A Herança de Abraão

A Herança de Abraão

Dr. Jorge Pinheiro

Jorge Pinheiro - 17 - peq
Ao longo da história, vários foram os homens e mulheres que, em diversas épocas, influenciaram negativa ou positivamente as sociedades em particular e a humanidade em geral. Enumerá-los tornar-se-ia fastidioso porque a lista seria extensa. Emparceirando-os, verificaríamos, contudo, que deles apenas meia dúzia se sobressairia de quem se pudesse dizer que a sua influência se tornou extensiva a todo o mundo, deixando uma marca que atravessou séculos e continentes e que perdura ainda hoje. Se pedíssemos a alguém que enumerasse o nome de cinco personalidades que em seu entender mais influenciaram o curso da humanidade não deixaria de indicar o dos fundadores das principais religiões (Sidarta Gautama, Moisés, Zoroastro, Jesus Cristo, Lao Tzé, Muhamad), o de grandes guerreiros ou descobridores (Gengis Cão, Alexandre Magno, Júlio César, Marco Pólo, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo), o de grandes pensadores, cientistas ou artistas (Sócrates, Platão, Einstein, Karl Marx, Mahatma Gandhi, Leonardo da Vinci, Beethoven) ou qualquer um dos muitos políticos que deixaram a sua marca indelével na história da humanidade. Não estaremos, contudo, talvez longe da verdade se arriscarmos afirmar que poucos citariam o nome de Abraão entre esses cinco.
E, no entanto, passados quase cerca de 40 séculos desde que ele empreendeu a sua caminhada histórica, saindo de Ur da Caldeia rumo a um destino que apenas pela fé conseguia vislumbrar e, talvez, deficientemente compreender, ainda hoje continuamos a ser influenciados de forma perene e constante por essa sua decisão, a ponto de podermos afirmar, sem forçar a realidade, que ele condicionou o devir de toda a humanidade. A sua decisão de obedecer à voz divina alterou para sempre o curso da humanidade e ainda hoje continuamos a sentir a sua influência. É verdade que genericamente Abraão é encarado apenas no quadro do universo religioso para isso contribuindo o facto de os seguidores dos três grande monoteísmos actuais o considerarem como pai fundador e alicerce das respectivas fés. É verdade que Abraão, considerado patriarca por todos quantos se lhe sentem devedores, foi movido por uma fé que podemos considerar de base e consistência religiosa. Mas não menos verdade será afirmar que, afinal, todos neste mundo, crentes e não crentes, são de uma forma ou outra seus filhos ou descendentes.
A história de Abraão vamos encontrá-la, com riqueza de pormenor no maior best-seller de toda a humanidade e jóia preciosa do universo sapiencial – a Bíblia Sagrada, mais concretamente no Génesis, entre os capítulos 12 e 25. Esses 14 capítulos retratam quadros de magnífica beleza e profundos ensinamentos cuja densidade está longe de esgotada.
Sabemos que Abraão vivia na opulenta cidade de Ur da Caldeia, cidade que rivalizava em grandeza e importância com a grande Babilónia, sendo considerada na altura (1940 a.C.) a mais importante urbe da região. Aos 75 anos, passa por uma experiência que irá modificar para sempre a sua vida e o curso da humanidade. Pouco sabemos de Abraão até então. Mas sabemos que vivia numa cidade opulenta, numa sociedade politeísta, num mundo em que, para apaziguar os caprichos das divindades, muitas vezes era necessário sacrificar a vida humana. Muito provavelmente viveria sem problemas de subsistência. Talvez uma das poucas tristezas que o afligisse fosse o facto de sua mulher Sarai ser estéril e, por essa razão, o seu nome não seria propagado após a sua morte entrando por isso no oblívio da memória colectiva.
E é nesse ambiente que Deus o chama e lhe faz uma promessa que a partir de então será a sua razão de existir: “Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção. E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra”. Obediente, Abraão deixa o conforto, o sossego e a reputação e parte. Deixa a segurança do adquirido e parte rumo ao desconhecido, fundamentado apenas numa promessa cujo único garante é o Deus eterno a quem fica ligado pelos laços da fé que vai crescendo e fortalecendo-se à medida que se entrega à obediência de quem o chamou. Conhecemos o resto da sua autêntica odisseia que resumimos de seguida: após renovar-lhe a chamada e a promessa de um filho, apesar da esterilidade de Sarai e da idade avançada de Abrão, Deus concede-lhe um filho, Isaque, depois de mudar o nome ao casal e de instituir a circuncisão e não sem que antes Abraão tivesse gerado Ismael da sua escrava Agar. Após a morte de Sara, Abraão volta a conceber seis outros filhos da concubina Quetura. Pelo meio, a destruição de Sodoma e Gomorra, o sacrifício não consumado do filho Isaque e o episódio em que, perante Abimeleque, Abraão nega que Sara fosse sua esposa.
Centremo-nos no conteúdo da promessa feita por Deus a Abraão e que ele transmite como herança a todos os seus descendentes. Nela há 3 elementos centrais: terra (Sai-te da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei), semente (E far-te-ei uma grande nação e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome e tu serás uma bênção) e bênção (E abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra). Esta promessa, que se cumprirá na descendência de Abraão, dá origem a uma nova relação com a divindade, ou com a transcendência, se assim o quisermos, desconhecida da sociedade de então. Para além de ser um Deus único, transcendente e pessoal, o Deus de Abraão é um Deus que se relaciona com a sua criação através de pactos, que Ele honra e aprofunda, na medida da obediência do homem.
A Abraão, por seu lado, é exigido que se entregue à revelação de um Deus que se auto-revela e siga, passo a passo, em obediência comprometida, o caminho que se lhe vai abrindo no cumprimento do respeito mútuo pelo pacto estabelecido entre Deus e o Homem e que influenciará não só o momento presente, mas todas as gerações posteriores que receberem como sua herança a promessa abraâmica.
A terra passa a estar indissoluvelmente ligada à descendência de Abraão. Compulsando os pactos subsequentes que Deus vai estabelecendo com o Seu povo, verificamos que a relação do homem com a terra é a de um mordomo que, em nome do seu senhor, a torna produtiva, zelando e velando por ela, respeitando a sua integridade. A terra continua a ser de Deus, mas o Eterno coloca-a à disposição do Homem para nela este se frutificar e frutificá-la. E de facto, nos pactos posteriores, encontramos toda uma série de disposições que realçam esta tripla inter-relação – terra produtiva e respeitada, mansão do homem e reflexo e reflector da glória de Deus.
A semente ou descendência conhecerá a grandeza e erguer-se-á não como pedinte ou uma massa amorfa sem rumo, mas como sociedade organizada, disciplinada, com um programa bem definido de acção, em que a dignidade humana conhece um novo paradigma e em que a relação com o transcendente faz parte integrante do viver humano. Disso é reflexo o episódio do sacrifício não consumado de Isaque no monte Moriá. Filho prometido, filho da impossibilidade, a vida de Isaque é requerida pelo próprio Deus que permitiu a sua existência. Para além das várias lições que o episódio nos ensina, podemos destacar duas: Deus não se compraz com sacrifícios humanos e Deus exige confiança e obediência sem restrições a quem O aceita como presente na sua vida. Numa sociedade que utilizava o sacrifício humano para satisfazer a divindade, este episódio constitui uma ruptura definitiva do paradigma que encara o homem como descartável em nome do ter em preferência sobre o ser, em nome até de uma divindade supostamente clemente e misericordiosa. Nessa semente (ou descendência) contemplada na promessa abraâmica, o transcendente está também presente de forma visível e palpável e disso são reflexo dois episódios da vida de Abraão – a instituição da circuncisão e a mudança de nome do patriarca e sua esposa. A circuncisão, acto realizado no próprio corpo do crente no ponto fulcral da procriação masculina realça o facto não só de que o nosso corpo deve reflectir ele também a relação com a divindade, como ele próprio Lhe pertence. A mudança do nome é também significativa. Numa cultura em que o nome reflecte a própria pessoa e em que, em última instância, acaba por ser a própria pessoa, este episódio indica que a relação com Deus exige um abandono das nossas referências exclusivamente imanentes, exige uma renovação, uma transformação apenas possível pela acção divina interveniente no nosso viver. Abraão deixa de ser Abrão (pai da altura) para ser Abraão (pai de uma multidão, sendo sintomática esta intercalação de um som aspirado indiciador do sopro do espírito divino na natureza humana) e Sara deixa de ser Sarai e passa a ser Sara (princesa). E de novo, numa sociedade em que a mulher era considerada propriedade do homem e como ser sem alma, esta elevação da sua dignidade é sintomática.
No terceiro elemento da promessa/herança abraâmica, a bênção, temos toda uma teologia e programa de acção. A lei da causa e do efeito presente em todas as relações do homem que se movimenta numa tripla dimensão – consigo próprio, com o seu semelhante e com a divindade. Um apelo não apenas à obediência, mas à responsabilidade individual e colectiva, com uma origem inequívoca e insubstituível. Nos pactos subsequentes que complementam esta promessa divina, sem negar a ligação íntima e intrínseca entre causa e consequência, entre obediência e transgressão, a tónica é colocada indiscutivelmente na bênção resultante da actuação em obediência alicerçada e avalizada pela fidelidade divina. A bênção, o favor, a graça, a misericórdia de Deus tornam-se extensíveis a todos quantos entrarem em contacto com o recipiente da promessa divina. A tónica é colocada na bênção e não na maldição, porque Deus não tem prazer na destruição da sua criação, conforme ecoa o profeta Ezequiel (33:11, “A Bíblia para Todos”) – “Diz-lhes que, tão certo como eu ser o Deus da vida, lhes garanto que não tenho prazer em ver um transgressor morrer. O que eu gostaria era de o ver deixar de pecar e viver.”
Este, num registo extremamente sucinto, o conteúdo da promessa de Deus a Abraão a qual, a partir do momento da sua recepção e aceitação se transforma na herança que o patriarca lega a todos os seus descendentes.
Abraão teve vários filhos de diversas mulheres. Podemos classificá-los em quatro categorias, indicado pela ordem do seu aparecimento:
Os filhos da servidão, representados por Ismael, filho da escrava Agar;
Os filhos da promissão, simbolizados em Isaque, filho da amada esposa de Abraão, Sara;
Os filhos da solidão, consubstanciados nos filhos da concubina Quetura, após a morte de Sara que, sem dúvida, deixou no coração de Abraão um vazio difícil de preencher;
Os filhos da adopção, reflectidos em todos quantos, em todo o lugar, aceitam colocar-se em obediência ao Deus de Abraão, mesmo sabendo não terem qualquer direito de primogenitura, adopção essa que se obtém, segundo as Escrituras, apenas e só através do acto de amor de Cristo Jesus por todos nós quando se entregou no altar do Calvário a uma morte vicária, pela qual, pela pena do apóstolo Paulo, podemos agora aproximar-nos de Deus e chamar-Lhe Pai.
Cada um destes tipos de filhos representa um sector da humanidade com características próprias e todos em conjunto constituem a humanidade na sua totalidade. Todos eles são herdeiros da herança deixada por Abraão à sua posteridade. A herança é a mesma, mas a forma como ela é vivida, transmitida e em alguns casos imposta, depende da condição em que cada filho se insere, condicionando toda a sua cosmovisão, o seu estar-no-mundo, o seu estar-com-o-outro.
Os filhos da promissão assumem o seu estatuto de filhos legítimos e é-lhes tentador considerarem-se os únicos com direitos absolutos à herança, numa atitude e visão legalista da sua condição que os faz considerarem-se os eleitos entre os eleitos, a nata da nata da sapiência e da resistência. Um filho da promessa sabe que é filho e comporta-se como filho com uma atitude de temor reverencial para com o pai.
Os filhos da escravidão não conseguem eximir-se a uma mentalidade de fatalismo que a curto ou longo prazo os reduz a uma posição de subserviência, de inferioridade, de perseguidos pelos que se consideram senhores. Um filho de escrava nunca pode encarar o senhor como pai, mas sempre como senhor, como dominador, cuja vontade final é desconhecida do filho.
Os filhos da solidão não conseguem escapar à angústia do niilismo, ao desespero de quem encara e considera a vida sem sentido. Um filho da solidão considera-se sempre resultado de uma segunda opção em que a razão de viver não é o amor mas a necessidade. Um filho da solidão encara o pai como ausente ou não existente.
Os filhos da adopção sabem que são filhos não por direito de primogenitura, mas em resultado de um acto de amor, de entrega e de dedicação. O filho da adopção sabe que não merece o estatuto de que goza e que lhe foi outorgado por um acto voluntário de entrega a ele estranho. O filho da adopção conhece o sabor da gratidão e encara o pai como aquele que tudo fará para o salvaguardar.
Para além da herança comum, cada um destes grupos de filhos depende da palavra, reduzida a livro, que se torna repositório de toda a sua práxis e ethos. E essa palavra, que reflecte a condição do filho, perpetua não apenas a herança, mas a forma como cada um a encara, a vive e a transmite.
A herança, repetimos, é a mesma, mas a forma como a vivemos, a transmitimos e por ela nos inter-relacionamos depende da interiorização da nossa condição face ao pai de quem somos herdeiros. Essa condição condiciona a nossa cosmovisão, condiciona a forma como vemos o outro, condiciona o nosso modelo de sociedade, condiciona a nossa relação com o transcendente. Cabe a cada um de nós decidir qual o nosso estatuto de filho.

Há culturas que são superiores a outras?

Há culturas que são superiores a outras?
2018julho21 Casamento Ana
Este é um tema escaldante nos dias de hoje. De forma acertada, no nosso entender, é enaltecida a diversidade cultural, mas, por outro lado, de modo demagógico, ignoram-se algumas práticas culturais que ofendem a dignidade humana e, o mais importante para nós, a ética judaico-cristã. É o caso do casamento imposto a crianças e adolescentes e a excisão genital feminina. Isto para dar dois exemplos dos quais o primeiro é silenciado pelas repercussões políticas e religiosas que implica, e o segundo é denunciado pontualmente porque não tem esses constrangimentos. Independentemente do que se possa responder à pergunta que nos serve de título, faz toda a diferença viver numa cultura antropófaga ou não!
Esta questão entronca também no fenómeno religioso do qual damos dois exemplos: o carma e as castas. Já parámos para pensar quais as consequências sociais e humanitárias de quem acredita que o sofrimento presente é uma forma de penitência para alcançar um estado superior, mais evoluído, na próxima reencarnação? O mesmo se pode dizer quando comparamos líderes religiosos em que uns usaram e subscreveram o uso da violência para imporem as suas ideias e outros que recusaram e se insurgiram contra o seu uso. A ideia prevalecente é que todas as religiões são iguais. Grosso modo estamos de acordo. Em muitos aspetos consideramos que existem diferenças entre as várias religiões que importa não ignorar. Ninguém está a sancionar com isso a guerra das religiões. Mas por que carga de água, dizemos nós, não seremos capazes de forma pacífica e respeitosa confrontar as nossas convicções. Não acreditamos no sincretismo religioso nem num ecumenismo tipo salada de frutas, embora percebamos que possivelmente para lá dos muitos que o defendem, um dia surgirá uma proposta que será aliciante o suficiente para arrastar as multidões e dar suporte a um governo de alcance mundial.
O mesmo se pode dizer sobre as várias concepções que existem de Deus. Existem pessoas que julgo sem a devida ponderação e investigação, afirmam que todas as concepções são iguais. O que estas pessoas pensariam se fossem deslocadas para uma geografia em que da ideia de Deus decorre a lapidação, as chicotadas em praça pública e até a amputação de membros. Dir-se-á que em todas as confissões religiosas se viveram momentos em que tais práticas foram usadas. É verdade! Mas isso não significa que a ideia de Deus no judaísmo, cristianismo e islamismo, para falar apenas no grupo monoteísta, seja igual. A situação torna-se ainda mais flagrante quando se junta o grupo politeísta do hinduísmo e a religião sem deus do budismo. Acreditar num Deus pessoal é totalmente distinto de um deus que não passa de uma energia.
Não existe nenhuma cultura que seja perfeita e isenta de pecado. O Homem é pecador e tudo o que é sua criação sofre da mesma doença. Todas as religiões enfermam igualmente do mesmo mal, porque toda a religião é criação humana.
A situação muda de figura quando nos focamos na pessoa de Jesus. O único sem pecado, o único absolutamente justo e santo, o único perfeito em todos os detalhes e pormenores, em todas as Suas ações, em todo o Seu ensino, em todo o Seu caráter e personalidade, em toda a Sua pessoa.
Eu sou cristão, seguidor de Jesus. Considero-O como Ele Se apresentou, enquanto Senhor e Salvador, e por isso, dirão alguns, estarei a “puxar a brasa à minha sardinha”. Proponho que cada um leia os Evangelhos onde a história de Jesus nos é apresentada. O que dizer dos mandamentos do amor, do perdão e do serviço que Jesus não apenas propôs, mas viveu integralmente? Claro que facilmente se cai para o outro lado dizendo que são utopias que não têm cabimento no mundo em que vivemos. Outros preferirão dizer que Jesus é um mito. Mas Ele está aí na História como O grande “influencier”, como hoje se diz. Jesus não apenas disse, mas viveu. Viveu e morreu por isso. E, como não podia deixar de ser, numa história com sentido, ressuscitou e venceu a morte. Jesus é, por isso, a evidência por excelência de que o Deus trino (Pai, Filho e Espírito Santo), na Sua essência de santidade, amor, graça e misericórdia, é o Deus único e verdadeiro. Deus é Deus, e a Sua Criação está sob o Seu domínio. Ele prevalecerá, e com Ele toda a Sua criação. “Ninguém pode chegar ao Pai sem ser através de mim.” (João 14:6, OL). A escolha é nossa! Eu decidi seguir Jesus!!!

Samuel R. Pinheiro
www.jesus-o-melhor.com 

LUTERO: “QUE O SENHOR TE DESPOJE DO HOMEM QUE ERAS”

LUTERO: “QUE O SENHOR TE DESPOJE DO HOMEM QUE ERAS”
Comparativo entre Teatro e História
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© João Tomaz Parreira
John Osborne (1929-1994), um dos mais importantes dramaturgos britânicos do século XX, escreveu em 1961 uma peça de grande fôlego, quer de encenação e representação quer de texto, intitulada “Lutero”. Com um conteúdo religioso, com referências bíblicas nas falas das personagens ( “nunca os olhos viram nem os ouvidos escutaram tão maravilhosas cousas como as que Deus preparou para os que O amam” ), por exemplo, Martinho diz “Sou um verme e não um homem”, referência ao Salmo 22; com uma contextualização histórico temporal no século XVI. Contudo, não deixa de ser uma peça de teatro que se insere na escola do realismo social.
Osborne constrói um Lutero impetuoso e excessivo, cheio de dúvidas iniciais, consciente de que era um pecador à procura da Graça divina. Está caracterizado também pelo estilo dramatúrgico que fez escola no teatro inglês do anos 50, a personagem como herói egocêntrico, os diálogos e os monólogos extensos. Este aspecto é relevante na peça, porque recupera para o século XX um dos principais aspectos da vida de Lutero, como um pregador.
O teatro de Osborne, não trunca a vida de Lutero, nem o que o monge agostinho representou para a Reforma protestante. Recorrendo ao que os comparatistas fazem, compaginando as relações literárias entre obras, a biografia de Lutero dá inteiro suporte à peça que referimos.
“Lutero” abre a cena do primeiro Acto com o pronunciamento dos votos definitivos do futuro Reformador quando entrou na vida monástica, em 1506, em Erfurt:
“O Prior (para o jovem Martinho): Senhor, àquele que foi vosso desígnio revestir do hábito desta Ordem, investi-o também da vida eterna”
Despe o casaco de Martinho
“O Prior: Que o Senhor te despoje do homem que eras e das suas obras. Que o Senhor de ti faça um novo homem.”
“Martinho: Eu, irmão Martinho, professo e prometo obediência a Deus todo poderoso, à sagrada Virgem e a vós, meu irmão Prior deste convento”
O Prior abençoa-o enquanto Martinho se prosterna no chão, com os braços  abertos em cruz.( Osborne, John, “Lutero e duas Peças Inglesas”, Portugália Editora, 1969)
É necessário colocar esta informação da dramaturgia sob o óculo da história da Reforma, que é no fundo a história da vida de Lutero. O veredicto comparatista dessa história, que, por exemplo, podemos ler com mais ou menos pormenores em Lucien Febvre (“Martinho Lutero Um Destino”), Owen Chadwick, Richard Stauffer ou Albert Greiner (teólogo, 1918-2013) (“Lutero-Um ensaio biográfico”).
Este último autor escreveu na obra referida, que “Lutero teve de submeter-se às etapas habituais da iniciação monástica. A toma solene do hábito comportava uma breve oração litúrgica que expressava bem o voto de Lutero: “Que o Senhor te revista do homem novo, criado segundo Deus  em justiça e santidade que produz a verdade”- disse o prior” (Greiner, Albert, “Lutero”, Editora Sinodal, 1969,  pág.26)
É ainda mais rara a apreciação, que acaba por ser uma análise espiritual do que levou Lutero ao convento, aquela sob o olhar do influente historiador francês Lucien Febvre (1878-1956):” A 17 de Julho de 1505, pela manhã, um jovem laico transpunha a porta do Convento dos Agostinhos de  Erfurt. Vinha procurar no claustro um refúgio contra os males e perigos do século. (…) O hábito que este jovem inquieto e atormentado pedia para vestir, o hábito de lã áspera dos eremitas agostinhos, um dia dele se devia despojar e trocá-lo pela toga forrada de professor.” Lucien Febvre diz que a “clausura de Lutero não é uma farsa”.  O ter querido ser monge e tê-lo sido com paixão durante anos.
Lutero entrou no convento para encontrar paz, a certeza feliz da salvação. No entanto, Lucien Febvre escreve que “ no convento, de 1505 a 1510” Lutero pode medir a “decadência do ensino cristão” e experimentou “até ao âmago da sua alma sensível a pobreza desoladora da doutrina das obras”.
Dentre os livros que serviram de comparação para respaldar o dramaturgo inglês no que diz respeito ao drama íntimo de Lutero, sublinho o calvinista helvético Richard Stauffer(1921-1984), que em “A Reforma 1517-1564”, diz o seguinte: “Ora, apesar da sua fidelidade à regra, Lutero não encontrava a paz a que aspirava. “Sob a capa da santidade e da confiança na minha própria justiça” – escrevia mais tarde Lutero.
Tudo se iria tornar mais evangélico e, se quisermos, mais límpida e profundamente paulino na vida e acção, ensino e estudos de Lutero entre 1513 e 1518, quando a regra da Sola Fide e a convicção de que o justo viveria pela Fé tomaram conta do coração, do espírito e da mente do autor das 95 Teses.
Um dos mais proeminentes e eficazes historiadores da Igreja e da Reforma, o britânico Owen Chadwick ( 1916-2015), escreve que durante aqueles anos “ a sua compreensão paulina estava a crescer em precisão, clareza e maturidade.”
Com os historiadores que citei, comparativamente, fica-nos a certeza de que o dramaturgo John Osborne não só seguiu a história, como também lhe acrescentou uma pitada de realismo social e religioso que desmitologiza Lutero.
A peça coloca-nos mesmo no ambiente da época e perante algumas das personagens que mais desejavam impedir o trabalho reformador de Martinho, sobretudo a partir de 1516, caracterizado bem por um ditado da época, segundo o qual “Erasmo pôs o ovo e Lutero chocou-o”.
Refiro as duas sombras negras ao dominicano João Tetzel e ao cardeal Cajetan. Algumas das falas destas personagens, mostram como eram hostis a Lutero pela oposição deste às Indulgências e ao poder papal.
Tetzel, pregador das Indulgências, proclama: “as indulgências são a mais preciosa e a mais nobre dádiva de Deus aos homens”. Era o homem que acusava Martinho de que a sua “heresia nem sequer é original. Não difere da de Wyclif ou de Hus.”
Noutro passo da peça, à pergunta de Martinho a Cajetan, “Posso ver as instruções do Papa?” O cardeal responde “Não, meu querido filho, não podeis. O que vos pedimos é que confesseis os vossos erros. Que mantenhais severa vigilância sobre as vossas palavras”.  Martinho Lutero, na peça, ingenuamente,  ainda responde “baseio a minha defesa inteiramente nas Sagradas Escrituras”, e Cajetan responde: “ Só o Papa tem poder e autoridade quanto a todas essas matérias”. As matérias apologéticas, finalmente, seriam que as indulgências eram inválidas e que o homem “deve ter fé na Graça que lhe é concedida.”  ©

(OS) CODEX EPHREM DA PÓS-MODERNIDADE

(OS) CODEX EPHREM DA PÓS-MODERNIDADE

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© João Tomaz Parreira

«Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus.» II Co 2,17

Fazer uma ligação entre o Codex Ephrem e a pós-modernidade é ensaiar uma ponte entre o século V e os dias de hoje, embora pareça um mal entendido aos mais sensíveis que se restringem a padrões rígidos de interpretação de eventos actuais.
Sim, porque à partida parece que pretendemos misturar o que foi uma das bases manuscritas para a formação e estabelecimento dos canones dos Velho e Novo Testamentos e qualquer ética ou filosofia do pós-moderno.
O chamado Codex Ephrem, que tem menor importância que o Sinaiticus, e.g., «foi» um manuscrito de ambas as partes de Bíblia, designadamente do NT, do século V, e está conservado na Biblioteca Nacional, em Paris. «Foi» um manuscrito que agora se lê dificilmente, porque um copista resolveu apagar do pergaminho os textos sagrados e reescrever outras coisas. A este trabalho de raspagem e reescrita chama-se palimpsesto (do grego pálin e psestos, novo e raspar).
O Codex Ephraemi Reescritus, assim também conhecido, é, segundo os especialistas, o último do grupo em que se reúnem, com ele próprio, os quatro manuscritos da Bíblia Grega , os Codex Sinaiticus, Alexandrinus e Vaticanus.
O texto que foi escrito por cima do Codex inicial, no século XII ou XIII, por um autor sírio, o Efraem, contém as obras desse, crónicas religiosas, de onde sobressaem as ditas sobre a história eclesiástica de João em Éfeso.
Há literatura sobre o assunto que nos assegura que os textos originais do pergaminho, os textos bíblicos digamos assim para generalizar, não foram inteiramente raspados e podem ainda ser lidos, penosamente embora, sob meios tecnológicos modernos.
A Palavra de Deus parece ter desaparecido sob as opiniões e as histórias, ainda que eclesiásticas, de homens alegadamente piedosos. O palimpsesto foi um contentor de duas mensagens. À luz da crítica literária contemporânea e de qualquer dicionário das comunicações de massa, é material polissémico, porque tem vários sentidos.
As Releituras
Considerando que a Bíblia Sagrada é o Livro mais vendido, 5-6 biliões de cópias, e por conseguinte o mais lido, é natural que seja objecto de múltiplas e díspares releituras, mesmo até por crentes e, com certeza, por ateus. E tais releituras são normalmente efetuadas a dois níveis: ao teológico e ao antropológico; Deus e o Homem. Os crentes procuram na Palavra divina o Pai; os ateus, os não-crentes, demandam quase de um modo edipiano contradizê-Lo e mesmo eliminá-Lo.
No século XVIII, sob uma particular visão socialista, Proudhon já relia certamente o apóstolo Paulo, alegando que as suas formas de ideal (quereria dizer doutrina ética e social, moral e espiritual, etc.)eram bem definidas, mas caducas.
1.Sartre
Por exemplo, o filósofo Jean-Paul Sartre, mistura de católico (pelo pai) e de protestante (pela mãe), um céptico que passou cedo para o terreno do humanismo e da releitura negativista da fé cristã. Na sua autobiografia Les Mots (As Palavras), considera a perda da fé religiosa por uma releitura de um acontecimento religioso – perante as senhoras da família que acreditavam em Deus o tempo necessário para apreciar uma tocata no órgão da igreja; ou o avô que julgava parecer-se com Deus por causa da sua barba e costumava aparecer por trás do púlpito de onde se proferiam raios celestiais, vindo da sacristia para assustar os fiéis na missa.
Mas esta espécie de releitura, do nosso ponto de vista, não foi mais que uma posição material sobre aspectos religiosos, no sentido social da religião. Ainda não era o que Sartre viria a estabelecer depois, como as releituras de ética e moral, de espiritualidade e da existência que alguns dos seus mais famosos textos fariam. Dois apenas, para este raciocínio.
A Náusea, que é um beco sem saída, onde se entra para fugir de Deus. Onde a pessoa é apenas um indivíduo, sem importância, daí o nada finalizador. «Todos os objectos que me cercavam pareciam feitos da mesma matéria que eu, duma espécie de sofrimento ruim»- considerava a personagem, Roquentin. «Nada. Existi.»- diz. O outro beco sem saída é a peça Huis Clos , pela sua própria natureza de espaço fechado, onde uma releitura do inferno citado na Bíblia se torna no fogo sem consumição da consciência de cada pessoa, numa metáfora da morte, onde os actos de cada um atormentam o outro.
Seja como for, para Sartre Deus existia, o seu ateísmo era moral e provisório – dizia o escritor- estava ligado ao facto de Deus ainda se não lhe ter revelado.
No que concerne à criação por intermédio divino, e à finalidade do Criador em ter criado o homem, Sartre escrevia em A Náusea que «todo o existente nasce sem razão»; os homens como as coisas não tinham vontade de existir, somente não tinham outro remédio. Que releitura do Génesis tão desesperante e terrível, Deus criou o homem à existência para o punir?

2. José Saramago
Quanto ao romancista José Saramago poderíamos ficar conversados por aqui: «Deus é um problema». É o que o escritor vê nas Escrituras Sagradas, por isso procura insistentemente desde o controverso romance «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» ( de 1992) reler e reinterpretar o Novo Testamento, por exemplo, no cerne que é a Salvação pela morte expiatória e vicária do Filho de Deus.
Saramago socorre-se de uma semiótica centrada em uma obra de arte de Albrecht Durer, «A Grande Paixão» renascentista, a partir da qual reinterpreta com os seus próprios símbolos anti-cristãos, que profanam o sagrado, toda a crucificação, como se esta fosse um mito, mesmo considerando-a bíblica. Mas o que o nosso escritor faz, é pôr em causa a autoridade de Bíblia numa matéria tão vital.
Passados dezassete anos, Saramago volta a fazer leituras bíblicas comprometidas com a profanação do sagrado.
No pré-lançamento do seu último romance, «Caim», de 2009, um semanário de referência – o Sol – disse que «não deixa de ser curiosa a concentração no tema Deus. A preocupação em si já é sintomática da centralidade da questão.»
É para o escritor o chamado «factor Deus», não se sabendo bem se como uma unidade simples ou se causa de vários efeitos.

3.Congresso Multidisciplinar de Estudos da Bíblia
O evento ocorreu em 2009 com o apoio de instituições marcantes nos estudos das Sagradas Escrituras de Israel, desde o Rockfeller Archeological Museum, o Museum of Jewich People, à École Biblique et Archéologique, entre Jersusalém e Tel-Aviv. Os pesquisadores protestantes, pentecostais e judaicos religião de Moisés. Alguns resultados chegaram, designadamente, com o que chamaram de nova visão sobre o que referem ser a «parte mitológica» da Bíblia. Houve sinais de que é «preciso» despir a mística do Bereshit( Génesis) e vestir alguns episódios com a capa do científico, criticamente. Adão e Eva foram casal ? Ou uma geração? Caim e Abel, classes em tensão ou irmãos de facto?

4. Der Mensch is gut! – O Homem é Bom!
Depois da catástrofe da I Grande Guerra e da hecatombe que dizimara nas lamas das trincheiras milhões de europeus, o estado de espírito da Europa parecia elevar-se acima das realidades e definia que o Homem era Bom. O pacifismo que nascia das cinzas da mente do homem, em 1917, se legitimamente podia rejeitar a guerra, não podia reformular a doutrina da Queda, nem do pecado original, nem das sementes do Mal que o Diabo implantara no coração humano.
Na teologia protestante das décadas de 30 e 40, o idealismo apesar dos tumores na Europa carreava para a discussão bíblica e escolar o pacifismo de pensadores de grande nível cristão e intelectual como Dietrich Bonhoeffer.
Não se compreendia muito bem como o homem havia chegado à maioridade. Compreende-se, por assim dizer, a chegada do homem, do ponto de vista cristão, ao posicionamento de discípulo de Cristo ao lermos o seu livro «Discipulado», um homem dependente de Cristo Jesus, obediente à vontade divina, homem sem poder passar sem Deus, poderia ser um homem solitário («o chamado de Jesus ao discipulado faz do discípulo um ser solitário- escreveu», mas nunca independente, ou dependente de si mesmo.
E lendo também «Tentação», perceber-se-á a fragilidade humana exposta perante as crises ou os ataques do diabo.
Não se entende, porém, o homem chegado à maioridade, que levou alguns seguidores seus a reler que proclamava «o homem agora pode passar sem Deus».
Aprender a viver sem Deus, seria uma releitura da religião nos anos 40 perante o descalabro moral e social da Europa nazi, e esta suposta maioridade do homem chegaria aos teólogos da década de 1960.
As releituras bíblicas tinham que ser agora interpretações não-religiosas de conceitos bíblicos -escreveriam, contudo, os interpretes das obras do mesmo Bonhoeffer.
Pegava-se nos textos bíblicos, nos conceitos milenares das Escrituras Sagradas, na revelação neo-testamentária de Deus em Cristo, na espiritualidade, raspava-se o original para reescrever o que o secularismo sempre defendera: Deus não é necessário para nada, o homem é que é tudo.

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O HOMEM DE VIKTOR FRANKL E DE PRIMO LEVI

O HOMEM DE VIKTOR FRANKL E DE PRIMO LEVI

JTP Capas livros
© João Tomaz Parreira
O homem que é fundido na massa, que num campo de concentração não deveria dar nas vistas dos guardas SS, não sobressair em nada, tornar-se apenas num incógnito para tentar sobreviver algum tempo, é a temática de dois livros coincidentes.

“Se Isto é Um Homem”, de Primo Levi, e, de Viktor Frankl, “Um psicólogo no campo de concentração”.

Não há grandes mudanças nem novidades nas análises psicológicas dos deportados e encarcerados nos campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau que o psicólogo Victor Frankl e o escritor e poeta Primo Levi fizeram, a partir do mesmo destino nesses campos, porque eram judeus.

O elemento comum que já a filósofa judia Hanna Arendt identificara, é a despersonalização dos indivíduos, o tornar os judeus, sobretudo estes, matéria descartável, abaixo de sub-humanos se cabe aqui o pleonasmo.

Um dos aspectos que Viktor Frankl evidencia no seu livro, no que concerne à despersonalização do individuo, é, por exemplo, o facto da nudez. É a primeira realidade dos prisioneiros que chegavam ao campo e antes de entrarem para um suposto duche nas câmaras de gás, o que significava não apenas “o não ter nada no corpo”, mas também o homem e a mulher intuírem ou terem mesmo a consciência de que “possuíamos apenas a nossa existência literalmente nua”.

Vão no mesmo sentido as palavras de Primo Levi, no que diz respeito à consciência de que perante os carrascos já não se tem nem corpo nem alma, podendo dizer-se o mesmo total vazio dos algozes: “Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?”

Na contundente narrativa de Levi, lemos do completo despojamento de personalidade do prisioneiro judeu nos primeiros momentos entre a aglomeração num gueto, a deportação, a chegada ao destino, o despojamento da individualidade e do pensar: “Soubéramos, com alívio, do nosso destino. Auschwitz: um nome sem qualquer significado, naquela altura e para nós; mas certamente devia corresponder a um lugar desta Terra.”

Do outro lado, da parte dos executores do maléfico plano de Eichmann, a chamada Solução Final que deveria extirpar a judiaria europeia, a própria despersonalização era evidente, já nem seria ideológica, era apenas a prossecução do Mal. Quantos mais “números” de uma raça tido como inferior e sem direito a existir eliminassem, tanto melhor. Nenhum dos guardas dos campos de concentração nazis era um burocrata, era tão só manobrador de uma maquinaria de morte, limitava -se a cumprir ordens, sim, mas tinha com certeza prazer nos sofrimentos que estava a infligir aos prisioneiros judeus e não apenas a estes? Os guardas e os oficiais SS estavam presentes e eram os agentes do Mal, ao contrário da banalidade entrevista na atitude de Adolfo Eichmann, que foi depois julgado em Jerusalém em 1962 e enforcado. Eram apenas monstros.

© João Tomaz Parreira

CONTRA A USURA: A BÍBLIA, A POESIA E “O CAPITAL”

CONTRA A USURA: A BÍBLIA, A POESIA E “O CAPITAL”

JTP24
©  João Tomaz Parreira

A usura nada cria, no dizer do poeta americano Ezra Pound (1885-1972), mas é um modo de produção exploratório, escrevia Karl Marx em “O Capital”.
Por seu lado, antes de todas as afirmações reprobatórias, a lei de Moisés contida no Pentateuco, no livro bíblico de Deuteronómio, determinava que “se emprestarem alguma coisa a outra pessoa, não poderão entrar-lhe na casa para se apoderarem de um penhor ou reaverem o que emprestaram (…) se o homem for pobre e não puder dar-vos mais do que o próprio cobertor com que se cobre, vocês não podem dormir sob ele.”(O Livro- A Bíblia para Hoje)
No que possa concernir à usura, nem sequer pensar. A usura não podia jamais estar ao serviço da grande caridade, no Velho Testamento, muito menos no serviço cristão. O uso da usura acaba por ser um pecado contra a Moral bíblica e filosófica. E contra a Virtude.
Já no século passado o filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961) escrevia que  a filosofia é um esforço para reaprender como ver o mundo, mas no que concerne à usura o mundo não aprendeu nada nem com a filosofia e nem infelizmente com as leis divinas.
De facto, o próprio Aristóteles, escreveu no decorrer do ano 300 a.C, em um dos seus oito livros sobre a Política ( Πολιτικά ), estas sábias palavras:  “O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva? Ela foi inventada para facilitar as trocas; a usura, pelo contrario, faz com que o dinheiro sirva para aumentar-se a si mesmo”

A LEI MOSAICA (A BÍBLIA)
Qual a razão subjectiva que levou ao que significa o vocábulo “usura”
( nawshak) no hebraico, isto é, “mordida”, por extensão simbólica, uma boca de serpente venenosa que morde?
“Se emprestarem dinheiro a um vosso irmão hebreu necessitado, não o farão com interesse usurário” (Êx,22:25, O Livro).
“A teu irmão não emprestarás à usura; nem à usura de dinheiro, nem  à usura de comida, nem à usura de qualquer cousa que se empreste à usura.” (Deuteronômio 23: 19-20).
O povo hebreu, no contexto da sua saída do Egipto e peregrinação para a Terra Prometida, e no futuro como Pátria da Bíblia, não poderia dar o seu dinheiro a juros, nem fazer caridade com seus víveres para obter lucro – dizia o livro de Levítico.
E, no entanto, na Idade Média, os judeus cobravam por empréstimo uma taxa ao ano de 20%.
Podemos agora legitimamente intuir, que, no século XVIII, o próprio Karl Marx leu estes parágrafos legais da Torah. A sua obra clássica, “Das Kapital”, tão detestada como incompreendida sustenta uma luta também contra a usura, a rondar a terminologia bíblica.

O CAPITAL
Do ponto de vista económico, Marx é peremptório e indesmentível: “A usura explora um dado modo de produção: não o cria”, isto é, cria riqueza sem trabalho e apenas em um sentido, o do próprio emprestador. Marx continua: “A usura atingiu nesta época uma tal amplidão, que já não quer ser vício, nem pecado, nem vergonha, mas quer fazer-se passar por grande virtude e bela honra, como se fizesse grande caridade às pessoas” (O Capital – Marx, Karl;  Delfos, 1975-529 )

A POESIA
Na poesia bíblica, designadamente no Livro dos Salmos, há uma composição considerada didática, o Salmo 15, que introduz uma pergunta inicial à consciência daquele que procura temer a Deus e viver em santidade. Todo o contexto deste Salmo, seja qual for a sua versão, vai no sentido dos que temem ao Senhor e desejam encontrar refúgio na Sua casa ( “Senhor, quem pode achar refúgio na tua casa, / e ficar contigo no teu santo monte? – O Livro).
“Aquele que / não empresta seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem assim conduz sua vida caminhará seguro e em paz.” (Bíblia King James Actualizada)
Na poesia não religiosa, ou dita secular, a usura é invectivada duramente,  ainda que em discurso poético por um poeta que tinha uma ideia sui generis sobre a economia, Ezra Pound. A sua demonização da usura exprime vergonha por uma realidade social. O seu código verbal não deixa margem para quaisquer dúvidas.
Trata-se de um dos cantos do poeta americano, um libelo em forma de ode, que faz parte da obra-prima “Os Cantos” que ocupam lugar fundamental da Literatura Universal do século XX.  Numa auto visão da obra, que o próprio poeta considerou épica, Pound ao condenar a Usura, reuniu história e economia, e disse: “ Não há história, sobretudo na nossa época, sem economia.” É o tema principal dos Cantos 31 a 51, entre os quais está o 45, repetindo o poeta a mesma ideia no 51:   Escreve o poeta estado-uninense em ambos os Cantos: “ Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra / (…) Com usura / nenhum homem tem um paraíso / pintado na parede de sua igreja / ou onde a virgem receba a mensagem / Com usura / a lã não chega ao mercado / a ovelha não dá lucro com a usura / A usura é uma praga / Usura mata a criança no ventre” (Os Cantos, Antologia Poética, Tradução de Augusto de Campos, Editora Ulisseia, 196? e  Os Cantos, Tradução de José Lino Grünewald, Editora Nova Fronteira,1986)
Afirmações que não são nem gerais nem abstractas, que seguem, de resto, a lição de Ezra Pound quanto ao não uso de linguagem supérflua: “o adjectivo quando não dá vida, mata” – disse ele.  #

O “CONSOLADOR” NA VIAGEM DO PEREGRINO

O “CONSOLADOR” NA VIAGEM DO PEREGRINO

JTP22

© João Tomaz Parreira

Uma grande obra viva da imaginação, é assim que pode ser tratada a alegoria «O Peregrino» de João Bunyan, justamente considerado o maior ficcionista inglês do século XVII e que utilizou para a sua prosa um único modelo – a Bíblia, por isso lhe chamaram mais «Bispo Bunyan» que romancista.
Com tradição literária desde os poetas latinos a Dante, por exemplo, a alegoria tomou nesta obra-prima da literatura cristã do século XVII um lugar especial, de realismo quase moderno- como alguém escreveu-, o da realidade moral e espiritual da vida progressiva do cristão, do seu trajecto para a Cidade de Deus.
Estudos feitos sobre essa obra, no âmbito da história da literatura inglesa, dão conta de que se trata, com efeito, de «uma história realista, contemporânea e autêntica», não obstante a sua vasta formulação espiritual.
É nesse desenvolvimento do seu conteúdo espiritual que as principais personagens simbólicas de «O Peregrino» ganham o significado teológico que a Bíblia Sagrada lhes confere. Uma dessas personagens, por assim dizer, do romance alegórico de Bunyan, com o seu significado simbólico e a sua realidade bíblica, é, sem dúvida, o Intérprete. (Págs. 37-47, Edições NA, 1977)
Foi este tratado ao longo dos últimos três séculos por diversas entidades académicas e personalidades evangélicas como uma das figuras tipológicas mais influenciadoras do sucesso da viagem do Cristão, constituindo uma das etapas fundamentais da sua viagem sonhada, quando cheio de ânimo deveria parar na «residência do Intérprete» e ali «ouvir coisas muito úteis e excelentes». Por aproximação que deixa entrever através dos véus literários da sugestão, do mistério, da alegoria, e das citações bíblicas, a sua condição de guia, é tratado também como sendo a figura do Consolador.
Separando o simbólico do teológico, não é difícil entender qual é o papel neotestamentário do Espírito Santo na vida dos crentes.
Os detalhes existem no decorrer do diálogo entre o Intérprete e o Cristão. O trajecto cristão é feito de lutas mas de poder para vencer as mesmas. E esse poder só pode ser o poder do Pentecostes, do Consolador, do Guia que é, também na acepção do livro de Bunyan, a Terceira Pessoa da Trindade. Jesus Cristo ensinou que uma das funções do Espírito Santo é ser o intérprete e guia a toda a verdade, «porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão-de vir.» (1)
O pormenor de uma das falas do Intérprete, dirigindo-se ao Cristão, que flutua entre a esperança e o temor, é um bálsamo desta alegoria sobre a presença indispensável do Espírito Santo na nossa vida: «Parte, pois, e que te acompanhe o Consolador, sendo sempre teu guia até à cidade (celestial) » (pág. 47)
São importantes também para a pedagogia que Bunyan coloca objectivamente neste capítulo, os actos simbólicos encenados para ilustrar realidades espirituais.
A renovação pentecostal do crente («o azeite deitado no fogo por Cristo», pág.42), o perigo mortal da blasfémia contra o Espírito Santo, o não causar tristeza a essa Divina Pessoa, o Dia do Juízo Final ou uma referência ao novo filho pródigo, que é aquele que quer apenas os bens terrenos, actuais, e não se preocupa com as coisas mais excelentes, os bens futuros, celestiais. Indubitavelmente um retrato antecipado do homem «materialista religioso» pós-moderno.
Finalmente, nesse romance que o próprio autor certamente não chamaria assim, existe a honestidade de afirmar várias vezes que se trata de «um sonho».
«Em breve adormeci e tive um sonho». No início da obra, o escritor introduz o leitor num ambiente que, apesar de tudo, tem pouco de onírico e bastante realista.
A intenção de Bunyan não foi fazer uma nova doutrina sobre a carreira cristã, mas ao mesmo tempo que pregava, no seu livro, o Evangelho, foi estabelecendo com as vicissitudes pelas quais passou a personagem principal, passo a passo a caminhada da vitória. É com um sentimento de honestidade que a meio do livro (pág.97) reafirma- «Vi, então, no meu sonho ».
No fim do mesmo, torna a escrever «E nisto… acordei, e vi que tudo fora um sonho».
Com efeito, é uma meditação religiosa e ao mesmo tempo a narratividade da história realista do cristão, e hoje como há três séculos, o leitor avisado e crente sincero despe as alegorias da fantasia natural para as vestir com os trajes da realidade do quotidiano.
O cristão, filho de Deus, nascido de novo, na sua vivência diária, já não vive hoje na figuração da realidade através de alegorias, mas na realidade ela mesma de que foi chamado pelo Pai para «a comunhão de seu Filho Jesus Cristo», sabendo que se lhe aplica uma benção trinitária: a graça de Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo, com qual sempre terminamos nossas reuniões religiosas.
Embora não exista nenhuma igreja denominacional explícita em «O Peregrino», há, sim, um compromisso, para além de tudo o mais, do cristão que avança, vitorioso, mesmo confrontado com situações-limite até à cidade celestial. O cristão que, simultaneamente personagem e pessoa real, nesta história «conhecia e praticava a difícil arte de ser paciente na tribulação e de transformar os obstáculos em trampolim para o sucesso».(2)
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(1)-João 16, 13
(2)- João Bunyan, Ensaio Biogáfico, de Carlos Dubois, Juerp, 1968

NO EVANGELHO DE LUCAS, 24, 5-6 – POESIA E MEMÓRIA

NO EVANGELHO DE LUCAS, 24, 5-6 – POESIA E MEMÓRIA

JTP21
© João Tomaz Parreira

 

Why seek ye the living among the dead?
He is not here, but is risen – Estrutura de linguagem poética

Remember how he spake unto you when he was yet in Galilee, Saying, The Son of man must be delivered into the hands of sinful men, and be crucified, and the third day rise again. - Memória
(Versão King James):
Poesia e memória, seguindo os estudos  linguísticos de  Saussure e Hjelmslev no que concerne à poética,  é o que encontramos nesta afirmação cheia de significantes e de conteúdo da linguagem dos anjos,  tornada humana na sua discursividade. Porque segundo o Evangelho, o significado já não estava no sepulcro e assim só nos sobram as palavras.

Poesia e memória, isto é, uma estrutura poética na forma de se expressarem os seres angelicais no sepulcro vazio; e um avivar da memória das mulheres que foram, no domingo de manhã, ao túmulo onde puseram Jesus Cristo.
O modo expressivo como os “dois homens em traje resplandecente” falaram às mulheres, grafado sobretudo na estrutura linguística da versão inglesa da Bíblia King James, exibe uma linguagem poética com ritmo, com ideias, com acento poético, diríamos poesia pura. Sabemos desde o século XVIII, pelo menos, que o verso branco, falta de rima,  não significa que não é poema.

Why seek ye
The living among the dead
He is not here,
But is risen

Não há nestes “versos” nenhum esquema rimático, mas existe uma melopeia. Há uma métrica subliminar, também explícita, em que planam as palavras. Estão aqui, num tempo em que não havia fotos, toda a verdade, a história e o retrato completo da Ressurreição de Jesus Cristo.

A versão em português de A Bíblia para Todos (BPT), exara assim as palavras dos “dois homens, vestidos com roupas brilhantes”:

“ Por que procuram entre os mortos
aquele que está vivo?”

Dois versos de uma musicalidade de redondilha maior (no primeiro), secundado com a afirmação da história do Cristianismo no que concerne à Ressurreição.

“Não está aqui porque ressuscitou”, quase um decassílabo.

A memória, para além da poesia, insere-se na memorabilia que os anjos usaram para recordar às mulheres, que foram ao tumulo, as próprias palavras de Cristo.

“Não se lembram do que ele vos disse, quando ainda estava na Galileia, que é preciso que o Filho do Homem seja entregue ao poder dos maus, que seja pregado numa cruz e que ao terceiro dia ressuscite? Elas então lembraram-se daquelas palavras.” ©