a.C. – d.C.

a.C. – d.C.

SamuelPinheiro 5

 A História divide-se entre antes e depois de Cristo. Biblicamente podemos dizer que Cristo é a chave da História tanto no antes como no depois. O antes e o depois é definido pela presença em carne e osso, na forma humana, de Deus entre nós. Pode até acontecer que um dia um qualquer anticristo imponha que o tempo se conte de modo diferente. Nesta corrente de acontecimentos em que tudo o que afirme Jesus Cristo é considerado uma afronta para o relativismo e pluralismo religioso tudo pode acontecer, por mais louco e absurdo que possa parecer. Mas na eternidade, antes de todas as coisas existirem Jesus é a chave da História. Ou seja em Jesus temos Deus e o Homem na terra – 100% Deus e 100% Homem. Um mistério certamente, mas na natureza e na essência é isso que sucede. Não temos duas pessoas ou duas personalidades, mas uma só Pessoa e uma só Personalidade. Essa Pessoa e essa Personalidade é Deus connosco.
A realidade é que esta verdade no tempo é apenas o reflexo da verdade eterna. Tudo o que tem a ver com o plano divino e com o Seu mover na História, existe desde sempre na eternidade. Antes da fundação do mundo o Cordeiro de Deus – Jesus Cristo, foi destinado para morrer a nosso favor conforme nos informa o Espírito Santo pelo apóstolo Pedro na sua primeira carta: “Saibam que foram resgatados daquela vida inútil que tinham herdado dos antepassados. E não foi pelo preço de coisas que desaparecem, como a prata e o ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo, como o de um cordeiro sem mancha nem defeito. Ele tinha sido destinado para isso, ainda antes da criação do mundo, e manifestou-se nestes últimos tempos para vosso bem. Por meio dele crêem em Deus, que o ressuscitou dos mortos, e o glorificou. E assim a vossa fé e esperança estão postas em Deus.” (1 Pedro 1:17-21 – BPT).
Na mesma linha de revelação o apóstolo Paulo fala a respeito de todos os que crêem em Jesus, e que segundo o eterno propósito divino foram escolhidos para uma nova vida segundo a Sua natureza de santidade e amor. “Pois, antes de o mundo existir, ele escolheu-nos para juntamente com Cristo sermos santos e irrepreensíveis e vivermos diante dele em amor. Ele destinou-nos para sermos seus filhos por meio de Cristo, conforme era seu desejo e vontade, para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.” (Efésios 1:4-6 – BPT).
O amor das três pessoas da Trindade será contemplado e usufruído na sua plenitude pela nova humanidade recriada em Jesus. Esse amor preenche de modo absoluto a eternidade no absoluto divino, e nós estamos vocacionados a contemplá-lo e a vivenciá-lo: “Pai! Que todos aqueles que me deste estejam onde eu estiver, para que possam contemplar a glória que me deste, porque tu amaste-me antes que o mundo fosse mundo.” (João 17:24 – BPT).
O nascimento de Jesus a que se refere o Natal, é o acontecimento na História do que desde antes da criação de todas as coisas Deus tinha determinado que haveria de ser. Deus não foi surpreendido pela decisão do homem de romper com uma vida e natureza em conformidade com a Sua natureza e essência. O homem preferiu a ciência do bem e do mal e ainda hoje se debate com toda a sorte de frutos amargos, envenenados e podres que daí decorrem. O homem foi criado para viver no amor divino, e não na dialética do bem e do mal.
Um dia destes o tempo como o conhecemos atualmente, marcado pela morte, sofrimento, dor, miséria, fome, guerras, violência, iniquidade, corrução e imoralidade, desaparecerá por completo, e um novo tempo cheio do que a eternidade divina representa será instaurado. Deus habitará com os homens e até os instrumentos de guerra serão transformados em utensílios de lavoura, a ovelha pastará com o leão e a criança brincará com a áspide. Nesse dia céu e terra serão uma mesma realidade.
O plano divino consiste em reunir tudo em submissão a Jesus Cristo. “Deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha determinado realizar por meio de Cristo. Esse plano consiste em levar o Universo à sua realização total, reunindo todas as coisas em submissão a Cristo, tanto nos Céus como na Terra. Foi também em Cristo que fomos escolhidos para sermos herdeiros do seu reino, destinados de acordo com o plano daquele que tudo opera conforme o propósito da sua vontade. Louvemos, portanto, a glória de Deus, nós que previamente já pusemos a nossa esperança em Cristo.” (Efésios 1:9-14 – BPT). Natal é Deus tornando-se parte da humanidade para a redimir e resgatar, trazendo-a de volta ao Seu amor. O amor triunfa radicalmente na vida e morte de Jesus, bem como na Sua segunda vinda para estabelecer novos céus e nova terra. Celebrar o Natal é celebrar esta vitória na nossa vida e na História!
Samuel R. Pinheiro
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O PRINCÍPIO DA NOITE DA TRAIÇÃO – PERSPECTIVAS

O PRINCÍPIO DA NOITE DA TRAIÇÃO – PERSPECTIVAS

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© João Tomaz Parreira

Da nomeação à representação icónica do traidor e da aceitação por parte deste de trair Cristo, os Evangelistas são comedidos em revelar explicitamente o nome de Judas. Só o Evangelho de Mateus, em discurso directo, nos informa que Jesus disse ao próprio que era ele, Judas, que o trairia, porque este lhe perguntou. “Porventura sou eu, Rabi?”, “ Tu o disseste.” – respondeu Jesus Cristo.
E cremos por todos os contextos dos sinópticos e do impar Evangelho joanino, que nenhum dos outros onze discípulos soube clara e explicitamente quem seria o traidor. É, todavia, João quem revela o mistério a João.
Visto de longe, isto é, perspectivando este acto dito fundacional que levou Jesus Cristo historicamente ao Calvário, baseando-nos nos quatro Evangelhos, permitimo-nos pensar o que estava a ocorrer naquele momento, psicológica e fisicamente, com palavras e olhares. Uma comoção, diríamos uma perturbação da alma colectiva que entristeceu o Cenáculo como uma preparação para a Morte.
Jesus Cristo quis muito aquela última Ceia com os discípulos. “ Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça” – confidenciou-lhes o Mestre. A hora em si mesma já estava trespassada de tristeza. Comer sozinho seria experimentar ou sofrer uma solidão peculiar. A partilha de comida e bebida, por outro lado, chegava até ao mais íntimo da condição sócio-cultural daqueles dias.
O filósofo e crítico literário George Steiner (Paris, 1929-), a este propósito escreveu um célebre ensaio denominado “As duas Ceias” (Two Suppers), no qual compara a Última Ceia dos Evangelhos e “O Banquete” de Platão” sob a égide do Amor Ágape, que, segundo ele, está no conteúdo de ambas.
Aquele filósofo parece privilegiar na Última Ceia o que poderia ter sido Alegria e foi Tristeza, do ponto de vista humano, e não foi só por causa do anúncio do Mestre sobre “alguém” dos doze que o iria trair. Foi também pela Sua solidão, não obstante estar acompanhado. Na obra “O Leitor” narra uma parábola: numa remota vila da Polónia havia uma pequena sinagoga. Uma certa noite enquanto fazia a sua ronda, o Rabi entrou e viu Deus sentado a um canto escuro. Caiu por terra e gritou: “Senhor Deus o que fazes aqui?” O Senhor respondeu-lhe não com voz de trovão, nem num turbilhão de vento, mas com uma voz suave: “Estou cansado, Rabi, estou cansado até à morte”.
Do mesmo modo, aquela Última Ceia antecipava já a tristeza até à morte de Jesus no Getsémani.
“Um de vós me há-de trair”
Há uma questão simples que carece de respostas há dois milénios, para podermos entender o ambiente do Cenáculo.
Na arte pictórica interpretativa do momento do anúncio da traição, Leonardo da Vinci pôs ao nosso dispor a surpresa e a tristeza dos apóstolos, no mural “A Última Ceia”, sobretudo o choque que o rosto de Judas reflecte. Mas isso foi na Arte, na realidade andou por estes caminhos do espanto?
Partindo da chamada “harmonia dos Evangelhos”, da JFA revista e corrigida, percebemos que sim, mas pergunta-se:
1.Jesus falou em voz alta?
2. Só os que estavam perto de Jesus ouviram?
3. Ouviram o nome ou discerniram quem era o traidor?
4. Viram todos a quem Jesus deu o bocado de pão ensopado?
5. Todos tomaram atenção à saída de Judas depois disso?
Ficam as questões.
As respostas estão obviamente nos quatro Evangelhos, mas o mistério também. Mas é o chamado Evangelho Teológico, como era conhecido o de João logo nos inícios da era cristã, que reproduz toda a factualidade e o cerne psicológico da particularidade da ocasião.
Mateus e João desenvolvem na sua diegese o conflito interior pelo qual passaram os Doze. Ao descreverem esse conflito fazem com que o leitor o sinta, mesmo sem o auxílio, por exemplo, do melhor retrato já referido que é, sem dúvida, a tela de Leonardo da Vinci. Acerca desta pintura escreveu alguém que a mesma “não é tanto uma excelsa obra de arte. É igualmente uma minuciosa representação da resposta dos Doze às palavras de Jesus: “Um de vós me há-de trair”.
À luz da historiografia bíblica de hoje, dir-se-ia, com um pouco de exagero, que o acontecimento poderá levar-nos à política religiosa judaica de então e, assim, à religião, estando ambas em conflito. A traição e a necessidade de que assim começasse a acontecer profeticamente para a nossa Salvação.
“ E se alguém lhe disser: Que feridas são estas nas tuas mãos? Dirá ele: São feridas com que fui ferido em casa dos meus amigos.” (Zac XIII, 6)
E não só os cravos perfuraram as mãos do Filho de Deus, mas também a traição do amigo que lhe feriu a alma. Nunca se é traído senão pelos seus, costuma-se dizer. Quem sabe se não foi pela traição no Hamlet de Shakespeare que o dito se generalizou.  ©

PORQUÊ SE DEIXARAM MORRER?

PORQUÊ SE DEIXARAM MORRER?

JTP17

Ler ou ouvir o poema cantado “The End” da mítica banda norte-americana The Doors, apesar da sua estrutura metafórica e da sua semiótica, deixa-nos uma simples e triste mensagem: a morte é a nossa única amiga.
Parece uma canção desesperada, mas é aceite como natural na voz neutra, sem emoções, de Jim Morrison (1943-1971), jovem mito sepultado no cemitério Père Lachaise, em Paris.
“Este é o fim
Belo amigo
Este é o fim
Meu único amigo, o fim
Dos nossos elaborados planos, o fim
De tudo que resta, o fim
Sem salvação ou surpresa, o fim”
Fica-nos a questão para reflectir, por que razão jovens idolatrados pela juventude se deixaram morrer, ou pelo suicídio ou pela adição às drogas? Perde-se no meio do cântico, que é mesmo em estilo de rock psicadélico ou progressivo, conforme os especialistas, um apelo que passa despercebido no caudal do poema escrito por Morrison: “
“Desesperadamente a precisar da mão de algum estranho
Em uma terra de desespero”

Jim Morrison, que usou nos seus versos referências edipianas ( do mito Édipo, de Sófocles), divindade do rock introspectivo dos anos 60/70,  acaba por morrer de ataque cardíaco derivado do abuso das drogas ácidas, LSD, heroína, etc., a morte psicadélica e caleidoscópica dentro do cérebro.

Em 1969, o músico afirmava: “Toda a vez que escuto “The End”, ela significa algo mais para mim. Começa como uma simples canção de despedida provavelmente para uma namorada, mas eu a vejo como uma despedida para um tipo de infância. Eu sinceramente não sei.”

Jim transpunha para as suas músicas toda uma tendência freudiana para analisar os seus traumas de infância e, sobretudo, de juventude. Los Angeles não era um lugar fácil.

Antes dele e trilhando o mesmo caminho, do “único amigo, o fim”, outro ícone da minha juventude: a cantora Janis Joplin (1943-1970), a maior interprete de blues e da soul music, dos anos 60, também se deixara morrer, isto é, foi morrendo aos poucos.
Corre na web, ligado a uma das suas interpretações mais célebres (“Me & Bobby McGee”) um cartaz sobre a cantora que diz:

“Janis Joplin (1943-1970) Drugs took her at 27. Please make a different choise” (“As drogas levaram-na aos 27 anos. Por favor, faça uma escolha diferente”)

Tal não escolha ou escolha errada integrava alguns dos seus cânticos em forma de Blues mais celebrizados e que ainda hoje, com 70 anos, ouço com um nó no coração, não apenas pela sua voz, mas porque se sabe que, na sua adolescência fez parte de um coro de igreja.
A sua vida desde aí não foi um chão de flores, embora se vivesse nos anos 60 a era das “flores no cabelo” dos hippies californianos.
A revista da especialidade “Rolling Stone”, de Agosto de 1970, escrevia que a cantora se desgastara embora animadamente, como quem “dança à chuva”.

Um ou dois exemplos. A letra/ poema “Cry Baby” não é só um poema de amor, mas é um texto que, na voz da cantora, reflecte a dor de uma separação com um pedido premente:

“Querido, bem-vindo de volta a casa / Venha e chore, chore, querido” É uma canção em que a estrada termina, significando isso o que significar na vida, sobretudo quando a dada altura se ouve/lê:
“Querido, venha para a sua mãe agora / Se você quer ter o amor de uma mulher ”.(“I want you to come on, come on to your mama now / And if you ever want a little love of a woman”)
Há uma outra letra/poema de amor desesperado em que o coração de mulher, mulher-companheira, mulher-mãe, se vai desfazendo. “Piece of My Heart” na voz de Janis fala da tristeza que contradizia a exuberância da moda hippie das vestes da cantora.  Começa a conhecer-se um coração destroçado.
“Leve outro pedacinho do meu coração agora, querido! / Oh, oh, quebre-o!
Quebre outro pedacinho do meu coração agora, querido, sim, sim”
Ela trocaria todos os seus amanhãs por um único ontem. Aos 27 anos não pode mais, a sua vida desbotada como as suas jeans. Apesar da liberdade não ser mais do que uma palavra que não se podia perder, Joplin suicidar-se-ia em 1970, ou antes, seria vítima de overdose de heroína.
As drogas continuariam a fazer as suas vítimas. Poderia ter escrito sobre tantos outros, como Kurt Cobain, saudado como “ porta-voz de uma geração”, da banda “Nirvana”, que aos 27 anos também se suicidou com um tiro de espingarda.
Relembro aqui, finalmente, Amy Winehouse, a qual se despedaçou – é o termo que me ocorre – da sua beleza e da sua grande voz, para uma morte igualmente aos 27 anos, engolida pelas drogas e o abuso do álcool, foi encontrada morta na sua casa de Londres, em 2011.
No livro bíblico Eclesiastes, que, de um modo especial em relação a toda a Bíblia Sagrada, é de per se um roteiro de boa vivência e de boa vizinhança com Deus, somos ajudados há milénios a entender-nos ontologicamente e o que podemos obter da vida, do ponto de vista da praticidade do nosso quotidiano, porque não se está na vida por acaso, embora o poeta Álvaro de Campos desse a entender que sim.
O Pregador, sem uma Teologia explícita, abre-nos, por exemplo, todo um conjunto de aplicações do tempo no Tempo e toda uma regra básica de sobrevivência, ligada aos valores com Deus. Leia-se o Eclesiastes, onde o bem da juventude é primacial. “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias”

© João Tomaz Parreira

“Na casa de meu Pai há muitos lugares”

“Na casa de meu Pai há muitos lugares”

SamuelPinheiro 2016out

Um dia vamos partir. Não temos residência permanente aqui. Estamos de passagem. Somos forasteiros e peregrinos. A nossa hora chegará impreterivelmente. Não há como contornar ou escapar. Apenas escaparemos à morte se Jesus vier antes. Este é o último inimigo a ser defrontado, mas é já um inimigo vencido porque Jesus morreu e ressuscitou. Isso significa que a morte já não tem poder sobre nós. O apóstolo Paulo exulta de modo apoteótico no capítulo quinze da primeira carta que o Espírito Santo inspirou para ser remetida em primeiro lugar à igreja na cidade de Corinto: “Ó morte, onde está agora a tua vitória? Onde está o teu poder de matar? O poder da morte é o pecado e o que dá poder ao pecado é a lei. Graças a Deus que nos deu a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo!” (versículos 55 e 56 – BPT).
A declaração que nos serve de título foi proferida por Jesus Cristo. Na realidade só Ele a podia fazer considerando a Sua identidade como o Filho de Deus, o próprio Deus entre nós como o Homem. A morte não faz parte dos planos futuros de Deus, nem dos Seus planos criativos. Ela é a antítese de Deus. Deus é vida. A desobediência, o pecado, é que introduziram a morte na raça humana. O homem não foi criado para morrer, mas para viver a vida de Deus para sempre. Jesus veio porque nenhum homem  podia destruir o poder da morte. Só Ele estava em condições de a destruir e foi isso que Ele fez. Mas ela não podia ser destruída por decreto, tinha que ser destruída passando por ela, experimentando-a. Deus não pode estar sujeito à morte. Não sendo gerado em pecado e não tendo nunca cometido pecado, a morte não tinha domínio sobre Jesus e Ele não podia ser morto. Só Ele se podia sujeitar de vontade própria à morte, e ainda assim, segundo a determinação divina, suportando sobre Si todo o nosso pecado. Por isso desde esse momento, o pecado e a morte foram destruídos. O perdão está ao nosso alcance, é-nos oferecido e com ele a libertação da pena de morte.
Na morte estaremos sozinhos, ninguém estará lá para nos acompanhar, a não ser que entreguemos antecipadamente a nossa vida nas mãos de Jesus nosso Criador e Redentor, Salvador e Libertador. Por isso David, o Salmista, no Salmo vinte e três, inspirado pelo Espírito Santo e ainda antes da vinda de Jesus á terra na Sua missão salvadora, pode declarar em fé: “Ainda que eu atravesse o vale da sombra da morte, não terei receio de nada, porque tu, Senhor, estás comigo. O teu bordão e o teu cajado dão-me segurança.” (verso 4 – BPT)
Não gosto da morte. A morte é uma afronta, um “ente” estranho, um intruso. A partida dos meus próximos, dos meus entes queridos e amigos perturba-me, é um momento doloroso a separação. A Bíblia não esconde a dor causada pela morte de várias personagens, não esconde inclusivamente o facto de que Jesus chorou diante do sepulcro do seu amigo Lázaro, que logo haveria de trazer de volta à vida. Só o Criador para sentir como nenhum outro a perturbação causada na Sua obra pelo pecado. O Novo Testamento não cala a dor e as lágrimas em um ou outro momento da morte de alguns dos seguidores de Jesus. Mas essa dor perfeitamente compreensível é acompanhada de uma gloriosa esperança. No episódio da ressurreição de Lázaro Jesus declarou a Marta, uma das irmãs do defunto: “Eu sou a ressurreição e a vida. O que crê em mim, mesmo que morra, há-de viver. E todo aquele que está vivo e crê em mim, nunca mais há-de morrer. Crês tu nisto?” (João 11:25,26 – BPT)
Quando Jesus proferiu as palavras que usamos como título neste editorial, Jesus começa por sossegar o coração dos Seus discípulos e trazer-lhes ânimo e conforto, fé e esperança: “Não estejam preocupados. Uma vez que têm fé em Deus, tenham também fé em mim! Na casa de meu Pai há muitos lugares; se assim não fosse, ter-vos-ia dito que vou preparar-vos um lugar? Eu vou à vossa frente para vos preparar lugar. E depois de vos ir preparar um lugar, hei-de voltar para vos levar para junto de mim, de modo que estejam onde eu estiver.” (João 14:1-3 – BPT) A razão das razões pra crermos em Jesus é a vida e não a morte. Crer em Jesus significa vida e ainda mais vida, para usar a expressão que Eugene H. Peterson, usa na paráfrase A MENSAGEM (Filipenses 1:21). Como escreveu o apóstolo Paulo acerca de si mesmo, nós também em Jesus, podemos dizer o mesmo: “De facto, para mim o viver é Cristo e o morrer é ganho” (Filipenses 1:21). Só em Jesus o além deixa de ser manipulado pelas trevas, para ser iluminado pela Sua vida e pelas Suas palavras.
Samuel R. Pinheiro
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A RESPIGADORA, UMA FIGURA FUNDACIONAL DO VELHO TESTAMENTO

JTP15Ao contrário do que escreve o poeta John Keats (1795-1821), na célebre Ode a
um Rouxinol sobre Rute, atribuindo-lhe um coração triste “quando recordava o
seu lar e chorava diante das searas dum país estrangeiro”,  a verdade é que
esse pathos nostálgico da saudade se transformou em ânimo para aceitar a
vida nova em terra estranha e um trabalho humilde que, aparentemente, a
secundarizava.

No livro bíblico de Rute, canonicamente colocado entre Juízes e os I e II livros
de Samuel, o profeta que poderia ter sido rei numa teocracia, a diegese é um
relato que tem a força da emocionalidade e do profético, da beleza dos
sentimentos à necessidade da afirmação messiânica no meio de um povo
israelita,   governado por Deus através de juízes, que o próprio Senhor suscitou ( Juízes, 2,16)
Em síntese, escreve um comentarista da Bíblia Sagrada JFA, da Editora Vida
Nova, “O livro de Rute descreve a direcção providencial de Deus na vida de
uma família israelita.”

Tal narrativa de vida não deixa de ter a poética – no sentido aristotélico que
determina que sentimos deleite perante o que lemos – a valorizar os
acontecimentos e a conferir-lhe uma estética que é o Belo na vida de Rute e o
que esta representa na genealogia do rei teocrático David, cuja linhagem vai
até Jesus.

OS VERSOS DA ODE DE JOHN KEATS

A celebrada Ode tão cheia de melancolia do canto do rouxinol, que o poeta
romântico inglês escreveu em 1820,  traduz uma visão da vida humana
transitória não isenta de sofrimento e de amargura, em contraste com o alegre
e despreocupado canto do rouxinol.
Esse  canto “pleno e calmo” da ave de Keats, no espaço textual da ode,
aparece com uma equiparação, que o embeleza pelo oposto,  entre a tristeza
do poeta perante a velhice, a mortalidade, o desejo de voar para fora do mundo e a imaginada tristeza que o poeta inglês pensa ver no semblante e na alma de Rute. Ele supõe que esta mulher da Bíblia, ao encontrar-se perante uma gente e uma terra estranhas, sofre da melancolia da saudade.

Os versos, repetindo-os, são os seguintes: “O espírito triste de Ruth, quando
recordava o seu lar / e chorava diante das searas dum país estrangeiro.”
(“Poesia Romântica Inglesa (Byron,Shelley,Keats)”, Inova, 1977, pág.88)
A expressão da natural tristeza e saudade que acompanha quem sai da sua
terra para outra estranha, no caso de Rute, não é contudo mostrada como tal
nas Belas-Artes do Clássico e do Barroco. Por exemplo nas telas a óleo de
Nicolas Poussin (1664) e de Barent Fabricius (1660), ambas revelando o
encontro feliz entre Boaz e Rute.

O DEVASTADOR CAPÍTULO 1 DO LIVRO

O que se iniciou como  tragédia, não era senão o começo do Plano divino.
A partir de um simples e pequeno núcleo familiar,  sem importância social aos
olhos humanos, Deus iria agir universalmente na História.
É, literariamente, uma saga familiar cuja narrativa se exprime num estilo
poético, dolorosamente poético, apontando de igual modo para uma história de
idealidade e de nobreza de carácter.
“Não me instes para que te deixe, e me afaste de ao pé de ti; porque aonde
quer que tu fores irei eu”( 1,16).
A dialogia (a estrutura de diálogo) que se percebe  nesta resposta de Rute à
sua sogra Noemi, desenvolve-se com qualidade visivelmente de poesia:  “ e
onde quer que pousares à noite ali pousarei eu”; como a própria menção do
estado converso de Rute ao Deus de Israel, é feita numa frase lapidar,
metacultural, metahistórica, numa expressividade idiomática antiga: “o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus”.

A narrativa descritiva da chegada de Noemi e Rute a Belém é em si mesma um
quadro em que a fraternidade, a alegria do reencontro fraterno resolve o
problema da saudade que estaria nos olhos interiores dos familiares e vizinhos, que agora eclodia em alegria comovida: “ entrando elas em Belém, toda a cidade se comoveu por causa delas, e diziam: Não é esta Noemi?”, (1,19)
Noemi, que é ainda a figura central da diegese, ciente do drama que vivera,
usa uma metáfora entre a imaginação e a realidade, ao declarar: “Não me
chameis Noemi (i.é. agradável); chamai-me Mara; porque grande amargura me  tem dado o Todo-poderoso”, (1,20)

A CENTRALIDADE DE UMA PERSONAGEM REAL

O facto de se considerar um livro canónico, integrando as Sagradas Escrituras
veterotestamentárias, de ser mesmo um livro da liturgia judaica durante a festa
do Pentecostes, tal não invalida que possa ser tratado como uma das mais
belas peças literárias da Bíblia Sagrada.
Assim, Rute é uma heroína em consequência da tragédia inicial que reverte em beleza e bênção.
Rute diante do que parece ser uma adversidade, adopta, pragmaticamente,
um modo de sobrevivência que só pode ser o sentimento e o bálsamo de Deus
a trabalhar no seu espírito.
No nosso século, com os instrumentos de análise do texto literário, lemos as
expressões do pensamento do puro amor -.ágape-,  sem sexismo ou
machismo prevalecente, uma antecipação  do romantismo, como um valor
imortal  no remotíssimo século XIII a.C.
“ Deixa-me colher espigas” disse Rute a Boaz. Este responde: ”Não ouves filha
minha? Não vás colher a outro campo, nem tão pouco passes daqui.(…)Os
teus olhos estarão atentos no campo que segarem(…), não dei ordem aos
moços, que te não toquem? Tendo tu sede, vai aos vasos, e bebe do que os
moços tirarem” ( 2, 8-9)
“Então ela caiu sobre o seu rosto, e se inclinou à terra” (2,10). Baixou os olhos,
por certo ruborizada. É poesia porque tem estrutura de verso e é simbólico de
uma atitude de respeito bem oriental. “Por que achei graça aos teus olhos”.
É um expressivo exemplo de lirismo que embeleza a humildade, não
a subserviência.  Um dos grandes poetas evangélicos clássicos brasileiros,
Jonathas Braga, escreve em “O Milagre do Amor” (poema longo sobre o livro
de Rute, de 1969): “Quem é essa criatura angelical que cisma / e a luz do seu
olhar sobre outro olhar abisma?”
Assim é o Livro bíblico de Rute: um quadro luminoso da gratidão, do apego aos
mais velhos e do amor com A maiúsculo.

© João Tomaz Parreira

FALAR COM DEUS EM CASTELHANO

JTP14

Esta expressão “ falar com Deus em castelhano”, que nada tem de estranha, é de uns versos de Miguel Torga (1907-1995), dedicados num poema a Miguel de Unamuno (1864-1936), no livro “Poemas Ibéricos”.
Torga diz de Unamuno,  poeta e filósofo espanhol em honra do qual tomou o nome Miguel no pseudónimo, que “ falava com Deus em castelhano/ Contava-lhe a patética agonia / Dum espírito católico, romano, / Dentro de um corpo quente de heresia”. Mas todos nós, de resto, falamos com Deus na nossa língua pátria.
Foi assim que o viu e sentiu os seus escritos, mas Miguel de Unamuno não foi “um corpo quente de heresia”, não foi de todo um herético, antes foi, por exemplo, um dos maiores leitores do Apóstolo Paulo, ainda que sob o prisma do sentimento trágico do Mundo.

E não foi assim que o apóstolo sentiu essa tragicidade, por exemplo, ao chegar a Atenas?

Também quando vislumbrou a tragédia espiritual que se podia estar a abater sobre os crentes cristãos da Galácia, conduzidos ao espartilho dos judaizantes?  Da rejeição e troca do Evangelho da Graça de Cristo por “outro evangelho”?

O mesmo sentimento de quase desânimo quando se dirigiu à comunidade cristã de Corinto, considerando os crentes ainda “meninos”, carnais, e submetidos a uma disputa de “lideranças”?

Outrossim quando, com a sua transparência e honestidade, profundamente ética e cristã, reconheceu que miserável homem que era (Ro 7:24), que não fazia o bem que queria, mas o mal que não queria esse fazia, não é com certeza o retrato da tragédia do ser humano, do seu sentimento de incapacidade própria perante o Bem e o Mal por causa do Pecado e da Queda?

Paulo sentiu como poucos esse sentimento trágico da vida, por isso se propôs anunciar o Evangelho da Graça de Deus como algo vital, necessário, imprescindível, o poder de Deus para a Salvação de todo aquele que crer.
Do sentimento trágico da Vida
A obra mais notável deste humanista – daí com certeza Torga falar de heresia- que foi Unamuno, é esse Del sentimiento trágico de la vida,  publicado em 1913, e na sua profundidade teológico-filosófica está repleto do corpus e do pensamento do autor das Cartas aos Romanos, aos Gálatas, etc.

Neste livro, trata o autor de El Cristo de Velásquez (poesia) acerca da vida dos homens e dos povos, designadamente o espanhol em período de convulsões e prestes a iniciar-se a hecatombe da Europa,  traça-lhes o destino da tragédia, com o ímpeto agónico (de agonia, no sentido de luta) de um religioso preocupado com o Homem e da necessidade deste de Deus. “ A este Dios cordial o vivo se llega, y se vuelve” ou “ Crêr en Dios es, en primera instancia al menos, querer que le haya, anhelar la existência de Dios”. – escreve o autor basco.    Neste sentido também vai outra obra de 1924, A Agonia do Cristianismo.
Ao passarmos pelo índice da obra “Del sentimiento…” a dimensão das temáticas tratadas dá-nos desde logo a grandeza desse tratado, diria de Teologia, são 12 capítulos repletos de Deus e do Homem, do Apóstolo Paulo e da Fé.

Depois de ler o Apóstolo Paulo, a Carta aos Hebreus e Miguel de Unamuno, só posso concluir que a Fé ( a “Pístis”, no grego, confiança)  é, também, um binóculo que transporta para perto de nós o que não está claro e ainda está distante.   A Fé já tem em si mesma a demonstração do que se não vê.
© João Tomaz Parreira

PESSOA E JOSÉ GOMES FERREIRA: A LÍRICA DOS BOMBARDEAMENTOS

© João Tomaz Parreira

JTP13Se para Nietzche não havia factos, mas, sim, interpretações, para os poetas a guerra sendo uma interpretação do Mal, ou uma subserviência ao mesmo por parte do ser humano, é sempre escrita nos poemas como um facto, a morte não é uma metáfora; morrer sim, pode constituir-se metáfora: “Morrer devia ser assim…/ Boiar estendido numa nuvem” (JGF)
Poeta que levou à poesia o confronto dialético entre as metáforas luminosas, imagens que saem da antimatéria da mente para a realidade e as críticas ao Estado Novo, à ditadura salazarista – como um neo-realista-, e às incertezas do homem nas terríveis e atribuladas décadas de 30 e 40, não apenas em Portugal, mas na Europa, José Gomes Ferreira escreveu com a sua consciência mais do que com a pena, um prestidigitador das imagens poéticas. Mas, a verbalidade rica da sua poesia não era dúbia, era sim, sim, não, não. Mário Dionísio, outro poeta dissidente, digamos assim, do Novo Cancioneiro, preconizou que JGF seria “cantado nas ruas”, como poeta “essencial”.
Do conjunto ou livro de poesias denominado “Invasão”, de 1940-1941, no contexto da II Guerra Mundial, escreveu entre outros, o poema para uma cidade “fortemente bombardeada”, em que a ironia é sangrenta e, diria até apesar de já muito tardia, expressionista:
O general entrou na cidade
Ao som de cornetas e tambores…
Mas porque não há “vivas”
Nem flores?
Onde está a multidão
Para o aplaudir,
Em filas na rua?
E este silêncio?
Caiu de alguma cidade da lua?
Só mortos por toda a parte,
Mortos nas árvores e nas telhas,
Nas pedras e nas grades,
Nos muros e nos canos…
Mortos a enfeitarem as varandas
De colchas sangrentas
Com franjas de mãos…

(Ferreira, Poesia II, Portugália, 1973, 134)
Falando de outra guerra, mas sempre com a nitidez de uma fotografia, Fernando Pessoa demonstra a ternura como a desse poema O Menino da sua Mãe, ao mostrar-nos a “criança loura” que “jaz no meio da rua”, nos versos “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”. O menino da sua mãe, soldado, e a criança loura, são vítimas à sua maneira,  afinal vítimas de quem manda nas nações e podem ser senhores da guerra.
Com dois versos que suplantam na tristeza das palavras alguns versos da poesia expressionista alemã nos anos 20 do século passado, Pessoa inquieta-nos sempre com os resultados que conhecemos, todos, das guerras modernas e dos bombardeamentos.
Poderíamos invocar o conflito civil actual na Síria, ou a “guerra” traiçoeira dos actos terroristas, nesta visão da criança loura:
“A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe
-Dos que boiam nas banheiras-
À beira da estrada.”

(Pessoa, Poesias, Ática, 1973, 249)

O recurso de identificar os momentos de alegria decepados da criança morta através dos brinquedos, dá-nos a dimensão da dor e da tristeza. A imagem transfigura-se,  a criança morta torna-se uma realidade, os versos são como uma fotografia de um repórter de guerra. São realistas e por isso penetram na interioridade do real.
Perante  a dupla imagem,  semântica e visual,  tendemos a fechar os olhos, a dureza de “as tripas de fora” e a referência a “uma corda”,  como uma ligação à vida no brinquedo agora para sempre ignorado.
A criança abandonada é um apelo  para o fim dos conflitos sangrentos, coisa que seria das mais relevantes no mundo moderno a par da submissão ao Evangelho de Cristo.
Este poema de Pessoa, sem data, é uma verdade também.  É uma fotografia escrita do Mal.  É um engulho para todos aqueles que têm por “profissão de fé” atribuir pontas soltas na Criação Divina, ou a Deus, recorrem sempre a uma: o Mal. Salvo melhor comparação, é como se, no domínio da física, a matéria se misturasse com a antimatéria: aniquilar-se-iam ambas.

25-04-2016

ESTRANHOS AO SEU DISPÔR…

Ricardo Jorge Mendes Rosa

RicardoRosa_6Quem cresce no seio do Cristianismo, pode por vezes crescer com uma visão toldada da realidade que o rodeia. Ao lermos os versos magnos do terceiro capítulo do Evangelho segundo S. João, percebemos que o amor de Deus pela Sua criação principal (o Homem) é profundamente intenso e inatingível. A graça divina é dispersa pela Humanidade como a chuva pelos vales, montes e cidades; o amor de Deus é extensível a cada ser humano em particular e de modo pessoal.

Esquecemos por vezes aqueles que não O conhecem. Ou lembramo-nos deles do modo cuja nossa educação cristã nos ajuda a lembrar: como almas perdidas e que precisam de ser alcançadas. Não é de todo errado abordar uma pessoa que não crê em Jesus deste modo, mas muitas vezes tendemos a minimizar Deus a um quadrado missional e esquecer que quem criou todas as coisas, é também capaz de Se auto-revelar a quem não O conheça de modo natural ou sobrenatural. Mas mais ainda, é perito em recorrer a essas pessoas como recursos para majorar a nossa perceção da Sua glória, graça e poder.
YHWH, ADONAI DOS GENTIOS

O recurso a essas pessoas pode ser visto ao longo de toda a Escritura, que se fazem acompanhar da revelação e soberania de Deus. É na descendência de Seth que se começa “a invocar o nome do Senhor” (Génesis 4:26), existindo já uma panóplia de gentes e povos distantes em ideologia e culto. Da linhagem de Seth somos agraciados com o exemplo de vida piedosa e ligada a Deus de Enoch (Génesis 5:22-24), Matusalém e Noé. Este último, rodeado de povos cujas divindades eram os astros e imagens fabricadas, foi salvo com a sua família por ter achado graça aos olhos de Deus. E aqui começa a nossa viagem…

Da descendência de Noé, somos confrontados com os povos que invariavelmente se viriam a cruzar com Israel, tanto para o bem, como para o mal. E o modo como Deus se assenhoreia deles também é uma constatação do Seu poder inesgotável. E do Seu amor incompreensível…

É com um pagão de nome Abrão que Ele estabelece um pacto que requer obediência, em prol de ver a sua descendência ser incontável. Não deixa de ser caricato, que no meio de tanta gente Deus se tenha valido de um homem nascido no seio de uma família pagã (Josué 24:2) e se tenha revelado diretamente a ele (Actos 7:2). Se atentarmos à obra apócrifa do Livro dos Jubileus, percebemos que Abrão desde tenra idade que foi confrontado com a corrupção do Homem, que se prostrava perante imagens mudas, imóveis, vazias. Os confrontos com o seu pai Terá (num dos quais resultou de uma destruição total dos ídolos que o pai comercializava, tendo Abrão dito jocosamente que o ídolo maior se tinha tornado invejoso dos restantes e por isso destruído os mesmos), são elucidativos do incómodo de Abrão… Para ele, um deus que é vivo, que merece culto, oferendas e reverência, teria forçosamente que se manifestar. É (possivelmente) nesta pré-revelação que Deus, conhecedor de todos os corações começa a trabalhar no íntimo de Abrão.

DA ESCURIDÃO PARA A LUZ

Se Deus usou um homem simples, vindo de uma terra em que a idolatria reinava, podemos também encontrar o exemplo de um membro da corte do Faraó e de um rei. Apesar de ser hebreu de sangue, Moisés foi criado pela sua mãe até uma dada idade, após a qual foi entregue à filha do Faraó, que o tinha achado no meio dos juncos do rio. Segundo Artapanus de Alexandria, Moisés terá tido um percurso tanto militar, como cultural acima de qualquer expectativa. O Moisés que veio a liderar o êxodo hebreu em direção a Canaã, foi um Moisés que entre uma infância hebraica, uma juventude egípcia e uma idade adulta vivida na aridez do deserto, sob a proteção de Jetro (sacerdote de Midiã, que mais tarde veio a prestar louvor e sacrifícios a Deus), foi trabalhado por YHWH.

Com Moisés, assistimos mais uma vez a um confronto entre o politeísmo e o monoteísmo, no qual as consequências físicas foram além de estátuas partidas. As pragas sofridas pelo Faraó e pelo seu povo, foram uma ação apologética de Deus. Não só com o motivo de libertar o Seu povo, mas também como meio de se mostrar como a única referência a quem o culto deve ser dirigido.
REI DE REIS

A figura de um rei pagão nem sempre está bem conotada nas Sagradas Escrituras. Mas o caso do persa Ciro, torna-se digno de ser reconhecido. Ciro foi chamado por Deus de modo directo (2 Crónicas 36:22-23) e com uma missão específica: construir um templo em Jerusalém, para que todo o povo de Deus pudesse retornar e participar na construção. Aqueles que optassem por não regressar, deveriam (por édito real) contribuir financeira e logisticamente, tanto para suportar quem viajasse, como com uma oferta voluntária para o templo (Esdras 1:2-4). Podemos acrescentar ainda o nome de Assuero, que tendo sido preservado por Deus com recurso a Mardoqueu e Ester, preservou o povo de ser destruído por Hamã (Ester 8:9-14) e fez com Mardoqueu o que o Faraó havia feito com José (Ester 10).

No entanto, nem sempre Deus usou figuras poder de modo aparentemente benéfico para com o Seu povo. Nabucodonosor atacou Jerusalém e levou consigo vários jovens hebreus para educar na Babilónia (Daniel 1:1-7). O que foi um modo de Deus julgar o Seu povo, foi também uma maneira de continuar a Sua revelação progressiva, com as visões escatológicas de Daniel.

No período histórico entre Moisés e Ciro, somos ainda confrontados com os actos de Raabe e de Ruth. Ambas nascidas fora do aglomerado do povo hebreu, decidiram seguir Deus após serem redimidas por Ele (Josué 6:25, Rute 4:11).

Como é que podemos relacionar tudo isto com a atualidade em que vivemos? Em primeiro lugar, devemos relembrar-nos constantemente da soberania de Deus, que pode usar quem quer, como quer, onde quer e para o que quiser. A ação de Deus não fica restrita à execução por parte da Igreja ( tal como não ficou sempre restrita ao povo hebreu) muito embora deva ser ela a materializar a vontade de Deus no dia a dia.

Em segundo lugar, projetos inacabados de Deus não são projetos falidos de homens ou mulheres. São pessoas em transformação, como foram Abraão, Moisés, Raabe ou Ester. Não importa o passado da pessoa, importa sim a sua disponibilidade para ser transformada e usada por Deus.

E em terceiro lugar, relembra-nos de que aqueles que não partilham da mesma fé que nós, precisam de conhecer Deus através da nossa vida prática e não apenas da nossa Teologia. Foi assim com Nabucodonosor (ao lidar com Daniel), foi assim com o Faraó que foi auxiliado por José ou Assuero.

Os portões da graça divina não se fecham, porque Deus amou e ama tanto cada um de nós, que ainda hoje o sacrifício de Jesus é válido para nos exonerar das consequências do pecado e trazer uma renovação à nossa vida.

HUMANOCENTRISMO

Ricardo Jorge Mendes Rosa

RicardoRosa_5Autoajuda. Perdoa-te a ti mesmo. Ama-te. Todas estas são expressões muito em voga na atualidade. Nunca tanto como hoje, nem na era do Renascimento, se viu um culto à própria pessoa ou ao Humanismo. O Homem decidiu ser o centro de si mesmo. E tudo o mais que exista, serve para orbitar em torno dele, como um acessório. Esta é uma resposta natural (embora desequilibrada) aos excessos vividos em pleno Séc. XX e às atrocidades dos conflitos armados, problemas económicos e crises humanitárias que o assolaram. Após épocas marcantes como o advento do laicismo ou o majestoso desenvolvimento da produção industrial em massa, o Homem virou-se para si mesmo. Afinal, porque não o faria? Livrara-se do peso da tradicionalidade religiosa e desenvolvera métodos que o faziam produzir ainda mais e melhor. Os acontecimentos que vieram marcar a humanidade, nas décadas seguintes, como a Grande Depressão, as duas Grandes Guerras ou a proliferação de doenças como o cancro e a SIDA, levaram o ser humano a querer auto-valorizar-se e proteger-se.

O problema com este tipo de pensamento, não se fica apenas pelo excesso de vaidade da auto-valorização. Quando o ser humano se promove como o seu próprio deus, fecha-se hermeticamente num vácuo de auto-adoração. O seu foco coloca-se demasiado em si mesmo e fica cego com tamanho brilho. Aí, não existe proteção sadia que lhe valha. Porque todo o ser humano é falível, estamos perante um perpetuar de falibilidade incessante e um desgaste rápido do Homem. E isso leva a excessos de vida como o consumo de drogas, de álcool, de pornografia e violência… Daí resultam também problemas como a anorexia (tão indiretamente promovida pelas indústrias do cinema e da moda), a glutonaria, o isolamento e por consequência a ascensão das depressões e dos suicídios. Na ânsia de se querer amar a si mesmo, o Homem tornou-se o seu próprio inimigo. E porquê?

Porque não consegue satisfazer-se plenamente. Porque a sua satisfação é efémera, já que é alimentada por coisas efémeras. O ser humano decidiu esquecer Deus, esperando por outro lado, conseguir fazer-se semelhante a Ele. Esta foi a causa do problema de Babel (Génesis 11:1-6), o querer substituir Deus e ser autossuficiente. Foi também parte do problema de Job (Job 6:1-4), no que tocou à autojustificação (Job era realmente um servo fiel e reto, mas só perto do fim do livro é que percebe que quem justifica e valida a nossa vida é Deus). Tudo porque Deus não criou o Homem para ser autossuficiente e independente mas sim para ser relacional e dependente (Génesis 1:27,28a; 1ª João 1:3b). Para se relacionar em primeiro lugar com Deus e em segundo lugar com o seu próximo (Lucas 10:27). Para ser dependente, não de vícios ou de maus hábitos, mas sim de um amor inexplicável e intenso (Tiago 1:2-4).

Enquanto não percebermos que não temos capacidade de nos perdoarmos a nós próprios, e que isso é apenas uma miragem e deturpação do verdadeiro perdão de que precisamos… vamos continuar com o mesmo caminho amargo. Tudo isto porque como Paulo escreveu, todos pecámos e estamos afastados da presença gloriosa de Deus (Romanos 3:23). Mas é por causa do Seu amor, do sacrifício de Jesus Cristo na cruz e da restauração de laços entre Deus e Homem, que hoje podemos viver livres e sem domínio do mal na nossa vida (Romanos 3:24-26, 2ª Coríntios 5:21, Hebreus 9:15).

Precisamos de ir além da cultura da auto-ajuda. Precisamos de admitir que queremos ajuda e que o nosso Ajudador é Cristo. O amor que temos por nós próprios deve derivar não do que temos ou fazemos, mas daquilo que somos quando nos submetemos a Deus (Efésios 2:8-10). A receita para o nosso valor não se encontra no que os outros digam, mas naquilo que temos a certeza que Cristo nos traz.

Porque o Reino que Cristo instaura no nosso meio, não é um reino com fronteiras, bélico ou economicista. Mas é um reino de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Romanos 14:15b).

Só assim poderemos viver verdadeiramente reconciliados connosco próprios, porque fomos restaurados para viver novamente à imagem e semelhança de Deus. Em caridade e comunhão com Ele e com os outros.

A atualidade ao serviço de Cristo

 

Ricardo Jorge Mendes Rosa

RicardoRosa_4
Ao rever as notícias nos media tenho sido confrontado com temas, que de modo mais ou menos incessante, atraem o meu pensamento momentaneamente, até que ele se eclipsa.

Desde greves de estivadores até manifestações a favor de instituições de ensino privado, passando por várias polémicas sobre bancos, offshores, entretenimento ou dramas; todo o conteúdo com que os media nos bombardeiam, pode encher o nosso pensamento.

O que me levou a refletir neste momento, é algo simples. Qual o estado da Igreja em Portugal, em relação a estes assuntos e o que estamos a fazer para levar o Evangelho a quem necessita?

Além da ação social, algo que é necessário e que deve fazer parte do ADN das igrejas locais, a ação espiritual (ou seja, o anunciar do Evangelho) é vital para que levemos Cristo a ser conhecido pela nossa nação. Poderemos argumentar que falar de estivadores e colégios, a partir de um púlpito e numa celebração de igreja, é fazer política e está errado. Mas não nos podemos esquecer, que falar de algo nem sempre é subscrevê-lo ou promovê-lo. Temas como a justiça, a pobreza, o auxílio ao próximo ou a corrupção, tão combatidos no Antigo e no Novo Testamento, são ainda atuais. Podemos e devemos usar o que ouvimos hoje, como ponte para o anúncio do Evangelho. Podemos e devemos construir vias de comunicação com quem ainda não caminha com Deus, não através da terminologia teológica ou eclesiástica, mas da comum linguagem e problemas diários.

Muitas vezes, permitimos que todo o nosso evangelismo seja carregado de expressões eclesiásticas, que pouco ou nada dizem a não cristãos. Precisamos de reverter essa situação, usando a cultura e os focos comuns do dia-a-dia, a favor da pregação da mensagem de Jesus: existe vida além desta vida e temos que tomar uma decisão hoje!

Esta contextualização é necessária, não só para que sejamos ouvidos, mas para que sejamos (sobretudo) compreendidos. Ao pensarmos nos exemplos de Jesus (com as parábolas) ou de Paulo (com recurso a poetas e filósofos clássicos), percebemos que a ação criativa de Deus não se esgotou na Criação. Ainda hoje devemos buscar direção do Espírito Santo, para que possamos perceber como comunicar com as novas gerações. Não só porque os meios se desenvolveram, mas também porque estas mesmas gerações mudaram e com elas mudam os interesses, os níveis de literacia e alfabetização, a qualidade de vida, etc.

Precisamos, não de permitir que a cultura domine o Evangelho, mas que o Evangelho se sirva livremente da cultura e da atualidade como veículos e pontos comuns com a sociedade.