O Pedido de Tiago e João

O Pedido de Tiago e João

Mateus 20:17-28

Jorge PinheiroDr. Jorge Pinheiro
Para lá de Mateus, este episódio encontra-se também em Marcos 10:32-45 e Lucas 18:31-34. Em conjunto, apresentam aspectos e pormenores diferentes entre si e, por isso, são relatos que exigem uma harmonização. Como base, utilizaremos o registo de Mateus.

v. 17: E subindo Jesus a Jerusalém.

Jesus encontrava-se na Pereia (Mateus 19:12) e dirigia-se para Jerusalém via Jericó.

Se quisermos ver algum simbolismo neste trajecto, podemos dizer que Jesus seguia da cidade da guerra (Jericó) para a cidade da paz (Jerusalém). Basta recordar que Jericó está ligado a um episódio de guerra, conquista e destruição e que o termo Jerusalém pode ser traduzido como “cidade da paz”. Esse é o caminho que Ele nos convida a trilhar. A cidade da guerra foi conquistada pela força das armas mas a cidade da paz foi conquistada pelo sofrimento e pela entrega. Não há paz se não estivermos dispostos a experimentar o sofrimento e uma entrega pessoal.
v. 17: chamou de parte os discípulos e no caminho disse:

Jesus não se limitou a enviar os discípulos sozinhos: “Ele chamou-os a si.”
Jesus não guardou para si as suas intenções: “Disse.”
Jesus não ficou na retaguarda, resguardado “no caminho”. Ele não só acompanhou os discípulos, estando no meio deles, como toda a Sua acção não foi passiva mas activa. “No caminho” – ele caminhou.

E que lhes disse Ele?

v. 18: Eis que vamos para Jerusalém.

Note-se o para. Não iam a mas para. Não iam de passagem mas para ficar. Iam com um propósito. A nossa caminhada rumo à paz tem de ter um propósito e o propósito de lá ficar, dispostos a tudo de ordem pessoal para que a paz permaneça. Se queremos ser soldados, temos de ser soldados da paz, um pouco à semelhança dos actuais bombeiros que a si próprios se designam por “soldados da paz” e que apagam fogos, resgatam vidas, carregam os velhos, protegem os desprotegidos, recuperam bens perdidos, evitam ou minoram catástrofes, seguindo o seu lema “Vida por Vida”. Da minha parte, homenagem e louvor aos bombeiros.

E que iam fazer a Jerusalém?
vv. 18-19: O Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas e condená-lo-ão à morte e o entregarão aos gentios para que dele escarneçam, o açoitem e crucifiquem e ao terceiro dia ressuscitará.

Jesus revela aos discípulos o que se vai passar. Torna-os participantes ou pelo menos conhecedores das Suas intenções. O clímax, o ponto máximo da vida de Jesus aproxima-se e Ele quer que os Seus não fiquem na ignorância.

Que exemplo para os líderes actuais. Quantos deles não agem em segredo, não envolvendo os liderados numa tarefa que se pretende comum e escondem a totalidade ou parte dos planos de acção? E quantos não apelam ao sacrifício, ao esforço e à entrega dos seus liderados e se excluem de toda essa entrega que se pretende e tem de ser comum?

Esta é a terceira vez em Mateus que Jesus revela que irá passar por aquilo que é conhecido como a Sua Paixão – a Sua condenação, morte e ressurreição:

• Mateus 16:21 – no seguimento da confissão de Pedro, reconhecendo a messianidade de Jesus;
• Mateus 17:22-23 – após a cura do epiléptico;
• Mateus 20:18-19 – antecedendo o pedido de Tiago e João.

Há uma quarta ocasião, em Marcos 9:31, que antecede a discussão de quem seria o maior no reino de Deus.

No versículo 18, vemos que Jesus declara sem rodeios que, uma vez entregue aos responsáveis religiosos, será por estes condenado à morte. Quando a religiosidade se sobrepõe à espiritualidade, a verdade torna-se incómoda e o caminho a seguir é eliminá-la sem hesitações. Este é um processo que se repete vez após vez em todos os quadrantes da vida em sociedade e que tragicamente não está ausente em muitas hostes ditas cristãs. Que o Senhor nos guarde e nos ajude para que a nossa teologia pessoal ou grupal não se sobreponha à limpidez cristalina da revelação do Evangelho.

É que, cuidando estarmos a ser guardiões da verdade, podemos acabar por ser um tropeço para todos os que, com um coração quebrantado e arrependido, conforme exige a Escritura, querem apresentar-se doentes como estão Àquele que os pode curar e restaurar. Em vez de os deixarmos entrar para serem tratados e curados, exigimos a apresentação de uma credencial assinada por uma qualquer entidade, por norma abstracta, controladora do acesso ao Evangelho.

O versículo 19 menciona os gentios. Aqui, referem-se à autoridade romana. Ao tempo, qualquer condenação à morte tinha de ser ratificada pelas instâncias judiciais romanas. Ao longo da História, este é um debate que continua em aberto: quem matou Cristo? Judeus ou Romanos? Há quem queira encontrar um terceiro executor: Deus. E enchem páginas de teologia, demonstrando que foi Deus quem matou Jesus, abandonando-O à Sua sorte porque, encarnando o pecado, Jesus levou Deus a não ter outro remédio senão afastar d’Ele a Sua presença. Que evangelho macabro, sinistro e malvado esse.

Se dizemos que Jesus morreu por nós, então só nos resta concluir que foi o nosso pecado que O matou. E se foi o nosso pecado que O matou, não podemos deixar de O amar e de nos esforçar, até mais não podermos, por não pecar, procurando a cada momento identificar a nossa vida com o modelo de ser humano perfeito que Ele preparou para nós.

O anúncio de Jesus está sem dúvida carregado de drama, de tragédia, de tristeza, de desespero e de impotência. Se isso vai acontecer, nada há que possamos fazer para o impedir e a única saída viável e natural parece ser o desespero.

Mas – e a grande notícia e consolo que o Cristianismo oferece – o processo não acaba ali – Ele ressuscitará. E se é verdade que, conforme predisse, foi entregue aos religiosos, foi condenado por estes à morte e foi escarnecido, açoitado e crucificado pelos gentios e morreu segundo as leis da Natureza, se tudo isso, repitamo-lo, é verdade porque aconteceu, também não é menos verdadeira a Sua ressurreição. Jesus ressurgiu, está vivo, intercede por nós e voltará segunda vez, não como um D. Sebastião mítico, mas como Rei dos reis e Senhor dos senhores.

Após esta declaração, Lucas (Lucas 18:34) afirma que os discípulos não captaram o seu significado e alcance. Realmente, é estranho porque, conforme já vimos, esta não era a primeira vez que Jesus anunciava os Seus sofrimentos. Talvez porque essa afirmação contradissesse a ideia que eles tinham da majestade do Messias. Ou talvez porque lhes parecesse impossível ou improvável que a rejeição de Jesus por parte do sistema chegasse a esse ponto, apesar de serem testemunhas de que a mensagem de Jesus incomodava muita gente e ia ao arrepio do que os outros mestres ensinavam e praticavam.

Desconhecemos a razão dessa incompreensão dos discípulos. Mas ela acaba por nos ser familiar e contemporânea. Quantos de nós, embalados por uma interpretação tradicional das Escrituras, tornada quase um dogma, temos dificuldade em conciliar determinadas passagens da Revelação com aquilo que tomamos como adquirido, com aquilo que consideramos a única interpretação possível?

O versículo 20 introduz uma divergência com o relato de Marcos (Marcos 10:35). Mateus diz que o pedido é feito pela mãe de Tiago e João, enquanto Marcos afirma que o pedido foi feito pelos dois irmãos.

São possíveis duas respostas:

• A mãe dos irmãos encontrava-se no grupo (versão de Mateus).
• Os dois irmãos verbalizaram um pedido ou desejo expresso da mãe (versão de Marcos).

No entanto, apesar desta discrepância, ambos os relatos são concordes quanto ao conteúdo e matéria do pedido. E o pedido consiste em que Jesus concedesse aos dois a possibilidade de um se sentar à direita e o outro à esquerda de Jesus quando este ocupasse o trono do Seu reino (v. 21).

Muito provavelmente, ainda lhes ecoava a garantia dada por Jesus de que os discípulos se assentariam sobre doze tronos para julgarem as doze tribos de Israel (Mateus 19:28).

Pelo pedido, e ainda mais pela resposta de Jesus, não é descabido concluir que os discípulos, ou pelo menos estes dois, ainda não tinham percebido as características especiais do Reino de Cristo, que não se regia segundo as normas de um qualquer reino humano.

Esta conclusão detecta-se no início da resposta de Jesus: Não sabeis o que pedis (v. 22). No resto da resposta, Jesus sonda os pensamentos dos dois irmãos, forçando-os a declarar em que moldes viam o Reino de Cristo, uma vez que Jesus prossegue: Podeis beber o cálice que eu hei-de beber e ser baptizados com o baptismo com que sou baptizado?

Na aparência, a resposta dos dois leva a supor que eles teriam entendido a essência do Reino. Quanto a mim a resposta não é mais do que um adiamento, de um compasso de espera.

O cálice aponta para o que nos pode acontecer nesta vida, no nosso encontro com as circunstâncias. Pode representar tanto o que de bom nos acontece (Salmo 16:5 – O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice; Salmo 23:5 – …unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda; Salmo 116:13 – Tomarei o cálice da salvação; Jeremias 16:7 – …nem lhes darão a beber do copo de consolação) como o que de mau nos atinge (Salmo 75:8 – Na mão do Senhor há um cálice, cujo vinho ferve, cheio de mistura e dá a beber dele; Apocalipse 14:10 – Também o tal beberá do vinho da ira de Deus que se deitou, não misturado, no cálice da Sua ira.)

Como Cristãos, quando se fala em cálice, recordamos de imediato a oração no Getsémani: Passe de mim este cálice. (Mateus 26:39), em que o cálice está associado ao sofrimento experimentado por Cristo.

Na segunda metade da resposta, Jesus refere o baptismo: Podeis ser baptizados com o baptismo com que sou baptizado? O baptismo aponta para uma dissolução pessoal e voluntária num meio que nos é hostil e até fatal. Etimologicamente, significa “mergulhar” e mergulhar bem fundo. Nesta resposta de dupla interrogação, estão implícitos o sofrimento (o cálice) e a morte (o baptismo).

A resposta dos dois não se fez esperar: Disseran-Lhe eles: Podemos. (v. 22). A história futura confirma que, conscientes ou não das implicações da resposta, estavam a ser sinceros. Tiago foi o primeiro apóstolo a conhecer o martírio – foi morto à espada por Herodes Agripa (Actos 12:1), enquanto João viveu o exílio na inóspita ilha de Patmos, onde teve a visão do Apocalipse.

Podemos dizer, como Robert Little, que “Tiago morreu como mártir e que João viveu como um mártir”. Recordemos que mártir significa testemunha.

Relembremos que Tiago e João pertenciam a um grupo mais estrito dos Doze em que se incluía Pedro, testemunha do momento alto da vida de Jesus – a Sua transfiguração; recordemos também que no jardim do Getsémani Jesus os tomou à parte, tendo eles testemunhado a tristeza e a angústia do Mestre e que João era chamado “O discípulo amado”, muito próximo de Jesus, em cujo peito se reclinava.

Talvez por todos estes episódios os dois irmãos se julgassem credores ou merecedores de uma benesse especial de Cristo e, por isso, se tenham atrevido a formular tal pedido.

Sentar-se à direita e à esquerda da majestade implica o reconhecimento de segunda autoridade do reino. O que os dois irmãos estavam a pedir era nem mais nem menos que uma posição de autoridade sobre todos os outros agentes de autoridade, apenas inferior à autoridade suprema. Recorde-se que Jesus está sentado à mão direita do poder de Deus (Lucas 22:69).

Jesus confirma (v. 23) que os dois beberiam o cálice e seriam baptizados com o Seu mesmo baptismo (Marcos 10:39). Isso de facto cumpriu-se como já vimos. No entanto, sentar-se à direita e à esquerda, isso estava fora de questão (Mateus 20:23). É assim que este texto deve ser entendido e não como se a Jesus faltasse o poder para o conceder. Foi como se Jesus dissesse: “Essa atribuição não depende dos vossos esforços nem é uma recompensa pela vossa dedicação.”

De facto, no reino de Deus há dois agentes intervenientes: Deus e o Homem. É o que vemos em João 3:16 que também nos diz que o que Deus tinha a fazer já fez (os verbos de que Deus é sujeito estão todos no passado) e que naquilo que é da competência de Deus o Homem não pode intervir. Em sequência, o Homem tem o seu papel a desempenhar no avanço do Reino, que é a sua entrega e dedicação. A atribuição do galardão é da competência exclusiva de Deus.

E esta resposta de Jesus fala à nossa condição e deixa pistas preciosas. Por O seguirmos voluntária e comprometidamente aceitamos ter de passar pela dor, pelo sofrimento, pela angústia, se essa for a porção que Ele nos tem destinada, sabendo que Deus, como justo juiz, nos dará o galardão que nos tem reservado. Caso contrário, se tivermos olhos para o galardão que nós próprios nos atribuímos, estaremos a agir como mercenários, cujo interesse é egoísta e não a busca da maior glória de Deus, conforme Jesus já ensinou: Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas. (Mateus 6:33).

A reacção dos outros discípulos (v. 24) não podia ser senão de indignação. De indignação não porque considerassem errada a motivação dos dois irmãos mas porque eles se lhes anteciparam no pedido que eles próprios não recusariam solicitar.

Como é tão contemporânea essa atitude. A tentação e a atracção pelo poder são um mal a que poucos conseguem resistir. A História está cheia de exemplos de homens que transformaram a acção do Reino de Deus num mero jogo de interesses, em que o oportunismo campeia e em que a subjugação do outro, recorrendo ao medo e às maldições, é moeda corrente que ganha mais validade com a pompa de títulos e a elocução de pretensas profecias justificativas.

Nos versículos 25-28, Jesus deixa bem clara a natureza do Reino de Deus na sua relação com o poder.

Entre os reinos deste mundo, a ambição maior é o exercício do poder baseado na subjugação dos súbditos. Todos os meios e armas são lícitos para se alcançar essa subjugação que é a deterioração de uma submissão genuína e voluntária. Duas dessas armas são o medo e o servilismo. Em conjunto, transformam os súbditos numa massa alienada, acrítica e supersticiosa.

No Reino de Deus, as coisas não funcionam assim. Tal o líder, assim os liderados. O nosso Rei assumiu a nossa natureza, identificou-se com as nossas fraquezas, sentiu as nossas insuficiências, experimentou as nossas angústias. Riu-se connosco. Chorou connosco. Despiu-se de qualquer título, não impôs a Sua realeza, mas caminhou pelas mesmas pedras que os nossos pés calcorrearam.

Quem entre vós quiser fazer-se grande seja vosso serviçal. (v. 26)

Só pode ser grande aquele que não dispensa quem está no mais fundo do vale mais escuro e o traz para a luz, mostrando-lhe que há um que vê em cada um o potencial para que a glória de Deus encha a terra como as águas cobrem o mar.

A Deus toda a glória.

O Mancebo Rico

O Mancebo Rico
Mateus 19:16-30

Jorge Pinheiro 7Dr. Jorge Pinheiro

Este texto, cujas passagens paralelas se encontram em Marcos 10:17-31 e Lucas 18:18-30, narra o encontro entre Jesus e um mancebo rico que pretende saber o que fazer para, segundo as suas palavras em Mateus, “conseguir a vida eterna” ou “herdar a vida eterna”, conforme as descrições de Marcos (10:17) e Lucas (18:18). Na Sua resposta, Jesus indica-lhe que deve guardar os mandamentos, recomenda-lhe que se desfaça dos seus bens em favor dos necessitados e ordena-lhe que O siga (vv. 17,21). Esta resposta que não agrada ao mancebo e em especial o comentário de Jesus que aponta a incompatibilidade do amor ao dinheiro e a entrada no gozo da vida eterna deixam os discípulos de Jesus perplexos ante as exigências que o Mestre coloca.

Na realidade, neste texto podemos detectar duas secções: uma, a indagação do mancebo e outra, a perplexidade dos discípulos.

E a pergunta que se impõe, como de resto sempre se impõe quando lemos um texto da Escritura é: que lições podemos extrair destes incidentes que tenham relevância para a nossa vida diária e existencial? Essa, de resto, deve ser uma pergunta constantemente presente sempre que lemos um texto da Escritura. Só assim ela se torna viva e actuante.

Da leitura dos três relatos, podemos concluir que se tratava de um mancebo. É verdade que Marcos o retrata como um homem e Lucas como príncipe, enquanto Mateus especifica que se tratava de um mancebo. Por estas qualificações, não erramos se afirmarmos que era jovem e muito provavelmente com algum poder na sociedade. Também dele sabemos que era rico (Mateus 19:22) ou muito rico (Lucas 18:23) e piedoso (Mateus 19:20).

Na Sua resposta, “Guarda os mandamentos” (v. 18), Jesus refere, por esta ordem, os seguintes mandamentos do Decálogo (vv. 18-19):

 não matarás – 6º mandamento;
 não cometerás adultério – 7º mandamento;
 não furtarás – 8º mandamento;
 não dirás falso testemunho – 9º mandamento;
 honra teu pai e tua mãe – 5º mandamento.

Todos estes mandamentos eram do conhecimento de todo o judeu, principalmente dos mais piedosos e poder ser encontrados em Êxodo 20:1-17 e Deuteronómio 5:6-21, sendo alguns repetidos em Levítico 19:3-16.

A par destes, Jesus acrescenta um outro que é muito do conhecimento e do agrado dos Cristãos: “Amarás o próximo como a ti mesmo”. Curiosamente, este mandamento é repetido por Jesus em Mateus 22:39 quando interrogado acerca do grande mandamento. Esta máxima é também referida por Paulo em Romanos 13:9 e Gálatas 5:14 e por Tiago (2:8).

Talvez por esta insistência do Novo Testamento, muitos terão pensado que Jesus seria o autor desta frase, condensando e resumindo nela todo o carácter e intenção da Lei, tornando-a um mandamento para os Seus seguidores. Mas verdade é que Jesus não é o autor desta máxima ou mandamento. Na realidade, Jesus limita-se a citar o que já fora declarado na Lei – Levítico 19:18. No máximo, d’Ele se poderia dizer que Jesus alça esta declaração à categoria de mandamento. Mas nem isso podemos afirmar porque este texto acompanha toda uma série de outros mandamentos. Basta ler o contexto para se perceber que era nessa categoria que os Judeus conhecedores o aceitavam.

Concluímos, então, que, na sua resposta ao mancebo, Jesus não ”inventa”, não apresenta nenhuma nova doutrina, não revela uma novidade até então desconhecida. Esse mandamento – porque era de facto um mandamento – encontrava-se na Lei e tinha a mesma força, poder e autoridade que qualquer outro dos mandamentos. Infringi-lo seria incorrer nas punições previstas na Lei.

Jesus alinha então este mandamento com todos os outros que anteriormente cita (vv. 18-19). E a verdade é que o mancebo confessa ou reconhece que se trata de um mandamento, uma vez que responde: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade” (v. 20).

Todos sabemos que os mandamentos dados por Deus a Moisés no monte Sinai e inscritos em duas tábuas de pedras são em número de dez. Por isso se chamam Decálogo – dez mandamentos. Por norma, os estudiosos costumam dividir esses 10 mandamentos em duas secções:

- do 1º ao 4º mandamento referentes à posição do crente face a Deus;
- do 5º ao 10º mandamento referentes ao relacionamento do crente para com o seu semelhante.

De facto, nos quatro primeiros tudo gira em torno da divindade – Deus é único, não aceita a idolatria ou Sua representação, exige respeito pela Sua natureza, estabelece um tempo obrigatório de adoração. Quanto aos restantes, verificamos que o seu incumprimento ofende directamente a pessoa humana tanto no que ela é, no que tem, nos seus compromissos assumidos e na sua integridade.

Na resposta de Jesus, salta à vista que Ele não refere nenhum dos 4 primeiros mandamentos. Todos os que menciona referem-se não à relação vertical com Deus mas à relação horizontal com o nosso semelhante.

Será que os quatro primeiros são menos importantes ou que era nessa qualidade que Jesus os considerava? Naturalmente que não, porque a adoração e o respeito pela divindade eram as marcas distintivas de toda a mentalidade e vivência judaicas e estavam no centro de toda a mensagem e ministério de Jesus. Acresce que o simples nome de Israel lembrava constantemente ao Judeu que pertencia a um povo que levava em si a marca de Deus, o seu Elohim.

Qual a razão de Jesus ter mencionado apenas mandamentos relacionados com o próximo? Diversas serão as razões, mas podemos apontar duas:

Em primeiro lugar, todo o sistema religioso e principalmente o judaico e, por extensão, o cristão gira em torno desses dois eixos atrás referidos:
- o vertical – relação com a divindade;
- o horizontal – relação com a humanidade.

É fácil a relação vertical porque apenas Deus e o sujeito, ou seja, o crente, estão envolvidos, o que faz com que seja fácil mostrar junto dos semelhantes que a nossa relação com Deus é sem mácula. Basta encher a boca com o nome de Deus, basta decorar alguns mandamentos (não todos, porque isso dá muito trabalho) para que os outros vejam que reconhecemos a Escritura como base de fé, basta estar presente no dia da celebração e oferecer sacrifícios, se tal for ou não necessário (e quando não é necessário, oferece-se porque reforça o carácter de piedade), basta mostrar que se contribui para a obra de Deus, de preferência de um modo patente ou inferido para que os outros saibam que se contribui. Ou seja, basta apresentar de si próprio uma imagem de religioso piedoso, cumpridor dos preceitos estabelecidos.

Já a relação horizontal é mais complicada e exige mais de nós. Alguns, para a cumprir, vêem o próximo em si mesmos e, em consequência, aplicam a si mesmos o que deve ser aplicado ao outro e assim pensam estarem a cumprir essa relação. Para esses, tudo gira em torno de si próprios, das suas necessidades e anseios, porque eles são o próximo de si mesmos. Um pouco em jeito dos monarcas absolutos para quem l’État c’est moi, o Estado sou eu, frase atribuída ao Rei-Sol de França, Luís XIV, epítome do rei absoluto, e que ainda hoje tem muitos imitadores nos mais diversos campos, o religioso inclusive.

O problema com os que assim procedem é que tratam Deus como um palhaço e o seu semelhante como uma alimária. A religião dos tais é de pura hipocrisia, totalmente falha de uma gota sequer de espiritualidade.

Que Deus nos guarde e nos ajude a vigiar para que a nossa atitude perante Ele seja de coração aberto, no reconhecimento da nossa incapacidade e necessidade, para que os nossos olhos e ouvidos sejam lestos a colocar o nosso semelhante em primeiro lugar.

Perante este quadro, é fácil então negligenciarmos o próximo e centrarmo-nos apenas no nosso umbigo porque só temos olhos para a nossa necessidade pessoal e, esquecidos de que estamos neste mundo para sermos testemunhas vivas do amor de Deus, vivemos como exilados da pátria celeste, não vendo a hora de lá chegar. E vivemos por antecipação com uma vida cinzenta, aparentemente feliz mas na realidade destroçados pelas amarguras desta existência, porque “o mundo está no maligno.”

A segunda razão da resposta de Jesus prende-se com a religiosidade e respectiva prática do mancebo. Tudo indica que transformara toda a sua religiosidade numa prática formal dos preceitos da Lei. Em última análise, podemos concluir sem receio de errar que a sua religiosidade era mais moral que espiritual. Ou seja, respeitava os mores, os costumes que a Lei estabelecia. É verdade que uma espiritualidade verdadeira e pura gera sempre uma moral respeitada que se identifica com uma ética profunda, mas o inverso não é necessariamente verdade. Ou seja, dito de uma forma mais simples, a pessoa, o crente, pode ser religiosa e não ser espiritual, enquanto o crente espiritual manifesta a sua religiosidade sincera e consistente. De igual modo, o crente espiritual manifesta sempre uma ética irrepreensível, enquanto o moralista não é necessariamente um crente espiritual. O que significa que o crente deve caracterizar-se por ser primeiro espiritual. Sendo-o, torna-se obrigatória e consequentemente um praticante ético.

O que é ser um crente espiritual? De entre as muitas abordagens e definições, para facilitar a compreensão, podemos dizer, repetindo Jesus, que espiritual é o crente que ama a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a si mesmo, numa atitude de auto-renúncia em que coloca o outro (Deus e o próximo) em primeiro,

Desta verdade faz eco São Paulo quando estabelece um confronto a carne e o espírito e designa por carnais os que não são espirituais.

Ora, quando um crente substitui a espiritualidade pela moralidade está longe de cumprir a Lei de Deus e não pode assim ser reconhecido como espiritual.

E foi isso que Jesus disse ao mancebo. E foi essa falha que detectou no mancebo. O mancebo era uma pessoa de elevada craveira moral mas de baixa estatura espiritual. Por isso, Jesus disse-lhe que lhe faltava uma coisa (Marcos 10:21). E que coisa era essa que lhe faltava? Faltava-lhe a renúncia, ou melhor, a auto-renúncia.

É o que vemos em Mateus 19:21: Se quiseres ser perfeito, vai, vende tudo… e segue-me. O mancebo, enquanto judeu, era filho de Abraão e esta resposta de Jesus era-lhe familiar porque lhe recordaria sem dúvida a ordem de Deus a Abraão: Anda na minha presença e sê perfeito. (Génesis 17:1). Deus não precisa de muitas palavras para dizer tudo quanto nos é necessário. Quanta teologia encontramos nessa simples e curta frase! Duas coisas Deus nos exige: andar na Sua presença e ser perfeito, sendo que “ser perfeito” é o resultado de “andar na Sua presença.” E como é grande a tentação de invertermos essa ordem. Só seremos perfeitos se andarmos na Sua presença. Se não andarmos na Sua presença, nunca seremos perfeitos. E andaremos na Sua presença se O amarmos acima de todas as coisas e o próximo como a nós mesmos.

Mais uma vez, Jesus não inventa nada e limita-se a trazer à lembrança a necessidade de operacionalizarmos o que já foi dito e revelado.

Abraão recebeu essa ordem depois de deixar tudo para trás. Em Ur, era rico, era abastado, era príncipe e, como tal, era poderoso. O mancebo preenchia todas essas qualidades abraâmicas mas faltava-lhe una coisa: abandonar Ur. E a sua Ur eram as suas riquezas, era aquilo que lhe dava auto-sustento, era aquilo que lhe garantia estatuto. Como é difícil ao moralista abandonar a sua Ur!

O versículo 22 revela isso sem qualquer margem para dúvidas: Retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Ou seja, apesar de toda a sua religiosidade e de toda a sua moralidade, faltava-lhe a capacidade de auto-renúncia, de estar com o coração aberto à necessidade do outro, disposto a suprir-lhas com tudo quanto era seu.

Ante a reacção do mancebo, Jesus extrai a conclusão lógica que deixa os discípulos mergulhados na estupefacção: É difícil um rico entrar no Reino dos Céus. (v. 23).

Como curiosidade, note-se que no original grego o versículo 23 refere “o reino dos céus” (), enquanto no versículo 24, que repete a ideia anterior mas com outro fraseado, o termo usado é “reino de Deus” (). Isto indica-nos que em Mateus as duas expressões são sinónimas e referem-se à mesma realidade, ao contrário do que alguns comentadores pretendem, estabelecendo uma diferença entre ambas as designações. Elas referem-se ao mesmo conceito.

Se no versículo 23 a ideia que fica é da dificuldade, já no 24, é de impossibilidade. De facto, é impossível um camelo passar pelo fundo de uma agulha, a menos que o camelo fosse quase microscópico ou a agulha fosse a de um gigante de uma altura quilométrica.

Sendo as suas afirmações equivalentes, podemos afirmar que a dificuldade de um rico entrar no reino dos céus não é diferente da sua impossibilidade.

Alguns, achando exagerada a afirmação do versículo 24, pretendem suavizá-la, afirmando que “camelo” se refere não a um animal mas a uma linha grossa, uma vez que, no Grego, a diferença entre “camelo” e “linha grossa” ou “cabo” é de uma simples letra.

Outros, aceitando que “camelo” se refere a um animal, centram a atenção na “agulha” e pretendem que esta se refere a uma porta muito estreita supostamente existente nas muralhas da cidade e conhecida por agulha.

Ora, a primeira posição é contrariada pela linguística e a segunda pela história. Só nos resta aceitar que Jesus disse exactamente o que o versículo declara, tanto mais que há um provérbio semelhante no Talmude, em que “camelo” é substituído por “elefante.”

Mas então, dirão, estamos na presença de um exagero. Sim, de facto é uma linguagem de exagero ou, em termos técnicos, diríamos que esta é uma figura de estilo chamada hipérbole, em que se faz uma afirmação exagerada.

E quem não usa hipérboles no seu discurso, quantas vezes no seu dia a dia? Que o digam os amorosos, os pescadores e os que estão envolvidos numa qualquer campanha eleitoral.

De resto, vamos encontrar uma outra hipérbole no discurso de Jesus. Basta irmos a Mateus 18:24 e 28. Traduzindo esses valores, temos que:

Dez mil talentos correspondem a 60 milhões de dracmas (6 seguido de sete zeros) ou 216 toneladas de prata, uma vez que 1 talento equivale a 6000 dracmas e uma dracma a 3,6 gramas de prata. Sendo uma dracma equivalente a um dinheiro (ou denário) e um dinheiro a um dia de trabalho, temos que 10000 talentos correspondem a 60 milhões de dias de trabalho (ou cerca de 166 mil anos). Esta era a dívida do servo ao rei. Em contrapartida, o servo era credor de 100 dinheiros ou 100 dias de trabalho. O que significa que o que ele devia ao seu rei era 600 mil vezes mais do que aquilo que o seu conservo lhe devia.

Sendo honestos, fácil é reconhecer que nesta parábola Jesus usa uma hipérbole. E que hipérbole!

Fica então esta verdade: o amor ao dinheiro impede a nossa entrada no reino dos céus. E por que razão nos impede?

1º – torna-se um ídolo, relegando assim Deus para um plano inferior;
2º – leva-nos, à semelhança do mancebo rico, a considerar que a riqueza nos dá primazia e direito de aquisição dos bens espirituais: “Que bem farei para herdar a vida eterna?” (v. 16). Em todo o bem que o rico possa fazer, o seu dinheiro está presente, transformando esse acto em transacção comercial;
3º – em última instância, as riquezas tornam-se o nosso Deus porque passamos a depender delas e não d’Aquele que é dono de todo o ouro e de toda a prata;
4º – por via desta troca de prioridades, esquecemo-nos da nossa insuficiência e contingência e tornamo-nos paradoxalmente escravos do nosso dinheiro, com a ilusão de que somos nós quem está no controlo;
5º aceitamos um prato de lentilhas, trocando o que somos pelo que temos, esquecendo que trocamos o permanente pelo passageiro. E ecoam-nos as palavras de Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem” (Mateus 6 :19-20).

E é em sequência que devemos entender a afirmação de Jesus no versículo 29:

“Todo o que tiver deixado
casas
ou irmãos ou irmãs
ou pai ou mãe
ou mulher
ou filhos
ou terras
por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto e herdará a vida eterna.”

“Que farei para herdar a vida eterna?” (Marcos 10:17; Lucas 18:18) era a pergunta do mancebo. A resposta de Jesus não podia ser mais clara: para herdar a vida é necessária, é indispensável, é obrigatória a auto-renúncia. E auto-renúncia que pode implicar ou envolver o que nos é mais caro:

- a nossa família – que nos liga à nossa origem, simbolizada pelos pais; que nos liga à nossa identidade e ao nosso presente, simbolizados pelos irmãos; que nos liga ao nosso futuro, simbolizado pelos filhos; que nos liga à nossa intimidade, simbolizada pela esposa;
- mas também a nossa casa e as nossas terras que nos apontam o nosso espaço, o nosso refúgio, o nosso sossego e as nossas realizações pessoais.

Este é o preço que nos é exigido para herdarmos a vida eterna e que se obtém da nossa parte por um acto voluntário de auto-renúncia.

Ora, esta auto-renúncia não se obtém nem está dependente do nosso dinheiro, que está dependente e ligado ao ter, ao transitório, mas está relacionada com a vontade, com a essência daquilo que mais profundamente nos caracteriza – a nossa aceitação de amar Deus acima de todas as coisas e o próximo como a nós mesmos.

Por essa razão, a bênção suprema que é a posse da vida eterna e as bênçãos maiores ou menores que experimentamos nesta caminhada de amarmos Deus e o próximo não estão dependentes do muito ou pouco que possamos ter em dinheiro ou em bens materiais.

A posse de riquezas é sempre contingente e não se traduz necessariamente em sinal de bênção divina. É verdade que na Sua soberania, Deus pode abençoar-nos com bens materiais e quando isso acontece devemos estar-Lhe gratos, sabendo que com muito ou com pouco, Deus estará sempre connosco a guiar-nos no nosso percurso e nas nossas escolhas.

Pela reacção dos discípulos, verificamos que eles ficaram aturdidos com a elevada fasquia que Jesus estabeleceu.

Muito provavelmente, à semelhança de muitos Cristãos dos nossos dias levados ao engano pelas sereias e arautos de um evangelho materialista, mercantilista e plutocrata, ou seja, em que o dinheiro é rei e mola real do evangelho e prova da bênção de Deus, os discípulos também pensariam que um rico piedoso, cumpridor dos preceitos da Lei é prova das bênçãos de Deus, tanto mais que não faltavam textos que prometiam ser-se colocado por cabeça e não por cauda (Deuteronómio 28:13).

Por isso, exclamam com um nó na garganta (v. 27): “Eis que deixámos tudo e te seguimos. Que receberemos?”

Eles tinham andado com Jesus, tinham recebido os Seus ensinamentos, tinham testemunhado os Seus milagres e mesmo assim foi necessário que Jesus lhes recordasse duas verdades fundamentais:

1. A nossa relação com Deus não é de natureza comercial; e
2. O amor ao dinheiro é a subordinação do Deus criador aos interesses mesquinhos do que é passageiro.

Quantas vezes o Cristão cede à tentação de esquecer a verdade pura e cristalina do evangelho, substituindo a sua mensagem pelos devaneios e fantasias da nossa imaginação!

Que nós, os que nos confessamos seguidores de Cristo, tenhamos presente os Seus ensinamentos e a Sua promessa de que aquilo que nos espera nesta vida e na vindoura ultrapassa em muito tudo quanto possamos imaginar ou desejar ou que o dinheiro nos possa dar.
A Deus toda a glória!

As Três Histórias

As Três Histórias

Jorge Pinheiro 6Dr. Jorge Pinheiro

 

 
Porque Herodes tinha prendido João e tinha-o manietado e encerrado no cárcere por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe. E mandou degolar João no cárcere. (Mateus 14:3,10).
E tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a erva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, erguendo os olhos ao céu, os abençoou e, partindo os pães, deu-os aos discípulos e os discípulos à multidão (Mateus 14:19).
E respondendo Pedro, disse-lhe: “Senhor, se és Tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas.” E Ele disse: “Vem.” E Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus (Mateus 14:28).
Introdução

Com este capítulo, chegamos a meio da narrativa do evangelho segundo Mateus. E chegamos a meio não apenas da narrativa em si mas de toda a trama histórica narrada. A partir daqui, a história encaminha-se para o seu fim num ritmo cada vez mais acelerado e intenso.

É verdade que nos capítulos da segunda metade ainda vamos encontrar parábolas, mas os milagres portentosos são em número reduzido e a narrativa culmina com o que podemos designar de milagre supremo – a ressurreição de Cristo, o triunfo da vida sobre a morte, a vitória do bem sobre o mal, a garantia de que o plano de Deus para a humanidade geral e o ser humano particular se cumprirá até ao último pormenor.

Este capítulo 14 como que encerra toda uma sequência de episódios que revelam um novo olhar sobre o desígnio de Deus para a humanidade, revelando o modo como Deus sempre quis que fosse encarado e vivido pela coroa da Sua criação. Na verdade, partindo da Lei escrita e revelada, Jesus conduz os Seus ouvintes na descoberta da substância e do espírito dessa mesma Lei como que a destapando e revelando o carácter de Quem concedeu essa lei aos homens.

Todo este percurso e discurso de Jesus suscita incompreensão, estupefacção e finalmente perseguição. A partir dele, o autor como que vai encerrando cada capítulo de ensino, de controvérsia, de milagres da primeira parte do seu evangelho e encerra todo o seu período de ensino, mostrando Jesus num recolhimento com os Seus discípulos, de que é prova o Sermão Profético (Mateus 24, 25), o último grande sermão de Jesus. Depois, encaminha-se no Seu jeito sereno para um momento de recolhimento pessoal junto do Pai, em preparação para o maior drama de toda a história humana – a Sua crucifixão e morte, que culminará na ressurreição.

Mas centremo-nos no capítulo 14 e nas lições que dele podemos extrair. Ele é composto por três episódios em que o carácter de narrativa histórica é dominante. Nele, acabamos por encontrar três estórias que não se limitam a uma mera narrativa de factos mas em que podemos descobrir ensinamento profundo. Esses episódios são:

1. A morte de João Baptista.
2. A primeira multiplicação de pães.
3. Jesus andando sobre as águas.

E há uma primeira lição a extrair do conjunto destas três histórias. À semelhança dos que nelas intervêm, cada um de nós tem também uma história individual, ou melhor, um conjunto de histórias parcelares que, no seu conjunto, formam um todo, a nossa história pessoal. E em cada uma dessas histórias parcelares da nossa história pessoal, há lições que podemos extrair que, de acordo com a nossa aprendizagem, podem influenciar toda a sequência futura. Ou, dizendo de outra forma, em cada episódio da nossa vida, Deus fala-nos e revela-nos as Suas intenções. Em momento nenhum se aplica com tanta justeza e pertinência o que Jesus dizia: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça!”

Estejamos, então, atentos ao que Deus nos quer dizer em cada episódio vivido na e da nossa vida.
1. A Morte de João Baptista

Por vezes, numa história detemo-nos mais na caracterização de certos elementos da narrativa, que tanto podem ser personagens vivas, humanas ou não, como elementos decorativos e olvidamos o cerne da história, a sua verdade nuclear, aquela que no fundo mais interessa explorar, entender e reter.

No caso da morte de João Baptista, somos tentados a querer saber quem é este Herodes, como se chamava a dançarina e somos capazes de citar em sequência pormenorizada a execução do Baptista, porque é um elemento que nos horroriza. E por sabermos reproduzir a história, convencemo-nos de que nada mais há a acrescentar e de que a conhecemos ao ínfimo pormenor. Mas esse é um conhecimento epidérmico. Se queremos avançar, não podemos ficar apenas com as verdades superficiais. Não podemos contentar-nos com as verdades da superfície das coisas. É que essas verdades são apenas a pele de todo um corpo doutrinário e didáctico que lhe subjaz. E como é rico esse corpo! Nunca nos cansemos de meditar nas histórias da Escritura, sabendo que elas escondem tesouros inesgotáveis. Cabe a cada um deixar-se guiar pelo Espírito Santo que, segundo a garantia de Deus, nos guiará em toda a verdade.

Há algumas verdades que detectamos no episódio da morte de João Baptista, umas mais agradáveis que outras.

A primeira contradiz o falso evangelho que tem vindo a inquinar as igrejas. Esse falso evangelho vende um veneno com rótulo de medicamento. Esse veneno diz que se o crente sofre é porque não tem fé e que a sua vida tem de ser um rol de vitórias contínuas. É verdade que essas afirmações não são falsas em si, mas para serem entendidas têm de ser explicadas ou, se quisermos utilizar uma linguagem mais técnica, têm de estar sujeitas a uma hermenêutica correcta e exigente para que a exegese apresentada não induza ao erro, num despautério despudorado.

É que essas afirmações ditas como chavões de frases feitas assumem-se como mantras mágicos. Ora, as varinhas de condão só existem e funcionam nas histórias de encantar.

Perguntamos:

João Baptista não tinha fé?
Paulo não tinha fé?
Tiago não tinha fé?

E poderíamos continuar, culminando com Jesus que, apesar de tudo quanto disse e fez, sofreu uma morte e um sofrimento horríveis.

Foi por terem fé que todos esses gigantes souberam enfrentar a adversidade, fitando-a não com olhos de carneiro mal morto mas de águia penetrante e de leão possante, dizendo-lhe sem medo que maior é o que está em nós e que nada nos pode separar da convicção que conquistou o nosso ser.

Outra lição que este episódio nos ensina é que os poderosos não escapam ao escrutínio da justeza divina e que se não arrepiarem caminho do seu mau viver acabam transformados em assassinos. E esse é um dos alimentos que o falso evangelho nos quer obrigar a tragar – a sedução pelo poder. Como esse evangelho não tem lugar para o sofrimento, abraça despudoradamente o poder e, com isso, embriagado com as vantagens que o poder oferece, transforma-se em ditador e não hesita em mandar assassinar as vozes discordantes. Embora não literal, esse assassínio funciona como tal.

Em jeito de esclarecimento do pormenor, este Herodes chamava-se Herodes Antipas e era filho de Herodes, o Grande, morto há cerca de 30 anos. Quanto à dançarina, o seu nome era Salomé filha de Herodes Filipe.
2. A primeira multiplicação de pães

Neste episódio, com poucos pães Jesus alimenta uma multidão de, pelo menos, cinco mil pessoas.

Curiosamente, exceptuando o milagre da ressurreição de Cristo, este é o único milagre que nenhum dos quatro evangelhos omite. O outro episódio comum aos quatro é a unção dos pés de Jesus pela mulher pecadora. De acordo com o relato de João, foi na sequência deste milagre que Jesus pronunciou o Seu discurso famoso de ser o pão da vida (João 6:51).

Ninguém ignora o valor do pão e o papel que ele desempenha na dieta alimentar de cada povo. É talvez o alimento de que nunca nos enjoamos de ingerir. No registo popular, pão é sinónimo da própria vida. Quantas vezes um pedinte esmola não dinheiro mas um pão para sobreviver… Pão é também sinónimo dos nossos rendimentos que nos permitem fazer frente às despesas da vida corrente. Não é raro ouvir a expressão: “Esta actividade, este trabalho é o meu ganha-pão.” Neste episódio, podemos dizer, então, que uma das personagens centrais é precisamente o pão, com tudo aquilo que ele representa.

Deixemos de lado a interpretação simbólica que alguns fazem do número de pães e peixes e de pessoas e cestos tanto na primeira como na segunda multiplicação (numa, 5 pães, cinco mil homens e 12 alcofas; na outra, sete pães, quatro mil homens e sete cestos). É verdade que os números falam e muitas vezes têm um valor simbólico e talvez aqui possam ser relevantes, mas parece-me que qualquer extrapolação é pura especulação. Por isso, é preferível ficarmos com aquilo que, com segurança, podemos extrair do tesouro desta arca.

E de novo, em contraste com os bispos do falso evangelho que, arrimados na sua posição de poder, não têm qualquer rebuço em explorar os seus fiéis, sugando-os até ao tutano em nome de uma religiosidade hipócrita e distorcida, Jesus preocupa-se em satisfazer as necessidades dos que O seguem, condoendo-se com a sua condição. E pegando no pouco que Lhe apresentam, multiplica esse pouco quase até ao infinito, satisfazendo e mostrando que quando entregamos nas boas mãos do Mestre o que temos, Ele é capaz de, do pouco, fazer muito.

Ao mesmo tempo, este episódio revela-nos que, quantas vezes, temos nas nossas próprias mãos os recursos necessários para que a acção divina os transforme em bênção para os outros. Não rejeitemos nem menosprezemos aquilo que temos entre mãos como coisa pouca e sem valor, mas decidamo-nos a entregá-lo àquele que com a sua bênção pode fazer muito mais do que pensamos ou imaginamos.

Deus tem dado capacidades a cada um de nós, umas vezes na medida da nossa fé, outras em resultado do nosso engenho e labor. Mas seja qual for a origem da nossa capacidade, ela é o que temos e é com ela que temos de percorrer o caminho da vida.

Há outras lições que podemos extrair deste episódio e que mencionaremos sucintamente:

a. Nem sempre o ambiente do milagre é o mais “santo” (14:15 – ocorreu no deserto).
b. Muitas vezes o milagre acontece numa hora nada convidativa (14:15 – a noite aproximava-se).
c. Nem sempre as vozes de quem, pelo seu trajecto pessoal tem uma relação privilegiada com a revelação divina, é de estímulo (14:15 – o discípulos queriam ver-se livres da responsabilidade de resolver o problema).
d. Embora o milagre seja milagre, isso não significa que a ordem e o planeamento estejam ausentes (14:19 – Jesus ordenou que a multidão se sentasse na erva).
e. O milagre sacia em pleno a nossa necessidade e permite que através de nós outros também possam beneficiar dele (14:20 – o número de alcofas levantadas era superior ao número de pães apresentados).

Muitas mais lições poderíamos extrair mas estas são suficientes para nos aguçar o apetite e levar-nos a mergulhar num texto tão rico como este.

 

3. Jesus anda sobre o mar

Este é um episódio que relata uma impossibilidade física. A verdade é que consideramos impossibilidade física no estado presente do nosso conhecimento actual da natureza do mundo e das capacidades do corpo humano. Se, por hipótese, no futuro a ciência descobrir e provar que o corpo humano tem a capacidade de levitar desde que estejam reunidas as condições necessárias, andar sobre as águas deixará de ser uma incapacidade física. Mas mesmo que, por hipótese, isso se venha a provar possível, este episódio não deixa de ser considerado milagre.

Claro, tudo depende do que entendemos ser a definição de milagre e a sua natureza íntima. Salvo melhor opinião, parece-me que reduzir o milagre ao mero prodígio da realização de uma tarefa inexplicável à época em que ocorre, é uma definição muito pobre. E porquê? Porque uma vez explicado, o suposto milagre deixa de ser milagre. Parece-me que a visão de João é mais rica e mais segura – um milagre é um sinal da presença real de Deus, seja o episódio explicável ou não, replicável ou não. De resto, temos o caso de Moisés: as duas primeiras pragas foram replicadas (Êxodo 7:22; 8:7). Teremos de concluir que essas pragas não foram milagres por terem sido replicadas? Teremos de concluir que, por terem sido replicadas, elas são de qualidade inferior às restantes oito?

Então, isso significa que a nossa atenção não se deve deter o facto de Jesus ter andado sobre as águas, embora isso seja extremamente importante e crucial em todo o ensinamento que extraímos deste episódio.

Na verdade, podemos concluir que o andar sobre as águas foi um meio utilizado por Jesus para chegar a um fim maior.

E o facto de Pedro ter andado sobre as águas prova que o corpo humano tem a capacidade de ser o palco do milagre. Perante a dúvida e o pedido de Pedro, Jesus limita-se a dizer-lhe que ponha o pé a caminho.

A evidência e a certeza diziam a Pedro que caminhar sobre as águas era uma impossibilidade física, mas a sua confiança naquele que ele considerava capaz da realização de qualquer prodígio incitava-o a não olhar para a impossibilidade mas para a certeza da comunhão com aquele que tinha as palavras da vida eterna, como mais tarde irá confessar (Mateus 16:16; João 6:68). Curiosamente, em João esta confissão surge depois do episódio de Jesus a andar sobre as águas.

Apesar de testemunhas do muito que haviam visto Jesus realizar, apesar de terem recebido de Jesus a ordem expressa de atravessarem o mar e de O esperarem na outra margem, apesar da garantia de que o vulto que viam no crepúsculo ainda escuro era Ele, mesmo assim a dúvida e o medo apossaram-se dos discípulos. O que viam não era o Mestre amado mas um fantasma. Quando não encontramos explicação para o que vemos e não compreendemos, transformamo-lo em inexplicável e envolvemo-lo nas roupagens da nossa imaginação. Quão fácil é vermos um fantasma na acção miraculosa e inexplicável do evangelho e deixarmo-nos sucumbir nos braços da dúvida e do medo. Por vezes, nem mesmo a voz suave de quem nos salva nos sossega e exigimos uma prova palpável de quem surge como o impossível.

Convenhamos que Pedro não agiu mal ao pedir a Jesus que lhe desse prova de ser Ele mesmo e não o fruto da sua imaginação e do seu medo. Esse é um gesto a seguir e a imitar. Perante a dúvida, o medo, a angústia, a adversidade, o desconhecido, avançamos baseados numa palavra de autoridade.

E foi o que aconteceu com Pedro. Enquanto se manteve confiante na palavra recebida, avançou ignorando as circunstâncias, olhos fitos em quem era o seu destino. Enquanto se manteve seguro na palavra de ordem, manteve-se vitorioso sobre as águas. Quando deu ouvidos à voz da circunstância, geradora dos seus medos, a sua base de sustentação deixou de ser a palavra e o poder daquele a quem até o mar e o vento obedecem (Mateus 8:27). O resultado não podia ser outro senão ver o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

E a terminar, uma palavra sobre a finalidade do milagre, tanto mais que este episódio que narra um milagre termina com a realização de milagres de cura. Para que serve um milagre? Para que queremos um milagre? A ordem que Jesus deixou aos Seus discípulos não foi: “Eis que faço de vós fazedores de milagres”, mas foi antes: “Eis que faço de vós pescadores e ensinadores de homens. E é apenas quando ensinamos e pescamos que os milagres ocorrem. “Os sinais seguirão aos que crerem” (Marcos 16:17). O milagre é sempre um sinal de que a presença de Deus é real. Se o prodígio não redunda na manifestação da presença de Deus e na glorificação do Altíssimo, então estamos na presença de uma fantochada travestida de evangelho.

Que Deus nos guarde de não crermos que Ele seja capaz de ainda hoje realizar milagres e nos guarde também de Lhe roubarmos a glória e de transformar a proclamação do evangelho numa ópera bufa de mau gosto.

 

O Senhor do Sábado

O Senhor do Sábado
Mateus 12

Jorge Pinheiro 5Dr. Jorge Pinheiro
Este é um capítulo marcado por quatro grandes temas, a saber:

1. Jesus é Senhor do sábado – vv. 1-8
Incidente marcado pelo facto de, num sábado, os discípulos de Jesus terem colhido e comido espigas para saciarem a fome.
2. Cura de um homem com a mão mirrada – vv. 9-21
Podemos situar neste incidente, os primeiros sinais de oposição a Jesus.
3. Cura do endemoninhado cego e mudo – vv. 22-32
A oposição detectada no incidente anterior prossegue com mais força neste, em que surge a famosa declaração do pecado imperdoável – a blasfémia contra o Espírito Santo (vv. 31-32).
4. Polémicas – vv. 33-50
Aqui nesta secção, encontramos três momentos em que a polémica está instalada:
4.a. O fruto das árvores – vv. 33-37 – pelo fruto se conhece a árvore.
4.b. A reinterpretação do milagre de Jonas – vv. 38-45 – face ao pedido de um sinal por parte de alguns escribas e fariseus, Jesus afirma-se superior a Jonas e a Salomão, reforçando o que já havia dito antes, de ser maior que o Templo (v. 6)
4.c. A família de Jesus – vv. 46-50 – Jesus aponta as qualificações necessárias para se ser membro da Sua família.
1. Jesus é Senhor do sábado – vv. 1-8

Em resumo, podemos afirmar que este é um capítulo rico em incidentes, em ensinamentos e em polémicas e marca o início do período de oposição do ministério terreno de Jesus. Passado um primeiro momento de interesse por parte dos Judeus em geral e da Nomenklatura religiosa em particular, face ao ensino e ministério de alguém que se torna no início difícil de ser catalogado, acaba o estado de graça de Jesus e começa a oposição que os religiosos Lhe vão mover, tornando-se cada vez mais intensa.

E tudo porque os discípulos de Jesus, com fome, ao colherem e comerem espigas num sábado infringem o que a tradição baseada nos mandamentos da lei moisaica impunha a todo o membro da comunidade judaica.

É verdade que a Lei de Moisés estipulava a guarda do sábado (Êxodo 20:8-11). Esta é uma ordem geral, mais tarde especificada quanto ao modo de ser cumprida (Êxodo 23:10-13; 31:12-18, por exemplo). Como sucede com as leis, que são apresentadas na generalidade e depois discutidas na especialidade, a observância do sábado levantava sempre e necessidade da sua aplicação às diversas incidências provocadas pelas situações do dia-a-dia e que a própria evolução da sociedade exigia. Assim, a par do estipulado na Lei escrita, foi surgindo toda uma normativa legal e legislada, codificada numa lei oral e tradicional, tanto mais que a observância do sábado era basilar e central em todo o ordenamento religioso judaico. A par da circuncisão, a observância do sábado era uma das marcas identificadoras do judeu piedoso, cumpridor da lei moisaica. Como estudiosos da Lei, os fariseus assumiam-se como seus grandes defensores e guardiães máximos e, por isso, estavam atentos a qualquer tentativa de infracção da norma imposta.

Naturalmente que em tese, em princípio, a observância da Lei e a sua especificação e aplicação a cada situação da vida não estão erradas em si. No entanto, como Marcos 2:27 salienta a propósito do mesmo incidente, “o sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.” Ou seja, em todo o ordenamento religioso as necessidades humanas em todos os seus domínios têm de estar presentes e ser levadas em conta, não podendo ser menorizadas.

Com este episódio, Jesus recentra as prioridades do ordenamento religioso. As normas religiosas perdem o sentido quando relegam a necessidade humana para segundo plano. Naturalmente, é muito ténue a fronteira entre os dois elementos centrais do culto a Deus – a exaltação da divindade e o lugar que o ser humano ocupa nessa exaltação – e, por vezes, é difícil encontrar o equilíbrio entre ambas essas exigências. Que o Altíssimo merece toda a preeminência não podendo o Seu lugar ser sonegado, disso não há qualquer dúvida. Mas não menos verdade é que sem a atenção devida dada às necessidades humanas, que é o outro elemento do diálogo com a divindade, o culto torna-se desequilibrado e, por isso, sem sentido.

Um profissional religioso, em caso de dúvida, recorre sempre à aplicação cega e fria da normativa religiosa, receoso de, com a sua omissão, ofender a divindade. Ora, como Jesus enfatizava, Deus é amor e compreende a nossa fraqueza, as nossas limitações, as nossas necessidades. Esse conhecimento por parte de Jesus levava-O (e levou-O) a reconhecer Deus primeiro como Pai e só depois como legislador. E nisto, Jesus divergia profundamente dos fariseus e do seu pensamento, os quais invertiam a sua relação com Deus, a quem viam primeiro como legislador e só depois como Pai de família, encarado como o senhor de muitos escravos.

Jesus salientava que se nos aproximamos de Deus como nosso Pai (que Ele é), vemo-Lo na sua faceta de amor que sentimos e experimentamos e, ao vivenciá-los (a Deus e ao amor de Deus Pai), dispomo-nos a sujeitar-nos a toda a Sua vontade, mesmo que esta eventualmente possa ir contra os nossos desejos e necessidades e fazemo-lo motivados pelo amor de um filho para com o pai e de um pai para com um filho e não pela atitude servil, motivados pelo temor de um servo face a um senhor impiedoso, mais interessado no respeito e cumprimento da lei do que numa relação paternal com um filho a quem Ele ama sem limites.

Por isso, Jesus podia proclamar: “se soubésseis o que significa misericórdia quero e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes”. Com esta declaração, Jesus fazia eco das palavras de Oseias 6:6: “Porque eu quero misericórdia e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.” Os dois, Oseias e Jesus, são unânimes quanto ao carácter e natureza de Deus, que se compraz mais em ser conhecido pelos Seus do que pelo cumprimento de toda e qualquer normativa religiosa, porque o conhecimento implica intimidade e compromisso com o objecto conhecido. Curiosamente Oseias significa salvo e Jesus significa Salvador. Caso para dizer que o Salvo e o Salvador estão sintonizados.

Mas podemos ver algo mais nesta declaração, nesta antinomia misericórdia-sacrifício. A palavra misericórdia significa literalmente um coração inclinado à miséria enquanto o termo sacrifício significa “tornar sagrado”. Ou seja, a misericórdia é um atributo da natureza de Deus, enquanto o sacrifício é um acto humano. A misericórdia vem de cima e o sacrifício vem de baixo. Ambos os movimentos devem encontrar-se no amor de Deus onde se fundem harmonicamente. Ora, se o nosso alvo é aproximarmo-nos cada vez mais de Deus, essa aproximação começa quando cultivamos em nós os elementos marcantes da natureza divina. Por isso, quando exercemos misericórdia, estamos implicitamente a confessar que nos identificamos com Deus e com aquilo que Ele quer de nós. Não admira, pois, que uma das bem-aventuranças seja precisamente: “Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia.” (Mateus 5:7) E na medida em que exercemos misericórdia, o sacrifício deixa de estar relacionado com coisas exteriores a nós que oferecemos a Deus muitas vezes numa ânsia de aplacar a Sua ira e passamos nós a ser o sacrifício agradável a Deus, conforme a recomendação de Paulo em Romanos 12:1-2, em que somos convidados a “oferecer-nos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus que é o nosso culto racional”.

E foi por compreender e conhecer a verdadeira natureza de Deus e a correcta relação que o mortal que O busca deve manter com Ele que Jesus podia exclamar num grito que ecoa pelos séculos dos séculos: “Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o Templo.” O Templo significava e simbolizava o centro da adoração judaica, o ponto de encontro entre a divindade e a humanidade. Ao afirmar-se como maior do que o Templo, Jesus não apenas reivindica para si o papel que o Templo representa, mas declara sem rodeios que Ele supera tudo quanto é necessário para que o nosso encontro com Deus seja real e efectivo porque ele se realiza através de quem reúne em si o divino e o humano – o nosso sumo sacerdote, Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.

Curiosamente, neste capítulo Jesus afirma-se não apenas maior do que o templo, mas maior que o profeta Jonas e o rei Salomão (vv. 41 e 42).
2. Cura de um homem com a mão mirrada – vv. 9-21

O segundo episódio aborda uma situação de cura – Jesus restaura a mão mirrada de um homem. Não sabemos se era a mão direita ou esquerda, apenas que se tratava de uma mão e todos sabemos a falta que uma mão funcional nos faz. As mãos funcionais dão-nos liberdade de acção e permitem-nos realizar tarefas das mais simples às mais complicadas. As mãos são um dos meios de que nos servimos para nos ligarmos e nos identificarmos com o meio ambiente que nos envolve, tanto o próximo como o distante, tanto o terreno como o transcendente. A mão funcional agora mirrada fazia falta ao homem e diminuía-o na sua capacidade e integridade.

De novo, neste episódio, o sábado e a sua observância voltam a estar presentes. Pela narrativa, percebemos que Jesus enfrenta uma provocação por parte dos Seus opositores religiosos: “É lícito curar nos sábados?” perguntam eles. Jesus não se esconde, não se esquiva, não ignora a provocação e o desafio. O confronto não O intimida e desta vez torna-se mais contundente na denúncia da incongruência de um pensamento religioso que relega para plano secundário e inferior o ser humano, o agente que presta culto a Deus. A resposta de Jesus é demolidora e impiedosa por assim dizer. Se os seus acusadores socorrerão num sábado um animal ferido ou magoado, quiçá uma ovelha para o sacrifício, com muito mais razão aquele que é maior do que o templo tem autoridade suficiente não para ignorar o sábado mas para exercer misericórdia junto de quem, pela sua diminuição física, se apresenta diminuído e incompleto perante Deus a quem deve adorar na sua plenitude.

E é o que o pensamento religioso no seu pior está disposto a fazer – a considerar inferior a um animal o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, reflexo da glória divina. Mas Jesus veio ao mundo para restaurar a pessoa caída, veio para refazer no ser humano a glória de Deus, veio para proclamar que a vontade de Deus é que o homem se apresente perante Ele na sua integridade total, aberto a toda a manifestação da glória e do poder divinos. Porque, como coroa da Sua criação (Salmo 8), Deus está interessado em ter comunhão com o único ser de toda a Sua criação capaz de um relacionamento íntimo e duradouro.

E perante este acto de misericórdia de quem é maior que o Templo, como reagem os supostos guardiães do Templo? Com planos para matar quem é o dador da vida e da saúde e que, com a Sua ressurreição, mostrou ser superior à própria morte.
3. Cura do endemoninhado cego e mudo – vv. 22-32

De novo um episódio de cura, desta vez de um homem com uma tríplice condição que o afectava tanto no aspecto físico como psicológico e espiritual. Qualquer das suas condições era dramática e impedia-o não só de comunicar devidamente com o seu semelhante por via da cegueira e da mudez, como lhe coarctava qualquer possibilidade de uma comunhão plena com o seu Deus. Ou seja, era um homem afectado na relação tanto no domínio do físico como do espiritual. E a primeira conclusão a que podemos chegar neste episódio é que o poder de Jesus de Nazaré era suficientemente abrangente e que nenhum domínio escapa à sua acção.

Mas de novo, a liderança religiosa judaica revela toda a sua inimizade para com Jesus e, num crescendo de oposição, atribui a cura de libertação à acção e intervenção das forças demoníacas. E é o que faz a cegueira provocada pelo endurecimento espiritual dos guardiães da revelação dada a Moisés provocado pelo apego a uma interpretação errónea dessa mesma revelação. Em última instância, a cegueira espiritual, travestida de ortodoxia pode levar a uma blasfémia de lesa-divindade. Na verdade, o que deveria levar ao regozijo e ao louvor a Deus pela libertação de um ser humano cativo é substituído pela blasfémia em nome de uma interpretação distorcida da revelação. Sim, porque os líderes religiosos tinham acesso à revelação divina dada através de Moisés.

E é neste episódio que surge uma das mais fortes e pungentes declarações de Jesus. Parafraseando: “Todo o pecado é passível de perdão, excepto aquele em que o Espírito Santo é blasfemado” (vv. 31 e 32). Verdade se diga que o texto não revela linearmente em que consiste essa blasfémia. Apenas ficamos a saber que há um pecado que não tem perdão e qual o objecto desse pecado – a blasfémia contra o Espírito Santo. Muitas têm sido as exegeses sobre esta declaração mas de nenhuma se pode dizer que seja a explicação final. Pelo texto, percebemos que ela surge no contexto de uma blasfémia de lesa-divindade, quando os corações religiosos mas empedernidos na sua cegueira atribuem aos demónios uma obra com o selo da divindade, em última análise identificando Deus com o Seu arqui-inimigo, Satanás. Que Deus nos ajude para, mesmo quando algo vá contra os nossos pressupostos espirituais e religiosos, estarmos abertos para saber discernir o que vem de Deus e o que não vem e termos a humildade suficiente para reconhecer o nosso erro de interpretação quando for esse o caso. Aí, só há um caminho – arrepender-nos da nossa falha, reconhecer que errámos (ou estávamos errados) e confessar a soberania de Deus. E Deus que é amor irá certamente cobrir-nos com o Seu perdão.
4. Polémicas – vv. 33-50

Nesta secção, encontramos três momentos de ensino, confronto e polémica que podemos considerar o corolário dos episódios anteriores em que a oposição dos líderes religiosos a Jesus assume forma de um modo bem vincado.

Num primeiro momento, Jesus separa as águas e estabelece uma divisão clara entre os que, como árvores boas, produzem bons frutos e os que, como árvores ruins produzem maus frutos. Estas palavras fazem ecoar o Salmo 1:3 quando o salmista canta que “o justo é como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto na estação própria”. Que a árvore que somos nós esteja plantada não num charco de águas fedorentas mas alimentada por aquele que de si mesmo disse ser a água da vida para que o nosso fruto tenha a unção do Espírito Santo.

Num segundo momento, quando Lhe pedem um sinal comprovativo da autoridade com que ministrava, Jesus limita-se a dar o sinal do profeta Jonas que esteve três dias e três noites no ventre do abismo. Numa alusão à Sua morte e ressurreição ao referir o profeta, Jesus não se coíbe de apontar a incredulidade dos seus inquiridores porque enquanto gentios se arrependeram em resposta à pregação de Jonas, os filhos do povo eleito recusam-se a reconhecer que a Sua autoridade vem de Deus, o que Lhe permite declarar ser mais do que Jonas. No seguimento, refere o episódio da rainha de Sabá, uma gentia, que se desloca da sua terra para apreciar em primeira mão a grandeza do rei Salomão. E, no entanto, perante os que Lhe pediam um sinal, estava alguém que é mais do que Salomão. É curioso notar que Jesus reivindica para si a sua superioridade em três domínios – como sacerdote (mais do que o templo) como profeta (mais que Jonas) e como rei (mais que Salomão). Esta é uma confissão de que Ele era o Messias prometido que agregava em si as três funções messiânicas que só eram reconhecidas após a respectiva unção.

Num terceiro momento, confronta a multidão com a necessidade de responder aos requisitos para se ser considerado membro da família do Cristo de Deus – todo aquele que fizer a vontade do Pai esse é irmão, irmã e mãe de Jesus, ou seja, todo aquele que observa e respeita a vontade de Deus está apto a ser considerado membro da família de Jesus. O Cristo de Deus está aberto a ter uma família a cujos membros não se envergonha de chamar irmãos. Que Deus nos abra o entendimento para, num gesto de entrega e submissão à Sua vontade, guardemos no fundo do nosso coração, a Sua Palavra que é guia e luz para o nosso caminho.

“Bem-aventurada aquela que te concebeu e os seios que te amamentaram!”

“Bem-aventurada aquela que te concebeu e os seios que te amamentaram!”

SamuelPinheiro 2017abril11

Palavras de uma mulher dirigidas a Jesus, a respeito da sua mãe Maria.
Jesus de uma forma surpreendente, mas sem deixar de ser cortês e amável, alargou esta declaração e bem-aventurança a todos os que ouvem a palavra de Deus e a guardam: “Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” (Lucas 11:27,28 – JFA).
Numa outra ocasião alguém avisa Jesus que Sua mãe e Seus irmãos estavam do lado de fora, procurando falar-lhe. Jesus responde com uma pergunta e com uma declaração com o mesmo sentido: “Quem é minha mãe e meus irmãos? E, estendendo a mão para os discípulos, disse: Eis minha mãe e meus irmãos. Porque qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe.” (Mateus 12:46-50 – JFA).
Numa das suas últimas conversas com os discípulos Jesus diz-lhes e a nós também: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando.” (João 15:14 – JFA). E o que é que Ele manda: “O meu mandamento é este, que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.” (Mateus 15:12 – JFA). “Isto vos mando, que vos ameis uns aos outros.” (João 15:17 – JFA).
O mandamento síntese de toda a lei, e a essência da natureza divina na qual fomos formados à Sua imagem e semelhança e da qual nos apartámos em rebeldia que ainda hoje permanece e entra pelos olhos dentro, é o amor.
Não é o amor que nos salva. Mas é Deus que é amor, em Jesus Cristo – Deus entre nós também como Homem, que nos salva mediante a expressão suprema desse amor que é a Sua morte em nosso lugar na cruz. Nenhum outro morreu por nós ou podia sequer morrer. A nossa morte não poderia ser redentora porque todos, sem exceção, pecamos. Só Aquele que nunca pecou e em que o amor é uma constante absoluta e santa, sem qualquer contaminação, nos podia salvar e nos salvou. Em Jesus somos salvos para amar.
Um intérprete da lei interpelou Jesus acerca de qual é o grande mandamento da lei. A esta pertinente questão Jesus respondeu: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento, e de toda a tua força. O segundo é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Diante desta resposta o teólogo que sabia muitíssimo menos do que Jesus, mas sabia o suficiente da lei para perceber que o Mestre estava certo, assumiu: “Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que ele é o único, e não há outro senão ele; e que amar a Deus de todo o coração, de todo o entendimento e de toda a força, e amar ao próximo como a si mesmo, excede a todos os holocaustos e sacrifícios.” Na narrativa deste evangelho a conversa acaba de um modo muito significativo mas não totalmente satisfatório. Jesus declara ao religioso: “Não estás longe do reino de Deus.” (Marcos 12:28-34 – JFA). Estava perto, mas não fazia parte. Conhecia a letra da lei, mas não conhecia o coração de Deus. O que faltava era determinante: o amor de Deus manifesto a Seu favor quando Jesus morresse na cruz também a Seu favor. Só Jesus nos pode salvar. Jesus na cruz é o holocausto e o sacrifício perfeitos e definitivos. Somos amados para poder amar de verdade e em verdade! Nada mais é preciso!
Se amamos a Deus desta forma cumpriremos os primeiros três mandamentos da lei: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura (…). Não as adorarás, nem lhes darás culto (…). Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão (…).” (Êxodo 20:1-7 – JFA). Se amamos o próximo como a nós mesmos cumpriremos os restantes sete mandamentos: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar (…). Honra a teu e a tua mãe (…). Não matarás. Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás (…).” (Êxodo 20:8-17 – JFA). Amando a Deus só a Ele adoraremos e louvaremos. Só a Ele teremos como Senhor e como Salvador. E esta é a parte decisiva para entrarmos no Seu reino: recebermos da Sua parte o perdão de todos os nossos pecados, porque todos ficamos aquém da Sua vontade e não temos como em nós próprios de regressar à condição com que fomos criados, e mais do que isso a sermos filhos de Deus. Tudo isso só é possível em e por JESUS CRISTO! Tudo isto para vivermos em amor como o nosso Criador e Pai.

Samuel R. Pinheiro
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www.jesus-o-melhor.com

a.C. – d.C.

a.C. – d.C.

SamuelPinheiro 5

 A História divide-se entre antes e depois de Cristo. Biblicamente podemos dizer que Cristo é a chave da História tanto no antes como no depois. O antes e o depois é definido pela presença em carne e osso, na forma humana, de Deus entre nós. Pode até acontecer que um dia um qualquer anticristo imponha que o tempo se conte de modo diferente. Nesta corrente de acontecimentos em que tudo o que afirme Jesus Cristo é considerado uma afronta para o relativismo e pluralismo religioso tudo pode acontecer, por mais louco e absurdo que possa parecer. Mas na eternidade, antes de todas as coisas existirem Jesus é a chave da História. Ou seja em Jesus temos Deus e o Homem na terra – 100% Deus e 100% Homem. Um mistério certamente, mas na natureza e na essência é isso que sucede. Não temos duas pessoas ou duas personalidades, mas uma só Pessoa e uma só Personalidade. Essa Pessoa e essa Personalidade é Deus connosco.
A realidade é que esta verdade no tempo é apenas o reflexo da verdade eterna. Tudo o que tem a ver com o plano divino e com o Seu mover na História, existe desde sempre na eternidade. Antes da fundação do mundo o Cordeiro de Deus – Jesus Cristo, foi destinado para morrer a nosso favor conforme nos informa o Espírito Santo pelo apóstolo Pedro na sua primeira carta: “Saibam que foram resgatados daquela vida inútil que tinham herdado dos antepassados. E não foi pelo preço de coisas que desaparecem, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como o de um cordeiro sem mancha nem defeito. Ele tinha sido destinado para isso, ainda antes da criação do mundo, e manifestou-se nestes últimos tempos para vosso bem. Por meio dele crêem em Deus, que o ressuscitou dos mortos, e o glorificou. E assim a vossa fé e esperança estão postas em Deus.” (1 Pedro 1:17-21 – BPT).
Na mesma linha de revelação o apóstolo Paulo fala a respeito de todos os que crêem em Jesus, e que segundo o eterno propósito divino foram escolhidos para uma nova vida segundo a Sua natureza de santidade e amor. “Pois, antes de o mundo existir, ele escolheu-nos para juntamente com Cristo sermos santos e irrepreensíveis e vivermos diante dele em amor. Ele destinou-nos para sermos seus filhos por meio de Cristo, conforme era seu desejo e vontade, para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.” (Efésios 1:4-6 – BPT).
O amor das três pessoas da Trindade será contemplado e usufruído na sua plenitude pela nova humanidade recriada em Jesus. Esse amor preenche de modo absoluto a eternidade no absoluto divino, e nós estamos vocacionados a contemplá-lo e a vivenciá-lo: “Pai! Que todos aqueles que me deste estejam onde eu estiver, para que possam contemplar a glória que me deste, porque tu amaste-me antes que o mundo fosse mundo.” (João 17:24 – BPT).
O nascimento de Jesus a que se refere o Natal, é o acontecimento na História do que desde antes da criação de todas as coisas Deus tinha determinado que haveria de ser. Deus não foi surpreendido pela decisão do homem de romper com uma vida e natureza em conformidade com a Sua natureza e essência. O homem preferiu a ciência do bem e do mal e ainda hoje se debate com toda a sorte de frutos amargos, envenenados e podres que daí decorrem. O homem foi criado para viver no amor divino, e não na dialética do bem e do mal.
Um dia destes o tempo como o conhecemos atualmente, marcado pela morte, sofrimento, dor, miséria, fome, guerras, violência, iniquidade, corrução e imoralidade, desaparecerá por completo, e um novo tempo cheio do que a eternidade divina representa será instaurado. Deus habitará com os homens e até os instrumentos de guerra serão transformados em utensílios de lavoura, a ovelha pastará com o leão e a criança brincará com a áspide. Nesse dia céu e terra serão uma mesma realidade.
O plano divino consiste em reunir tudo em submissão a Jesus Cristo. “Deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha determinado realizar por meio de Cristo. Esse plano consiste em levar o Universo à sua realização total, reunindo todas as coisas em submissão a Cristo, tanto nos Céus como na Terra. Foi também em Cristo que fomos escolhidos para sermos herdeiros do seu reino, destinados de acordo com o plano daquele que tudo opera conforme o propósito da sua vontade. Louvemos, portanto, a glória de Deus, nós que previamente já pusemos a nossa esperança em Cristo.” (Efésios 1:9-14 – BPT). Natal é Deus tornando-se parte da humanidade para a redimir e resgatar, trazendo-a de volta ao Seu amor. O amor triunfa radicalmente na vida e morte de Jesus, bem como na Sua segunda vinda para estabelecer novos céus e nova terra. Celebrar o Natal é celebrar esta vitória na nossa vida e na História!
Samuel R. Pinheiro
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O PRINCÍPIO DA NOITE DA TRAIÇÃO – PERSPECTIVAS

O PRINCÍPIO DA NOITE DA TRAIÇÃO – PERSPECTIVAS

JTP18
© João Tomaz Parreira

Da nomeação à representação icónica do traidor e da aceitação por parte deste de trair Cristo, os Evangelistas são comedidos em revelar explicitamente o nome de Judas. Só o Evangelho de Mateus, em discurso directo, nos informa que Jesus disse ao próprio que era ele, Judas, que o trairia, porque este lhe perguntou. “Porventura sou eu, Rabi?”, “ Tu o disseste.” – respondeu Jesus Cristo.
E cremos por todos os contextos dos sinópticos e do impar Evangelho joanino, que nenhum dos outros onze discípulos soube clara e explicitamente quem seria o traidor. É, todavia, João quem revela o mistério a João.
Visto de longe, isto é, perspectivando este acto dito fundacional que levou Jesus Cristo historicamente ao Calvário, baseando-nos nos quatro Evangelhos, permitimo-nos pensar o que estava a ocorrer naquele momento, psicológica e fisicamente, com palavras e olhares. Uma comoção, diríamos uma perturbação da alma colectiva que entristeceu o Cenáculo como uma preparação para a Morte.
Jesus Cristo quis muito aquela última Ceia com os discípulos. “ Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” – confidenciou-lhes o Mestre. A hora em si mesma já estava trespassada de tristeza. Comer sozinho seria experimentar ou sofrer uma solidão peculiar. A partilha de comida e bebida, por outro lado, chegava até ao mais íntimo da condição sócio-cultural daqueles dias.
O filósofo e crítico literário George Steiner (Paris, 1929-), a este propósito escreveu um célebre ensaio denominado “As duas Ceias” (Two Suppers), no qual compara a Última Ceia dos Evangelhos e “O Banquete” de Platão” sob a égide do Amor Ágape, que, segundo ele, está no conteúdo de ambas.
Aquele filósofo parece privilegiar na Última Ceia o que poderia ter sido Alegria e foi Tristeza, do ponto de vista humano, e não foi só por causa do anúncio do Mestre sobre “alguém” dos doze que o iria trair. Foi também pela Sua solidão, não obstante estar acompanhado. Na obra “O Leitor” narra uma parábola: numa remota vila da Polónia havia uma pequena sinagoga. Uma certa noite enquanto fazia a sua ronda, o Rabi entrou e viu Deus sentado a um canto escuro. Caiu por terra e gritou: “Senhor Deus o que fazes aqui?” O Senhor respondeu-lhe não com voz de trovão, nem num turbilhão de vento, mas com uma voz suave: “Estou cansado, Rabi, estou cansado até à morte”.
Do mesmo modo, aquela Última Ceia antecipava já a tristeza até à morte de Jesus no Getsémani.
“Um de vós me há-de trair”
Há uma questão simples que carece de respostas há dois milénios, para podermos entender o ambiente do Cenáculo.
Na arte pictórica interpretativa do momento do anúncio da traição, Leonardo da Vinci pôs ao nosso dispor a surpresa e a tristeza dos apóstolos, no mural “A Última Ceia”, sobretudo o choque que o rosto de Judas reflecte. Mas isso foi na Arte, na realidade andou por estes caminhos do espanto?
Partindo da chamada “harmonia dos Evangelhos”, da JFA revista e corrigida, percebemos que sim, mas pergunta-se:
1.Jesus falou em voz alta?
2. Só os que estavam perto de Jesus ouviram?
3. Ouviram o nome ou discerniram quem era o traidor?
4. Viram todos a quem Jesus deu o bocado de pão ensopado?
5. Todos tomaram atenção à saída de Judas depois disso?
Ficam as questões.
As respostas estão obviamente nos quatro Evangelhos, mas o mistério também. Mas é o chamado Evangelho Teológico, como era conhecido o de João logo nos inícios da era cristã, que reproduz toda a factualidade e o cerne psicológico da particularidade da ocasião.
Mateus e João desenvolvem na sua diegese o conflito interior pelo qual passaram os Doze. Ao descreverem esse conflito fazem com que o leitor o sinta, mesmo sem o auxílio, por exemplo, do melhor retrato já referido que é, sem dúvida, a tela de Leonardo da Vinci. Acerca desta pintura escreveu alguém que a mesma “não é tanto uma excelsa obra de arte. É igualmente uma minuciosa representação da resposta dos Doze às palavras de Jesus: “Um de vós me há-de trair”.
À luz da historiografia bíblica de hoje, dir-se-ia, com um pouco de exagero, que o acontecimento poderá levar-nos à política religiosa judaica de então e, assim, à religião, estando ambas em conflito. A traição e a necessidade de que assim começasse a acontecer profeticamente para a nossa Salvação.
“ E se alguém lhe disser: Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos.” (Zac XIII, 6)
E não só os cravos perfuraram as mãos do Filho de Deus, mas também a traição do amigo que lhe feriu a alma. Nunca se é traído senão pelos seus, costuma-se dizer. Quem sabe se não foi pela traição no Hamlet de Shakespeare que o dito se generalizou.  ©