que a Fé ( a “Pístis”, no grego, confiança)  é, também, um binóculo que transporta para perto de nós o que não está claro e ainda está distante.   A Fé já tem em si mesma a demonstração do que se não vê.
© João Tomaz Parreira

PESSOA E JOSÉ GOMES FERREIRA: A LÍRICA DOS BOMBARDEAMENTOS

© João Tomaz Parreira

JTP13Se para Nietzche não havia factos, mas, sim, interpretações, para os poetas a guerra sendo uma interpretação do Mal, ou uma subserviência ao mesmo por parte do ser humano, é sempre escrita nos poemas como um facto, a morte não é uma metáfora; morrer sim, pode constituir-se metáfora: “Morrer devia ser assim…/ Boiar estendido numa nuvem” (JGF)
Poeta que levou à poesia o confronto dialético entre as metáforas luminosas, imagens que saem da antimatéria da mente para a realidade e as críticas ao Estado Novo, à ditadura salazarista – como um neo-realista-, e às incertezas do homem nas terríveis e atribuladas décadas de 30 e 40, não apenas em Portugal, mas na Europa, José Gomes Ferreira escreveu com a sua consciência mais do que com a pena, um prestidigitador das imagens poéticas. Mas, a verbalidade rica da sua poesia não era dúbia, era sim, sim, não, não. Mário Dionísio, outro poeta dissidente, digamos assim, do Novo Cancioneiro, preconizou que JGF seria “cantado nas ruas”, como poeta “essencial”.
Do conjunto ou livro de poesias denominado “Invasão”, de 1940-1941, no contexto da II Guerra Mundial, escreveu entre outros, o poema para uma cidade “fortemente bombardeada”, em que a ironia é sangrenta e, diria até apesar de já muito tardia, expressionista:
O general entrou na cidade
Ao som de cornetas e tambores…
Mas porque não há “vivas”
Nem flores?
Onde está a multidão
Para o aplaudir,
Em filas na rua?
E este silêncio?
Caiu de alguma cidade da lua?
Só mortos por toda a parte,
Mortos nas árvores e nas telhas,
Nas pedras e nas grades,
Nos muros e nos canos…
Mortos a enfeitarem as varandas
De colchas sangrentas
Com franjas de mãos…

(Ferreira, Poesia II, Portugália, 1973, 134)
Falando de outra guerra, mas sempre com a nitidez de uma fotografia, Fernando Pessoa demonstra a ternura como a desse poema O Menino da sua Mãe, ao mostrar-nos a “criança loura” que “jaz no meio da rua”, nos versos “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”. O menino da sua mãe, soldado, e a criança loura, são vítimas à sua maneira,  afinal vítimas de quem manda nas nações e podem ser senhores da guerra.
Com dois versos que suplantam na tristeza das palavras alguns versos da poesia expressionista alemã nos anos 20 do século passado, Pessoa inquieta-nos sempre com os resultados que conhecemos, todos, das guerras modernas e dos bombardeamentos.
Poderíamos invocar o conflito civil actual na Síria, ou a “guerra” traiçoeira dos actos terroristas, nesta visão da criança loura:
“A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
-Dos que boiam nas banheiras-
À beira da estrada.”

(Pessoa, Poesias, Ática, 1973, 249)

O recurso de identificar os momentos de alegria decepados da criança morta através dos brinquedos, dá-nos a dimensão da dor e da tristeza. A imagem transfigura-se,  a criança morta torna-se uma realidade, os versos são como uma fotografia de um repórter de guerra. São realistas e por isso penetram na interioridade do real.
Perante  a dupla imagem,  semântica e visual,  tendemos a fechar os olhos, a dureza de “as tripas de fora” e a referência a “uma corda”,  como uma ligação à vida no brinquedo agora para sempre ignorado.
A criança abandonada é um apelo  para o fim dos conflitos sangrentos, coisa que seria das mais relevantes no mundo moderno a par da submissão ao Evangelho de Cristo.
Este poema de Pessoa, sem data, é uma verdade também.  É uma fotografia escrita do Mal.  É um engulho para todos aqueles que têm por “profissão de fé” atribuir pontas soltas na Criação Divina, ou a Deus, recorrem sempre a uma: o Mal. Salvo melhor comparação, é como se, no domínio da física, a matéria se misturasse com a antimatéria: aniquilar-se-iam ambas.

25-04-2016

ESTRANHOS AO SEU DISPÔR…

Ricardo Jorge Mendes Rosa

RicardoRosa_6Quem cresce no seio do Cristianismo, pode por vezes crescer com uma visão toldada da realidade que o rodeia. Ao lermos os versos magnos do terceiro capítulo do Evangelho segundo S. João, percebemos que o amor de Deus pela Sua criação principal (o Homem) é profundamente intenso e inatingível. A graça divina é dispersa pela Humanidade como a chuva pelos vales, montes e cidades; o amor de Deus é extensível a cada ser humano em particular e de modo pessoal.

Esquecemos por vezes aqueles que não O conhecem. Ou lembramo-nos deles do modo cuja nossa educação cristã nos ajuda a lembrar: como almas perdidas e que precisam de ser alcançadas. Não é de todo errado abordar uma pessoa que não crê em Jesus deste modo, mas muitas vezes tendemos a minimizar Deus a um quadrado missional e esquecer que quem criou todas as coisas, é também capaz de Se auto-revelar a quem não O conheça de modo natural ou sobrenatural. Mas mais ainda, é perito em recorrer a essas pessoas como recursos para majorar a nossa perceção da Sua glória, graça e poder.
YHWH, ADONAI DOS GENTIOS

O recurso a essas pessoas pode ser visto ao longo de toda a Escritura, que se fazem acompanhar da revelação e soberania de Deus. É na descendência de Seth que se começa “a invocar o nome do Senhor” (Génesis 4:26), existindo já uma panóplia de gentes e povos distantes em ideologia e culto. Da linhagem de Seth somos agraciados com o exemplo de vida piedosa e ligada a Deus de Enoch (Génesis 5:22-24), Matusalém e Noé. Este último, rodeado de povos cujas divindades eram os astros e imagens fabricadas, foi salvo com a sua família por ter achado graça aos olhos de Deus. E aqui começa a nossa viagem…

Da descendência de Noé, somos confrontados com os povos que invariavelmente se viriam a cruzar com Israel, tanto para o bem, como para o mal. E o modo como Deus se assenhoreia deles também é uma constatação do Seu poder inesgotável. E do Seu amor incompreensível…

É com um pagão de nome Abrão que Ele estabelece um pacto que requer obediência, em prol de ver a sua descendência ser incontável. Não deixa de ser caricato, que no meio de tanta gente Deus se tenha valido de um homem nascido no seio de uma família pagã (Josué 24:2) e se tenha revelado diretamente a ele (Actos 7:2). Se atentarmos à obra apócrifa do Livro dos Jubileus, percebemos que Abrão desde tenra idade que foi confrontado com a corrupção do Homem, que se prostrava perante imagens mudas, imóveis, vazias. Os confrontos com o seu pai Terá (num dos quais resultou de uma destruição total dos ídolos que o pai comercializava, tendo Abrão dito jocosamente que o ídolo maior se tinha tornado invejoso dos restantes e por isso destruído os mesmos), são elucidativos do incómodo de Abrão… Para ele, um deus que é vivo, que merece culto, oferendas e reverência, teria forçosamente que se manifestar. É (possivelmente) nesta pré-revelação que Deus, conhecedor de todos os corações começa a trabalhar no íntimo de Abrão.

DA ESCURIDÃO PARA A LUZ

Se Deus usou um homem simples, vindo de uma terra em que a idolatria reinava, podemos também encontrar o exemplo de um membro da corte do Faraó e de um rei. Apesar de ser hebreu de sangue, Moisés foi criado pela sua mãe até uma dada idade, após a qual foi entregue à filha do Faraó, que o tinha achado no meio dos juncos do rio. Segundo Artapanus de Alexandria, Moisés terá tido um percurso tanto militar, como cultural acima de qualquer expectativa. O Moisés que veio a liderar o êxodo hebreu em direção a Canaã, foi um Moisés que entre uma infância hebraica, uma juventude egípcia e uma idade adulta vivida na aridez do deserto, sob a proteção de Jetro (sacerdote de Midiã, que mais tarde veio a prestar louvor e sacrifícios a Deus), foi trabalhado por YHWH.

Com Moisés, assistimos mais uma vez a um confronto entre o politeísmo e o monoteísmo, no qual as consequências físicas foram além de estátuas partidas. As pragas sofridas pelo Faraó e pelo seu povo, foram uma ação apologética de Deus. Não só com o motivo de libertar o Seu povo, mas também como meio de se mostrar como a única referência a quem o culto deve ser dirigido.
REI DE REIS

A figura de um rei pagão nem sempre está bem conotada nas Sagradas Escrituras. Mas o caso do persa Ciro, torna-se digno de ser reconhecido. Ciro foi chamado por Deus de modo directo (2 Crónicas 36:22-23) e com uma missão específica: construir um templo em Jerusalém, para que todo o povo de Deus pudesse retornar e participar na construção. Aqueles que optassem por não regressar, deveriam (por édito real) contribuir financeira e logisticamente, tanto para suportar quem viajasse, como com uma oferta voluntária para o templo (Esdras 1:2-4). Podemos acrescentar ainda o nome de Assuero, que tendo sido preservado por Deus com recurso a Mardoqueu e Ester, preservou o povo de ser destruído por Hamã (Ester 8:9-14) e fez com Mardoqueu o que o Faraó havia feito com José (Ester 10).

No entanto, nem sempre Deus usou figuras poder de modo aparentemente benéfico para com o Seu povo. Nabucodonosor atacou Jerusalém e levou consigo vários jovens hebreus para educar na Babilónia (Daniel 1:1-7). O que foi um modo de Deus julgar o Seu povo, foi também uma maneira de continuar a Sua revelação progressiva, com as visões escatológicas de Daniel.

No período histórico entre Moisés e Ciro, somos ainda confrontados com os actos de Raabe e de Ruth. Ambas nascidas fora do aglomerado do povo hebreu, decidiram seguir Deus após serem redimidas por Ele (Josué 6:25, Rute 4:11).

Como é que podemos relacionar tudo isto com a atualidade em que vivemos? Em primeiro lugar, devemos relembrar-nos constantemente da soberania de Deus, que pode usar quem quer, como quer, onde quer e para o que quiser. A ação de Deus não fica restrita à execução por parte da Igreja ( tal como não ficou sempre restrita ao povo hebreu) muito embora deva ser ela a materializar a vontade de Deus no dia a dia.

Em segundo lugar, projetos inacabados de Deus não são projetos falidos de homens ou mulheres. São pessoas em transformação, como foram Abraão, Moisés, Raabe ou Ester. Não importa o passado da pessoa, importa sim a sua disponibilidade para ser transformada e usada por Deus.

E em terceiro lugar, relembra-nos de que aqueles que não partilham da mesma fé que nós, precisam de conhecer Deus através da nossa vida prática e não apenas da nossa Teologia. Foi assim com Nabucodonosor (ao lidar com Daniel), foi assim com o Faraó que foi auxiliado por José ou Assuero.

Os portões da graça divina não se fecham, porque Deus amou e ama tanto cada um de nós, que ainda hoje o sacrifício de Jesus é válido para nos exonerar das consequências do pecado e trazer uma renovação à nossa vida.

HUMANOCENTRISMO

Ricardo Jorge Mendes Rosa

RicardoRosa_5Autoajuda. Perdoa-te a ti mesmo. Ama-te. Todas estas são expressões muito em voga na atualidade. Nunca tanto como hoje, nem na era do Renascimento, se viu um culto à própria pessoa ou ao Humanismo. O Homem decidiu ser o centro de si mesmo. E tudo o mais que exista, serve para orbitar em torno dele, como um acessório. Esta é uma resposta natural (embora desequilibrada) aos excessos vividos em pleno Séc. XX e às atrocidades dos conflitos armados, problemas económicos e crises humanitárias que o assolaram. Após épocas marcantes como o advento do laicismo ou o majestoso desenvolvimento da produção industrial em massa, o Homem virou-se para si mesmo. Afinal, porque não o faria? Livrara-se do peso da tradicionalidade religiosa e desenvolvera métodos que o faziam produzir ainda mais e melhor. Os acontecimentos que vieram marcar a humanidade, nas décadas seguintes, como a Grande Depressão, as duas Grandes Guerras ou a proliferação de doenças como o cancro e a SIDA, levaram o ser humano a querer auto-valorizar-se e proteger-se.

O problema com este tipo de pensamento, não se fica apenas pelo excesso de vaidade da auto-valorização. Quando o ser humano se promove como o seu próprio deus, fecha-se hermeticamente num vácuo de auto-adoração. O seu foco coloca-se demasiado em si mesmo e fica cego com tamanho brilho. Aí, não existe proteção sadia que lhe valha. Porque todo o ser humano é falível, estamos perante um perpetuar de falibilidade incessante e um desgaste rápido do Homem. E isso leva a excessos de vida como o consumo de drogas, de álcool, de pornografia e violência… Daí resultam também problemas como a anorexia (tão indiretamente promovida pelas indústrias do cinema e da moda), a glutonaria, o isolamento e por consequência a ascensão das depressões e dos suicídios. Na ânsia de se querer amar a si mesmo, o Homem tornou-se o seu próprio inimigo. E porquê?

Porque não consegue satisfazer-se plenamente. Porque a sua satisfação é efémera, já que é alimentada por coisas efémeras. O ser humano decidiu esquecer Deus, esperando por outro lado, conseguir fazer-se semelhante a Ele. Esta foi a causa do problema de Babel (Génesis 11:1-6), o querer substituir Deus e ser autossuficiente. Foi também parte do problema de Job (Job 6:1-4), no que tocou à autojustificação (Job era realmente um servo fiel e reto, mas só perto do fim do livro é que percebe que quem justifica e valida a nossa vida é Deus). Tudo porque Deus não criou o Homem para ser autossuficiente e independente mas sim para ser relacional e dependente (Génesis 1:27,28a; 1ª João 1:3b). Para se relacionar em primeiro lugar com Deus e em segundo lugar com o seu próximo (Lucas 10:27). Para ser dependente, não de vícios ou de maus hábitos, mas sim de um amor inexplicável e intenso (Tiago 1:2-4).

Enquanto não percebermos que não temos capacidade de nos perdoarmos a nós próprios, e que isso é apenas uma miragem e deturpação do verdadeiro perdão de que precisamos… vamos continuar com o mesmo caminho amargo. Tudo isto porque como Paulo escreveu, todos pecámos e estamos afastados da presença gloriosa de Deus (Romanos 3:23). Mas é por causa do Seu amor, do sacrifício de Jesus Cristo na cruz e da restauração de laços entre Deus e Homem, que hoje podemos viver livres e sem domínio do mal na nossa vida (Romanos 3:24-26, 2ª Coríntios 5:21, Hebreus 9:15).

Precisamos de ir além da cultura da auto-ajuda. Precisamos de admitir que queremos ajuda e que o nosso Ajudador é Cristo. O amor que temos por nós próprios deve derivar não do que temos ou fazemos, mas daquilo que somos quando nos submetemos a Deus (Efésios 2:8-10). A receita para o nosso valor não se encontra no que os outros digam, mas naquilo que temos a certeza que Cristo nos traz.

Porque o Reino que Cristo instaura no nosso meio, não é um reino com fronteiras, bélico ou economicista. Mas é um reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:15b).

Só assim poderemos viver verdadeiramente reconciliados connosco próprios, porque fomos restaurados para viver novamente à imagem e semelhança de Deus. Em caridade e comunhão com Ele e com os outros.

A atualidade ao serviço de Cristo

 

Ricardo Jorge Mendes Rosa

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Ao rever as notícias nos media tenho sido confrontado com temas, que de modo mais ou menos incessante, atraem o meu pensamento momentaneamente, até que ele se eclipsa.

Desde greves de estivadores até manifestações a favor de instituições de ensino privado, passando por várias polémicas sobre bancos, offshores, entretenimento ou dramas; todo o conteúdo com que os media nos bombardeiam, pode encher o nosso pensamento.

O que me levou a refletir neste momento, é algo simples. Qual o estado da Igreja em Portugal, em relação a estes assuntos e o que estamos a fazer para levar o Evangelho a quem necessita?

Além da ação social, algo que é necessário e que deve fazer parte do ADN das igrejas locais, a ação espiritual (ou seja, o anunciar do Evangelho) é vital para que levemos Cristo a ser conhecido pela nossa nação. Poderemos argumentar que falar de estivadores e colégios, a partir de um púlpito e numa celebração de igreja, é fazer política e está errado. Mas não nos podemos esquecer, que falar de algo nem sempre é subscrevê-lo ou promovê-lo. Temas como a justiça, a pobreza, o auxílio ao próximo ou a corrupção, tão combatidos no Antigo e no Novo Testamento, são ainda atuais. Podemos e devemos usar o que ouvimos hoje, como ponte para o anúncio do Evangelho. Podemos e devemos construir vias de comunicação com quem ainda não caminha com Deus, não através da terminologia teológica ou eclesiástica, mas da comum linguagem e problemas diários.

Muitas vezes, permitimos que todo o nosso evangelismo seja carregado de expressões eclesiásticas, que pouco ou nada dizem a não cristãos. Precisamos de reverter essa situação, usando a cultura e os focos comuns do dia-a-dia, a favor da pregação da mensagem de Jesus: existe vida além desta vida e temos que tomar uma decisão hoje!

Esta contextualização é necessária, não só para que sejamos ouvidos, mas para que sejamos (sobretudo) compreendidos. Ao pensarmos nos exemplos de Jesus (com as parábolas) ou de Paulo (com recurso a poetas e filósofos clássicos), percebemos que a ação criativa de Deus não se esgotou na Criação. Ainda hoje devemos buscar direção do Espírito Santo, para que possamos perceber como comunicar com as novas gerações. Não só porque os meios se desenvolveram, mas também porque estas mesmas gerações mudaram e com elas mudam os interesses, os níveis de literacia e alfabetização, a qualidade de vida, etc.

Precisamos, não de permitir que a cultura domine o Evangelho, mas que o Evangelho se sirva livremente da cultura e da atualidade como veículos e pontos comuns com a sociedade.

O INEGÁVEL DIREITO À VIDA

Ricardo Mendes Rosa

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O inegável direito à vida

O debate em torno do aborto é um tema actual e contínuo. Em Portugal, a lei da Interrupção Voluntária da Gravidez continua a ser terreno de batalha entre conservadores e liberais. Mas o que podemos nós, cristãos portugueses, fazer no que toca a este assunto? Além de nos manifestarmos em boletins de referendos, existe todo um trabalho de prevenção, aconselhamento e apoio a ser feito.

Se civilmente o problema começa no reconhecimento ou não do feto como uma pessoa com direitos, moralmente podemos dizer que o problema coloca-se a partir da fecundação. E porquê? Porque é na fecundação que se inicia um processo inegável e sem retrocesso. O desenvolvimento do ser humano! E este processo é sem retrocesso, dado que os casos de aborto espontâneo ou provocado não são uma reversão no processo desse desenvolvimento, mas sim uma finalização abrupta do mesmo. Se médicos e cientistas discutem as razões científicas, nós (os não clínicos) devemos discutir as razões morais e filosóficas da prevalência do direito à vida.

 

NEGAÇÃO ELEMENTAR

Em primeiro lugar, negar o direito à vida a quem quer que seja, torna-se um acto de objeção. Não de consciência, nem de liberdade, mas de existência. O mesmo tipo de objeção à existência usada pelo nazismo na Europa, ou pelo comunismo em países do Leste, Ásia e América do Sul. Posicionar-mo-nos a favor da morte de um ser sem que coloque em risco integral a vida de outro, é tomar parte na atribuição de uma pena de morte, sem crime à vista. Nega-se o direito a viver, despreza-se o decreto divino da proteção da vida. E não se resolve qualquer problema, excepto em casos de risco de vida, com uma atitude amputativa.

Recordemos que, o mandamento do decálogo “não matarás”, refere-se concretamente a não retirar uma vida inocente. Dificilmente encontraremos exemplo mais simples. Como cristãos, aceitar o aborto per se é aceitar que uma pessoa possa determinar a morte de outra. A sacralidade da vida humana deve ser protegida. Caso contrário, abrir-se-á sempre um precedente básico para a desconsideração do seu valor. Algo que Escrituras, Espírito e Tradição nos mostram ser incompatível com Deus. A existência de um ser humano não pode, nem deve, ser limitada por outro ser humano que não o queira. Permitir isso, é permitir a mesma lógica base por detrás dos campos de concentração e dos pogroms. E mesmo como não cristãos, aceitar que uma vida em desenvolvimento seja terminada, é aceitar um princípio derrotista à nascença. O de que é mais fácil terminar, do que investir no crescimento. Mesmo no humanismo secular, a vida deve ser preservada. Não desprezada.

 

VIVER É MAIS DO QUE SENTIR

Em segundo lugar, devemos aceitar que viver é mais do que sentir. Isto é, é vai além de ter a capacidade física e os consequentes meios (órgãos e tecidos) inicial ou totalmente desenvolvidos. Dizer que um feto pode ser destruído, porque não pensa ou ainda não tem capacidade de sentir, é o mesmo que desconsiderar o direito à vida de pessoas com deficiências profundas a nível mental ou físico. O facto de as faculdades físicas ainda não estarem plenamente desenvolvidas, não legitima o aborto. Tal como a ausência ou parco desenvolvimento dessas faculdades, não são (nem devem ser) motivos para justificar ou apelar ao infanticídio. Caso o fossem, então bebés que nasçam cegos, surdos ou com qualquer outra deficiência, deveriam ser etiquetados como dispensáveis. Esse tipo de ideia é espelhado na eugenia de Francis Galton, aproveitada mais tarde pelos movimentos racistas norte-americanos ou pela ideia ao arianismo nazi.

Este tipo de justificação, o da falta de capacidade para, é usado por Peter Singer para justificar o infanticídio, algo que certamente criará repulsa em nós. A lógica usada deve ser a mesma. Um ser em desenvolvimento é um ser em desenvolvimento. Mas não é um ser subdesenvolvido ou sem possibilidade de se desenvolver. Com ou sem ajudas de terceiros. A Medicina recorre a transplantes e próteses para viabilizar vidas. Porque não viabilizar também a existência de um ser humano, cujas possibilidades de crescer e ser feliz devem ser potenciadas desde a fecundação, sobretudo porque não é classificado como uma doença?

 

PROTEÇÃO DIVINA

Como cristãos, precisamos reforçar no nosso meio que Deus é quem dá e retira a vida. E mesmo os não cristãos, aceitaram que a partir da altura em que nos julguemos “deuses” uns dos outros, que presenteiam ou retiram o dom da vida a terceiros, estaremos a entrar num estado caótico social. Aliás, essa é a grande alavanca na luta contra os crimes de honra. Nada dá o direito a alguém de assassinar um seu semelhante. A sociedade tornar-se-á um campo de batalha, não um local de crescimento. E estaremos a caminho da primordialidade evolucionista da espécie humana, mas num estado agravado. Deixamos de matar para comer, para matar por opção. Desceremos um degrau abaixo da irracionalidade, num ponto onde nem a tese de Michel Henry (exposta n’A Barbárie) poderá ser suportada.

Não nos compete tentar substituir Deus nessa (ou em qualquer outra) tarefa que sejam da Sua esfera. A lei mosaica proíbe a morte de um ser inocente, ao mesmo tempo que defende o direito à vida do ser humano. O aspecto moral da mesma servia para ensinar a Israel como viver e encontra-se propagado ao longo de todo o Antigo Testamento. E o Cristianismo, por consequência lógica, deve respeitar esses ensinamentos, porque o próprio Cristo nasceu para dar vida e relembrar que continua a ser tarefa do Homem, crescer, amadurecer e multiplicar-se. Esse mesmo Cristianismo que influenciou a sociedade ocidental, dando-lhe as raízes judaico-cristãs sobre as quais está erigida, deve continuar hoje a lutar pela perseverança do direito a viver. O direito à vida é outorgado apenas por Deus, ainda que na concepção de uma criança, homem e mulher sejam “ferramentas” no processo. Existe uma total inimputabilidade de culpa no que toca ao bebé que se encontra em gestação no útero, no que diz respeito à sua origem. No entanto, existe também uma total proteção divina desse direito a ser, a viver.

O útero feminino é o local de acomodação do bebé, está preparado para isso, recicla-se regularmente para tal. Não é um local que é tomado de assalto por uma espécie estranha. Para que possa ser habitado, são necessárias condições específicas, as quais são criadas através do acto sexual. Assumir que o útero da mulher pertence única e exclusivamente à mulher, podendo esta descartar um feto em desenvolvimento, é um erro. Não porque o útero não pertença à mulher, mas porque de facto, a mulher não tem propriedade sobre o feto que lá se encontre. Por outras palavras, o feto não é um órgão da mulher, é um ser em pleno desenvolvimento, totipotente e acomodado do local devido. Salvo raras excepções, não foi introduzido contra vontade, não é causa de uma doença, nem tão pouco é causado por problemas de hereditariedade. Crentes e não crentes devem defender uma posição de salvaguarda do lado mais indefeso. E nesta situação, é e (raras vezes) deixará de ser o bebé.

A DÚVIDA DE GODOT

godot_peqHá quase três décadas, no final do ano de 1988, a revista Newsweek fazia a recensão crítica da peça À Espera de Godot, levada à cena na Broadway, na cidade de Nova Iorque.  Não sendo a Newsweek uma revista literário-filosófica, não foi porém surpresa ler que o texto de Samuel Beckett era a mais famosa peça do século.

Talvez tenha sido surpreendente, sim, ler os questionamentos que o articulista e crítico teatral colocava sobre o significado da personagem, uma espécie de deus ex-machina que nunca aparece em cena, Godot. Perante a espera do misterioso Godot, perguntava-se se seria Deus? A Morte? Ou até, a o simples problema social da espera de um emprego?

Tendo chocado audiências no início da década de 50, inquiria-se se não seria outro o significado, se Godot não era um conceito, uma «espécie de Ocidente», que perante as ruinas da 2ª Guerra Mundial e dos escombros éticos e morais que o nazismo deixara, não seria um retrato moral da humanidade em crise e, aparentemente, sem respostas? Supostamente, a peça apresentava ao mundo ocidental, que este estava estruturado no desconcerto de uma máxima beckettiana: «Não há nada no mundo mais cómico do que a infelicidade».

De tudo o que se pode tirar dessa peça teatral, que se desenrola numa incerteza e em futilidades para passar o tempo das suas duas personagens principais e, por isso mesmo, passível de não ser apropriada pela nossa ética protestante e evangélica, fundamentalmente temos a dúvida de uma procura, que está disfarçada de «espera».

A conhecida repulsa da doutrina protestante pelas artes visuais e pelas artes da representação teatral , no decorrer do século XX, oriunda do protestantismo ascético que na Europa desde o século XVI era puritano, nunca ajudou a que se analisasse essa obra do dramaturgo, romancista e poeta irlandês. Nesta considerada a mais significativa peça do absurdo, de Samuel Beckett, não se espera, como tudo leva a crer, mas, sim, procura-se. Neste aspecto pode ser vista como para-religiosa.

As personagens procuram conhecer quem é ou o que é esse Godot, o qual esperam, numa repetição dos dias, inúteis e sem sentido ou sem esperança como no trabalho de Sísifo. Uma tarefa que a literatura dita ateísta não descarta e assume como unhope, palavra significativamente utilizada pelo poeta Thomas Hardy, que escreveu um poema (In Tenebris ) sobre a desesperança:
negra é a noite de enfrentar;
mas a morte não vai desconcertar
aquele que, sem a menor dúvida,
espera na desesperança
Esperar sem esperança é, na sua essencialidade, esses dois dias consecutivos nos quais um par de homens patéticos afirma pelas palavras e pela mímica esperar um ausente, que se chama Godot.
A ausência de Godot, bem como numerosos outros aspectos da peça, deram origem a várias interpretações desde o dia da estreia teatral, ocorrida em Paris, em 1953. «Não posso explicar as minhas obras. Cada um deve averiguar por si próprio o que entende nelas»- afirmou Beckett.

Os insucessos da expectativa são os ingredientes, a intriga da peça. Ambos os principais personagens esperam expectantemente e sem sucesso por alguém. Enquanto isso ocorre, isto é, nada ocorre, procuram e discutem, procuram não a substância e o fundo de quem ou do que esperam, mas os significados colaterais. Curiosamente, até discutem o «arrependimento», a partir dos Evangelhos. Ler e utilizar o conteúdo salvífico de um episódio dos Evangelhos em uma peça deste tipo, é ter diante dos olhos um argumento que se revela contrário ao ateísmo, ou no mínimo ao agnosticismo aqui representado na espera de deus ex-machina ou de um deus-absconditus.

Não temos forçosamente que ler Godot como sendo Deus, mas que esta peça não é ateísta, não é. Até porque um dia Beckett, entrevistado, disse, cito de cor: “Se quisesse falar de Deus na peça, ter-lhe-ia chamado “Waiting for God”, ou “En attendant  God”.

© João Tomaz Parreira

O CALVINISMO DE ALBERT CAMUS

JTP12O CALVINISMO DE ALBERT CAMUS

© Ensaio de João Tomaz Parreira

É a Graça de Deus uma esquina onde nos encontramos, numa surpresa, com Ele? Quer dizer, a Salvação surpreende-nos?
Sim, mas não deveria, porque Cristo morreu perante os olhares do mundo, no monte do Gólgota, pelos homens. “Quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo ” (Jo. 12,32) – repetiria Jesus aqui a imagem universal do modo como haveria de morrer.
Todavia, o que a História da Igreja a partir da Reforma nos concede pode ter uma surpresa numa formulação teológica inusitada. Esta pode mesmo surpreender-nos por ter vindo de um autor como Albert Camus.
Não é estranho para ninguém que conheça a obra desse escritor, que o mesmo se tenha preocupado com a religião e, designadamente, com o cristianismo.  O cristianismo nunca foi uma palavra morta nem excedentária ou meramente tolerada na prosa de romance ou pensamento filosófico do autor de “O Estrangeiro” ou dessa outra obra-prima da literatura europeia do século XX, “A Peste”.
Camus não se confina ao plano histórico, material, da vinda de Cristo para iniciar a Era Cristã, ultrapassa-o para o plano doutrinal e espiritual. Escreveu que “ o Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, que são precisamente os problemas dos revoltados”.
Obviamente que encaminha o Cristo como uma solução para uma das partes principais da sua filosofia ao escrever o livro “O Homem Revoltado”. Este é, para o escritor, “o homem que diz não”, exactamente ao Mal e à Morte, e ao silêncio do mundo perante ambos. Contudo, ninguém se pode livrar do poder nem de um nem da outra sem Cristo, afirma a doutrina cristã.
No que concerne ao Cristianismo, Albert Camus jamais lhe fechou as portas. Embora na sua estruturação do mesmo, o escritor tenha usado os materiais mais da história que da teologia.
As próprias janelas que abriu, dirigem-se sobretudo para o sacrifício expiatório e cruento de Jesus Cristo. Acerca do Salvador considera o «grande gesto heróico do seu sacrifício» que veio tomar a seu cargo o mal e a morte. E nesta afirmação mais do domínio da opinião (doxa), que do conhecimento (epistéme), Camus é reductor.
Jesus Cristo resolveu, de facto, os problemas da morte e do mal, vencendo ambos na Cruz, mas sobretudo veio resolver a relação da criatura humana com o Pai Celestial. Veio para tornar os crentes filhos de Deus. Veio para manifestar a Graça Deus – como Paulo diria, por epístola, a Tito-, veio como a humanização da Graça divina, se assim nos podemos exprimir, não como um ornamento dogmático para a Teologia, mas como Salvação para todos os homens.
Camus teve sempre, nos seus romances, um diferendo aberto com o mal na perspectiva de questionar se este era necessário à criação divina – se era assim, escreveu ele, «então a criação é inaceitável.»
Todavia, o que a Bíblia Sagrada e a teologia Cristã nos mostram é que Deus não criou o mal, obviamente.
Visto de outro ângulo, Camus vê o sacrifício de Jesus pela humanidade baseado num princípio de injustiça.  «O cristianismo na sua essência e sua paradoxal grandeza é uma doutrina da injustiça, está fundado sobre o sacrifício do inocente e a aceitação desse sacrifício.»- escreve nos seus Cadernos.
Porém, o sacrifício do Filho de Deus, como o próprio Deus, não podem ser submetidos ao julgamento moral do homem. A injustiça residia no homem, “não há um justo nem um sequer”, era necessária a justiça divina. Foi a injustiça que fez com que Deus manifestasse a sua justiça em Cristo, pela Graça.
No romance “A Peste”, de 1942, em que se discutem problemas sociais, morais e religiosos, e a inevitabilidade do surgimento de uma epidemia mortífera, na boa tradição do romance francês do século XIX, o autor traz aos leitores a tarefa da Graça na homília do padre Paneloux perante um templo cheio de homens e mulheres com medo da peste, que visitavam Deus apenas ao domingo.
“Se hoje a peste vos olha, é porque chegou o momento de reflectir. Os justos não podem receá-la(…). Na imensa granja do universo, o flagelo implacável baterá o trigo humano até que a palha se separe do grão. Haverá mais palha que grão, mais chamados que eleitos, e esta desgraça não foi desejada por Deus” (pág.110) (o sublinhado é nosso)
Com efeito, no decorrer da homília, chocamos com um muro intransponível, para um cristão, o cansaço de Deus de distribuir a sua Graça, cansado de esperar o arrependimento, desviou o seu olhar.
É, de facto, um “calvinismo” no conceito de Camus, o olhar benévolo de Deus sobre uns e o afastamento do Seu olhar de outros. Embora eu ache que Deus não usa a eleição por estar bem com os eleitos e irremediavelmente mal com os não-eleitos.  ©

RELIGIÃO – LIBERDADE E VIOLÊNCIA

SamuelPinheiro 4_peqRELIGIÃO – LIBERDADE E VIOLÊNCIA

Julgo que não será errado dizer que todas as religiões em algum momento consideraram que o poder político era um aliado para impor as suas crenças, a sua moral e a sua ética através da violência, da perseguição, da intimidação, do medo, da pobreza e da miséria. Ninguém pode atirar a primeira pedra porque todos têm os seus telhados de vidro. Mas existem algumas diferenças de fundo como é o caso de facilmente podermos constatar que alguém pode matar invocando o nome de Jesus Cristo, mas não pode matar por ordem de Jesus Cristo. Ele nunca lançou mão da violência, embora não exista qualquer base para a conceção de um Cristo frouxo, inseguro, politicamente correto. Jesus foi frontal e honesto com os poderosos da religião, com os hipócritas, com o povo, com o sistema. O mesmo não se pode dizer de alguns líderes religiosos que lançaram mão das armas para expandir as suas ideias. Jesus nunca o fez nem nunca o promoveu, nem deu orientações para que assim fosse feito. Antes bem pelo contrário, sempre o condenou. O projeto de Jesus Cristo não é político nem pode ser politizado ou partidarizado. Trata-se de um plano espiritual que tem repercussões em tudo o que diz respeito à vida de cada um que o aceita e com o qual se compromete.
Pessoalmente continuo a perfilhar a ideia de que sendo a religião o esforço do homem para tentar alcançar Deus, Jesus não veio para implantar ou dar origem a nenhuma religião. A religião é o esforço do homem. Jesus Cristo é o próprio Deus vindo ao encontro dos homens, fazendo o que eles nunca poderiam fazer. O homem não consegue alcançar Deus. Pode tatear respondendo ao apelo que o próprio Deus incutiu dentro da Sua obra-prima. Admito que outros possam ter outra perspetiva e defendam outra argumentação. Esta serve de forma razoável e julgo que de modo muito contundente a essência singular do evangelho.
O evangelho é totalmente avesso à estratégia da força para impor as suas convicções porque no evangelho não é pelas regras, pela ética ou pela moral, pela liturgia ou pelos serviços religiosos que alcançamos a Deus, como também não o alcançamos pelas nossas boas obras, pela nossa eventual virtude. Não é por sermos “bons” que logramos a nossa salvação. Por isso a fé que nos vem pela palavra de Cristo e da qual Ele é o autor e consumador não pode ser legislada. É pela graça, pelo favor de Deus que somos reconciliados com Ele. O evangelho aponta-nos a cruz de Jesus Cristo como o único meio pelo qual podemos ser salvos. Nunca como hoje, no ambiente que estamos a viver em termos do terrorismo, isso se torna mais urgente e mais premente. Não podemos obrigar os outros a viver como nós consideramos que devemos viver. Não podemos obrigar os outros a aceitar o que para nós é certo ou errado de acordo com a revelação divina. Deus deu-nos orientações muito específicas de acordo com as quais devemos viver, quando em liberdade e por nossa escolha decidimos seguir a Jesus. Mas o que para nós é certo, não pode ser imposto a quem não quer viver dessa forma. O próprio Deus procede dessa maneira. Com isto não estou a querer dizer que a sociedade não beneficie como um todo quando os valores e princípios cristãos são absorvidos. Mas não confundamos a cultura influenciada pela fé cristã, com a vida cristã decorrente de uma experiência pessoal com Jesus Cristo, com o novo nascimento, com a conversão, com o arrependimento, com a mudança espiritual provocada pelo Espírito Santo. Por outro lado também não é menos verdade que quando nos parece que a sociedade perfilha uma cultura dita cristã, o que de hipocrisia sobeja é muito mais do que imaginamos. O mesmo acontece em todos os grupos, sejam religiosos ou político-partidários quando defendem uma determinada legislação e afinal de contas a vida privada dos proponentes e defensores está nas suas antípodas.
A sociedade não pode viver sem algumas definições muito claras e objetivas do que se deve ou não deve fazer, sobre o que é correto e o que não é. A justiça é essencial à vida em sociedade. Tem de existir um padrão pelo qual uma sociedade se deve reger. O relativismo e o pluralismo mais cedo ou mais tarde redundarão em desastre quando levados ao extremo. Já hoje somos confrontados na escola e na sociedade em geral com crianças, adolescentes e jovens que não têm qualquer noção de respeito, de reconhecimento dos princípios da vida em sociedade, de aceitação das normas dentro de uma sala de aula, da valorização do conhecimento e do trabalho. Mente-se, engana-se, rouba-se, ameaça-se, agride-se, provoca-se, etc. com uma consciência cauterizada, um sangue frio que causa uma profunda apreensão em relação ao presente e ao futuro próximo.
A função de sal e de luz da igreja e dos seguidores de Jesus na sociedade não é o de impor a sua moral, mas a de viver essa mesma moral no relacionamento pessoal com cada um dos vizinhos, na consciência das nossas fraquezas, debilidades, erros e falhas; sem qualquer sobranceria ou sentido de superioridade. Com amor e aceitação, não subscrevendo o que está mal, mas não recusando a pessoa porque todos nós sofremos do mesmo problema, e todos carecemos da mesma graça divina, do mesmo perdão e transformação.
A teocracia não é o projeto cristão para as sociedades em que vivemos. A parte da Bíblia que nos narra a história do povo de Israel dá-nos a conhecer um regime em que os princípios dados por Deus deveriam ser observados por todo o povo embora eventualmente apenas durante o período do êxodo com Moisés, de Josué e durante o período do profeta Samuel a liderança espiritual abarcava a totalidade da vida da nação. Durante o período dos juízes e da monarquia embora tenhamos situações distintas de rei para rei, e fosse expetável que este estabelecesse a lei dada por Deus, existia uma separação de funções. Com a vinda de Jesus Cristo o Seu projeto é a da edificação da Igreja da qual fazem parte todos os que têm uma experiência pessoal com Ele.
No terrorismo do islamismo radical temos uma hostilidade em relação à cultura ocidental que é mais pós-cristã do que cristã, defende-se um conjunto de posturas principalmente em relação às mulheres que colidem com a permissividade do ocidente. Embora na Bíblia nós encontremos valores que se opõem à mesma cultura, o facto é que eles não nos foram dados para serem impostos pela via da lei. Ao longo da história e nos dias de hoje podemos encontrar certos grupos em que o fanatismo grassa e em que o exagero nos usos e costumes é alarmante. Mas o facto de existir essa clivagem, ela nunca por nunca ser poderia ser assumida pela violência no contexto do evangelho. Como cristãos sofremos essa perseguição e corremos o risco de sermos atingidos por ela.
Mas existe uma outra perseguição que não pode ser ignorada nem silenciada por grupos extremistas e outros que nem serão assim tão extremistas, contra todos os que confessam a Jesus Cristo como o único Senhor, como Salvador, como o seu Deus. Mas disto Jesus Cristo nos avisou de forma clara e solene. A Igreja surgiu e desenvolveu-se num ambiente hostil, de perseguição feroz, tanto movida pela religião como pelo poder político. Não esperemos que hoje aconteça de forma diferente. Não foi por causa disso que os seguidores de Jesus deixaram de viver em função dos valores do amor aos próprios inimigos, retribuindo o bem ao mal que lhes era infligido. O sangue dos mártires potenciou o crescimento qualitativo e quantitativo da Igreja. Fomentar uma guerra religiosa não está dentro dos parâmetros da fé que provém de Jesus Cristo, nem sequer nos deixar enganar ou iludir com ela. Compete-nos esclarecer, explicar de modo inteligente, sábio, amistoso mais do que atacar quem não crê em Quem nós cremos. Embora devemos cultivar uma postura esclarecida e rigorosa sobre as várias correntes religiosas não devemos generalizar e colocar tudo no mesmo saco, porque nem todos os que professam uma determinada religião são terroristas ou intolerantes.
Julgo que em relação ao poder político seja ele central ou local não podemos embarcar na lógica de que se não nos dão a nós também não devem dar a outros, mas no mínimo que nos concedam o que disponibilizam a outros, tendo em consideração que a nossa profunda fragmentação é um obstáculo muito sério à equidade neste como noutros domínios. Uma linguagem desbragada não condiz com o espírito e a letra do evangelho de Jesus Cristo e muito menos a defesa da restrição ou anulação da liberdade religiosa em relação a determinados grupos religiosos ou a perseguição por motivos religiosos sem confundir esta postura com a legítima ação do Estado de oposição, contenção e repressão pelas vias legais de todos os incentivos à violência e ao terrorismo.
Mantenhamos sempre no nosso coração as palavras de Jesus: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.” (Mateus 5:12)

Samuel R. Pinheiro