RELIGIÃO – LIBERDADE E VIOLÊNCIA

SamuelPinheiro 4_peqRELIGIÃO – LIBERDADE E VIOLÊNCIA

Julgo que não será errado dizer que todas as religiões em algum momento consideraram que o poder político era um aliado para impor as suas crenças, a sua moral e a sua ética através da violência, da perseguição, da intimidação, do medo, da pobreza e da miséria. Ninguém pode atirar a primeira pedra porque todos têm os seus telhados de vidro. Mas existem algumas diferenças de fundo como é o caso de facilmente podermos constatar que alguém pode matar invocando o nome de Jesus Cristo, mas não pode matar por ordem de Jesus Cristo. Ele nunca lançou mão da violência, embora não exista qualquer base para a conceção de um Cristo frouxo, inseguro, politicamente correto. Jesus foi frontal e honesto com os poderosos da religião, com os hipócritas, com o povo, com o sistema. O mesmo não se pode dizer de alguns líderes religiosos que lançaram mão das armas para expandir as suas ideias. Jesus nunca o fez nem nunca o promoveu, nem deu orientações para que assim fosse feito. Antes bem pelo contrário, sempre o condenou. O projeto de Jesus Cristo não é político nem pode ser politizado ou partidarizado. Trata-se de um plano espiritual que tem repercussões em tudo o que diz respeito à vida de cada um que o aceita e com o qual se compromete.
Pessoalmente continuo a perfilhar a ideia de que sendo a religião o esforço do homem para tentar alcançar Deus, Jesus não veio para implantar ou dar origem a nenhuma religião. A religião é o esforço do homem. Jesus Cristo é o próprio Deus vindo ao encontro dos homens, fazendo o que eles nunca poderiam fazer. O homem não consegue alcançar Deus. Pode tatear respondendo ao apelo que o próprio Deus incutiu dentro da Sua obra-prima. Admito que outros possam ter outra perspetiva e defendam outra argumentação. Esta serve de forma razoável e julgo que de modo muito contundente a essência singular do evangelho.
O evangelho é totalmente avesso à estratégia da força para impor as suas convicções porque no evangelho não é pelas regras, pela ética ou pela moral, pela liturgia ou pelos serviços religiosos que alcançamos a Deus, como também não o alcançamos pelas nossas boas obras, pela nossa eventual virtude. Não é por sermos “bons” que logramos a nossa salvação. Por isso a fé que nos vem pela palavra de Cristo e da qual Ele é o autor e consumador não pode ser legislada. É pela graça, pelo favor de Deus que somos reconciliados com Ele. O evangelho aponta-nos a cruz de Jesus Cristo como o único meio pelo qual podemos ser salvos. Nunca como hoje, no ambiente que estamos a viver em termos do terrorismo, isso se torna mais urgente e mais premente. Não podemos obrigar os outros a viver como nós consideramos que devemos viver. Não podemos obrigar os outros a aceitar o que para nós é certo ou errado de acordo com a revelação divina. Deus deu-nos orientações muito específicas de acordo com as quais devemos viver, quando em liberdade e por nossa escolha decidimos seguir a Jesus. Mas o que para nós é certo, não pode ser imposto a quem não quer viver dessa forma. O próprio Deus procede dessa maneira. Com isto não estou a querer dizer que a sociedade não beneficie como um todo quando os valores e princípios cristãos são absorvidos. Mas não confundamos a cultura influenciada pela fé cristã, com a vida cristã decorrente de uma experiência pessoal com Jesus Cristo, com o novo nascimento, com a conversão, com o arrependimento, com a mudança espiritual provocada pelo Espírito Santo. Por outro lado também não é menos verdade que quando nos parece que a sociedade perfilha uma cultura dita cristã, o que de hipocrisia sobeja é muito mais do que imaginamos. O mesmo acontece em todos os grupos, sejam religiosos ou político-partidários quando defendem uma determinada legislação e afinal de contas a vida privada dos proponentes e defensores está nas suas antípodas.
A sociedade não pode viver sem algumas definições muito claras e objetivas do que se deve ou não deve fazer, sobre o que é correto e o que não é. A justiça é essencial à vida em sociedade. Tem de existir um padrão pelo qual uma sociedade se deve reger. O relativismo e o pluralismo mais cedo ou mais tarde redundarão em desastre quando levados ao extremo. Já hoje somos confrontados na escola e na sociedade em geral com crianças, adolescentes e jovens que não têm qualquer noção de respeito, de reconhecimento dos princípios da vida em sociedade, de aceitação das normas dentro de uma sala de aula, da valorização do conhecimento e do trabalho. Mente-se, engana-se, rouba-se, ameaça-se, agride-se, provoca-se, etc. com uma consciência cauterizada, um sangue frio que causa uma profunda apreensão em relação ao presente e ao futuro próximo.
A função de sal e de luz da igreja e dos seguidores de Jesus na sociedade não é o de impor a sua moral, mas a de viver essa mesma moral no relacionamento pessoal com cada um dos vizinhos, na consciência das nossas fraquezas, debilidades, erros e falhas; sem qualquer sobranceria ou sentido de superioridade. Com amor e aceitação, não subscrevendo o que está mal, mas não recusando a pessoa porque todos nós sofremos do mesmo problema, e todos carecemos da mesma graça divina, do mesmo perdão e transformação.
A teocracia não é o projeto cristão para as sociedades em que vivemos. A parte da Bíblia que nos narra a história do povo de Israel dá-nos a conhecer um regime em que os princípios dados por Deus deveriam ser observados por todo o povo embora eventualmente apenas durante o período do êxodo com Moisés, de Josué e durante o período do profeta Samuel a liderança espiritual abarcava a totalidade da vida da nação. Durante o período dos juízes e da monarquia embora tenhamos situações distintas de rei para rei, e fosse expetável que este estabelecesse a lei dada por Deus, existia uma separação de funções. Com a vinda de Jesus Cristo o Seu projeto é a da edificação da Igreja da qual fazem parte todos os que têm uma experiência pessoal com Ele.
No terrorismo do islamismo radical temos uma hostilidade em relação à cultura ocidental que é mais pós-cristã do que cristã, defende-se um conjunto de posturas principalmente em relação às mulheres que colidem com a permissividade do ocidente. Embora na Bíblia nós encontremos valores que se opõem à mesma cultura, o facto é que eles não nos foram dados para serem impostos pela via da lei. Ao longo da história e nos dias de hoje podemos encontrar certos grupos em que o fanatismo grassa e em que o exagero nos usos e costumes é alarmante. Mas o facto de existir essa clivagem, ela nunca por nunca ser poderia ser assumida pela violência no contexto do evangelho. Como cristãos sofremos essa perseguição e corremos o risco de sermos atingidos por ela.
Mas existe uma outra perseguição que não pode ser ignorada nem silenciada por grupos extremistas e outros que nem serão assim tão extremistas, contra todos os que confessam a Jesus Cristo como o único Senhor, como Salvador, como o seu Deus. Mas disto Jesus Cristo nos avisou de forma clara e solene. A Igreja surgiu e desenvolveu-se num ambiente hostil, de perseguição feroz, tanto movida pela religião como pelo poder político. Não esperemos que hoje aconteça de forma diferente. Não foi por causa disso que os seguidores de Jesus deixaram de viver em função dos valores do amor aos próprios inimigos, retribuindo o bem ao mal que lhes era infligido. O sangue dos mártires potenciou o crescimento qualitativo e quantitativo da Igreja. Fomentar uma guerra religiosa não está dentro dos parâmetros da fé que provém de Jesus Cristo, nem sequer nos deixar enganar ou iludir com ela. Compete-nos esclarecer, explicar de modo inteligente, sábio, amistoso mais do que atacar quem não crê em Quem nós cremos. Embora devemos cultivar uma postura esclarecida e rigorosa sobre as várias correntes religiosas não devemos generalizar e colocar tudo no mesmo saco, porque nem todos os que professam uma determinada religião são terroristas ou intolerantes.
Julgo que em relação ao poder político seja ele central ou local não podemos embarcar na lógica de que se não nos dão a nós também não devem dar a outros, mas no mínimo que nos concedam o que disponibilizam a outros, tendo em consideração que a nossa profunda fragmentação é um obstáculo muito sério à equidade neste como noutros domínios. Uma linguagem desbragada não condiz com o espírito e a letra do evangelho de Jesus Cristo e muito menos a defesa da restrição ou anulação da liberdade religiosa em relação a determinados grupos religiosos ou a perseguição por motivos religiosos sem confundir esta postura com a legítima ação do Estado de oposição, contenção e repressão pelas vias legais de todos os incentivos à violência e ao terrorismo.
Mantenhamos sempre no nosso coração as palavras de Jesus: “Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós.” (Mateus 5:12)

Samuel R. Pinheiro

A RELIGIÃO CRISTÃ ENTRE OS ATEÍSMOS DE “O ESTRANGEIRO”

JTP11A RELIGIÃO CRISTÃ ENTRE OS ATEÍSMOS DE “O ESTRANGEIRO”

© Ensaio de João Tomaz Parreira

«O Estrangeiro », de Albert Camus, romance publicado em plena II Guerra Mundial ( Julho de 1942), é um livro sobre a condição humana, do ponto de vista individual.
O manuscrito do romance pretendia aparecer com um subtítulo: «O Estrangeiro, ou Um Homem Feliz ». A justiça, a indiferença, cada homem ser uma ilha na sociedade, as circunstâncias que fazem as tragédias, a desgraça do drama humano, a alegação de que a vida não vale a pena, a rejeição da transcendência, o assumir que Deus está ausente, seria contudo a sua trama. Há mesmo uma narração na primeira pessoa, lá para o final do livro, que  impressiona «Eu estava agora completamente encostado à parede »- diz o protagonista.
O escritor Camus, resumira em 1955 o seu romance L,Étranger sob  a constatação da angústia da personagem, que está perdida perante a vida, os concidadãos que não entende, o querer ser marginal a todos os rígidos sistemas, usando uma metáfora :  «Na nossa sociedade, todo o homem que não chorar no enterro da mãe corre o risco de ser condenado à morte.»
Deste ponto de vista, é um livro que abre linhas de análise sobre a hipocrisia vigente desde sempre na sociedade humana. Das máscaras que um tem que usar para ser aceite na sociedade, contrariamente à singeleza da Verdade e das relações que Cristo ensinou baseadas no Sim,sim! Não, não!
É um livro que inquieta.  Sobretudo porque somos levados a pensar nas formas que pode assumir a inumanidade do homem.
Ora, do ponto de vista cristão, designadamente do cristão evangélico, quanto mais livre o homem que ser de Deus menos humano é. Observando a  inumanidade no homem, veremos que tem causas que residem no ateísmo, na rejeição de Deus e do domínio do Pecado. E incoerência das incoerências, considerar que existe o Pecado (a existência do mal, o sofrimento das crianças, etc.), sem a existência de Deus, é sem dúvida o absurdo.
É um livro, finalmente, que propõe a sólida realidade da indiferença diante do próprio destino humano, mesmo que se apresente O Estrangeiro como o romance que mostra a imagem da revolta individual de um homem.
MEURSAULT O INDIFERENTE
Uma indiferença perante a existência, a dos outros e a própria : « Hoje a mãe morreu.Ou talvez ontem, não sei bem »;  «Disse que sim, mas que no fundo me era indiferente », uma vida que reage apenas ao momento hedónico, um vazio na alma, são, entre outras características, o que faz a personagem principal, Meursault, do romance camusiano. Neste a religião é tratada do mesmo modo, indiferentemente, tomando a justiça dos homens o seu lugar. Existem, no entanto, alguns referentes da religião entre o universo de O Estrangeiro no qual não há lugar para Deus, na armação psicológica do protagonista. Mesmo na narrativa minimalista com que o autor estruturou toda a narrativa, isso se percebe. De facto se Meursault fosse religioso, invocasse a existência de Deus, estivesse submetido ao Seu veredicto e disposto a aceitar Sua misericórdia, o livro não seria honesto, embora o romance seja também sobre a alma da personagem. Essa alma sobre a qual nos debruçamos e nada encontramos – como perorava no tribunal o procurador, dirigindo-se aos jurados, acerca do acusado Meursault, que «por causa do sol » tinha assassinado um árabe na praia.
«Dizia que, em boa verdade, eu não tinha alma e que nada de humano, nem um único dos princípios morais que existem no coração dos homens, me era acessível.»
Compreende-se assim que, durante todo o elemento tempo do romance, depois da prisão e de esperar pela execução da pena de morte que lhe foi aplicada, pelo tribunal de Argel, a personagem rejeite várias vezes a presença do capelão. «Não tenho nada a dizer-lhe ».
A negação de um confronto com o religioso, com a consciência de não ter a necessidade de  respostas, mas a marcar a precisão de ficar em silêncio, de não ter palavras perante aquilo em que não acredita.
Antes do crime e prisão, os dias de Meursault corriam ao acaso e sob o sol até à ligação da noite, em que as luzes não deixavam de prolongar o «sabor» do verão, do sal e do vidro luminoso do céu sobre o mar. O hedonismo da personagem é em tudo isso mais do que evidente. Diante de tal, Deus é rejeitado porquanto protagonista e autor o querem ausente. O pensamento profundo de Camus e « a sua incurável dilaceração(de alma) », embora reconheça a ideia de Deus respeitável, afirma, noutro lugar: «Ele sente que Deus é necessário e que é preciso que exista. Mas ele sabe que Deus não existe nem pode existir.»
Para o protagonista do romance, a existência do divino era-lhe indiferente, para o romancista argelino, de expressão francesa, a existência ou não de Deus não era indiferente, fazia parte dos absurdos do mundo.
MEURSAULT PERANTE A RELIGIÃO
No próprio início de todo esse processo judicial até à invisível mas implícita guilhotina, a religião é invocada à personagem do romance, mas como derradeiro recurso ou confronto peranteum culpado. As formas da religião, com que Meursault é confrontado pelo juiz de instrução, exibem um juiz e umapunição, mais do que um Salvador.
«Bruscamente levantou-se, dirigiu-se com grandes passadas para a extremidade da secretária e abriu uma gaveta. Tirou um crucifixo de prata e, agitando-o no ar, (…) com uma voz completamente diferente, quase trémula, gritou: «Conhece-O, conhece-O?. Respondi: «Sim, é claro que o conheço.» »
Em todo o caso, estava aberto o caminho para se poder falar de Deus e da capacidade divina de perdoar e de Jesus Cristo.
Esse método de «evangelizar» pertencia, contudo, à ordem das coisas, dentro do universo do juízo criminal e do presídio. Apresentava os julgadores como pessoas ética e moralmente capazes de exercer o papel divino na administração da justiça terrena.
«Disse-me então muito depressa e de um modo apaixonado que acreditava em Deus, que nenhum homem era suficientemente culpado para que Deus não lhe perdoasse, mas que para isso, era necessário que o homem, pelo seu arrependimento, se transformasse como que numa criança.»
Mas enquanto o juiz brandia o crucifixo diante dos olhos de Meursault, este ia  dizer-lhe, se tivesse podido, «que não valia a pena obstinar-se ». Foi, porém, interrompido com a pergunta « se acreditava em Deus ». Respondeu que não.
Aqui desmorona-se a ponte que ligaria a referência sobre a necessidade de Deus à vida do homem, e deste homem na condição especial de criminoso, de pecador.
Embora o argumentário narrativo a partir deste ponto vá no sentido da rejeição do ateísmo. O juiz asseverou-lhe que «era impossível, que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que não o queriam ver. A convicção dele era essa e, se um dia duvidasse, a vida deixaria de ter sentido.»  O sentido da vida acaba por estar explícito na confissão do Cristianismo. É o instrutor do processo que o garante, ao voltar a exibir «a imagem de Cristo », no crucifixo, exclamando:
«Eu, sou cristão. Peço perdão pelos meus pecados a Este. Como podes não acreditar que Ele sofreu por ti? »
A atitude vital de Camus, as nuances entre o incrédulo e os cristãos que temperam as sombras do seu ateísmo começam neste ponto do seu romance. O que de resto não é novo, nem por acaso no autor. É célebre a Conferência do escritor no Convento dos Dominicanos, em 1948, com o revelador título O Não-Crente e os Cristãos .
No plano de quem não partilha das convicções dos cristãos, mas destes espera algo, é a tónica inicial dessa Exposição de Camus aos frades Dominicanos. Para o autor de O Estrangeiro,o Cristianismo não era «coisa fácil». Afirmou, entre outras
posições de honestidade, que «o cristão tem muitas obrigações, mas que não cabe precisamente a quem as enjeita lembrar a existência delas a quem já as reconheceu. Se alguém pode exigir alguma coisa do cristão é o próprio cristão.»
Contudo, o seu pensamento acerca dos cristãos e dos seus deveres é universalista.
«Não poderão deixar de se tratar de deveres que é necessário exigir de todos os homens hoje, sejam cristãos ou não sejam.»  Não tendo podido, como disse nessa conferência, aceder à verdade cristã, não pode honestamente afirmar que a mesma é ilusória.
Por isso em O Estrangeiro sente-se a compreensão dos valores cristãos e simpatia para com os dogmas. O Sagrado na sua obra não admite sincretismos, mesmo para um autor-filósofo como Camus, o secularismo não o afasta do Eterno. Disse-o, de uma forma não romanesca, mas ensaística no seu O Mito de Sísifo : «Eu sei que uma pessoa pode viver neste século e crêr no eterno.»
Passados mais de sessenta anos da publicação de O Estrangeiro e dos restantes trabalhos literário-filosóficos, ainda hoje se promovem colóquios sobre o Sagrado na sua obra. Como exemplo, em 2007, no 7º Colóquio Internacional  sobre o escritor, realizado em Poitiers, o tema geral foi  Camus et le Sacré (Camus e o Sagrado).
De facto, na obra de Camus há uma base inteiramente racional e materialista, que no fundo aporta a esta assertiva: «Eu creio que dois e dois são quatro(…), e que quatro e quatro são oito.»
Todavia existe o outro lado. Existe indubitavelmente um ponto em que Camus concordou, exprimindo-o em O Homem Revoltado de um modo claro: «Ninguém pode desencorajar o apetite da divindade no coração do homem.»
Deus é necessário e faz falta que exista, é sem dúvida a síntese do «ateísmo» contraditório de Albert Camus. Mas o escritor afirma «saber» que Deus não existe nem pode existir, sendo esta a síntese do seu pessimismo racionalista, face ao absurdo do mundo.
Contudo, os aspectos fora da norma da religião, continuam a existir diante da personagem de O Estrangeiro. Quando este -o Meursault- parece dar sinais de ter baixado a sua guarda de ateu ou agnóstico, perante o juíz («Vês, vês! Não é verdade que crês e que te vais confiar a Ele? »), é claro que, uma vez mais, disse que não. As tentativas de uma conversão mais exterior que na alma,  pela persuasão prosélita, para que o peso da justiça humana tenha razão, não faz parte da teologia da Salvação. «C’est fini pour aujourd’hui, monsieur l’Antéchrist.»- acaba por concluir, cordial mas desanimado, o instructor do processo ( «Por hoje acabou, sr. Anti-Cristo »).
A personagem de Camus, em O Estrangeiro, é o anti-cristo, numa recorrência que faz jus às preferências do escritor pelo filósofo  Nietzsche e às suas reflexões sobre este. Ainda assim não procurou ser o mentor ou o porta-voz de uma geração que vivia já no vazio deixado pela alegada « morte de Deus ». No que concerne ao Cristianismo, Albert Camus jamais lhe fechou as portas. Embora na sua estruturação do mesmo, o escritor tenha usado os materiais mais da história que da teologia. As próprias janelas que abriu, dirigem-se sobretudo para o sacrifício expiatório e cruento de Jesus Cristo.
Acerca do Salvador considera o «grande gesto heróico do seu sacrifício», e escreve em O Homem Revoltado que «Cristo veio resolver dois problemas principais, o mal e a morte, os quais são precisamente os problemas dos revoltados. A solução consistiu em os tomar a seu cargo.»  E nesta afirmação mais do domínio da opinião (doxa), que do conhecimento (epistéme), Camus é reductor. Jesus Cristo resolveu, de facto, os problemas da morte e do mal, vencendo ambos na Cruz, mas sobretudo veio resolver a relação da criatura humana com o Pai Celestial. Veio para tornar os crentes filhos de Deus.
Camus teve sempre, na sua obra lírica ou raciocinante, um diferendo aberto com o mal na perspectiva de questionar se este era necessário à criação divina – se era assim, escreveu ele, «então a criação é inaceitável.» O que a Bíblia Sagrada e a teologia Cristã nos mostram é que Deus não criou o mal, obviamente.
Visto de outro ângulo, Camus vê o sacrifício de Jesus pela humanidade baseado num princípio de injustiça.  «O cristianismo na sua essência e sua paradoxal grandeza é uma doutrina da injustiça, está fundado sobre o sacrifício do inocente e a aceitação desse sacrifício.»- escreve nos seus Cadernos. O sacrifício do Filho de Deus, como o próprio Deus, não podem ser submetidos ao julgamento moral do homem.
Ao contrário da sua personagem principal ( Meursault, no romance O Estrangeiro) Camus questiona Deus, coloca-O em julgamento, mas igualmente como ela  escolhe viver sem a ajuda sobrenatural de Deus. Por isso,  foi um escritor malogrado, sem futuro. Morreu aos 47 anos e a sua obra substituiu-o.
MEURSAULT E O ELEMENTO MATRIARCAL
Por fim, se a segunda parte do romance é a história de um processo em que tudo parecia ser verdade, do lado da acusação, e nada era verdade quanto ao retrato que se fazia da personagem acusada ( Voilà l’image de ce proces. Tout est vrai et rien n’est vrai. – exclamou o advogado de defesa: «Eis aqui a imagem deste processo. Tudo é verdade e nada é verdade.»), já a primeira parte sendo o desenrolar do quotidiano de um indiferente, é também o retrato de um homem no qual o elemento matriarcal acaba por se revelar do inconsciente religioso. Designadamente no que concerne ao respeito carinhoso pela sua progenitora.
Em outro romance, O Primeiro Homem, já publicado postumamente, o escritor traz ao nosso convívio cultural um aspecto tradicional das regiões do Norte de África, a tradição de que era intolerável um insulto à mãe.«O insulto à mãe e aos mortos constituíra desde sempre o mais grave nas costas do Mediterrâneo.»
Com efeito, eis um pormenor que pode parecer irrelevante, no início de O Estrangeiro,  mas que confere ao leitor indícios de que, apesar de tudo, vai estar diante de alguma afectividade e alguma piedade demonstrativas de humanidade. Camus sublinha a sensibilidade filial, ao escolher cuidadosamente as expressões do seu protagonista, que se refere à sua mãe comomaman : «Aujourd’hui, maman est morte ». É assim que começa o romance, originalmente.  Meursault não é de todo a personagem fria e neutral, nem uma pedra nem um poço de insensibilidade. E só a centelha do divino que existe na criatura humana pode operar este milagre de perfuração da mais densa e poderosa pedra, de clarear a mais profunda e espessa sombra, mesmo que não se deseja ouvir falar de Deus, como era o seu caso, para poder ficar «tranquilo».
O elemento matriarcal, é sabido que em todas as sociedades é um referente religioso. Apesar de todas as aparências e críticas sociais, Meursault é o homem do Séc.XX, e sobretudo dos nossos dias neste novo século, o homem que ama a mãe, o pai, os progenitores, mas que afirma não ter tempo nem meios sociais no reduto do lar, leia-se família, para sustentar esse amor. Daí os lares para a terceira-idade, não poucas vezes meros depósitos como aquele em Marengo, onde estava a mãe de Meursault.  ©

O SER HUMANO NÃO EXISTE SEM COMUNICAR

RicardoRosaO ser humano não existe sem comunicar. Não consegue subsistir sem comunidade. Simplesmente, uma das características dele tem a ver com interação. O Homem não é uma ilha isolada em si mesmo, para parafrasear John Donne. Família, emprego, vizinhança, tudo isto são exemplos simples da necessidade primária (que se encontra praticamente ao nível da necessidade de higiene e de alimentação, por exemplo) do Homem viver em comunidade com o seu semelhante. Cada vez que existe um corte nessa ligação, existe um deteriorar do interior de cada pessoa. Não fomos feitos para ser focos isolados, mas para vivermos como brasas numa fogueira.

Toda a experiência de vida no séc. XXI e na sociedade pós-ano 2000 tende a apontar para algo: isolamento. Somos alimentados com produtos que regulam, fecundam e vitaminam o nosso ego. A auto-satisfação ou a auto-justificação passaram a ser processos regulares no nosso dia a dia. A tecnologia veio tornar mais palpável o imaginário, ampliando os mecanismos do egocentrismo e da solidão, dando-lhes um conforto e espaço próprio. Nós, os que vivemos numa sociedade que já se pode apelidar de híper-pós-moderna, somos engolidos diariamente por uma onda de dependência tecnológica. Uma dependência já alvo de tratamento em hospitais, que acaba por sufocar quem cede a ela. Torna o ser humano alvo de uma nova forma de eremitismo: o ciber-social.

Se antes um eremita se centrava na meditação e no seu relacionamento pessoal com Deus, o eremita do séc. XXI centra-se no isolamento físico e emocional, mas não na ausência de interação com o outro. Escolhe afastar-se, porque “aquilo que os olhos não vêm, o coração não sente”.  Este fenómeno gerou por outro lado, aquilo a que podemos chamar de slacktivism ou activismo de sofá. A luta contra as desigualdades e injustiças deixou de se fazer nas ruas. Comícios e manifestações foram trocados por raids em murais ou partilhas online. E no entanto, com o aumento da exposição, que semiólogo e autor Umberto Eco tão bem critica (a par de Andrew Keen, autor e empreendedor britânico), perdeu-se a coragem e o conteúdo demonstrado por Martin Luther King ou Joan Baez.

Com efeito, por ignorância ou por vontade própria, assumimos uma atitude ao estilo de Caim. Deus pergunta-nos pelo amor ao próximo, aponta-nos para o Bom Samaritano e nós, cultura auto-suficiente, respondemos que não somos guardas dos nossos irmãos. E sentimos ciúme e inveja, não do que eles oferecem a Deus, mas do pouco que possam ter e nós não tenhamos. Deixamos que o nosso afecto pelo nossos semelhante seja toldado pelo egoísmo com que defendemos ideologias, posses, estilos de vida. Vivemos vidas plenas de obsessão em adquirir, parecer, estar e experimentar tudo o que seja a última moda. Mas a par de tudo isso, continua aquilo que é a nova moda, o isolamento. Não para reflexão, nem para desintoxicação, mas como modo de vida. Este auto-consumo tornou o super-homem de Nietzsche num ser fraco e amoral. Condiciona o ser humano a uma vida de pressão, de decadência da condição humana e de maior perversidade.

Nem mesmo o filósofo alemão desejava um tamanho isolamento para o Homem. Com tudo isto, a imagem e semelhança de Deus são corrompidas e invertidas. O Homem cria deuses à sua imagem, tornando-se em ídolos que não falam, não ouvem, não agem, mas que o controlam e geram nele dependência. E toda uma nova casta se levantam, ao estilo dos baalins do Carmelo. Mutilam os seus corpos em prol de maiores ganhos juntos desse deus. Rejubilam e em êxtase entregam o seu louvor à fortuna da mitologia grega.

O Homem corrompe-se e deixa-se corromper. Deixa de sentir e de fazer sentir. Deixa de chorar os mortos e as dores do próximo, porque deixa de sentir e abraçar o próximo. Esquece o amor e a reverência, o cuidado com órfãos, viúvas, estrangeiros e doentes. Só valida esse cuidado se o promover socialmente, mas sempre sem as cadeias da interação pessoal.

É deste tipo de perigo que Cristo nos veio libertar. Da miséria da auto-suficiência e da auto-justificação. Da tentativa falhada de o Homem se equivaler a Deus. E da sua consequente necessidade de ser restaurado ao estado primordial. O Éden é o local do nascimento, do firmar de uma união entre Criador e criatura. E na Cruz, Jesus instaura uma espécie de novo Éden até à Sua vinda. Criador e criatura são novamente unidos num pacto na noite anterior, simbolizado com pão e vinho, oficializado com o derramar de sangue inocente. Este meio Éden, um jardim intermediário, onde já se goza parte do Reino mas ainda não é totalmente visível ou experimentável. Uma espécie de Jerusalém em reconstrução pela mão de Neemias. Um local onde somos chamados a trabalhar, uma seara a ser ceifada, mas que também deve ser cuidada e nutrida.

Em Jesus, o ser humano é levado à presença pessoal de um Deus que chora, que ri, que sofre, que se alegra. Um Deus de amor, justiça, graça e verdade. Um Deus comunitário, que alcança uma pessoa, uma família, uma tribo, uma nação, o mundo.

Em Cristo, não existe isolamento mas comunhão. Não existem corações frios e mortos, mas vivos e apaixonados. As mãos e os braços estão abertos, não existe outra dependência que não d’Ele. Tudo é virado do avesso, como numa aversão à crise de identidade do Homem. Passamos a ser chamados Filhos do Rei e não Escravos do Império, como tão bem sublinhou o teólogo britânico John Stott.

Em Emanuel, Deus no nosso meio, não vivemos mais sós, mas sabemos que ainda que os mais próximos nos desamparem, temos a Sua segurança, presença e amor.
Ricardo Jorge Mendes Rosa

“… os que destroem a terra”

SamuelPinheiro 3“Chegou o momento de destruíres aqueles que destroem a Terra!” (Bíblia Para Todos)
“E tu destruirás todos aqueles que têm causado devastação na Terra.” (O Livro)
“… e destruir os destruidores da terra.” (A Mensagem)

Este é um aviso solene no último livro da Bíblia no livro do Apocalipse (11:18). A ganância dos homens e a sua rebeldia estão a ameaçar não apenas a sobrevivência da humanidade, mas do planeta terra. A terra geme por causa do pecado e aguarda com expetativa a revelação dos filhos de Deus (Romanos 8:18-25) que terá lugar quando Jesus retornar em glória – esta é a nossa bendita esperança e expetativa, que não nos faz cruzar os braços, mas agir respeitando o Criador e a Sua criação. Pode parecer que a nossa atuação distinta se perde no meio dos atentados gigantescos contra a criação, mas muitas pequenas ações fazem uma grande diferença!
A Bíblia tem um sério aviso em relação aos que fazem mal à terra – criação de Deus. Certamente que o texto não se limita apenas à questão ecológica, mas tem um sentido mais amplo em relação a toda a maldade, imoralidade, violência, guerra, opressão, exploração, etc. Mas não podemos nem devemos fugir às responsabilidades que nos são requeridas de cuidar dos recursos que Deus colocou ao nosso cuidado e gestão. Não somos donos de nada. Apenas somos depositários, mordomos, gestores dos bens que Deus criou para nosso satisfação e prazer. Não de um grupo reduzido, de uma elite, de uma minoria. As provisões de Deus são para todos sem diferença de raça, de capacidade ou competência. Exige-se trabalho e esforço, mas não existe base na diferença de competências para empurrar a esmagadora maioria para uma situação de pobreza ou miséria.
A rebeldia do homem em relação ao seu Criador, a sua desobediência, o seu descaso em relação não apenas à existência, mas à natureza e essência do ser divino, provocaram um desastre transversal que atinge também a natureza.
Existe uma radical diferença entre cuidar da terra por razões de mero egoísmo relacionadas à nossa subsistência, por razões de ordem religiosa que adora a mãe natureza e as forças cósmicas em que deus é tudo e tudo é deus, e o cuidado e preservação dos recursos naturais e da criação porque ela é obra do Deus pessoal trino (Pai, Filho e Espírito Santo), que nos criou com a incumbência de sermos seus cuidadores. Não cultuamos a terra mas o Senhor da terra. Não servimos a terra mas o Senhor da terra. E até quando somos incentivados a servirmo-nos uns aos outros, é como serviço a Deus. Ele é Aquele que coloca o foco em tudo o que fazemos, e quando de certo até realizamos com perda de valor, porque deslocámos a centralidade de Deus para nós mesmos, para os outros, para a criação e para os bens materiais. Deus é o Senhor de tudo, nada sai fora da sua jurisdição.
Durante muito tempo alguns textos bíblicos escatológicos, respeitante ao fim do atual sistema e era, não faziam muito sentido e até podiam ser tidos como exagerados. Para que seria necessária uma purificação da terra utilizando termos fortes e radicais como os do fogo (2 Pedro 3:10-13). Hoje que temos conhecimento de uma parcela muito pequena da contaminação que o homem tem provocado nos mares, nos ares e na terra, as toneladas de lixo que são lançadas para o espaço, que são armazenadas nos mares e enterradas no solo ou colocadas a céu aberto, é suficiente para confirmarmos a razão da Bíblia e é mais uma razão, entre muitas outras, para acreditarmos que ela é a Palavra de Deus.
O fato de fazer parte das nossas convicções a certeza de que Deus fará novos céus e nova terra e limpará e recriará (não apenas um mero processo de reciclagem em que porventura se recupera o que continua contaminado), não é premissa para darmos largas ao nosso descaso e contribuirmos para a degradação do meio ambiente. Cuidemos da criação em nome do Criador!

Samuel R. Pinheiro

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O SENTIMENTO DA PÁTRIA NOS CÂNTICOS

JTP10O SENTIMENTO DA PÁTRIA NOS CÂNTICOS
A pátria é sempre o lugar aonde se deseja regressar. Ortega y Gasset definia a propósito de Portugal que dois sentimentos se contrapunham: “a descoberta” como ansia de partir e a “saudade” como desejo de voltar. (1)
Mesmo que esteja a perder ou tenha já perdido a glória. Lágrimas sobre a pátria não são apenas dos homens, Jesus Cristo chorou sobre a sua pátria e a sua cidade terrenas. E as seis linhas expressivas da sua lamentação sobre Jerusalém não transportam em si nenhum moralismo legalista, pelo contrário, são um ressonante Cântico breve, do Amor decepcionado, entristecido e sublime (Mt 23,37)
Qualquer hino encomiástico sobre a pátria, para além do lirismo ou misticismo que contenha, assuma a forma de um gazel comum na escrita persa antes de Cristo ou o epopeico dos nossos Lusíadas, é sempre fundado sobre a experiência.
Pode ser a experiência da perda, ou a das vitórias, porque o Cântico não pode perder a perspectiva da diegese da História.

O Cântico de Moisés
Êxodo, 15
Segundo a Bíblia hebraica, o Velho Testamento, o Cântico de Moisés quando o povo irrompeu do Mar Vermelho, é o mais antigo cântico sobre o sentir a Pátria como dádiva de Deus, a Canaã do leite e do mel. É uma narrativa de vitória e das obras maravilhosas de Deus – escreveu no século XIX Mackintosh.
No campo da literatura universal está referenciado como o poema mais velho do mundo. Talvez porque a poesia das grandes literaturas desse período (1500 a.C), como a Suméria, tenha desaparecido, e o Cântico de Moisés, preservado na Bíblia Sagrada,  se conserve como possuindo uma sublimidade e formosura de linguagem que não tem rival.
Diante deste hino, vemos que muito antes da pátria física, um locus definitivo,  já havia um sentimento nacional de gratidão que deveria ser expresso em cântico. E este contém história e teologia, na vertente profética no que concerne ao que Deus prometeu ao seu Israel e o que deste requer.
“ Espanto e pavor cairá sobre eles (os príncipes de Edon); pela grandeza do teu braço emudecerão como pedra; (…) até que passe este povo que adquiriste” (verso 16)
É o cântico nacional, onde o ego nacionalista não existe, antes torna notória em Israel “a grande mão que o Senhor mostrou aos egípcios”. (14, 31)
A poética está, obviamente, em presença na metáfora que aponta o desmoronamento e o silêncio das hostes inimigas diante da força do braço divino :  “emudecerão como pedra”.
Com efeito, os meios estilísticos usados na diegese pelo autor do Êxodo, reforçam com a poética e a metáfora, a historicidade do acontecimento. “Cantarei ao Senhor – começa assim o Cântico- porque sumamente se exaltou”. Exaltou na História de Israel, abrindo caminho à alegria de ter uma Pátria na Palestina (verso 14). Mas a glória da pátria, era a Glória de Deus.

Canti (Cantos), de Giocomo Leopardi
A obra mais importante da poesia oitocentista italiana, reflecte tristeza, desânimo e dor. Desenvolve uma história social e política sem paz e canta uma “nação” vencida, sem glória.  O anti-lirismo da visão do poeta é manifesto, desde o início:

“O pátria mia, vedo le mura e gli archi / e le colonne  e  i simulacri e l’erme /
torri degli avi nostri, / ma la gloria non vedo”  ( «Eu vejo as paredes e os arcos / e as colunas e as estátuas e as solitárias / torres dos  nossos avós / mas a glória não a vejo»)

Esta invocação inicial traduz a nostalgia e a dor incurável pela perda da grandeza da pátria, que, segundo o poeta, “foi Senhora e agora é uma pobre escrava.” ( “che fosti donna, or sei povera ancella”)
Muitos séculos atrás, também Israel estava a perder a sua glória e de Senhora na Palestina passaria a escrava na Assíria e Babilónia.
Cântico da Vinha, de Isaías
Antes de serem os lábios de um profeta, que teria de confrontar a casa de Israel  proferindo a profecia da desintegração nacional por causa da iniquidade, os lábios de Isaías foram lábios de poeta.
«Cantarei ao meu amado, o cântico do meu amado a respeito da sua vinha»(Isaías 5)
Desde logo, o inevitável instrumento aplicado do paralelismo da poesia hebraica, de um modo tautológico, repetição na qual se invoca liricamente um cântico que corresponde ao sentimento de posse de algo amável. Uma vinha.
.«O meu amado teve uma vinha num outeiro fertilíssimo. / Sachou-a, limpou-a das pedras e a plantou de vides escolhidas; edificou no meio dela uma torre, e também abriu um lagar. Ele esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. (…) // Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito?»
Há no cântico do profeta uma técnica facilmente verificável de parábola. Literariamente, a técnica da figura, da tipologia, diria mesmo de semiótica divina por causa dos sinais (símbolos) com que identifica o fracasso espiritual da nação de Israel.
A invocação do poeta, dizendo-nos qual o teor do seu canto, qual o objecto comunicável do mesmo, conduz-nos a sensibilidade para o desfecho trágico.  Não há acção, mas existe lirismo, sem rima, nem métrica, mas com paralelismos. Há desenlace, elemento integrante da epopeia.  Harmonia e ritmo. Podemos perceber uma proposta do narrador poético acerca dos cuidados que o dono da vinha teve, as metáforas “uvas boas”, “uvas bravas”.
Pode não parecer pelo desenlace final, mas é um cântico do amor decepcionado de Jeová pela sua Vinha-Israel. De certo modo, só iria ter um paralelo com a lamentação de Jesus Cristo sobre a cidade de Jerusalém.

(1) “Saudade”, José Ortega y Gasset, Sete Caminhos, 2005

© João Tomaz Parreira

“FILHINHOS, GUARDAI-VOS DOS ÍDOLOS.”

SamuelPinheiroA idolatria é uma ofensa ao Deus verdadeiro que se deu a conhecer pessoalmente e em carne e osso na pessoa de Jesus Cristo. E é um atentado contra nós mesmos, porque agride a imagem e semelhança na qual fomos criados e que o pecado corrompeu.
Quando o homem nega Deus e O rejeita, procura para si substitutos e o próprio homem é um dos substitutos prediletos que começou com a rebelião de Lucifer contra Deus (Isaías 14:12-14), se propagou a todos os demónios que o seguiram e se infiltrou no género humano na queda de Adão e Eva. Ser igual a Deus, ser deus de Deus (como se isso fosse possível e não uma imbecilidade), ser deus de si mesmo e deus dos outros.
O apóstolo Paulo quando escreve a sua carta aos romanos, logo no primeiro capítulo apresenta uma descrição muito clara e objetiva do processo em que o homem se envolveu com a desobediência e todas as consequências espirituais e morais que daí decorrem. Ainda hoje estas palavras provocam comichão nos ouvidos de quem as ouve, mas elas são o diagnóstico que o próprio Deus faz da situação humana e do seu processo histórico: “A ira santa de Deus desencadeia-se dos céus contra a impiedade e contra a malícia daqueles que por meio dessas ações perversas tornam a verdade ineficaz. Não quer dizer que desconheçam a verdade acerca de Deus pois é Ele que lha tornou bem evidente aos seus olhos. Pois é certo que desde o princípio do mundo os atributos invisíveis de Deus, como a divindade e a omnipotência, não têm sido de difícil compreensão através daquilo que criou, e que com tanta frequência vemos e admiramos, a ponto de não poderem ser desculpados. Sempre se admitiu a existência dum Deus, embora se recusassem a reconhecê-Lo como tal, ou dar-Lhe graças pelas maravilhas que operou. Não admira que se tornassem insensatos nas suas argumentações, mergulhando suas mentes ridículas nas trevas cada vez mais. Por detrás duma fachada de ‘sabedoria’ não passam de autênticos loucos, ao pretenderem transformar a glória do Deus eterno numa imagem, imitação de homem mortal, ou mesmo de quadrúpedes, de aves ou de répteis. Abandonaram a Deus; não admira que Deus os abandonasse a eles, permitindo que sejam ludíbrio das suas más ações, a desonrarem os seus próprios corpos.” (Romanos 1:18-24 – paráfrase de J. B. Phillips)
Em toda a Bíblia encontramos denúncias muito vincadas contra toda a sorte de idolatria, como é o caso deste texto: “Prata e ouro são os ídolos deles, obra das mãos dos homens. Têm boca, e não falam; têm olhos, e não vêem; têm ouvidos, e não ouvem; têm nariz, e não cheiram. Suas mãos não apalpam; seus pés não andam; som nenhum lhes sai da garganta. Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem, e quantos neles confiam.” (Salmo 115:4-8)
Desgraçadamente a nossa nação vive num atoleiro e prisão espiritual pela idolatria que grassa pela mão de responsáveis que se chamam de cristãos e introduziram todo um vasto panteão de imagens perante as quais as pessoas se dobram, a quem rezam, que transportam em ombros nas procissões cuja referência mais emblemática é Fátima, mas que tem muitos outros centros. Tudo isso é uma afronta à revelação de Deus na Bíblia que claramente condena semelhantes práticas. Não se trata de ofender quem quer que seja mas de sermos claros e denunciarmos toda a prática idólatra, que o texto bíblico repudia.
Um ídolo não é apenas uma imagem de pau, de pedra ou de metal perante a qual alguém se ajoelha e cultua (ou venera eufemisticamente). Ídolos são também o dinheiro, os bens materiais, atores e atrizes, jogadores e até nós mesmos. Tudo o que colocamos no lugar de Deus, e tem uma ascendência na nossa vida e comportamento que só a Ele pertence, é um ídolo. Todos os ídolos são uma prisão espiritual, emocional e mental.
É muito sugestiva a forma como as várias traduções e paráfrases nos apresentam o texto que nos serve de título: “Filhos queridos, cuidado com as imitações.” (1 João 5:21 – A Mensagem, Eugene H. Peterson). “Meus queridos filhos, guardem-se de qualquer coisa que possa tomar o lugar de Deus nos vossos corações.” (1 João 5:21 – O Livro). “Mas acautelai-vos, meus filhinhos, de todos os deuses falsos!” (1 João 5:21 – J. B. Phillips). O melhor que temos a fazer é precisamente isso. Só o verdadeiro nos realiza.

Samuel R. Pinheiro

UMA VISÃO POÉTICA DO PENTECOSTES CRISTÃO EM T.S.ELIOT

JTP9Passadas quatro décadas da primeira leitura do longo poema “Quatro Quartetos”(1), cujo início das considerações poéticas sobre o tempo está aqui

“O tempo presente e o tempo passado / Estão ambos presentes no tempo futuro”,  do poeta anglo-americano T.S.Eliot (1888-1965), tive necessidade de o reler. Logo um conjunto de versos sobre os quais passei em 1974, eclodiu em revelação estética sobre uma maneira de ver e de relacionar, literariamente, a beleza do Fogo do Pentecostes.

Na estrofe primeira da parte 4 do poema, que começa com a invocação da primavera a nascer no meio ainda do inverno, isto é, do degelo, quando os dias são brilhantes pela luz do sol a reflectir no gelo ainda, o Poeta escreve nos  versos 9º e 10º:

 

 “ E um clarão mais intenso que a chama do ramo ou do braseiro

Agita o mudo espírito: não vento, mas fogo de Pentecostes”

 

Nestes dois versos, que podem parecer estranhos, exemplifica-se o esplendor do sol a aparentar ouro e fogo no brilho sobre os ramos dos arbustos, através da neve ainda prevalecente.

Numa crítica e análise literária académica, alguém escreveu em 1997, que  “o gelo e a neve brilham com a luz no início da tarde. A possibilidade é de o “fogo pentecostal” ser aqui uma renovação que não está aliada às coisas temporais.”

Numa outra leitura, podemos ler no “mudo espírito” o ambiente silencioso do Cenáculo, os apóstolos e discípulos mudos sob a pressão exterior das circunstâncias, mas, também, sob o silêncio da espera da Promessa, que agita o lugar e os homens, sem vento, senão o “vento impetuoso” transportador das línguas de fogo.

 

Na literatura judaica e cristã (grega), sendo certo que “Pentekoste” significa estritamente “o quinquagésimo dia”, semanticamente estende-se, no plano histórico-teológico, a uma festa e ao que ela representava então, cinquenta dias depois da Páscoa, igualmente a celebração das colheitas como algo novo, as primícias, que Deus dava ao Seu povo e, sobremaneira, uma renovação das bênçãos divinas.

Depois, com o Cristianismo e a Igreja desenvolveu-se uma significação final. Com efeito, a Narrativa do Pentecoste passou a ser teológica. “O Pentecoste significa, primeiramente, o derramamento do Espírito que Deus prometeu para os tempos do fim” ( 2 ),  como descrito no profeta Joel, no Velho Testamento, de um modo escatológico. 

Mas para entendermos o alcance do poema objecto deste artigo, temos de recorrer a alguns elementos do mesmo, desde logo o título que corresponde à 4ª e última parte acima referida.    

 

 

“Little Ridding”

O poeta americano Thomas Stearns Eliot, converteu-se ao anglicanismo quando se “expatriou” na Inglaterra, em 1927, e muitos dos seus poemas utilizam uma linguagem cristã valorizada por uma dicção poética distante dos “regionalismos”, um discurso poético que foi considerado “cosmopolita” pelos críticos do modernismo das primeira e segunda décadas do século XX.

 

T.S.Eliot inspirou-se no legado histórico e religioso da pequena aldeia inglesa Little Gidding, incorporando elementos e símbolos da mesma e da sua comunidade religiosa do século XVII  no seu longo poema.

Um elemento para a percepção do texto poético, está aqui. É talvez desde o século XVII que se realiza uma peregrinação de cinco quilómetros até ao centro da aldeia Little Gidding, no verão,  durante a qual se vai meditando e fazendo orações até atingir o túmulo de Nicholas Ferrar.

A verdade é que Ferrar fundou aí, sobretudo, uma comunidade religiosa de oração, em 1626, sob a palavra divina do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses: “ Orai sem cessar” (I, 5,17).

 

Este clérigo anglicano é assim central na metáfora do fogo do Pentecostes, do renovar das disposições para a vida no espírito, o ouro antigo que o fogo transforma em novidade,  que o poeta anglo-americano usa no poema.

Durante a sua vida, depois de ter sido ordenado diácono anglicano, ele e sua família e alguns amigos aposentados radicaram-se em Little Gidding, Huntingdonshire, Inglaterra, a fim de se dedicarem a uma vida de oração, jejum e esmola, baseando-se nas palavras de Jesus descritas em Mateus 6: 2,5,16. 

A comunidade restaurou o imóvel da igreja abandonada. Passou a ensinar, não só dominicalmente,  as crianças da vizinhança, cuidava da saúde e bem-estar do povo do distrito. Levou os camponeses à leitura diária do Livro de Oração Comum (The Book of Common Prayer), leitura que incluía o Saltério completo.

Sabe-se, por registos históricos da época, que havia dia e noite, pelo menos um membro da comunidade ajoelhado em oração diante do altar, para que pudessem manter aquele imperativo epistolográfico para a Igreja em Tessalónica.

 

Finalmente, à medida que foi desenvolvendo o poema, Eliot foi sempre manifestando a metáfora do fogo e das línguas do mesmo, fosse com que sentido fosse. Resta-nos a beleza final desses três versos com que termina o livro, até porque se lê e interpreta hoje no “nó de fogo” uma referência simbólica à Santíssima Trindade num Único Deus:

 

“Quando as línguas de fogo estiverem abraçadas

No coroado nó de fogo

E o fogo e a rosa forem um só”

 

 

  1. “Quatro Quartetos”, Edições Ática, 1970; “Poesia de T.S.Eliot”, Editora Nova Fronteira, Rio, 1981. 
  2. “Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento” , Vol. III, Edições Vida Nova, São Paulo, 1985.

     

                                                                                

    © João Tomaz Parreira

SEM DERRAMAMENTO DE SANGUE

SamuelPinheiro 2Uma declaração crua e dura de Deus através da Sua Palavra e que é muito difícil para o nosso orgulho e para a banalidade com que lidamos e tratamos com o nosso próprio pecado, se é que pura e simplesmente o negamos. Aceitar o pecado, falar em pecado, enunciar pecados é careta, absurdo, patético, idiota. As personagens dos filmes, das telenovelas ou dos programas de entretenimento que fazem referências ao pecado são apresentadas de forma bizarra, anedótica, ridícula. Quem fala em pecado é visto de soslaio e porventura necessitado de tratamento psiquiátrico. Em boa verdade a religião e os beatos têm dado do pecado uma perspetiva pouco consistente. Pecado é muito mais do que os pecados, mas a condição humana do homem separado de Deus e que decidiu viver a partir da ciência do bem e do mal, em vez de viver na intimidade com Deus, no Seu amor e santidade. O homem não foi criado para viver a partir e em função de regras. Leis acabam por surgir da parte de Deus para orientar o homem na vontade de Deus e se desviar do erro, da mentira e do pecado. Mas a lei e o seu cumprimento não resolvem a situação humana, sendo que todos os homens sem exceção são pecadores e pecam.
Só que o Deus da Bíblia, que não é um deus fabricado pela imaginação e engenho do homem, que não é fruto de um determinado contexto cultural e religioso, mas o Deus único e verdadeiro, criador dos céus e da terra, e que se deu a conhecer pessoalmente vindo ao nosso encontro na pessoa de Jesus Cristo. Jesus Cristo é Deus entre nós. E Ele veio precisamente para dar cumprimento a essa determinação da própria essência e natureza de Deus. Não se trata de uma extravagância ou um rigor exagerado. Essa exigência não podia ser cumprida por qualquer criatura. Deus não o requereu de nenhum ser criado, de nenhum querubim, arcanjo ou anjo, de nenhum homem. Só o próprio Deus podia satisfazer essa exigência de Si mesmo. Aí se encontra concentrada toda a graça divina. Deus requer o que só Ele pode satisfazer, e Deus cumpre na plenitude essa exigência na cruz de Jesus Cristo.
Na nossa naturalidade, pela nossa própria cabeça, nos nossos conceitos e não cabe a exigência de Deus do derramamento de sangue para que o pecado seja removido. Aqui reside todo o escândalo e loucura do evangelho: “sem derramamento de sangue não há remissão.” (Hebreus 9:22). O pecado gera a morte que a morte substitutiva de Jesus e a Sua ressurreição venceram definitivamente para todos os que n’Ele creem.
Jesus não morre na cruz por causa da hipocrisia religiosa, da cobardia política dos romanos, da maldade da turba manipulada e porventura dececionada com um líder que não satisfaz os seus desejos de pão e de milagres, sem beliscar a sua maneira de ser e de estar. Jesus morre de livre e espontânea vontade, sujeitando-se à vontade do pai, que é a vontade da trindade divina desde antes da fundação do mundo e da criação do próprio homem, na omnisciência de Deus que cria o homem sabendo qual será a sua rebeldia futura.
Deus não trata o nosso pecado de forma frívola ou superficial. Não se trata de colocar um remendo na nossa natureza, de dar uma cobertura de verniz na nossa autoestima, de esconder as nossas mazelas e corrupção com alguns embutidos de boas obras. Deus não quer ser um polícia cósmico que exige a nossa obediência, o Legislador que determina o modo como devemos agir e determina as consequências das nossas asneiras, da maldade e da barbárie humana. Sabemos muito pouco do pecado que grassa no mundo. Morreríamos de repulsa perante as barbaridades que são cometidas contra bebés, crianças, mulheres e idosos. O sofrimento que atravessa toda a história é inenarrável. Ele está diante dos nossos olhos na medida suficiente para que tenhamos consciência da sua gravidade e do que significa o decreto divino consumado na cruz. Mas o problema do pecado não é o problema dos outros é o nosso próprio problema. Eu tenho de lidar com o meu próprio pecado e só em Jesus posso ser reconciliado com Deus e recuperar a minha identidade arruinada.
A Páscoa é precisamente a realização divina dessa decisão. Na cruz Jesus resolveu a questão do pecado, mostrou toda a malignidade que ele representa e triunfou sobre ele ressuscitando dos mortos. Só quando captamos esta dimensão da Páscoa é que estamos aptos para celebrar a vida que a ressurreição significa. Vida eterna, vida com abundância é o que temos em JESUS! Celebremos a vida eterna ainda do lado de cá da eternidade!

Samuel R. Pinheiro
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CRISTO E O SEU CRISTIANISMO NO SERMÃO DO MONTE

JTP8Encontramos nos Evangelhos Cristo nas ruas como O encontramos no seu Sermão da Montanha.
“No princípio era o Verbo” – escreve João no prólogo do seu Evangelho-  e isso nos ajuda a entender que Jesus Cristo como o Lógos é a totalidade divina encarnada: Palavra e Vida, Pensamento e Acção.
Em Cristo, o Nous( razão, inteligência, espirito) não era alheio ao Seu corpo, porque “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.
O que o Filho do Homem vivia não era diverso do que pensava e de como agia na Sua divina perfeição a favor do Homem.
E isso também sublima a dimensão do Ser Humano, como criação divina.
É que se a Matéria (seguindo o mecanicismo de Spencer) fosse o mais importante na composição do Homem, como um produto mecânico, em detrimento do Espírito e da Consciência, tanto fazia um homem ou um gorila terem assinado a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ou, muito antes, Jesus Cristo ter pronunciado o Sermão da Montanha.

O Sermão da Montanha
Antes de conter dogmas para a convivência ética dos homens uns com os outros, Jesus Cristo eternizou nesse Sermão no alto da Montanha a Moral dinâmica, que conduz a uma experiência mística, de relação quotidiana do homem com Deus.
Um filósofo europeu francês do Século XX, Henri Bergson, entendeu perfeitamente isso e fez um inestimável favor ao Cristianismo condenando o materialismo e o mecanicismo da vida, porque o ser humano não é um produto mecânico da matéria.
Jesus Cristo desceu das altitudes do seu pensamento como Deus para junto dos homens com o Sermão do Monte, que é uma Carta de Princípios. Não um conjunto de dogmas/preceitos estáticos; Bergson referia que o carácter do genuíno Cristianismo era dinâmico. A perfeição evangélica está, segundo o filósofo que foi considerado místico, no “sermão sobre a montanha, com suas normas aparentemente desconcertantes que devem tornar-se realidade crescente na conduta prática do cristão”.
O início do sermão da montanha, que terá logo nesse dia e ao longo dos séculos desconcertado muita gente, “Bem-aventurados os pobres de espírito” (5,3) termina com o apelo à perfeição: “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (5,48)
O começo e o final, ou melhor, os começos e os finais do Sermão descrito nos Evangelhos de Mateus e de Lucas, reflectem as finalidades últimas e universais do discurso no monte.
A primeira dessas finalidades é que não se tratava de um sermão para a Igreja (Cristã, obviamente) porque a mesma não havia sido revelada ou fundada ainda.
A segunda, de acordo com os melhores exegetas, consistia “num esboço de princípios” para o reino messiânico, como esse reino foi rejeitado, então aplica-se todo o conteúdo ético e moral do discurso basicamente à religião Cristã, ao Cristianismo com Cristo.
Se assim não fosse, ambos os evangelistas escritores não o teriam relatado para a eternidade, teria apenas ficado na oralidade contextualizada da Judeia contemporânea de Jesus Cristo.
Perante o Sermão da Montanha seria legítimo esperar do Verbo excelentes Escritos, quando lemos nos Evangelhos “a oração sacerdotal”, “Não se turbe o vosso coração”,  “Eu sou a videira verdadeira” ou “Tenho vos dito estas coisas para que não vos escandalizeis”. Ou as célebres três parábolas no Evangelho de Lucas.
A verdade é que Jesus Cristo não escreveu nada, e se eu gostasse de lugares-comuns diria que no entanto inspirou toda a Bíblia, o que se sabe da sua escrita está somente no mistério das palavras que redigiu no chão perante a mulher adúltera e seus acusadores.
O Sermão da montanha, chamado assim tardiamente por um comentário de Santo Agostinho, pronunciado perto de Cafarnaum na Galileia, deve ser tomado em pé de igualdade com a lei mosaica do Monte de Sinai, no que concerne à ética, à moral, e aos relacionamentos dos homens entre si e com Deus.

A Ética do Sermão
O Sermão do Monte teve sempre uma ética social em risco, pela condição humana e porque os homens o quiseram sempre anular ab ovo, manifestando-se tragicamente esse desejo desde o princípio do século XX.
Não há tensões entre o Evangelho que preconiza e a Ética social que estabelece. Espiritualidade e militância não se anulam.  A aplicação prática do Sermão na vivência do cristão desmente desde a sua publicação nos Evangelhos, no século I, o que Nietzsche viria a afirmar séculos depois, que “no fundo só existiu um cristão, e ele morreu na cruz.” ( in Anticristo)
O teólogo e mártir do nazismo, Dietrich Bonhoeffer considerava o Sermão da Montanha no plano da Ética como um “evento da reconciliação do mundo com Deus através de Jesus Cristo” para os chamados agirem dentro da história com responsabilidade cristã. E por isso também o considerava no plano do Discipulado. Bonhoeffer escreveu num dos seus mais famosos livros “Discipulado” que “a resposta do discípulo não é uma confissão oral da fé em Jesus, mas sim um acto de obediência”.
Os pobres de espírito aceitam a perda de todas as coisas, especialmente a perda de si, de forma que eles podem seguir o Cristo
O Sermão requer antes dos joelhos no chão, o levantar da inércia da religião e seguir incondicionalmente, sem títulos nem prebendas,  Quem chamou: Jesus Cristo, para agir na História.
Este caminho não é para entusiastas da religião cristã- como diria o autor de “Resistência e Submissão” -, mas para aqueles que sabem que o amor / ódio do mundo os fará padecer.

© João Tomaz Parreira

A SEMIÓTICA ANTECIPADA PELO APÓSTOLO PAULO

JTP7“Há sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo, nenhum deles, contudo, sem sentido.” (Paulo aos Coríntios)

Filósofos da linguagem tiveram razão ao determinar nos inícios do século passado, que seria inconcebível a vida social sem a existência de signos de comunicação. O entendimento humano não se faz sem esses sinais da linguagem, compreensivelmente simples, as palavras.
Por uma razão cultural aplicada à espiritualidade manifestada nos dons espirituais na Igreja, Paulo antecipou-se a tais estudos e escreveu aos Coríntios (14,10) uma frase cheia de sabedoria e da futura ciência linguística: “ Há sem dúvida, muitos tipos de vozes no mundo, nenhum deles, contudo, sem sentido.”
A tradução de O Livro (a Bíblia para Hoje) entreabre a contextualização da época em que pouco se saberia sobre as línguas e os povos: “Suponho que haverá centenas de línguas diferentes neste mundo”.  Hoje, sabe-se muito das escritas ideográficas e silábicas da Mesopotâmia, signos-palavras, escrita original e obscura, dos milénios antes de Cristo, no entanto de invenção tardia. “Uma vez que a escrita não satisfaz uma necessidade elementar da vida do homem” ( “A Escrita”, Marcel Cohen), as mensagens começaram por ser, obvia e comprovadamente, verbais.
A versão da “God News Bible”, das Sociedades Bíblicas britânica e americana, de 1976, apresenta um esclarecedor termo para ajudar a entender a metáfora “vozes”: “There are many diferente languages in the world” e nenhuma linguagem está desprovida de significado.
Curiosa versão é, de igual modo, a tradução em português moderno do “Novo Testamento”, da nossa Sociedade Bíblica”, 1978: “ Existem não sei quantas línguas no mundo e todas têm o seu significado.”
Assim confirmamos que o autor da Carta aos Coríntios tinha a certeza de que era preciso saber o sentido daquilo que se dizia, isto é, era inconcebível e infrutífero não perceber a linguagem do falante interlocutor.
E estava lançada a ideia da futura semiologia. Cada vez que há comunicação, pronuncia-se uma mensagem, na ciência da linguística cabe à semiologia descrever um a um cada aspecto estrutural e funcional da mesma.
A semiologia ou semiótica é, de um modo geral, o estudo dos signos da linguagem; o próprio grego do Novo Testamento regista este vocábulo, “semêion”, signo, sinal, com os quais há comunicação. Se os não entendermos, não compreenderemos a mensagem. Exemplo comummente conhecido? O sinal de trânsito ou signo universal “Stop”, que tem uma significação precisa: a obrigação de Parar.

Tantos géneros de vozes

[14,10] TOSAUTA EI TUKHOI GENÊ PHÔNÔN EISIN EN KOSMÔ KAI OUDEN APHÔNON [14,11] EAN OUN MÊ EIDÔ TÊN DUNAMIN TÊS PHÔNÊS ESOMAI TÔ LALOUNTI BARBAROS KAI O LALÔN EN EMOI BARBAROS. (a transliteração dos versículos da língua grega do NT)

Todo o capítulo 14, de que esta porção bíblica faz parte, é um texto epistolar teológico porque desvenda revelações de Deus para a Sua Igreja, doutrinário porque ensina a Ordem mesmo no exercício dos dons espirituais, estabelece regras para uma verdadeira comunidade pentecostal, e não deixa de aflorar, de um modo simples, a ciência da linguagem, que ainda não se chamava linguística. Só na segunda década do século XX, em Praga, se começou a fazer reflexões sobre a linguagem.
Porém o apóstolo já distinguia que os fonemas eram sinais linguísticos que estavam para lá da acústica dos sons, tinham que ter um sentido para que houvesse verdadeira comunicação e, assim, mensagem. Sempre sem perder a visão de que o aspecto pragmático da actividade linguística é a conversação.
Paulo é peremptório e claro quanto à compreensão das línguas por um “indouto”, como lhe chamava no sentido de estrangeiro que não entenderia uma língua “local”.
Com efeito, Paulo escreve aos crentes de Corinto um princípio básico da semiótica: “ Se eu pois ignorar a significação da voz, serei estrangeiro para aquele que fala; e, ele, estrangeiro para mim.” (Iª. 14,11).
Não deixa de ser interessante o vocábulo grego utilizado: “dunamin”, que conhecemos espiritualmente na linguagem bíblica como “poder”, mas que quer dizer também “significação”, “sentido expressivo”, a capacidade de comunicar.
Paulo entendia e ensinava que as línguas estranhas (a glossolalia) não interagiam socialmente , na comunidade eclesial,  se não houvesse quem interpretasse.  Com base nestes versículos da Carta aos Coríntios, o ensino hoje sobre esta matéria deve ser o mesmo do Apóstolo há vinte séculos atrás.

© João Tomaz Parreira