CONTRA A USURA: A BÍBLIA, A POESIA E “O CAPITAL”

CONTRA A USURA: A BÍBLIA, A POESIA E “O CAPITAL”

JTP24
©  João Tomaz Parreira

A usura nada cria, no dizer do poeta americano Ezra Pound (1885-1972), mas é um modo de produção exploratório, escrevia Karl Marx em “O Capital”.
Por seu lado, antes de todas as afirmações reprobatórias, a lei de Moisés contida no Pentateuco, no livro bíblico de Deuteronómio, determinava que “se emprestarem alguma coisa a outra pessoa, não poderão entrar-lhe na casa para se apoderarem de um penhor ou reaverem o que emprestaram (…) se o homem for pobre e não puder dar-vos mais do que o próprio cobertor com que se cobre, vocês não podem dormir sob ele.”(O Livro- A Bíblia para Hoje)
No que possa concernir à usura, nem sequer pensar. A usura não podia jamais estar ao serviço da grande caridade, no Velho Testamento, muito menos no serviço cristão. O uso da usura acaba por ser um pecado contra a Moral bíblica e filosófica. E contra a Virtude.
Já no século passado o filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961) escrevia que  a filosofia é um esforço para reaprender como ver o mundo, mas no que concerne à usura o mundo não aprendeu nada nem com a filosofia e nem infelizmente com as leis divinas.
De facto, o próprio Aristóteles, escreveu no decorrer do ano 300 a.C, em um dos seus oito livros sobre a Política ( Πολιτικά ), estas sábias palavras:  “O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva? Ela foi inventada para facilitar as trocas; a usura, pelo contrario, faz com que o dinheiro sirva para aumentar-se a si mesmo”

A LEI MOSAICA (A BÍBLIA)
Qual a razão subjectiva que levou ao que significa o vocábulo “usura”
( nawshak) no hebraico, isto é, “mordida”, por extensão simbólica, uma boca de serpente venenosa que morde?
“Se emprestarem dinheiro a um vosso irmão hebreu necessitado, não o farão com interesse usurário” (Êx,22:25, O Livro).
“A teu irmão não emprestarás à usura; nem à usura de dinheiro, nem  à usura de comida, nem à usura de qualquer cousa que se empreste à usura.” (Deuteronômio 23: 19-20).
O povo hebreu, no contexto da sua saída do Egipto e peregrinação para a Terra Prometida, e no futuro como Pátria da Bíblia, não poderia dar o seu dinheiro a juros, nem fazer caridade com seus víveres para obter lucro – dizia o livro de Levítico.
E, no entanto, na Idade Média, os judeus cobravam por empréstimo uma taxa ao ano de 20%.
Podemos agora legitimamente intuir, que, no século XVIII, o próprio Karl Marx leu estes parágrafos legais da Torah. A sua obra clássica, “Das Kapital”, tão detestada como incompreendida sustenta uma luta também contra a usura, a rondar a terminologia bíblica.

O CAPITAL
Do ponto de vista económico, Marx é peremptório e indesmentível: “A usura explora um dado modo de produção: não o cria”, isto é, cria riqueza sem trabalho e apenas em um sentido, o do próprio emprestador. Marx continua: “A usura atingiu nesta época uma tal amplidão, que já não quer ser vício, nem pecado, nem vergonha, mas quer fazer-se passar por grande virtude e bela honra, como se fizesse grande caridade às pessoas” (O Capital – Marx, Karl;  Delfos, 1975-529 )

A POESIA
Na poesia bíblica, designadamente no Livro dos Salmos, há uma composição considerada didática, o Salmo 15, que introduz uma pergunta inicial à consciência daquele que procura temer a Deus e viver em santidade. Todo o contexto deste Salmo, seja qual for a sua versão, vai no sentido dos que temem ao Senhor e desejam encontrar refúgio na Sua casa ( “Senhor, quem pode achar refúgio na tua casa, / e ficar contigo no teu santo monte? – O Livro).
“Aquele que / não empresta seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim conduz sua vida caminhará seguro e em paz.” (Bíblia King James Actualizada)
Na poesia não religiosa, ou dita secular, a usura é invectivada duramente,  ainda que em discurso poético por um poeta que tinha uma ideia sui generis sobre a economia, Ezra Pound. A sua demonização da usura exprime vergonha por uma realidade social. O seu código verbal não deixa margem para quaisquer dúvidas.
Trata-se de um dos cantos do poeta americano, um libelo em forma de ode, que faz parte da obra-prima “Os Cantos” que ocupam lugar fundamental da Literatura Universal do século XX.  Numa auto visão da obra, que o próprio poeta considerou épica, Pound ao condenar a Usura, reuniu história e economia, e disse: “ Não há história, sobretudo na nossa época, sem economia.” É o tema principal dos Cantos 31 a 51, entre os quais está o 45, repetindo o poeta a mesma ideia no 51:   Escreve o poeta estado-uninense em ambos os Cantos: “ Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra / (…) Com usura / nenhum homem tem um paraíso / pintado na parede de sua igreja / ou onde a virgem receba a mensagem / Com usura / a lã não chega ao mercado / a ovelha não dá lucro com a usura / A usura é uma praga / Usura mata a criança no ventre” (Os Cantos, Antologia Poética, Tradução de Augusto de Campos, Editora Ulisseia, 196? e  Os Cantos, Tradução de José Lino Grünewald, Editora Nova Fronteira,1986)
Afirmações que não são nem gerais nem abstractas, que seguem, de resto, a lição de Ezra Pound quanto ao não uso de linguagem supérflua: “o adjectivo quando não dá vida, mata” – disse ele.  #

O “CONSOLADOR” NA VIAGEM DO PEREGRINO

O “CONSOLADOR” NA VIAGEM DO PEREGRINO

JTP22

© João Tomaz Parreira

Uma grande obra viva da imaginação, é assim que pode ser tratada a alegoria «O Peregrino» de João Bunyan, justamente considerado o maior ficcionista inglês do século XVII e que utilizou para a sua prosa um único modelo – a Bíblia, por isso lhe chamaram mais «Bispo Bunyan» que romancista.
Com tradição literária desde os poetas latinos a Dante, por exemplo, a alegoria tomou nesta obra-prima da literatura cristã do século XVII um lugar especial, de realismo quase moderno- como alguém escreveu-, o da realidade moral e espiritual da vida progressiva do cristão, do seu trajecto para a Cidade de Deus.
Estudos feitos sobre essa obra, no âmbito da história da literatura inglesa, dão conta de que se trata, com efeito, de «uma história realista, contemporânea e autêntica», não obstante a sua vasta formulação espiritual.
É nesse desenvolvimento do seu conteúdo espiritual que as principais personagens simbólicas de «O Peregrino» ganham o significado teológico que a Bíblia Sagrada lhes confere. Uma dessas personagens, por assim dizer, do romance alegórico de Bunyan, com o seu significado simbólico e a sua realidade bíblica, é, sem dúvida, o Intérprete. (Págs. 37-47, Edições NA, 1977)
Foi este tratado ao longo dos últimos três séculos por diversas entidades académicas e personalidades evangélicas como uma das figuras tipológicas mais influenciadoras do sucesso da viagem do Cristão, constituindo uma das etapas fundamentais da sua viagem sonhada, quando cheio de ânimo deveria parar na «residência do Intérprete» e ali «ouvir coisas muito úteis e excelentes». Por aproximação que deixa entrever através dos véus literários da sugestão, do mistério, da alegoria, e das citações bíblicas, a sua condição de guia, é tratado também como sendo a figura do Consolador.
Separando o simbólico do teológico, não é difícil entender qual é o papel neotestamentário do Espírito Santo na vida dos crentes.
Os detalhes existem no decorrer do diálogo entre o Intérprete e o Cristão. O trajecto cristão é feito de lutas mas de poder para vencer as mesmas. E esse poder só pode ser o poder do Pentecostes, do Consolador, do Guia que é, também na acepção do livro de Bunyan, a Terceira Pessoa da Trindade. Jesus Cristo ensinou que uma das funções do Espírito Santo é ser o intérprete e guia a toda a verdade, «porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão-de vir.» (1)
O pormenor de uma das falas do Intérprete, dirigindo-se ao Cristão, que flutua entre a esperança e o temor, é um bálsamo desta alegoria sobre a presença indispensável do Espírito Santo na nossa vida: «Parte, pois, e que te acompanhe o Consolador, sendo sempre teu guia até à cidade (celestial) » (pág. 47)
São importantes também para a pedagogia que Bunyan coloca objectivamente neste capítulo, os actos simbólicos encenados para ilustrar realidades espirituais.
A renovação pentecostal do crente («o azeite deitado no fogo por Cristo», pág.42), o perigo mortal da blasfémia contra o Espírito Santo, o não causar tristeza a essa Divina Pessoa, o Dia do Juízo Final ou uma referência ao novo filho pródigo, que é aquele que quer apenas os bens terrenos, actuais, e não se preocupa com as coisas mais excelentes, os bens futuros, celestiais. Indubitavelmente um retrato antecipado do homem «materialista religioso» pós-moderno.
Finalmente, nesse romance que o próprio autor certamente não chamaria assim, existe a honestidade de afirmar várias vezes que se trata de «um sonho».
«Em breve adormeci e tive um sonho». No início da obra, o escritor introduz o leitor num ambiente que, apesar de tudo, tem pouco de onírico e bastante realista.
A intenção de Bunyan não foi fazer uma nova doutrina sobre a carreira cristã, mas ao mesmo tempo que pregava, no seu livro, o Evangelho, foi estabelecendo com as vicissitudes pelas quais passou a personagem principal, passo a passo a caminhada da vitória. É com um sentimento de honestidade que a meio do livro (pág.97) reafirma- «Vi, então, no meu sonho ».
No fim do mesmo, torna a escrever «E nisto… acordei, e vi que tudo fora um sonho».
Com efeito, é uma meditação religiosa e ao mesmo tempo a narratividade da história realista do cristão, e hoje como há três séculos, o leitor avisado e crente sincero despe as alegorias da fantasia natural para as vestir com os trajes da realidade do quotidiano.
O cristão, filho de Deus, nascido de novo, na sua vivência diária, já não vive hoje na figuração da realidade através de alegorias, mas na realidade ela mesma de que foi chamado pelo Pai para «a comunhão de seu Filho Jesus Cristo», sabendo que se lhe aplica uma benção trinitária: a graça de Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo, com qual sempre terminamos nossas reuniões religiosas.
Embora não exista nenhuma igreja denominacional explícita em «O Peregrino», há, sim, um compromisso, para além de tudo o mais, do cristão que avança, vitorioso, mesmo confrontado com situações-limite até à cidade celestial. O cristão que, simultaneamente personagem e pessoa real, nesta história «conhecia e praticava a difícil arte de ser paciente na tribulação e de transformar os obstáculos em trampolim para o sucesso».(2)
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(1)-João 16, 13
(2)- João Bunyan, Ensaio Biogáfico, de Carlos Dubois, Juerp, 1968

NO EVANGELHO DE LUCAS, 24, 5-6 – POESIA E MEMÓRIA

NO EVANGELHO DE LUCAS, 24, 5-6 – POESIA E MEMÓRIA

JTP21
© João Tomaz Parreira

 

Why seek ye the living among the dead?
He is not here, but is risen – Estrutura de linguagem poética

Remember how he spake unto you when he was yet in Galilee, Saying, The Son of man must be delivered into the hands of sinful men, and be crucified, and the third day rise again. - Memória
(Versão King James):
Poesia e memória, seguindo os estudos  linguísticos de  Saussure e Hjelmslev no que concerne à poética,  é o que encontramos nesta afirmação cheia de significantes e de conteúdo da linguagem dos anjos,  tornada humana na sua discursividade. Porque segundo o Evangelho, o significado já não estava no sepulcro e assim só nos sobram as palavras.

Poesia e memória, isto é, uma estrutura poética na forma de se expressarem os seres angelicais no sepulcro vazio; e um avivar da memória das mulheres que foram, no domingo de manhã, ao túmulo onde puseram Jesus Cristo.
O modo expressivo como os “dois homens em traje resplandecente” falaram às mulheres, grafado sobretudo na estrutura linguística da versão inglesa da Bíblia King James, exibe uma linguagem poética com ritmo, com ideias, com acento poético, diríamos poesia pura. Sabemos desde o século XVIII, pelo menos, que o verso branco, falta de rima,  não significa que não é poema.

Why seek ye
The living among the dead
He is not here,
But is risen

Não há nestes “versos” nenhum esquema rimático, mas existe uma melopeia. Há uma métrica subliminar, também explícita, em que planam as palavras. Estão aqui, num tempo em que não havia fotos, toda a verdade, a história e o retrato completo da Ressurreição de Jesus Cristo.

A versão em português de A Bíblia para Todos (BPT), exara assim as palavras dos “dois homens, vestidos com roupas brilhantes”:

“ Por que procuram entre os mortos
aquele que está vivo?”

Dois versos de uma musicalidade de redondilha maior (no primeiro), secundado com a afirmação da história do Cristianismo no que concerne à Ressurreição.

“Não está aqui porque ressuscitou”, quase um decassílabo.

A memória, para além da poesia, insere-se na memorabilia que os anjos usaram para recordar às mulheres, que foram ao tumulo, as próprias palavras de Cristo.

“Não se lembram do que ele vos disse, quando ainda estava na Galileia, que é preciso que o Filho do Homem seja entregue ao poder dos maus, que seja pregado numa cruz e que ao terceiro dia ressuscite? Elas então lembraram-se daquelas palavras.” ©