A TEOLOGIA DA CRUZ

A TEOLOGIA DA CRUZ
JorgePinheiro_23a_peqJorge Pinheiro
Falar da teologia da cruz implica ter de falar necessariamente de duas outras entidades para que este tema seja contextualizado e assim entendida a sua profundidade. Essas duas entidades são Deus e o Homem.
De facto, tendo em conta que, na visão cristã, a teologia da cruz é es-sencial, sendo o seu suporte e coluna mestre, ela só faz sentido tendo como pano de fundo não apenas essas duas entidades atrás referidas, mas a relação existente entre ambas, na medida em que a Cruz surge como o caminho que cimenta essa relação. Melhor ainda, a Cruz é o próprio cimento dessa relação.
Convenhamos que, em termos humanos, não é fácil falar de Deus. Como seres relatados estamos destinados a conhecer directamente apenas aquilo a que os nossos sentidos têm acesso. Essa, de resto, é a base de todo o conhe-cimento humano. É assim que se move toda a ciência. Qualquer ciência, seja ela física, humana ou formal, tem como objecto de estudo uma realidade ou ser acessível aos nossos sentidos e sobre o qual se podem realizar experiências, para comprovar a sua realidade e as conclusões a que se chegou do seu estudo. É verdade que cada ciência, de acordo com a sua natureza, segue métodos específicos que, em alguns casos, não permitem a experimentação directa (como é o caso das chamadas ciências humanas), mas todas elas têm como comum a necessidade de um objecto sensível de estudo.
Naturalmente, também, toda a ciência é, por princípio, incompleta, na medida em que não consegue esgotar o conhecimento pleno do seu objecto de estudo por se encontrar em permanente estado de evolução resultante da dialéctica estabelecida com esse objecto. Por isso, a cada momento se elabo-ram novas teorias baseadas em pressupostos, hipóteses ou descobertas en-tretanto adquiridos as quais muitas vezes contradizem ou melhoram uma perspectiva anterior. Sem nos aventurarmos na demonstração de que toda a ciência é influenciada pela ideologia do poder político, económico ou social em que se desenvolve, podemos afirmar que a ciência acaba sempre por estar em evolução não podendo por isso arrogar-se à palavra final do conhecimento, dada essa característica transitória. Mas também é verdade que na caracte-rística sincrónica do viver humano, as conquistas da ciência e o conhecimento que ela adquire surgem como absolutos porque, a quem vive sincronicamente falta a perspectiva diacrónica. Isto é, enquanto seres humanos só podemos estabelecer comparações factuais com o passado e apenas pressuposições, hipotéticas portanto, em relação ao futuro. Por isso, o momento (relativo) em que se vive tende a surgir para quem viva apenas sincronicamente como abso-luto e adquirido. Salomão, ao reflectir sobre a existência humana e a sua con-tingência, declarava que tudo é vaidade ( ), querendo com isso dizer que tudo neste mundo é transitório e não absoluto ou definitivo. Esta mesma ideia acaba por ser elaborada por João ao declarar que “o mundo passa” ( ).
Ora, falar de Deus no pressuposto de Ele ser o objecto de estudo de uma ciência experimental é algo que surge como impossível, uma vez que, como Ser Absoluto, não sujeito às contingências e limitações do relativo, Deus não é directamente captável pelos sentidos humanos sob o risco de, sendo-o, deixar de ser Deus por perder a sua natureza absoluta. É que, enquanto o Absoluto pode abarcar o relativo, o relativo apenas pode tentar abarcar o relativo e, do Absoluto, ter somente um vislumbre hipotético.
Assim, toda e qualquer ideia que o homem possa ter de Deus será sempre aproximada porque lhe falta a capacidade de exercer algum tipo de controlo ou domínio sobre o seu objecto de estudo. No entanto, apesar das limitações que cercam a abordagem científica de Deus, há sempre alguns aspectos que se podem tomar como adquiridos. Naturalmente, entendendo Deus como ser absoluto, pode imaginar-se, por exemplo, que todos os Seus atributos sejam também absolutos. A partir daqui, no entanto, pouco mais se pode avançar, como seja o perfeito carácter de Deus e as Suas intenções. Neste aspecto, tudo quanto se possa elaborar a esse respeito terá de ficar pelo campo das hipóteses, uma vez que não há possibilidade de as confirmar ou infirmar. De resto, é a essa conclusão que chega Paulo, ao declarar: “Quem compreendeu o intento do Senhor?” ( ), reflectindo a confissão de Job “Bem sei que tudo podes e nenhum dos Teus pensamentos pode ser impedido” ( ).
Dada a natureza absoluta de Deus, ao homem, como ser relativo, faltam as qualidades e capacidades para O descrever e aos Seus atributos de forma rigorosa, pelo que toda a descrição ou referência a tudo quanto importa a Deus peca por defeito. Daí recorrer-se a uma abordagem antropomórfica do Ser Absoluto. Disso são reflexo as diversas expressões que o crente utiliza para se referir à protecção ou ao amor de Deus, para citar apenas duas das Suas características. Todos conhecem os cânticos “Segura na mão de Deus” e “Sob Suas asas refúgio eu tenho”. No mesmo andamento, é costume o crente referir-se ao trono ou à habitação de Deus. Sendo Deus absoluto e sendo o espaço e o tempo realidades do relativo, então Deus não está sujeito às limi-tações do relativo, razão pela qual, em bom rigor, é incorrecto falar-se de lugar em relação a Deus. Essa mesma metodologia antropomórfica vamos en-contrar logo em Génesis quando, no seguimento da criação de Adão e Eva, o texto bíblico se refere a Deus a passear no jardim, pela viração do dia ( ). Ou, ao referir-se à ira de Deus, encontramos por diversas vezes a expressão “arrependeu-se Deus” como no episódio do dilúvio ( ). Os exemplos são inúme-ros. É evidente que, em alguns dos exemplos citados, se pode dizer que o texto recorre a metáforas, mas mesmo sendo metáforas, elas surgem com um carácter antropomórfico.
Chegados a este ponto, poderemos, justamente, perguntar: “Então, é im-possível conhecer Deus? É impossível saber como Ele de facto é e quais os Seus intentos e propósitos?”
Antes de responder a essa pergunta, é fundamental perceber que Deus, como ser inominável, não pode ser demonstrado. E ainda bem que assim é, porque no momento em que se demonstrasse física e cientificamente a Sua existência, Deus deixaria de ser Deus porque ao ser percebido pelo ser relativo que é o homem, perderia a Sua natureza e essência absolutas. Isto é, Deus passaria a caber e a pertencer ao domínio do relativo. É verdade que há inúmeras tentativas ou teorias de demonstração da existência de Deus e muitos afadigam-se por encontrar a demonstração perfeita e irrefutável. De igual modo, muitos crentes, por vezes de forma angustiosa, são impelidos a basear a sua fé em Deus numa prova científica ou filosófica demonstrativa cabal da Sua existência. Ora, a verdade é que todas as teorias de demons-tração da existência de Deus podem ser refutadas o que levaria a uma con-clusão – nenhuma teoria pode afirmar ou negar a existência de Deus. E porquê? Porque, rememorando o que atrás se diz, estamos a lidar com o ser absoluto e, como seres relativos, faltam-nos as competências e as ferramentas próprias para afirmar ou negar irrefutavelmente tudo quanto concerne a Deus. Este facto não nega nem impede, porém, que, quem creia em Deus, não possa ou não deva reflectir lógica e racionalmente sobre Deus e os Seus atributos. De resto, toda esta exposição é prova do que acabamos de afirmar.
A resposta à pergunta não é fácil de dar e depende dos pressupostos de que se parte. Dada a impossibilidade de se comprovar experimentalmente toda a declaração feita directamente ou em nome de Deus, como saber que uma dada mensagem considerada proveniente de Deus, veio de facto d’Ele? Seria sempre necessário partir da hipótese (indemonstrável) da Sua existência. É sempre com base nessa hipótese que qualquer reivindicação da origem divina de uma mensagem, de um acontecimento ou de uma realização tem de ser analisada. Essa é a posição do autor da epístola aos Hebreus ao declarar: “É necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que Ele existe e que é galardoador dos que O buscam” ( ). E aqui entra um elemento indispensável, diríamos central e insubstituível, para a resposta à pergunta em apreço. Esse elemento é a fé, no sentido de convicção e confiança. A convicção é o esteio da certeza e esta vai-se alicerçando cada vez mais à medida que o crente se aproxima de toda a mensagem ou intervenção tida como proveniente de Deus, quer directamente quer por algum intermediário.
Esta convicção resulta da escolha em favor da existência quando a pessoa é confrontada com a impossibilidade da afirmação ou negação da existência de Deus. Quem opta pela não existência, embora de forma sincera e em busca das respostas últimas à existência, segue o seu caminho em diálogo constante com a sua contingência, buscando argumentos em favor da sua opção. Em última análise e instância, pode seguir nessa opção até ao final dos seus dias ou chegar à conclusão de que esgotou os argumentos em favor da não existência de Deus, só lhe restando testar a opção oposta e que até então rejeitara. Quem opta pela existência procura ver em cada declaração tida como proveniente de Deus não apenas a confirmação da sua opção mas a identificação com a sua hipótese de partida. Concluímos então que a fé na existência de Deus, fé no sentido de convicção, é fundamental para que o crente receba como fidedigna uma mensagem ou intervenção atribuída a Deus. Não é, pois, por acaso que a Palavra de Deus declara que o justo viverá pela fé ( ). Repare-se na parte final deste último versículo (Hebreus 10:38): “se ele [o justo] recuar, a minha alma não tem prazer nele”. Ou seja, se a pessoa não tiver fé na existência de Deus, Deus deixa de existir para ela.
Posto o problema nestes termos, é forçoso olhar ao nosso redor e ver como se apresenta o universo teológico de todos quantos optaram pela hipótese da existência de Deus, sem descurar as objecções ou contra-argumentos de quem defende a não existência de Deus. Ou seja, devemos analisar as diversas propostas desse universo e fazê-las passar pelo crivo fino e exigente da sua congruência.
Nesse esforço, podemos classificar de diversas formas o universo teoló-gico: politeísmo, panteísmo ou monoteísmo, teologias (ou religiões) reveladas ou naturais (não reveladas). Sem entrar em grandes pormenores, podemos centrar a atenção no monoteísmo revelado. Rapidamente as razões dessa preferência em detrimento das outras perspectivas são:
1) No caso do politeísmo está ausente necessariamente a figura de um Deus absoluto. Se os deuses são vários, então não são absolutos. Em última instância, o politeísmo e o naturalismo ou o animismo movem-se nos mesmos pressupostos porque os diversos deuses dos politeísmos acabam por ser a encarnação de forças naturais que os animistas reverenciam. De certo modo, o politeísmo é um animismo de grau elevado.
2) No caso dos panteísmos, esta perspectiva acaba por ser um meio-termo entre um politeísmo e um monoteísmo. Em última instância, o deus (ou deuses) dos panteísmos perde ou compartilha o seu carácter absoluto com quem é do domínio do relativo ou então o outro elemento, por norma a natureza, surge como absoluto. Num caso ou no outro, o deus dos panteísmos surge sempre como não absoluto ou, no mínimo, o que seria o mesmo, como um absoluto truncado ou bipartido.
3) No caso do monoteísmo, se Deus é uma pessoa, então é natural que Ele fale porque o verbo, a fala, a comunicação é o que caracteriza a pessoa. É verdade que nos monoteísmos podemos encontrar a figura de um Deus impes-soal para quem o destino da criação é indiferente. É o caso dos diversos de-ísmos. Ora, parece-nos, salvo melhor opinião, que o deísmo é de grau inferior a qualquer teísmo porque toda a pessoa apresenta uma outra característica, a de criador interessado na sua criação. Sendo uma pessoa, o Deus dos monoteísmos tem necessariamente de ser criador e de estar interessado (e muitas vezes envolvido) na Sua criação.
Note-se que referimos monoteísmos e não apenas monoteísmo. De facto, encontramos vários monoteísmos tanto na actualidade como ao longo da his-tória. Centrando-nos na actualidade, detectamos três monoteísmos, indicados pela sua ordem de aparecimento: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Há quem considere o Siquismo um monoteísmo, mas tendo nós reservas quanto a essa classificação, preferimos não o abordar. Ora, a existência dos três mo-noteísmos levanta várias interrogações: são variantes de um só monoteísmo ou estaremos na presença de três monoteísmos distintos e, em última análise antagónicos. Subjacente a estas interrogações, a interrogação maior: o deus dos três monoteísmos é o mesmo ou cada um apresenta um deus diferente?
Sem aprofundarmos a questão, podemos salientar que os três monoteís-mos apresentam traços comuns tanto na concepção de quem Deus é como se reivindicam de uma herança comum. No entanto, a uma análise mais fina, veri-ficamos que há uma maior proximidade entre Judaísmo e Cristianismo, o que significa que, dos três, o Islamismo é o que mais distinções e diferenciações apresenta. As semelhanças e proximidades entre Judaísmo e Cristianismo são tais que podemos dizer, sem entrar em erro, que o Cristianismo é uma releitura do Judaísmo. Por algum motivo se fala de uma civilização judaico-cristã. De facto, as Escrituras cristãs aceitam como revelação divina todo o Antigo Testamento que é lido e interpretado não apenas no seu contexto histórico mas também como palavra de Deus preparatória de uma revelação que é con-tinuação do que fora revelado até ao aparecimento de Cristo. Jesus Cristo, personagem histórica que, na leitura cristã, surge como clímax de todas as promessas de redenção apresentadas no Antigo Testamento.
No monoteísmo revelado, é natural que se fale em revelação. De facto, sendo Deus um ser absoluto que escapa ao escrutínio de uma análise sensório-objectiva, exigência de qualquer ciência, só O podemos conhecer e ao Seu querer, carácter e planos para a criação, se Ele próprio se revelar. Das reve-lações tidas como provenientes de Deus, concluímos que a que apresenta Deus com todas as características expectáveis de um ser absoluto é a Bíblia Sagrada. Por isso, podemos afirmar que ela é sem sombra de dúvidas a única fidedigna. Qualquer característica que possamos atribuir merecidamente a Deus, vamos encontrá-la nas páginas da Bíblia. Deus único, omnipotente, pes-soal, que é amor, justiça, rectidão, etc., tudo vamos encontrar na Bíblia. Um agnóstico ou um ateu que analise com imparcialidade o texto bíblico terá de confessar que tudo quanto poderia esperar de Deus está na Bíblia. Ou, dizendo de outro modo, que a elaboração judaico-cristã das características de Deus é final e absoluta. Se compararmos a Bíblia com o Alcorão, verificamos que tudo quanto este último possa dizer das características, da personalidade e dos planos de Deus para a Sua criação se encontram já expresso de forma directa ou indirecta, implícita ou explicitamente nas páginas da Bíblia. Nesse sentido, a um monoteísta crente na Bíblia, o Alcorão nada acrescenta às características de Deus que ele já não conheça, aprecie ou tenha experi-mentado ou descoberto.
Temos, então, uma revelação escrita onde o crente pode ir buscar todas as respostas para as suas inquietações humanas, em qualquer campo do seu envolvimento pessoal: espiritual, social, económico, político, etc. Por isso, é fundamental que o crente, o cristão neste caso, esteja familiarizado com a Bíblia Sagrada e dela faça a sua bússola na sua caminhada terrena.
Falamos de revelação. Ora, revelação implica, como vimos, palavra ou co-municação, característica fundamental de pessoa. Sendo Deus uma pessoa, então é natural que comunique pela palavra. E é curioso porque, como seres relativos que somos, necessitamos sempre de uma forma para perceber e en-tender a realidade. Damos formas às coisas através de outros objectos ou de símbolos verbais ou não. O homem dá assim uma forma a todos os seres, uma vez que só tem a capacidade de apreender a realidade através desse meio. Por isso, alguém designou o ser humano como o homem simbólico. Sendo Deus um ser, mesmo sendo o ser absoluto, é necessário ao homem dar-Lhe uma forma para O perceber e entender. Por isso, ao longo da história da humanidade, vemos o homem atribuir à divindade as mais diversas formas. Ora, Deus sabe dessa contingência humana e, por isso, tem de se apresentar sob uma forma ao homem para dele ser conhecido ou, melhor dizendo, ser começado a ser conhecido. Verificamos, porém, que tendencialmente o homem acaba por identificar a forma da representação da divindade com a própria divindade. Ao fazê-lo, na prática acaba por atribuir a glória que apenas a Deus pertence à forma que O representa. Ora, a Escritura é muito clara ao declarar “Eu sou o Senhor; este é o meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem o meu louvor às imagens de escultura (ou aos ídolos)” ( ). Por essa razão, a Bíblia é muito enfática ao declarar guerra aberta à adoração de ídolos, assumam eles a forma que assumirem. O Decálogo é disso prova exemplar: “Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até à terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” ( ). No entanto, devido à nossa contingência, continuamos a necessitar de uma forma que nos identifique Deus. O Deus da Bíblia sabendo disso encontra a solução, retratando-se através de uma das Suas características – Deus é um Deus loquans, um Deus que fala. Por isso, o nome de Deus, que é uma forma de O representar, é merecedor de todo o respeito e reverência. Por isso, de novo no Decálogo, vemos a proibição de invocar o nome do Senhor Deus em vão ( ). E Deus é um Deus loquans porque a primeira acção que d’Ele temos registada não foi algo que Ele tenha feito. A Sua primeira acção foi a fala: “Disse Deus” ( ). Deus é, então, Palavra. Não é por acaso que Jesus, que é a imagem visível do Deus invisível ( ), é chamado o Verbo divino ( ). Ou seja, tudo quanto queremos conhecer de Deus, vamos encontrar a resposta na mensagem e no ministério de Jesus.
Ainda quanto à forma de representação de Deus, há no Novo Testamento um texto curioso e paradigmático em relação a Jesus, que O declara como sendo em forma de Deus ( ). É bom não esquecer que o autor desta afirmação é o estudioso e grande conhecedor das Escrituras hebraicas, o apóstolo Paulo, para quem colocar alguém a par de Deus Yavé era algo de impensável.
Como ser absoluto que é, todas as características de Deus são também absolutas. Seria tarefa quase impossível enumerá-las todas. Por isso, citaremos apenas algumas, tendo sempre em mente que elas também se encontram em Jesus, na medida em que, como vimos atrás, Ele é o verbo divino. Na verdade, todas as características e atributos de Deus podem ser condensadas numa única expressão: Deus é santo. Por isso, Isaías declara enfaticamente: “Santo, santo, santo é o Senhor” ( ), expressão essa que é repetida na visão de João em Patmos ( ). Tradicionalmente, define-se santo como algo de magnífico, de intocável, de inconspurcável, de transcendente. Sem negar a verdade dessas definições, podemos considerar um outro sinónimo: perfeito. E perfeito no seu sentido etimológico: algo que está completo, a que nada falta. Recordamos certamente a designação de ”capelas imperfeitas” no mosteiro da Batalha. Elas são imperfeitas não porque tenham algum defeito, mas porque simplesmente não foram concluídas. Ora, neste sentido de perfeito, Deus é santo porque n’Ele nada falta para que seja o que é, porque é o Ser Absoluto, logo, perfeito. Foi nessa qualidade que se revelou a Moisés quando este Lhe perguntou o seu nome. “Eu sou o que sou” foi a resposta ( ). E repare-se que tal como Deus se revela no Antigo Testamento como aquilo que é (Justiça Nossa, dos Exércitos, Bom Pastor, etc.), Jesus também se identifica por aquilo que Ele é: o caminho, a verdade, a vida, a ressurreição, o bom pastor, a porta, etc. Isto mostra-nos que, como Seu seguidor, o cristão deve habitar no domínio do ser e não do ter. Somos o que somos não por aquilo que temos mas por aquilo que somos. Por isso, en passant, como crentes na acção do Paráclito, podemos dizer que os frutos do Espírito revelam o carácter, o ser, do crente em quem o Espírito Santo habita. Por isso, sem descurar os dons, o crente em Jesus deve estar mais preocupado em ser abundante nos frutos do Espírito Santo.
Sendo perfeito, então Deus é-o em tudo quanto diz respeito à Sua relação com o homem, Sua criação. E como o semelhante se aproxima do semelhante, não nos espanta a exigência feita através de Moisés “Sede santos, porque eu sou santo” ( ) e que Pedro repete ( ). Ora, sendo o homem pecador, estando por isso cortado da presença de Deus, é necessário que ele seja vivificado para prestar culto a Deus. Em todo o universo religioso, há a noção de que para o adorador ser aceite por Deus tem de se aproximar com uma oferta sacrificial que, por isso mesmo, passa a pertencer à divindade. Ora, o sacrifício máximo, a oferta última e derradeira, é a entrega da própria vida. Mas como ao dar a sua vida, o homem assume uma dupla morte, a espiritual e a física, fica impossibilitado de ter comunhão com o Criador que, através da recepção da sua oferta, se torna o seu Salvador. Por isso, o homem necessita da oferta de uma vida vicária. Nesse sentido, vemos que é em torno desta realidade que se move e se centra todo o sistema sacramental do Antigo Testamento. O sacrifício surge, então, não tanto para agradar a Deus, mas como caminho para a redenção do homem, da sua compra ao pecado que o afasta de Deus e da comunhão que pode e deve ter com o Criador.
No Antigo Testamento há toda uma elaboração do sistema sacrificial, com as suas exigências e consequências que não vamos reproduzir aqui. A compreensão do papel e do alcance de todo esse sistema sacrificial vicário vamos encontrá-la no magnífico estudo da epístola aos Hebreus que, sobre o pano de fundo desse sistema sacrificial, interpreta todo o ministério e acção auto-sacrificial de Jesus. Quem lê esse tratado aos Hebreus não pode ficar insensível não só face à profundidade desse estudo como também das conse-quências e alcance da obra daquele que João Baptista declara e confessa como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” ( ). Num judeu, esta expressão “Cordeiro de Deus” e a acção que dele resulta, a “extirpação do pecado do mundo” não são inocentes nem inócuas. O cordeiro era a vítima preferencial dos sacrifícios judaicos. Deveria ser apresentado sem mácula nem mancha ( ) para o sacrifício cruento. Mas há aqui, nesta declaração de João Baptista, uma novidade: enquanto no AT o animal a sacrificar era do penitente (leitura objectiva), aqui, com Jesus, a oferta sacrificial é de Deus (leitura subjectiva). É verdade que também se pode interpretar no sentido de o cordeiro ser oferecido a Deus (como o era), sendo portanto “de Deus”, mas a leitura subjectiva está também correcta e, por isso, é perfeitamente aceitável e a mais correcta, como veremos a seguir. Mas a novidade continua porque, enquanto no AT o sacrifício era contínuo pois cada pecado exigia um novo sacrifício, agora com este Cordeiro de Deus, trata-se de uma oferta uma vez por todas, conforme a magnífica elaboração do estudo da epístola aos Hebreus 9 que conclui pela perfeição do sacrifício de Jesus Cristo. Ora, a perfeição é característica de Deus, o que significa que se o Cordeiro é de Deus, então esse Cordeiro é perfeito, é divino. Sendo o Cordeiro de Deus a pessoa de Jesus, a conclusão lógica é pela perfeição de Cristo que assume assim um carácter divino. Sendo o sacrifício do Cordeiro um sacrifício perfeito, isso significa que foi suficiente e bastante, na medida em que, enquanto no AT o sacrifício cobria o pecado, neste o sacrifício apaga o pecado.
A finalidade do sistema sacrificial no AT era conseguir que se restabe-lecesse a relação entre Deus perfeito e, logo santo, e o homem imperfeito, logo pecador. O Novo Testamento vai mais longe e declara que a finalidade do sacrifício do Cordeiro de Deus não se fica apenas pelo restabelecimento da relação entre Deus e o homem, mas proclama a transformação do homem de pecador perdido e desgarrado em filho de Deus ( ). Deste modo, através de uma oferta do próprio Deus que se identifica com o Homem na sua qualidade de ofertante de um sacrifício, a justiça e a santidade de Deus encontram-se, encerrando nesse círculo todos quantos se identificam com esse sacrifício que o próprio Deus ofereceu.
Temos falado até agora de uma das entidades, Deus, que, mais acima di-zíamos ser importante e essencial abordar e analisar para contextualizar e perceber o alcance e profundidade da teologia da cruz. A outra entidade é o Homem, de quem era inevitável indicarmos algumas das suas características ao abordarmos a pessoa de Deus. À semelhança de Deus, o homem é um ser extremamente complexo. Embora com uma identidade e unidade estrutural, tanto física como mentalmente, é grande a sua diversidade tanto em sentido individual como grupal. De facto, podemos dizer que não há dois indivíduos rigorosamente iguais tal como também não há duas sociedades ou culturas idênticas entre si a cem por cento. E, no entanto, tanto a nível individual como grupal, vamos encontrar anseios e preocupações idênticas. Por outro lado, podemos dizer que o homem é tanto fruto do meio como o meio é fruto do homem. Ou seja, o homem não se limita a ser um agente passivo, mas influencia o meio ambiente em que vive, pelo qual também se deixa influenciar. Houve um filósofo que declarou que o homem é ele e a sua circunstância. Por todas essas razões, ao abordar o homem, temos sempre de levar em conta toda essa complexidade e não tentar aplicar a todo e cada um uma mesma fórmula como se de um robot ou uma máquina se tratasse. Vamos encontrar esta ca-racterística descrita nas páginas da Bíblia. Tanto os profetas como o próprio Jesus embora com uma mensagem e uma intervenção universalistas, isto é, destinadas a todos os homens sem excepção, abordaram o homem individual segundo a sua especificidade. Poderíamos resumir esta característica pela frase: cada homem é um homem, o que acaba por traduzir o velho lugar-comum da unidade na diversidade.
Apesar dessa complexidade e diferenciação individuais e grupais, o ho-mem, tanto individual como colectivamente, é um indivíduo. Esta palavra – in-divíduo – é interessante porque significa aquilo que é uno, não divisível. O facto de uma entidade ser composta por partes, por vezes distintas, não impede que seja considerada indivisível. De certo modo, é essa forçosamente a característica de um ser que se move na dimensão do relativo. E, no entanto, o facto de viver na dimensão do relativo não impede o homem-ser-complexo-relativo de, por assim dizer, ter a dimensão do absoluto despejada no seu ín-timo. De facto, a tendência de superação, de procura do mais além, da busca do transcendente é algo que caracteriza o homem. Vemos todo esse trajecto ao longo da história da humanidade. O Génesis descreve de forma magnífica esta realidade, ao afirmar que, na criação do homem, Deus declarou ir criá-lo à Sua imagem, conforme a Sua semelhança ( ).
O carácter de ser que se move na dimensão do relativo faz com que o homem, por natureza, seja incompleto e esteja dependente do seu exterior ou de algum outro ser para ser aquilo que é. O homem entra em diálogo com a sua exterioridade e é através desse diálogo que se vai construindo, numa procura incessante de superação. Dessa procura dá conta o salmista em diversas das suas composições em que refere que a sua alma descansa, confia ou espera em Deus ( ), expressões que surgem com outro articulado como o refúgio, a habitação, as asas de Deus, de que o Salmo 23 é paradigmático ao declarar que nada lhe faltará no Senhor que o faz deitar (em sossego), o guia e o orienta ( ). Esta realidade também não escapa à análise do autor da epístola aos Hebreus quando fala do repouso que o crente encontra em Deus ( ). O repouso é também característica que vamos encontrar em Deus, conforme declara o Génesis, dizendo que, depois de ter criado o Universo, Deus repousou ( ). E é interessante notar que esta ideia de repouso vai surgir no Budismo, embora com outro articulado, partindo de outros pressupostos e chegando por isso mesmo a um resultado diferente daquele que defende o monoteísmo cristão. Falamos do conceito de nirvana que, no Budismo, é o estado de completo repouso da consciência, em que o homem consegue por fim libertar-se de todo o ciclo do samsara, o fluxo incessante de renascimentos. Sem entrarmos na discussão deste conceito e/ou da sua comparação mais exaustiva com a teologia cristã, podemos salientar que, embora a procura do repouso tenha de partir sempre do homem, no Cristianismo esse repouso vem de cima, ou seja, é potenciado por Deus, enquanto no Budismo, vem de baixo, ou seja, é potenciado pelo homem, na medida em que, no Budismo, Deus está ausente por ser irrelevante. Ou, em termos mais técnicos, a proposta do Cristianismo vai da transcendência para a transcendência passando pela imanência, enquanto no Budismo é da imanência para a transcendência passando pela imanência.
Há, então, no homem algo de divino ou, melhor dizendo, de natureza divi-na, o que explica toda a sua tentativa de superação existencial, motivando-o a elevar-se acima dos limites estreitos do relativo. Dir-se-ia que a natureza absoluta de Deus está aprisionada numa redoma frágil e contingente e dela procura libertar-se. Nos vários diálogos travados entre Jesus e muitos dos Seus interlocutores, verificamos que embora com vivências e estruturas psico-espirituais distintas, todos eles escutaram as propostas que Ele lhes apresentava. O tipo de respostas poderia variar, mas todos quantos respondiam positivamente revelavam esse anseio mais ou menos patente pelo absoluto. Vejam-se os casos de Nicodemos e da samaritana, de Marta e Maria e dos discípulos ( ). Até mesmo os que, como o mancebo de qualidade, consideravam excessivas as posições do mestre galileu ( ) não se furtaram ao diálogo.
Do ponto de vista da teologia bíblica, a essa característica validada pela Bíblia, junta-se uma outra já referida e que vai balizar todo o relacionamento do homem com o absoluto de Deus – a sua condição de ser imerso no pecado. Há, naturalmente, várias definições de pecado, algumas nada consentâneas com a realidade bíblica e muitas delas em livre curso em muitas igrejas. Isso talvez se deva ao facto de a Bíblia não apresentar uma definição de pecado mas de se limitar a induzir a ideia de ele ser uma transgressão à vontade e aos estatutos de Deus, colocando assim o homem em rota de colisão com a divindade de quem se encontra distante por via desse mesmo pecado. Seja qual for a definição de pecado que as diversas comunidades cristãs possam apresentar, todas elas produzem um efeito comum – a transmissão da noção de culpa do homem pelo seu afastamento da vontade de Deus, que o leva a deixar de ter comunhão directa com a divindade. Por via do pecado, o homem vive um drama espiritual intenso – o seu íntimo, onde tem inscrita uma matriz de origem divina, que anseia pela comunhão com o seu Criador, o que lhe permite trazer descanso e sossego, sente-se cortado dessa mesma comunhão e tudo fará e faz para que essa brecha que se abriu na comunhão entre Deus e o homem seja ultrapassada com sucesso, segurança e certeza.
Este é o drama que vamos encontrar em todos os quadrantes e latitudes, em todos os tempos e locais de habitação do homem. Seja qual for o posicio-namento em que o homem se coloque na sua relação com o divino, em todas as expressões de religiosidade encontramos esta necessidade de ultrapassar a ruptura entre o nosso mundo do relativo e o absoluto de Deus. Como atrás mencionámos, o sistema sacrificial do Antigo Testamento aponta o caminho da restauração – a oferta de uma vítima vicária inocente, sem mancha ou defeito, por via da qual o penitente pode finalmente entrar no descanso da divindade.
Ora, é sobre este pano de fundo que se movimenta toda a teologia da cruz. Nela foi oferecido o sacrifício de uma vítima pura, inocente e sem man-cha ou defeito. E para reforçar a realidade de se tratar de uma expiação plena do pecado, o altar em que esta vítima foi oferecida foi uma cruz, instrumento de tortura dos mais atrozes e que, na teologia veterotestamentária, tornava maldito tudo quanto nela fosse colocada, conforme a reflexão de Paulo ( ) sobre o texto de partida em Deuteronómio que declarava ser maldito todo aquele que fosse exposto no madeiro ( ). Na brilhante exposição de Paulo aos Gálatas, epístola que juntamente com a de Hebreus deveria ser de leitura obrigatória para todo o cristão, aprendemos que aquela vítima (Jesus) que era inocente, pura e sem defeito, se fez maldição, entenda-se pecado, por todos quantos aceitarem esse sacrifício. Desse modo, em última instância, em termos teológicos, era o próprio pecado que estava a ser entregue a Deus para que Ele o afastasse e eliminasse do existir humano. Esse é o entendimento de Paulo, ao declarar que Cristo se fez pecado por nós ( ), o que indica, como atrás dizemos, que a cruz estava a receber o pecado em toda a sua extensão e em toda a sua latitude. Ou seja, em Cristo, na cruz, o homem está a entregar aquilo que o afasta da comunhão com Deus. A cruz esvazia o pecado do existir humano, da alma humana que, assim, despojada daquilo que a impede de ter comunhão com Deus pode, através deste sacrifício, entrar livremente na presença de Deus, com a certeza de, enquanto permanecer à sombra do Calvário, não estar mais conspurcada pelo pecado. Depois de rememorar a acção, o carácter e a função do sacrificado Jesus, o autor da epístola aos Hebreus grita de triunfo que podemos agora chegar com confiança junto do trono da graça de Deus ( ).
Há, assim, uma novidade no Cristianismo em relação ao Judaísmo – sem rejeitar toda a revelação anterior a Cristo, no Cristianismo há um sacrifício em tudo idêntico aos sacrifícios expiatórios veterotestamentários, mas em que o pecado morre com a própria vítima e em que a vítima acaba por ser ao mesmo tempo vítima e sumo sacerdote. Cristo surge então com esta dupla característica ou natureza – vítima sacrificial e sumo sacerdote. No AT o sumo sacerdote entrava uma vez por ano no Santo dos Santos a oferecer um sacrifício por todos os pecados confessados e não confessados, os declarados e os omitidos ( ). En passant, é interessante notar que o sumo sacerdote tinha de se banhar num banho ritual para se purificar ( ) antes de poder oficiar no Lugar Santíssimo. De igual modo, Jesus, como nosso sumo sacerdote também passou por este banho ritual purificador quando foi baptizado por João Baptista ( ). O facto de Cristo ser em simultâneo vítima e sumo sacerdote é, só por isso, tema de um tratado de teologia. Limitemo-nos a apontar uma ideia-força. Agrupando em si essas duas características que teologicamente surgem como tendo natureza e função distintas, para não dizer opostas e até antagónicas, Jesus surge como o verdadeiro elo entre o Deus santo e o homem pecador. Como cordeiro sacrificial, assume não apenas a figura do homem em si, mas de tudo quanto ele tem de negativo, impeditivo de uma comunhão plena com Deus. Como sumo sacerdote, é o primeiro entre todos os sacerdotes, o que lhe confere singularidade. Na sua qualidade de sacerdote, a pessoa pura que surge como representante de Deus no acto sacrificial, Jesus une em si os dois pólos desta relação quebrada no jardim do Éden, garantindo assim ser não UM sacrifício, mas O sacrifício por excelência. E rematando todo este acto com selo de qualidade e garantia, o cordeiro em sacrifício é o cordeiro DE Deus.
Este sacrifício feito uma vez por todos dispensa qualquer acto da parte do penitente e do pecador visando por meio de um qualquer sacrifício de qualquer natureza obter da parte de Deus a graça de lhe ser permitido entrar na Sua presença. A cruz dispensa o pecador de, a cada pecado, apresentar um sacrifício redentor. Essa obrigação foi cumprida uma vez por todas por aquele que, sendo o Cordeiro de Deus, foi enviado por Deus para, por meio do Seu sacrifício, redimir por completo toda a raça humana. Por isso, a epístola aos Hebreus declara triunfalmente e sem sombra para dúvidas que este sacrifício singular é suficiente para, por toda a eternidade, santificar o pecador ( ). Isso não significa, porém, que liberto dessa obrigação, o crente possa viver a seu bel-prazer, ignorando todos os estatutos que Deus coloca perante o homem e cujo cumprimento e observação são indispensáveis para que a comunhão com Deus não entre em ruptura. Agora, o cristão vive em novidade de vida ( ), o que significa que deve apresentar no seu viver frutos de uma vida transformada e em consonância com o querer de Deus. E para que o cristão não diga que se sente incapaz de o conseguir, Deus, conforme promessa de Jesus, coloca no seu interior o Espírito Santo ( ) permitindo-lhe assim produzir fruto agradável a Deus ( ).
Por tudo quanto atrás dizemos, concluímos que todo o cristianismo, quer em termos colectivos, quer em termos individuais, tem de girar sempre e inescapavelmente, em torno do sacrifício de Cristo para que, por meio dessa acção, os seus membros possam ser beneficiários de toda a herança de que o sacrifício no Calvário os fez herdeiros. Reunião cristã que esteja arredia dessa verdade não passa de uma socialização de entretenimento. Cristianismo em que essa verdade esteja ausente nem caricatura é de cristianismo, mas a prostituição de todo o plano de Deus para a redenção da humanidade. Cristia-nismo em que os seus seguidores, sejam líderes, sejam leigos, se arroguem à reivindicação de alguma parcela de glória pela sua acção não passa de associ-ação de malfeitores e ladrões.
A cruz representa, pois, salvação e salvação vinda de Deus sem o contri-buto humano. Por isso, é uma obra perfeita e absoluta, porque Deus, sendo perfeito e absoluto, coloca a Sua marca em toda a Sua obra. Mas é uma sal-vação ao mesmo tempo colectiva e universal mas também individual. Universal, na medida em que está acessível a todos sem excepção. Individual, porque cada um tem de assumir sozinho o compromisso de passar a ter comunhão com Deus, na medida em que Deus respeita a individualidade do homem, convidando-o a, face a face, decidir-se pelo caminho da reconciliação agora definitivamente franqueado. O Apocalipse retrata essa realidade de uma forma magistral e sublime ( ).
No sacrifício há dor, a dor do animal que é morto. Jesus, como ser sen-ciente, isto é, que sente, experimentou dor e dor atroz porque, como dizemos mais atrás, a cruz era instrumento de tortura dos mais atrozes, dos mais do-lorosos. Sendo o Cordeiro de Deus, isso significa que Deus está presente na nossa dor e, através dela, podemos ver, embora nem sempre sentindo ( ) que o Deus salvador está em nós ( ), guiando-nos por aquilo que consideramos ser o nosso vale da sombra e da morte ( ). Como diria Lutero, embora Deus oculto porque Ele é conhecido apenas porque se revelou, isto é, retirou o véu que O ocultava, Deus manifesta-se nas coisas visíveis. Embora sendo o Deus das Alturas, de que o cântico dos anjos aos pastores se faz eco ( ), Deus mani-festa-se no mais profundo, como reconhece o salmista ( ). Ele manifesta-se no mais profundo da nossa dor, da nossa ignomínia, da nossa insuficiência. E fá-lo através daquele que é Emanuel, a oferta sacrificial perfeita. E embora possamos sofrer em resultado da nossa decisão de seguir Cristo, isso não significa nem que iremos forçosamente sofrer nem que tenhamos de procurar o sofrimento para nos chegarmos a Deus em busca de redenção. Esta está já garantida uma vez por todas e não precisamos de procurar a dor e o sofri-mento porque o Salvador levou já sobre si todas as nossas dores ( ). Mas se a dor vier em consequência da nossa adesão a Cristo, por muito sofrimento que ela possa causar, só temos de recordar ao nosso coração e à nossa cir-cunstância que do Alto vem o socorro ( ), porque o Alto conheceu e experi-mentou a nossa baixeza.
Mas a cruz revela também o paradoxo do plano salvífico de Deus. Na cruz, aparentemente, não podemos ver Deus, tanto mais que, como referimos já, Jesus exclamou: “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste?” Ou seja, Deus está ausente, oculto da cruz. E, no entanto, é este Deus oculto que está presente em toda a extensão do sacrifício e do sofrimento de Cristo. Podemos avançar, em tentativa de explicação que Deus está, pelo menos aparentemente, ausente porque na cruz está não o Filho Unigénito, mas o pecado negro e hediondo. O que reforça o paradoxo porque, nessa linha de pensamento, o Deus santo passa pelo pecado, atravessa o pecado, mergulha no pecado para se chegar até ao pecador e resgatá-lo à sua condição de filho amado de Deus. O que faz com que Deus deixe de estar oculto DA cruz, para estar oculto NA cruz. Tal como Deus baixou do Alto à nossa profundeza, assim nós também, temos de subir ao alto através da nossa baixeza sabendo que em todo esse processo, em toda essa caminhada, no túnel escuro do pecado estamos resguardados por aquele que abriu um caminho seguro para o nosso ser.
Ainda citando Lutero, “a cruz põe à prova todas as coisas”. Ou seja, face a qualquer teoria ou doutrina de salvação de origem estritamente humana, a cruz manifesta-lhe as fragilidades e surge como o único e seguro caminho porque, como paradoxo de Deus, enfrenta os paradoxos do existir humano. Porque quando seguimos outro caminho que não o da cruz, estamos a dar pri-mazia exclusiva ao intelecto e à vontade humana, remetendo para segundo plano a via segura de conhecer Deus através da revelação em que Ele próprio se empenha e compromete. Quando abraçamos a revelação de Deus, ela valoriza e potencia todas as faculdades humanas, incluindo a vontade e o intelecto. Ou seja, estes só podem pretender atingir o seu esplendor máximo quando andam de mãos dadas com a revelação da cruz, que é a revelação máxima de Deus ao homem e revelação final de Deus no tocante ao plano de salvação.
Por todas as razões atrás apresentadas e por outras que não abordámos, podemos concluir com Paulo, confessando e reconhecendo que “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus mais forte do que os homens” ( ). A Deus toda a glória.
SAC, 20.Abril.2018

(OS) CODEX EPHREM DA PÓS-MODERNIDADE

(OS) CODEX EPHREM DA PÓS-MODERNIDADE

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© João Tomaz Parreira

«Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus.» II Co 2,17

Fazer uma ligação entre o Codex Ephrem e a pós-modernidade é ensaiar uma ponte entre o século V e os dias de hoje, embora pareça um mal entendido aos mais sensíveis que se restringem a padrões rígidos de interpretação de eventos actuais.
Sim, porque à partida parece que pretendemos misturar o que foi uma das bases manuscritas para a formação e estabelecimento dos canones dos Velho e Novo Testamentos e qualquer ética ou filosofia do pós-moderno.
O chamado Codex Ephrem, que tem menor importância que o Sinaiticus, e.g., «foi» um manuscrito de ambas as partes de Bíblia, designadamente do NT, do século V, e está conservado na Biblioteca Nacional, em Paris. «Foi» um manuscrito que agora se lê dificilmente, porque um copista resolveu apagar do pergaminho os textos sagrados e reescrever outras coisas. A este trabalho de raspagem e reescrita chama-se palimpsesto (do grego pálin e psestos, novo e raspar).
O Codex Ephraemi Reescritus, assim também conhecido, é, segundo os especialistas, o último do grupo em que se reúnem, com ele próprio, os quatro manuscritos da Bíblia Grega , os Codex Sinaiticus, Alexandrinus e Vaticanus.
O texto que foi escrito por cima do Codex inicial, no século XII ou XIII, por um autor sírio, o Efraem, contém as obras desse, crónicas religiosas, de onde sobressaem as ditas sobre a história eclesiástica de João em Éfeso.
Há literatura sobre o assunto que nos assegura que os textos originais do pergaminho, os textos bíblicos digamos assim para generalizar, não foram inteiramente raspados e podem ainda ser lidos, penosamente embora, sob meios tecnológicos modernos.
A Palavra de Deus parece ter desaparecido sob as opiniões e as histórias, ainda que eclesiásticas, de homens alegadamente piedosos. O palimpsesto foi um contentor de duas mensagens. À luz da crítica literária contemporânea e de qualquer dicionário das comunicações de massa, é material polissémico, porque tem vários sentidos.
As Releituras
Considerando que a Bíblia Sagrada é o Livro mais vendido, 5-6 biliões de cópias, e por conseguinte o mais lido, é natural que seja objecto de múltiplas e díspares releituras, mesmo até por crentes e, com certeza, por ateus. E tais releituras são normalmente efetuadas a dois níveis: ao teológico e ao antropológico; Deus e o Homem. Os crentes procuram na Palavra divina o Pai; os ateus, os não-crentes, demandam quase de um modo edipiano contradizê-Lo e mesmo eliminá-Lo.
No século XVIII, sob uma particular visão socialista, Proudhon já relia certamente o apóstolo Paulo, alegando que as suas formas de ideal (quereria dizer doutrina ética e social, moral e espiritual, etc.)eram bem definidas, mas caducas.
1.Sartre
Por exemplo, o filósofo Jean-Paul Sartre, mistura de católico (pelo pai) e de protestante (pela mãe), um céptico que passou cedo para o terreno do humanismo e da releitura negativista da fé cristã. Na sua autobiografia Les Mots (As Palavras), considera a perda da fé religiosa por uma releitura de um acontecimento religioso – perante as senhoras da família que acreditavam em Deus o tempo necessário para apreciar uma tocata no órgão da igreja; ou o avô que julgava parecer-se com Deus por causa da sua barba e costumava aparecer por trás do púlpito de onde se proferiam raios celestiais, vindo da sacristia para assustar os fiéis na missa.
Mas esta espécie de releitura, do nosso ponto de vista, não foi mais que uma posição material sobre aspectos religiosos, no sentido social da religião. Ainda não era o que Sartre viria a estabelecer depois, como as releituras de ética e moral, de espiritualidade e da existência que alguns dos seus mais famosos textos fariam. Dois apenas, para este raciocínio.
A Náusea, que é um beco sem saída, onde se entra para fugir de Deus. Onde a pessoa é apenas um indivíduo, sem importância, daí o nada finalizador. «Todos os objectos que me cercavam pareciam feitos da mesma matéria que eu, duma espécie de sofrimento ruim»- considerava a personagem, Roquentin. «Nada. Existi.»- diz. O outro beco sem saída é a peça Huis Clos , pela sua própria natureza de espaço fechado, onde uma releitura do inferno citado na Bíblia se torna no fogo sem consumição da consciência de cada pessoa, numa metáfora da morte, onde os actos de cada um atormentam o outro.
Seja como for, para Sartre Deus existia, o seu ateísmo era moral e provisório – dizia o escritor- estava ligado ao facto de Deus ainda se não lhe ter revelado.
No que concerne à criação por intermédio divino, e à finalidade do Criador em ter criado o homem, Sartre escrevia em A Náusea que «todo o existente nasce sem razão»; os homens como as coisas não tinham vontade de existir, somente não tinham outro remédio. Que releitura do Génesis tão desesperante e terrível, Deus criou o homem à existência para o punir?

2. José Saramago
Quanto ao romancista José Saramago poderíamos ficar conversados por aqui: «Deus é um problema». É o que o escritor vê nas Escrituras Sagradas, por isso procura insistentemente desde o controverso romance «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» ( de 1992) reler e reinterpretar o Novo Testamento, por exemplo, no cerne que é a Salvação pela morte expiatória e vicária do Filho de Deus.
Saramago socorre-se de uma semiótica centrada em uma obra de arte de Albrecht Durer, «A Grande Paixão» renascentista, a partir da qual reinterpreta com os seus próprios símbolos anti-cristãos, que profanam o sagrado, toda a crucificação, como se esta fosse um mito, mesmo considerando-a bíblica. Mas o que o nosso escritor faz, é pôr em causa a autoridade de Bíblia numa matéria tão vital.
Passados dezassete anos, Saramago volta a fazer leituras bíblicas comprometidas com a profanação do sagrado.
No pré-lançamento do seu último romance, «Caim», de 2009, um semanário de referência – o Sol – disse que «não deixa de ser curiosa a concentração no tema Deus. A preocupação em si já é sintomática da centralidade da questão.»
É para o escritor o chamado «factor Deus», não se sabendo bem se como uma unidade simples ou se causa de vários efeitos.

3.Congresso Multidisciplinar de Estudos da Bíblia
O evento ocorreu em 2009 com o apoio de instituições marcantes nos estudos das Sagradas Escrituras de Israel, desde o Rockfeller Archeological Museum, o Museum of Jewich People, à École Biblique et Archéologique, entre Jersusalém e Tel-Aviv. Os pesquisadores protestantes, pentecostais e judaicos religião de Moisés. Alguns resultados chegaram, designadamente, com o que chamaram de nova visão sobre o que referem ser a «parte mitológica» da Bíblia. Houve sinais de que é «preciso» despir a mística do Bereshit( Génesis) e vestir alguns episódios com a capa do científico, criticamente. Adão e Eva foram casal ? Ou uma geração? Caim e Abel, classes em tensão ou irmãos de facto?

4. Der Mensch is gut! – O Homem é Bom!
Depois da catástrofe da I Grande Guerra e da hecatombe que dizimara nas lamas das trincheiras milhões de europeus, o estado de espírito da Europa parecia elevar-se acima das realidades e definia que o Homem era Bom. O pacifismo que nascia das cinzas da mente do homem, em 1917, se legitimamente podia rejeitar a guerra, não podia reformular a doutrina da Queda, nem do pecado original, nem das sementes do Mal que o Diabo implantara no coração humano.
Na teologia protestante das décadas de 30 e 40, o idealismo apesar dos tumores na Europa carreava para a discussão bíblica e escolar o pacifismo de pensadores de grande nível cristão e intelectual como Dietrich Bonhoeffer.
Não se compreendia muito bem como o homem havia chegado à maioridade. Compreende-se, por assim dizer, a chegada do homem, do ponto de vista cristão, ao posicionamento de discípulo de Cristo ao lermos o seu livro «Discipulado», um homem dependente de Cristo Jesus, obediente à vontade divina, homem sem poder passar sem Deus, poderia ser um homem solitário («o chamado de Jesus ao discipulado faz do discípulo um ser solitário- escreveu», mas nunca independente, ou dependente de si mesmo.
E lendo também «Tentação», perceber-se-á a fragilidade humana exposta perante as crises ou os ataques do diabo.
Não se entende, porém, o homem chegado à maioridade, que levou alguns seguidores seus a reler que proclamava «o homem agora pode passar sem Deus».
Aprender a viver sem Deus, seria uma releitura da religião nos anos 40 perante o descalabro moral e social da Europa nazi, e esta suposta maioridade do homem chegaria aos teólogos da década de 1960.
As releituras bíblicas tinham que ser agora interpretações não-religiosas de conceitos bíblicos -escreveriam, contudo, os interpretes das obras do mesmo Bonhoeffer.
Pegava-se nos textos bíblicos, nos conceitos milenares das Escrituras Sagradas, na revelação neo-testamentária de Deus em Cristo, na espiritualidade, raspava-se o original para reescrever o que o secularismo sempre defendera: Deus não é necessário para nada, o homem é que é tudo.

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“Se Deus é bom…” Um estudo sobre o mal, o sofrimento e a justiça

“Se Deus é bom…”
Um estudo sobre o mal, o sofrimento e a justiça

Raquel Pinheiro 2por Raquel Viegas Pinheiro

Monografia elaborada para a   Disciplina “Apologética” no 3º ano do MEIBAD – Instituto Bíblico Monte Esperança
docente Samuel Pinheiro

FANHÕES
2017-2018

 

 

 

ÍNDICE

INTRODUÇÃO 1
I. PORQUE EXISTE O MAL? 2
1. O que é o mal? 2
2. Quem criou o mal? 2
II. PORQUE EXISTE O SOFRIMENTO? 4
1. Que mal fez eu para merecer isto? 4
2. Qual o propósito do sofrimento? 5
III. PORQUE É QUE DEUS NÃO FAZ JUSTIÇA? 7
1. Porque Deus poderoso não destrói o mal e o sofrimento? 7
2. Se Deus é bom porque não faz justiça? 9
CONCLUSÃO 11
BIBLIOGRAFIA 12

 

INTRODUÇÃO
Este trabalho foi realizado no âmbito da Unidade Curricular “Apologética” lecionada pelo docente Samuel Pinheiro, e tem como objetivo principal exibir um estudo acerca do mal e do sofrimento relacionando com a justiça divina. É pretendido responder a questões dentro desta temática que geralmente são levantadas questionando a fé.
A escolha deste tema teve origem num diálogo com uma senhora durante uma campanha evangelística, esta duvidava da existência de Deus porque que Ele não fez o seu trabalho quando um homem raptou uma criança, no seu ponto vista se Deus existisse teria cortado os braços àquele individuo. Este exemplo tem uma ligação direta tanto com o mal moral, como com o sofrimento e também com a justiça de Deus.
Admito com segurança que o sofrimento e o mal moral têm sido obstáculos à aceitação do evangelho devido ao conceito errado generalizado. A questão das “crianças que morrem à fome em áfrica” é apenas um grão de areia nesta temática, porque a grande dificuldade é quando o sofrimento e o mal atingem pessoalmente. Creio que se mostrarmos o ponto de vista Bíblico, o de Deus, podemos levar as pessoas ao Cristo que sofreu por elas.
A metodologia utilizada para a realização desta monografia inclui quatro etapas: 1) pesquisa e análise de bibliografias (enciclopédias, dicionários, comentários e outros); 2) seleção de informações relevantes para a temática, retiradas da bibliografia; 3) desenvolvimento do conteúdo; 4) Formatação e revisão final.
O trabalho está dividido em três grupos principais:
1. Porque existe o mal?: É indicado o conceito de mal moral e a sua origem.
2. Porque sofremos?: O mal e o sofrimento tem uma relação muito próxima. Sendo que neste ponto será explorado o sofrimento como consequência do mal. É explicado qual é o propósito divino quanto ao sofrimento e a coabitação deste com Deus.
3. Porque é que Deus não faz justiça?: Neste ponto assume-se a existência de Deus, do mal e do sofrimento. É abordado a “inatividade” aparente de Deus quanto a este problema, é questionada a omnipotência e bondade divina.

I. PORQUE EXISTE O MAL?
1. O que é o mal?
Há três formas de relacionar Deus com o mal:
1. O mal existe mas Deus não (ateísmo);
2. Deus existe mas o mal não (panteísmo);
3. Tanto Deus como o mal existem.
Negar o mal é um conceito monista ou panteísta: o mal é apenas algo que parece ser mas não é; é uma ilusão e não uma realidade. Mas se o mal não é real é porque os sentidos são completamente indignos de confiança e não existe qualquer diferença entre a dor ilusória e real, mas esta ideia não parece corresponder à realidade, antes pelo contrário, parece ser meramente algo que homem gostasse que fosse verdadeiro. O mal, é algo quase palpável, é universal e é real.
Se o mal existe, como podemos defini-lo? Norman Gleiser defende que o mal não é em si mesmo uma substância, mas na sua definição está implícita a ausência do bem que deveria estar presente mas por alguma razão não está. Agostinho citado por Gleiser define o mal como algo “corrupto”, mas a corrupção acontece quando algo bom por natureza sofre perda de pureza.   Isto remete-nos ao jardim do Éden onde o Homem era bom por natureza mas ao pecar perdeu essa natureza boa e agora é mau por natureza.
Se não podemos definir o mal como “algo” mas sim como uma ausência não é possível atribuir a criação do mal a Deus.   Mas onde podemos encaixar o mal no meio de Deus e de um plano de criação perfeitos?
2. Quem criou o mal?
Aparentemente o texto de Isaías 45:7 apresenta Deus como criador do mal, mas à luz do contexto da passagem este mal é melhor traduzido como desgraçada ou julgamento e não se aplica no sentido moral. À luz da Bíblia, Deus não é mau (1Jo 1:45) e é moralmente perfeito (Mt 5:48).
A Bíblia é clara ao afirmar que Deus não criou um mundo com sofrimento ou males (Gn 1-2), atualmente o mundo não é igual ao estado original (Gn 3:16-22). “O homem trouxe o mal para si por escolher egoisticamente seu próprio caminho à parte do de Deus.”  O mundo está num estado anormal, o homem tem natureza pecaminosa, o mundo não está como Deus “queria” que estivesse (Rm 5:19; Gn 6:5-6;11-12).
Geisler apresenta que um dos requisitos para sermos criação perfeita era ter a liberdade inserida no pacote. E quem tem liberdade, tem escolhas, e uma dessas escolhas é decidir entre fazer o bem ou não fazer o bem (ou seja, o mal). Enquanto “Ele faz com que o mal seja possível; nós fazemos com que o mal seja efetivo.” Com Satanás aconteceu a mesma situação, ele foi criado com poder de escolha para poder amar Deus livremente (amor forçado não é amor, é estupro ) mas ele tornou-se a primeira causa do pecado através do seu próprio livre-arbítrio.  Podemos afirmar que quem criou o mal foi Satanás, os anjos caídos e nós próprios quando optámos por não escolher o bem que Deus criou.

II. PORQUE EXISTE O SOFRIMENTO?
1. Que mal fez eu para merecer isto?
O sofrimento pode derivar: do julgamento divino, como consequência do pecado de Adão ou de Satanás.
a) Julgamento divino
Será que o sofrimento pessoal está diretamente ligado ao pecado pessoal? Será que Deus castiga sempre que se peca? Em Salmos 103:10-11 e Lamentações 3:22 indica que Deus sempre trata os Seus com misericórdia apesar do pecado . A própria salvação é algo misericordioso porque todos merecíamos a condenação (Rm 3:23), mas agora podemos ser considerados inocentes por meio de Cristo (Rm 1:8).
Hindus defendem que o sofrimento individual é o resultado do mal individual (Karma) no cristianismo esta ideia também pode estar presente. É corrente perguntarem “que mal fez eu para merecer isto?”. Não se pode descartar o conceito de sofrimento como castigo divino  (ex: Miriã, Arão, Ananias e Safira), porque este é real à luz da Bíblia mas em diversos casos não há qualquer ligação, Deus até colocou na Sua Palavra um livro (Jó) que é dedicado ao problema do sofrimento e apresenta que este nem sempre é causa do pecado. Jesus explicou aos seus discípulos esta mesma ideia quando estes questionaram a razão da cegueira de um homem, Jesus foi claro ao afirmar que o pecado pessoal não era o motivo (Jo 9:1-3).
b) Pecado de Adão
“Quando as almas se tornam perversas, elas certamente fazem uso desta possibilidade para se ferirem umas às outras.”
A maioria do sofrimento deriva de más escolhas. Por vezes são consequências naturais dos pecados e erros, se alguém roubar um banco naturalmente que será preso, se alguém comer um iogurte estragado naturalmente irá ter uma indigestão. A prisão e a indigestão são sofrimentos que derivaram de uma má escolha e nem sempre é necessariamente julgamento divino. Outras vezes o sofrimento é infligido por terceiros, por vezes diretamente, se alguém matar propositadamente outro, ou indiretamente por exemplo se o governo tomar más decisões que podem prejudicar outros que lhes são desconhecidos.
“O mal invadiu toda a personalidade humana.”  Por causa do pecado Adão, o mundo ficou contaminado com a dor, a morte, o mal e o sofrimento (cp Rm 5). Mas por causa da obediência de um (Jesus), muitos podem ser justificados perante Deus.
c) Satanás
Satanás é tanto culpado do mal como o Homem e Ele pode causar doenças e sofrimentos mas os filhos de Deus têm imunidade condicionada pela permissão ou não de Deus (Tiago 4:7). Apesar da sua derrota na cruz ele ainda exerce influência sobre o homem, principalmente sobre os não regenerados.
2. Qual o propósito do sofrimento?
A Bíblia é clara quando nos ensina que há coisas que sempre nos serão ocultas mas que Deus sabe todas as coisas, Ele com a Sua soberania escolhe o que deve ser ou não revelado (Dt 29:29). Podemos não compreender no momento a razão do sofrimento mas isso não significa que não haja um bom propósito.
É claro através dos exemplos que Bíblia apresenta que o sofrimento de alguém pode contribuir: 1) para o bem maior como aconteceu com José (Gn 50:20) ou 2) para crescimento espiritual como aconteceu com Jó (Jó 23:10).  Mas em ambos os casos eles só entenderam o propósito muito depois de passarem pelo sofrimento.
Não há dúvida de que o sofrimento como o megafone de Deus é um instrumento terrível, podendo levar à rebelião final, que não dá lugar ao arrependimento. Mas ele fornece também a única oportunidade que o perverso pode ter de emendar-se. Ele remove, o véu, planta a bandeira da verdade na fortaleza de uma alma rebelde.
“Todos (…) vivemos num mundo caído, onde o sofrimento (…) faz parte do mesmo de um modo generalizado. Não podemos explicar o sofrimento individual.”  Ser crente não garante vida sem sofrimento, por vezes este ainda sofre mais que o descrente (cp. Sl 73:3-5), mas garante uma esperança que ajuda a passar o sofrimento.
É correto afirmar que este mundo não é o melhor que existe, pois existem guerras, assassinatos, etc. Atrás já foi justificado o motivo do mundo ser assim. Mas é necessário também compreender que a vida neste mundo é temporária. Assim como a “tribulação é uma condição prévia à paciência”  , “o mundo é uma condição prévia da perfeição.”  Hoje, este mundo não é o melhor, porque o pecado degradou-o (não Deus), mas é sem dúvida o caminho que Deus arranjou para chegarmos ao melhor mundo (o céu).
Ao estudar o sofrimento do cristão corre-se risco do apresentar como algo bom mas deve-se ter em mente que este “não é bom em si mesmo. O que é positivo para o sofredor em qualquer experiência penosa é a sua submissão à vontade de Deus e, para os expectadores, a compaixão despertada e os atos de bondade a que esta os leva.”
Deus não é um ser cujo sofrimento é algo incompreensível para Ele, não O podemos culpar por não saber o que é sentir o sofrimento, porque na verdade Deus fez-se Homem e sofreu como Homem para impedir o sofrimento eterno do Homem (Is 53:3; Hb 2:18, Hb 4:15). Ver Deus como totalmente bom pode ser um teste à nossa fé.
O maior sofrimento do homem é o sentimento de culpa por estar longe de Deus, porque o pecado corrói a essência da felicidade, retirando esse sofrimento por meio de Cristo, todos os outros são mais suportáveis.  Deus sempre se preocupou em resolver a suprema dor do Homem que leva à dor eterna.
Em suma, a existência de Deus não impede o sofrimento individual, ainda que este não seja o plano inicial de Deus, Ele pode ter bons propósitos para a permissão do sofrimento: levar o pecador ao arrependimento, para um bem maior, para o crescimento pessoal ou para evitar um mal maior.
III. PORQUE É QUE DEUS NÃO FAZ JUSTIÇA?
A tendência do Homem sempre será culpar a alguém pelo seu sofrimento, mal e desgraça. E no fim do esquema, encontra-se Deus. Mas esse Deus, que tanto é culpado, fez algo que nenhum homem já faria, Jesus que é Deus assumiu a culpa do erro do Homem (2 Co 5:21).
Mas quando as pessoas colocam em causa a justiça de Deus, na sua mente tem uma destas questões: se Deus pode todas as coisas porque não faz justiça? Se Deus é bom porque não faz justiça?
“A liberdade de Deus consiste no fato de que nenhuma outra causa além dEle mesmo produz os seus atos e nenhum obstáculo externo os impede — que a sua própria bondade é a raiz de que todos eles brotam e sua própria onipotência o ar em que todos florescem. “
1. Porque Deus poderoso não destrói o mal e o sofrimento?
Se o mal não foi derrotado e o sofrimento exterminado então é porque o Deus não é todo poderoso.
Em primeiro lugar é necessário rever o termo omnipotência divina. “A sua onipotência significa poder para fazer tudo que é intrinsecamente possível, e não para fazer o que é intrinsecamente impossível.”  É claro que Deus pode fazer tudo (Lc 1:37), mas Ele não é limitado por este atributo, temos de entendê-lo à luz da Sua soberania, do Seu amor, da Sua Justiça e todos os outros atributos.   Ele podia exterminar a humanidade toda nos tempos de Noé mas como Ele é justo e amoroso, Ele poupou os justos. Apesar da Sua omnipotência permitir que Ele o fizesse, Ele escolheu o que queria fazer: poupar Noé e a família (Gn 6:8-9).
Em segundo lugar, há duas formas de destruir o mal:
1) Destruindo o livre-arbítrio: para o mal ser destruído, primeiro a liberdade tinha de ser destruída na totalidade. Será que queremos viver sem liberdade? Sem liberdade vivíamos felizes? Se destruirmos a liberdade para destruir o mal, “essa destruição seria má em si mesma.”
2) Destruindo a humanidade: Para um trabalho completo, Deus ao eliminar o mal, teria que eliminar “as nossas falhas em praticar o bem”, quem de nós iria sobreviver a essa limpeza?
Em terceiro lugar, apesar de não poder ser destruído agora, temos de admitir que um dia Deus irá derrotar o mal, Deus já começou este trabalho quando revelou na sua lei o que era errado (Ex 20); deu discernimento para distinguir o certo do errado (Rm 2:12-15); dotou-nos de capacidade para fazer o certo (Rm 8:2-4); entregou Jesus à morte para derrotar oficialmente mal na cruz (Cl 2:14-16) e um dia Jesus voltará para derrotar efetivamente todo o mal (Ap 19-22).   O mal apesar de real, é temporário, irá haver nova vida onde não haverá choro, ranger de dentes, sofrimento e dor.  Paul Little afirma que é possível resolver o problema do mal a nível pessoal aceitando a obra redentora de Cristo e ser nova criatura (2 Co 2:17).
Se Deus não pode destruir o mal, não pode ao menos criar um mundo melhor, onde cada um manipulasse a “matéria” a seu gosto para não sofrer?
C.S Lewis apresenta um ponto de vista interessante, temos de reconhecer que a matéria que nos rodeia neste mundo pode ser simultaneamente agradável para uns e desagradável para outros. Por exemplo o mesmo monte, para aquele que sobe torna-se desagradável para o desce torna-se agradável.  A chuva para o agricultor em tempos de seca torna-se agradável, a chuva para o construtor de casa torna-se desagradável. Se o Deus todo poderoso torna-se toda essa matéria boa para todos, teria que eliminar a capacidade que o Homem tem de se agradar ou desagradar, basicamente seriamos todos iguais e que incrivelmente ficaríamos contentes com tudo o que Deus definiu que nos dava felicidade. Todos gostávamos de sardinha temperadas com vinagre.
E se Deus todo poderoso impedisse que a matéria fosse mal usada, anulando a possibilidade do sofrimento? Se Deus tornasse o errado impossível, o livre-arbítrio seria eliminado, algo que já foi considerado mau em si mesmo. Deus o faz ocasionalmente, isso é chamado de milagres, mas não é uma regra, porque Deus não quer Homens sem poder de escolha.
Deus é todo poderoso, mas Ele tem vontade e sabe o que é melhor para o Homem.
2. Se Deus é bom porque não faz justiça?
De um lado, se Deus é mais sábio do que nós, o seu julgamento deve diferir do nosso sobre muitas coisas, e não apenas sobre o bem e o mal. O que nos parece bom pode então não ser bom aos olhos dEle, e o que nos parece mau pode não ser mau.
Esta é uma afirmação que é preciso ter em mente antes de estudar a bondade divina.  Talvez o conceito de “bom” seja limitado a “algo que faça feliz”. E se Deus é bom porque não faz a todos felizes? Duas razões:
1) Eliminaria o livre-arbítrio (ideia já explorada)
2) Há uma fenda muito grande entre o que “faz feliz” e o que é “bom”. Os pais para educaram os seus filhos preferem que eles “sofram” com um castigo do que passem por caminhos desprezíveis e desvairados. (cp. Hb 12:7-11)   No fundo optam por um sofrimento a curto prazo para evitar um sofrimento a longo prazo.
Ele é o oleiro e o Homem é o barro (Is 64:8), a relação criador-criatura é algo incomparável. E o “vaso” não tem o direito de questionar o oleiro durante o seu trabalho (Rm 9:20), porque se o oleiro coloca todo o seu amor e dedicação, temos de reconhecer que para uma obra prima perfeita é necessário tempo, esforço e momentos dolorosos.   Quem é o Homem para dizer que não existe um bom propósito por trás do sofrimento?
Deus é Justo. Por isso existe o céu para quem quer viver com este Deus amoroso e o inferno para quem não quer viver com Deus. Deus não força ninguém a coabitar com Ele. Sabemos que o desejo de Deus é que todos se salvem (2 Pe 3:9), mas Ele quer que o façam livremente. Deus não salva pessoas a qualquer custo (forçando as pessoas), e um inferno é “um lugar que não foi absolutamente feito para homens”.
A exigência de que Deus deva perdoar tal homem enquanto permaneça como é, está baseada numa confusão entre tolerar e perdoar. Tolerar o mal é simplesmente ignorá-lo, trata-lo como se fosse bem. Mas o perdão precisa ser tanto aceito como oferecido (…) a pessoa que não admite a culpa não pode aceitar perdão.
A bondade de Deus não pode pôr em causa a Sua justiça, e Ele fará a justiça a seu tempo, na eternidade. Lembrando que um dia Ele irá reinar com vara de ferro (Ap 12:5). E será que o Homem realmente deseja que Deus “faça justiça” imediata cada vez que ele peque? Todos seriam alvos da ira de Deus mas foi“o próprio Deus que, (…) resolveu fazer a propiciação (…) através da pessoa de Jesus Cristo e apaziguar a sua própria ira” . É a Sua bondade que permite o perdão de pecados, que permite um novo começo a todas as criaturas que foi expressa no calvário.
Êxodo 3:7-8 claramente nos mostra um Deus que ouve os clamores do seu povo e tem misericórdia daqueles que estão em sofrimento. Deus é bom e não está apático ao sofrimento da Sua criação.
CONCLUSÃO
O sofrimento e o mal são questões bastante sensíveis porque incluem uma parte muito pessoal e privativa das pessoas. Não é uma temática que eu considere que é possível discutir apenas teoricamente, porque geralmente quando alguém nos questiona sobre isso é porque já sofreu ou é próximo de quem já sofreu algo. As pessoas estão cheias de cicatrizes e feridas abertas e muitas pessoas atribuem a culpa a Deus porque não sabem a quem mais culpar. Claro que estas questões devem sempre ser respondidas apresentando um Deus que não é mau nem tem prazer no sofrimento das suas criaturas.
“A vida de Jesus significa, realmente, que ele é a fotografia de Deus, mandada aos filhos errantes, pecadores, tendo nela escrito: ‘Voltem para casa’.”
Na minha ótica a “cartada final” ou até a única que pode levar alguém a compreender esse Deus amoroso da Bíblia é apresentar o servo sofredor, que “foi transpassado por causa das nossas transgressões, foi esmagado por causa de nossas iniquidades; o castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados.” (Is 53:5) Esse Deus, que fez-se homem sabe o que é sofrer física e psicologicamente, Ele não está indiferente ao nosso sofrimento, porque Ele “embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tronando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fp 2:6-8).
Deve-se mostrar que o maior sofrimento do Homem é o facto de estar longe de Deus, e que sarando esse sofrimento, os outros são mais fáceis de ultrapassar, porque é nos dado uma esperança de um mundo melhor (Rm 8:18-25). Não este como conhecemos, mas um lugar sem dor e sem sofrimento (Ap 21:1-8). A justiça parece não estar ser feita, mas Deus é justo e um dia Ele irá fazes justiça a todos os que fizerem sofrer a Sua Igreja (2 Ts 1:6-12).
Ao abordar o sofrimento, o mal, e a justiça temos que ter a consciência que não possuímos a resposta para tudo, porque não compreendemos os planos de Deus, e como nos exemplos apresentados, a razão do sofrimento individual por vezes só é entendida anos depois ou na eternidade com Deus.
Oferecendo uma esperança de salvação às pessoas feridas, pode ser um caminho para ultrapassar o sofrimento que ainda fere as suas vidas.
BIBLIOGRAFIA
GEISLER, N., & BROOKS, R. (2015). Respostas aos Céticos. Rio de Janeiro: CPAD.
GEISLER, N., & FEINBERG, P. (1996). Introdução à Filosofia. São Paulo: Vida Nova.
GEISLER, N., & HOWE, T. (1999). Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão.
GITT, W. (2003). Perguntas que sempre são feitas. Bielefeld: CLV.
JONES, S. (s.d.). Cristo e o sofrimento humano. São Paulo: Metodista.
LEWIS, C. (1986). O Problema do Sofrimento. São Paulo: Vida.
LITTLE, P. (1985). Explicando e Expondo a fé. Queluz: Núcleo.
MCDOWELL, J. (1990). Respostas àquelas perguntas. São Paulo: Candeia.
REFERÊNCIAS
i  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 255)
ii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 256)
iii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, pp. 62-63)
iv  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, pp. 62-63)
v  (GEISLER & HOWE, Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia, 1999, p. 279)
vi  (MCDOWELL, 1990, p. 181)
vii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 64)
viii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 261)
ix  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 65)
x  (LITTLE, 1985, p. 141)
xi  (LITTLE, 1985, p. 141)
xii  Quando este acontece, é bastante evidente para quem peca. Ele não castiga sem advertir  (Am 3:7)
xiii (LITTLE, 1985, pp. 138-139)
xiv  (LEWIS, 1986, p. 64)
xv  (LITTLE, 1985, p. 143)
xvi  (JONES, p. 153)
xvii  (LITTLE, 1985, p. 143)
xviii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 68)
xix  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 69)
xx  (LEWIS, 1986, p. 47)
xxi  (GITT, 2003, p. 17)
xxii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 260)
xxiii  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 260)
xxiv  (GEISLER & FEINBERG, Introdução à Filosofia, 1996, p. 260)
xxv  (LEWIS, 1986, p. 79)
xxvi  (LITTLE, 1985, p. 142)
xxvii  (JONES, pp. 154-155)
xxviii  (GITT, 2003, p. 17)
xxix  (LEWIS, 1986, p. 18)
xxx  (LEWIS, 1986, p. 13)
xxxi  (LEWIS, 1986, p. 13)
xxxii  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, p. 66)
xxxiii  (LITTLE, 1985, p. 137)
xxxiv  (GEISLER & BROOKS, Respostas aos Céticos, 2015, pp. 66-67)
xxxv  (MCDOWELL, 1990, p. 181)
xxxvi  (LITTLE, 1985, p. 137)
xxxvii  (LEWIS, 1986, p. 16)
xxxviii  (LEWIS, 1986, p. 24)
xxxix  (LEWIS, 1986, p. 18)
vl  (LEWIS, 1986, p. 20)
v  (LEWIS, 1986, p. 21)
vi  (LEWIS, 1986, p. 90)
vii  (LEWIS, 1986, p. 88)
viii  (STOTT, A Cruz de Cristo, p. 155)
viv  (JONES, p. 156)

A PRIMEIRA FRASE PERFORMATIVA NA BÍBLIA

A PRIMEIRA FRASE PERFORMATIVA NA BÍBLIA

JTP27

© João Tomaz Parreira

Não existia ainda o homem, mas Deus preparou tudo para o receber, a partir da Sua linguagem. É esta, a linguagem, e o pensamento que distinguem o homem, criado por Deus, das outras criaturas animais.

“Então Deus disse: “Que a luz exista!” E a luz começou a existir” (Génesis, BPT).

Experimentar ler esta estrutura sintáctica, ou dito de um modo mais acessível, narrativa breve do início do primeiro capítulo do Génesis, apenas como uma narração simples para uma sequência de acontecimentos, como se de uma “reportagem” se tratasse, é não perceber o alcance teleológico da frase.
É óbvio que os modernos instrumentos da Linguística nos permitem hoje outras análises bíblico-gramaticais.
O ateísmo poderá ver ali uma explosão, um “big bang” que originou os mundos a partir da luz. O crente pode ver um enigma, sim, mas enigma revelado de Deus Criador. Os críticos do Velho Testamento, teologia e ciências da linguagem à parte, ainda assim tomarão a diegese da frase como uma metáfora de uma vontade que é do domínio do Invisível.
Poderíamos resumir, para os que contestam, a uma observação de um filósofo idealista como Wilhelm Dilthey (1833-1911) : “A religião, a mística precede a filosofia”.  E a linguística, também. Deus começou também a gramática da língua. Aquela fala divina é uma frase seminal.
A expressão imperativa do Criador poderia ter ficado apenas retida na actividade mental de Deus, mas o pensar divino teve uma acção correspondente. E toda a Bíblia é a Acção de Deus interveniente na Humanidade e na História do Homem.
Ver uma significação onde outros vão ver apenas um acontecimento, é também a lição da Semiologia sobre aquela primordial afirmação divina.

Foi um filósofo inglês, John Austin (1911-1960) que teorizou sobre o acto da fala, uma função da linguagem que baptizou de “performativa”. Isto é, “quando dizer é fazer”.
A sua obra mais significativa “How to Do Things with Words (Como fazer coisas com palavras), ajuda-nos a perceber aquela sublime linguagem performativa de Deus.
A frase divina não foi uma expressão de constatação, foi afirmativa e criadora. O que disse fez-se. É a característica da frase performativa que, depois, as instituições do homem começaram a utilizar.  Exemplo? No casamento: “Vos declaro marido e mulher”, ou no tribunal: “Condeno a…”
Até àquele momento do princípio do livro do Génesis, momento que desconhecemos, quer no cronos quer no kairós, e nenhuma ciência apenas a teologia pode descortinar, havia trevas. A terra estava sem forma, vazia, sem ordem. “Era um mar profundo coberto de escuridão” (BPT)
A emissão linguística do Criador, expressão das ciências da Linguagem, não se limitou apenas no dizer, pelo contrário, criou. A constatação veio depois do que foi feito. Hoje, e provavelmente muito antes, dir-se-ia que a expressão é mágica e encantatória.
Aliás, todos os momentos originais da Criação, no que concerne ao Universo,  que lemos no Livro do Génesis numa progressão encantatória, surgiram da palavra performativa de Deus.  “Depois Deus disse: “Que exista um firmamento entre as águas, para as separar uma das outras” (vs.6).  Há uma correlação entre o que foi feito e por que meios, a palavra performativa divina deu origem à palavra da constatação: “Deus chamou céu a este firmamento” (vs.8)
Todos (quase todos) os versículos do capítulo 1 do Génesis começam pela expressão, que traduz a acção performativa da linguagem do Senhor, “Depois Deus disse”; “Deus disse então”.
Quando leio este Princípio vem à minha mente a cor, as cores do Cosmos, e penso com o ouvido no pedido do tenor na ópera Tosca, de Puccini: “Dammi colori” e depois “Recondita armonia di bellezze diverse!”
A harmonia de beleza diversa e inaudita que ocorreu depois de cada frase performativa de Deus.

O que se tem vindo a dizer, a partir das ciências da linguagem, é que há certos enunciados que têm a capacidade de realizar, e no que corresponde ao Criador não só expressar uma vontade, mas realizar um acto criador. O próprio facto de enunciar, já em si mesmo produz o enunciado.
Por fim, quando Deus foi dizendo em cada acto criador, do que acabara de fazer que era bom ( “E Deus achou que eram coisas boas” (BPT), a sua frase verificativa expressou uma atitude metafísica de satisfação, de gozo divinal, de alegria por fazer existir coisas que têm e iriam ter sentido, designadamente para o Homem que Deus iria criar adiante.
Eu acredito que Deus teve uma atitude lírica em tudo que criou e a sua palavra criadora foi, acima de tudo, poética. O Belo não se cria a partir da fealdade de um discurso. O arquétipo da criação divina foi a Beleza na voz e no verbo de Deus.

Aveiro, 04/02/2018

“O EQUÍVOCO” DE CAMUS E OS ERROS DO MESSIANISMO

“O EQUÍVOCO” DE CAMUS E OS ERROS DO MESSIANISMO

JTP26

© João Tomaz Parreira

O entendimento da peça de teatro “O Equívoco” de Albert Camus e do desenlace final da mesma, é capaz de nos fazer pensar em um paralelismo bastante arrojado, reconheço, com os erros do Messianismo dos dias de Jesus Cristo. Em que medida é que se ensaia essa ligação, é o que veremos.
Literatura e teologia podem estar de mãos dadas, como nas obras de C.S.Lewis, ou no “Paraíso Perdido” de John Milton. Se o que estiver a ligá-las, mesmo subliminarmente, for também a historiografia bíblica.

Todavia, “O Equívoco” não tem rigorosamente nada a ver com teologia. Mas confere-nos uma ideia por contiguidade e por metáfora também. O drama, ou melhor, uma tragédia moderna, diria doméstica, foi escrita e representada em 1944. Insere-se no estudo camusiano sobre o Absurdo.
O mal entendido – como se apelida em francês-, representa um erro familiar por atitude de torpe ganância, materializada no roubo de uma fortuna e que leva ao assassinato do próprio filho da casa, que não é reconhecido quando chega.

A preocupação de Camus com este tema, parece ter sido uma evidência que o perseguia, porquanto no célebre romance “O Estrangeiro” -, talvez a obra-prima do autor argelino-francês – tem uma história similar. Na Checoslováquia, um homem partiu para fazer fortuna e regressou depois, passados anos, a casa, à família que sempre o esperou. No regresso a casa, propondo-se alugar um quarto exibe uma grande quantidade de dinheiro, porém não tendo sido reconhecido, a mãe e a irmã matam-no para o roubar.
Camus regressa à tragédia, agora em peça teatral. Uma mãe e uma irmã esperam o filho e irmão que partiu para longe. Esperam que regresse.
- Ele há-de voltar.- diz a Mãe
-Ele disse-lhe que sim? – pergunta a filha
-Disse. -responde a Mãe.
Assim começa a Cena Primeira ( Livros do Brasil, “Calígula seguido de O Equívoco”, s/data, 175).
Quando ele chega, não o reconhecem como filho nem como irmão, não repararam bem nele para o seu crime ser perfeito e não deixar traços trágicos na consciência. O importante, era o visitante ser um homem de fortuna, sozinho, ao que apuraram.
Mãe, é preciso matá-lo.- diz Marta ( a filha)
“Não há dúvida que é preciso matá-lo. – responde a mãe.
“ É mais fácil matar o que não se conhece”- afirmou a Mãe

É aqui que somos levados à aparente ambivalência histórico-bíblica da espera do Messias, por parte do judaísmo, mais do domínio político e social, do que teológico. O Filho do homem sem beleza nem formosura, aparentemente só, para um Reino que vivia apenas do ritual. E assim, foi fácil levá-lo à crucificação porque não o conheciam, quem era aquele que se fazia passar por filho de Deus e rei dos judeus?: De facto, “é mais fácil matar o que não se conhece”.
Israel aguardava um messias para um reino e não um Cristo para a salvação da alma e do corpo. Também, se quisermos ir mais longe no plano evangélico, o autor terá ido à origem da parábola evangélica do filho pródigo, embora esta tenha o desfecho feliz.
Uma boa resposta para isso, encontramo-la nos versículos 10 e 11, do conhecido “No princípio era o Verbo” do prólogo do Evangelho de João. “Estava no mundo(…), e o mundo não o conheceu.” “ Veio para o que era seu, e os seus não o receberam.”
Mas tal como na peça de Camus, Jesus Nazareno, o Filho e o irmão,  foi morto. De um ponto de vista extra jurídico, como sabemos, pelas irregularidades cometidas pelos judeus, foi humanamente assassinado pela lei mosaica.
Finalmente e sem meias palavras, o próprio apóstolo Pedro, no seu discurso do Pentecostes, afirma-o: “Este Jesus Nazareno (…) tomando-o vós, o crucificastes e matastes pelas mãos de injustos.” (Actos, 2,23).
Por vezes, como neste caso, a Literatura coloca-se ao serviço da teologia e da historiografia bíblica e retoma da religião a sua visão do mundo. #

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

POR QUE RAZÃO CELEBRAR O NATAL?

Manuel Alexandre Junior

NATAL! Palavra mágica que misteriosamente transforma as pessoas,
enfeita as cidades, enche de colorido as casas, provoca até uma
pausa nas guerras.

O que é o Natal? Recebo e dou a cada passo as Boas Festas. Espanta-
-me o movimento. As pessoas atropelam-se nas lojas e nos passeios.
São prendas, muitas prendas, para contemplar os filhos, os
pais, os avós, e os amigos. Até os presos nas suas celas, os doentes
nos hospitais, os marinheiros no coração dos mares. Mesmo os
criminosos nos seus antros de crime e as prostitutas no seu despudor
celebram o Natal. Nem sequer o materialista e o agnóstico
deixam de o celebrar.

Mas que Natal? Decerto, uma festa banal, semelhante à de todos os
anos. Uma simples festa de amizade ou de família rendilhada de
encanto e prazer. Mas o Natal é mais, infinitamente mais. Tudo isso
lhe veio por acréscimo por força de alguma inspiração pagã. Embora
importante em contexto de relações humanas e altamente cativante
para os mais pequenos, esta maneira de ver e celebrar o Natal não
pode de nenhuma maneira ofuscar o sentido último do verdadeiro
Natal.

Ainda que o Natal perdesse toda a roupagem da imaginação
humana, tudo o que de tradicional e mítico hoje o molda e enforma,
ficar-nos-iam e de forma mais vincada, os traços da sua verdadeira
essência. No fundo, a mensagem do Natal é simples, prática, redentora
e comovente. É o mistério de Deus que se desvenda. É o plano
da sua grande salvação que se concretiza. É a mensagem profética
que se cumpre. É, numa palavra, a celebração do Deus eterno que
rompeu as fronteiras da história e nos visitou aqui, neste mundo de
pecado, de Jesus Cristo que nasceu e se identificou connosco, do
Evangelho que se anunciou nas alturas desde o púlpito do Universo,
e depois desceu para se dar por nós no Calvário.

O Deus pré-existente desce, irmana-se, humilha-se, e o milagre
acontece. Maria, uma santa e piedosa mulher da nossa raça decaída,
tem um filho na sua virgindade. Ela, que até ao momento não
conhecera varão, foi visitada pelo Altíssimo e usada para trazer ao
mundo o Salvador, perfeitamente Deus e perfeitamente homem.
Alguns têm asseverado que o nascimento milagroso de Jesus foi
uma história inventada pelos cristãos primitivos, a fim de dramatizarem
as origens do seu Senhor. A esses perguntamos: como é que
a história de um bebé nascido numa estrebaria e colocado numa
manjedoura, na presença de um carpinteiro e de alguns pastores
socialmente insignificantes, terá conseguido sobreviver ante a competição
com a história da deusa Atena, divindade pagã de tão nobre
estirpe que, segundo a lenda, nasceu sem mãe, brotando espontaneamente
da cabeça de Zeus, já na sua forma adulta? Como foi
também que o nascimento virginal de Jesus se sobrepôs ao mito do
grande imperador César Augusto que, segundo se dizia, nasceu da
união da sua mãe com uma serpente, no templo de Apolo?
Passaram os mitos da grande deusa e do nobre imperador romano.
Mas o histórico nascimento virginal de Jesus permanece. Espanta-
-nos porquê? Com certeza que não, pois trata-se realmente de uma
intervenção sobrenatural e nós cremos no sobrenatural. É que no
grande filtro da história humana o que é mito passa e o que é facto
impõe-se pela sua veracidade e permanece. Passaram as fabricações
dos homens, permanece a verdade eterna do Evangelho.

Para alguns, o principal problema do nascimento virginal está na
violação dos processos naturais. Mas, se nos disserem que nunca
um ser humano nasceu sem um pai e uma mãe humanos, chamamos-
lhe a atenção para a criação do primeiro casal, Adão e Eva. O
que foi mais difícil para Deus? Qual dos dois milagres foi maior? A
criação ou o nascimento virginal de Cristo?

Claro que a Bíblia não está alheia e esta objeção generalizada, e
arma a sua solução no poder de Deus. Gabriel, ao responder a
Maria quanto ao modo do nascimento do seu filho, visto que não
conhecera varão, sentiu a sua perplexidade e respondeu: “porque
para Deus nada é impossível”. Deus tem poder para fazer aquilo que
parece impossível aos homens, aquilo que parece contrariar os processos
naturais. Mas Deus é sobrenatural.

Com efeito, o milagre biológico não é o único na vida do nosso
Salvador. Basta atentarmos para o seu milagre moral: uma vida sem
pecado, totalmente isenta do mal, vivida na pureza, na inocência,
na perfeição.

A Escritura não nos deixa dúvidas. Quando José tomou consciência
do estado de Maria, intentou deixá-la secretamente. Grave luta se
travou no seu coração. Mas durante essa histórica noite mal dormida
em que ele ponderava friamente a sua decisão, o anjo do Senhor
lhe apareceu e o tranquilizou, dizendo: “José não temas receber a
Maria tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo”
(Mateus 1:20).

Foi perante esta tomada de consciência que José caiu em si, interpretando
biblicamente o evento como consumação da mensagem
profética, e observou religiosamente a orientação recebida. Ao dar
ao primeiro fruto do ventre de Maria o nome de Jesus, ele declarou-
-se a primeira testemunha do milagre da grande salvação de Deus
na nova aliança. “José, filho de David”, disse-lhe o anjo do Senhor,
“não temas receber Maria por tua mulher, porque o que nela foi
gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o
nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”
(Mateus 1:20-21). Jesus, significa na língua hebraica: Jeová salva. O
nome em si, era uma mensagem. Sempre que José e Maria diziam o
seu nome, o evangelho era proclamado. Jesus (Joshua) era o segundo
Josué que introduziria Israel na prometida terra da salvação, no
reino de Deus.

O Messias veio realizar um ministério de redenção pessoal e espiritual.
Não como libertador político, como tantos o mal-entendiam. O
problema de base do povo de Israel não era essencialmente o da
prepotente dominação romana. Era sim, o do seu pecado. E este é o
problema de cada geração. A causa profunda do mal-estar atual no
mundo não é o antissemitismo dos árabes, o capitalismo ou o
comunismo, nos seus vários estádios de crise; é sim, o pecado no
coração dos homens. Por conseguinte, a maior necessidade dos
nossos dias é também a da grande salvação de Deus, a libertação de
Deus, a libertação da força tremenda do mal, a transformação do
homem a partir do seu íntimo, do seu interior. Foi para isso que
Jesus veio. É por isso que celebramos o Natal.

Jesus é o Emanuel, o enviado do Pai, o próprio Deus feito carne. É
‘Deus connosco’ pelo mistério do nascimento virginal. Estes dois
nomes de Cristo, aqui sublimemente anotados pelo evangelista Mateus, têm sido muitas vezes contrastados: O primeiro – Jesus –
assinala o seu ofício: Ele salva, veio buscar e salvar o que se havia
perdido. Não veio para destruir as almas dos homens, mas para
salvá-las. O segundo – Emanuel – arma a sua natureza, a sua
essência: Ele é Deus, essencial e substancialmente Deus, em forma
visível, humana, palpável, inenarrável e aceitável.

O nascimento de Cristo está intimamente ligado à sua cruz. Como
dizia Helmut Thielike: Manjedoura e cruz, ambas são feitas da
mesma madeira. Por outras palavras: Se Jesus possuísse a natureza
de José seu pai adotivo, ele carregaria também entranhadamente o
seu pecado. E se ele entranhasse o seu pecado não poderia ser o
nosso Salvador pelo sangue do Calvário. Cristo, porém, é Deus connosco
tanto na manjedoura como no Calvário; Deus a favor de nós
e ao nosso lado, dando-se na cruz como nosso Salvador pessoal e
Senhor eterno da nossa vida.

Natal como o entendo, é isto na sua essência. Conhecemo-lo pela
palavra divina, e sabemo-lo pela experiência vivida no novo nascimento.
Mais importante que celebrarmos o Natal em benefício de
nós mesmos, é celebrarmo-lo para o louvor e glória de Deus em
Cristo. Pois este é, não o nosso, mas o Seu Natal. E que interesse
teria recordarmos que Ele nasceu há dois mil anos em Belém da
Judeia, se não houvesse lugar para Ele no coração dos homens? No
meu, no teu, no nosso coração? Também no Natal demonstramos o
nosso cristo-centrismo e damos testemunho do milagre do nosso
novo nascimento espiritual. Glória, pois, a Deus na pessoa do Emanuel!

Manuel Alexandre Júnior

 

Reflexão recebida da ASPEC – Associação de Profissionais e Empresários Cristãos, com a permissão da sua divulgação e que agradecemos

 

O HOMEM DE VIKTOR FRANKL E DE PRIMO LEVI

O HOMEM DE VIKTOR FRANKL E DE PRIMO LEVI

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© João Tomaz Parreira
O homem que é fundido na massa, que num campo de concentração não deveria dar nas vistas dos guardas SS, não sobressair em nada, tornar-se apenas num incógnito para tentar sobreviver algum tempo, é a temática de dois livros coincidentes.

“Se Isto é Um Homem”, de Primo Levi, e, de Viktor Frankl, “Um psicólogo no campo de concentração”.

Não há grandes mudanças nem novidades nas análises psicológicas dos deportados e encarcerados nos campos de concentração nazis de Auschwitz-Birkenau que o psicólogo Victor Frankl e o escritor e poeta Primo Levi fizeram, a partir do mesmo destino nesses campos, porque eram judeus.

O elemento comum que já a filósofa judia Hanna Arendt identificara, é a despersonalização dos indivíduos, o tornar os judeus, sobretudo estes, matéria descartável, abaixo de sub-humanos se cabe aqui o pleonasmo.

Um dos aspectos que Viktor Frankl evidencia no seu livro, no que concerne à despersonalização do individuo, é, por exemplo, o facto da nudez. É a primeira realidade dos prisioneiros que chegavam ao campo e antes de entrarem para um suposto duche nas câmaras de gás, o que significava não apenas “o não ter nada no corpo”, mas também o homem e a mulher intuírem ou terem mesmo a consciência de que “possuíamos apenas a nossa existência literalmente nua”.

Vão no mesmo sentido as palavras de Primo Levi, no que diz respeito à consciência de que perante os carrascos já não se tem nem corpo nem alma, podendo dizer-se o mesmo total vazio dos algozes: “Aqui recebemos as primeiras pancadas: e o facto foi tão novo e insensato que não sentimos dor, nem no corpo nem na alma. Só um profundo espanto: como se pode bater num homem sem raiva?”

Na contundente narrativa de Levi, lemos do completo despojamento de personalidade do prisioneiro judeu nos primeiros momentos entre a aglomeração num gueto, a deportação, a chegada ao destino, o despojamento da individualidade e do pensar: “Soubéramos, com alívio, do nosso destino. Auschwitz: um nome sem qualquer significado, naquela altura e para nós; mas certamente devia corresponder a um lugar desta Terra.”

Do outro lado, da parte dos executores do maléfico plano de Eichmann, a chamada Solução Final que deveria extirpar a judiaria europeia, a própria despersonalização era evidente, já nem seria ideológica, era apenas a prossecução do Mal. Quantos mais “números” de uma raça tido como inferior e sem direito a existir eliminassem, tanto melhor. Nenhum dos guardas dos campos de concentração nazis era um burocrata, era tão só manobrador de uma maquinaria de morte, limitava -se a cumprir ordens, sim, mas tinha com certeza prazer nos sofrimentos que estava a infligir aos prisioneiros judeus e não apenas a estes? Os guardas e os oficiais SS estavam presentes e eram os agentes do Mal, ao contrário da banalidade entrevista na atitude de Adolfo Eichmann, que foi depois julgado em Jerusalém em 1962 e enforcado. Eram apenas monstros.

© João Tomaz Parreira

OS CÂNTICOS DOS DEGRAUS: O CLIMAX DE UMA ESTRUTURA POÉTICA

OS CÂNTICOS DOS DEGRAUS: O CLIMAX DE UMA ESTRUTURA POÉTICA

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© João Tomaz Parreira

Os “Cânticos dos Degraus”, ou Salmos de peregrinação, fazem parte do Saltério como uma das chamadas colectâneas menores. São os salmos das ascensões, das romagens, ou da procissão ao Santuário (120-134).

O código do uso destes salmos, o seu sentido desde o destinador( os autores) para o destinatário, estava na aplicação específica de cada um desses escritos, eram usados como hinos litúrgicos, porções das Escrituras que davam alento e traduziam uma experiência do hebreu, particular ou colectiva, com Yahweh. Foram elaborados a partir do Eu poético, o elemento individual, e do Nós, o elemento comunitário, o poeta enquanto indivíduo e enquanto povo, assumindo as suas dificuldades e as suas acções de graças.

Com as particularidades do discurso poético da poesia hebraica bíblica ( e somente esta era conhecida), desde os versos aos paralelismos e ao não uso da rima, não dispensando porém o ritmo do verso medido, toda a estrutura da linguagem acompanhava, dir-se-ia, o movimento ascensional que os Cânticos dos Degraus definiam e propunham.

Estes salmos perfeitos em sua beleza clássica não precisaram de ser longos, embora as ascensões ou as peregrinações fossem, elas mesmas eventualmente longas e por caminhos imperfeitos e a rasarem os abismos.

A ideia senão mesmo a imagem formal de cada um desses 15 salmos é uma subida, o discurso poético vai subindo de tom até um clímax final, quer fonética quer semanticamente.  Como se cada um partisse de baixo e fosse ascendendo em emocionalidade até um lugar alto.

O termo clímax significa um momento de maior intensidade na acção. Todos os quinze salmos dos Degraus traduzem-se numa acção, não são apenas salmos contemplativos ou de louvor estático. Como poesia, mas, também, como uma oração, os Cânticos de Romagem são uma conversa inteligente com Deus.

De todo o conjunto há três salmos que são paradigmáticos neste aspecto, os salmos 121,122 e 123, embora todos os restantes mostrem o mesmo padrão ascensional, os montes, o templo, a alegria, o olhar colocado em Deus, o escape quando os pés vacilam, o dia e a noite como metonímias poéticas do sol e da lua, e outras comparações metafóricas.

Escolhemo-los pelo seu forte impacto inteligível desde a primeira leitura. Sobre eles nos deteremos, com brevidade, como sistemas significantes (a linguagem poética, a antevisão das dificuldades, o sonho do regozijo ao chegar à presença divina  na Casa do Senhor). Cada palavra como que acompanha a ascensão, marca o ritmo da subida.

Salmo 121
Este salmo não introduz, como outros, um imperativo verbal, introduz antes uma inevitabilidade do salmista, o olhar para fora, para o aparente problema: os montes. E uma pergunta que pode indiciar perplexidade, é, normalmente, da dúvida que partimos para uma certeza. O primeiro verso, onde se averigua a dificuldade, e a questão colocada, não rompem com a Aliança com Jeová, e o poeta que questiona, ele mesmo dá a resposta que vem do seu coração. Ele olha para dentro de si próprio e aí estão todas as respostas: a identidade de onde provem o socorro e as capacidades inefáveis de quem socorre. Desde aqui até ao verso 8 há um claro clímax, uma ascensão, que culmina: “O Senhor guardará a tua entrada / e a tua saída, desde agora e para sempre”. A dúvida inicial transforma-se numa afirmação de certeza. O peregrino sabe agora  o favor divino com que pode contar.

Do ponto de vista da chamada psicologia social ligada à semiologia, este salmo está carregado de sinais ( do grego sémêion), e cada um deles desde os montes, o sol e a lua, os pés que podem resvalar, o subentendido abismo, fornecem todo o pano de fundo para a compreensão do poema como um lenitivo para uma subida que se mostra árdua, mas com final feliz.

Salmo 122

No primeiro verso deste Salmo, parece que o clímax está no início. Reproduz o contentamento espiritual, a emoção palpável de David, que nos diz numa versão comum da Bíblia Para Todos (BPT): “ Que alegria quando me disseram vamos ao templo do Senhor”. É um salmo de peregrinação sobre o Templo. Antevê, no princípio da subida, a majestosa visão da Casa do Senhor, em Jerusalém.
Curiosamente, o salmo 122 introduz no saltério uma percepção de movimento: “Já estamos mesmo a chegar às tuas portas, Jerusalém”.

De acordo com Hermann Gunkel (Alemanha, 1862-1932), o salmo 122 é um dos mais paradigmáticos no que concerne à peregrinação ou à romagem. Esse estudioso das civilizações do Egipto e da Mesopotâmia e das suas ligações com os Salmos, enquanto poesia hebraica, “recapturou o valor dos salmos”, não apenas como literatura, mas sobretudo como parte da Bíblia Sagrada, designadamente a Bíblia Hebraica ou Tanakh, integrando os chamados “Escritos” ou Kethuvim

É um salmo onde de igual modo se prescreve uma obrigação: “É lá que vão as tribos, as tribos do Senhor, para cumprir a obrigação de Israel.”.

Salmo 123

Este é um dos mais pequenos cânticos na sua estrutura formal linguística, nas versões das nossas Bíblias tem apenas 4 versos. Neles se salienta, apesar da sua brevidade, o olhar do peregrino e a sua dependência dos favores divinos.

Não tem propriamente um clímax observável na estrutura fonética nem na sintaxe. Termina mesmo de um modo que dir-se-ia desalentador, do ponto de vista social e religioso, dando a entender que o autor e todos quantos o acompanham na romagem, “estão completamente saturados com as injúrias dos arrogantes”. Aqueles que à margem dos caminhos da subida vão lançando impropérios desencorajadores aos peregrinos? #

SOLI DEO GLORIA

SOLI DEO GLORIA

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Samuel R. Pinheiro

A Reforma Protestante da qual neste ano se comemoram os 500 anos, repôs as verdades fundamentais da revelação bíblica com a clareza resultante da sua própria essência, e que ao longo dos séculos continuam a ser reavivadas e aprofundadas. De entre elas a que nos serve de título e que aqui tocamos levemente.

Tudo o que somos e tudo o que temos, todas as competências que demonstramos e tudo o que fazemos é dádiva divina. Não nos criámos ou fizemos a nós mesmos. Somos criação divina. Isso não significa que Deus nos tenha criado como meras máquinas ou autómatos. Deus criou-nos à Sua imagem e semelhança, e nesse sentido deu-nos o privilégio de criarmos a partir da Sua criação, de nos empenharmos, de nos envolvermos e sermos mordomos do que nos confiou. Não somos donos de coisa nenhuma. A vida é uma dádiva e não uma conquista nossa. Isso não significa e nem implica que cruzemos os braços, antes bem pelo contrário. O maior impulso que temos na nossa vida é precisamente a consciência de que somos uma criação especial do Senhor do Universo.

Moisés, uma das maiores figuras da história bíblica, que viu milagres que todos certamente gostaríamos de ver, à medida que esses milagres ocorriam crescia no seu coração o desejo intenso, o mais atrevido de todos, mas o mais grandioso a que podemos aspirar – ver a Deus! Apesar de tal não ser possível ao homem na condição presente, ainda assim Deus deu-lhe a possibilidade de O ver escondido pela rocha e pelas costas. Quem mesmo assim vê a Deus não permanece o mesmo. É uma visão transformadora. No tempo em que Jesus viveu entre nós encontramos a mesma aspiração no discípulo Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.” Na verdade o que é suficiente é contemplar o Pai. E Jesus responde prontamente: “Filipe, há tanto tempo que vivo convosco e ainda não me conheces? Aquele que me viu, viu também o Pai.” (João 14:8,9 – BPT). Jesus reafirma o que logo no primeiro capítulo do evangelho de João é declarado “Nunca ninguém viu Deus. Só o Deus único, que está no seio do Pai, o deu a conhecer.” (João 1:18 – BPT)

Por isso só há uma forma de vivermos: para a Sua exclusiva glória. É isso que o texto bíblico nos ensina em cada momento da história que ali nos é narrada. No primeiro capítulo da carta que o apóstolo Paulo endereça à Igreja em Éfeso e a todas as igrejas em todas as épocas e longitudes, refere por três vezes que existimos para a glória exclusiva de Deus, uma glória que só a Deus pertence, que só Nele encontramos e que só nela nos realizamos. Nos versículos cinco e seis de modo bem expressivo declara: “Ele destinou-nos para sermos seus filhos por meio de Cristo, conforme era seu desejo e vontade, para louvor da sua graça gloriosa que ele gratuitamente nos concedeu no seu amado Filho.” No versículo doze incita-nos a que “Louvemos, portanto, a glória de Deus, nós que previamente já pusemos a nossa esperança em Cristo.” E, finalmente, no versículo catorze “O Espírito Santo é a garantia da herança que nos está prometida e que consiste na completa libertação dos que pertencem a Deus, para louvor da sua glória.” (Bíblia Para Todos) Neste capítulo que é uma descrição sublime da nossa vocação, a afirmação é que ela reside em exclusivo na glória do Deus trino – Pai, Filho e Espírito Santo, inclui o tempo presente e a eternidade, envolve todo o nosso ser, e ao estar focada plenamente n’Ele tem um impacto radical na nossa essência e existência. Esta é uma vocação inexcedível porque está focada no Deus Criador, Sustentador, Redentor e Restaurador de todas as coisas. Do comentário de John Stott sobre Efésios e no que diz a este capítulo citamos: “A glória de Deus é a revelação de Deus, e a glória da sua graça é a sua auto-revelação como um Deus gracioso. Viver para o louvor da sua graça é não somente adorá-lo com nossas palavras e acções, pelo Deus gracioso que Ele é, como também levar outros a vê-lo e a louvá-lo.” (A Mensagem de Efésios; ABU: 1986; p. 27)

O Breve Catecismo de Westminster, na primeira pergunta que formula: “Qual o fim principal do homem?”, dá como resposta: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre.” Com várias referências bíblicas que reproduzimos:

“É que tudo veio de Deus e tudo existe por ele e para ele. A Deus seja dado louvor para todo o sempre. Ámen.” (Romanos 11:36 – BPT)

“Portanto, quer comam, quer bebam, quer façam qualquer outra coisa, devem fazer tudo para dar glória a Deus.” (1 Coríntios 10:11 – BPT)

“Quem tenho eu no céu, além de ti? Na terra só desejo estar contigo. Ainda que o meu ser se esteja a consumir, Deus é quem dá força ao meu coração; ele é a minha herança para sempre.” (Salmo 73:25,26 – BPT)

“São todos os que têm o meu nome, que eu criei, formei e fiz, para manifestarem a minha glória.” (Isaías 43:7 – BPT)

“Nenhum de nós vive para si mesmo nem morre para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor que vivemos; e se morremos, é para o Senhor que morremos: pois tanto na vida como na morte pertencemos ao Senhor.” (Romanos 14:7,8 – BPT)

“Todos os teus habitantes formarão um povo de justos, e hão-de possuir esta terra para sempre. Serão como uma árvore que eu plantei, a obra das minhas mãos, para manifestarem a minha glória.” (Isaías 60:21 – BPT)

“(…) para colocar na cabeça dos enlutados de Sião uma coroa em vez de cinza, um perfume de felicidade em vez de cara triste, um vestido de festa em vez do rosto abatido. Então serão chamados: ‘Teberintos do Deus Justo, jardim plantado para a glória do SENHOR’.” (Isaías 61:3 – BPT)

A pessoa que nesta terra mais glorificou o Pai e foi por Ele glorificado, foi precisamente a pessoa de Jesus Cristo. Ele mostrou-nos como a nossa vida só é vivida na plenitude apontada à glória de Deus em tudo o que somos e fazemos. “A Palavra fez-se homem e veio habitar no meio de nós, e nós contemplámos a sua glória, como glória do Filho único do Pai, cheio de graça e de verdade.” (João 1:14 – BPT). É neste processo que estamos envolvidos pelo Espírito Santo pela experiência da relação pessoal com Deus em Jesus Cristo – “Todos nós, porém, estamos de rosto descoberto e, como um espelho, somos um reflexo da glória do Senhor. Transformamo-nos assim numa imagem dele, com um brilho cada vez maior, porque é o Senhor, isto é, o Espírito, que faz isto.” (2 Coríntios 3:18 – BPT). Fixemos em Deus a nossa atenção, entreguemos-Lhe a nossa vida, vivamos cada dia e cada momento para a Sua glória e a vida será o que deve ser, atingiremos o que de outro modo não conseguiremos, e nós mesmos seremos o que fomos criados para ser – “imagem e semelhança de Deus”. Não troquemos por nada esta essência, porque trocá-la é mergulhar no absurdo, na morte, no nada! Só a Sua glória nos pode satisfazer!

Soli Deo Glória – A Deus toda a glória – Para louvor da Sua glória – Só a Deus a glória!

UMA IGREJA REFORMADA SEMPRE EM REFORMA

UMA IGREJA REFORMADA SEMPRE EM REFORMA

2017out14 SRP Nazaré

O desvio da são doutrina espreita desde sempre o seguidor de Jesus e a Sua Igreja. É uma ameaça permanente que requer da parte do discípulo de Cristo uma atenção constante ao ensino que a Bíblia encerra.

Os perigos surgem pela parte de fora e por dentro, tanto da influência que o meio envolvente e as suas ideologias procura infiltrar, como pela apetência humana para os absorver e do descuido em considerar as palavras que o Espírito Santo revelou.

Já no próprio percurso de Jesus entre nós verificamos essa condição que está patente na ocasião em que Pedro declara a identidade do Mestre e, logo de seguida, contraria a Sua disposição de avançar para a cruz (Mateus 16:13-23).

Nas cartas apostólicas inspiradas pelo Espírito Santo encontramos alertas e denúncias das tentativas, umas frustradas e outras mais ou menos conseguidas, de contaminar e corroer o Evangelho de Jesus Cristo. A carta escrita aos Gálatas, por exemplo, tem como objetivo chamar a atenção dos cristãos da Galácia para o abandono da fé e da graça, e do retorno à lei. O apóstolo Paulo enquanto escritor da mesma logo na abertura chega ao ponto de declarar: “Admiro-me muito que estejam a abandonar tão depressa aquele que vos chamou pela graça de Cristo e que estejam a seguir um evangelho diferente. Não é que exista outro evangelho, mas a verdade é que há umas certas pessoas que vos causam confusão e que querem modificar o evangelho de Cristo. Que seja maldito quem vos ensinar um evangelho diferente daquele que vos anunciámos. Ainda que fôssemos nós próprios ou mesmo um anjo do Céu! Repito o que acabo de dizer: se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que receberam seja maldito!” (Gálatas 1:6-9, BPT). Quando Judas se dispõe a escrever a sua carta refere: “Queridos amigos, tenho sentido grande desejo de vos escrever acerca da salvação de todos nós, mas agora achei que era mais necessário fazê-lo para vos pedir que lutem pela fé confiada aos santos de uma vez para sempre. Com efeito, algumas pessoas sem fé intrometeram-se entre os nossos e andam a mudar a mensagem de amor do nosso Deus, transformando-a em libertinagem; e renegam Jesus Cristo, que é nosso Mestre e Senhor. De há muito que a Sagrada Escritura condena este seu crime.” (Judas 3,4, BPT). E depois passa a referir casos semelhantes do Antigo Testamento numa demonstração de que esta situação já então se verificava.

No tempo da igreja primitiva as pressões decorriam tanto do lado dos judaizantes, como dos gnósticos, os primeiros procurando implantar o cumprimento da lei como meio de salvação e os segundos apelando ao misticismo e ao liberalismo moral. Com o constantinismo, o fim da perseguição da igreja e desta como religião de estado, o processo de afastamento das verdades bíblicas foi incrementado. A tradição, as ideologias vigentes na cultura e até as práticas religiosas pagãs, fizeram tantos estragos que a igreja tornou-se irreconhecível face ao ensino bíblico. Sempre em cada momento se manifestaram vozes que denunciavam a situação e clamavam por um retorno à mensagem do Evangelho, até que a reforma protestante eclodiu com as 95 teses afixadas por Martinho Lutero em Witemberg, há precisamente 500 anos e cuja efeméride queremos recordar ao longo das próximas edições. Sempre estas demandas foram impulsionadas pelo conhecimento e divulgação da Bíblia, daí que a marca por excelência da reforma e dos reformadores é a Bíblia na língua e nas mãos do povo.

Esta situação acaba por ter lugar na própria dinâmica da reforma entre o que se veio a designar por reforma magisterial e a radical, sendo que a primeira manteve por exemplo a igreja depende do estado e a prática do batismo infantil, e a segunda defendendo a separação da igreja do estado, e o batismo em consciência como testemunho público da adesão à fé, em arrependimento e conversão, e compromisso com Cristo na salvação pela graça por meio da fé. O confronto e a perseguição aconteceram no seio do protestantismo e muitos anabatistas foram afogados tanto por protestantes como por católicos romanos. No início do século XX, depois de um processo contínuo de reconhecimento e vivência do ensino das Escrituras, surge o movimento pentecostal assumindo a contemporaneidade do Pentecostes e do falar em línguas como evidência do batismo no Espírito Santo.

Na realidade a igreja é chamada a um permanente acerto com a Palavra de Deus, numa renovação permanente da mente para que conheça cada vez mais e melhor a boa, perfeita e agradável vontade de Deus: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2, ARA).
Samuel R. Pinheiro
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